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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mel (Bal) 2010

Yusuf (Bora Altas) é uma criança que mora com os pais numa isolada área montanhosa. Para ele, a região de floresta torna-se um verdadeiro mistério e aventura a partir do momento em que ele acompanha o pai em um dia de trabalho. O filme acompanha sua incrível jornada pela busca de algum sentido a sua vida.
"Semih Kaplanoglu demonstra uma capacidade imaculada para se colocar entre o olhar dos adultos e o do miúdo protagonista, neste pertinente retrato da Turquia profunda.
 Urso de Ouro no Festival de Berlim, "Mel" é o terceiro tomo da trilogia que fez de Semih Kaplanoglu o cineasta turco contemporâneo mais conhecido internacionalmente a seguir a Nuri Bilge Ceylan. Os nomes dos outros dois filmes da trilogia são tão nutritivos como o deste: "Ovo" (que ganhou um prémio na primeira edição do Estoril Film Festival) e "Leite".
Mas é com o "Mel" que ele chega às salas portuguesas, e se ao espectador recém-chegado ficará a escapar o desenho do conjunto dos três filmes, conhecê-lo não é indispensável à fruição deste filme. De certo modo, "Mel", no seu conflito essencial, ilumina, ou pelo menos resume, o que está em causa na trilogia: um olhar sobre a província turca, captado na bifurcação entre um modo de vida tradicional (as coisas que a terra dá, ainda que por intermédio dos animais: os ovos, o leite, o mel) e a perspectiva de uma outra coisa, muito mais difusa, a que se podia chamar a "modernidade". De uma maneira que o filme não resolve (e a não-resolução é o seu ponto), o miúdo protagonista simboliza esse impasse, no à-vontade da sua relação com a natureza (as abelhas do pai, a floresta) e na falta de à-vontade com as coisas da escola (a dificuldade em aprender a ler como uma "resistência", digamos, atávica).Imaginamos que este conflito, que o filme expõe sem retórica nenhuma e numa subtileza a toda a prova, é pertinente enquanto retrato da profunda Turquia contemporânea. O que serve, em todo o caso, como medida da inteligência de "Mel". Mas não é forçosamente aquilo que mais o distingue. Antes uma capacidade, imaculada, de se colocar entre o olhar dos adultos e o olhar do miúdo protagonista, para der a ver um mundo que é sempre, ao mesmo tempo, muito misterioso e muito familiar - características que marcam, em especial, toda a relação com a natureza (a terra e as árvores, mas também o céu e as nuvens), com os seus silêncios mas sobretudo com os seus ruídos (os seres humanos de "Mel" falam pouco, mas em compensação a natureza palra que se farta). E Kaplanoglu confirma-se como um adepto do plano-sequência expectante e desafectado: a cena em que dá o badagaio ao pai do miúdo é extraordinária."
* Por Luis Miguel Oliveira, daqui

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

My Only Sunshine (Hayat Var) 2008

Hayat tem 14 anos, já não é uma criança mas ainda não é uma mulher. Vive com o pai e o avô, que sofre de asma, em Istambul. O pai trabalha como pescador mas faz a maioria do seu dinheiro em transacções desonestas. Fornece os grandes navios que esperam a passagem do estreito com álcool, mulheres e outras mercadorias. Ainda mais corrosiva do que a pobreza desta família são a insensiblidade e a indiferença castradora que os protagonistas expõem a si mesmos e acima de todos a Hayat.
Um drama sobre a entrada na idade adulta que interroga a identidade numa cidade geopoliticamente extraordinária como Istambul, que atravessa o passado e o futuro, o Ocidente e o Oriente, a tradição e a modernidade. Crescer nem sempre é fácil. Vivendo numa casa velha, rodeada de pobreza, e enfrentando bullying na escola, Hayat tem montes de problemas, todos agravados pelo baixo status das mulheres na sociedade turca tradicional. No papel central, Elit Iscan transmite uma confiança que desmente a sua idade. Ela não é dem
onstrativa mas silenciosamente resiliente interpretando a retirada comum ás crianças em tais circunstâncias. 
Quinto filme de Reha Erdem, de quem já tinhamos visto neste ciclo a sua obra de estreia "A Ay". Ganhou o Prémio do Júri "Tagesspiegel" no festival de Berlim.

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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Outono (Sonbahar) 2008

