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terça-feira, 24 de dezembro de 2013
O Sangue (O Sangue) 1989
Talvez o mais abertamente bressoniano dos filmes de Pedro Costa (embora impregnado com as sombras de um filme de Jacques Tourneur), o primeiro filme de Costa, O Sangue, no entanto, traz a marca característica do que viriam a ser as suas preocupações mais familiares: pais ausentes, famílias substitutas, fantasmas inconciliáveis, o trauma e a violência do deslocamento, a dor (e isolamento) de saudade. A convergência temática é perspicaz revelada num episódio que ocorre perto do final do filme, quando o irmão mais velho Vicente (Pedro Hestnes), tendo sido mantido em cativeiro pelos associados nefastas do seu pai na véspera de Ano Novo numa tentativa para recolher a dívida não paga do pai dele, desperta na escuridão de um apartamento desconhecido para a visão de uma silhueta inquieta na varanda - a sombra projetada pela amante do seu pai ( Isabel de Castro).
Costa estabelece uma atmosfera sinistra, explode a violência na sequência de abertura do filme: o som prefigurando de uma porta batida e pés apressados que, posteriormente, revelam um shot frontal de Vicente numa estrada enlameada, como ele é , e de repente leva uma chapada do seu pai rebelde enquanto intencionalmente bloqueia o seu caminho, tentando impedi-lo de sair, implorando-lhe para mostrar consideração para com o filho mais novo Nino ( Nuno Ferreira ), que foi deixado sozinho em casa no meio da noite.
A história é a de Vicente (Pedro Hestnes) e do irmão mais novo Nino (Nuno Ferreira), e a estreita ligação com a jovem Clara (Inês de Medeiros), contada como uma fábula tágica. Gravemente doente, o pai (Canto e Castro), está consistentemente ausente, deixando os irmãos a se defenderem sozinhos, quando ele viaja para começar o tratamento. Na esteira da morte do pai, Vicente é deixado a cuidar da família e proteger o irmão da verdade. Mantendo os credores do pai longe da familia, luta com o tio (Luís Miguel Cintra) para manter a família unida, e os dois rapazes, eventualmente, acabam por poder ser separados.
Esta é uma peça marcante e um filme verdadeiramente transnacional, reunindo as facções, muitas vezes opostas do cinema mundial com desarmante facilidade para criar algo completamente original. Não diz nada sobre o que é ser Português, e reflete pouco dessa cultura. O único marcador de identidade é a língua em que eles falam. No entanto, esta não é nenhuma forma de crítica de Costa, nem nada que se pareça, não há traição da cultura, não vende para fora para se conformar e fazer o filme mais acessível, para um público mais amplo. Sangue é um filme mais preocupado com o universal, com o fazer e dizer sobre a vida, com as nossas conexões emocionais com o mundo e todos os cidadãos que a compõem. Raramente este mundo pareceu tão estranho, tão deslumbrante ou tão bonito.
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Casa de Lava (Casa de Lava) 1994
Quando começou a trabalhar em Casa de Lava, Pedro Costa contava fazer um remake do filme de Jacques Tourneur, I Walked With A Zombie. Conceitualmente, é uma idéia intrigante, mas visualmente, é ainda mais tentadora a considerar. Já bem ciente do trabalho de Tourneur, e de outros filmes do período da RKO, e a capacidade de Costa para tirar um espectro de luz e profundidade em imagens a preto e branco, esperava-se ver um filme semelhante à sua estreia, o Sangue, repleto de iluminação, em que o horror e os mortos-vivos se tornariam, ouso dizer ... bonitos. Aqueles que estão familiarizados com o trabalho de Costa, naturalmente, sabem que Casa de Lava é o primeiro dos seus filmes a ser filmado a cores. Graças a Costa e ao seu diretor de fotografia Emmanuel Machuel (já bem conhecido pelo seu aclamado trabalho com Robert Bresson, entre outros), estávamos prestes a ver um novo mundo, ou, mais especificamente, as ilhas pitorescas de Cabo Verde, como nunca antes tinham sido vistas.
Casa de Lava começa com violência, não com a morte sangrenta de um inocente prestes a renascer como um zombie, mas com erupções vulcânicas, lava vermelho-laranja surgindo diante de formações rochosas pretas, que se parecem com as de um planeta numa galáxia muito distante do alcance da nave que levou Georges Méliès em La Voyage dans la lune / A viagem à lua . Essas cenas iniciais, filmadas com o impulso de um documentarista, são inicialmente confusas. Em retrospectiva, parecem estar em desacordo com o resto do filme. No entanto, quando tiramos um tempo para refletir - e Casa de Lava é um filme que inspira muitas análise pós-créditos - a sequência é na verdade uma metáfora visual inteligente para os grandes temas do filme. A lava, brotando livre das profundezas da terra , ecoa a situação da enfermeira Mariana ( Inês de Medeiros, também protagonista do primeiro filme de Costa) e os outros cabo-verdianos. Eles também estão presos, lutam para se libertar, querendo ir para o continente (Lisboa), determinados a fazê-lo antes de morrer. Esses fluxos de lava também trazem consigo grande ameaça e perigo, uma tendência presente em todo o filme. Quando a tensão finalmente se torna maior, não é só a lava que irrompe, mas a raiva e muitas vezes a violência , frequentemente direcionados ao visitante estrangeiro Mariana.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Quaresma (Quaresma) 2003
David é casado, tem uma filha pequena, e está a poucos dias de partir para o estrangeiro com a família. Mas com a morte do avô, ele tem ainda que regressar à terra, e ao seio de uma família com quem há muito não convivia. E uma viagem que era para durar o tempo de um funeral, acaba por transformar-se numa estadia de vários dias. Porque aí David conhece a mulher do seu primo, e vai-se deixando enredar no seu sortilégio de mulher perturbada mas encantadora...
Eis um daqueles filmes que apetece amar sem conta, peso ou medida. A cada imagem, a cada novo gesto, sentimos planar as forças mais essenciais da existência - o desejo, a solidão, o fardo de gerações sobre as nossas costas, as pedras, o frio, a incomunicação dos corpos e das idéias - numa espécie de teia onde uma jovem mulher se debate, sem saber que caminho dar à sua inquietude. Ainda por cima essa mulher tem o nervo de uma actriz de excepção - Beatriz Batarda - a reivindicar todo o nosso assombro. Mas o filme peca por alguma insuficiência no tecido dramatúrgico, na concatenação dos conflitos entre os personagens, na geografia dos sentimentos, prometendo sempre voar mais alto que aquilo que concretiza. Mesmo assim é um filme para ser visto.
Foi selecionado para o Festival de Cannes.
