domingo, 24 de junho de 2018

A Rapariga dos Olhos Verdes (Girl with Green Eyes) 1964

Kate Brady (Rita Tushingham) e Baba Brennan (Lynn Redgrave) são amigas de longa data, desde a escola, que se mudam para Dublin para escapar ao tédio e provincialismo da sua pequena cidade. Baba é bonita, extrovertida, cuja abordagem mais despreocupada da vida energiza Kate, a mais reservada. Somos introduzidos ao ambiente social da Dublin da década de 60, que passa rapidamente pela vida de Kate e Baba. Kate é estudante, Baba trabalha numa mercearia. Pela vida destas duas jovens vai cruzar um homem, Eugene Gaillard (Peter Finch).
Filme de estreia de Desmond Davis, um nome que já estava ligado a este movimento de cinema realista inglês, como operador de câmara, tendo colaborado em filmes como "A Taste of Honey", "The Loneliness of Long Distance Runner", ou "Tom Jones". Davis filma Dublin, e, brevemente, Londres, com um olhar amoroso pelos detalhes e pela vida nas ruas. O que se passa nas ruas é reflectido na tela. Enquanto Redgrave é a mais vistosa, Tushingham mostra uma audácia corajosa que demonstra porque o par é amigo. 
O cinema livre britânico tendia a enfatizar as mulheres como seres emocionais cujas rebeliões, em contraste com os Angry Young Men, que precisavam necessariamente de ser românticas. Alguns anos mais tarde, Lindsay Anderson estendeu este papel feminino para incluir uma mulher como rebelde armada em "If..."
Este é dos filmes menos conhecidos desta Nova Vaga Britânica, mas vale a pena o visionamento. 

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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso (A Hard Day´s Night) 1964

"Famosamente descrito por uma Village Voice sobre-excitada como o "Citizen Kane dos filmes Jukebox" , a comédia de Richard Lester de 1964, com os Beatles e a sua música como estrelas, pode não ser precisamente isso (embora seja mais divertida), mas mudou para sempre a forma dos filmes de música pop. Com um guião da autoria do escritor de Liverpool Alan Owen, repleto de um humor vivíssimo e de uma ambiência de realismo social, e traços das influências britânicas surrealistas de Lester (ele já trabalhara com os ídolos cómicos dos anos 50 dos Beatles, os Goons), "Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso" acompanha um dia na vida de um grupo teen de sucesso, e transforma-o em algo de emocionante. A câmara segue os Beatles - que representam uma reconhecível versão deles próprios - durante um dia típico: são perseguidos pelos fãs, driblam perguntas idiotas da imprensa e, finalmente, actuam a sério. Lester deu aos quatro membros da banda o suficiente para se ocuparem, em especial Ringo Starr, cuja cena tocante num canal de barcos com um rapazito é acentuada pelo facto do cantor estar com uma ressaca monumental.
Lennon, McCartney, Harrison e Starr surgem como rapazes estimáveis, ligeiramente rebeldes e inteligentes, que, na tradição dos dramas realistas do norte de Inglaterra, são terra-a-terra, despretensiosos e com  inclinação para ver através da falsidade dos outros ("combati na guerra por tipos como você" diz um velho de cartola a Starr, que replica "aposto que lamenta ter vencido"). A constante rejeição de quase tudo - produtores de TV, publicitários, autoridade em geral - podia ter envelhecido mal senão fosse contrastada com a força e glamour da banda. A combinação funcionou exactamente como se pretendia: uma explosão de propaganda não só para os Beatles, mas também para a então muito valorizada geração "mais jovem". Embora "Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso" não seja directamente responsável pela invenção da contracultura, nem pela expulsão da velha  Hollywood ou o fim da guerra do Vietname, foi visto, absorvido e reverenciado como um viveiro de futuro talento artistíco, particularmente nos Estados Unidos, onde uma geração mais jovem achou o filme libertador. E as canções são o máximo."
Texto de K.K.

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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Jogador Profissional (This Sporting Life) 1963

No início dos anos sessenta, no Norte de Inglaterra, Frank Machin é mesquinho, forte e ambicioso o suficiente para se tornar numa estrela da equipa de rugby da equipa local, dirigida por Weaver.  Machin hospeda-se em casa de Mrs Hammond, cujo marido foi morto num acidente, mas a sua natureza impulsiva, e a sua raiva natural, impedem-no de se aproximar dela como gostaria. Fica cada vez mais frustrado com a situação, e isso não o ajuda na paixão que começa a sentir pela Mrs Weaver.
"This Sporting Life" (1963) era mais um filme directamente ligado à Nova Vaga Inglesa. De certa forma era um dos últimos, embora a influência prosseguiria ainda por mais alguns filmes, assim como este ciclo também continuará. Embora os seus métodos e estilos permanecessem influentes, a sua falha nas bilheteiras significaria que os produtores não estavam mais dispostos a investir o seu dinheiro em temas mais corajosos e realistas. O público queria escapismo novamente.
Era fácil de perceber porque é que este "This Sporting Life" não foi um sucesso comercial. Ao contrário dos filmes anteriores da nova vaga, mais curtos e vigorosos, este tem mais de duas horas de duração. Onde "Saturday Night and Sunday Morning" e "A Taste of Honey" lidavam com questões difíceis e pintavam uma imagem corajosa de Inglaterra, oferecendo alguma esperança, "This Sporting Life" era um filme filme frio e totalmente implacável. 
Isto não quer dizer, de forma nenhuma, que este filme tenha sido um fracasso, mas tem o olhar mais inflexível sobre a miséria da condição humana que o cinema britânico já conseguiu. Por vezes o ritmo, a estética expressionista e a obsessão com o trauma emocional, fazem-no parecer mais com a filmografia sueca de Ingmar Bergman do que, propriamente, o realismo social britânico.
Na altura que o filme estreou o realizador Lindsay Anderson disse que o filme não devia ser visto como um filme "da classe trabalhadora do norte do país", embora as frustrações da classe fossem a base de como os personagens por vezes se comportam. Pelo contrário, é sobre a impossibilidade de felicidade e a incapacidade das pessoas de se comunicarem umas com as outras. Richard Harris e Rachel Roberts eram os protagonistas, com ambos a conseguirem uma nomeação para os Óscares.

