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domingo, 28 de maio de 2017

Sid & Nancy (Sid and Nancy) 1986

“Sid e Nancy” conta a história verídica de um relacionamento muito estranho, pateticamente infeliz e terrivelmente desastroso de dois indivíduos terrivelmente auto-destrutivos. Vagamente baseado no caso de amor volátil do baixista dos The Sex Pistols, Sid Vicious e a sua groupie americana, Nancy Spungen, o filme começa como qualquer outro romance de conto de fadas – o rapaz conhece a rapariga, as diferenças mantêm-nos separados, mas depressa eles se unem para viver felizes para sempre. Só que esta história começa com uma nota sombria e ficando progressivamente pior. A felicidade para sempre é pura fantasia, algo que em última análise só existe nas suas mentes. Mas, apesar de tudo isto, o amor e o compromisso com o outro é chocantemente genuíno e mais honesto do que o visto na maioria dos filmes de Hollywood.
Alex Cox alcançou o seu sucesso comercial com o seu segundo filme, "Sid & Nancy", e fê-lo sem qualquer compromisso político ou artístico.  Longe de ser um realizador comercial, Cox manteve o seu surrealismo punk na assinatura, enquanto trabalhava no mainstream mais em termos de estrutura narrativa e caracterização. "Sid & Nancy" é a história de um viciado que é saudado como um avatar de autenticidade (no filme representa a rebelião, enquanto as estrelas mais velhas representam decadência e compromisso).
O argumento, escrito pelo próprio Alex Cox e Abbe Wool, está cheio de imprecisões e feito principalmente a partir de conjecturas, mas isto faz parte da intenção de Cox, onde o foco deliberado é apenas sobre os personagens do título, e não sobre a história dos Sex Pistols, o vocalista Johnny Rotten ou o seu empresário Malcolm McLaren. Cox faz um óptimo trabalho ao manter Sid e Nancy como ponto focal em toda a história, enquanto que a música apenas parece surgir em torno deles, como a entrevista de Bill Grundy na TV e a performance da banda no rio Tamisa.
Gary Oldman e Chloe Webb, ambos em inicio de carreira, interpretam os dois protagonistas, e a cantora Courtney Love tem uma pequena participação. 

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Basquiat (Basquiat) 1996



Basquiat conta a história da ascenção meteórica do jovem artista Jean-Michel Basquiat, começando como artista de rua. A viver numa caixa de cartão em Thompkins Square Park, Basquiat é descoberto pelo mundo da arte de Andy Warhol (aqui interpretado por David Bowie), e torna-se uma estrela. Mas o sucesso tem um preço alto, e Basquiat paga-o com a amizade, o amor, e, eventualmente, a sua vida.
"Basquiat" é um biopic realizado por Julian Schnabel, que conheceu o verdadeiro Jean-Michel Basquiat, e que iniciava aqui a sua carreira atrás das câmeras. Nascido nos anos 50, em Brooklyn, ficaria famoso nos anos oitenta como pintor neo-expressionista. No cinema, ficaria mais conhecido pela co-produção franco-americana "Le scaphandre et le Papillon", com a qual foi nomeada para o Óscar de Melhor Argumento.
O filme não podia ter sido feito sem Jeffrey Wright, numa brilhante interpretação. Mudando desde um punk sem-tecto a um artista ousado capaz de agradar à elite. Jean-Michel Basquiat era viciado em drogas, e tornou-se num fenómeno da arte antes de uma overdose de heroína dar cabo da sua vida. Infelizmente o filme acaba por não ter muito sucesso na transposição da vida emocional do pintor. A frustração do filme vem na tentativa de recriar a criança dentro do pintor, e estudar o homem por de trás da máscara. Wright interpreta-o como um homem sem medo. Num minuto ele é um anjo ferido em desacordo com o mundo, no outro ele é um malandro que parece nunca se preocupar com as pessoas. Vai buscar influências na mitologia de Rimbaud, Charlie Parker, Jimi Hendrix, e Jim Morrison, acabando por se aniquilar com drogas, juntando-se aos seus heróis no final. 
Um elenco muito interessante, com muitas caras conhecidas em papéis secundários: Michael Wincott, Benicio Del Toro, Claire Forlani, Dennis Hopper, Gary Oldman, Christopher Walken, Willem Dafoe e Courtney Love. Tom Waits colaborou na banda-sonora, com duas músicas: "Who Are You This Time" e "Tom Traubert's Blues (Four Sheets to the Wind in Copenhagen)".