Condenado à prisão, em 1997, como um estudante universitário de 22 anos, Yusuf é libertado por razões de saúde dez anos depois. Volta para a sua aldeia no leste da região do Mar Negro, onde é recebido apenas pela mãe doente e idosa. Acontece que o pai morreu quando ele estava na prisão e a irmã casou-se e mudou para a cidade. Os factores económicos fazem com que exclusivamente pessoas de idade morem nas aldeias das montanhas, e a única pessoa que vê é Mikail, um seu amigo de infância. Quando o outono lentamente cede lugar ao inverno, Yusuf vai com Mikail a uma taverna, onde conhece Eka, uma bela e jovem prostituta georgiana. Nem a época nem as circunstâncias são apropriadas para estas duas pessoas de mundos diferentes se apaixonarem. 
Um filme sobre a memória colectiva, e as cicatrizes irremediáveis da história política recente, gerações, ideais e tradições perdidas. A primeira longa metragem de Ozcan Alper é filmada em grande parte na linguagem Hemshin ou Hemshinli (descendentes dos arménios de Hemshin, que se converteram ao islão no século 17), através de vozes e canções da terra, e as marés, de marés calmas a ondulações turbulentas, enquanto o Outono se deixa envolver calmamente pelo Inverno. A cultura Hemshin é documentada com detalhes antropológicos. O cruzamento do filme com a literatura, particularmente com Chekhov, está relacionada com a influência dos autores russos em Alper, mas também vem da proximidade de Hopa, local onde se passa parte da acção, com a antiga União Soviética (a actual Geórgia fica a 18km). 
Ganhou uma série de prémios por esse mundo fora.

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domingo, 9 de julho de 2017

Destino (Yazgi) 2001

Musa, um contador que trabalha com a alfândega, acredita no vazio e no absurdo da existência. Ele não luta para mudar a vida, deixa-se levar, juntamente com os acontecimentos porque acha que tudo segue para o mesmo fim. A morte da sua mãe não o afecta. Embora ele a ame, a sua morte não o deixa triste. E este facto vai ter consequências pesadas no seu futuro.
O primeiro filme da trilogia de Zeki Demirkubuz "Tales About Darkness" é vagamente baseado numa obra de Albert Camus de 1942, "L’Étranger", com a história a ser bastante alterada, embora a intertextualidade com Dostoyevsky seja um elemento comum em ambas as obras. A noção de liberdade e a consciência de liberdade com fontes de sofrimento que podem cessar o custo do sofrimento humano são parte integrante deste trabalho de Camus. 
Demirkubuz cria o seu filme dentro da realidade sócio-política da Turquia. Musa é o arquetipo do cidadão comum, apolitizado no rescaldo de várias intervenções militares. Vive entre a casa e o trabalho, sem questionar a razão que está por trás das coisas. Quando o seu vizinho lhe pede para escrever uma carta para atraír a namorada com o fim de lhe "ensinar uma lição" ele concorda em evitar o confronto sem reflectir sobre as consequências da acção sobre a mulher. Preso pelo crime de outra pessoa, Musa não se defende. Porquê lutar por uma injustiça quando não se tem confiança no sistema de justiça? A violência e a miséria tornam-se a rotina com a invasão do espaço privado pelos ecrãs de televisão. Enquanto Musa observa o ecrã da televisão sem emoções, a câmera de Demirkubuz vira-se para janela e os pobres a procurarem por comida no lixo aparecem como uma imagem borrada, que não é notada por Musa.
O filme é rodado num estilo minimalista, com muito poucos movimentos de câmera. Começa com Musa a abrir a porta do seu apartamento e a luz a acender-se, e termina com a luz a apagar-se. A porta é algo essencial nos filmes de Demirkubuz, assim como nos de Nuri Bilge Ceylan. Aparece como um objecto que faz conexão com o que está fora e o que está dentro. Pode proibir a rua, ou pode proibir a sala num sistema de tradições e proibições.

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Clouds of May (Mayis Sikintisi) 1999

O mês de maio numa pequena cidade parece ser mais quente e sombrio do que os anos anteriores. Ainda assim, todos parecem felizes, apesar das suas pequenas preocupações. No entanto, esta felicidade é um pouco perturbada pela chegada de Muzaffer, que quer fazer um filme na cidade onde passou a sua infância.
O segundo filme do que Nuri Bilge Ceylan considera uma tetralogia, e que inclui também "Kasaba " (1997), "Uzak" (2002) e "İklimler" (2006) que pode ser chamada de "retrato de um artista da província como um intelectual urbano". Filmado na mesma pequena cidade de Yenice que também fora usada em "Kasaba", onde Ceylan passou a sua infância, ressaltando os sentimentos de obrigação e culpa ao filmar com actores não profissionais em situações do quotidiano, principalmente se eles são membros da sua família. Muzaffer (Muzaffer Özdemir) é um realizador independente (o alter-ego de Ceylan) que trabalha em projectos comercialmente inviáveis, para o desânimo dos seus pais. O seu regresso a casa para usar a familia no seu projecto "Kasaba", e principalmente o seu comportamento egoísta pouco sincero, perturba a sua tranquilidade. O pai, que é representado pelo próprio pai do realizador, está prestes a perder a terra. O primo Saffet (Mehmet Emin Toprak) está a sufocar nesta atmosfera claustrofóbica tendo novamente falhado os exames de admissão à universidade. 
Uma série de marcas utilizadas por Kiarostami são aqui evidentes, incluindo um quadro da paisagem rural, um interesse não sentimental em crianças, e uma curiosidade discreta da forma como a realidade do filme é paralela e cruza com a vida comum. Não há grandes momentos, apenas eventos comuns do dia a dia que interessam apenas aos protagonistas. O formato "filme dentro do filme" procura capturar a essência da vida numa pequena cidade. Faz isso de uma forma tão gentil, perceptiva graças ás interpretações naturais dos membros do elenco não profissionais. 

