quinta-feira, 8 de abril de 2021

Asfalto Quente (The Sugarland Express) 1974

Uma mulher procura reunir a família e ajuda o marido a fugir da prisão, para que juntos possam ir até Sugarland na intenção de recuperar o filho, que foi adoptado por um casal local. A fuga de ambos provoca uma caçada policial sem precedentes na história do Texas.
Este típico filme de perseguição policial dos anos 70, é hoje talvez mais conhecido por ter sido o primeiro filme de Steven Spielberg a estrear nas salas de cinema, tendo recebido grandes elogios para o trabalho deste como realizador, como para o argumento, da autoria de Hal Barwood e Mathew Robbins, dois nomes que ficariam ligados ao universo do realizador. No entanto, e ao contrários de outros filmes posteriores, as boas críticas não se traduziram em sucesso financeiro, talvez porque este tipo de filme inspirado por "Bonnie & Clyde" já estava um pouco saturado no mercado. Por exemplo, "Badlands", de Terrence Mallick, do ano anterior, também fez maus resultados nas bilheteiras.
Muitas das futuras marcas registadas de Steven Spielberg podem já ser encontradas aqui, desde o pleno uso do processo Penaflex, pelo director de fotografia Vilmos Zsigmond, os shots de rastreamento entre poersonagens e veículos, a dinâmica da família disfuncional, e também seria o primeiro filme de Spielberg, entre muitos, a contar com a banda sonora de John Williams, um casamento que daria lugar a alguns dos filmes mais famosos de todos os tempos. 
Spielberg já tinha feito um filme de perseguições de carro para a televisão, "Duel", mas este seria o primeiro, de facto, a estrear nas salas. E teve logo honras de estreia em Cannes, fazendo parte da seleção oficial.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Symptoms (Symptoms) 1974

As melhores amigas  Helen (Angela Pleasence) e Anne (Lorna Heilbron) fazem uma pausa na isolada mansão da campo da primeira, que fica situada no meio de uma floresta ao lado de um lago isolado. Não há quase ninguém nas redondezas e estão bastante longe da aldeia mais próxima, e essa é a paz e tranquilidade que Helen precisa porque tem uma história altamente tensa, e recentemente sentiu-se atraída por uma amizade que acabou mal. Mas, na verdade, nada neste lugar é o que parece, nem sequer a amiga...
Realizado pelo espanhol José Ramón Larraz. que no inicio da década de setenta fez quatro filmes em Inglaterra, todos eles criando uma atmosfera opressiva. Este foi um deles, e conseguiu ser uma das duas submissões do Reino Unido para o Festival de Cannes de 1971. Pouco tempo depois da sua estreia o filme desapareceu do mapa, e andou desaparecido durante vários anos, entrando para a lista dos filmes mais procurados pelo Britsh Film Institute. Mais tarde o negativo original foi encontrado, e posteriormente o filme restaurado.
"Symptons" era uma obra que lidava mais com a atmosfera do que com o sexo e a violência com que Larraz era então conhecido, muito perto do cinema de Roman Polanski e de Nicolas Roeg em alguns filmes. O elenco era um dos pontos mais fortes, com especial destaque para Angela Pleasence, filha de Donald Pleasence, que traz uma fragilidade muito importante para a sua personagem, e Peter Vaugh, o estereotipo assustador que rouba algumas das cenas mais importantes. 
"Symptoms" foi uma surpresa ter aparecido na seleção oficial de Cannes, mas uma boa surpresa.

