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domingo, 23 de janeiro de 2022

Calígula (Calígula) 1979

 "Caligula" relata de forma directa a história da ascenção e queda do imperador Calígula César, o quarto dos 12 Césares do Império Romano, e um dos mais conhecidos depois de Júlio César. A história conta que Calígula foi um dos mais malvados que controlou Roma, e que o seu reinado foi violento, sangrento e corrupto. Estes factos coloriram a visão artística de Gore Vidal, que escreveu o argumento original do filme. Vidal procurou transmitir a personalidade e as acções de Calígula no contexto de um filme biográfico. Mo entanto, o produtor e realizador Tinto Brass procurou alterar o foco graficamente, ilustrando o comportamento libertino e decadente do governante. Mandava matar membros da familia e conselheiros, obrigava as esposas dos seus senadores a trabalharem num bordel da sua própria construção, dorme com o cavalo, lambe o corpo nú da sua irmã mora, viola uma noiva e um noivo na recepção do seu próprio casamento, até ser vitima de um assassinato sangrento.
O filme foi amplamente discutido antes do seu lançamento. Muita atenção foi dada às cenas sexuais antecipadas, que mais tarde dominariam todas as criticas e considerações do trabalho. O filme foi financiado por Bob Guccione, editor da revista Penthouse, e custou 15 milhões de euros em finais da década de 70. Gore Vidal rejeitou as sugestões de Guccione de escrever cenas de cariz sexual no argumento, e acabou por processar o produtor por trer ignorado o seu pedido, e ter o seu nome removido dos créditos. Depois de verem a versão final, a maioria dos actores principais tentaram dissociar-se do filme, mas os seus nomes foram mantidos nos créditos. 
Guccione sabia que o filme nunca iria ser aprovado pela MPAA, então nunca o submeteu. Em vez disso, rotulou o filme de "apenas para audiências adultas", e instruiu os donos dos cinemas que o filme não podia ser exibido para audiências com menos de 18 anos. Foi produzido em Itália, mas quando chegou à alfândega dos Estados Unidos foi considerado obsceno. O tribunal acabaria por deixar o filme entrar no país alguns meses depois, mas a história de proibições ao filme estava apenas a começar. 


sábado, 26 de outubro de 2019

Ricardo III (Richard III) 1955

As habilidades militares de Richard ajudaram a colocar o seu irmão mais velho, Edward, no trono de Inglaterra. Mas os ciúmes e o ressentimento fazem com que Richard procure o trono para si, e para isso ele concede um plano longo e cuidadosamente calculado, usando o engano, a manipulação e o assassinato para atingir os seus objectivos. Esta trama longa tem consequências tumultuosas, tanto para ele como para o próprio país.
Laurence Olivier, um dos actores mais consagrados de Inglaterra, realizou cinco filmes ao longo de toda a sua carreira, três deles adaptações de William Shakespeare. Em 1944 adaptou "Henrique V", em 1948 "Hamlet", e agora seria a vez de "Richard III". "Richard III" era o filme mais ousado desta trilogia, quando falávamos de Richard III falávamos da crueldade absoluta, e de um homem sem escrúpulos, e Olivier pegou no texto original de Shakespeare, alterando apenas alguns diálogos aqui ou ali. 
Com o uso de cenários simples, um excelente Technicolor, e uma adaptação inteligente de Colley Cibber, cortanto nas palavas até deixar só o essencial. Olivier, como realizador, enfatiza a natureza do mal como sendo cómico. A produção é impecável, dissipando os rumores de que uma adaptação desta obra seria muito dficil de fazer. A interpretação de Olivier tornou-se essencial para o sucesso do filme, e não esquecer o resto do elenco com uma série de talentos do cinema britânico da altura: Cedric Hardwick, Ralph Richardson, John Gielgud, Mary Kerridge, Claire Bloom, entre muitos outros. 

