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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Aparelho Voador a Baixa Altitude (Aparelho Voador a Baixa Altitude) 2002

Num futuro próximo, o mundo não é muito diferente do que é hoje, com uma excepção... Há muito poucas pessoas. E nenhuma criança. A raça humana está a caminho da extinção. Por alguma razão as mulheres já não engravidam. As poucas que o conseguem só geram seres mutantes que são imediatamente eliminados pelas autoridades. Judie Foster é fertil: já engravidou por 6 vezes. De cada vez, os obrigatórios testes de gravidez mostraram que se tratava de um mutante e e Judite foi obrigada a abortar. Agora ela engravida novamente. E pensa, e se os complicados testes que fazem ao feto foram a causa das mutações? Ela e o seu marido, André fogem da cidade para um hotel numa pequena e decandente estância balnear, na orla do continente, onde não há polícia e não há lei. Lá, Judite fica ao cuidado do enigmático Doutor Gould, que desaparece frequentemente no seu pequeno avião. Onde vai Gould? O que anda a fazer?
Na muito pequena lista de filmes portugueses de ficção científica, ou fantasia, "Aparelho Voador a Baixa Altitude", realizado pela sueca naturalizada portuguesa Solveig Nordlund,  merece um enorme destaque, e cai muito bem neste ciclo de Fantasy Lo-Fi. Nordlund escolheu para adaptar uma pequena história de J.G. Ballard, com o argumento feito em conjunto com Colin Tucker e Jeanne Waltz a tornarem a história mais rica, além das grandes interpretações de Margarida Marinho e Miguel Guilherme, e ainda os cenários desoladores da região de Tróia, e do sul do rio Tejo.
Os cenários são mesmo a parte mais importante do filme. A sua presença desoladora e sem vida aparecem sempre em fundo na maioria dos shots de Nordlund, conseguindo tirar o máximo proveito que estes prédios em ruínas têm para oferecer, conseguindo ângulos invulgares ao filmar varandas, corredores, átrios, portas e janelas para maximizar o efeito visual e psicológico do filme, pois é nos corredores escuros do hotel que a maioria dos momentos mais importantes do filme é rodado.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

11 Anos de Thousand Movies /Times Are Changing, Not Me (2012)

Hoje os Thousand  Movies completam o bonito número de 11 anos. 11 anos a passar filmes para todos vós, uma longa luta que parece não ter fim.
Nesta data especial tenho um pequeno presente para vós, um filme que se estreia hoje online, e que foi co-realizado pelo José Oliveira, a Marta Ramos e o Mário Fernandes. Três velhos amigos aqui deste sitio que em 2012 fizeram este documentário sobre o realizador Manuel Mozos, outro nome bem respeitado aqui por este local.
O nome deste documentário reflete bastante bem o que se passa por aqui: "Times are Changing, Not Me". A verdade é que ao longo deste tempo as coisas não mudaram muito por aqui, mas provavelmente é preciso um espaço assim, e eu acredito no que faço, por isso tenho mantido as coisas sempre assim.
Sobre este filme, o José Oliveira disse o seguinte: "Esta frase é do Pat Garrett & Billy the Kid (Duelo na Poeira, 1973) e resume um pouco o cinema do Mozos, esta relação de resistência. Isto apesar do Xavier, por exemplo, ser um filme completamente moderno, pois está sempre a extravasar, a inventar coisas novas, aquele travelling na Alameda, a construção coral das várias personagens que se cruzam com o Xavier, aquele rodopio. E depois a câmara e a montagem do Manuel vão sempre atrás daquilo com relações ultra complexas. Mas apesar de tudo já ninguém filma assim, ou pouca gente. “Times are changing but not me” é uma crença que se podem ainda utilizar muitas coisas do passado, de um grande cinema, que o Mozos viveu. O Mozos num texto magnifico sobre o Peckinpah fala disso, das grandes salas de cinema, que os filmes dele só se poderiam ver em salas monumentais, com ecrãs monumentais, com cadeiras todas partidas, com a película a partir no meio do filme. Um grande cinema que ele conheceu, esse ritual, essa experiência religiosa de ir ao cinema. Hoje vemos os filmes nos shoppings ou na internet, são novas maneiras. Mas ver o cinema nessas condições do passado importa para muitas coisas. Por exemplo, vês hoje um filme do Manuel ou do Pedro Costa, que viveram esta forma de fazer e ver o cinema, e reparas como as escalas de planos, os detalhes, como se filma um rosto, um corpo, tudo é diferente por causa dessa experiência que tiveram. Por outro lado, a geração de hoje já não filma dessa maneira pois sabe que a dimensão do ecrã em que vamos ver o seu filme é menor. As escalas vão diminuindo ou vão sendo mais dispersas." 
Optem sempre por verem os filmes numa sala de cinema, sempre que for possível. Quando não for possível, sabem onde podem vir ter.