domingo, 4 de abril de 2021

A Noite do Espantalho (A Noite do Espantalho) 1974

Em Nova Jerusalém, no sertão nordestino, quem manda é o Coronel Fragoso, dono de grande parte das terras, acreditando ser também dono dos nordestinos da região, oprimindo-os ao seu bel prazer. Nesse cenário violento onde o poder que fala mais alto é o poder da bala, o vaqueiro Zé Tulão e o jagunço Zé do Cão - braço direito do Coronel - disputarão o amor da mesma mulher. 
"Uma estética alegórical mesclando psicodelia e simbolismo regional nordestino. Um filme raro da cultura alternativa do Brasil dos anos 70, com o áudio-visuoal altamente "avant-garde", filmado integralmente no maior cenário a céu aberto do mundo no interior de Pernambuco onde se realiza anualmente o espetáculo: "Paixão de Cristo". "
Na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes foram exibidos quatro filmes brasileiros, um deles este "A Noite do Espantalho", realizado por Sérgio Ricardo, que acumulou também o argumento e ainda compôs a banda sonora, que ficou bastante conhecida.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Himiko (Himiko) 1974

A deusa do sol responsável pela fundação do Japão é vista como a conivente Himiko, que governa uma pequena porção de ilhas japonesas durante o século III através da sua influência sobre diversos homens poderosos. Médium, xamã e adoradora do deus do sol, Himiko vê tanto os seus poderes espirituais como os de persuasão abandonarem-na com a chegada do meio-irmão, um forasteiro adepto do culto dos deuses da terra, e o despertar de um amor incestuoso.
"Himiko" conta uma antiga lenda japonesa de uma raínha Xamã. Uma história atemporal e universal, mas o mundo de Himiko é um mundo muito particular, no qual os deuses do sol e da terra controlam directamente a vida das pessoas. O espectador é puxado para o passado, pela bela floresta intocada e paisagens montanhosas, os costumes e rituais das pessoas, e mais intensamente pelas intensidade das interpretações - principalmente da protagonista Shima Iwashita. 
Realizado pelo japonês Masahiro Shinoda, que já três anos atrás tinha visto um filme seu ser exibido em Cannes, "Silêncio", vê agora um novo trabalho seu concorrer para o principal prémio deste festival. Um belíssimo trabalho de art-house.

O próximo ciclo já tem nome:


Filmes Proibidos: A história dos filmes banidos na América

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Todos Somos Ladrões (Thieves Like Us) 1974

Três ladrões condenados por roubarem bancos no interior do Mississippi fogem da prisão e deixam a cidade sob alerta. Eles não tem tempo a perder e tem que tomar muito cuidado, mas o envolvimento repentino entre um dos fugitivos e uma jovem rica deixar pôr tudo a perder.
Tal como "McCabe & Mrs. Miller" (1971), "Thieves Like Us" mostra Robert Altman a deitar um olhar revisionista ao passado da América. Tal como no filme anterior, também este é ritmicamente lírico, visualmente bonito, mas impiedoso no seu retrato aos desajustados e aos perdedores do lado errado da lei. Altman evoca perfeitamente o ritmo lânguido e a beleza nebulosa e decadente do "deep south". Embora o filme tenha alguns paralelos com "Bonnie & Clyde" e "They Live by Night", de Nicholas Ray, baseado no mesmo romance, Altman encontra uma poesia e tragédia distintas nesta história, e o filme permanece na história muito tempo depois do filme acabar.
Keith Carradine e Shelley Duvall são a dupla central do filme, tanto um como outro já vinham de filmes anteriores do realizador. Duvall era vendedora de cosméticos quando foi descoberta por Altman, e desde então fizeram vários filmes juntos. "Thieves Like Us" fez parte da seleção oficial do festival de Cannes de 1974. Altman já tinha ganho uma vez o festival, com "M.A.S.H.".

