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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Confrontação (Affliction) 1997

O xerife da cidade de New Hampshire (Nick Nolte) terá que resolver o problema de um amigo que, no primeiro dia de caça, deu um tiro acidental num rico homem de negócios. Apesar de ter inúmeros conflitos pessoais, este sossegado xerife decide investigar mais a fundo o caso, percebendo que tudo pode ter sido planeado.
"Affliction", de Paul Schrader, é um drama familiar poderoso e sombrio sobre a incapacidade trágica de um filho de não se tornar como o pai. Passado no frio intenso da temporada da caça ao veado de Lawford, New Hampshire, está repleto de temas sobre a violência geracional, o domínio dos homens sobre as mulheres, o domínio dos ricos sobre os pobres, o alcoolismo, e o abuso infantil. Como argumentista e realizador, Schrader sempre olhou para os recantos mais obscuros da experiência americana, como em "Taxi Driver", "Harcore" ou "American Gigolo", escolheu aqui talvez o canto mais obscuro de todos, mostrando como a violência do pai passa a ser a do filho, garantindo um ciclo interminável de violência e miséria.
Com um grande elenco, é um filme de actores. Garantiu um Óscar de Melhor Actor Secundário a James Coburn, que aparece no papel do pai, mas a verdadeira alma do filme é Nick Nolte, nomeado para melhor actor. Apesar do filme ter estreado no Festival de Veneza de 1997, só viria a ser exibido nos cinemas americanos mais de um ano depois. 
Legendas em espanhol. 


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

eXistenZ (eXistenZ) 1999

Jennifer Jason Leigh é Allegra Geller, uma das mais famosas designers de jogos electrónicos do mundo, e está a testar a sua mais recente obra, Existenz, num grupo de utilizadores. A meio da sessão um fan fanático irrompe na sala para a matar, utilizando uma arma orgânica bizarra. O episódio faz parte do próprio jogo o o filme faz-se disso mesmo. De uma época em que os personagens dos jogos electrónicos são humanos que se conectam a terminais orgânicos, feitos de tecidos animais, e são transportados para outra dimensão.
David Cronenberg de volta ao seu estilo tradicional. Embora todos os seus filmes mais recentes - "Naked Lunch", "Dead Ringers", "M. Butterfly", "The Fly", "The Dead Zone" - contivessem um pouco dessa linguagem exclusivamente cronenbergiana, na qual o mundo emocional é trazido à vida em termos de lógica e detalhe visceral, "eXistenZ" é o primeiro filme desde "Videodrome" (1983) que é inteiramente escrito por si, sem recorrer a uma adaptação de um trabalho já existente anteriormente. Tal como "Videodrome", "eXistenZ" coloca o corpo humano como receptáculo e gerador de um mundo sombrio de fantasia e realidade alternativa. Tudo isto não são meras metáforas para Cronenberg. Sexo e horror, prazer e morte, estão intimamente ligados no mundo do realizador. 
Nas mãos de qualquer outra pessoa o filme não seria tão bem sucedido, e mesmo Cronenberg falha a explicar os seus motivos, preferindo dedicar-se a exercicíos surrealistas de lógica sonadora. Mas o seu estilo de horror minimalista evita os efeitos gerados por computador. Isto permite que ignoremos as galhas do filme, enquanto Geller e Pikul mergulham mais profundamente no jogo, ficando sem saber qual das realidades é a sua.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

New Rose Hotel (New Rose Hotel) 1998

Num futuro próximo, um brilhante engenheiro de genética japonês, Hiroshi, é o prémio que disputam 2 mega empresas, uma japonesa e outra alemã. Os revolucionários descobrimentos do cientista têm o poder de transformar o mundo e gerar biliões de benefícios. Hosaka contrata uma equipa de espiões formado por X e Fox, para ganhar a confiança de Hiroshi em prejuízo de Maas. A estratégia destes mercenários consistirá em atrair Hiroshi utilizando os encantos de uma jovem e bela prostituta.
Uma adaptação sombria por Abel Ferrara de uma história curta de William Gibson, o autor de "Neuromancer" e "Johnny Mnemonic", onde o mundo do cyberpunk é acompanhado pela obsessão do realizador por homens de meia idade perdidos em busca da redenção através da cura sexual. "New Rose Hotel" é passado num mundo vagamente futurista cheio de escuridão, neon, espelhos e vidros. Os nossos heróis vão passando por vários bares e quartos de hotel que podem ser localizados em qualquer lugar, desde Nova Iorque a Tóquio. Mas o filme funciona, sobretudo, graças ao desempenho dos seus dois protagonistas: Christopher Walken e Willem Dafoe. Ferrara deixa estes dois gigantes improvisarem em grande parte do diálogo em conjunto, combinando perfeitamente. Asia Argento contracena com eles.
Tal como grande parte dos filmes de Ferrara, teve lançamento limitado, mas foi exibido no festival de Veneza de 1998, onde ganhou dois prémios, e concorreu para o Leão de Ouro.