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sábado, 20 de julho de 2019

A Canção da Terra (A Canção da Terra) 1938


Em Porto Santo, uma pequena ilha próxima à ilha da Madeira, a seca alastra-se, e Gonçalves, um agricultor local, tenta superar a catástrofe com a a ajuda de Bastiana, a quem ele ama muito. João Venâncio, é outro agricultor, que se recusa a partilhar a água do seu campo com os outros agricultores, e vai entrar na luta pelo coração de Bastiana.
João Bénard da Costa escreveu o seguinte sobre este filme: "À época Jorge Brum do Canto defendeu que "A Canção da Terra" é quase um filme de cowboys (...) tem acima de tudo o mais, aquele ritmo feroz, impressionante e ofegante dos westerns, ritmo que foi o pai de todo o cinema de hoje". A comparação não é despropositada, como o não é a adjectivação do ritmo do filme. Mas, o que mais surpreende, a uma visão actual, é a elevação à máxima sacralidade do décor e da paisagem de Porto Santo. (...) Hoje o que sobreleva é a carga mitológica da obra, o seu animismo crucial a sua sensualidade mórbida e, por vezes, assaz escatológica."
Palavras de Luís de Pina: "Visto à distância de quase cinquenta anos, "A Canção da Terra" não perdeu qualidades, sobretudo naquilo que sempre constituiu o seu forte: o ritmo visual, a sequência sempre dominada pela imagem, a beleza incomparável da terra e do mar, o tom lírico mantido com segurança e sem pieguice. (...) Jorge Brum do Canto soube traduzir essa imagem poética numa forma cinematográfica que muito deve ao seu operador Aquilino Mendes. Mais próximo de Flaherty ou de Epstein que dos russos, sobra-lhe uma sensibilidade e um conhecimento pessoal muito directo daquilo que mostra."

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quinta-feira, 18 de julho de 2019

O Príncipe com Orelhas de Burro (O Príncipe com Orelhas de Burro) 1980

No tempo do rei Leonardo, uma guerra e a peste que a acompanhou despovoaram a Traslândia. Ignorando esses trágicos acontecimentos, a rainha Isménia, a princesa Camila e a aia Narcisa, oriundas de um reino distante, chegam à Traslândia, quando a guerra se aproxima do final…
"Adaptação do romance homónimo de José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro (fotografia de Elso Roque, música de Carlos Zíngaro) corresponde a um projeto acalentado por António de Macedo desde 1957, concretizado numa aproximação subversiva ao material literário que adapta inspirando-se no estilo teatral de António José da Silva (O Judeu): o reino imaginário da Tralândia, um mundo de fantasia mais ou menos medieval, fica quase despovoado devido à guerra e à peste. Ignorando o que se passa, a princesa de um outro reino distante e a sua aia chegam à terra desolada, quase no fim da guerra. Uma sátira ao poder político."
"O Príncipe com Orelhas de Burro" contava com a colaboração de uma companhia teatral chamada "Os Cómicos". É deles o melhor desta obra.
Nota: esta é a versão televisiva do filme.

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quarta-feira, 17 de julho de 2019

Guerra Cívil (Guerra Cívil) 2010


""Guerra Civil", de Pedro Caldas, Melhor Longa Metragem Portuguesa do IndieLisboa 2010, é a primeira longa de um realizador com larga presença no cinema português (director de som nos anos 80 e 90 e autor de várias curtas recentes). "Gostava cada vez menos dos filmes em que trabalhava ou via. Escrevi argumentos, mas apenas agora recebi o apoio para realizar uma longa", diz-nos Caldas. 
A época do filme é a década de 1980, no Verão de um país desfasado entre as expectativas e as desilusões das suas diferentes gerações. Para o realizador, "muito do filme é feito contra o cinema português dessa época e a sua perda, mas também sobre o que se passa agora. Perdeu-se o punk, a liberdade estética e política: é o início do mundo de hoje, em que os valores económicos predominam". Mas o filme vive, sobretudo, pelo comovente retrato das suas personagens: um jovem e solitário rapaz fechado na escuridão da sua imaginação (Francisco Bélard, candidato a melhor Ian Curtis do cinema), o encontro com uma rapariga que reflecte a luz e o calor da estação (Maria Leite, encarnando o brilho da inocência de vida no cinema), e uma geração adulta frustrada no falhanço das suas relações. "Interessava-me fazer um filme sobre várias solidões", explica Caldas. "O Rui [Francisco Bélard] não vê nenhum futuro à sua frente, é um punk tardio. A única personagem que sente a alegria de um futuro é Joana [Maria Leite]. A mãe tem medo de envelhecer, mas quer provar a si própria que ainda é mulher [uma tocante Catarina Wall]."
A sensibilidade do filme passa por um olhar sobre a vida potenciado pelas possibilidades do cinema: uma inovadora montagem que garante um olhar, sem julgamentos, sobre os desejos e falhas de cada um. "Achei justo montar pontos de vista diferentes para nos aproximarmos mais das personagens, dando-lhes o tempo de uma personagem principal", refere Caldas. A solidão de cada um é vista por uma montagem paralela dos mesmos dias de cada personagem, oferecendo uma ponte emocional para a presente (e eterna) forma de vida do país. "Hoje, vemos desencanto nas relações e pouca vontade de viver. Os portugueses tornam-se mais fechados com os problemas, sentem uma falta de alegria de viver que me choca", diz-nos Caldas. Contudo, "Guerra Civil" brilha pelo mais tocante dos sentimentos em cinema: a alegria de filmar. "É um dos maiores prazeres da vida", diz-nos Caldas, "mas, para a maior parte das pessoas com quem trabalhei antes, era um sofrimento. Fiz este filme também contra isso".
"Guerra Civil" remete-nos para um luminoso e desaparecido cinema português - o de "Uma Rapariga no Verão" (1986), de Vítor Gonçalves, obra nunca estreada e na qual Caldas trabalhou. "Guerra Civil" depara-se também com dificuldades em estrear, pairando, assim, a reclusão do cinema dessa época sobre o filme. A sua banda sonora, forte elemento da narrativa (Orange Juice, Joy Division), é o entrave da sua estreia, fazendo desta exibição (hoje, 21h30) uma ocasião especial para ver o filme. 
"Só faz sentido fazer cinema para mostrar às pessoas. E, para o filme não morrer, é preciso exibi-lo", diz o realizador. João Figueiras, o seu produtor, refere que "o filme não pode passar nas salas, excepto nas condições especiais da Cinemateca, por uma questão burocrática: a versão original tem um impedimento nas autorizações de duas músicas. Não é uma questão financeira mas de não-autorização da Sociedade Portuguesa de Autores", diz-nos. "Estamos em contacto directo com o autor e aguardamos uma resposta a qualquer momento. Se se resolver, o filme vai para as salas, pois há interesse para que isso aconteça." O retrato emocional de um país, sedento de cinema, raramente terá encontrado tão sensível forma como em "Guerra Civil". A sua aguardada estreia será a nossa comoção.
* Texto de Francisco Valente para o jornal Público, quando de uma exibição na Cinemateca. 

