sábado, 19 de outubro de 2019

Pépé le Moko (Pépé le Moko) 1937

A Casbah de Argel nos anos 30: uma rede inextricável de ruelas, casas de jogos clandestinas e traficantes. Pépe le Moko (Jean Gabin), um gangster de origem metropolitana reina nessa área, gozando com os policias. Para capturá-lo, seria preciso que ele saísse do seu reduto, inacessível às autoridades. É o que tenta fazer o astuto inspector Slimane.
"Pépé le Moko" é o filme que fez do actor francês Jean Gabin uma estrela. Longe de ser o seu primeiro papel, ele já tinha entrado em cerca de duas dezenas de filmes anteriormente, e não era um actor convencionalmente bonito que se colocasse como protagonista de um filme, mas era um actor que transmitia confiança e autoridade, mesmo quando o víamos preso numa trama fatalista condenado a morrer. André Bazin definiu-o como o "herói trágico do cinema contemporâneo", e foi de facto este filme que ajudou a definir a sua persona.
Na altura o filme foi descrito como "realismo poético", um termo usado para filmes de realizadores como Jean Renoir ou Marcel Carné, que usavam cenários realistas que foram evocativamente estilizados para melhorar o clima e a atmosfera. Nesse sentido, o realizador Julien Duvivier usou o próprio Casbah para filmar as fatalidades do filme. O Casbah era um bairro construído numa colina e composto por ruas estreitas e sinuosas, becos sem saída e uma variedade multiétnica super lotada por pessoas de todo o mundo, um labirinto misterioso onde poucos de fora podiam penetrar, e por isso era um esconderijo perfeito para o nosso esquivo protagonista.
Curiosamente, Duvivier era muitas vezes descrito como um realizador pouco talentoso, um realizador que se apropriava de qualquer estilo que se adaptasse às suas necessidades, sem uma voz autoral verdadeira. No entanto, quem vê "Pépé le Moko" reconhecerá imediatamente a amplitude das suas habilidades, sendo ele capaz de coreografar momentos de intenso desejo emocional, bem como momentos de flagrante violência. 
Apesar de grande aclamação mundial o público americano ficou largos anos sem o ver, porque o realizador John Cromwell o refez um ano depois como "Algiers", que apesar de um bom elenco (Charles Boyer foi nomeado para o Óscar como protagonista), ficou muito aquém do filme de Duvivier, nem mesmo com algumas cenas a serem copiadas integralmente. 

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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Quem Programa Sou Eu: Catálogo Janus Films, por Rafael Lima

Chegamos ao sexto capítulo da rubrica "Quem Programa Sou Eu", e desta vez o convidado vem do Brasil. O Rafael Lima é já um velho conhecido dos Thousand Movies, tendo participado uma vez na outra rubrica, chamada "5x5", ainda no tempo do My One Thousand Movies.
Desta vez, o Rafael trouxe-nos uma ideia muito interessante, que originou este ciclo, com filmes escolhidos por si. Vamos ler as suas palavras:

"O catálogo Janus Films faz parte da vida de muitos cinéfilos pelo mundo. Filmes como "A Grande Ilusão" de Renoir, "Rashomon" de Kurosawa, "Morangos Silvestres" de Bergman, "A Estrada da Vida" de Fellini, "Viridiana" de Buñuel e "A Aventura" de Antonioni estão presentes em seu arsenal fílmico, a título de exemplos. O meu intuito com este novo ciclo é apresentar-lhes os filmes que são lembrados num grau menor, porém não menos importantes que os citados anteriormente. Espero possam acompanhar com entusiasmo, assim como eu também farei!" - Rafael Lima


Certamente que muitas pérolas sairão daqui. Não acham?
Quem quiser participar numa próxima rubrica toca a enviar mail para myonethousandmovies@gmail.com


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Filed of Dogs (Onirica) 2014

Desolado pela perda da sua amada num acidente de carro, o poeta Adam desiste do seu trabalho como professor de literatura para trabalhar num supermercado. No entanto, tudo que ele quer é dormir e fugir da realidade dolorosa. No meio de visões apocalípticas, influenciadas pelas trágicas notícias dos jornais, que incluem a queda do avião presidencial da Polónia, o seu único consolo nestes tempos difíceis é a leitura da Divina Comédia. Entre tanta turbulência, a obra-prima de Dante poderia trazer de volta algum sentido para a vida do poeta.
Realizado por Lech Majewski, um poeta e pintor polaco que já vem a trabalhar no cinema desde o início dos anos 80, em obras como "Basquiat" (1996), onde foi o argumentista e era para ter sido o realizador. Tem vindo a trabalhar no género fantástico já várias vezes, embora o seu trabalho não seja conhecido. Este seria o terceiro filme de uma trilogia feita a partir de obras de arte, depois de "The Garden of Earthly Delights" (2004) e "The Mill and the Cross" (2011).
Para este filme, Majewski inspirou-se nos eventos de 2010 na Polónia, que incluíram um Inverno pesado devido ás cinzas que atingiram a maior parte do país, por causa da erupção de um vulcão islandês, seguido pelo acidente da força aérea polaca que matou a maior parte do parlamento do país. A sua resposta foi pensar como um poeta medieval poderia entender as coisas em termos de destruição apocalíptica.