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker's Dracula) 1992



Esta versão de Drácula é vagamente baseada na história de Bram Stoker do mesmo nome. A Jonathan Arker (Keanu Reeves), um jovem advogado, é atribuída a tarefa de de deslocar a uma distante e sombria aldeia, nas brumas do leste europeu. É capturado e aprisionado pelo morto-vivo vampiro Drácula (Gary Oldman), que viaja para Londres, inspirado pela fotografia da noiva de Harker, Mina Murray (Winona Ryder). Em Inglaterra, Drácula começa um reino de sedução e terror, drenando a vida da melhor amiga de Mina, Lucy Westenra. Os amigos de Lucy juntam-se para tentar destruír Drácula.
É difícil ignorar o apelo universal dos vampiros. Ostensivamente, o terror gótico nasceu em 1816, nas férias de verão compartilhadas por Mary e Percy Shelley, Lord Byron, e o Dr. John Polidori no Lago de Genebra, na Suíça. Foi aqui que Mary Shelley escreveu Frankenstein, e as sementes foram semeadas para a actualização de Polidori dos vampiros do folclore, na versão moderna chamada The Vampyre. Em 1897, Bram Stoker publicou o seu quinto romance, Drácula, e influenciou, e de que maneira, toda a cultura pop até aos dias de hoje.
A história de um aristocrata, um conde, que bebe sangue para sustentar a imortalidade, é um monstro que agora é um clássico, mas Coppola pegou nessa personagem e mudou-o para um reino de um herói trágico. Como Gary Oldman descreve a sua abordagem ao personagem principal do filme: "O sangue é a vida", e Oldman tentou interpretar o personagem-título como um anjo caído. Brincando com a sua própria forma, defraudando a mais liberal de todas as artes, confundindo a sua cronologia e por vezes confundindo o seu próprio enredo, e quase cruelmente disposto a pôr a nu as limitações e vulnerabilidades de um elenco improvável de apoio. Drácula de Bram Stoker é feito em partes iguais de loucura e terror, e a sua própria definição de amor equivale a uma fusão destes dois elementos, cada uma bebendo livremente da outra.
Mas este é um filme de Coppola. Um mestre saboreando claramente a oportunidade de colocar a sua marca num produto mais mainstream, e pinta um quadro com uma paleta de cores vivas e preenche as suas perfomances com interpretações de classe. Os aspectos técnicos são todos de primeira linha, com menção especial a Roman Coppola (filho de Francis), que foi encarregado de criar os efeitos visuais, o Designer de Produção, Thomas E. Sanders, e o Diretor de Arte, Andrew Precht. Uma menção também deve ser feita para Eiko Ishioka, que, junto com toda a sua equipa de make-up, e trouxe a estes personagens uma grande vibração.
Um grande destaque para o elenco. Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Richard E. Grant, Cary Elwes, Monica Bellucci, e Tom Waits. Habituado já a trabalhar com Coppola, Waits tem aqui o papel de Renfield, um servo de Drácula.