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A Jangada de Pedra (La Balsa de Piedra) 2002
Na sequência de um abalo de terra que nenhum sismógrafo registou, uma fenda enorme aparece na crosta terrestre ao longo da fronteira entre Espanha e França. Aos poucos, a Península Ibérica parte à deriva, como uma Jangada de Pedra... Joana traça no solo uma linha que não se apaga; Joaquim lança à água uma pedra enorme, desafiando a gravidade; José é acompanhado para todo o lado por um bando de estorninhos; num canto perdido de Espanha, Pedro é o único que sente a terra a tremer e da mão de Maria escapa-se um novelo que não mais termina... Todos estes acontecimentos, à volta da Jangada de Pedra, parecem ter apenas uma finalidade: fazer com que estas pessoas se encontrem, desvendando pelo caminho inesperados enigmas... Com realização do francês George Sluizer, “A Jangada de Pedra” foi a primeira obra de José Saramago a ser adaptada para as telas de cinema. Uma gigante fenda abre-se entre Espanha e França, e a Península Ibérica fica à deriva, é uma gigante jangada de pedra sobre o Atlântico. Diogo Infante, Ana Padrão, Francisco Luppi e Gabino Diego foram alguns dos actores que participaram no filme que retrata a história da obra de 1986. Co-produção entre Portugal, Espanha e Holanda.
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Mal (Mal) 1999
Numa cidade, milhares de histórias revelam-se simultaneamente. Esta é a história de Cathy e Pedro , Daniel e o seu amigo... A história do casal Cruz, do avô que vem a Lisboa à procura da sua neta que fugiu... A história desta criança abandonada que vem anunciar o fim do mundo. E todos esperarão um novo amanhecer.
Mal é um grande filme sobre nós. Sobre nós enquanto comparsas da realidade de que o filme fala (agentes, companheiros, camaradas ou meros concidadões dos personagens e das coisas), sobre nós enquanto espectadores, a quem o filme interpela até ao ponto de tornar inevitável um juízo sobre os eventos (e nesse aspecto se dirá salutar na incomodidade que provoca). Há mesmo uma cena para nos armadilhar as razões e os rectos propósitos (esse espantoso momento de cinema em que o joalheiro leva a rapariguinha para uma pensão de passagem com as paredes forradas com o nome de Portugal. O filme não deixa que nos queiramos fora da circulação do mal, não consente a exterioridade e a paz de consciência - e quem não pensou o pior nessa cena, que atire a primeira pedra.
E, todavia, não há criaturas malignas no interior desta ficção, não há agentes responsáveis pela solidão em que todas as personagens mergulham, não é possível identificar o principio infeccioso, apenas a gangrena.
Alberto Seixa Santos é um cineasta de curta filmografia. Desequilibrada ao extremo, ainda para mais, no que isso quer dizer de gestos que se formaram como faróis (Brandos Costumes, A Lei da Terra), a par de gestos que falharam. Mas todos os seus filmes tiveram o condão de se quererem filhos do tempo que brotaram - e, se calhar, é justo constatá-lo, é ele o cineasta que melhor soube guardar o pulsar deste país ao longo do último quarto de século passado.
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Sinais de Fogo (Sinais de Fogo) 1995
Portugal, Julho de 1936. A ditadura de Salazar está consolidada e controla totalmente o país.
Um grupo de adolescentes passa as suas férias de Verão na Figueira das Foz. Do outro lado da fronteira começou a Guerra Civil de Espanha e, apesar da distância, a sua violência vai repercutir-se na vida destes jovens, lançando-os num turbilhão de intrigas políticas e paixões desencontradas que marcará tragicamente a sua passagem à idade adulta.
Sinais de Fogo é uma via para o cinema português diversa da maioritária e que melhora quando se volta a percorrer. Transposição para o cinema do poderoso romance de Jorge de Sena, ambientado na Figueira da Foz nos alvores da Guerra de Espanha, traduz com grande sobriedade e destreza os méritos narrativos de Luis Filipe Rocha, quer na forma como adaptou um dos mais "inadaptáveis" romances portugueses, quer na justeza da reconstituição da época, quer na tessitura dos vários fios e frentes narrativas, quer ainda na escolha e direcção de actores, ponto em que Sinais de Fogo se esmera. Diogo Infante protagoniza, sem máculas, mas é na galeria dos secundários que povoam o filme que vamos encontrar alguns "bonecos" duradouros: Ruth Gabriel, José Airosa, Joaquim Leitão, Henrique Viana...
A história agarra-nos, e o tempo foge. Sabe-nos até a pouco, que o romance de Sena, como Luis Filipe Rocha é o primeiro a sustentar, pedia uma daquelas séries curtas, de sete ou oito horas de duração.
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Duma Vez por Todas (Duma Vez por Todas) 1987
Luis é um jovem aborrecido coma vida que leva. Está farto dos amigos, não gosta das mulheres com quem sai, não sabe o que é que há-de fazer à noite. Mas no prédio em frente há uma nova vizinha, uma mulher bela e fascinante com as noites muito, muito ocupadas. Luís começa a espiá-la mas não percebe o seu comportamento. Ela parece embrenhada numa espécie de jogo com os homens que a rodeiam. Um deles, um piloto brasileiro, está envolvido num tráfico perigoso. Luís, cada vez mais obcecado por aquela mulher, acaba também por se envolver no tráfico. Mas ele não compreende o que se passa à sua volta, tudo lhe parece um jogo de regras difusas. Para alguns o jogo vai ser mortal.
Estreia de Joaquim Leitão na longa-metragem, o vibrante Duma Vez por Todas (Prémio Nova Gente para melhor filme português 1987) é um filme urbano e nocturno. O ambiente tem algo de “noir” e a narrativa inclui elementos policiais que albergam algumas sinalizações (por exemplo, Hitchcock e Janela Indiscreta). Quando foi exibido publicamente pela primeira vez, na Cinemateca, em 1986, o filme foi imediatamente saudado pela revelação de um novo autor do cinema português: “A autencidade e a qualidade básica do universo cinematográfico neste filme erguido são inquestionáveis”. Mas depois o Joaquim Leitão não manteve a forma...
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O Lugar do Morto (O Lugar do Morto) 1984
Álvaro Serpa, jornalista, divorciado pára uma madrugada na marginal. Assiste a uma discussão entre um casal e pouco depois a mulher entra no seu carro e pede-lhe para o levar dali. O jornalista, intrigado, acede só para pouco depois, novamente a pedido dela, regressar ao local onde encontram o homem morto. A mulher foge e Álvaro apenas sabe que ela se chama Ana.