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domingo, 16 de dezembro de 2018

Longe (Longe) 2016

Em “Longe”, José Oliveira criou uma obra admirável na sua aparente simplicidade, sempre tão difícil de alcançar, e que deixa claro que a vontade do realizador para continuar a fazer cinema é imensa.
 O tempo avança, a geografia altera-se, novas tecnologias surgem, mas os temas essenciais da existência são quase sempre os mesmos desde que se começaram a narrar as primeiras histórias em todas as culturas do mundo. Uma boa história não é matéria suficiente para dar um bom filme, outros factores relacionados com o uso linguagem do cinema são mais decisivos, são esses que definem a importância de um filme.
Os primeiros planos de “Longe” definem de imediato a estrutura formal do filme: o rigor dos enquadramentos e os longos planos fixos. A acção desenrola-se dentro do plano e não é a câmara que procura a acção em piruetas ou outros efeitos de encher o olho, mas acompanhando à distância o périplo de um homem, de passado desconhecido, no regresso à grande cidade, a lugares, ao encontro de velhos amigos e de uma filha de quem só tinha conhecimento da existência por carta. 
Com uma fotografia e som exemplares, mas sem música decorativa a preencher os vazios, apenas o som da água, do vento, do burburinho da cidade, das vozes ao longe ou dos personagens nas poucas falas. Este regresso a um cinema de narrativa linear clássica, depurado e resistente, estabelece um paralelo com o regresso do protagonista, que não sabemos de onde vem, nem as causas da sua ausência, tal como alguns personagens de antigos filmes. 
José é o nome do homem que vem de longe. Dos canaviais junto às margens de um rio, apresenta-se de corpo inteiro, como um solitário fordiano que atravessa lentamente um território que já foi o seu em tempos idos.
* Texto escrito pelo Daniel Curval. Podem ler o resto aqui, mas aconselho a fazerem-no depois de verem o filme.
"Longe" foi produzida pela Optec, e foi das curtas metragens mais faladas de 2016, tendo sido exibida em festivais como Locarno, Caminhos do Cinema Português, Encontros de Cinema do Fundão e no BH International Film Festival.

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domingo, 30 de setembro de 2018

O Nosso Caso: Livro 4 - O Bezerro de Ouro (2003)

Um ensaio acerca da cinematografia portuguesa do último quartel do século XX. Tomando como ponto de partida três filmes faróis do pós-Cinema Novo – a saber: "O Passado e o Presente", "Brandos Costumes" e "Jaime" – os autores empreenderam uma revisitação crítica das ficções da nossa cinematografia recente, buscando o que nela há de furiosamente português.
Cruzando o seu ponto de vista com o de alguns cineastas, críticos e cinéfilos, os autores interrogam-se acerca das imagens e sons de um cinema amado-odiado, produto de um país que, conforme muitos dizem, sofre de excesso de identidade. E fazem-no realizando o velho sonho de montar um filme composto de imagens rodadas por outros e o não menos antigo projecto de empreender um estudo sobre cinema constituído pelas próprias imagens que, graças à retórica da montagem, pretendem analisar.
"O Nosso Caso" divide-se em seis episódios - Génese, A Terra Prometida, Jonas, O Bezerro de Ouro, O Massacre dos Inocentes e Carne.
O episódio que temos aqui, é o quarto, de seu nome "O Bezerro de Ouro". Em terra de autores, confrontamo-nos amiúde com cineastas cuja excepcional bagagem cultural se reflecte em filmes recheados de citações. A importância do reconhecimento da crítica estrangeira na carreira dos cineastas não é decerto alheia a esta tendência para um metacinema…
Filme escolhido pelo Paulo Cunha.

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quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Filha (A Filha) 2003