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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

The Legend of Kasper Hauser (La Leggenda di Kaspar Hauser) 2012

Filme livremente inspirado no caso de uma criança abandonada, envolta em mistério, que foi encontrada na praça Unschlittplatz em Nuremberga, na Alemanha do século XIX (1828), com uma carta endereçada a um homem da cidade, explicando parte de sua história, um pequeno livro de orações, entre outros itens, que indicavam que ele provavelmente pertencia a uma família nobre.
 Nesta readaptação da história, estamos na Sardenha, numa data não especificada. Perto da praia, um corpo flutua. Ele é um príncipe herdeiro que misteriosamente desapareceu quando era criança. Quis o destino que ele reaparecesse, mas apesar de o corpo reagir, a sua mente parece estar vazia. Apenas cinco pessoas vivem nesta ilha semi-deserta: a duquesa, que é a lider da ilha, um seu serviçal, o homem obscuro que é amante da nobre, a vidente e o xerife. Mas a sua chegada vai quebrar a rotina da pequena comunidade, e cedo Hauser vai perceber quem são os seus amigos (o xerife e a vidente) e os inimigos (o homem obscuro e a duquesa). Infelizmente, a sua permanência no local não será longa.
"Attenzione! Attenzione! Afastem-se!" diz o Xerife, interpretado por Vincent Gallo, que é uma caricatura hiperbolizada de um western Spaghetti, enquanto acelera a sua moto por uma multidão imaginária. 
Maravilhosamente filmado num preto e branco luminoso "La Leggenda di Kaspar Hauser", do italiano Davide Manuli está repleto de imagens memoráveis e momentos de humor surreal, e embora conte no seu elenco com um nome de peso, como o de Gallo, é um filme inacessível demais para o grande público, mas bastante apropriado para o público dos festivais. 
Não faltam discos voadores, e música techno ao som de Vitalic, na banda sonora. 

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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Sound of My Voice (Sound of My Voice) 2011

Tal como "Another Earth", "Sound of My Voice" também tem algumas particularidades: é igualmente escrito e interpretado por Brit Marling, claramente uma estrela em ascensão. "Sound of My Voice" também é um filme intrigante, intenso, de baixo orçamento, que mistura a ficção científica de baixo orçamento, neste caso o mistério. Os dois personagens principais são Peter Aitken (Christopher Denham) e Lorna Michaelson (Nicole Vicius), que se encarregaram de investigar e desmascarar um culto super secreto do sul da Califórnia, cujos membros se reúnem no porão de uma casa suburbana e ouvem os ensinamentos de Maggie (Brit Marling), uma jovem de 24 anos que afirma vir do futuro, do ano 2054.
Será Maggie uma verdadeira viajante do tempo que sabe de uma guerra cívil eminente, ou será uma trapaceira a enganar os ingénuos e impressionáveis? Peter, que trabalha como professor substituto durante o dia, e se imagina um intrépido jornalista investigador durante a noite, acredita na segunda hipótese, e infiltram-se no grupo para expor Maggie. Lorna, que recentemente deixou uma vida de drogas e devassidão em Hollywood, envolve-se mais por dedicação ao namorado, do que vontade em descobrir a verdade.
Longa metragem de estreia de Zal Batmanglij, que co-escreveu o argumento com Marling, e Rachel Morrison como directora de fotografia, veterana nos documentários e trabalhos para televisão, aproveitando ao máximo o seu escasso orçamento com cenários limitados, transformando espaços comuns como cozinhas, caves e garagens em portais quase sobrenaturais graças à iluminação e aos enquadramentos com a câmara. 
A interpretação de Marling é muito convincente, uma mistura de fragilidade física e dominação psicológica. Maggie é uma presença espectral, e desde início percebemos que ela tanto pode ser a salvadora como apenas mais uma vigarista. Fala numa voz baixa, e olha para o seu pequeno grupo de seguidores com um sorriso beatífico que por vezes é fascinante e profundamente assustador.