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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Inocência (Masumiyet) 1997

Entre as paredes em ruínas de hotéis degradados, bares sórdidos e cidades esquecidas, três párias, prisioneiros do seu amor, vivem uma roda-viva. Um deles é uma prostituta, o segundo o seu chulo/guarda-costas e outro um jovem ingénuo, recém saído da prisão, mas que está preso num círculo de fogo. A miséria das suas vidas só é mais intensa à medida em que se apegam a coisas que nunca tiveram. A sociedade tem voltado as costas para os três, Bekir, Ugur e Yusuf, mas eles continuam procurando o amor nos lugares mais improváveis.
Do título do filme à narrativa, o realizador
Zeki Demirkubuz, no seu filme revelação, questiona os valores morais de uma sociedade masculinizada, ressalvando a sua variabilidade. Ironicamente a "honra" da dona de casa oprimida é a a sua maldição, enquanto que o seu trabalho "sexual" é a sua libertação. O encontro de Yusuf com a família é crucial na sua transformação de um homem que mata pela honra da família a um homem disposto a se tornar proxeneta de uma prostituta e a recompor a família, se ela aceitar. Embora os julgamentos morais permaneçam constantes, ele adquiriu compaixão. 
Evocando a intensidade emocional de um filme de Ingmar Bergman com a combinação idiossincrática de humor discreto e melodrama, "Inocência" é elegante, incrivelmente complexo e um estudo minucioso de obsessões. Mas, para além da obsessão psicológica que define a interminável jornada de Bekir e Ugur para lugar nenhum, o enquadramento da sua relação através da sua perspectiva da inocência, primeiro através da criança muda de Ugur, e depois através do bem intencionado Yusuf, Demirkubuz apresenta um retrato intrigante, não só de uma personalidade flexível, mas também da hipocrisia inerente aos relacionamentos abusivos, onde a crueldade é racionalizada por uma sensação de vitimização indefesa.

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Somersault in a Coffin (Tabutta Rövasata) 1996

 Mahsun está desempregado. vive em Rumelihisari, um dos mais antigos e pitorescos bairros de Istambul, e tenta manter-se vivo com a ajuda dos pescadores locais. Mahsun adora carros, rouba-os de noite para de manhã os limpar e devolvê-los aos seus donos.
Um marco no início do Novo Cinema Turco. Derviş Zaim filmou a sua primeira obra em apenas 24 dias, no entanto, o projecto existia há 8 anos. O orçamento era mínimo, os actores, à excepção de dois, eram não profissionais. No entanto, o filme ganhou vários prémios, nacionais e internacionais, e o filme teve bons resultados nas bilheteiras. A sua originalidade reside na forma como alterna neo-realismo e fantasia. A história, os cenários, os diálogos, as interpetações, é tudo muito simples, e a música de fundo cria um grande ambiente com eficácia, com a sua abordagem minimalista a ser uma partida importante do cinema tradicional turco.
Tentar fazer um filme "no budget" não foi uma tarefa fácil, de acordo com  Derviş Zaim, que começou a pensar neste projecto underground quando ainda estudava em Londres. Ele queria contar a história de um vagabundo que antes conhecera, um ladrão que roubava e lavava carros para depois os devolver. Ahmet Uğurlu, um actor reconhecido oferecera-se para o papel principal. Tuncel Kurtiz, outro actor reconhecido internacionalmente aceitou ficar com um papel secundário, com grande parte do restante elenco a ser preenchido por pescadores ao longo do Bósforo. 
O título original do filme utiliza uma expressão futebolística, "rövaşat", que significa pontapé de bicicleta, que em inglês foi traduzido para "sommersault ", salto mortal. São duas coisas que não são prováveis em sitios apertados, e o filme tenta empurrar fronteiras. Mahsun e os outros à sua volta tentam trazer equilíbrio ás suas vidas - uma casa, um abrigo, alhguém para amar - em condições impossíveis, mas também rejeitar esse equilíbrio que os torna pessoas tão dramáticas. "Tabutta Rövaşata" apresenta uma maturidade incrível para um filme de estreia, e merece ser visto.

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terça-feira, 4 de julho de 2017