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terça-feira, 19 de junho de 2018

Tom Jones, Romântico e Aventureiro (Tom Jones) 1963

No século XVIII, uma criança abandonada é criada por um nobre inglês. Quando adulto, Tom Jones torna-se um playboy e mulherengo, mas quando o seu tutor morre ele apaixona-se por Sophie, e vê-se obrigado a mudar o seu comportamento.
Um dos grandes sucessos de bilheteira dos anos sessenta, e vencedor de quatro Óscares da Academia (incluindo melhor filme e melhor realizador), foi financiado por dinheiro americano, cortesia da United Artists, numa tentativa de aproveitar o sucesso desta vaga de filmes ingleses. Afasta-se um pouco dos outros filmes da série, na verdade até tem pouco a ver, mas inclui muita gente que estava ligado a este movimento. Desde o realizador, Tony Richardson, o que mais havia contribuído até então, o argumentista John Osborne, o director de fotografia Walter Lassally ("The Loneliness of a..."), ou o actor Albert Finney.
Tony Richardson dirige esta fantasia histórica como uma alegre brincadeira passada em Somerset e Londres do século 18, com muitas cenas a serem filmadas no Oeste do país. Richardson usa algumas técnicas da recente Nouvelle Vague que incluem movimentos de câmara em stop motion, jump cuts, e até alguns olhares ocasionais para a audiência.  John Osborne, que também ganhou um Óscar pelo argumento, consegue passar para filme 1000 páginas de um romance clássico de Henry Fielding, e consegue preservar o espírito do livro, mantendo-o como uma comédia irreverente, embora esteja muito distante do conteúdo da história original. 
Uma grande interpretação de Albert Finney, bem acompanhado por um elenco de luxo: Susannah York, Diane Cilento, Hugh Griffith, Edith Evans, Joyce Redman, David Warner, Lynn Redgrave, entre outros. Conseguiu a proeza de ter cinco actores nomeados para Óscares, coisa que poucos filmes conseguiram até hoje, embora não tenha vencido nenhum. 

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segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Jovem Mentiroso (Billy Liar) 1963

Desgastado pela sua própria vida, mas aterrorizado para procurar uma melhor, William Fisher personifica a passividade da geração do pós-guerra, confusa pela riqueza de oportunidades que foi negada aos seus pais. Liz é uma jovem de espírito livre, radiante e ansiosa por descobrir o que o mundo lhe tem para oferecer. A vida destes dois jovens vai-se cruzar, e para William é pegar ou largar.
"Billy Liar" é provavelmente o filme mais divertido desta "nova vaga". Na verdade, é o único que podemos dizer que está próximo de uma comédia, e como uma boa comédia há uma oferta interessante de piadas que permitem que o público leve em consideração verdades difíceis, e idéias complexas que podiam ser mais intragáveis num trabalho dramático.
Baseado num livro de Keith Waterhouse, e numa peça subsequente de Willis Hall, "Billy Liar" tem a estrutura de uma comédia clássica de TV. Em 1963 "Galton and Simpson's Steptoe and Son" (BBC, 1962-74) foi um grande sucesso na televisão britânica, e tinha alguns paralelos com este segundo filme de John Schlesinger. Tal como Harold Steptoe, Billy era um fantasiasta disposto a transcender a sua vida quotidiana, mas incapaz, realmente, de a deixar na realidade, preferindo chafurdar no conforto da sua vida de fantasia.
O filme é maravilhosamente interpretado, principalmente por Tom Courtney (de "The Loneliness...")com a sua mistura de boas intenções, imaturidade e inteligência, a conseguir ser genuinamente engraçado. A pungência de Billy, o perdedor, é contrastada pela bela, irresistível e imaginativa Liz, interpretada por Julie Christie, com uma das suas personagens mais devastadoras. Dois anos depois Christie voltaria a trabalhar cim Schlesinger noutro filme desta "nova vaga", no qual venceria o único Óscar da sua carreia.