"Há mais de vinte anos - rigorosamente, desde "Dina e Django" (1981), Que Solveig Nordlund vem falando de filhos. Nesse filme era uma jovem que se deixava enredar pelo romantismo da fotonovela e acabava a cometer um crime.  Em "Até Amanhã, Mário"(1993) e "Comédia Infantil" (1997), eram miúdos de risco, em cenários sociais devastados. Em "Aparelho Voador a Baixa Altitude" 2001), era um próximo futuro em que as crianças nasciam mutantes e a procriação se tornava interdita. Nesse caminhar, chegou agora Solveig Nordlund a um ponto extremo: "A Filha" é uma história de desespero suicidiário, lá onde os fantasmas de incesto e da violência se convocam.
O filme começa em ambiente reconhecível: uma gala de televisão, o seu protagonista, produtor de "reality shows" escandalosos de sucesso vai à Madeira receber um prémio, entre flashes de fotógrafos e a pressão libidinosa de uma mulher que percebemos ser sua amante. Mas há uma ameaça no ar: o nosso homem recebe uma mensagem da filha no telemóvel, a urgir que venha para casa ou não a verá mais... Ele faz todos os esforços para vir, mas acaba por ceder à chantagem da amante. E quando chega a Lisboa a filha desapareceu de facto. Entra em cena uma jovem candidata a apresentadora de um novo "reality show" a ser produzido.  Uma jovem disposta a tudo para conseguir a fama. Disposta a mentir-lhe dizendo onde a filha está, disposta a tomar o lugar da própria filha...
Não há no cinema português memória de um filme assim. Um filme que parte de um quotidiano banal para um universo concentracionário onde a crueldade e a alienação tomam conta. Uma crueldade fria, lenta, sistemática, onde se cavalgam em rota de colisão um pai atormentado e abusador e uma rapariga que acredita até à insanidade na sua capacidade de manipulação. Uma alienação em que a existência oscila nos seus valores mais essenciais - não há um único personagem eticamente sustentado em todo o filme, todos se movem sem padrões que não sejam os do egotismo - e em que a loucura do protagonista é apenas um desvio mais pronunciado a uma desnormalização generalizada. Há um desencanto cavado no olhar de Solveig Nordlund, o mundo corrompeu-se sem esperança. Na obra da realizadora aflora a sua matriz escandinava, mais de trinta de mediterraneidade não apagaram os genes socioculturais em que se formou."
Texto in Expresso, Jorge Leitão Ramos

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terça-feira, 5 de junho de 2018

Sem Ela (Sem Ela) 2003

Jo e Fanfan são irmãos gémeos, embora de sexo diferente. Filhos de um casal de portugueses emigrado em França, apanhamo-los em princípio de férias a caminho de Portugal. E descobrimos, logo logo, que entre eles existe uma intimidade muito particular. Andam juntos para todo o lado, partilham o mesmo quarto, os mesmos gostos, a mesma moto, a mesma tenda de campismo. Mas também percebemos que um princípio de conflito se instala. Jo descobre que Fanfan se iniciou sexualmente com um tipo que conhecem do bar e sente ciúmes. Depois, lentamente, verificamos que os dois irmão se vão afastando. Quando as férias terminam, Fanfan permanece em Portugal por mais uns tempos. E Jo fica desasado e progressivamente inquieto.
"Sem Ela" é uma história de uma ausência. De como um adolescente sofre ao enfrentar a vida. Mas é também uma metáfora para a situação de muitos luso-descendentes, divididos entre dois países, duas almas, duas culturas. A felicidade está na fusão dessas duas entidades, mas no corpo do filme, essa pulsão é proibida, incestuosa. "Sem Ela" é uma história que faz medo, porque já não há paz possível para aquelas duas criaturas (o final, em "happy end" não poderia ser mais enganoso...). O mundo em volta, de resto, não ajuda a apaziguar tensões: lá esta essa cultura de margem de muitos jovens gauleses excluídos que é o racismo político, lá se identifica uma textura social atabafante, no nosso país. E há mais nuvens do que sol. 
Filmado com grande liberdade de movimentos, câmara à mão, atenção aos rostos, à pele, àquilo que nos actores é físico mais do que profissionalmente premeditado, esta fita de estreia de Anna da Palma tem frescura, intenção e revela uma realizadora. Atenta ao enquadramento social, traça do casal de emigrantes, pais dos protagonistas (interpretado com sabor pela dupla Maria Emilia Correira / Vitor Norte), é um retrato onde se mescla ternura e severidade, com quem compreende o seu ser e modos, mas não os acompanha já. Apetece gostar deles, como apetece gostar do filme inteiro.
 Há planos iluminados por uma espécie de plenitude que nos deixam repletos. Logo vem uma cena mais frágil que nos desacerta a atenção?  Há momentos em que amamos aqueles dois jovens (belíssimos Aurélien Wiik e Bérénice Bejo), tão frágeis que quase dá vontade de aconchegar. Outros há em que os sentimos desarticulados ao ponto de fazerem crescer em nós irritação?. Obra primeira, "Sem Ela" tem virtudes surpreendentes e erros expectáveis - e uma vontade impulsiva de existir."
In Expresso de 11-09-2004
Nota: legendas em português incluidas no ficheiro. Convém verem com o VCL. 

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

A Falha (A Falha) 2002

A visita a uma pedreira de mármore, uma tragédia que os leva a confrontar-se com terríveis fantasmas do passado Um grupo de antigos colegas reencontra-se para um almoço comemorativo, após 25 anos terem terminado o liceu. O tempo deixou as suas marcas e acentuou as diferenças entre as vidas que cada um seguiu. No ambiente tenso sente-se, nos olhares, os antigos rancores, desamores e cumplicidades. No final, um deles anuncia a surpresa que tem preparada: a visita a uma impressionante pedreira de mármore da região.
"Há uma estupefacção, inicial, de raiz: a escolha de João Mário Grilo em adaptar um romance com uma matriz ficcional onde a parábola é tão fácil de ler que rescende a lugar-comum e onde,  - mais grave porque falamos de cinema - a dramaturgia dos personagens, reduzida a um osso esquemático, dificilmente permitiria um trabalho sustentado aos actores. Há uma malformação congénita na origem de "A Falha": o seu argumento que faz passar abruptamente figuras que se encontram num almoço de antigos alunos de uma turma de liceu para uma situação de psicodrama, sem que nada na sua primeira metade justifique a devastação psicológica da segunda (com irrupções ao nível da carnalidade e da violência). O filme salta da trivialidade para territórios extremos, como se o absurdo estivesse pronto a soltar-se ao mais pequeno golpe na rotina. " Texto de Jorge Leitão Ramos.
Um elenco recheado de estrelas do cinema português: Alexandra Lencastre, Teresa Roby (no seu ultimo filme), Rogério Samora, João Lagarto, Suzana Borges, Adriano Luz, Rita Blanco, Orlando Costa e Henrique Viana.