terça-feira, 30 de março de 2021

Amarcord (Amarcord) 1973

Retrato da cidade natal de Fellini, Rimini, assim como ele a conheceu, nos anos 30. Mostra o quotidiano de diversos personagens da vila durante um ano, entre as travessuras da adolescência, um rigoroso inverno, a passagem de um transatlântico e a ascenção do fascismo.
"Amarcord" é um olhar peculiar de Federico Fellini sobre a sua infância, durante a década de 30. Mas, sendo um filme de Fellini, dificilmente é um olhar directo para o passado. Fellini evita a nostalgia de detalhes autobiográficos e troca-os por elementos cartoonescos e carnavalescos do surreal e do peculiar.  É menos sobre um passado específico do que sobre como alguém pode lembrar-se e entender esse passado, filtrado pelas experiências da vida. O tom geral do filme é de humor confuso misturado com uma sátira mordaz da vontade da vida provinciana se vergar ao fascismo.
O argumento, escrito pelo próprio Fellini e Tonino Guerra, com quem o realizador trabalhou várias vezes, está estruturado à volta de eventos individuais, em vez de ligações causa e efeito, que uniriam todos esses eventos numa narrativa coerente. Isso não quer dizer que o filme não tenha forma. Considerando a maior parte da produção do realizador durante a década de 70, até é dos seus filmes mais acessíveis.
Fellini já tinha ganho uma vez em Cannes com "La Dolce Vita". Uma vez que o filme já estava em circulação desde o final de 1973, e assim já estava ilegível para concorrer para qualquer prémio, acabou por ser o escolhido para abrir o festival, fora de competição. Venceria o Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira no ano seguinte.   

segunda-feira, 29 de março de 2021

Reviver Cannes 1974

 Vamos agora fazer uma viagem no tempo, até ao ano de 1974. Hoje é dia 9 de Maio, e começa a 27ª edição do Festival de Cannes. 
Alguns factos importantes deste ano: a renúncia de Richard Nixon, a Revolução dos Cravos em Portugal, a Lei do Aborto em França, Helmut Schmidt torna-se chanceler da Alemanha, a grande crise do petróleo, eu nasci. No cinema, "The Sting", de George Roy Hill vence os Óscares, no dia 2 de Abril, um pouco mais de um mês antes do inicio do festival de Cannes. Uma nova geração de realizadores americanos, que mais tarde viria a ser conhecida por Movie Brats, estava a tomar conta de Hollywood. Esta geração, também chamada de Nova Hollywood, teria a sua presença bem vincada no festival deste ano, em Cannes. Outros filmes importantes deste ano: "The Towering Inferno", de John Guillermin, "Chinatown", de Roman Polanski, "Lacombe Lucien", de Louis Malle.
Já em 1974 o Festival de Cannes era um dos eventos mais portantes do mundo. Maurice Pialat fica muito desiludido pelo seu novo filme não ser exibido sequer no festival, "La Guele Ouverte". Robert Bresson fica furioso pelo seu "Lancelot du Lac" não ter sido escolhido para a selecção oficial, e diz que o Festival de Cannes está a levar o cinema para a mediocridade. Mas mesmo assim, o filme foi apresentado fora de competição, e Michel Piccoli foi o seu porta-voz: "O Sr. Robert Bresson, em acordo com os seus produtores e a Sociedade dos Realizadores Franceses, decidiu não apresentar, esta noite, "Lancelot do Lac". Por respeito aos membros do júri, e ao público, teve a gentileza de reconsiderar a sua decisão, mas parece fundamental mostrar a sua indignação com as condições em que se realiza o Festival de Cannes. O espírito que rege a seleção e a organização deste festival em geral, parece contrária à sua ideia do que é o cinema."
René Claire, o presidente do júri, mudou a tradição. Cannes este ano não será diplomaticamente correcto. Os prémios não serão mais entregues para agradar a todos, seria feita uma pequena revolução que seria muito bem recebida pela imprensa. Jovens realizadores americanos estariam em destaque nesta edição, alguns com menos de 30 anos. E de facto eles viriam a mudar a história do cinema.
Faziam ainda parte do Júri os seguintes elementos:
- Jean-Luc Dabadie (França)
- Kenne Fant (Suécia)
- Félix Labisse (França)
- Michel Soutter (Suiça)
- Mónica Vitti (Itália)
- Alexander Walker (Uk)
- Rostislav Yurenev (União Soviética)