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domingo, 17 de junho de 2018

Um Modo de Amar (A Kind of Loving) 1962

Alan Bates é Vic Brown, um jovem desenhador numa fábrica que ama Ingrid Rothwell (June Ritchie).Certa noite em que a mãe da jovem não está em casa eles fazem amor. A partir daí, Vic não quer saber dela até que Ingrid lhe dá a notícia de que está grávida. Acabam por se casar e passam a viver com a mãe dela que não gosta de Vic.
Primeira obra de John Schlesinger, adapatado de um best seller de Stan Barstow. O argumento pode levar a supor que é quase uma paródia a um filme da "new wave britânica",  com o seu cenário do norte do país, jovens adolescentes grávidas obcecadas com televisões e bandas, mas na verdade é um trabalho muito subtil, explorando a forma como as pessoas têm de negociar o que querem através de uma série de compromissos e escolhas difíceis.A história da relação de Vic e Ingrid oferece uma visão complexa do amor e do sexo num momento de mudança. 
Existem tensões entre desejo, responsabilidade e aceitação social, que não são facilmente resolvidas. Embora o clima moral que o filme descreve tenha mudado consideravelmente, "A Kind of Loving" continua a ser um filme interessante e compensador, que ousa aceitar que não há necessariamente respostas fáceis para as perguntas que ele apresenta. O filme é também interessante como uma ilustração de novas afluências e aspirações da classe trabalhadora. 

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sábado, 16 de junho de 2018

The Loneliness of the Long Distance Runner (The Loneliness of the Long Distance Runner) 1962

"No preto-e-branco gráfico e cuidadoso da película, vemos o jovem correndo. Desloca-se – rapidamente, mas sem pressa – por entre bosques cinzentos, resvalando na vegetação áspera, desviando-se dos galhos mais baixos, alterando seu rumo ao sabor dos instintos. Seus braços por vezes movimentam-se como que a querer apanhar o vento que investe contra seu corpo e revigora sua jornada; é nítido o prazer que o jovem desfruta deste ato. Ele corre porque é o que sabe fazer melhor; corre por inteiro, podíamos talvez dizer. Corre com a intensidade de quem só assim parece sentir-se vivo. 
 No belo filme britânico "The loneliness of the long-distance runner", o protagonista Colin Smith é um jovem transgressor – oriundo de uma família proletária disfuncional – cujo grande talento é a aptidão para corridas de fundo. Nesta obra, o ato de correr apresenta-se como um elemento metafórico para veicular com potência a mensagem libertária que perpassa toda a história.A vocação de Smith para correr é um símbolo de seu esforço em enfrentar a adversidade e confrontamento com a autoridade que perpassa sua existência: no presente da narrativa, ele é um dos internos em um reformatório, depois de ser apanhado por um pequeno roubo. Mas afigura-se também como um meio pelo qual escapar a sua condição de confinamento, quando é conduzido a uma situação-limite que irá forçá-lo a um impasse: uma competição em que vencer poderá garantir-lhe a promessa de um novo estatuto social, enquanto perder seria uma forma de resguardar sua integridade e valores pessoais. Ele não pode vencer a corrida, se quiser seguir correndo, metaforicamente, em sua jornada pessoal. Correr é seu derradeiro ato de liberdade." Por Guy Amado
Adaptado para o grande ecrã por Alan Sillitoe, de uma curta história sua, e com realização de Tony Richardson. Funciona melhor do que muitos dos seus pares da nova vaga britânica, mantendo a mesma frescura mais de 50 anos depois da sua estreia, graças ao tema principal intemporal. Quando estreou foi visto como um contraponto a "Os 400 Golpes" de François Truffaut, e ultrapassa-o em certos aspectos.

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Uma Gota de Mel (A Taste of Honey) 1961

Brancos e negros, homossexuais e heterossexuais, mães e filhas, classe, e entrada na idade adulta. Jo é da classe trabalhadora, uma adolescente que vive com a mãe bêbada e libidinosa no norte de Inglaterra. Quando a mãe se casa impulsivamente, Jo está nas ruas, ela e Geoffrey, um amigo gay com quem anda à deriva, encontrando um quarto juntos. Jo engravida depois de uma noite com um marinheiro bêbado, e é Geoffrey quem assume os preparativos para o nascimento do bébé, tornado-se, na verdade, o pai dele.
Um intenso drama juvenil "Kitchen Sink", retratando realisticamente a vida da classe trabalhadora britânica. Tony Richardson adapta com êxito a peça de estreia de Shelagh Delaney, para o cinema, com o filme a introduzir-nos a mais uma possível estrela britânica, em estreia absoluta no cinema, Rita Tushingham, uma jovem de 19 anos que com este papel ganharia os prémios de interpretação feminina no Festival de Cannes e nos Golden Globes, graças ao seu papel sem usar maquilhagem, de uma jovem das favelas que fica mãe solteira. 
Infelizmente é um filme que fica um pouco datado para os padrões modernos, mas na altura em que estreou "A Taste of Honey" era um filme chocante e intrigante, abordando temas como relações de brancos com negros, mães solteiras adolescentes e jovens gays. Captura na perfeição as ruas sujas e a vida dos trabalhadores da classe operária.
Rita Tushingham era uma grande promessa, com um começo de carreira bastante promissor, mas acabaria por desaparecer entre telefilmes e episódios de séries.