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Basquiat (Basquiat) 1996



Basquiat conta a história da ascenção meteórica do jovem artista Jean-Michel Basquiat, começando como artista de rua. A viver numa caixa de cartão em Thompkins Square Park, Basquiat é descoberto pelo mundo da arte de Andy Warhol (aqui interpretado por David Bowie), e torna-se uma estrela. Mas o sucesso tem um preço alto, e Basquiat paga-o com a amizade, o amor, e, eventualmente, a sua vida.
"Basquiat" é um biopic realizado por Julian Schnabel, que conheceu o verdadeiro Jean-Michel Basquiat, e que iniciava aqui a sua carreira atrás das câmeras. Nascido nos anos 50, em Brooklyn, ficaria famoso nos anos oitenta como pintor neo-expressionista. No cinema, ficaria mais conhecido pela co-produção franco-americana "Le scaphandre et le Papillon", com a qual foi nomeada para o Óscar de Melhor Argumento.
O filme não podia ter sido feito sem Jeffrey Wright, numa brilhante interpretação. Mudando desde um punk sem-tecto a um artista ousado capaz de agradar à elite. Jean-Michel Basquiat era viciado em drogas, e tornou-se num fenómeno da arte antes de uma overdose de heroína dar cabo da sua vida. Infelizmente o filme acaba por não ter muito sucesso na transposição da vida emocional do pintor. A frustração do filme vem na tentativa de recriar a criança dentro do pintor, e estudar o homem por de trás da máscara. Wright interpreta-o como um homem sem medo. Num minuto ele é um anjo ferido em desacordo com o mundo, no outro ele é um malandro que parece nunca se preocupar com as pessoas. Vai buscar influências na mitologia de Rimbaud, Charlie Parker, Jimi Hendrix, e Jim Morrison, acabando por se aniquilar com drogas, juntando-se aos seus heróis no final. 
Um elenco muito interessante, com muitas caras conhecidas em papéis secundários: Michael Wincott, Benicio Del Toro, Claire Forlani, Dennis Hopper, Gary Oldman, Christopher Walken, Willem Dafoe e Courtney Love. Tom Waits colaborou na banda-sonora, com duas músicas: "Who Are You This Time" e "Tom Traubert's Blues (Four Sheets to the Wind in Copenhagen)".

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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um Coração Selvagem (Wild at Heart) 1990