O Bandido (Eskiya) 1996

A épica aventura do lendário bandido Baran, depois da sua libertação da cadeia. Após ter ficado preso durante 35 anos não seria de estranhar que fosse encontras as coisas bem diferentes, porque o mundo mudou drasticamente. Ainda assim, Baran fica chocado quando descobre que a sua aldeia natal está agora debaixo de água, por causa da constução de uma barragem. Parte então para Istambul, para se vingar do seu ex-melhor amigo que o denunciou e ficou com a sua amante. Pelo caminho faz amizade com Cumali, um punk durão que simpatiza consigo. 
Desde o final da década de oitenta que o cinema turco tinha embarcado numa crise criativa e também financeira, com os seus filmes a terem poucas hipóteses de combater contra os ocidentais. "O Bandido", exibido no Féstroia em 1998, foi um dos poucos que conseguiu inverter essa tendência, sendo visto no seu país de origem por 2,5 milhões de espectadores, e conquistando prémios valiosos como o Bogey Award na Alemanha. e  o Golfinho de Ouro no Féstroia. A grande fatia da audiência era feminina, sobretudo donas de casa, que durante anos se tinham mantido afastadas do cinema. 
Algumas criticas da época mostravam uma tendência para classificar o filme, não como uma obra de ficção, mas como um espelho, que reflectia a vida dura vivida no país. Isto era sintomático no sentido que os países ocidentais queriam filmes realistas, que demonstrassem as dificuldades vividas pelos países orientais. Stephen Snitzer, que viveu alguns anos na Turquia, escreveu no New York Times que "The Bandit" causou um enorme escândalo na Turquia que intimidou um enorme número de políticos que trabalhavam naquele país. 
O realizador era Yavuz Turgul, que começou a sua carreira a escrever argumentos para Ertem Egilmez, que contribuíu para a formação do Yesilçam, o popular cinema dos anos 60 e 70, semelhante ao que se fazia em Hollywood. Já aqui vimos um trabalho de Turgul como argumentista, "Zügürt Aga", de Nesli Colgecen.

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sábado, 1 de julho de 2017

Oh, Moon! (A Ay) 1989

Yekta, uma jovem de 11 anos, nasceu e vive numa casa misteriosa, uma espécie de castelo, numa margem do Bósforo, com a sua gaivota, uma tia solteira, Nukhet Seza, e o avô Sirri, paralisado e acamado depois da morte do seu filho e da sua noiva. O quarto da sua mãe é onde Yekta procura abrigo, sonha acordada e esconde os seus segredos.  Tudo o que ela sabe sobre a sua mãe é que ela partiu um dia num pequeno barco no Bósforo e nunca mais regressara. Uma noite, Yetka vê a sua mãe passar num pequeno barco, mas ninguém acredita nela. A tia mais nova, uma professora de língua inglesa que vive na ilha de Burgaz quer que ela se inscreva na sua escola, para assim afastá-la do anseio pela sua mãe a afastá-la daquela casa estranha e assombrada. Mas ela não está disposta a partir...
Reha Erdem, realizador, argumentista, montador, um dos representantes mais originais do cinema turco que conseguiu os maiores elogios neste novo milénio, estreou-se aqui, com este "A Ay", aos 28 anos, e construiu o seu trabalho num diálogo contínuo entre a realidade e a imaginação, pedindo directamente ao público que procura uma nova perspectiva para a vida. O tema e o género variam consideravelmente nos seus filmes, mas a dificuldade de preservar a humanidade de alguém num mundo em rápida mudança e a impossibilidade de comunicação onde o amor deixou de existir são os principais motivos da sua obra. Personagens condenados a estados intermediários e espaços mínimos sofrem, e as crianças no limiar da idade adulta sofrem ainda mais. "A Ay" era o primeiro filme de Erdem, e marcaria o tom para toda a sua obra.

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Motherland Hotel (Anayurt Oteli) 1987

O solitário proprietário de um pequeno hotel numa cidade turca da província desenvolve uma paixão por uma hóspede, e a sua rotina do dia a dia começa a desmoronar-se. 
Um dos grandes clássicos do cinema turco dos anos oitenta, é, em primeiro lugar, um "character study". Baseado no livro homónimo de Yusuf Atılgan, escrito em 1973, no rescaldo do golpe de estado de 12 de Março de 1971 (embora a acção no livro se passe em 1963), tem como primeiro plano a narrativa de um gerente de hotel numa pequena cidade da província, cuja obsessão por uma mulher misteriosa o leva por caminhos sinuosos. O ambiente da sociedade desmoralizada pós-traumática dos anos 80, o período em que feito o filme, é referenciado através de uma cidade provinciana sonolenta onde tudo chega com atraso: as notícias, a música, a moda, a política, e até mesmo o comboio da capital, que trás esta misteriosa passageira. São prevalecentes as desigualdades, a exploração, opressão social e política, a desconfiança e o fanatismo. 
O filme é uma das melhores adaptações literárias do cinema turco, no entanto, ao contrário do livro, que se debruçava sobre a interpretação explícita dos desejos sexuais, o filme de Omer Kavur concentra-se nas emoções. O passado, descrito no livro, é referenciado por apenas duas vezes no filme: através de Zebercet como narrador, e através da conversa no parque com um homem idoso. 
A alienação do indivíduo numa sociedade moderna e a passagem do tempo, seriam temas que Kavur desenvolveria mais profundamente em filmes posteriores, e estão no centro desta narrativa. Combinando com o seu fascínio por sonhos, símbolos e o significado oculto dos objectos, "Motherland Hotel" é uma das obras primas do cinema turco. 
Concorreu no festival de Veneza de 1987, onde ganhou o prémio Fipresci. 