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quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Comediante (The Entertainer) 1960

No meio da crise do Suez um actor de teatro fracassado (Laurence Olivier) recusa-se a reconhecer o seu estado de coisas, enquanto se apresenta diante de plateias vazias, traíndo a sua esposa bêbada (Brenda de Banzie), e ajudado pelo seu pai doente (Roger Livesey) a financiar a sua última produção, sempre debaixo do olhar atento da filha (Joan Plowright).
Segunda obra de Tony Richardson, que tal como "Look Back in Anger" era a adaptação de uma peça de John Osborne. Contando com Laurence Olivier no papel principal, repetindo o papel no cinema que havia sido seu no teatro. Há uma cena comovente no filme, em que Olivier contracena com a filha (Plowright), em que ele lhe pergunta: "O que acharias se eu casasse com uma rapariga da tua idade?", ao que a filha responde: “Oh. Daddy”. Depois de produzido o filme, Olivier acabaria por casar com Plowright, depois de se divorciar de Vivien Leigh. Com 22 anos de diferença entre os dois, acabariam por viver juntos até à morte do actor. 
"The Entertainer" foi um dos grandes sucessos de Laurence Olivier, tanto no teatro como no cinema, onde o actor é uma verdadeira força, interpretando uma personagem intensamente desagradável. Tony Richardson captura com sucesso os lugares sujos de Londres, e a desagradável aura da história. Também é interessante ver Alan Bates e Albert Finney, ambos em início de carreira, e ambos como filhos de Olivier. 
Legendas em espanhol.

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terça-feira, 12 de junho de 2018

Sábado à Noite, e Domingo de Manhã (Saturday Night and Sunday Morning) 1960

No fim dos anos 50 e no inicio dos 60, o cinema britânico virou-se para o realismo social, lidando usualmente com impulsos de rebelião ou aspirações de ascenção social, entre jovens espertos, articulados e amargos, das classes trabalhadoras. Quase todos esses filmes eram baseados em obras dos "angry young men", romancistas e dramaturgos como John Osborne (Paixão Proibida/ Look Back in Anger), John Braine (Um Lugar na Alta Roda), e Sean Barstow (Um Modo de Amar), o livro de Alan Sillitoe, "Sábado à Noite, e Domingo de Manha" deu origem ao melhor filme desta lista, embora a direcção de Karel Reisz não seja isenta de um tipo de inclinação sentimental para o pitoresco, que surge muitas vezes quando cineastas educados em Cambridge viajam para o Norte para transformar montes de detritos em paisagens extraterrestres e espiar, em Nottingham, os estranhos comportamentos de operários fabris que frequentam pubs.
A força do filme está na voz de Sillitoe ("o que quero é divertir-me - tudo o resto é propaganda") e na entrega do diálogo a Albert Finney, que faz uma tremenda primeira impressão como Arthur Seaton, o hedonista rebelde e viril que explode de indignação no local de trabalho e goza o que pode nas horas livres. O titulo refere-se implicitamente ao processo de "meter na ordem" que é a consequência inevitável do estado de Arthur: as noites de sábado, marcadas por uma escalada de álcool e excessos sexuais, são pagas nas manhãs de Domingo, durante as quais o protagonista está confinado a uma casa nova e ao seu casamento respeitável.
O filme mostra como o pai de Arthur (Frank Pettitt) ficou reduzido a um telespectador e como muitos dos seus amigos, ligeiramente mais velhos (sobretudo o companheiro a quem ele põe os cornos) estão a caminho de ficar presos no sistema. Apesar de Arthur saír de uma relação com uma mulher casada (Rachel Roberts) e ser atraído para um noivado com uma rapariga (Shirley Anne Field) bonita mas convencional, ainda está decidido a continuar a atirar pedras e partir janelas. Como muitos outros filmes deste ciclo, "Sábado à Noite, e Domingo de Manha" tende para ser complacente com um género de machismo proletário que ronda a misoginia (para Arthur, todas as mulheres são ratoeiras), mas Rachel Roberts - num papel semelhante ao de Simone Signoret em "Um Lugar na Alta Roda" (1959) - exprime uma dor real que constitui uma leitura alternativa à rebelião de Arthur."
Texto de Kim Newman

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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Paixão Proibida (Look Back in Anger) 1959

Apesar de ter formação universitária, Jimmy Porter (Richard Burton) não consegue um trabalho melhor do que ter, em conjunto com Cliff Lewis (Gary Raymond), uma barraca de doces numa feira. A relação de Jimmy com Alison (Mary Ure), a sua esposa, alterna entre abraços e beijos quando se sente bem e ofensas verbais quando está irritado, o que é mais frequente. A actriz Helena Charles (Claire Bloom), a melhor amiga de Alison, vai ficar alguns dias hospedada com eles, enquanto encena uma peça. Helena foi convidada por Alison, que precisa de alguém para conversar, mas Jimmy não a suporta e ofende-a sempre que possível. Ela, por sua vez, diz para Alison abandonar Jimmy, pois o casamento só lhe trouxe infelicidade.
Drama autobiográfico baseado numa peça Londrina de 1956, da autoria de John Osborne, que é o primeiro trabalho na realização de Tony Richardson. A peça também tinha sido encenada por Richardson. A adaptação para cinema é da autoria de Nigel Kneale, uma adaptação extraordinariamente inteligente, sacrificando as tensões claustrofóbicas da peça, os longos discursos nos quais Jimmy Porter faz as suas agressões, mas dá mais peso ao drama pessoal. Como uma expressão de uma atitude, o filme é significativamente mais fraco do que a peça. Como exploração de uma situação entre pessoas é possivelmente mais forte.  
Legendas em espanhol.

