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quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Gato Preto (Kuroneko) 1968



Uma mulher e a sua afilhada são violadas e assassinadas por um grupo de samurais, durante a guerra civil. Pouco tempo depois, uma série de samurais regressados da guerra a essa área, são encontrados mortos com a garganta rasgada. O governador chama um jovem herói para acabar com o que aparentemente é um fantasma. Ele acaba por encontrar as duas belas mulheres, e depois de uma purificação espiritual vai envolver-se num duelo emocionante com um demónio.
Em parte baseado numa história do folclore japonês chamada "A Vingança do Gato", este filme de Kaneto Shindô é provavelmente a entrada definitiva do bakeneko (gato-demónio), sub-género do cinema de terror japonês, que também contava com obras como "Ghost Cat of Nabeshime" (1949) de Kunio Watanabe, "Ghost Cat of Arima Palace" (1953) de Ryohei Arai, ou "The Mansion of the Ghost Cat" (1958), de Nakagawa, obviamente traduzidos para inglês. As tradições teatrais japonesas estão no core deste clássico "kaidan eiga", com fortes elementos do teatro de Noh em algumas encenações e coreografias, assim como uma clara influência de Kabuki nas acrobacias e nos espíritos dos gatos.
Além de enraizado no antigo folclore japonês, é um filme envolvido tanto no tormento psicológico como na vingança do outro mundo. É portanto, um desvio significativo em relação à maioria dos filmes do realizador, que são elogiados pelo realismo do pós-guerra e forte crítica social. O historiador do cinema japonês Donald Richie descreveu Shindo como um "dos melhores pictorialistas do Japão", uma afirmação bastante apoiada por este filme, filmado elegantemente num visceral e expressionista preto e branco, é mais um filme arrebatador visualmente, cuja estética ajuda a completar um conto (talvez excessivamente) familiar de amor, perda e vingança.
Muito mais um filme de terror do que "Onibaba", do mesmo realizador, com as suas duas belas mulheres, e elementos do vampirismo e a mudança sobrenatural de forma, foi ignorado injustamente durante muito tempo, talvez devido ao crescimento dos filmes de monstros do Japão, mas com o tempo foi-lhe reconhecido o valor. 

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Kwaidan (Kaidan) 1964



Um filme que contém quatro histórias distintas: "Black Hair", onde um pobre samurai se divorcia do seu verdadeiro amor para casar por dinheiro, mas tem um casamento desastroso acabando por voltar à sua antiga esposa, para descobrir algo de terrível sobre ela. "The Woman in the Snow": preso numa tempestade de neve um lenhador encontra um espírito da neve na forma de uma mulher, que lhe poupa a vida na condição de ele não contar a ninguém o que viu. Passam-se 10 anos, e ele esquece-se da promessa... "Hoichi the Earless": Hoichi é um músico cego a viver num mosteiro, que canta tão bem que até uma corte real fantasmagórica lhe ordena para cantar uma balada épica da sua morte, para eles. Por fim temos  "In a Cup of Tea", onde um escritor conta a história de um homem que vê refletida na sua chávena de chá a face de um homem.
É irónico que o autor das mais conhecidas e respeitadas histórias de fantasmas japoneses, não seja sequer japonês. Nascido na Grécia, filho de pais gregos/irlandeses, imigrado para os Estados Unidos com a idade de 19, Lafcadio Hearn trabalhou alguns anos como jornalista, em Cincinnati e New Orleans. Mais tarde apaixonou-se pelo Japão, e pelo modo de vida japonês, tendo-se mudado para aí e criado uma família. Continuou a escrever sobre uma enorme variedade de assuntos, alguns dos quais a serem adaptações em prosa dos contos sobrenaturais do folclore japonês. 60 anos depois da sua morte, o realizador Masaki  Kobayashi fez um filme sobre quatros das histórias deste autor. O resultado chamou-se "Kwaidan", literalmente "histórias de fantasmas", hoje em dia celebrado como um dos filmes mais importantes a saír do Japão nos anos sessenta.
As histórias são na sua maioria simples de estrutura (reflectindo a sua pouca duração literária), tal como devem ser as histórias de ficção e horror. Depois de tantos anos passados, e das histórias terem percorrido o Oriente e o Ocidente, continuam a ser tão assustadoras como eram antes. Por vezes surreal na sua evocação de acordar de um pesadelo, o drama é frequentemente expressionista, na exteriorização da angústia mental dos seus personagens. Visualmente o filme é impressionante, de uma beleza tão assombrosa que é de tirar o fôlego. A fotografia de Yoshio Miyajima, e a direção de arte de Shegemasu Toda servem a história em atmosfera, por vezes numa forma semi-abstracta ou simbólica.
"Kwaidan" é um filme difícil de classificar, e é um exemplo interessante das tentativas infrutíferas de tentar classificar um filme num determinado género. Inclui alguns elementos de terror e sobrenatural, mas também é um notável filme romântico, e por vezes estes tons conflitantes são montados em contraste um com o outro. No fim de contas, não são as histórias em si, mas o modo como elas são contadas, que fazem de "Kwaidan" um filme tão magnífico. Combinando a majestosa ópera com o minimalismo de uma peça de teatro.
"Kwaidan" foi originalmente lançado no Oeste numa versão de 125 minutos, mas fez-se uma restauração que lhe devolveu os 164 minutos originais. É essa a versão deste post.
Conseguiu uma nomeação para um Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira.
Legendado em inglês.