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domingo, 3 de junho de 2018

O Delfim (O Delfim) 2002

Portugal, finais dos anos 60. Tomás Palma Bravo, o Delfim, o Infante, é o herdeiro de um mundo em decomposição. É ele o dono da Lagoa, da Gafeira, de Maria das Mercês, sua mulher infecunda, de Domingos, seu criado preto e maneta, de um mastim e de um "Jaguar E", que o leva da Gafeira a Lisboa e às putas. Um caçador, detective e narrador, que todos os anos volta à Lagoa para caçar patos reais, descobre, um ano depois, que Domingos apareceu morto na cama do casal Palma Bravo e que Maria das Mercês apareceu a boiar na Lagoa. Quanto a Tomás Palma Bravo e ao mastim, dizem-lhe que desapareceram sem deixar rasto. E que da neblina da Lagoa se ouvem agora misteriosos latidos. 
 "O Delfim" foi realizado por Fernando Lopes, a partir da obra homónima de José Cardoso Pires, tendo sido o argumento escrito por Vasco Pulido Valente. Nas palavras do realizador, é "sobretudo um prodigioso pretexto cinematográfico para entender paixões e emoções, misérias e grandezas de um Portugal agonizante, em plena guerra colonial e com o seu ditador (Salazar) a morrer lentamente, como o país. Será também um filme sobre um tempo em suspensão. E sobre um universo metafórico - a Gafeira - que é a propriedade e ao mesmo tempo a imagem de Tomás Palma Bravo, o herdeiro e último representante de uma raça em vias de extinção".

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sábado, 2 de junho de 2018

Rasganço (Rasganço) 2001

Numa fria manhã de Janeiro, Edgar chega à cidade dos estudantes. Determinado, fará uma tentativa de integração, traçada de forma cerebral e severa, seduzindo para esse efeito três mulheres: Ana Rita (estudante de Direito), Maria dos Anjos (responsável pelo albergue local) e a dra. Zita Portugal (figura influente em Coimbra). Ainda assim, Edgar não é aceite naquele grupo fechado. Mas ele vai escolher não se sujeitar passivamente à rejeição. Para isso elabora um complexo plano de vingança, escolhendo de entre os alunos as suas vitimas.
"Há um plano em "Rasganço" que ilumina tudo. Edgar está reclinado sobre um braço, em nú frontal e Zita acaricia-lhe as formas. Quando o plano começa nem temos a certeza que seja um corpo de homem o que lá está (como noutros momentos, em planos fechados sobre os olhos do actor, também nos confunde a indefinição do sexo). O que é certo é que para mulheres várias (e de diferente condição - uma estudante, a bibliotecária, mulher de um professor, e uma funcionária superior da Misericórdia)  Edgar é uma criatura erótica, a materialização de um desejo. Que para outras (narcotizadas) ele actue como identidade violadora, mutilação de que só se dão conta ao acordar, não é menos perturbador. Nas entrelinhas, se calhar, é licito ler qualquer coisa de medonho: Edgar não existe, é uma invocação, um fantasma que subjaz à vontade de integração de todos os restantes comparsas e que materializa uma pulsão intima de desordem. A vertiginosa atração pelo Outro, pelo que não faz parte, pelo que desestabiliza, o suor e a violência (e, porque não, o sémen e os genes?) do que está em baixo,obsessão burguesa por excelência. Edgar é um homem, certamente, mas, porque projecção feminina, mulher num lugar essencial da sua natureza. O plano atrás referido de Edgar com Zita é isso mesmo que sussurra.
Estou a prever que quem veja o filme com os olhos frios (era uma vez um homem que chega a Coimbra e encontra uma estudante e etc.) me diga que tresleio e deliro significados onde eles não estão. Nada contra. Acontece que não consigo olhar "Rasganço" com uma história com princípio, meio e fim - há demasiados "buracos", alçapões, planos que se colam para abruptas conjunções, há vermelhos por todos os lados, a cor do sangue, a cor da alma. É por isso que sustento que "Rasganço" não é simplesmente uma fita sobre Coimbra, os seus estudantes e um violador. É, antes, um mergulho que parte de um lugar preciso, mas ocorre num espaço quase abstracto. Uma mulher e os seus fantasmas, pois claro. Com a energia, a urgência, a impudícia e a ausência de cálculo que se pede a um filme de juventude."
In, Expresso (1-12-2001)

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Respirar (Debaixo D'água) (Respirar (Debaixo D'água)) 2000


O que impede duas pessoas de estarem juntas? Uma pessoa a mais. O que impede uma pessoa de lutar por outra? Nada! Pedro vive na periferia, onde trabalha na oficina do seu pai. Diáriamente desloca-se ao centro da cidade onde estuda e encontra o seu grupo de amigos que por alturas do verão, desce até ao rio e aí passam as tardes, os tempos livres ou o tempo de aulas. Entre charros, passeios de mota e mergulhos, tudo parece correr bem neste grupo, até que Pedro e o Amigo começam a disputar a mesma rapariga. Pedro é lançado numa espiral descendente, onde tudo à sua volta se parece desmoronar. Como o iman atrai a limalha, parece Pedro atrair os problemas, desde a escola até à relação com os pais.