Realizado por António Pedro Vasconcelos, que, com Carlos Saboga, foi também o autor do argumento. A película contou com a colaboração de João Rocha, responsável pela fotografia, e de Alain Jomy, que assumiu a direção musical. As interpretações ficaram a cargo de Ana Zanatti, Pedro Oliveira, Teresa Madruga, Carlos Coelho, Isabel Mota e Ruy Furtado. O Lugar do Morto constituiu a quarta longa-metragem de António Pedro Vasconcelos e atingiu um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português, ultrapassando os 300 mil espectadores, em larga medida por nele participarem alguns vultos conhecidos dos ecrãs televisivos. É uma história de ficção que versa o desmoronamento da instituição familiar e a consequente redistribuição de lugares a que isso força. Um policial clássico, às voltas com uma testemunha ocular do suicídio perpetrado por um engenheiro após discussão com a amante.
Na década de 80 do século passado deu-se a ruptura do cinema português com o passado. O cinema nacional precisava duma lufada de ar fresco e para isso tinha que romper com os seus próprios limites. Muitos foram os filmes que, de uma forma ou doutra, marcaram a década (muitos deles estão a ser apresentados neste ciclo), mas nenhum teve o sucesso e a importância de "O Lugar do Morto". Inicialmente o filme foi pouco compreendido, mas depois a curiosidade do público viria a torná-lo no maior êxito de bilheteira de sempre na produção nacional.
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Crónica dos Bons Malandros (Crónica dos Bons Malandros) 1984
Crónica dos Bons Malandros do jornalista e escritor português Mário Zambujal, editada em 1980, atingiu um grande êxito editorial e literário, tendo tido umas das suas reedições mais recentes em 2004. O livro relata o quotidiano dos membros de uma quadrilha fora do comum, que recusava o uso de armas de qualquer espécie, tendo, simbolicamente, como chefe um homem com a alcunha de pacifista, este livro é dividido em nove capítulos que se estruturam do geral para o particular, recorrendo a uma "espécie" de didascálias, para apresentar as personagens e alguns pormenores da ação.
A história anda à volta de um grupo de amigos que se dedica a pequenos assaltos, até que é subornado por um misterioso italiano que os desafia a roubar obras de arte num museu de Lisboa. Entre os preparativos para o grande golpe, vamos conhecendo os membros do grupo e os caminhos que os levaram à marginalidade, até que chega o dia do tão esperado assalto. Mas as coisas não correm como estava previsto...
Da autoria de Mário Zambujal e Fernando Lopes, este último também realizador deste filme, em 1984, "A Crónica dos Bons Malandros" conta com um espectacular elenco de atores como é o caso de João Perry, Duarte Nuno, Lia Gama, Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner, Paulo de Carvalho, entre outros.
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domingo, 22 de dezembro de 2013
Eduardo Geada
Eduardo Geada licenciou-se em Estudos Anglo-Americanos, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1976), e despertou para o cinema através do movimento cineclubista. Em 1978, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, conclui na Slade School of Fine Art (London College University) um pós-graduação em Film Studies. Mais tarde terminou o mestrado em Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa, com uma tese intitulada O Cinema Espectáculo (1985) e doutorou-se em História dos Media, com a tese Os Mundos do Cinema: modelos dramáticos e narrativos no período clássico (1997). Durante a sua carreira foi professor da Escola Superior de Teatro e Cinema (1978-2004) e na Escola Superior de Comunicação Social (2003-2004), ambas em Lisboa. Foi ainda professor convidado na Universidade de Berkeley (2007-2008).
Entre 1968 e 1976 desenvolveu uma intensa actividade como crítico de cinema em diversas publicações - Seara Nova, Vértice, Vida Mundial, A Capital, República e Expresso. Na rádio foi autor e apresentador do programa Moviola (1985/86), na Antena 1, dedicado à música de cinema.
De 1997 a 2002 ocupou o cargo de administrador-delegado da Fundação CulturSintra, na Quinta da Regaleira.
Como realizador tem dividido a sua actividade entre o cinema e a televisão. O seu primeiro filme, Sofia ou a Educação Sexual (1973), foi um dos últimos a serem proíbidos pela censura, vindo a estrear só após a Revolução dos Cravos. Com a participação de nomes de vulto da cultura portuguesa, como David Mourão-Ferreira, Jorge Peixinho ou Eduardo Prado Coelho, e a assistência de realização dum outro reputado crítico de cinema, João Lopes, o filme criaria expectativas a que a obra futura do cineasta não corresponderia totalmente.
Sofia e a Educação Sexual (Sofia e a Educação Sexual) 1974
O acesso de Eduardo Geada - crítico e cineclubista - à prática fílmica ocorreu duma forma singular entre nós: passando, directamente, à realização de uma longa metragem. Sofia e a Educação Sexual sofreu as vicissitudes da época de transição política, vindo a estrear em Outubro de 1974, como “filme proibido pela censura”. O sucesso comercial - entre a sugestão do título, e a euforia do estatuto de espectador - culminaria uma aliciante eficácia, da moral em jogo aos jogos da moral.
Também argumentista, Geada encenou o itinerário de revelação, uso e fuga de Sofia - ao confrontar-se, após uma adolescência reprimida, com o requinte social, fútil mas solene, da alta burguesia a que pertence: o cinismo e a hipocrisia em que se desvenda, afinal, um perverso ritual de classe. Em participação especial, figuram David Mourão-Ferreira, Jorge Peixinho e Eduardo Prado Coelho. Os interiores foram rodados no Palácio Centeno, sendo decorador António Casimiro. A fotografia de Manuel Costa e Silva colheu exteriores em Lisboa e Cascais. Sobressaindo os mecanismos de representação e os modelos que a ilustram, tudo se processa em coerência à especificidade cinematográfica - em termos de linguagem, exercício estético, exploração dos artifícios e virtualidades técnicas.
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A Santa Aliança (A Santa Aliança) 1977
Lisboa, Dezembro de 1974: abalada pelo movimento popular de Abril (no PREC), uma influente família de financeiros procura sobreviver e preservar as prerrogativas conquistadas em plena ditadura, jogando com as suas armas naturais: o dinheiro, com que se compram as pessoas; os prazeres camuflados, a imunidade a conservar, a esperança de "melhores dias". Uma experiência teatral revolucionária serve de contraponto»
A Santa Aliança é um dos poucos filmes de ficção do cinema militante português dos anos setenta, o que contrasta com o grande número de documentários dessa época que exploram o género. Tem como particularidade distintiva retratar uma classe social superior, a da alta burguesia, tal como a anterior ficção do mesmo autor: O Funeral do Patrão. Na sua quase totalidade, os filmes documentários do cinema militante retratam, pelo contrário, os problemas e as lutas das classes desfavorecidas: operários, camponeses ou pescadores, em suma os problemas da classe trabalhadora.
