quinta-feira, 21 de julho de 2016

Fumar /Não Fumar (Smoking/No Smoking) 1993

Fumar/Não Fumar é a obra mais ambiciosa de Alain Resnais. Trata-se da adaptação cinematográfica da peça Intimate Changes do dramaturgo britânico Alan Ayckbourn. Para a sua consecução cinematográfica, Resnais contou com a ajuda de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri. Dividido em duas partes, tem um total de cinco horas.
É também o mais ambicioso, mas simultaneamente mais simples e minimal projecto de Resnais. Embora seja todo rodado em estúdio. todos os cenários, quase sempre fixos, reportam-se a espaços exteriores. Conta apenas com dois actores, Pierre Arditti e Sabine Azéma que se desdobram num conjunto de nove personagens (cinco femininas e quatro masculinas). É igualmente o seu filme mais próximo das técnicas de representação teatral, evocando os seus melodramas dos anos 80 (Mélo e Amor e Morte) e, de forma mais remota, O Último Ano em Marienbad. Nunca estão em «palco» mais do que duas personagens em simultâneo, uma masculina e outra feminina.
Fumar e Não Fumar situa-se numa pequena aldeia do Yorkshire, onde vive um director da escola, desencantado e alcoólico e a sua esposa, voluntariosa, mas desiludida e que pensa seriamente em terminar o casamento. O director tem apenas um amigo, professor no colégio que dirige que sofre atrozmente com as infidelidades da esposa, conhecidas de toda aldeia. A este par de casais juntam-se um homem da aldeia de sete ofícios, mas que todos correm mal, a sua namorada, que é empregada na casa do primeiro casal e mais algumas personagens menores. A estrutura dos dois filmes é idêntica. A acção decorre em quatro momentos fixos: o primeiro dia, cinco dias depois, cinco semanas mais tarde e cinco anos depois. A sequência narrativa é perfeita, porque o final de cada uma das partes, abre imediatamente para a seguinte. O desenrolar destas quatro fases, dura menos de uma hora. A partir daí, surge um novo interlúdio, com o título «ou bien» e retoma-se quase de forma aleatória uma das sequências anteriores, mas onde o diálogo surge alterado. Esta alteração vai implicar um desenvolvimento completamente diferente da acção e do papel dos diversos personagens. Repetindo esta fórmula, cada um dos filmes vai ter seis finais distintos, a maioria deles completamente contraditórios entre si. As diferenças entre os dois filmes são subtis, mas significativas: em Fumar, Celia Teasdale olha para um maço de cigarros e decide fumar; em Não Fumar, perante o mesmo maço de cigarros, a mesma personagem resiste à tentação. Fumar centra-se no casal Teasdale e o casal Combes tem uma importância secundária; em Não Fumar, sucede precisamente o contrário.
O que é absolutamente extraordinário neste díptico é a forma como Resnais transforma uma comédia (muitas vezes absolutamente hilariante) feita a partir de personagens banais e de histórias quotidianas, num dos mais perturbantemente filosóficos filmes da história do cinema. A multiplicidade de finais diferentes, coloca com uma acuidade especial o problema do acaso e do destino nas vidas das pessoas. Um simples sim, ou um simples não, determinam de forma tão inconsciente quanto decisiva o futuro de cada pessoa, de que só nos podemos aperceber de forma retrospectiva. O que Resnais filma é o que aconteceria nas nossas vidas se no seu decurso, pequenas decisões tivessem sido diferentes. A multiplicidade de acontecimentos que se sucedem, estilhaçam a ideia da inevitabilidade do destino. Tudo se joga como um somatório de pequenas irrelevâncias, resultando as alterações radicais da sua conjugação. Os finais que se sucedem de forma tão distinta e contraditória, acentuam pares dicotómicos, como vida e morte, sucesso e insucesso, saúde e doença e felicidade e infelicidade, funcionando como um jogo de espelhos aberto a todas as possibilidades. Cada um de nós constrói o seu próprio caminho, muitas vezes de forma fortuita e terá que arcar com as consequências da decisão. Resnais, no entanto, faz-nos olhar, para o como poderia ter sido se as opções tivessem sido diferentes.
Do ponto de vista estético, o díptico é absolutamente primoroso. As técnicas teatrais são subvertidas pelo artificialismo dos cenários, fortemente contrastantes com os diálogos realistas. O trabalho dos dois actores é absolutamente espantoso pela versatilidade revelada, que se afirma em pequenos pormenores como o tom de voz, os gestos, ou as formas de andar, criando idiossincrasias próprias em cada personagem.
Provavelmente, um dos melhores filmes de toda a história do cinema.
Texto do Jorge Saraiva.

Link Smoking
Link No Smoking 
Imdb

1 comentário:

Bruno Franklin disse...

Olá!
Gostaria de poder baixar para assistir ao filme Smoking (Alain Resnais), consegui baixar No Smoking pelo Making Off, mas esse outro está travado em 49,8% sem semearem (arquivo de 944,6 MB no total).
Caso tenha para entrar no acervo Two Half Times in Hell (1963), de Zoltan Fabri, ficarei muito feliz em saber.

Obrigado desde já pelo site, vim em busca destes dois e estou olhando outros.
Abs
Bruno Franklin