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sábado, 18 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Days of Heaven”, de Terrence Malick

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O décimo oitavo convidado é a cantora e realizadora Marta Ramos, que escolheu Days of Heaven de Terrence Malick.

Sinopse: Bill (Richard Gere) e Abby (Brooke Adams) são um jovem casal, mas fingem ser irmão e irmã. Os dois estão a trabalhar em Chicago de início do século XX e a fome e a miséria que se vive na cidade fá-los desejar viajar para Sul. Juntamente com Linda (Linda Manz, irmã de Bill e que faz também de narradora) acabam por arranjar trabalho num racho em Panhandle, Texas. Quando a época de colheita acaba, o jovem e rico rancheiro (interpretado por Sam Shepard) convida-os a ficar. Mas o convite está longe de ser uma mera amabilidade. É que o rancheiro está apaixonado por Abby e, quando o jovem casal descobre que o proprietário sofre de uma doença terminal e apenas deverá ter mais um ano de vida, a jovem mulher acaba por aceitar a proposta de casamento dele. Quando a morte anunciada tarda a chegar, a impaciência e a tensão tomam conta das personagens. O realizador Terrence Malick consegue, em "Dias do Paraíso", transformar um trágico triângulo amoroso num filme impressionante que conquistou o Óscar de melhor fotografia.


DAYS OF HELL AND RAIN 

Marta Ramos 

O céu é lume, a terra é lume, 
O ar rareia. 
Inferno, que até o canto da cigarra afugenta, 
E a água que bebemos incendeia, 
No louco pulsar de cada veia, 
Aflita, incontrolada, a dor rebenta.



Versos de uma amiga, camponesa alentejana, chamada Virgínia Dias, ela que, também criança, se tornou à força crescida, como a voz que nos conta a história neste filme. Voz de ambígua idade, criança ainda e já mais qualquer coisa, de tal forma que de início nem consigo destrinçar de qual das duas raparigas se trata. 
Apaixonei-me por essa narração tão crua e selvagem, de quem diz as coisas apenas uma e pela primeira vez. 
Respondi com “Days of Heaven” por instinto, sem saber muito bem porque o escolhi para este ciclo de quarentena, como quem nega e se defende do momento presente.
Há qualquer coisa na forma de filmar de Malick que me faz sentir cúmplice do maravilhamento face ao mundo. Corridas pelo meio do trigo, jogar às apanhadas com o vento, tantos animais filmados como se, paralelamente à história dos humanos, assistíssemos por momentos aos enredos, acções e movimentos desses outros seres, que reverberam os sentimentos humanos, visceralmente. A natureza como cúmplice e testemunha das emoções que não são apenas humanas afinal.

«He told me the whole earth was going up in flames. There's gonna be creatures running every each way, some of them burned, half their wings burning. People are gonna be screamin' and hollerin' for help.»
E em várias cenas sentimos esse fogo anunciado no início, as fornalhas industriais, as várias fogueiras de celebração, aquela outra em que se lançam inutilmente os gafanhotos e o imenso incêndio final purgando o campo e alma.
Há uma crueza, a matéria em bruto. Tudo é um sol-pôr.
«Style of leaving things as they are, as much as possible» refere Almendros (director de fotografia do filme) que juntamente com o realizador Terrence Malick tantas vezes exasperavam alguns membros da equipa, por esperarem pelo momento certo do dia para filmar. A hora mágica entre o sol se pôr e a noite cair, essa exigência que fosse a luz da natureza a pintar os quadros, como se o tempo e a luz natural a entrar pela objectiva - a revelar porque a ocultar, a ocultar porque a revelar os seres e as coisas - fosse a matéria de um poema de fogo.
Diz o Bénard que a menina fala à amiga e que o plano final assim o revela, mas tenho para mim que esta história é contada ao trigo, ao fogo e ao vento, companhias eternas deste filme.
“Days of Heaven” ou “days of hell” é um grito, continua o Bénard, e o que a menina conta lembra-me as palavras do «blue eyed son» na canção do Bob Dylan, “A Hard Rain's A-Gonna Fall”*. O mesmo sufoco: na canção uma «hard rain», o frio e a humidade de uma tempestade prestes a cair, no filme as “flames”, os entardeceres, o fogo; e embora contrastem nas temperaturas a que nos expõem, e nos ambientes que evocam, a menina irmã ou o rapaz de azuis olhos falam-nos na mesma voz, donde estiveram, o que viram, o que ouviram e quem encontraram.
Sejam de paraíso ou de inferno, feitos afinal do que é a vida, são estas vozes-poema que emanam uma estranha energia e é com ela que quero ficar:

And I'll tell it and think it and speak it and breathe it
And reflect it from the mountain so all souls can see it
Then I'll stand on the ocean until I start sinkin'
But I'll know my song well before I start singin'
And it's a hard, it's a hard, it's a hard,
it's a hard It's a hard rain's a-gonna fall

* Há duas versões imperdíveis desta canção: quando a Patti Smith a cantou na cerimónia do Nobel a Bob Dylan, e a da dupla Tom Russell e Lucinda Williams.

Amanhã, a escolha de Paulo Fernandes. 

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Imdb

domingo, 26 de janeiro de 2014

Cotton Club (The Cotton Club) 1984



Francis F. Coppola começou a década de 80 a fazer homenagens a tendências anteriores - o musical clássico em One From the Heart (1982), o Technicolor em Widescreen sobre a delinquência juvenil em The Outsiders (1982), e o expressionismo alemão em Rumble Fish (1983). Atingiu o auge desta tendência em 1984 com The Cotton Club, uma dupla e ambiciosa homenagem a dois dos grandes géneros cinematográficos da década de 1930: o filme de gângsters e o musical.
Produzido por Robert Evans, Coppola nunca teve o controle completo sobre a produção, o argumento foi sendo constantemente reescrito, as tensões eram altas no set, e acabou por custar uns supostos 47 milhões de dólares. As histórias sobre as dificuldades enfrentadas durante a produção deste filme só rivalizavam em status lendário apenas pelos excessos de Coppola em Apocalypse Now. No entanto, ao contrário de Apocalypse Now, The Cotton Club não acabou por ser uma das maiores obras do realizador. Pelo contrário, é uma ode interessante e divertida de um tempo passado que pode ser melhor visto como uma oportunidade perdida para algo maior.
The Cotton Club é, em primeiro lugar, uma carta de amor sobre a Era do Jazz, o fim do Loucos Anos Vinte, quando parecia que nada poderia dar errado na América, até que o mercado accionário caiu em 1929. Se Coppola faz uma coisa muito boa no filme, é transcrever a atmosfera eléctrica do clube de jazz nocturno, mesmo que a sua técnica seja mais estilizada do que ele provavelmente precisava para chamar a atenção. Todo o filme tem um estilo conscientemente teatral, algo que é levado a um clímax no final, quando Coppola literalmente transforma a tela num palco da Broadway. Obviamente queria fazer um filme delirantemente optimista, mesmo que inclua alguns crimes brutais ao estilo da máfia que remontam aos momentos mais sangrentos em "O Padrinho".
A história tem lugar no final dos anos 1920 e início dos anos 1930, e grande parte da acção é centrada em torno do The Cotton Club, um clube infame de jazz no Harlem construído com o dinheiro dos contrabandistas e preenchido com empresários ricos, gangsters e estrelas de cinema. Durante 17 anos, foi uma das salas centrais do Renascimento do Harlem, embora a política racial do seu sucesso tenha sido vergonhosa - os negros forneciam todo o entretenimento, os brancos ficavam com todo o dinheiro. Coppola poderia facilmente ter mergulhado mais fundo nas tensões raciais complexas que envolvem este estabelecimento, mas prefere tomá-lo como um dado e contar uma história diferente.
A personagem central do filme é Dixie Dwyer (Richard Gere), um músico de jazz branco que se envolve com o submundo do crime organizado de Nova York, quando salva a vida do gangster Dutch Schultz (James Remar), que lhe retribui, dando-lhe trabalho. Dixie rapidamente descobre que não é necessariamente uma coisa boa trabalhar para o holandês...
O elenco era fabuloso. Contava ainda com actores como Gregory Hines, Diane Lane, Lonnette McKee, Bob Hoskins, Nicolas Cage, Tom Waits. Mais uma vez num papel bastante secundário, era a quarta vez (e consecutiva), que Waits trabalhava com Coppola. Aqui também apenas à frente das câmaras.

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Imdb