Vencedor surpresa da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1990, "Um Coração Selvagem" era um filme muito aguardado, dado o culto que pairava sobre David Lynch, depois do filme de 1986, "Veludo Azul" e a sua peculiar série de televisão Twin Peaks. "Um Coração Selvagem" é um típico "filme de Lynch", misturando emoções humanas genuínas com personagens absurdas, humor negro e situações surreais, é um cocktail explosivo de romance e violência.
Os dois personagens principais são Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula Pace (Laura Pace), jovens amantes em fuga da psicótica mãe de Lula, Marietta, perversamente interpretada por Diane Ladd, mãe de Dern na vida real. Na chocante cena de abertura, Marietta contrata um homem para esfaquear Sailor, mas este consegue escapar, literalmente rebentando com os miolos do seu adversário. Sailor passa alguns anos na prisão, período em que Lula obedientemente espera por ele. Quando ele sai, ela espera-o e seguem para uma noite de amor e de dança, dirigindo-se depois para a Califórnia. Marietta, por sua vez, contrata um detective particular (Harry Dean Stanton) para segui-los, mas como acha que isto não é suficiente, apela a um chefe do crime local chamado Santos (JE Freeman) para contratar assassinos para matarem Sailor. 
"Wild at Heart" é a versão de Lynch de "Romeu e Julieta" com uns toques de "Bonnie & Clyde", e apenas por diversão, também tem algumas alusões visuais e temáticas da "O Feiticeiro de Oz", e até uma alucinação de última hora envolvendo a Good Witch of the East , interpretada por Sheryl Lee, a Laura Palmer de "Twin Peaks, flutuando numa bolha brilhante. Aqueles que não apreciam Lynch tendem a olhar para os seus filmes e ver apenas loucura, mas há um método nos seus filmes, que o elevam bem acima de qualquer realizador "normal". Os mundos que ele cria são decididamente bizarros, mas são sempre reflexões do nosso próprio mundo, o brilho dos seus filmes é o modo que ele usa para que nos possamos ver a nós próprios e ás nossas obsessões. 
"Wild at Heart" não funcionaria se não acreditassemos realmente no romance entre Sailor e Lula, e é por isso que as interpretações de Cage e Laura Dern são tão cruciais. De certa forma, eles são caricaturas. Cage intrepreta um Elvis que é uma espécie de James Dean, gritando com orgulho que o casaco de pele de cobra é "um símbolo da minha individualidade e da minha da crença na liberdade pessoal." Dern, por outro lado, é a loira estúpida e hypersexual. No entanto, logo abaixo das superfícies vertiginosas destas personagens sentimos a batida de corações humanos genuínos, e Lynch não se importa de pontuar a narrativa visceral com momentos de silêncio em que estes dois personagens interagem, falando sobre o seu passado e as suas ambições e segredos de compartilhamento. Por toda a sua exuberância, eles são claramente seres humanos com emoções, desejos e crenças. Como muitos outros filmes de Lynch, este também é extremamente violento. Parte disso é por causa da modo visceral com que Lynch apresenta a violência e também por causa de sua tendência para encontrar o humor no sangue.
O fabuloso elenco conta ainda com Willem Dafoe, Crispin Glover, Isabella  Rossellini, Fraddie Jones, entre outros.

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sábado, 16 de março de 2013

Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in L.A.) 1985


Dois policias em Los Angeles (William Petersen e Dean Stockwell)  tentam capturar o cruel criminoso Eric Masters (Willem Dafoe). De seguida, um deles é morto por Masters, e o outro jura vingança, não importa a que custo. De seguida, a caça ao homem torna-se uma obsessão para lá da lei, uma vez que a causa que ele jurou defender deixou de ter sentido.
Se há algo para ser dito sobre William Friedkin, é que ele é um homem que destrói todas as expectativas. Nunca estamos seguros no seu mundo. Precisamente quando pensávamos que Popeye Doyle tinha o seu homem na mão em "French Connection", vêmo-lo ficar de mãos a abanar. "O Exorcista" caminhou para excessos nunca explorados antes, e quando pensávamos que tudo estava terminado, temos um enorme twist. Naquele que foi comercializado como um thriller mainstream para Al Pacino, "Cruising", tornou-se numa incursão ao mundo surreal da homossexualidade, acentuado na última cena com uma ambiguidade sexual que nunca tinha sido vista no cinema de Hollywood, nem antes, nem depois. Friedkin regressou, em 1985, ao território do policial duro, "Viver e Morrer em LA" é um jogo inteiro de expectativas. São tantas as voltas e reviravoltas que se reúnem num filme que se sente ser o mais completo e satisfatório de todo o trabalho de Friedkin. O twist final é menos anti-clímax e tematicamente mais adequado do que o de "French Connection", enquanto que o sangue e a violência extrema dão a Los Angeles um realismo bastante corajoso, em comparação com o excesso desnecessário do vómito e a ofensividade de "O Exorcista".
Uma sequência de nudez frontal de William Petersen tira qualquer dúvida de que este filme não vai jogar pelas convenções do cinema mainstream, mas é com o final que tudo isto vai ficar mais explicíto. No confronto final entre Petersen e Dafoe, acontece algo, que eu não vou falar aqui, mas que vocês vão ter que ver o filme. Esta sequência rebenta com todas as expectativas de um filme policial, mas também parece, paradoxalmente, a mais realista.
De realçar que Willem Dafoe teve aqui um dos seus mais brilhantes papéis, como o vilão do filme. 


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