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sábado, 9 de junho de 2018

Um Lugar na Alta Roda (Room at the Top) 1959

Uma cidade industrial inglesa triste, mas Joe Lampton conseguiu um emprego com futuro. Para ter algo que fazer à noite junta-se a um grupo de teatro, onde a filha do seu chefe, Susan, faz papel de ingénua, tanto no palco como na vida real. Ela sente-se atraída por Joe, e Joe pensa no quanto mais rápido poderá subir na empresa se for genro do chefe. O plano começa a complicar-se quando Joe se sente atraído por uma mulher mais velha, também da companhia teatral. Ela é francesa, e infelizmente casada, mas Joe acha que se pode safar a ver as duas ao mesmo tempo. 
Um apito estridente anuncia a chega de Joe Lampton na inesquecível abertura de "Room at the Top". Enquanto as pilhas de chaminés e canais do norte industrial passam ao fundo, Joe calça os sapatos novos por cima das meias esfarrapadas, tira o jornal que cobre o rosto e esquiva-se da câmara antes que possamos vê-lo. Esta era a estreia de um novo tipo de protagonista cinematográfico, para uma nova Grã-Bertanha, o jovem revoltado, o anti-herói da classe trabalhadora que sabe o que quer, e fará tudo para consegui-lo. "Room at the Top" deu ao público esta personagem, ao mesmo tempo que lhes deu um novo tipo de filme: x-rated, escuro, sem vergonha de dizer palavrões e franco sobre o sexo.
Justamente anunciado como o filme que deu início ao movimento da "Nova Vaga Inglesa", "Room at the Top" estabeleceu o terreno para uma série de filmes posteriores. É um filme que vive obcecado com as "classes", particularmente a imagem das classes e como as pessoas de diferentes classes se veem. Foi feito numa época em que os limites da classe começavam a se dissipar, embora não se dissolvessem completamente, e a própria classe trabalhadora se começasse a dividir entre os operários manuais e os de colarinho branco. 
Estreado no início de 1959, foi um êxito tanto comercial como de crítica, tendo vencido dois Óscares entre as seis nomeações conseguidas. Um deles foi para Simone Signoret, como melhor actriz secundária.

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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Nova Vaga do Cinema Inglês

A Nova Vaga do Cinema Inglês durou poucos anos, mais ou menos desde 1959 até 1963, e a sua produção passou de pouco mais do que a dúzia de filmes, mas, embora em pequeno número, foram obras influentes, e poderosamente evocativas, o suficiente para levar os principais críticos a falarem numa espécie de "renascimento do cinema britânico".
O movimento apareceu no final de uma década que tinha sido bastante desanimadora em termos de qualidade dos filmes, repleta de comédias leves, filmes de terror góticos, ou intermináveis filmes da segunda guerra mundial, e assim esta Vaga foi recebida pelo público como uma lufada de ar fresco.
A Inglaterra de hoje é definida pela classe, mas durante a década de 50 as divisões entre a população eram muito rígidas. Os filmes da Nova Vaga, e as fontes que os inspiraram, deram a voz à classe operária, que pela primeira vez estava a ganhar poder económico. Anteriormente as personagens da classe trabalhadora no cinema inglês eram usadas basicamente para efeitos cómicos, ou o chamado "carne para canhão". Mas aqui vemos as suas vidas no centro da acção, uma acção onde eram detalhadas o dia a dia das suas vidas.
Os realizadores principais desta vaga foram Tony Richardson, Karel Reisz, John Schlesinger e Lindsay Anderson. A maioria deles vinha do teatro, principalmente do Royal Court Theatre, onde Richardson tinha encenado peças de John Osborne, as notáveis "Look Back in Anger" e "The Entertainer" que receberam grande aclamação. Na verdade, a maioria das produções pertencentes a esta vaga eram produzidas pela Woodfall films, uma produtora que tinha na sua liderança precisamente Richardson e Osborne, que tinham como objectivo passar estas peças para o cinema, o que realmente fizeram, com actores como Richard Burton ou Laurence Olivier como protagonistas.
Interessante como apenas "Room at the Top" (1958) e "Look Back in Anger" (1959) olhavam directamente para o conflito entre a classe trabalhadora e a classe média. Os filmes posteriores focavam-se nos conflitos dentro da classe trabalhadora, contrastando os "rudes" (os muito pobres, não qualificados, criminosos e hedonistas) representados por personagens como o Arthur Seaton de "Saturday Night and Sunday Morning", ou o Colin Smith de "The Loneliness of the Long Distance Runner", com os "respeitáveis" (respeitados, habilidosos e moralistas), como os heróis dos filmes de John Schlesinger, o Vic Brown de "A Kind of Loving" (1962) ou o Billy Fisher de "Billy Liar" (1963).
Todos estes filmes, e não só, poderão ver por aqui, no M2TM, nas próximas três semanas. Espero que aproveitem, e bom ciclo.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Filha (A Filha) 2003