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Por do Sol no Areeiro (Por do Sol no Areeiro) 1982
Derradeiro filme da série Lisboa Sociedade Anónima, situado no principio dos anos 70, Pôr do Sol no Areeiro tem uma excelente história, definindo a preceito a mentalidade de uma burguesia das Avenidas que negoceia carros, sentimentos e pessoas com a desenvoltura de uma amoralidade que é bem típica da sociedade lisboeta desse tempo.
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Impossível Evasão (Impossível Evasão) 1983
Impossivel Invasão é o quinto filme da série Lisboa Sociedade Anónima. Situada nos anos 60, é a tocante descida à miséria sentimental de uma pequena burguesia vivendo em quartos alugados, sufocando em precários ordenados de manga-de-alpaca da função pública, com um horizonte cultural de futebol e televisão e tendo, em pano de fundo, a guerra colonial e a glória da ponte sobre o Tejo. Assinale-se um bom trabalho de actores (com relevo para Maria do Céu Guerra), a construção de um clima opressivo e medíocre, bem sublinhado por canções de época, a definição de personagens concisa e rigorosa.
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O Banqueiro Anarquista (O Banqueiro Anarquista) 1981
Fazendo parte das médias metragens para TV Lisboa Sociedade Anónima, este O Banqueiro Anarquista, é bem o exemplo do que um texto fabuloso (de Pessoa), uma cenografia exuberante, uma camara atenta e um actor (Santos Manuel) no seu mais arriscado e conseguido trabalho podem fazer. O resultado é um filme cinicamente divertido, marcadamente representativo da 1ª Républica, onde durante quase uma hora o espectador se deleita (e inquieta, claro) com as falácias de um texto a que Santos Manuel dá o peso de um corpo e de uma voz, quer dizer, torna presente. O Banqueiro Anarquista é uma sátira brilhante aos discursos politicos, de uma inteligencia e de uma ferocidade a toda a prova.
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Saudades Para Dona Genciana (Saudades Para Dona Genciana) 1986
Em 1983, Eduardo Geada realizou - após A Santa Aliança (1977) - mais um filme destinado ao grande ecrã: Saudades Para D. Genciana, com inspiração literária em José Rodrigues Miguéis. Executada por António da Cunha Telles, a produção coube ao Animatógrafo, e ficou a cargo de Artur Semedo, também intérprete. A acção decorre em Lisboa, numa pensão da nova Avenida Amirante Reis cerca de 1918-26, expondo - através duma encenação de valores cromáticos - os amores duma mulher de passado misterioso e futuro incerto. Em paralelo, revelam-se aspectos bizarros e figuras excêntricas da vida citadina, incluindo a tragédia da actriz Maria Alves - assassinada pelo próprio empresário - já recriada por Reinaldo Ferreira, em O Táxi Nº 9297 (1927). A rodagem de interiores decorreu nos estúdios da Tobis Portuguesa, decorados por António Casimiro. Saudades Para D. Genciana estreou em 1986 - ano em que foi galardoado com os Prémios do IPC aos Melhores Argumento, Fotografia e Actriz (Céu Guerra).
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Entre 1968 e 1976 desenvolveu uma intensa actividade como crítico de cinema em diversas publicações - Seara Nova, Vértice, Vida Mundial, A Capital, República e Expresso. Na rádio foi autor e apresentador do programa Moviola (1985/86), na Antena 1, dedicado à música de cinema.
De 1997 a 2002 ocupou o cargo de administrador-delegado da Fundação CulturSintra, na Quinta da Regaleira.
Como realizador tem dividido a sua actividade entre o cinema e a televisão. O seu primeiro filme, Sofia ou a Educação Sexual (1973), foi um dos últimos a serem proíbidos pela censura, vindo a estrear só após a Revolução dos Cravos. Com a participação de nomes de vulto da cultura portuguesa, como David Mourão-Ferreira, Jorge Peixinho ou Eduardo Prado Coelho, e a assistência de realização dum outro reputado crítico de cinema, João Lopes, o filme criaria expectativas a que a obra futura do cineasta não corresponderia totalmente.
Sofia e a Educação Sexual (Sofia e a Educação Sexual) 1974
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A Santa Aliança (A Santa Aliança) 1977
Lisboa, Dezembro de 1974: abalada pelo movimento popular de Abril (no PREC), uma influente família de financeiros procura sobreviver e preservar as prerrogativas conquistadas em plena ditadura, jogando com as suas armas naturais: o dinheiro, com que se compram as pessoas; os prazeres camuflados, a imunidade a conservar, a esperança de "melhores dias". Uma experiência teatral revolucionária serve de contraponto»
A Santa Aliança é um dos poucos filmes de ficção do cinema militante português dos anos setenta, o que contrasta com o grande número de documentários dessa época que exploram o género. Tem como particularidade distintiva retratar uma classe social superior, a da alta burguesia, tal como a anterior ficção do mesmo autor: O Funeral do Patrão. Na sua quase totalidade, os filmes documentários do cinema militante retratam, pelo contrário, os problemas e as lutas das classes desfavorecidas: operários, camponeses ou pescadores, em suma os problemas da classe trabalhadora.
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Por do Sol no Areeiro (Por do Sol no Areeiro) 1982
Derradeiro filme da série Lisboa Sociedade Anónima, situado no principio dos anos 70, Pôr do Sol no Areeiro tem uma excelente história, definindo a preceito a mentalidade de uma burguesia das Avenidas que negoceia carros, sentimentos e pessoas com a desenvoltura de uma amoralidade que é bem típica da sociedade lisboeta desse tempo.
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Impossível Evasão (Impossível Evasão) 1983
Impossivel Invasão é o quinto filme da série Lisboa Sociedade Anónima. Situada nos anos 60, é a tocante descida à miséria sentimental de uma pequena burguesia vivendo em quartos alugados, sufocando em precários ordenados de manga-de-alpaca da função pública, com um horizonte cultural de futebol e televisão e tendo, em pano de fundo, a guerra colonial e a glória da ponte sobre o Tejo. Assinale-se um bom trabalho de actores (com relevo para Maria do Céu Guerra), a construção de um clima opressivo e medíocre, bem sublinhado por canções de época, a definição de personagens concisa e rigorosa.
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O Banqueiro Anarquista (O Banqueiro Anarquista) 1981
Fazendo parte das médias metragens para TV Lisboa Sociedade Anónima, este O Banqueiro Anarquista, é bem o exemplo do que um texto fabuloso (de Pessoa), uma cenografia exuberante, uma camara atenta e um actor (Santos Manuel) no seu mais arriscado e conseguido trabalho podem fazer. O resultado é um filme cinicamente divertido, marcadamente representativo da 1ª Républica, onde durante quase uma hora o espectador se deleita (e inquieta, claro) com as falácias de um texto a que Santos Manuel dá o peso de um corpo e de uma voz, quer dizer, torna presente. O Banqueiro Anarquista é uma sátira brilhante aos discursos politicos, de uma inteligencia e de uma ferocidade a toda a prova.