Ao longo do próximo mês, vamos passar aqui em revista,  uma boa parte dos filmes que passaram em Cannes na edição deste ano. Da seleção oficial, das seleções paralelas, os filmes que foram exibidos fora de competição. Fiquem atentos, que vai valer a pena. No final, faremos as contas.

domingo, 28 de março de 2021

Junior Bonner, o Último Brigão (Junior Bonner) 1972

 Uma semana com Junior Bonner, um profissional dos rodeos falido, que regressa à sua cidade natal para a feira anual, e para visitar a família que abandonou alguns anos antes. O pai é um sonhador dissoluto determinado a encontrar ouro na Austrália. A mãe está resignada aos objectivos do pai. O irmão destrói o campo para ganhar dinheiro em imóveis. Enquanto o velho Oeste e os seus códigos dão lugar ao progresso, Junior Bonner é um solitário, lacónico, exactamente o que quer ser.
Primeira colaboração entre Sam Peckinpah e Steve McQueen, anterior ao blockbuster de acção "The Getaway" (1972), mostra o lado mais afectuoso destas duas personalidades do cinema. Junior Bonner é o típico protagonista de Peckinpah, um homem em descompasso com um mundo em rápida modernização, que não tem mais espaço para o seu sentido de honra. Um homem que ganha a vida a punir o seu corpo num desporto arcaico, num momento em que a maioria dos competidores já se reformou, morreu, ou mudou para algo menos perigoso. Peckinpah contrasta o espírito aventureiro incansável de Junior com o seu irmão Curly. Este é pragmático onde Bonner é romântico, grosseiro comparado com a integridade do primeiro, e crucialmente rico, quando Bonner anda sempre falido. 
Robert Preston e Ida Lupino são os pais de McQueen. Uma Lupino já com perto de 60 anos que regressava ao cinema, quando o seu palco principal nesta altura era a televisão. Era o seu último filme relevante, nos últimos anos quando regressava ao cinema era sempre em filmes de série B. Espero que tenham gostado deste ciclo.

sábado, 27 de março de 2021

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels) 1966

 A história de duas jovens, Mary Clancy (Hayley Mills) e Rachel Devery (June Harding), que são estudantes na Saint Francis Academy, um internato católico para meninas. A história estende-se por três anos, e segue as duas jovens e muitas das suas partidas, incluindo fazer disparar alarmes de incêndios, fumar cigarros na cave, entre outras coisas. À medida que as duas jovens amadurecem ganham um respeito maior pela professora e o compromisso e a devoção para serem freiras, o que leva a uma das jovens mudar de vida.
Depois de "While the City Sleeps" Ida Lupino dedicou-se mais à televisão, dois dois lados da câmara, em telefilmes e em séries. Foi nomeada para vários Emmys em séries como "Four Star Playhouse", "Mr. Adam and Eve", realizou e protagonizou episódios de séries como "The Fugitive", "The 5th Dimension", "Bonanza", e voltaria ao cinema em 1966, num filme para a Columbia produzido por William Frye, muito diferente dos trabalhos que tinha feito até então.
Apesar de ser baseado num livro, "The Trouble With Angels" era apresentado numa estrutura episódica, com muitos dos episódios a não servirem nenhum propósito útil para desenvolver alguma personagem, a não ser para mostrar o par de crianças travessas que as jovens eram. O filme apoia-se muito no talento de duas actrizes, Hayley Mills, então uma jovem em ascenção, e Rosalind Russell, uma grande estrela de Hollywood, aqui já em fase final de carreira, no papel da Madre Superiora.
Graças a uma grande campanha de marketing foi um sucesso considerável de bilheteira, para a Colombia. A campanha publicitária explorou imagens tiradas do poster de "Singing Nun", com uma risonha Rosalind Russell a andar de bicicleta de pernas esticadas, o que não acontece no filme. 

