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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Delito de Amor (Delitto d'Amore) 1974

No núcleo da história de "Delitto d'amore" está a paixão entre dois jovens operários fabris, um do norte (ele, Nullo) e outro do sul de Itália (ela, Carmela). Os obstáculos à relação amorosa entre eles são múltiplos e destes conflitos se faz o filme de Comencini, em registo drama social.
Uma joia pouco vista dos anos de glória do cinema italiano, "Delito de Amor" é uma história de amor diferente. De certa forma, um retrocesso ao período do neorealismo, o filme é uma história estimulante e nada sentimental de dois operários que se sentem atraídos, apesar das suas grandes diferenças. É um caso de amor malfadado mas a sua destruição deve-se em parte ás forças ambientais e problemas económicos, tanto como pressões sociais. Funciona como um estudo sociólogo fascinante das diferenças regionais entre as classes trabalhadoras do norte e do sul de Itália. 
Enquanto a poluição das industrias de Milão influenciam todo o visual do filme, Luigi Comencini evita transformar a sua história num filme de mensagem ecológica, preferindo focar-se nas emoções conflituantes dos seus dois protagonistas, interpretados por Giuliano Gemma e Stefania Sandrelli, dois jovens presos em empregos sem saída numa fábrica, com poucas opções de carreira.
Fez parte da seleção oficial de Cannes. Legendas em inglês.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O Jogo da Fortuna e do Azar (Lo Scopone Scientifico) 1972

Bette Davis interpreta uma milionária excêntrica viciada num jogo de cartas, e em ganhar a jogadores que não têm dinheiro para apostar. Todos os anos ela vai a Roma com o seu secretário e ex-amante (Joseph Cotten) para jogar com Peppino (Alberto Sordi) e a sua esposa Antonia (Silvana Mangano), uma empregada de limpeza que vive num bairro pobre com o marido e os seus cinco filhos. 
A milionária oferece um milhão de liras ao casal para jogar com ela e com o seu secretário num jogo chamado "scopone", ao qual ela é apaixonadamente dedicada e ao qual Antónia é uma campeã. Mesmo precisando desesperadamente de dinheiro o casal costuma deixar-se vencer para agradar à milionária, mas este ano Antónia está determinada a vencer. 
"Lo Scopone Cientifico" é uma obscura comédia negra do realizador Luigi Comencini que lida com com a eterna luta entre classes de uma forma invulgar, mas ainda assim bem divertida. Para além da luta de classes, temos ainda uma luta entre actores de países diferentes, com duas velhas glórias do cinema americano, Bette Davis e Joseph Cotten por parte dos Estados Unidos, e Alberto Sordi e Silvana Mangano por parte dos italianos. Os americanos representam os ricos, e os italianos os pobres. Luigi Comencini e o argumentista Rodolfo Sonego colocam em destaque o cinismo e o egoísmo das classes mais ricas e a brecha inaceitável que existe entre os mais pobres e os mais ricos. 
Sordi e Mangano ganharam os David Di Donatelo para Melhor Actor e Actriz, os prémios correspondentes a Melhor Actor e Actriz.

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segunda-feira, 13 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "O Incompreendido", de Luigi Comencini

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O décimo terceiro convidado é o crítico Sérgio Alpendre, que escolheu O Incompreendido de Luigi Comencini, descrevendo-o como “um milagre cinematográfico. Em homenagem a Andrea Tonacci, que sempre corrigia o modo como eu pronunciava o título desse filme.”

Sinopse: Praticamente ignorado aquando da sua estreia em 1967, esta obra de Luigi Comencini tornou-se um filme-culto, com grande êxito da crítica e de público a partir da sua reposição em 1978. Comencini constrói uma das mais comoventes histórias de amor, sobre uma criança que procura conquistar a afeição do pai que o marginalizara devido à dor pela morte da mulher. A quintessência do melodrama filmada com ternura e contenção.