"Há mais de vinte anos - rigorosamente, desde "Dina e Django" (1981), Que Solveig Nordlund vem falando de filhos. Nesse filme era uma jovem que se deixava enredar pelo romantismo da fotonovela e acabava a cometer um crime.  Em "Até Amanhã, Mário"(1993) e "Comédia Infantil" (1997), eram miúdos de risco, em cenários sociais devastados. Em "Aparelho Voador a Baixa Altitude" 2001), era um próximo futuro em que as crianças nasciam mutantes e a procriação se tornava interdita. Nesse caminhar, chegou agora Solveig Nordlund a um ponto extremo: "A Filha" é uma história de desespero suicidiário, lá onde os fantasmas de incesto e da violência se convocam.
O filme começa em ambiente reconhecível: uma gala de televisão, o seu protagonista, produtor de "reality shows" escandalosos de sucesso vai à Madeira receber um prémio, entre flashes de fotógrafos e a pressão libidinosa de uma mulher que percebemos ser sua amante. Mas há uma ameaça no ar: o nosso homem recebe uma mensagem da filha no telemóvel, a urgir que venha para casa ou não a verá mais... Ele faz todos os esforços para vir, mas acaba por ceder à chantagem da amante. E quando chega a Lisboa a filha desapareceu de facto. Entra em cena uma jovem candidata a apresentadora de um novo "reality show" a ser produzido.  Uma jovem disposta a tudo para conseguir a fama. Disposta a mentir-lhe dizendo onde a filha está, disposta a tomar o lugar da própria filha...
Não há no cinema português memória de um filme assim. Um filme que parte de um quotidiano banal para um universo concentracionário onde a crueldade e a alienação tomam conta. Uma crueldade fria, lenta, sistemática, onde se cavalgam em rota de colisão um pai atormentado e abusador e uma rapariga que acredita até à insanidade na sua capacidade de manipulação. Uma alienação em que a existência oscila nos seus valores mais essenciais - não há um único personagem eticamente sustentado em todo o filme, todos se movem sem padrões que não sejam os do egotismo - e em que a loucura do protagonista é apenas um desvio mais pronunciado a uma desnormalização generalizada. Há um desencanto cavado no olhar de Solveig Nordlund, o mundo corrompeu-se sem esperança. Na obra da realizadora aflora a sua matriz escandinava, mais de trinta de mediterraneidade não apagaram os genes socioculturais em que se formou."
Texto in Expresso, Jorge Leitão Ramos

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terça-feira, 5 de junho de 2018

Sem Ela (Sem Ela) 2003

Jo e Fanfan são irmãos gémeos, embora de sexo diferente. Filhos de um casal de portugueses emigrado em França, apanhamo-los em princípio de férias a caminho de Portugal. E descobrimos, logo logo, que entre eles existe uma intimidade muito particular. Andam juntos para todo o lado, partilham o mesmo quarto, os mesmos gostos, a mesma moto, a mesma tenda de campismo. Mas também percebemos que um princípio de conflito se instala. Jo descobre que Fanfan se iniciou sexualmente com um tipo que conhecem do bar e sente ciúmes. Depois, lentamente, verificamos que os dois irmão se vão afastando. Quando as férias terminam, Fanfan permanece em Portugal por mais uns tempos. E Jo fica desasado e progressivamente inquieto.
"Sem Ela" é uma história de uma ausência. De como um adolescente sofre ao enfrentar a vida. Mas é também uma metáfora para a situação de muitos luso-descendentes, divididos entre dois países, duas almas, duas culturas. A felicidade está na fusão dessas duas entidades, mas no corpo do filme, essa pulsão é proibida, incestuosa. "Sem Ela" é uma história que faz medo, porque já não há paz possível para aquelas duas criaturas (o final, em "happy end" não poderia ser mais enganoso...). O mundo em volta, de resto, não ajuda a apaziguar tensões: lá esta essa cultura de margem de muitos jovens gauleses excluídos que é o racismo político, lá se identifica uma textura social atabafante, no nosso país. E há mais nuvens do que sol. 
Filmado com grande liberdade de movimentos, câmara à mão, atenção aos rostos, à pele, àquilo que nos actores é físico mais do que profissionalmente premeditado, esta fita de estreia de Anna da Palma tem frescura, intenção e revela uma realizadora. Atenta ao enquadramento social, traça do casal de emigrantes, pais dos protagonistas (interpretado com sabor pela dupla Maria Emilia Correira / Vitor Norte), é um retrato onde se mescla ternura e severidade, com quem compreende o seu ser e modos, mas não os acompanha já. Apetece gostar deles, como apetece gostar do filme inteiro.
 Há planos iluminados por uma espécie de plenitude que nos deixam repletos. Logo vem uma cena mais frágil que nos desacerta a atenção?  Há momentos em que amamos aqueles dois jovens (belíssimos Aurélien Wiik e Bérénice Bejo), tão frágeis que quase dá vontade de aconchegar. Outros há em que os sentimos desarticulados ao ponto de fazerem crescer em nós irritação?. Obra primeira, "Sem Ela" tem virtudes surpreendentes e erros expectáveis - e uma vontade impulsiva de existir."
In Expresso de 11-09-2004
Nota: legendas em português incluidas no ficheiro. Convém verem com o VCL. 