quinta-feira, 25 de março de 2021

Cidade nas Trevas (While the City Sleeps) 1956

A morte do magnata dos média, Amos Kyne, está a causar uma luta pelo poder entre os seus executivos. Entretanto, as mulheres de Nova Iorque tornam-se presa de um serial killer. O repórter Edward Mobley está na eminência de enfrentar uma missão quase impossível: capturar o assassino, para impedir que o império do magnata não caia nas mãos erradas, e salvar o seu romântico relacionamento.
Depois de duas décadas a fazer filmes nos Estados Unidos, Fritz Lang estava prestes a regressar ao seu país natal. A década de 50 era uma década difícil na produção cinematográfica. A televisão era um grande rival, e as oportunidades para Lang já não eram as mesmas, e eram mais espaçadas e por outro lado Lang tinha ganho a reputação de ser cruel com os actores. Em "While the City Sleeps" teve direito a um elenco de luxo, com alguns dos nomes mais conhecidos de Hollywood: Dana Andrews, Rhonda Fleming, George Sanders, Howard Duff, Thomas Mitchell, Vincent Price, e Ida Lupino, num papel mais secundário, uma vez mais contracenando com o seu marido. 
"While the City Sleeps" traz-nos um retrato cínico do império dos média, mais interessado em vendas do que no serviço público, que continua a ser um assunto corrente até aos dias de hoje, mesmo que as mudanças radicais na tecnologia de disseminação de informação tenha mudado de uma forma tão acentuada. Seria uma despedida em grande para Lang.


quarta-feira, 24 de março de 2021

Maio será o mês dos filmes proibidos

Women's Prison (Women's Prison) 1955

 Duas mulheres são enviadas para uma prisão de alta segurança. Uma é reincidente, e conhece todas as prisioneiras, assim como os guardas. A outra é uma pessoa decente, uma mulher que matou sem querer uma criança num acidente de viação. Uma jovem muito frágil que tem medo de ficar na prisão. Através destas duas mulheres vamos conhecer o dia a dia na prisão, que é governada por uma directora cruel, que não dá descanso a ninguém..
"Women´s Prison" poderia servir de modelo para 101 filmes que foram feitos sobre mulheres na prisão, sobretudo a partir da década de 70. Em 1955 o conceito ainda estava associado ao clássico da Warner "Caged", de 1950. Filme barato mas de entreteniment, ferve em lume brando durante uma hora e 10 minutos, para a inevitável explosão final. 
Realizado por Lewis Seiler, contava com uma esplendidamente vil Ida Lupino,  num papel feito à sua medida como dama do filme noir, aqui interpretando o papel de directora da prisão, que por não poder conviver com homens no mundo no exterior, prontamente descarrega as suas frustrações reprimidas nas presidiárias. Um bom elenco, que conta ainda com Jan Sterling, Phyllis Thaxter e Howard Duff.
Legendas em espanhol.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Número da Morte (Private Hell 36) 1954

Dois policias encontram 300 mil dólares levados durante um roubo, mas um deles sugere que não devolvam uma parte. As coisas ficam ainda piores quando um chantagista entra em cena e um deles se envolve romanticamente com Lili Marlowe, uma cantora ávida por dinheiro.
A força e a capacidade de identificação que Ida Lupino trás para os seus personagens é sempre emocionte de ver, e não é diferente em "Private Hell 36", filme de 1954 realizado por don Siegel.  O seu desempenho é muito parecido com o apresentado em "Road House"(1948). Nas mãos de Lipino, Lilli, uma cantora de um bar, não é uma vamp nem uma "femme fatale", é uma mulher que se ergueu num ambiente difícil, e se esforça para colocar a comida na mesa.
Lupino, além de ser a estrela, também escreveu o argumento com o seu ex-marido Collier Young, e este seria mesmo o último filme para a produtora The Filmmakers que os dois fundaram juntos. A contracenar com a actriz estava Howard Duff, com quem ela entretanto se tinha casado na vida real, e ainda um elenco de luxo: Steve Cochran, Dean Jagger e Dorothy Malone. 

