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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Contra Todos os Riscos (Classe Tous Risques) 1960
Um criminoso refugiado tenta voltar clandestinamente para a França, acompanhado da família e do seu parceiro. Nesse percurso as coisas saem para fora de controle e ele vê que os seus amigos não são tão amigos como pensava, tendo de contar apenas com a lealdade de um estranho.
Baseado num romance de José Giovanni, escrito pouco tempo depois do autor saír da cadeia, "Classe tous risques" tem um início dinâmico, com a fuga de Davos (Lino Ventura) de Milão com uma terrífica sequência de acção, utilizando vários meios de transporte para culminar no desembarque na costa francesa na calada da noite. Mas quando o pior acontece, Davos descobre que se deve voltar para os seus antigos parceiros no crime. Os seus "amigos" de Paris agora vivem uma vida bastante respeitável, seguros apenas porque ele ficou com as culpas, que terminaram no seu exílio. Mas agora, anos depois, eles estão com reservas em pagar as suas dívidas, e em vez de o fazerem pessoalmente, mandam um homem de confiança (interpretado por um terrífico Jean-Paul Belmondo), para pegar Davos no sul de França, e trazê-lo de volta a Paris.
"Classe Tous Risques" é um filme tenso, um original filme de gangsters contado com simplicidade e um franqueza convincente, exposto com um toque de neorelismo. Mas também há questões mais profundas em jogo, com Sautet a explorar os conflitos entre lealdade e família, e o código de honra entre os ladrões. O resultado é um tour de force, completado por uma banda sonora de Georges Delerue, e uma bela fotografia de Ghislain Cloquet.
Sendo um dos primeiros filmes do francês Claude Sautet, que se tornaria num realizador respeitado, acabaria por despercebido, eclipsado pelo outro filme de Belmondo que estreava no mesmo ano "À Bout de Souffle". O facto da Nouvelle Vague estar a florescer neste momento também não ajudou muito, nem este nem outros noirs ou policiers que se faziam na altura. Ainda assim é um filme que vale a pena recordar.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
A Verdade (La Vérité) 1960
Dominique Marceau (Brigitte Bardot) vai a tribunal por causa do assassinato do seu amante Gilbert Tellier (Sami Frey). À medida que o julgamento se vai desenrolando vamos ficando a conhecer os eventos do passado que levaram à actual situação. Ficamos a conhecer a sua vida com os pais e a irmã Annie, que era noiva de Gilbert. Dominique seduz Gilbert para se divertir, como uma mulher livre, e sem trabalho, envolvendo-se com vários homens. Depois vemos a sua tentativa de se suicidar depois de Gilbert a deixar, e voltar para Annie. O seu advogado é capaz de tudo para tentar salvá-la, mas mas regras da sociedade estão contra ela, e nem a inocência parece ser suficiente para a salvar.
Com "La Vérité" Clouzot fez o seu ataque mais virulento a uma sociedade que estava a ser prejudicada com a falsa moralidade da burguesia, e incapaz de se adaptar aos novos tempos. Já com um anterior filme anti-burguesia, "Le Corbeau" (1943), Clouzot tinha sido censurado no Vaticano, mas toda a hostilidade aberta contra si durante anos não foi suficiente para saciar o seu ódio e o seu desprezo contra esta classe social. Em "La Vérité", um dos mais perfeitos e absorventes filmes de Henri-Georges Clouzot, não é o crime que está a julgamento mas toda uma geração, que são julgados pelos mais velhos por serem egoístas, preguiçosos e imorais. A verdade sobre a culpa ou a inocência é irrelevante. No fim sabemos que a teimosia e um coração de pedra vão decidir o veredicto.
A estrutura do filme, um drama de tribunal em que os eventos do passado são contados em flashback, enfatizando o conflito entre duas gerações que parecem nada ter em comum. Os que vemos no tribunal são manifestadamente mais tradicionalistas, de direita, os que vemos nos flashbacks são os jovens da actualidade, que vivem para o momento, e não têm intenção nenhuma de deixar os valores da classe média antiquada estragar a sua felicidade. São dois mundos completamente diferentes, divididos por diferentes valores morais, e Clouzot dá-nos um vislumbre do que irá acontecer no decorrer da década de 60, e que irá culminar nos acontecimentos de Maio de 68.