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Saudades Para Dona Genciana (Saudades Para Dona Genciana) 1986
Em 1983, Eduardo Geada realizou - após A Santa Aliança (1977) - mais um filme destinado ao grande ecrã: Saudades Para D. Genciana, com inspiração literária em José Rodrigues Miguéis. Executada por António da Cunha Telles, a produção coube ao Animatógrafo, e ficou a cargo de Artur Semedo, também intérprete. A acção decorre em Lisboa, numa pensão da nova Avenida Amirante Reis cerca de 1918-26, expondo - através duma encenação de valores cromáticos - os amores duma mulher de passado misterioso e futuro incerto. Em paralelo, revelam-se aspectos bizarros e figuras excêntricas da vida citadina, incluindo a tragédia da actriz Maria Alves - assassinada pelo próprio empresário - já recriada por Reinaldo Ferreira, em O Táxi Nº 9297 (1927). A rodagem de interiores decorreu nos estúdios da Tobis Portuguesa, decorados por António Casimiro. Saudades Para D. Genciana estreou em 1986 - ano em que foi galardoado com os Prémios do IPC aos Melhores Argumento, Fotografia e Actriz (Céu Guerra).
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
José Fonseca e Costa - os Anos Oitenta
José da Fonseca e Costa (Caala, Huambo, 27 de Junho de 1933) é um dos pioneiros em Portugal do movimento do Novo
Cinema.
A viver em Lisboa desde 1945, frequenta o Curso de Direito na Faculdade
de Direito da Universidade de Lisboa (1951/1955), que não termina para
se dedicar às actividades cinematográficas.
Membro da direcção do Cineclube Imagem, faz crítica de Cinema nas
revistas Imagem e Seara Nova. Traduz para português livros de teoria
cinematográfica da autoria de Eisenstein, Guido Aristarco e alguns
romances, entre eles, Il Compagno de Cesare Pavese e Passione di Rosa de
Alba de Cespedes.
Concorrente ao lugar de assistente de realização da RTP (à data da sua
fundação, 1958) é impedido de entrar nos quadros da empresa por
interferência da PIDE, embora fique classificado em primeiro lugar. Em
1960 é lhe recusada uma bolsa de estudo, solicitada ao Fundo do Cinema
Nacional, para frequência de um curso de cinema no estrangeiro,
novamente por informação da PIDE, em cujas prisões é encarcerado por
actividades de oposição política à ditadura.
Inicia a sua formação profissional estagiando em Itália, por volta de
1961, onde trabalha com Michelangelo Antonioni no filme L'Eclisse (O
Eclipse).
De regresso a Portugal, em 1964, produz e dirige centenas de filmes
publicitários e alguns documentários industriais e turísticos,
actividade que interrompe a partir dos anos 70, quando dirige o seu
primeiro filme de ficção (A Metafísica do Chocolate, 1967). É um dos
cineastas do movimento do Novo Cinema em Portugal. Seguem-se O Recado
(1972), Os Demónios de Alcácer Quibir (1977) e Kilas o Mau da Fita
(1981).
Foi sócio-fundador e dirigente, nos anos 60, do Centro Português de
Cinema, e, mais recentemente, da Associação de Realizadores de Cinema e
Audiovisuais, de cuja primeira Direcção foi presidente.
Balada da Praia dos Cães (Balada da Praia dos Cães) 1987
Em Portugal, no início dos anos 60, aparece na Praia dos Cães o cadáver de um homem brutalmente assassinado. O cadáver é identificado como sendo o do major Dantas, um homem procurado pelas autoridades após a sua evasão de uma prisão militar onde aguardava julgamento por insurreição.
Apesar de se tratar de um caso da alçada da PIDE, as investigações são entregues à Polícia Judiciária, concretamente, ao Chefe de Brigada Elias Santana.
Este, a pouco e pouco, vai reconstituindo, imaginando e deduzindo o que se terá passado após a fuga do major e dos seus dois cúmplices, o aquitecto Fontenova e o cabo Barroca, executada com a ajuda no exterior da amante do major, Mena Ataíde. De interrogatório em interrogatório Elias vai penetrando nas personalidades dos suspeitos, descobrir quem matou o major e sobretudo, se foi um crime político ou passional.
Romance policial de José Cardoso Pires publicado em 1982. Trata-se de uma história de natureza policial e política, cuja ação decorre na década de 60, baseada em acontecimentos verídicos ocorridos na praia do Mastro. Foi um grande sucesso nos anos 80.
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Sem Sombra de Pecado (Sem Sombra de Pecado) 1983
"Sem Sombra de Pecado" é ainda, tecnicamente, um dos mais apurados filmes portugueses dos últimos anos. Para tanto contribuem Eduardo Serra (fotografia) e Jasmim (cenários) em trabalhos exemplares. E os actores: grande destaque para Victoria Abril e Mário Viegas, num cast praticamente sem falhas. Foi selecionado para o festival de Cannes.
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Kilas, o Mau da Fita (Kilas, o Mau da Fita) 1980
Kilas (Mário Viegas), é amante de uma artista de variedades, Pepsi-Rita (Lia Gama), à custa de quem vive – em casa da Madrinha (Milú), uma mulher nostálgica, que resgatou o afilhado da infância desvalida. Pela sua esperteza, Kilas lidera um grupo de marginais, contrados por um enigmático Major (Lima Duarte), para vigiarem um prédio, onde vão reunir-se personalidades “suspeitas”.
Quando tal acontece, e alertado o Major, uma bomba explode na casa que se anuncia dum conhecido anti-fascista. Alarmado, Kilas procura desligar-se – mas o seu destino está já marcado, por uma rivalidade passional.
De memórias suadas, carne mole, medos medíocres, vícios e nicotina, surge Kilas - aturdido pela pequenês do físico, tacão alto a deitar figura, de arrogância por medida. Entre tipos marginais e mitos precários de uma farsa passional, eis a criatura mais popular e característica deste filme português. Estilizada por José Fonseca e Costa em Kilas, o Mau da Fita - um dos maiores sucessos do cinema português no pós-25 de Abril.
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Balada da Praia dos Cães (Balada da Praia dos Cães) 1987
Em Portugal, no início dos anos 60, aparece na Praia dos Cães o cadáver de um homem brutalmente assassinado. O cadáver é identificado como sendo o do major Dantas, um homem procurado pelas autoridades após a sua evasão de uma prisão militar onde aguardava julgamento por insurreição.
Apesar de se tratar de um caso da alçada da PIDE, as investigações são entregues à Polícia Judiciária, concretamente, ao Chefe de Brigada Elias Santana.