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quinta-feira, 29 de junho de 2017

The Broken Landlord (Zügürt Aga) 1985

Uma comédia negra sobre as atribulações de um proprietário rural com autoridade, que segue as promessas da cultura popular e migra para a cidade, mas não se adapta à nova vida. O filme é pioneiro ao concentrar-se num agha (proprietário rural), e não num camponês sem terras, e reflecte sobre a emigração de Anatólia durante a transição para a economia de mercado depois do golpe de 1980, e as políticas liberais de Turgut Özal (primeiro ministro entre 1983-89 e presidente entre 1989-93) quando o consumismo se tornou a fantasia das massas. Com argumento de Yavuz Turgul faz parte de uma trilogia que inclui "Muhsin Bey / Mr Muhsin" (1987) e "Aşk Filmlerinin Unutulmaz Yönetmeni / The Unforgettable Director of Love Movies" (1992) , ambos de Yavuz Turgul, com Sener Şen a protagonizar os três.
A primeira parte do filme apresenta o colapso da velha ordem. A aldeia é chamada de "Haraptar" que significa "Ruinosa" e é também o nome da mercearia do Agha na aldeia. A segunda parte é sobre a migração para a cidade e o problema da adaptação. O Agha não se pode ajustar aos tempos de mudança, porque para ele é melhor rezar para que chova do que esperar pelos clientes na loja da cidade. A sequência onde ele tenta vender tomates em bairros ricos é particularmente cómica. Finalmente, as suas botas, destacadas como símbolo da sua autoridade rural na primeira parte do filme são vendidas em troca de comida na cidade. Contrariamente ao cliché do agha opressivo e explorador o filme apresenta uma representação mais realista de um personagem com as suas virtudes e vícios, parodiando a instituição e expondo a sua morte com o desenvolvimento do sistema capitalista. A realização é de Nesli Colgecen.
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Muro (Duvar) 1983

Último filme de Yılmaz Güney, feito em França durante o seu exílio, e em parte financiado pelo ministério da cultura francês. Baseado na revolta de 1974 numa prisão infantil em Ancara, que Güney testemunhou transformando mais tarde num livro chamado "Soba, Pencere Camı ve İki Ekmek İstiyoruz / We Want a Stove, a Window Glass and Two Loaves of Bread" foi filmado numa antiga abadia nos arredores de Paris. Com a excepção de Tuncel Kurtiz e Ayşe Emel Mesci todos os restantes actores eram amadores. A narrativa é passada inteiramente dentro da prisão, que é dividida em várias células, homens, mulheres, adolescentes e anarquistas. O significado de "prisão" tem um triplo significado nos filmes de Güney: representar a prisão em concreto que ele conheceu bem, a prisão da sociedade em massa, e a prisão das nossas mentes. Em Duvar" eles escolheu o o motivo da prisão particularmente, para expôr a situação política na Turquia depois da intervenção militar de 1980. 
De acordo com Güney o filme apresentava o ponto de vista de um outsider, ao narrar as esperanças desesperantes dos prisioneiros, com as crianças a rezarem para serem transferidas para uma prisão melhor, em vez de exigirem a sua liberdade. Para Güney esta mudança não podia acontecer, a não ser escapar da realidade em sonhos. A "boa prisão" não existia. Para um artista como Güney, que recebeu a sua energia do seu público, o exílio foi contraproducente. Ele tinha a liberdade mas não a munição para criar, e "Duvar" não podia competir com os filmes que ele tinha feito na Turquia. É um filme áspero e vingativo, que leva a amargura de um artista artista excepcionalmente talentoso condenado a passar os melhores anos da sua vida atrás das grades e a morrer no exílio.
O nome de Yılmaz Güney era proibido na Turquia. Onze dos seus filmes foram confiscados e supostamente queimados no seu país de origem, sendo até proibido escrever sobre ele. "Duvar" foi banido durante 17 anos. Apesar de todo o seu sucesso internacional, principalmente de "Yol" e este "Duvar", ele era sobretudo um realizador para o povo turco. Viria a falecer no ano seguinte, com apenas 47 anos, de cancro no estômago.  

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terça-feira, 27 de junho de 2017

The Horse (At) 1982

Seguimos um pai de nome Hüseyin, e o seu filho chamado Ferhat, enquanto eles se mudam da pequena cidade onde vivem, atingida pela pobreza, para Istambul. O pai está desesperado para conseguir dinheiro para a escola do filho, e o filho espera que o dinheiro possa ser usado para comprar um cavalo. Em Istambul Hüseyin compra um carro de vegetais para os dois venderem na rua, mas como não têm licença são constantemente procurados pela polícia.
Segunda longa metragem de Ali Özgentürk, discípulo de Yılmaz Güney, expõe a opressão, o desemprego, a corrupção, a burocracia e as desigualdades sociais na sequência da intervenção militar de 1980, adaptando o estilo do neorealismo italiano, evocando "Umberto D.", de Vittorio de Sica, e, particularmente, "Ladri di Biciclette" (1948). Está entre os filmes sobre a migração realizados na década de oitenta, com o foco na identidade da metrópole, não mais a utopia aos imigrantes anteriores, com a sua identidade histórica e cultural. A textura da cidade transformou-se, desfocando a diferença entre a "antiga Istambul" e os recém chegados, mas a invasão periférica não diminuiu a estigmatização do pobre camponês de Anatólia, ironicamente, por aqueles que estigmatizaram antes. Até as favelas são inacessíveis para os novos migrantes, que encontram abrigo em espaços transitórios, cafés, estradas, ou até mesmo obras. As aspirações dos migrantes também mudaram paralelamente ás mudanças socio-económicas da sociedade.
Existe um simbolismo profundo, envolvendo não só Ozgenturk, mas também os seus mentores, Yilmaz Guney e Serif Goren.As ruas de Istambul não parecem diferentes da aldeia destas personagens, que ilustra um tema que era muito comum nos filmes turcos da altura, que o "paraíso",quer fosse Istambul ou a Alemanha, não era muito diferente da aldeia de onde vinham. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