No seu Dictionnaire du Cinéma, Jacques Lourcelles escreve que “O Incompreendido é para ver em díptico com Le avventure di Pinocchio, realizado quatro anos mais tarde. As duas obras constituem a parte essencial, a mais original e a mais conseguida, da carreira de Comencini. Nestes dois filmes, Comencini projecta duas luzes radicalmente opostas sobre o seu tema predilecto, a infância. Por um lado a tristeza e o fracasso (apesar dos «reencontros» finais), por outro o optimismo e a vitória. Por um paradoxo social rico em significado, o filme triste é sobre personagens bem abastadas, enquanto que o olhar optimista, em Pinocchio, se aplica aos seres mais miseráveis. O tema particular que liga O Incompreendido a Pinocchio, no interior dessa vasta crónica da infância que é a obra de Comencini, é o das relações de uma criança com o pai e dos obstáculos, mais ou menos intransponíveis, que podem impedir essa relação de florir livremente. Em Pinocchio, há uma concepção retrógrada e mecânica da Moral a separar relutantemente os dois heróis. Aqui, o obstáculo fatal é uma incompreensão quase permanente do pai, forma banal, quotidiana e atroz da incomunicabilidade. Através da tristeza muitas vezes desalentadora deste filme, Comencini quis marcar com força que a compreensão entre o pai e o seu filho (de forma mais geral : entre o adulto e a criança), longe de ser fácil e adquirida desde o início, é pelo contrário fruto de um milagre frágil que a atenção, a lucidez e a paciência, além do amor, devem renovar a cada instante. Comencini também pinta neste filme um quadro conjunto de duas crianças, com sensibilidades e idades diferentes – opondo-se a animalidade destruidora e inconsciente do mais jovem à insegurança angustiante do mais velho – que é uma pura maravilha de justiça e de observação. Comencini tinha lido o romance de Florence Montgomery na infância e julga-o hoje com extrema severidade («um pequeno livro verdadeiramente ignóbil, uma máquina de fazer chorar» cf. «Positif» nº156). Serviu-lhe contudo para tecer uma trama de cardápios de acontecimentos, de detalhes significativos, muito fina e muito cerrada e ao mesmo tempo isenta de todo o dramatismo inútil. Refinado na sua construção e na minúcia da sua observação, O Incompreendido é igualmente refinado pela beleza das cores e dos lugares. Este refinamento acrescenta uma melancolia suplementar e quase insustentável à gravidade do tema tratado.” 

Amanhã, a escolha de Patrick Holzapfel. 

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quinta-feira, 19 de março de 2020

Tutti a Casa (Tutti a Casa) 1960

Surpreso com o armistício de 8 de Setembro de 1943, um segundo tenente une-se com pouca convicção aos retardatários que tentam voltar para casa. Leal ao dever, ele não entende o que está a acontecer:  a luta partidária, a violência dos alemães, as deportações. A morte de um amigo, morto a poucos passos de casa, leva-o a juntar-se à revolta popular de Nápoles.
Luigi Comencini foi um dos realizadores mais activos no período da Commedia all’italiana, com uma carreira que se prolongou pelas décadas de 60 e 70, além de já ter realizado algumas comédias anteriormente. E "Tutti a Casa" é talvez a sua melhor comédia, com Sordi de volta a uma comédia passada em tempo de guerra, como já tinha acontecido em "La Grande Guerre". "Tutti a Casa" faz também parte de um conjunto de filmes que, no início da década de sessenta, tentava desculpar-se dos erros que o país havia cometido no passado, alcançando não a vitória, mas a dignidade.  
Um elenco de luxo a acompanhar Alberto Sordi, onde constavam os nomes de Serge Reggiani, Varla Gravina, e Martin Balsam, na altura um ilustre desconhecido das séries norte-americanas, mas que teria uma perninha em "Psico" de Alfred Hitchcock, neste mesmo ano.