Este, a pouco e pouco, vai reconstituindo, imaginando e deduzindo o que se terá passado após a fuga do major e dos seus dois cúmplices, o aquitecto Fontenova e o cabo Barroca, executada com a ajuda no exterior da amante do major, Mena Ataíde. De interrogatório em interrogatório Elias vai penetrando nas personalidades dos suspeitos, descobrir quem matou o major e sobretudo, se foi um crime político ou passional.
Romance policial de José Cardoso Pires publicado em 1982. Trata-se de uma história de natureza policial e política, cuja ação decorre na década de 60, baseada em acontecimentos verídicos ocorridos na praia do Mastro. Foi um grande sucesso nos anos 80.
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Sem Sombra de Pecado (Sem Sombra de Pecado) 1983
Lisboa, 1943.
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
Deste modo, aprende o que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os inimigos, os aliados... - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/1731#sthash.p6S7xO5B.dpuf
Lisboa, 1943. Um jovem oriundo de uma família da alta-burguesia, Henrique,
recebe no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de
uma mulher que o atrai a encontros sem consequências. Deste modo, aprende o
que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os
inimigos, os aliados.Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
Deste modo, aprende o que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os inimigos, os aliados... - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/1731#sthash.p6S7xO5B.dpuf
"Sem Sombra de Pecado" é ainda, tecnicamente, um dos mais apurados filmes portugueses dos últimos anos. Para tanto contribuem Eduardo Serra (fotografia) e Jasmim (cenários) em trabalhos exemplares. E os actores: grande destaque para Victoria Abril e Mário Viegas, num cast praticamente sem falhas. Foi selecionado para o festival de Cannes.
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Kilas, o Mau da Fita (Kilas, o Mau da Fita) 1980
Kilas (Mário Viegas), é amante de uma artista de variedades, Pepsi-Rita (Lia Gama), à custa de quem vive – em casa da Madrinha (Milú), uma mulher nostálgica, que resgatou o afilhado da infância desvalida. Pela sua esperteza, Kilas lidera um grupo de marginais, contrados por um enigmático Major (Lima Duarte), para vigiarem um prédio, onde vão reunir-se personalidades “suspeitas”.
Quando tal acontece, e alertado o Major, uma bomba explode na casa que se anuncia dum conhecido anti-fascista. Alarmado, Kilas procura desligar-se – mas o seu destino está já marcado, por uma rivalidade passional.
De memórias suadas, carne mole, medos medíocres, vícios e nicotina, surge Kilas - aturdido pela pequenês do físico, tacão alto a deitar figura, de arrogância por medida. Entre tipos marginais e mitos precários de uma farsa passional, eis a criatura mais popular e característica deste filme português. Estilizada por José Fonseca e Costa em Kilas, o Mau da Fita - um dos maiores sucessos do cinema português no pós-25 de Abril.
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Lisboa, 1943.
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
Deste modo, aprende o que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os inimigos, os aliados... - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/1731#sthash.p6S7xO5B.dpuf
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
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Lisboa, 1943.
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
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Lisboa, 1943.
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
Deste modo, aprende o que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os inimigos, os aliados... - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/1731#sthash.p6S7xO5B.dpuf
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Lisboa, 1943.
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
Deste modo, aprende o que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os inimigos, os aliados... - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/1731#sthash.p6S7xO5B.dpuf
Um jovem oriundo de família da alta-burguesia, Henrique recebe, no quartel onde presta serviço militar, telefonemas misteriosos de uma mulher que o atrai a encontros sem consequências.
Deste modo, aprende o que o amor e a guerra têm em comum: as estratégias, as tácticas, os inimigos, os aliados... - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/1731#sthash.p6S7xO5B.dpuf
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
João Botelho - Os Primeiros Filmes
João Botelho, hoje um realizador de prestígio e muito conceituado,
começou a sua carreira como ilustrador de livros infantis e artes
gráficas, a partir de 1970, tendo ainda passado pela Escola Técnica de
Matosinhos, como professor. A Faculdade de Ciências da Universidade de
Coimbra, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a Escola
de Cinema do Conservatório Nacional são as instituições que fazem parte
do seu percurso académico.
Fundador da revista M, foi crítico de cinema em jornais e revistas. Inicia-se na realização com duas curtas-metragens para a RTP e com o documentário de longa-metragem “Os Bonecos de Santo Aleixo” para a cooperativa Paz dos Reis. Aliás, da sua imensa obra, destacam-se: “Conversa Acabada”, de 1980; “Um Adeus Português”, de 1985, sobre a experiência da Guerra Colonial; “Tráfico”, de 1998; “A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos”, de 2003; “A Terra Antes do Céu”, de 2007. Mais recentemente, foi responsável pela elaboração de um documentário em torno de Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura e pela curta-metragem “A Valsa” para a Companhia Nacional de Bailado.
Os seus filmes arrebataram já inúmeros prémios em vários festivais de cinema: Figueira da Foz, Antuérpia, Rio de Janeiro, Veneza, Berlim, Salsomaggiore, Pesaro, Belfort, Cartagena, entre muitos outros, conquistando por duas vezes o prémio da OCIC, da Casa da Imprensa e dos Sete de Ouro. Hoje vamos conhecer os seus três primeiros filmes.
Tempos Difíceis(Tempos Difíceis) 1988
Actualidade. A cidade de Poço do Mundo, através de três famílias: os Cremalheira - cujo pretencioso patrono ambiciona ser deputado; Grandela - um industrial prepotente, porventura de origens humildes; Sebastião - um operário patético e infeliz com a mulher. Uma vivência emergente de conformismo ou frustração, de humilhações ou prepotências, de renúncia ou rídiculos, de infâmias ou mediocridade. Entre títeres e pervertidos, exploradores e humilhados...
Na sua terceira longa-metragem, João Botelho adaptou o romance homónimo de Charles Dickens, mas o mundo do escritor victoriano é facilmente identificado com a realidade portuguesa ("Tempos Difíceis, Este Tempo"). Num lugarejo, o "Poço do Mundo", que é um microcosmo social, convivem a riqueza e a pobreza mais extrema, a cultura e a ignorância, a perversidade e a inocência. De Dickens a Botelho, o filtro é de D.W. Griffith, com um rosto feminino, Julia Britton, que parece saída de um dos melodramas do mestre americano. A fotografia, num preto e branco rasante, é um trabalho notável de Elso Roque.
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Um Adeus Português (Um Adeus Português) 1986
África Portuguesa, 1973. Nos últimos tempos da Guerra Colonial um pequeno grupo de soldados avança no mato. Um soldado morre vítima do rebentamento de uma mina. Em Lisboa, doze anos depois, Raul e Piedade, pequenos agricultores do Minho, visitam Alexandre, o filho mais novo, e Laura, a viúva do filho mais velho que morreu em Àfrica na guerra. A família volta a estar junta, mas nunca será o que foi. Há uma pequena dor, serena e amarga, que o tempo não esbateu. Raul e Piedade regressam à terra. Alexandre e Laura não têm lugar para regressar. Nem para esquecer.