"António Ferreira filma o desamparo da adolescência num registo minimalista que privilegia a sedução epidérmica do corpo submerso. Há um olhar inegavelmente sensual que se derrama sobre os corpos dos actores e que, de alguma forma, acentua o abandono que é condição da estação etária. E, depois, o fascínio de ver Coimbra filmada do lado errado do bilhete-postal, assumida como cenário de uma urbanidade hodierna. 
Há, ainda, um domínio dos elementos fílmicos absolutamente irrepreensível: a direcção de actores é rigorosa, a fotografia é quente e limp
a como um dia de verão, a música serve na perfeição a narrativa, o tempo é sincopado e elíptico. Mas, retomando, o que nos prende os olhos é o que fascina o realizador: a fisicalidade de um actor, Alexandre Pinto, que, na tradição dos grandes actores do corpo, quanto mais se oferece mais nos arrebata".
Média-metragem premiada em Cannes.

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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Noites (Noites) 2000

João vive da prostituição; é um homem já perto dos 30, com os olhos vazios e o corpo roído pelas drogas e pela vida. O pouco que tinha deixou-o para trás para andar por aí, sem nunca procurar nada de especial. Antes trabalhava nos cafés ou nas obras, mas o vício tornou-o amargo e é preciso ganhar mais dinheiro e mais depressa. Teresa já o acompanha há mais de três anos. Sem sonhos nem ambições, cedo deixou a casa dos pais, Teresa tem uma natureza sombria e é levada por um instinto suicida, que a faz perder o amor-próprio. Agora está doente e deixa-se andar suja e desprotegida. Devia fazer tratamentos no hospital, mas já tanto lhe faz... Teresa e João acompanham-se neste processo repetitivo e cansado.
Sozinhos, mas ante o vazio repetitivo, o tempo sem mudança, a dor contínua, a exposição descarnada da mais irremedível das grilhetas (a heroína), estão os dois protagonistas de "Noites". É um filme curto, sem passado nem devir para os seus protagonistas,  sem parentesco no cinema português, que nos obriga a olhar para os toxicodependentes de um modo obsessivo. Onde, no quotidiano, sem desviar o olhar, aqui Cláudia Tomaz força-nos uma realidade. Uma realidade dura, em que a dupla protagonista (Cláudia Tomaz/João Pereira), também interpretes e co-argumentistas, casal que a edificação do filme emparceirou) se expõe até ao limite, na dúbia e perturbante vacilação das fronteiras do que é cinema e do que é verdade, do que é preciso do que haja de verdade para que o cinema seja alguma coisa da vida. Ternura e aflição, quase nada de raiva, eia o que "Noites" exala. Acho que ninguém saberá dizer se este é um grande filme, mas é, com certeza, um objecto onde se jogam coisas fundamentais para o lugar do cinema. E isso basta.
* In Expresso, 9-9-2000.

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terça-feira, 29 de maio de 2018

...Quando Troveja (...Quanto Troveja) 1999


A relação de António e Ruth termina inesperadamente. Ruth vai viver com Pedro, o melhor amigo de António. António, desesperado, deixa-se esmagar pelas suas próprias fraquezas. Mas, do bosque, surgem dois estranhos seres, Violeta e Gaspar, que vão interferir na vida de António… 
"O título de "... Quando Troveja" começa por reticências e começa bem. O título do primeiro filme de Manuel Mozos ("Um Passo, outro passo, e depois...", de 1990, feito para a RTP) tinha-as no fim, só que o "depois" foi a experiência traumática de Xavier (rodagem em 1991, falência da produtora, filme inconcluído todo este tempo - e o material, digo eu que já o vi, era excelente, o que agrava a frustração). Depois de um esperançoso alvor, um buraco negro de quase dez anos - e agora um retorno que que tem praticamente o sabor de um recomeço. Não admira que o filme seja um bocadinho negro - o que é que se esperava?
António, o protagonista, não é um sujeito muito interessante. A mulher de quem gostava trocou-o por outro e o rapaz desceu a rampa dos abismos: álcool, solidão partilhada com uma companheira de morada a quem a asma parece colocar às portas da morte, sobrevivência através de fracos recursos de pequeno-burguês intelectual (traduções e etc.), habitação em estado de pré-desmoronamento - há fendas, insectos, e os caroços das cerejas atiram-se em frente, para um chão que adivinhamos conter todos os restos provisórios de existências que estão numa encruzilhada que pode ser apenas a antecâmara do oblivio. Correm por ali fantasmas de suicídio - logo desde a sequência de abertura - nada vale a pena. 
Uma personagem assim não tem muito para nos ensinar. Nem para nos distrair. Mas consegue, por artes mágicas de um filme que as invoca muito concretamente, ter alma de herói, porque é mais difícil sobreviver à selva da infelicidade urbana, armadilhada pelos desencontros da vida, que é a selva do Vietname. Na realidade e no cinema. Na selva do Vietname há tiros e correrias, adrenalinas, combates de frente ou de través, acção. Na selva da infelicidade, os protagonistas estão tomados pela tragédia da apatia, pelo estado vegetativo de um dia que se segue a outro sem remissão, não fazem coisa alguma e não vêem como saír do buraco. Pior: as mais das vezes, as tentativas que encetam conduzem-nos em sentido contrário, não sem antes terem experimentado o agravo da humilhação que quase sempre vem no contrapeso de tais empresas. Só por milagre as coisas se podem voltar a pôr sobre carris. 
É aqui que Quando Troveja faz apelo a duas personagens rigorosamente únicas em toda a caminhada do cinema português. Dois adolescentes que de crianças muito infelizes se transformam numa espécie de duendes da floresta, duas criaturas que contêm em si toda a dor, inocência e esperança do mundo e que vão interferir nas outras vidas para consertar a insustentável desdita que nelas reina. Nada de extraordinário, porém. António regressa à superficie do poço para onde se deixara afundar, as cores da realidade perdem as tonalidades de negrume, chuva, noite e deliquescência, vão-se os azuis e os castanhos, ressurgem amarelos e claridade - e é como se uma pitonisa se intrometesse entre nós e o filme e nos começasse a sussurrar coisas bonitas ao ouvido. Os duendes dançam entre luzeiros e regozijo, o filme de Manuel Mozos pode fechar porque a tempestade - aquela tempestade, pelo menos - já passou. 
Como se vê, Quando Troveja não tem uma história de seres singulares. É gente como eu e vocês, em percurso muito comum, aí se fixando o seu primeiro trunfo: nada de reflexões vastas, nada de recolocar o destino do país, nada de Portugal, anos 90, mas uma coisa íntima, estreita, breve. Simples não se dirá, porque é de extrema dificuldade o terreno que pisa - para credibilizar os vários níveis de realidade em que decorre, para materializar as suas personagens (e Miguel Guilherme faz o pleno do desamparo sem miserabilismos, no desempenho do protagonista), para dar dramaticidade a um quotidiano sem elementos de excepcionalidade. Simples não, que a morfina da vida é bem complicada." 
* Texto in Expresso de 5-2-2000