domingo, 21 de março de 2021

O Bígamo (The Bigamist) 1953

Em São Francisco o casal Harry (Edmond O'Brien) e Eve Graham (Joan Fontaine) decide adoptar uma criança. Durante as entrevistas o comportamento suspeito de Harry chama a atenção de Mr. Jordan (Edmund Gwenn), responsável pela análise do processo de adopção. Certo de que o homem esconde um segredo, o agente começa uma investigação e descobre que Harry tem outra família em Los Angeles.
"The Bigamist" não é realmente um noir no verdadeiro sentido da palavra, mas tem algumas implicações. Além de realizar, Lupino interpreta com Edmond O´Brien e Joan Fontaine.. O´Brien é o Bigamo, Lupino e Fontaine são as mulheres infelizes que são as suas vítimas. A força do filme está mesmo nas interpretações principais e no argumento, que para o período era muito corajoso, lidando com sensibilidade com o sexo extraconjugal e a maternidade solteira. 
O filme foi uma produção independente de Lupino e do ex-marido Collier Young (que na altura já estava casado com Joan Fontaine), que adaptava uma história de Larry Marcus e Lou Schor. Pode-se dizer que o argumento é bastante suave para o bígamo, é punido mas há maturidade e sensibilidade num cenário em que pessoas decentes se metem numa confusão, não tanto por egoísmo mas devido a todas as fragilidades humanas normais.

sábado, 20 de março de 2021

Arrojada Aventura (The Hitch-Hiker) 1953

Roy Collins (Edmond O'Brien) e Gilbert Bowen (Frank Lovejoy) partem para pescar nas montanhas da Califórnia, mas acabam por mudar de planos e decidem ir ao México. No caminho, oferecem boleia a um estranho, sem imaginar tratar-se de Emmett Myers (William Talman), um perigoso bandido procurado nos EUA e conhecido como "o viajante assassino".
"The Hitch-Hiker" foi um dos poucos filmes realizados por uma mulher nos anos 50, e geralmente é considerado o único noir realizado por uma mulher, embora não obedeça directamente a todas as regras do género. Ida Lupino não era apenas uma actriz, mas também a única realizadora no velho sistema de Hollywood, onde fez vários filmes de grande impacto, a maioria deles sobre temas que os outros realizadores tinham medo de lidar. Com "The Hitch-Hiker" era diferente, enfatizava não apenas a crueldade de Emmett mas também os laços de amizade entre os dois reféns do vilão. 
Visualmente ela faz com que o deserto aberto pareça tão ameaçador e tão perigoso como qualquer rua sombria da cidade. Se os noirs urbanos costumam sugerir que as ameaças podem estar escondidas em qualquer lugar, este filme faz o oposto. A ameaça está no banco de trás de carro, e não há forma de se esconderem. 
Filmado em grande parte no deserto da Califórnia, que passava como México, foi feito com um orçamento bastante reduzido, em apenas um mês, com um tempo de duração muito curto. E assim Lupino criou com sucesso todo um mundo de violência e pavor dentro das habituais restrições.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Beware, My Lovely (Beware, My Lovely) 1952

Helen Gordon (Ida Lupino) é uma extravagante viúva que contrata Howard Wilton (Robert Ryan) para empregado, mas acaba por se arrepender, pois Ryan é um psicopata que, apesar de parecer uma pessoa normal, tem ataques de loucura seguido de amnésia.
Um thriller obscuro em que Ida Lupino volta a encontrar Robert Ryan, um ano depois de "On Dangerous Ground", desta vez pelas mãos de Harry Horner, um jovem realizador que não fez mais de 7 longas metragens. 
Lupino está particularmente bem neste filme, levando a sua personagem de simpática e compreensiva a medrosa, desesperada e resignada, com uma interpretação de bravura. Mas quem rouba o espetáculo é Robert Ryan. Neste filme ele é o vilão perfeito, um papel que dominou ao longo da sua carreira. Mesmo quando interpretava um dos heróis, era sempre o tipo errado de herói. No final dos anos sessenta ele fez duas personagens marcantes em "The Dirty Dozen" e "Wild Bunch". Como não fazia parte dos 12 nem da quadrilha ele simbolizava a figura da autoridade. Mas como se vivia o tempo dos anti-heróis, ele acabava por se tornar o vilão por padrão. 
Segundo consta Lupino dirigiu algumas cenas deste filme, quando a esposa de Horner estava hospitalizada.