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

A Falha (A Falha) 2002

A visita a uma pedreira de mármore, uma tragédia que os leva a confrontar-se com terríveis fantasmas do passado Um grupo de antigos colegas reencontra-se para um almoço comemorativo, após 25 anos terem terminado o liceu. O tempo deixou as suas marcas e acentuou as diferenças entre as vidas que cada um seguiu. No ambiente tenso sente-se, nos olhares, os antigos rancores, desamores e cumplicidades. No final, um deles anuncia a surpresa que tem preparada: a visita a uma impressionante pedreira de mármore da região.
"Há uma estupefacção, inicial, de raiz: a escolha de João Mário Grilo em adaptar um romance com uma matriz ficcional onde a parábola é tão fácil de ler que rescende a lugar-comum e onde,  - mais grave porque falamos de cinema - a dramaturgia dos personagens, reduzida a um osso esquemático, dificilmente permitiria um trabalho sustentado aos actores. Há uma malformação congénita na origem de "A Falha": o seu argumento que faz passar abruptamente figuras que se encontram num almoço de antigos alunos de uma turma de liceu para uma situação de psicodrama, sem que nada na sua primeira metade justifique a devastação psicológica da segunda (com irrupções ao nível da carnalidade e da violência). O filme salta da trivialidade para territórios extremos, como se o absurdo estivesse pronto a soltar-se ao mais pequeno golpe na rotina. " Texto de Jorge Leitão Ramos.
Um elenco recheado de estrelas do cinema português: Alexandra Lencastre, Teresa Roby (no seu ultimo filme), Rogério Samora, João Lagarto, Suzana Borges, Adriano Luz, Rita Blanco, Orlando Costa e Henrique Viana.

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domingo, 3 de junho de 2018

O Delfim (O Delfim) 2002

Portugal, finais dos anos 60. Tomás Palma Bravo, o Delfim, o Infante, é o herdeiro de um mundo em decomposição. É ele o dono da Lagoa, da Gafeira, de Maria das Mercês, sua mulher infecunda, de Domingos, seu criado preto e maneta, de um mastim e de um "Jaguar E", que o leva da Gafeira a Lisboa e às putas. Um caçador, detective e narrador, que todos os anos volta à Lagoa para caçar patos reais, descobre, um ano depois, que Domingos apareceu morto na cama do casal Palma Bravo e que Maria das Mercês apareceu a boiar na Lagoa. Quanto a Tomás Palma Bravo e ao mastim, dizem-lhe que desapareceram sem deixar rasto. E que da neblina da Lagoa se ouvem agora misteriosos latidos. 
 "O Delfim" foi realizado por Fernando Lopes, a partir da obra homónima de José Cardoso Pires, tendo sido o argumento escrito por Vasco Pulido Valente. Nas palavras do realizador, é "sobretudo um prodigioso pretexto cinematográfico para entender paixões e emoções, misérias e grandezas de um Portugal agonizante, em plena guerra colonial e com o seu ditador (Salazar) a morrer lentamente, como o país. Será também um filme sobre um tempo em suspensão. E sobre um universo metafórico - a Gafeira - que é a propriedade e ao mesmo tempo a imagem de Tomás Palma Bravo, o herdeiro e último representante de uma raça em vias de extinção".