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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Glória (Glória) 1999

Ivan vai viver com o pai, Vicente, chefe de estação dos caminhos de ferro de uma aldeia remota no interior de Portugal. As pessoas andam ocupadas com o seu trabalho, cada uma enredada na sua própria vida. Glória vive a sua carreira e parece afastar-se de tudo e de todos. O único lugar seguro do planeta é o refúgio de Ivan que fica feliz por poder partilhar o segredo com Glória. Um pequeno abrigo escondido no rio, debaixo da água que separa os mundos. Apetece ficar aqui...
"Manuela Viegas não pertence ao universo dos contadores de histórias. Talvez porque venha da montagem com incursões no ensino da Matemática e formação de economista, percebe-se que o seu terreno de eleição seja formal: modelos, linhas, circulações abstractas - nada de psicologia. Os materiais humanos estão antes de serem personagens (antes que um organizador de histórias as preencha de uma função, lhes afirme traços característicos ao serviço dessas histórias - processo corrente - ou então deles faça brotar um devir, uma acção encadeada, deles façam brotar histórias). Os humanos são pessoas - opacas - e o olhar da câmara não sabe, delas, mais nada do que aquilo que mostra. 
Há uma linhagem de "Glória". Começa, certamente, na fecundidade do universo de António Reis, passa pelo corte aberto por Pedro Costa, mas não tem a prodigalidade do primeiro (uma severidade impregnada de afectos), nem a aspereza do segundo. É, ao seu modo, um cinema mais moderno, pois não ilude a sapiência de uma estetização do sujo, do pobre, da barba de três dias que hoje circula como valor. E não só no cinema - veja-se a fiel coincidência do cartaz original do filme (com a assinatura de Julião Sarmento), infelizmente substituído, na campanha para o lançamento português, por um outro de muito menos adequadas notações visuais electrónicas. É uma estetização que parte de simulacros, que cultiva de maneira acentuada uma preocupação de perfeição, de um modo tão obsessivo que à proposta de deslumbramento a que não devemos furtar-nos, apetece contrapor a impetuosidade da unha que respasse a superfície da tela. - para ver se há algo por baixo, para ver se sangra. Não há maneira de o saber e não é licito apostar no escuro."
Texto in Expresso - 11-12-1999

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domingo, 27 de maio de 2018

Chuva (Chuva) 1999

Duas mulheres no interior de uma casa de paredes verdes. Luz reflectida do exterior projecta a sombra transparente das gotas de chuva nas suas faces. Falam de uma pessoa que lhes é comum, um homem que desapareceu, e agora estas duas mulheres só têm uma à outra para lembrar algo que lhes foi querido, um momento da sua vida em que foram felizes. Num momento anterior procuram-se nas ruas da cidade, na confusão e no ruído, o trânsito e os comboios.
Luis Fonseca fundou em 1993 a produtora Contracosta Produções, com Francisco Villa-Lobos, e foi assistente de realização em filmes como "Aqui na Terra", de João Botelho, "Os Olhos da Ásia", de João Mário Grilo, e anotador em "Porto Santo" de Vicente Jorge Silva, e "Glória" de Manuela Viegas, curiosamente filmes que já vimos, ou ainda iremos ver, neste ciclo. Também já aqui tínhamos visto anteriormente "Antes que o Tempo Mude", a sua primeira longa metragem, realizada em 2003, do qual este "Chuva" é uma espécie de antecipação, pela equipa, e pela temática, ambos com Monica Calle, uma actriz com quem trabalhou várias vezes, tanto no teatro como no cinema.
Na altura da estreia de "Antes Que o Tempo Mude", Jorge Leitão Ramos escreveu: "Do autismo de "Chuva" ao estremecimento de "Antes que o Tempo Mude" vai a distância entre o balbuceio complicado e o sopro vital que é a marca de um verdadeiro cineasta. Na novíssima geração de realizadores portugueses - emergindo do campo da curta-metragem - Luis Fonseca marca posição como um daqueles (um dos raros...) que vai valer a pena seguir com esperança."