On Fertile Lands (Bereketli Topraklar Üzerinde) 1980

Bereketli Topraklar Üzerinde / On Fertile Lands (1979) é baseado numa obra de realismo social de Orhan Kemal, sobre a difícil situação dos camponeses pobres no final da década de 40, na Turquia do pós-Segunda Guerra Mundial, que não teve a sorte de passar pela revolução industrial nem pelas reformas agrárias. Apoiando o dialect0 Marxista, o filme concentra-se em Ali, Yusuf and Hasan (ecoando Tom, Jim e Muley de "Grapes of Wrath", 1940, de John Ford, que teve uma forte influência no realizador, Erden Kiral), três amigos que desejam melhorar o seu status social e económico trabalhando na cidade, mas enfrentando para isso muitas dificuldades.
As primeiras sequências, usando câmara ao ombro, mostram trabalhadores temporários desesperados, homens com poucos dentes e crianças empobrecidas, são pessoas invisíveis que olham directamente para a câmara evocando Walker Evans (1903–75), que expôs a pobreza rural no sul do Alabama durante a grande depressão (no filme "Agee and Evans", 1939). A câmara passa sobre as tendas esfarrapadas, mas discretamente fica afastada, enquanto o narrador nos informa que a terra de Çukurova é fértil, e as suas pessoas são pacientes. Mesmo que eles morram há sempre o outro mundo. Devemos sempre comparar-nos com os que estão por baixo, e não com os que estão acima, e ficar gratos, como disseram os profetas. Esta é a verdade nua, apresentada como uma verdade objectiva sem perder a complexidade literária e a beleza poética do livro de Kemal. Consciente da improbabilidade de narrar tanta pobreza com formas tradicionais e sentir a agonia do intruso, Kiral procura uma nova linguagem cinematográfica que levante a consciência, preservando a liberdade dos trabalhadores, negada pelo sistema. Os méritos artísticos de Kıral levam o filme para além do tratado político criando personagens tridimensionais e complexas com necessidades básicas, comida, sono, sexo, e até mesmo amor. A vida humana é reduzida à sobrevivência física. 
O filme manteve a sua contemporaneidade ao longo de décadas recebendo o prémio de melhor filmes no Antalya Golden Orange Film Festival, em 1981, mas o prémio foi-lhe retirado devido à pressão do governo militar e Kiral foi compensado com o prémio de melhor realizador, que ele recusou receber. O filme foi depois banido, e os negativos ficaram perdidos. Foram descobertos 28 anos depois num armazém na Suiça, e o filme foi restaurado pela  Groupama Film Foundation, em França, para voltar a ser mostrado no Istanbul International Film Festival, em 2008.
A versão que podem tirar aqui do blog tem uma qualidade péssima, mas é mesmo assim e a única disponível com legendas em inglês. Para vê-la com as legendas terão de usar o programa VCL. Existe uma versão no youtube com uma qualidade muito boa, mas não tem legendas. É o que se pode arranjar, o filme é muito raro.