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Onibaba (Onibaba) 1964



Uma velha mulher e a sua afilhada ganham a vida a matar samurais rebeldes, atirando o seu corpo para um grande buraco, para depois vender os seus pertences. Quando Hachi (um amigo do marido morto da jovem), regressa da guerra, começa uma relação aberta com a rapariga, causando que a jovem passe menos tempo com a velha, que se sente abandonada...
"Onibaba", de Kaneto Shindô, foi feito de forma independente, fora do sistema de estúdio japonês, e é um melodrama de terror atmosférico, com base num antigo conto popular budista. Passado no período feudal do Japão, conta a histórias de pessoas desesperadas, a tentar não apenas permanecer vivas num mundo de caos, como também tentando manter uma aparência de humanidade. Sentimentos e sexualidade são o coração da história,  com os instintos básicos - não só a fisicalidade animalesca mas também a necessidade de ligação - são o último refugio dos personagens.
Shindo teve a idéia brilhante de fazer o filme no meio das canas altas de Suski, que teve um efeito intenso na narrativa. É passado no tempo da guerra, e há até mesmo a sugestão da destruição quase apocalíptica, porque nunca vemos quaisqueres sinais genuínos de civilização, apenas os seus restos espalhados. O campo serve para isolar os personagens, criando uma espécie de microcosmos de humanidade que é, para todos os efeitos, tirado da guerra do mundo exterior.
A um nível puramente estético, "Onibaba" é uma excelente peça de cinema, enquanto Shindo carrega a sexualidade na mise-en-scene, em tudo, desde as folhas a balançar, o esvoaçar dos pássaros, ao nascer da lua. Há muito pouco diálogo, de modo que os recursos visuais são muito mais importantes, tanto narrativamente como simbolicamente. A atmosfera estranhamente atraente é agravada por uma partitura musical de Hikaru Hayashi que se articula de uma mistura de jazz livre com batidas tribais e vozes humanas que soam como gritos de uma sessão de tortura.

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terça-feira, 22 de julho de 2014

Jigoku (Jigoku) 1960



Jigoku conta a história do jovem Shiro, e do seu melhor amigo Tamura, que vão passear à noite de carro, e acidentalmente atropelam um bêbado. Secretamente eles deixam o corpo no local e fogem. Um gesto que vai levar Shiro e a namorada até às profundezas do inferno.
Os trabalhos de H.G. Lewis e do brasileiro Zé do Caixão são muitas vezes citados como os primeiros filmes Gore. A sua influência no género é inegável, mas Jigoku ainda precede, no tempo, filmes como "Bood Feast", o primeiro marco no género. A tradução de Jigoku é "inferno", e é exactamente aí que o realizador Nobuo Nakagawa nos leva, neste jogo de moralidade ilusória. Seguimos um homem através de vários infernos. O primeiro é vivido acima do subsolo, enquanto o outro é mais tradicional, um mundo cheiro de fogo e enxofre.
Muitos artistas tentaram visualizar o que o inferno seria. As pinturas de Hieronymus Bosch e Francis Bacon são talvez as visões mais conhecidas, e mais respeitadas, e nota-se a influência destes pintores no filme de Nakagawa. Também podemos encontrar algumas imagens clássicas do folclore japonês, e o estílo ímpar das suas histórias de fantasmas, assim como os tradicionais trajes dos senhores feudais. O inferno em "Jigoku" é uma paisagem de pesadelo, muito dos efeitos especiais que Nakagawa emprega preveem a estética psicadélica que apareceria no final da década de sessenta. No início do filme, o pai de Yukiko faz um discurso sobre as diversas versões do Inferno que existe no mundo religioso, mas foca-se mais na visão budista. O inferno aqui é como um sonho do qual não podemos saír. Qual mais viajamos menor é realmente a distância que precorremos. Não há nenhum lugar para ir, mas a compulsão de encontrar uma saída é irresistível.
Os últimos quarenta minutos do filme são verdadeiramente notáveis. Parece que pertencem a um filme diferente. A visão de Nakagawa do inferno é um deleite visual. A iluminação é de arregalar os olhos (com abundância das cores verdes e vermelha), os demónios japoneses são assustadores e a violência é extrema. Na altura em que saíu foi um filme chocante.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