A ação desta longa-metragem desenvolve-se em dois planos que se entrecruzam habilmente: no primeiro, acompanha-se o percurso trágico de um grupo de militares em território africano, em combate na Guerra Colonial; no outro, assiste-se à vivência perturbada de uma família, longe do teatro de operações.
Um Adeus Português é, assim, uma reflexão, mais existencial do que política, sobre o sacrifício e o sofrimento. O seu interesse reside no facto de abordar o tema da Guerra Colonial portuguesa, acontecimento histórico recente que, por esta altura, começava a ser tratado na criação artística, nomeadamente na literatura.
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Conversa Acabada (Conversa Acabada) 1982
No início deste século, em profunda crise política e moral da sociedade portuguesa (uma confusa I Républica, com restos de uma monarquia podre), um encontro e um momento de catástrofe: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro Reinventam a língua, o modo de dizer, pagando os riscos da sua aventura. Um rebenta a solidão no fogo dos heterónimos, que lhe permitem prolongar a existência; o outro despedaça o corpo e a própria vida, na vertigem dispersa de poemas e novelas. A história desse encontro - os textos, a amizade e a morte...
Tirando o melhor partido do ecrã virtual (tal como existia há trinta anos), este é um filme indissociável de todo uma assumida teatralidade que passa, não apenas pelo artifício das composições, mas também pelo peso específico das palavras. Afinal de contas, de Manoel de Oliveira a Jacques Rivette, passando por David Lynch, essa tetralidade é essencial para compreender algumas das vias fundamentais do cinema moderno.
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Fundador da revista M, foi crítico de cinema em jornais e revistas. Inicia-se na realização com duas curtas-metragens para a RTP e com o documentário de longa-metragem “Os Bonecos de Santo Aleixo” para a cooperativa Paz dos Reis. Aliás, da sua imensa obra, destacam-se: “Conversa Acabada”, de 1980; “Um Adeus Português”, de 1985, sobre a experiência da Guerra Colonial; “Tráfico”, de 1998; “A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos”, de 2003; “A Terra Antes do Céu”, de 2007. Mais recentemente, foi responsável pela elaboração de um documentário em torno de Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura e pela curta-metragem “A Valsa” para a Companhia Nacional de Bailado.
Os seus filmes arrebataram já inúmeros prémios em vários festivais de cinema: Figueira da Foz, Antuérpia, Rio de Janeiro, Veneza, Berlim, Salsomaggiore, Pesaro, Belfort, Cartagena, entre muitos outros, conquistando por duas vezes o prémio da OCIC, da Casa da Imprensa e dos Sete de Ouro. Hoje vamos conhecer os seus três primeiros filmes.
Tempos Difíceis(Tempos Difíceis) 1988
Actualidade. A cidade de Poço do Mundo, através de três famílias: os Cremalheira - cujo pretencioso patrono ambiciona ser deputado; Grandela - um industrial prepotente, porventura de origens humildes; Sebastião - um operário patético e infeliz com a mulher. Uma vivência emergente de conformismo ou frustração, de humilhações ou prepotências, de renúncia ou rídiculos, de infâmias ou mediocridade. Entre títeres e pervertidos, exploradores e humilhados...
Na sua terceira longa-metragem, João Botelho adaptou o romance homónimo de Charles Dickens, mas o mundo do escritor victoriano é facilmente identificado com a realidade portuguesa ("Tempos Difíceis, Este Tempo"). Num lugarejo, o "Poço do Mundo", que é um microcosmo social, convivem a riqueza e a pobreza mais extrema, a cultura e a ignorância, a perversidade e a inocência. De Dickens a Botelho, o filtro é de D.W. Griffith, com um rosto feminino, Julia Britton, que parece saída de um dos melodramas do mestre americano. A fotografia, num preto e branco rasante, é um trabalho notável de Elso Roque.
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Um Adeus Português (Um Adeus Português) 1986
África Portuguesa, 1973. Nos últimos tempos da Guerra Colonial um pequeno grupo de soldados avança no mato. Um soldado morre vítima do rebentamento de uma mina. Em Lisboa, doze anos depois, Raul e Piedade, pequenos agricultores do Minho, visitam Alexandre, o filho mais novo, e Laura, a viúva do filho mais velho que morreu em Àfrica na guerra. A família volta a estar junta, mas nunca será o que foi. Há uma pequena dor, serena e amarga, que o tempo não esbateu. Raul e Piedade regressam à terra. Alexandre e Laura não têm lugar para regressar. Nem para esquecer.
A ação desta longa-metragem desenvolve-se em dois planos que se entrecruzam habilmente: no primeiro, acompanha-se o percurso trágico de um grupo de militares em território africano, em combate na Guerra Colonial; no outro, assiste-se à vivência perturbada de uma família, longe do teatro de operações.
Um Adeus Português é, assim, uma reflexão, mais existencial do que política, sobre o sacrifício e o sofrimento. O seu interesse reside no facto de abordar o tema da Guerra Colonial portuguesa, acontecimento histórico recente que, por esta altura, começava a ser tratado na criação artística, nomeadamente na literatura.
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Conversa Acabada (Conversa Acabada) 1982
No início deste século, em profunda crise política e moral da sociedade portuguesa (uma confusa I Républica, com restos de uma monarquia podre), um encontro e um momento de catástrofe: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro Reinventam a língua, o modo de dizer, pagando os riscos da sua aventura. Um rebenta a solidão no fogo dos heterónimos, que lhe permitem prolongar a existência; o outro despedaça o corpo e a própria vida, na vertigem dispersa de poemas e novelas. A história desse encontro - os textos, a amizade e a morte...
Tirando o melhor partido do ecrã virtual (tal como existia há trinta anos), este é um filme indissociável de todo uma assumida teatralidade que passa, não apenas pelo artifício das composições, mas também pelo peso específico das palavras. Afinal de contas, de Manoel de Oliveira a Jacques Rivette, passando por David Lynch, essa tetralidade é essencial para compreender algumas das vias fundamentais do cinema moderno.
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terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Chá Forte com Limão (Chá Forte com Limão) 1993
Verão de 1970. A velha proprietária da fidalguia provinciana Raquel, habita num casarão antigo, com o mordomo e poucos criados, sem abandonar os limites rurais. Entre os vagos amigos que a visitam, chega um dia Adriana e a sua afilhada, Ermesinda. Adriana viveu na mansão há 15 anos, tendo saído por razões que se desconhecem. Raquel convida-as a passarem 15 dias. Recomeçam, assim, as tardes de estranhas quimeras, mas o reencontro das duas mulheres não esconde certa reservas, uma ambiguidade onde se afloram antigas feridas.