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sábado, 24 de junho de 2017

Suru - O Rebanho (Sürü) 1979

Por causa de um conflicto local, uma família de camponeses do leste da Turquia decide vender o seu rebanho de ovelhas, uma mercadoria muito preciosa, na distante cidade de Ancara. Durante a longa viagem de comboio subornos devem ser pagos a oficiais mesquinhos, ovelhas são roubadas ou morrem nos vagões embaladas, e a esposa de um dos filhos da família fica gravemente doente...
"Sürü" é um retrato realista de uma Turquia em transição para o capitalismo. O filme problematiza a desintegração de uma tribo curda e a sua estrutura patriarcal, com mudanças na estrutura económica do país. Está dividido, principalmente, em três partes, em todas as quais se destacam a natureza misteriosa deste povo: no acampamento, na viagem de comboio para Ancara, e, já na cidade. No acampamento, um abrigo temporário, a tribo continua o seu estilo de vida ao ar livre, com a vida nómada a ser documentada quase etnograficamente. A tranquilidade da atmosfera tem uma qualidade estranha. O conflito é confinado a espaços interiores claustrofóbicos, dentro das tendas ou perto delas, onde os mais fracos são humilhados. 
A mensagem política do filme está carregada de crítica social. O atraso e a ignorância de um estrato social ou étnico revertem-se pelo resto da sociedade. As mulheres são uma metáfora para os oprimidos. Colocadas em espaços liminares, as mulheres têm uma dupla vantagem par os homens, embora a opressão feudal destrua ambos. Quando a perda de identidade não é consciente (como no caso das minorias étnicas na Turquia), o poder é mais destrutivo. Pessoas afectadas por uma melancolia mais profunda perdem a voz. O silêncio de uma das personagens, Berivan, é uma metáfora para os povos oprimidos sem voz, os pobres, as mulheres, mas, principalmente os curdos, silenciados fisicamente e metaforicamente, não são capazes de falar o seu próprio idioma, embora esta mensagem seja muito subtil no filme, para conseguir contornar a censura estatal.
Escrito por Yılmaz Güney, enquanto estava na prisão, e realizado por  Zeki Ökten, esta trágica história da desintegração de uma família tribal (e os seus costumes e tradições) recebeu uma enorme aclamação internacional, incluindo o Leopardo de Ouro no festival de Locarno, e dois prémios importantes no festival de Berlim. A administração do festival Antalya Golden Orange Film recusou-se a aceitar "Sürü" na competição, porque a cidadania turca de Melike Demirağ tinha sido revogada pelo seu papel de esposa de Şivan, interpretado por Tarık Akan, que já estava na lista negra. Mas depois acabaria por premiar o filme com vários prémios.

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rapariga do Lenço Vermelho (Selvi Boylum Al Yazmalim) 1977

A história de um dilema entre o amor de uma mulher, e a sua lógica. Asya, uma jovem com uma mãe reservadora, conhece Ilyas um homem da cidade por quem depressa se apaixona. Superam as dificuldades e têm um casamento rápido e feliz. No entanto, a vida vai mudar quando ajuda um homem certa noite, deixa a mulher e o filho e sai de casa. Asya pega no filho e parte sem rumo, até que uma mão amiga a ajuda desinteressadamente.
Enquanto o livro original de Chingiz Aitmatov, de onde é adaptado este filme, nos mostra a história dos dois homens, o filme de Atif Yilmaz concentra-se na mulher. Começa com um close-up de Asya, e termina da mesma forma. Asya é apresentada como uma mulher independente, capaz de decidir o seu caminho. Decide fugir com o homem que ama em vez de casar com um homem que nem conhece. Toma a iniciativa de falar com o chefe de İlyas, e sai de casa quando não está feliz. Para preparar a audiência para a escolha de Asya no final, Yilmaz insere certos detalhes da vida de Asya com Cemşit. Apesar de ser legalmente casada, descartou as roupas de camponesa e trabalha agora numa cooperativa.
Os diálogos são reduzidos ao mínimo no filme, a narrativa flui através de monólogos/vozes interiores, os três principais actores exprimem-se através de sinais e mímica enquanto enfrentam o público, uma novidade para o cinema turco, e que era a forma de Atıf Yılmaz preservar o texto lírico, enquanto enfatizava a visualidade. 
 Atif Yilmaz era um dos realizadores turcos mais activos neste período do cinema turco, realizou mais de quarenta filmes durante a década de setenta, alguns deles bastante importantes.

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

O Autocarro (Otobüs) 1975

Este filme apresenta-nos o ponto de vista de nove imigrantes, que viajam num autocarro das áreas rurais da Turquia directamente para uma das mais modernas cidades, Estocolmo. São enganados por um contrabandista, que lhes ficou com o dinheiro e o passaporte com a promessa de lhes arranjar um emprego na Suécia. Quando chegam a Estocolmo, sendo eles completamente estranhos à cidade e cultura, sem ter onde ir e sem dinheiro para comprar comida, o único lugar onde encontram refúgio é o autocarro onde viajaram, estacionado num local muito central da cidade, durante um inverno bastante frio. O medo de serem apanhados pela polícia e recambiados para o seu país de origem obriga-os a esconderem-se dentro do autocarro durante o dia, e durante a noite fazem a dura luta pela sobrevivência. Durante estas excursões nocturnas observamos como estes camponeses vivem a vida nocturna na cidade. 
O filme mostra-nos como alguns dos aspectos considerados aceitáveis da vida quotidiana (como o consumo de álcool, a nudez, a sexualidade e a homossexualidade) são considerados perversões para as pessoas estrangeiras. E é por isso que quase todos os cidadões locais são retratados como hostis, pervertidos, racistas, arrogantes, cruéis e implacáveis. Por outro lado, todos os nove cidadãos turcos são vistos como ingénuos, e quase totalmente ininteligentes. Mesmo com o filme a tratar dum tema sempre quente como a emigração não lida com o tema de uma forma muito profunda, mesmo assim sendo considerado dos melhores filmes turcos dos anos 70.
Vencedor de vários prémios em festivais internacionais, ainda que menores, era o filme de estreia de Tunç Okan, um actor tornado realizador, que contava no seu repertório já com algumas interpretações importantes. 
Legendas em inglês.