The Ghost of Yotsuya (Tôkaidô Yotsuya Kaidan) 1959



Em  "The Ghost of Yotsuya", do realizador Nobuo Nakagawa, temos uma das melhores adaptações do conto de folclore japonês, "Yotsuya Kaiden". O filme é feito como o teatro kabuki, lidando com paixão, infidelidade e vingança, e tal como nas grandes tragédias de Shakespeare há sempre uma tentação nos calcanhares do protagonista, levando-o para um caminho de auto-destruição; e há sempre o traído, um inocente que só tem carinho para dar.
Iemon é um samurai egoísta que não tem problemas em assassinar o pai de Oiwa (a mulher que deseja), para assegurar o casamento. Naosuke, um empregado do assassinado, assiste ao crime, mas faz uma aliança com o criminoso para que possa tirar algum benefício. Depressa Iemon se farta de Oiwa, e começa a deitar os olhos em Oume, a herdeira de um nobre influente. Tenta então matá-la, inventando uma história de que ela tem um caso com o seu massagista, Takuetsu.
Histórias de fantasmas (kaidan) são muito populares na cultura japonesa, e esta é uma das suas mais famosas. Tal como é habitual nos filmes kaidan, perde-se muito tempo na construção do ambiente. Na verdade, neste caso, não é tempo perdido, porque os actos diabólicos de Iemon são suficientes para manter o filme interessante. O climax vai-se construindo até ao terceiro capítulo, e o que vamos testemunhar não vai ser de todo agradável para o protagonista, e nem a sua mente diabólica lhe vai servir para fugir a uma vingança atroz.
A iluminação do filme é impecavelmente feita, e mostra a sensibilidade e a capacidade de Nakagawa de construir um clima de medo. Acima de tudo é um filme sobre atmosfera, imagine-se como seria um filme da Hammer realizado por Hitchcock. A grande opulência da fotografia e da cenografia são muito bem conseguidas, e Nakagawa é um realizador que sabe muito bem quando deve envolver a extravagância, e que sabe quando o ambiente deve passar a ter o papel principal.

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sábado, 19 de julho de 2014

Terror Clássico Japonês

O terror japonês já pode ser encontrado desde o final do século 19, quando curtas como "Jizo the Ghost" ou "Ressurection of a Corpse" foram produzidas, mas o verdadeiro boom deste cinema, só se deu depois do final da Segunda Guerra Mundial. Os filme de terror sempre tenderam reflectir as ansiedades sociais dominantes em certa altura e lugar, onde esses filmes foram produzidos: a corrente do expressionismo alemão é disso um belo exemplo.
O pós-guerra foi um tempo turbulento para o Japão. O país tinha sofrido uma derrota militar humilhante, com baixas catastróficas, 2,7 milhões de mortos, e um grande número de desaparecidos ou feridos. Centenas de milhar faleceram nas obliterações nucleares de Hiroshima e Nagasaki, e a sua radioatividade. Para a derrota ser ainda mais humilhante, nos sete anos posteriores à derrota o Japão foi ocupado pelas tropas americanas, para se prevenirem do rearmamento.
A escala da destruição japonesa encontrou o seu mais óbvio espelho no ciclo de filmes "Kaiju Eiga" (monster movies) dos anos cinquenta, com o primeiro exemplo em "Godzilla", de 1954. Este filme, seguido de tantas sequelas e imitações, encenava a destruição de Tóquio, enquanto que a parada de monstros mutantes simbolizavam a ameaça da radiação, e a poluição ambiental. O medo do apocalipse e da destruição foram sempre uma constante no cinema de terror japonês, desde a segunda grande guerra até aos tempos actuais, enquanto as faces de mulheres assustadas (um sinal comum nas vítimas nucleares), encontraram corpo em certos filmes japoneses de horror da década de 60, como em "Ghost Story of Yotsuya" ou "Onibaba", que iremos ver neste ciclo.
Durante o período da ocupação os valores tradicionais colidiram com as forças de modernização ocidentais. O código Shinto em que a nação tinha sido construída, baseado na ética confucionista e que estabelecia responsabilidades entre o imperador e os seus súbitos, assim como entre membros de uma familia e amigos, foi substituido pelos valores da democracia ocidental, com uma nova ênfase no capitalismo individual. Muitos dos filmes de terror produzidos na década de cinquenta e sessenta dramatizaram esta colisão com o código, a busca egoísta do ganho pessoal, e a ausência de valores colectivos estão na origem de algumas destas histórias de fantasmas.
A estes filme foi dado o nome de Kaidan Eiga (histórias de fantasmas), normalmente baseadas em contos do folclore budista, ou em peças Kabuki. Fiz uma selecção destes filmes, que vos vou mostrar durante a semana.



Aqui ficam os seus nomes.

Segunda: The Ghost of Yotsuya (1959), de Nobuo Nakagawa

Terça: Jigoku (1960), de Nobuo Nakagawa

Quarta: Onibaba (1964), de Kaneto Shindô

Quinta: Kwaidan (1964), de Masaki Kobayashi

Sexta: Kuroneko (1968), de Kaneto Shindô