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sábado, 2 de junho de 2018

Rasganço (Rasganço) 2001

Numa fria manhã de Janeiro, Edgar chega à cidade dos estudantes. Determinado, fará uma tentativa de integração, traçada de forma cerebral e severa, seduzindo para esse efeito três mulheres: Ana Rita (estudante de Direito), Maria dos Anjos (responsável pelo albergue local) e a dra. Zita Portugal (figura influente em Coimbra). Ainda assim, Edgar não é aceite naquele grupo fechado. Mas ele vai escolher não se sujeitar passivamente à rejeição. Para isso elabora um complexo plano de vingança, escolhendo de entre os alunos as suas vitimas.
"Há um plano em "Rasganço" que ilumina tudo. Edgar está reclinado sobre um braço, em nú frontal e Zita acaricia-lhe as formas. Quando o plano começa nem temos a certeza que seja um corpo de homem o que lá está (como noutros momentos, em planos fechados sobre os olhos do actor, também nos confunde a indefinição do sexo). O que é certo é que para mulheres várias (e de diferente condição - uma estudante, a bibliotecária, mulher de um professor, e uma funcionária superior da Misericórdia)  Edgar é uma criatura erótica, a materialização de um desejo. Que para outras (narcotizadas) ele actue como identidade violadora, mutilação de que só se dão conta ao acordar, não é menos perturbador. Nas entrelinhas, se calhar, é licito ler qualquer coisa de medonho: Edgar não existe, é uma invocação, um fantasma que subjaz à vontade de integração de todos os restantes comparsas e que materializa uma pulsão intima de desordem. A vertiginosa atração pelo Outro, pelo que não faz parte, pelo que desestabiliza, o suor e a violência (e, porque não, o sémen e os genes?) do que está em baixo,obsessão burguesa por excelência. Edgar é um homem, certamente, mas, porque projecção feminina, mulher num lugar essencial da sua natureza. O plano atrás referido de Edgar com Zita é isso mesmo que sussurra.
Estou a prever que quem veja o filme com os olhos frios (era uma vez um homem que chega a Coimbra e encontra uma estudante e etc.) me diga que tresleio e deliro significados onde eles não estão. Nada contra. Acontece que não consigo olhar "Rasganço" com uma história com princípio, meio e fim - há demasiados "buracos", alçapões, planos que se colam para abruptas conjunções, há vermelhos por todos os lados, a cor do sangue, a cor da alma. É por isso que sustento que "Rasganço" não é simplesmente uma fita sobre Coimbra, os seus estudantes e um violador. É, antes, um mergulho que parte de um lugar preciso, mas ocorre num espaço quase abstracto. Uma mulher e os seus fantasmas, pois claro. Com a energia, a urgência, a impudícia e a ausência de cálculo que se pede a um filme de juventude."
In, Expresso (1-12-2001)

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Respirar (Debaixo D'água) (Respirar (Debaixo D'água)) 2000


O que impede duas pessoas de estarem juntas? Uma pessoa a mais. O que impede uma pessoa de lutar por outra? Nada! Pedro vive na periferia, onde trabalha na oficina do seu pai. Diáriamente desloca-se ao centro da cidade onde estuda e encontra o seu grupo de amigos que por alturas do verão, desce até ao rio e aí passam as tardes, os tempos livres ou o tempo de aulas. Entre charros, passeios de mota e mergulhos, tudo parece correr bem neste grupo, até que Pedro e o Amigo começam a disputar a mesma rapariga. Pedro é lançado numa espiral descendente, onde tudo à sua volta se parece desmoronar. Como o iman atrai a limalha, parece Pedro atrair os problemas, desde a escola até à relação com os pais.

"António Ferreira filma o desamparo da adolescência num registo minimalista que privilegia a sedução epidérmica do corpo submerso. Há um olhar inegavelmente sensual que se derrama sobre os corpos dos actores e que, de alguma forma, acentua o abandono que é condição da estação etária. E, depois, o fascínio de ver Coimbra filmada do lado errado do bilhete-postal, assumida como cenário de uma urbanidade hodierna. 
Há, ainda, um domínio dos elementos fílmicos absolutamente irrepreensível: a direcção de actores é rigorosa, a fotografia é quente e limp
a como um dia de verão, a música serve na perfeição a narrativa, o tempo é sincopado e elíptico. Mas, retomando, o que nos prende os olhos é o que fascina o realizador: a fisicalidade de um actor, Alexandre Pinto, que, na tradição dos grandes actores do corpo, quanto mais se oferece mais nos arrebata".
Média-metragem premiada em Cannes.

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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Noites (Noites) 2000

João vive da prostituição; é um homem já perto dos 30, com os olhos vazios e o corpo roído pelas drogas e pela vida. O pouco que tinha deixou-o para trás para andar por aí, sem nunca procurar nada de especial. Antes trabalhava nos cafés ou nas obras, mas o vício tornou-o amargo e é preciso ganhar mais dinheiro e mais depressa. Teresa já o acompanha há mais de três anos. Sem sonhos nem ambições, cedo deixou a casa dos pais, Teresa tem uma natureza sombria e é levada por um instinto suicida, que a faz perder o amor-próprio. Agora está doente e deixa-se andar suja e desprotegida. Devia fazer tratamentos no hospital, mas já tanto lhe faz... Teresa e João acompanham-se neste processo repetitivo e cansado.
Sozinhos, mas ante o vazio repetitivo, o tempo sem mudança, a dor contínua, a exposição descarnada da mais irremedível das grilhetas (a heroína), estão os dois protagonistas de "Noites". É um filme curto, sem passado nem devir para os seus protagonistas,  sem parentesco no cinema português, que nos obriga a olhar para os toxicodependentes de um modo obsessivo. Onde, no quotidiano, sem desviar o olhar, aqui Cláudia Tomaz força-nos uma realidade. Uma realidade dura, em que a dupla protagonista (Cláudia Tomaz/João Pereira), também interpretes e co-argumentistas, casal que a edificação do filme emparceirou) se expõe até ao limite, na dúbia e perturbante vacilação das fronteiras do que é cinema e do que é verdade, do que é preciso do que haja de verdade para que o cinema seja alguma coisa da vida. Ternura e aflição, quase nada de raiva, eia o que "Noites" exala. Acho que ninguém saberá dizer se este é um grande filme, mas é, com certeza, um objecto onde se jogam coisas fundamentais para o lugar do cinema. E isso basta.
* In Expresso, 9-9-2000.

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