Imdb   

quarta-feira, 17 de março de 2021

Cega Paixão (On Dangerous Ground) 1951

Amargurado pelos anos de contacto direto com a escória da sociedade, um duro detetive de polícia (Robert Ryan) é designado para investigar a morte de uma jovem fora da cidade. Logo conhece o pai da vítima, e fica com o desejo de vingança. Acaba por se envolver com uma jovem cega (Ida Lupino), que pode ser a irmã do assassino. 
Nicholas Ray nunca foi o tipo de realizador que facilitasse, nem que isso o ajudasse no box-office, por isso a imagem do polícia intransigente em "On Dangerous Ground" acaba por não ser uma surpresa. Contudo, as audiências no início dos anos cinquenta não estavam preparadas para esta história, que incluía um detective sádico a tentar apanhar um assassino que podia ser um doente mental. Mesmo um final quase milagroso não salvou o filme do desastre bilheteiras, levando a RKO a perder 450 mil dólares na altura da estreia, que para aqueles tempos era uma soma bem considerável. 
A história de um polícia que procura um assassino deficiente mental e se apaixona pela sua irmã, foi submetida à RKO como um possível futuro projecto de Ray, contudo os leitores do estúdio consideraram que este projecto seria inadequado para ser filmado. É aqui que entra o produtor John Houseman, que queria terminar o contrato com a RKO e afastar-se do seu errático dono, Howard Hughes. Houseman conseguiu garantir os direitos do livro quando Ryan mostrou interesse no papel de protagonista, e, já com três talentos associados ao projecto, a RKO decidiu dar luz verde para se iniciarem as filmagens. Houseman descreveu o tempo que esteve a trabalhar para a RKO como o pior e mais negro momento da sua carreira, trabalhando numa atmosfera desagradável e improdutiva, que não podia ter sido mais distante dos dias que trabalhou com Orson Welles e o The Mercury Theater. Felizmente Houseman e Nicholas Ray deram-se bem nos vários filmes em que trabalharam juntos. O valioso membro anónimo em "On Dangerous Ground" era o argumentista A.I. Bezzerides, que adaptou o livro de Gerard Butler em colaboração com Ray.

terça-feira, 16 de março de 2021

segunda-feira, 15 de março de 2021

O Preço da Fama (Hard, Fast and Beautiful!) 1951

Quando a jovem Florence Farley demonstra ter um potencial talento para o ténis, a mãe Millie e o ex-campeão Fletcher Locke percebem que podem tirar proveito do seu sucesso. Quanto mais sucesso Florence consegue, mais se vê dividida entre aqueles que a amam ou agradar a ambiciosa mãe e seguir carreira no desporto.
Ida Lupino a filmar os bastidores do desporto feminino. "Hard, Fast and Beautiful" previu a era moderna dos desportos femininos importantes, e de pais motivados que não parariam por nada para ajudar os seus filhos a alcançar o ouro. De novo com Sally Forrest, a protagonista de "Never Fear", e desta vez com nome de peso no elenco: Claire Tervor, que nesta altura já tinha ganho um Óscar, e já tinha feito os seus filmes mais importantes.  
Apesar de já ter sido feito com um orçamento um pouco superior aos anteriores teve menos sucesso com a critica. Por um lado era sobre um tema menos sensacional / socialmente consciente do que os três primeiros, que lidavam com temas como a gravidez indesejada, a poliomielite ou a violação, por outro lado era o seu primeiro filme que não era directamente escrito por si e pelo marido. O argumento era de Martha Wilkerson, em parte baseado num livro de John R. Tunis.