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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Le Avventure di Pinocchio (Le Avventure di Pinocchio) 1972

Os segredos da infância são insondáveis. Sem filtros, as crianças são capazes da maior inocência e das maiores safadezas, quase sempre com uma piada tão desarmante que os adultos não sabem que lhes fazer. Podem arrastar os pais até às montras de uma pastelaria, gritar “ó mãe, dá m'um booolo”, pôr a boca no vidro e começar a chuchar ao desbarato. Atravessar uma passadeira de mão dada a uma tia ou à avó e fazer sinal de paragem aos carros, com a mão direita bem esticada e decidida. Fazer os dias a quem passa e os vê com gestos simples destes. Para além disso, dizem ter amigos imaginários que os convencem a fazer asneiras, para o que se arranjaram as mais variadas explicações, e que vão desde a hipótese da matreirice pura à da maior abertura deles em comunicar com fantasmas e com o mundo dos mortos. E há também poucas coisas tão belas e tão comoventes como o laço que uma criança consegue criar com um animal, por si só um filão literário e cinematográfico e que nos eleva às alturas do Livro da Selva (1894) de Rudyard Kipling, Banjo (1947) de Richard Fleischer ou Good-bye, My Lady (1956) de William Wellman.
Também é uma idade impressionável e de transição, e por isso se tentam impor os limites e as linhas vermelhas que os hão-de preparar para a vida em sociedade, embora haja ainda muito desacordo entre pais, educadores e psicólogos sobre as melhores formas de o fazer, que mudam constantemente e consoante as modas e os tempos. Agostinho da Silva não esteve com meias medidas quando disse a Manuel António Pina que “o ideal era que morrêssemos jovens, que morrêssemos crianças...”, “mas são raros aqueles que conseguem”, “eu costumo brincar com a palavra 'adulto' com uma etimologia falsa, dizendo que o que acontece com as crianças quando chegam aos catorze, quinze anos, cortam-nas, fazem-nas parar e juntam-lhe outro bocado de um adulto. De onde vem o verbo 'adulterar'. Quer dizer, toda a criança é adulterada por um adulto.” Finalmente, foi através da ilustração destas tensões que apareceram Lewis Carroll com o seu Alice no País das Maravilhas (1865), James Matthew Barrie com Peter Pan (1904), ou Carlo Collodi com As Aventuras de Pinóquio (1883), transformando-as quase inadvertidamente (e sobretudo no caso do italiano) em mitos fundadores, questões eternas.
Luigi Comencini sempre se interessou muito pela infância como terreno para a ficção, basta citar títulos de alguns filmes e séries de televisão que realizou, como Bambini in città (1947), Heidi (1952), Infanzia, vocazione e prime esperienze di Giacomo Casanova, veneziano (1969), “I bambini e noi” (1970) “Cuore” (1984) ou O Rapaz da Calábria (1987), e lembrar a sua fabulosa primeira longa-metragem, Proibito rubare (1948), interpretada maioritariamente por crianças napolitanas que não viviam em melhores condições do que as personagens que encarnavam – miúdos abandonados pela cidade e pelos próprios pais. Sem conhecerem outra realidade que não a delinquência, e transformando os bandidos e os marginais para quem faziam uns biscates nas suas figuras paternas, reagiam de forma insolente e desconfiada à bondade e ingenuidade extremas do padre que os queria receber e re-introduzir na sociedade, Don Pietro. O que é surpreendente no filme, personificado pela presença discreta e silenciosa de Peppinello, um dos miúdos acolhidos pelo clérigo, é a transição suave que se dá dentro das crianças e nos seus termos à medida que se vão habituando a Don Pietro. O lar que ele queria criar para elas não cresce como o esperado, têm dívidas espalhadas por toda a cidade. E a razão por que a maior parte delas se tinha lá metido era para esconder e vigiar um saque de relógios de ouro, que um dos delinquentes lhes tinha confiado até sair da prisão. Peppinello decide então vender os relógios e meter o dinheiro na caixa de esmolas de Don Pietro – às prestações, para não levantar muitas suspeitas – sem querer nada para si próprio. Que isto nos pareça a única solução possível, independentemente do que pessoalmente achemos certo ou errado, deve-se ao talento extraordinário de Comencini em nos fazer entrar naquele mundo sem reservas, despertar a criança que já fomos e que lutava contra a injustiça da forma mais desconcertante possível, em dirigir miúdos não profissionais com a crença de que “as crianças brincam enquanto rodam um filme. Aqueles americanos que contratam psicólogos para os fazer representar ou para reparar eventuais danos causados pelo trabalho no cinema são loucos. É só preciso deixá-las brincar, e não é verdade que falhem quando estão a representar. (...) Um realizador deve saber que uma criança não é um bom actor: uma criança existe, e chega.” 
“Le avventure di Pinocchio” é outro tratado. Feito depois da série documental “I bambini e noi”, em que Comencini teve a oportunidade de viajar por Itália a entrevistar mães, pais, filhos e filhas de todas as classes sociais sobre as suas situações e as suas vidas, subverte admiravelmente a moral pesada do livro de Collodi. Se a versão de Walt Disney e dos seus artesãos talentosos modifica consideravelmente a história (no livro, por exemplo, o Grilo Falante faz apenas duas pequenas aparições, não é personagem de relevo mas um dos muitos membros do séquito de animais da Fada, que tem uma importância muito maior do que na versão animada), mantendo-se fiel ao espírito (se as crianças se portarem bem e forem bem-educadas, são recompensadas), a série de Comencini percorre praticamente todos os episódios (mantendo todas as personagens, do Mestre Cereja à Caracoleta, mas alterando a condição de marioneta da personagem principal, que se vai transformando em menino verdadeiro ou marioneta dependendo de como se porta e em que apuros se encontra), invertendo consideravelmente o espírito do livro de Collodi ao eliminar o epílogo (em que se revêem o Gato, a Raposa, o Grilo Falante e Palito, e em que Pinóquio se redime socialmente acordando cedo todos os dias e acreditando piamente que há pessoas que merecem ser pobres), tomando o ponto de vista e o lado de Pinóquio e transformando as suas aventuras numa meditação comoventíssima sobre a miséria e a solidão. Aqui não há “adulteração” e as crianças podem acrescentar algo ao mundo sem deixarem de ser crianças, sem deixarem de ser impulsivas e teimosas, por quererem mais do que comida na mesa ou rotinas e regras para seguir religiosamente em troca de salários miseráveis e noites mal dormidas. Mas não é um equilíbrio fácil, e dói ver Pinóquio a usar as ferramentas e a cadeira de Gepeto como lenha para a lareira, no primeiro episódio, ou Gepeto a descascar pêras ao filho depois de vir da prisão sem que este deixe ao pai o que quer que seja, no segundo episódio. Mas como em Proibito rubare, a transformação é bem suave e modular, porque Pinóquio aprende a fazer o bem sem ter de abdicar dos seus impulsos, passando os restantes episódios a procurar o pai depois de se separarem, tal como Gepeto o procura a ele. E aceitam-se um ao outro dentro do estômago de uma baleia por fazerem esse percurso. Um aprende que as aventuras também fazem parte da vida, o outro que pai há só um. E nós, que podendo não haver remédio imediato para a miséria, há pelo menos para a solidão.
* Texto do João Palhares
Legendas em inglês.