Chá Forte com Limão é a última longa-metragem de António de Macedo até à data. Com argumento e montagem do próprio realizador - uma constante, aliás, de todos os seus filmes - é aparentemente uma ghost story, de ambientação romântica, pretexto para o realizador descrever sucessivas etapas iniciáticas das personagens envolvidas. Reconhecendo ser um "atormentado pelo cânone narrativo", presiste na sua busca incansável daquilo a que ele chama "os velhos canônes": "Para mim o grande mistério consiste em saber como se escreve compõe qualquer coisa de maneira que, em cada momento, o espectador esteja interessado, não no que está a ver, mas naquilo que ele imagina, quer ou deseja ver a seguir.. É a isto que eu chamo o cânone clássico". O filme recebeu o Prémio Internacional CICAE 1993.
Jean-Pierre Cassel faz parte do elenco.
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Os Abismos da Meia-Noite (Os Abismos da Meia-Noite) 1984
Irene, agente de uma companhia de seguros, é encarregada de investigar o desaparecimento de um velho bibliotecário, numa cidade de província. No decurso das suas averiguações, trava conhecimento com Ricardo, professor de história, que conhecia a vítima e se interessa pelas tradições lendárias da região. Assim, Irene tem conhecimento do antiquíssimo castelo medieval - cuja entrada secreta se abre, misteriosamente, na noite de Natal, durante as 12 badaladas da meia-noite.
Os filmes de António de Macedo - e de uma maneira muito particular, Os Abismos da Meia-Noite - apresentam um notável rigor e eficácia ao nível da imagem e do som. Para a criação de um mundo bizarro e expectante - cujos habitantes estão suspensos de nova fecundação siderial, sendo surpreendidos pela chegada de terrestes impuros e intrusos - Macedo fez construír no estúdio da Tóbis Portuguesa um insólito cenário, ora luxuriante ora metalizado, concebido por Antonio Casimiro, e propício a invocar uma atmosfera sobrenatural, com recursos aos efeitos especiais e trucagens ópticas nunca antes tentadas entre nós... Destaca-se igualmente a elaborada sonoplastia - proporcionando ao registo musical e de ruídos virtualidades que ultrapassam o estrito sublinhar da acção, para adquirir uma específica intencionalidade dramática.
António de Macedo teve sucessos de bilheteira - recorde-se A Promessa (1972) ou Os Abismos da Meia-Noite (1983) - e muitas vezes foi mal visto por isso mesmo. Igual argumento emprega, aliás, António-Pedro Vasconcelos para criticar a falta de oportunidades que teve na sua carreira pós-O Lugar do Morto (1984). No entanto, o rigor que António de Macedo sempre manifestou no tratamento estético dos seus filmes e a riqueza e diversidade dos mesmos fazem com que seja quase um acto criminoso.
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Agosto (Agosto) 1988

Enquanto Portugal continua envolvido na Guerra em África, Carlos, um violoncelista, passa as férias de Verão na praia com um casal amigo, Alda e Dário. O mundo parece-lhes distante, o que os leva, aos três, a experimentar os ritos da amizade e solidão.
"Agosto" é o oposto das chamadas fitas de Verão, como as paixões que lá se contam estão nos antípodas dos amores de praia. No ramo subtil e luminoso de Rohmer, nasceu um fruto pesado e escuro de Antonioni - contudo, é manifesto que este trabalho não vive da receita mas da intuição do autor que nas imagens se traduz pela procura do vibrátil como substituto do latente.
A excelente fotografia de Acácio de Almeida dá textura a esta aposta. Ela é quase mimética da ofuscação de Carlos, voyeur hipersensível que se deixa encadear pelas projecções da sua própria solidão. Na base do triângulo passional, a relação de Dario e Alda, tão vulgar que o torpor pode parecer um poço de mistério.
Se há pecado a censurar a Jorge Silva Melo, será talvez o excesso de requinte com que sacrifica a caótica expressão da vitalidade das suas personagens - todas elas "jovens" - em favor da cruel ambiguidade dos afectos - embora as margens do enredo se tinjam com as cores fortes do sangue, do sexo e da loucura e, para além dessas, se erga o cerco fantasmático de um fascismo e de uma guerra.
A tensão e a tristeza na maneira de abordar a amizade masculina - trata-se de um abeiramento porque a mulher funciona como amortecedor da tal queda em si que Camus descreveu - faz deste filme um caso raro de contenção e despudor. E, como quem não quer a coisa, Silva MeIo coloca-nos nos braços a questão de uma força anímica e inconsciente poder reger melhor a vida do que o diabo a pinta. Na balança, que é aqui o signo solar, pesa-se o estéril e o fértil.
Pedro Hestnes desempenha um dos seus papéis mais memoráveis, e Pedro Costa é assistente de realização, um ano antes de fazer "O Sangue".
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Uma Rapariga no Verão (Uma Rapariga no Verão) 1986
Isabel é uma adolescente, como tantas outras adolescentes portuguesas, mas talvez não… é única, como singulares podem ser todas as vidas a ganhar a forma própria. No final deste período da vida em que a ponte para o estado adulto parece tão perto como essencial, esta "Rapariga no Verão" deixa-se arrastar pelos sonhos, lançando-se à procura da independência, quer em termos familiares, quer profissionais. Mais do que tudo, esta jovem quer ser feliz e experimentar o amor. E não é fácil perceber "porque é que os outros a fazem esperar?"
Durante os cinco anos em que Vitor Gonçalves fabricou este filme, ele mudou muito. De título, chamava-se Conrádio no início), de argumento, de duração (pensado e financiado como uma média-metragem havia de se tornar longa à custa da persistência do seu autor).
Pelos defeitos do filme (como por exemplo irregularidade da fotografia) responderá essa gestação atribulada, a falta de meios financeiros, a rodagem entrecortada, as filmagens com película de diversa origem, ás vezes cedidas de sobras de outras fitas...Era um milagre que "Uma Rapariga no Verão" fosse tecnicamente irrepreensível e, sabe-se, milagres desses não existem em cinema. Já é muito bom que, para quem saiba olhar, esteja aqui uma estimulante estreia cinematográfica tanto mais importante quanto pautada pela ausência de certezas, pelo gosto da elipse, pela atenção ao espaço sonoro, pelo rigor aliado à demanda de uma liberdade desconcertante e, acima de tudo, pela permanente interrogação do cinema e dos seus materiais.
E há, claro, a descoberta de Isabel Galhardo que bem poderia ter sido o emblema de uma nova geração do cinema português. Infelizmente foi o seu único filme. Era bom que o futuro do cinema português fosse tão livre e tão urgente como este filme. Pedro Costa era assistente de realização.
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