quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morgiana (Morgiana) 1972

Quando o pai rico morre, as suas filhas Viktoria e Klára herdam a sua fortuna. A malvada Viktoria herda um pequeno castelo e todos os seus pertences, incluindo joias, enquanto a ingénua Klára herda a maior parte dos seus bens. Viktoria planeia envenenar a irmã com um líquido indetetável para ficar com a fortuna. Klára sente-se mal e o seu médico não consegue diagnosticar o problema, enquanto Viktoria conhece um chantagista.
Embora baseado num romance de 1929 do escritor russo Alexander Grin, há mais do que um toque de Poe em Morgiana, desde o papel desempenhado pelo gato até à forma como a culpa do crime assombra o seu perpetrador. O facto de ser um filme de época ajuda, mas exatamente qual o período ou mesmo local permanece uma incerteza enigmática, um canto da zona rural da Checoslováquia preso algures entre o passado e o presente, onde velas adornam divisões com luzes elétricas a funcionar, enquanto o estilo de vestir e a maquilhagem do elenco feminino sugerem que todas estão a fazer audições para papéis num dos biopics históricos mais extravagantes de Ken Russell. 
O realizador Juraj Herz mantém a atmosfera onírica e ilusória do romance. Captar este ambiente surreal era extremamente importante, pois Herz foi obrigado a excluir do seu argumento (escrito em parceria com Vladimír Bor) um ponto crucial do enredo dramático: o facto de as duas personagens principais serem, na verdade, a mesma pessoa. Permanece um mistério o motivo pelo qual o Estado considerou um filme que explorasse o tema da perturbação dissociativa de identidade perigosa e transgressora. Mas uma consequência fundamental desta interferência foi a decisão de Herz de dar prioridade ao estilo e à estética em detrimento da narrativa.

domingo, 12 de abril de 2026

Lokis: A Manuscript of Professor Wittembach (Lokis. Rekopis Profesora Wittembacha) 1970

Um pastor que estuda os costumes lituanos hospeda-se na casa de um nobre para consultar os livros raros da sua biblioteca. Descobre que a mãe do nobre é louca e que, segundo a lenda, terá enlouquecido depois de ter sido atacada por um urso, e que o seu filho seria fruto dessa união, tornando-se um lobisomem. Será apenas uma lenda...?
Uma versão singular da já conhecida história do "homem que se transforma em besta", Lokis (Lokis. Rękopis profesora Wittembacha) é baseada na novela homónima do escritor francês Prosper Mérimée, que, por sua vez, inspirou, ainda que indiretamente, o filme de terror erótico "La Bête", de Walerian Borowkzyk, cinco anos depois. Com uma fotografia primorosa e uma produção decente no geral, o realizador Janusz Majewski esforça-se ao máximo para conduzir a sua narrativa para longe da clareza. Neste processo, os elementos de terror são negligenciados do início ao fim.
Mais um filme de sugestão do que de terror explícito, Lokis tem uma forte vibe da AIP em alguns momentos, com o seu pântano ameaçador, segredos de família obscuros, cocheiros supersticiosos, velas coloridas e uma mansão imponente. Claro que os aspetos de bestialidade implícita acrescentam uma camada de perversidade muito pouco americana, sobre a qual o filme consegue manter uma certa ambiguidade até ao final. Tal como muitos filmes de terror polacos, também pode ser interpretado como uma comédia de costumes sombria sobre a negação e a repressão inerentes à nobreza, aqui levadas a um extremo sobrenatural que se vai revelando gradualmente.



domingo, 5 de abril de 2026

Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów) 1961

Passado no século XVII. Um convento numa pequena cidade está a ser visitado por altos oficiais católicos que tentam exorcizar a freira supostamente possuída por demónios. Um sacerdote foi queimado por se ter deixado tentar pelas freiras, principalmente a Madre Superiora que traz a histeria colectiva ao grupo. Entretanto chega ao local um jovem sacerdote que vem ajudar no exorcismo. O seu primeiro encontro com a líder do Convento, a Madre Joana dos Anjos, deixa-lhe marcas, e demonstra que não vai ser uma trabalho fácil...
Baseado em acontecimentos reais reportados em Loudon, França, "Madre Joana dos Anjos" funciona como uma sequela histórica ao filme de Ken Russell sobre o mesmo assunto, "The Devils", contudo feito 10 anos antes. A igreja desencadeou uma investigação ao padre anterior de Loudon, o padre Urbain Grandier, e suspeitou que ele dormia com as freiras. O convento inteiro, sob um notável feitiço de possessão, também o acusou de bruxaria, acabando por ser queimado na fogueira.
O filme precede "The Exorcist", de William Friedkin, em dois temas, tanto na virgen inocente transformada em objecto do demónio, como no seu tratamento a assuntos relacionados com demónios. Contudo, Jerzy Kawalerowicz, um estudante da Escola de Cinema Polaca, utiliza muito bem a frenética Lucyna Winnicka, interpretando de forma quase sobrenatural, como uma rebelde contra as tendências realistas do passado cinematográfico do seu país. O país estava sob o regime comunista, e os filmes eram feitos sob estritas directrizes, para poderem ser exibidos na União Soviética.
"Madre Joana dos Anjos" é um filme pesado, visualmente vigoroso, e profundamente perturbador da fé, da repressão e do fanatismo. Trouxe problemas inultrapassáveis para o realizador, que teve problemas com a igreja durante muitos anos. Exibido em Cannes em 1961, ganhou o prémio especial do júri. É o filme mais famoso do realizador internacionalmente.

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