Por esta altura Brigitte Bardot era mais conhecida por aparecer em comédias leves, e ela seria uma das últimas pessoas esperadas num filme de Clouzot, mas foram poucos os realizadores que foram capazes de tirar proveito da actriz, porque todos queriam aproveitar o seu sexy appeal, mas Clouzot esteve muito bem, sendo dos melhores que soube trabalhar a actriz.
Este filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira, e ganhou um Globo de Ouro na mesma categoria.
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terça-feira, 13 de janeiro de 2015
À Luz do Sol (Pleine Soleil) 1960
O amoral Tom Ripley (Alain Delon) aceita de um rico industrial a missão de trazer de volta para casa o seu filho Philippe (Maurice Ronet), que vive com a namorada Marge (Marie Laforêt), na paradisíaca Riviera Italiana. Frio e calculista, Ripley aproxima-se de Philippe, tornando-se no seu melhor amigo. É o início de um plano diabólico.
Patricia Highsmith teve sorte. O seu primeiro livro foi transformado num filme de sucesso realizado por Alfred Hitchcock. Os críticos franceses, que adoravam Hitchcock muito mais do o público adorava naquela época, começaram a procurar por mais obras desta escritora. Foi então que surgiu este filme de René Clemént, nove anos depois de "Strangers on a Train". Baseado no livro de Highsmith chamado "The Talented Mr. Ripley", "Plein soleil" concentrava-se num belo e carismático, mas completamente amoral jovem chamado Ripley (interpretado brilhantemente por Alain Delon), que se prepara para matar o seu amigo e assumir a sua identidade.
O neo-realismo crú que se fazia sentir nos primeiros filmes de Clément (La Bataille du rail (1946), Le Père tranquille (1946), Au-delà des grilles (1949)), podia se sentir aqui, mas era mais evidente no estilo de documental que atravessa o filme, quando seguimos o principal protagonista que vai precorrendo os exteriores italianos. A câmera cola-se a Delon como um admirador dedicado, mas um pouco nervoso, determinada, mas a falhar constantemente de alcançar a aura mística que ele projeta tão facilmente, seja para salvaguardar a sua própria privacidade, ou para esconder segredos obscuros sobre esta personagem.
Foi o filme que fez de Deloin uma estrela mundial, e também o que definiu a sua personagem tipo para o resto da sua carreira, embora o seu papel em Le Samurai" seja mais forte. Estreou apenas uma semana depois do filme de Godard "À bout de souffle", tendo inclusivé muitas semelhanças com este. Contudo, dada a sua atmosfera negra, aproxima-se muito mais do género noir americano, do que do movimento da Nouvelle Vague francesa. Maurice Ronet, um dos protagonistas, ficaria muito ligado à Nouvelle Vague nos anos seguintes, assim como o director de fotografia Henri Decae. Contudo, o caminho seguido por Clément seria o oposto.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Anjo Preverso (Manon) 1949
Uma adaptação da clássica obra de Abbe Prevost, chamada "Manon Lescaut", transportada para o pós guerra Francês da segunda guerra mundial, na qual um ex-activista da resistência francesa resgata Manon dos camponeses por a quererem linchar por colaborar com os Nazis. Os dois mudam-se para Paris, mas a sua relação fica tensa depois de se envolverem em especulações, prostituição e assassinatos.
Talvez a coisa que melhor caracteriza o cinema de Henri-Georges Clouzot seja uma preocupação mórbida com a susceptibilidade da natureza humana. Isto é mais aparente nos primeiros filmes de Clouzot, "L'Assassin Habite au 21" (1942), e "Le Corbeau" (1943), onde é mais subtilmente sentido que nos filmes do pós- Segunda Guerra Mundial. A infâmia e a injustiça de ser expulso depois de fazer filmes como "Le Corbeau", foi considerada imoral e ofensiva para o realizador, influenciando a sua escolha do assunto e do estilo nos filmes posteriores. E isso não podia ter sido mais flagrante do que aqui, na adaptação da história de Manon Lescaut, inspirada no livro de Prevost.