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terça-feira, 20 de junho de 2017

My Prostitute Love (Vesikali Yarim) 1968

1968, numa taberna em Istambul. A bela e magnífica Sabiha está a cantar no palco. Halil não consegue tirar os olhos dela. Eles apaixonam-se, mas Halil é casado e um homem vulgar. Não procura nada de especial, mas o que está feito, está feito. No entanto, os rumores começam a circular...
A história de um dos mais sentimentais melodramas do cinema turco é muito dolorosa. Adaptado para o grande ecrã por Safa Önal, a partir de uma história de Sait Faik. Desde o início da história em que "toda a gente está certa", Halil e Sabiha estão cientes do que poderá ser o fim deles. É uma história de amor que começa com uma pergunta, e termina com o peso da pergunta que acaba por não ser perguntada: És casado? Começa com a solidão de um homem numa taberna, e acaba com a solidão de uma mulher deixada no meio da rua num bairro degradado. "My Prostitute Love" é o melodrama mais ingénuo do cinema turco.
É um filme realista que representa o sentimento da década de sessenta em Istambul, de forma autêntica. Escrito de forma poética, e cuidadosamente elaborado em termos de fotografia, justapõe a imagem realista dos interiores e das paisagens dos anos sessenta com os momentos místicos de amor entre duas personagens, que ganham vida com os impressionantes desempenhos dos actores Turkan Soray e Izzet Gunay, conseguindo criar uma ruptura na abordagem tradicional moralista.
Lütfi Akad é um dos realizadores mais importantes da Turquia. Deu ao cinema do seu país muitas coisas importantes, começando pela forma como movimentava a sua câmara. Andava de cenário em cenário, de rua em rua, mostrando ao seu público o mundo real, pessoas reais, sem grandes estrela de cinema. Os seus actores, em grande parte, não agiam em frente à câmara, eles viviam na câmara.
Legendas em Inglês.

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domingo, 18 de junho de 2017

Tempo de Amar (Sevmek Zamani) 1965

Halil é um pintor que se apaixona por um rosto num quadro, que pertence à filha dos donos de uma mansão. Certo dia, a rapariga chega à mansão no exacto momento que Halil está a olhar para o retrato, e é o inicio de uma estranha relação. 
O filme é contado em duas formas distintas. Primeiro, um realismo rigoroso na busca da identidade específica do povo turco. Ocidente ou Oriente, a eterna batalha caótica. Em segundo lugar, através desta separação de Ocidente e Oriente, o filme mostra-nos duas percepções diferentes do amor: uma cantora moderna, urbanizada (Sema Ozcan) a querer estar com um homem (Musfik Kenter), que por sua vez está apenas apaixonado pelo retrato da cantora. Por outro lado, o homem oriental a recusar o amor da cantora que está mais ligada ao Ocidente, e à perdição.
Um filme obscuro, um tesouro escondido para os amantes de cinema internacional, é considerado um dos melhores filmes da história do cinema turco, apesar de ainda permanecer desconhecido para muitos cinéfilos da nova geração. Elogiado pela sua fotografia a preto e branco, o filme segue a tradição estética de Antonioni, sendo uma mistura eclética de temas modernistas (a solidão individual), a metafísica (a luta do bem contra o mal, com o mal a ser representado pelas influências do ocidente), e as noções do marxismo, visíveis em outros filmes do realizador Metin Erksan, um dos primeiros realizadores turcos que viu o cinema como uma forma de arte, além de um meio de entretenimento das massas.

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sábado, 17 de junho de 2017

Verão Seco (Susuz Yaz) 1963

Uma história de luta de classes que se passa durante um verão seco na zona rural da Turquia. Como consequência das condições climáticas quentes e secas os agricultores que vivem na aldeia não podem regar os seus campos. O proprietário da única terra com nascente de água não deixa os outros proprietários usarem a sua água, construindo um dique, e ambos os lados entram em conflito a propósito do uso deste recurso natural. 
Desta forma, este conflito transforma-se numa disputa de propriedade, que é um dos assuntos preferidos do realizador Metin Erksan. Além disso, o realizador usa a obsessão do proprietário para seduzir a jovem e encantadora esposa do irmão, que acaba por tomar partido dos outros agricultores para fortalecer esta questão de propriedade. 
A beleza deste filme vem da sua simplicidade visual. Faz lembrar muito os grandes clássicos do neorealismo italiano, mas tem um espírito mais livre, que lhe confere uma identidade verdadeiramente única. O foco da atenção é a moralidade flexível dos principais protagonistas. Ao longo do filme, aos três personagens principais (os dois irmãos e a esposa e de um deles) são apresentados dilemas difíceis, que os obrigam a tomar decisões difíceis, decisões que indirectamente desafiam e expõem as falhas dos entendimentos tradicionais turcos sobre responsabilidade e respeito. Impressionante também é o tom erótico do filme, com algumas imagens da actriz Hülya Koçyigit a ultrapassarem surpreendentemente os censores turcos da altura.
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Berlim de 1964, e da Biennale do Festival de Veneza desse mesmo ano, foi o primeiro sucesso internacional do cinema turco. Contudo, as coisas não foram muito fáceis interinamente. Foi retirado da circulação pelas autoridades turcas pouco tempo depois da estreia. 

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