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sábado, 7 de setembro de 2013

Meantime (Meantime) 1984



"Meantime", de Mike Leigh é um filme brutal, desagradável sobre pessoas brutais e desagradáveis​​, um cinema completamente desagradável de abjeção que toca profundamente nos desagrados das ​​vidas sem rumo dos seus protagonistas, como um verme cavando seu caminho em carne podre. O filme é centrado numa família que vive uma existência totalmente apoiada pelo governo: terminantemente desempregados, aceitando a dole semana após semana, vivendo na miséria, sem fazer nada o dia todo, a não ser ver televisão e passear pelas ruas como arruaceiros. Eles embebedam-se quando têm dinheiro, e caso contrário, tentam qualquer coisa para encontrar algo para fazer, qualquer coisa para passar as brandas horas intermináveis ​​que enfrentam. Para o pai Frank (Jeff Robert), esta existência é a prova da sua incompetência e fracasso, uma vida inteira passada neste lugar sombrio. Para piorar a situação, os seus dois filhos prometem ser apenas uma continuação do seu próprio fracasso: Mark (Phil Daniels) é um falso, vândalo desagradável, um delinquente juvenil e com o envelhecimento não parece superar esta fase, enquanto Colin (Tim Roth) é "lento", sem esperança de encontrar o caminho para fora deste lugar miserável. Leigh documenta, com uma honestidade inflexível, o trabalho penoso e a feiúra da vida. O filme expressa a desesperança e a inutilidade que estas pessoas sentem, descartadas e deixadas a apodrecer, sem esperança de encontrar qualquer trabalho.
O filme começa com um ambiente muito diferente, com Frank e a sua esposa Mavis (Pam Ferris), juntamente com os rapazes, a visitararem a irmã de Mavis, Barbara (Marion Bailey) e o marido John (Alfred Molina). John e Barbara são mais bem sucedidos, vivem numa casa suburbana agradável sonhando com redecorações de várias maneiras. A cena ferve com uma hostilidade mal contida, com Frank e Mavis a não conseguirem esconder o desprezo e inveja. Mavis tenta servir o chá para a irmã, e é lhe dita porcamente que está a usar a bandeja errada - provavelmente porque ela não tem o luxo de ser tão exigente sobre como se serve a comida em casa. Leigh manipula a cena com uma intensidade claustrofobica que transporta para o resto do filme. Close-ups são frequentes, destacando os olhares esquivos dos protagonistas. Todos estes personagens parecem estar constantemente a tentar ferir os outros. Leigh enfatiza os espaços apertados em que estas pessoas vivem, mesmo na supostamente luxuosa casa suburbana. A câmera raramente puxa para cenas de longa distância, excepto em alguns exteriores. Numa cena, a tensão acumula-se sobre o uso de uma casa de banho da família, e Leigh simplesmente espia pelo corredor com um shot estático como os membros da família esperam fora da porta da casa de banho, como abutres, esperando para atacar sempre que a porta for aberta. 
Incidentes mundanos como este guiam o filme, tudo isto captado com o estilo do confronto direto de Leigh. O filme é tão sombrio como a sua obra-prima posterior "Naked", com um traço de humor parecido, mas não tem a mesma poesia fatalista. "Meantime" é mais ligado à terra, menos propenso a violentos apocalípticos e pronunciamentos filosóficos grandiosos. O resultado é que o filme não é tão engenhoso como o seu homólogo posterior. Se "Naked" é uma declaração artística plenamente realizada sobre a pobreza, falta de habitação, e depressão, então Meantime é a realidade não mediada por trás da arte. O filme faz uma pausa para conversar com os outros habitantes desta comunidade, habitante dos blocos de apartamentos, inclusive em numa cena angustiante de um confronto entre o skinhead Coxy (Gary Oldman) e o tímido Hayley (Tilly Vosburgh). Tim Roth tem um desempenho fenomenal como um rapaz quieto, retraído, que mal percebe o que está a acontecer ao seu redor. O seu Colin é apenas um pouco menos consciente do que as outras pessoas no filme, apenas alguns passos à frente no caminho da abjeção e da ignorância generalizada que o cerca por todos os lados.

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