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sábado, 26 de maio de 2018

Longe da Vista (Longe da Vista) 1998

Eugénio, um simpático sexagenário, cumpre pena numa prisão portuguesa. Para passar o tempo torna-se correspondente de um emigrante português nos Estados Unidos sob o pseudónimo e a personalidade forjada de uma mulher, Maria da Luz. Inventando uma história dramática, Eugénio, obtém algum dinheiro do emigrante que o ajuda a suportar os longos anos de prisão. Um dia, um jovem recluso, Vasco, vem partilhar a cela com Eugénio que lhe revela o seu invulgar passatempo, no qual aquele participa com as suas fotografias. Quando Eugénio morre, doente e desiludido, Vasco pega na caneta e começa a escrever uma carta ao emigrante. 
 Partindo de um argumento baseado em factos verídicos, João Mário Grilo assina um belo, comovente e inteligente drama psicológico sobre a malancolia, a solidão e a amargura da prisão. Rodado em décors reais de instituições prisionais, "Longe da Vista", é um irónico poema sobre a impossibilidade de deter o espírito humano, a partir da história do velho e desiludido recluso que para matar o tempo assume a personalidade de uma jovem mãe solteira com uma atribulada e infeliz vida que vai narrando em longas cartas ao seu correspondente nos Estados Unidos, um emigrante português em busca de uma mulher para casar que se apaixona e comove com as cartas da infeliz portuguesa, nunca imaginando tratar-se de um velho, doente e imaginativo recluso. "Longe da Vista" é um dos filmes mais surpreendentes de João Mário Grilo que deu a Canto e Castro um dos papeis mais marcantes da sua carreira no cinema.

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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Porto Santo (Porto Santo) 1997

"Dois viajantes solitários, um navegador e uma repórter fotográfica, que se encontram na ilha de Porto Santo. A fotógrafa vai parar à ilha quando o avião que a transportava sofre uma avaria durante uma tempestade e é obrigado a fazer uma aterragem de emergência. Fascinada com a beleza do sítio, decide permanecer ali mais algum tempo. Entretanto, no mar alto, a tempestade interrompe também a viagem de um iate, obrigando o seu navegador solitário a regressar à terra firme. Na ilha há um pequeno museu dedicado a Cristovão Colombo. Consta que Colombo viveu lá durante o período do seu casamento com a filha do primeiro capitão donatário de Porto Santo. A figura mítica de Colombo vai unir os dois solitários.
Vicente Jorge Silva assinou em 1997 uma primeira obra que assenta, acima de tudo, em duas evidentes paixões: o cinema e a bela ilha de Porto Santo. Da memória de Colombo aos pássaros exóticos passando por essa dimensão de terra perdida no mar-oceano onde se cruzam destinos, itinerários e sortilégios, físicos e emocionais, "Porto Santo" é um belo, sereno e por vezes fascinante jogo de mistérios, acasos e memórias, protagonizado por dois solitários viajantes dos finais do século XX: uma fotógrafa e um navegador. Uma surpreendente primeira realização de Vicente Jorge Silva, servida pela magnífica fotografia de Mário Barroso e por um trio de excelentes actrizes: Leonor Silveira, Beatriz Batarda e Ana Zanatti." RTP

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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Os Olhos da Ásia (Os Olhos da Ásia) 1996

Padre japonês da Companhia de Jesus, Julião Nakaura foi, em 1583, um dos quatro jovens embaixadores enviados a Roma pelos Jesuítas, como prova da cristianização do Japão. Cinquenta anos depois dessa gloriosa embaixada, que tanto fascinou as cortes da Europa, Julião é forçado a dar, de novo, prova de fé, desta vez perante a obstinação da milícia e dos tribunais do Shogun, que o querem forçar à apostasia. Julião resiste e será Miguel Chijiwa, um dos seus companheiros de embaixada, que o conduzirá, tragicamente, ao martírio. Traído por Cristóvão Ferreira, que não aguenta o sofrimento da tortura, Julião morre ingloriamente... ou talvez não. Aos olhos da Ásia, Nakaura permanece um dos símbolos mais profundos e indecifráveis do diálogo surdo entre o Oriente e o Ocidente. Daí, a razão deste filme.
"O martírio de Nakamura Julião e a apostasia de Cristóvão Ferreira são dos episódios mais fascinantes das relações luso-nipónicas do século XVII. Três séculos depois, João Mário Grilo foi aí buscar o entrecho central do seu filme. É um feliz regresso do cineasta à prática do cinema, três anos depois de "O Fim do Mundo" - até porque "Os Olhos da Ásia" aborda uma questão assaz ausente do cinema português: a esfera religiosa. Na verdade, mais do que uma hagiografia martiriológica, interessa a João Mário Grilo avançar para o interior das questões de fé. As linhas finais do filme - de um Cristóvão Ferreira assimilado à cultura do Japão dirigindo-se ao "fantasma" de Julião mártir - são, a este respeito, lapidares: "Eram palavras, Julião, eram palavras".
Ao apresentar "Os Olhos da Ásia" perante o público de Locarno, o director do festival, Marco Muller, declarou que ele fora o único filme dos filmes seleccionados que o fizera chorar - o que dá bem a dimensão do impacto que a fita pode provocar. Até pela "ausência do único culpado - Deus", como frisou Jean Rouch numa intervenção entusiasmada no debate que se seguiu à projecção". Expresso 24-08-1996

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