Sem grande esforço transportado para os anos que se seguiram à Libertação da França, "Manon" não só é uma poderosa história de amor, como também era um dos mais fortes e chocantes indicadores de como era a vida depois da Segunda grande guerra, depois da ocupação Nazi. Enquanto que a maioria dos realizadores daquele período tentavam apenas entreter, com melodramas escapistas ou comédias ligeiras, Clouzot era o único a remar contra a maré, tentando abrir os olhos às pessoas para a decadência que estava lentamente a cair sobre o país. A França que era retratada em "Manon" não era a França prometida pelo General de Gaule, uma terra orgulhosa renascida das cinzas, mas sim uma França suja, habitada por novos ricos que se tinham enchido de dinheiro graças ao mercado negro e à exploração do negócio da prostituição. O filme provocou assim grande controvérsia, tanto por causa da sexualidade evidente como por mostrar o que era realmente o país nos dias correntes, com conseguiu grande aclamação internacional, tendo ganho o Leão de Ouro no Festival de Veneza.
Hoje em dia é menos conhecido do que outros grandes filmes de Clouzot, mas merece ser considerado uma das suas melhores obras, não só pela sua representação muito real do que era a França da altura, mas também pela sua humanidade, inteligência e brilhantismo artístico.
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domingo, 11 de janeiro de 2015
Os Malditos (Les Maudits) 1947
Final da Segunda Guerra Mundial, no ano de 1945, um médico francês é raptado por um grupo de Nazis, e levado para bordo de um submarino. Os alemães pretendem fugir da captura dos Aliados, traçando uma rota para a América do Sul. O médico encontra-se na companhia de vários fugitivos desagradáveis, incluindo um chefe da Gestapo, um general alemão, um industrial italiano, e um jornalista francês que colaborou com os Nazis. Quando notícias do armistício são recebidas dá-se um motim a bordo do submarino...
Há uma certa perca de pungência em "Les Maudits", filme de René Clément, conhecido nos Estados Unidos como "The Damned". Este filme sobre um grupo de Nazis e relutantes passageiros franceses a fugirem num submarino, foi filmado apenas dois anos após o final da guerra.
Esta pungência não pode ser transmitida para as audiências modernas, cujas ideias do pós-guerra em França giram em torno de uma guerra completamente diferente, e de um país completamente novo. Isto foi imediatamente notado assim que o imediatismo da influência Nazi e controlo sobre a França foram perdidos sobre Clément e o seu argumentista Jacques Rémy, portanto nenhum cenário era demonstrativo dos eventos que estavam por vir. Clément e Rémy confiavam nas recordações da sua audiência de um passado recente.
Este filme, a preto e branco, estava bem longe de ser apenas o preto e o branco, e enquanto os Nazis são obviamente os vilões, esta estranha combinação de "filme de submarino" com "film noir", desprende-se dos padrões normais de herói e vilão e explora cada personagem (quase à vez) como uma personagem completa. O ostensivo personagem principal de Henri Vidal narra o filme (com moderação) e providencia o fundo de cada personagem assim como o seu próprio estado de inconsciência nesta viagem para a América do Sul. Personagens como a Ingrid Ericksen de Anne Campion, a gentil filha de um oficial Nazi, como oposição à crença do pai, e o Willy Morus de Michel Auclair, um jovem soldado que preferia não o ser, turvam as águas entre o campo do bem e do mal.
Ganhou um prémio no festival de Cannes de 1947, o "Prix du meilleur film d'aventures et policier". O festival estava então na sua terceira edição.
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sábado, 10 de janeiro de 2015
O Buraco (Le Trou) 1960
Duas horas e picos de filme-prisão. Tal como Rififi, de Jules Dassin, utiliza longos shots, com poucos diálogos, para dramatizar a simples história da tentativa de fuga de um grupo de prisioneiros, de uma prisão. "Le Trou" é filmado a preto e branco, e não tem qualquer banda-sonora, até ao fim.
O filme começa com um dos fugitivos, agora fora dos muros da prisão de Santé, introduzindo a história. Mas logo voltamos para a prisão de Paris em 1947. Somos então apresentados a um jovem chamado Claude Gaspard. Ele é colocado numa cela muito pequena, com quatro outros prisioneiros. Lá conhece o encantador e sempre sorrindente Volsselin, apelidado de Monsenhor. Também habita a cela o preso Roland Darbant, o homem que nos introduz o filme, e ainda Geo Cassid e Manu Borelli. Estes homens trabalham nas suas celas a montar caixas de papelão. Gaspard vai-se apercebendo que os homens são todos amigos intímos, o que não percebe é que os quatro homens estão a trabalhar numa fuga.