Parte 1
Parte 2
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terça-feira, 16 de outubro de 2018

O Grande Engarrafamento (L'ingorgo) 1979

Um tremendo congestionamento atingiu o anel da auto-estrada de Roma. O maior engarrafamento já visto perdura pro mais de 36 horas. As pessoas bloqueadas nos seus carros reagem normalmente no início, mas com o passar do tempo começamos a ser testemunhas de alguns dramas pessoais, reacções histéricas e muito mais. Todos os episódios estão ligados como um enredo. Os carros e os seus donos são um microcosmos de histórias para um universo maior.
Um dos filmes cómicos negros de Luigi Comencini, feito por episódios com numerosas estrelas: Alberto Sordi, Annie Girardot, Fernando Rey, Marcello Mastroianni, Steffania Sandrelli, Ugo Tognazzi, Gérard Depardieu, Miou-Miou, e apresenta um gigante engarrafamento que serve de metáfora para a desorganização política de Itália, a indisciplina, e o caos social. Enquanto o industrial interpretado por Sordi se porta cinicamente as coisas funcionam melhor em Moscovo porque as linhas de tráfico estão sempre abertas. Cada personagem do filme se porta mal, e a última imagem do filme é uma longa linha de carros imóveis a irem, como a Itália, para lado nenhum.
É uma das últimas chamadas "commedia all'italiana", e também é um dos últimos filmes decentes de Luigi Comencini, que tinha-se destacado neste género nos últimos 20 anos.
Legendas em inglês.
Filme escolhido pelo João Ricardo Oliveira.

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