terça-feira, 12 de julho de 2016

Providence (Providence) 1977

Na altura em que foi lançado em Portugal, Providence gerou uma forte polémica entre os cinéfilos. Este era apenas o segundo e último filme que Resnais faria na década de 70, contrastando com a actividade mais intensa dos anos 60, aqueles que verdadeiramente consolidaram o seu prestígio. Mas lançaram também o lastro de um cineasta difícil, elíptico, defensor da chamada «obra aberta», na qual muitos elementos centrais têm uma abordagem propositadamente ambígua, de forma a que cada espectador a possa interpretar da forma que julgue mais adequada.
A razão da controvérsia que Providence gerou em Portugal (aliás como um pouco por todo o lado) é que se trata do mais hermético filme de Resnais. Claro que numa época em que predominava o cinema militante e com uma mensagem clara de apelo à acção transformadora da sociedade, este filme ganhou muitos detractores que acusaram Resnais de um certo pedantismo intelectual. O tempo mitigou este reacção e Providence hoje é encarado como uma obra prima, um dos mais sérios candidatos a melhor filme do realizador.
O filme tem a característica de ser o seu único originariamente falado em inglês. Adapta de forma muito livre uma peça de David Mercer. Na véspera do seu 78º aniversário, Clive Langham, escritor renomado e solitário, afunda-se doente e alcoólico. Resolve então escrever sobre a sua família, os dois filhos e a nora. Mas fá-lo de uma forma absolutamente perversa e frequentemente desconexa. O seu filho Claude é transformado num advogado diabólico e sem escrúpulos, com um prazer mesquinho em ser algoz das suas vítimas. A sua nora é apresentada como uma mulher frívola e sedutora disposta a atraiçoar o marido com o seu próprio irmão Kevin, que aqui surge sem vontade própria e enigmático. Enquanto o escritor se diverte imenso com a sua imaginação desbragada, os espectadores assistem de forma perplexa ao desenrolar da acção por si imaginada, como se ela fosse a realidade, naquilo que o próprio cineasta chamou de «divertimento macabro». O ambiente sombrio (embora o cineasta tivesse falado de uma comédia) contrasta com a segunda parte do filme, como se a calma apolínea inevitavelmente sucedesse à tempestade dionisíaca, em que na sua propriedade (Providence) se reúnem os seus três familiares. Aí ficamos a perceber que não existe nenhuma correspondência, nem existencial, nem afectiva, entre as personagens e a sua caracterização na pena tresloucada do escritor. Esta segunda parte do filme, revela-nos uma família harmoniosa no dia do aniversário do escritor. Alguns críticos, como Alain Robbe-Grillet, o argumentista de O Último Ano em Marienbad, foi um desses críticos. Mas é mais um aspecto desconcertante de Providence pelas evidentes desconexões entre as duas partes do filme.
 O que nos coloca perante a questão central de Providence, pelo menos na forma como eu o interpreto; o processo de elaboração criativa em arte, a sua ligação à realidade e o papel desempenhado pela imaginação. Resnais referiu-se a uma metáfora sobre a criação e a desintegração. Mas as possibilidades de abordagem são tantas, que cada pessoa pode fazer as que quiser, recorrendo para isso a todo o tipo de metodologias de análise, desde a Psicanálise até qualquer tipo de corrente filosófica. Poucos filmes na história do cinema, tiveram essa capacidade de permitir releituras sucessivas e de continuar teimosamente a ocultar-se ao seu desvendamento.
O trabalho de realização é perfeito como uma atenção cuidada a todos os pormenores. A atmosfera visual criada por Jacques Saulnier é pesada e claustrofóbica com predominância (sobretudo na primeira parte) para as cores sombrias em detrimento das cores vivas. O desempenho dos actores é magnífico com destaque para Dirk Bogarde e John Gielgud que afirmou que este foi o melhor filme em que participou em toda a sua vida. Pelo papel central que desempenhou na obra do cineasta, pelo desafio que representa para quem o vê (e revê vezes sem conta como é o meu caso), Providence é um momento inigualável na história do cinema.
* Texto de Jorge Saraiva. 

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