O filme não utiliza os habituais clichés do filme de prisão. Não há guardas prisionais sádicos e todos os prisioneiros parecem tipos regulares. O realizador Jacques Becker, que morreu logo depois do filme ter sido concluído, usou actores não profissionais, para dar um maior realismo ao filme. A história é vagamente baseada na experiência de José Giovanni (o argumentista desta obra), que se tinha envolvido numa real tentativa de fuga da prisão de Santé. Um dos companheiros de cela envolvidos na fuga, na vida real, Jean Keraudy, tem o papel principal neste filme, o tal narrador.
Becker estava doente durante a produção e a montagem e morreu quando a mistura de som ainda estava inacabada. Le Trou foi concluído de acordo com os desejos do cineasta, mas após a sua estreia inicial numa versão de 140 minutos, o produtor Serge Silberman reduziu-a em 24 minutos para aumentar as suas possibilidades de êxito. Na altura da sua estreia foi saudado (principalmente pelos futuros realizadores da Nouvelle Vague, como François Truffaut ou Godard) como uma obra-prima. Hoje, continua a ser um filme atraente, soberbamente dirigido e fotografado com uma notável atenção aos detalhes. E por isso, possivelmente o maior de todos os filmes-prisão.
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sábado, 3 de janeiro de 2015
Film Noir Francês
No passado mês de Novembro o Roxie Theater, em São Francisco, realizou um festival de filmes que pouca gente tinha ouvido falar. O tema era o film noir francês, e o festival era chamado de "The French Had a Name For It: French Film Noir 1946-1964".
O termo original de "film noir" vinha dos críticos franceses, que em 1946 designaram um determinado tipo de thriller americano. Depois da libertação da França, em 1944, esta viu o levantamento da proibição da exibição de filmes americanos, imposta pelos ocupantes alemães. Os cinemas franceses viram-se, de repente inundados por filmes americanos, em especial por um determinado tipo de filmes.
Por analogia com o rótulo dado pelos franceses para rotular filmes de detectives de novelas - roman noir - o termo "film noir" foi escolhido para definir essa nova forma de fazer cinema. O filme noir, é predominantemente de série b, e é referido como um sub-género do filme policial ou filme de gangsters, embora, como estilo, também possa ser encontrado noutros géneros, como o melodrama ou o western. Por isso mesmo os críticos franceses viram o filme noir como um movimento, e não um género. Estes críticos apontaram para o facto de estes filmes, tal como muitos outros movimentos, surgirem de um clima de instabilidade política: 1941-58 - o período da Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria. Nos Estados Unidos vivia-se um período de repressão, insegurança e paranóia, o Sonho Americano estava feito em frangalhos e a identidade americana estava sob forte tensão.
Todo este clima influenciou o cinema americano da altura, e indirectamente influenciou o cinema do resto do mundo. Por um lado, estes filmes americanos começavam a chegar à Europa, e por outro o clima de instabilidade também estava instalado nos países europeus (em especial em Inglaterra e França, dois intervenientes directos na Segunda Guerra Mundial).
O cinema francês, era assim influenciado directamente pelo "film noir", e durante um certo período este movimento também foi predominante em França, em especial nos anos 50, altura em que vários realizadores como Melville, Clouzot, Decoin, Clement, Carné, Becker, Verneuil, Duvivier, ou mesmo Robert Hossein, se destacaram.
Esta semana vou fazer o mesmo que o Roxie Theater em Novembro, mas numa versão MT2M, e escolhi uma série de filmes noir franceses pouco conhecidos. O alinhamento final, com destaque para Clement e Clouzot, vai ser o seguinte:
Segunda: Les Maudits (1947), de René Clement
Terça: Manon (1949), de Henri-Georges Clouzot
Quarta: Plein Soleil (1947), de René Clement
Quinta: La Vérité (1960), de Henri-Georges Clouzot
Sexta: Classe Tous Risques (1960), de Claude Sautet
Actualização: Um caso de força maior vai impedir-me de fazer postagens esta semana, por isso este ciclo passa para a semana de 12 a 16 de Janeiro. Obrigado.
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