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domingo, 13 de outubro de 2019

Outra Terra (Another Earth) 2011

O título do filme de Mike Cahill, "Another Earth", refere-se literalmente a um novo planeta exactamente como o nosso, que de repente aparece na extremidade do sistema solar, e se aproxima cada vez mais, ano após ano, até dominar o céu. Em outro nível, no entanto, o título alude ao desejo humano da capacidade de voltar atrás e refazer algum momento no tempo que alterou irrevogavelmente a nossa existência. Para a protagonista do filme, Rodha (Brit Marling) 17 anos e muito talentosa, esse momento esse momento ocorre na mesma noite em que a segunda Terra é descoberta, quando ela está envolvida num acidente de carro que destrói a sua vida, e a de John Burroughs (William Maphoter), um músico e compositor. 
O terreno emocional do filme é renderizado com habilidade, e os visuais são uma mistura, com Cahill (que foi o seu próprio director de fotografia) a voltar-se a para a estética verité enigmática, com um trabalho de câmara trémulo cheio de zooms rápidos. A única longa metragem de Cahill até então, tinha sido o documentário de 2004 pouco visto "Boxers and Ballerinas" que co-realizou com Marling, mostra-se bastante hábil a transmitir uma surpreendente profundidade com visuais minimalistas que se adaptam ás origens independentes do realizador. O filme também é bastante ajudado pela banda sonora assombrosa do grupo Fall on Your Sword, cuja mistura de electrónica e orquestrações tradicionais funciona lindamente com o cruzamento do filme entre a ficção cientifica e o chamber drama.
Ganhou dois prémios importantes no festival de Sundance, enquanto que Brit Marling venceu o prémio de Melhor Actriz em Sitges, com o filme a ter ainda destaque em inúmeros festivais, como Deauville, Locarno, San Diego, entre outros.

sábado, 12 de outubro de 2019

Alois Nebel (Alois Nebel) 2011

No final dos anos 80, Alois Nebel trabalha como despachante na pequena estação ferroviária de Bílý Potok, uma pequena localidade na fronteira entre a Polónia e a Checoslováquia. Ele é um homem solitário que prefere as tabelas de horários dos comboios às pessoas, e que encontra tranquilidade na solidão da estação – excepto pelo nevoeiro que invade o lugar. Quando isso ocorre, ele entra em estado alucinatório e vê os comboios dos últimos cem anos passarem pela estação, trazendo fantasmas do sombrio passado da Europa Central. Alois não consegue livrar-se desses pesadelos e acaba internado num sanatório. Lá ele conhece o Mudo, um homem que foi preso pela polícia depois de cruzar a fronteira e carrega consigo uma antiga foto. Ninguém sabe por que ele veio para Bílý Potok ou o que ele procura, mas é o seu passado que impulsiona Alois na sua jornada. 
De acordo com o realizador, o checo Tomás Lunák, ao adaptar esta novela gráfica para o grande ecrã, a  sua principal inspiração foi "Sin City". mas enquanto isto poderia soar a um apelo ao público da moda, "Alois Nébel" não poderia ter sido mais diferente, um exemplo sinistro da desconfiança entre os europeus orientais na queda do comunismo, e um homem apanhado no meio desta situação, sendo uma personagem marginalizada. 
Naturalmente, com uma tradução tão específica de um lugar e um tempo, ajuda se o público estiver familiarizado com a política e a agitação checa, porque o realizador recusa-se a dar-nos os factos que estão por trás de tanta agitação. Um óptimo filme de animação.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Beyond the Black Rainbow (Beyond the Black Rainbow) 2010

"Estreado em 2010 “Beyond The Black Rainbow” (passou por alguns festivais na Europa e teve a sua estreia no Tribeca Film Festival nos EUA) é um sci fi paradoxal: retro e ao mesmo tempo futurista, uma espécie de “futuro do passado”. Grande parte da narrativa passa-se num “futurista” ano de 1983 e numa estranha e opressiva clínica onde um estranho homem realiza estranhas experiências com uma jovem.
A narrativa procura desvendar os mistérios do Instituto Arboria onde uma bela jovem chamada Elena (Eva Allan) com poderes psíquicos é mantida prisioneira por um cientista chamado Barry Nyle (Michael Rogers) envolvido numa complexa experiência psicológica. Nyle tem um objetivo místico-espiritual: a busca da “paz interior” através de uma delirante e alucinógena jornada em estilo LSD controlada por uma sinistra tecnologia à base de drogas.
O filme é a estreia do realizador e argumentista Panos Cosmatos (filho de George P. Cosmatos, realizador de filmes na década de 1980 como “Rambo: First Blood”, “Stallone Cobra” e “Tombstone”), onde cuidadosamente reproduz a atmosfera futurista de Kubrick em “2001” com salas e corredores sinistramente brancos e assépticos, o design clean e geométrico de clássicos futuristas como “THX 1138” e referência aos enigmas metafísicos dos filmes sci fi do russo Tarkovsky (“Solaris” e “Stalker”). Isso sem falar nas referências do lado de terror do filme: Cronenberg, Argento e John Carpenter. 
O filme é intrigante tanto na forma como no conteúdo: é um filme do gênero sci fi,no entanto não é ambientado nem no futuro e nem no passado, mas numa espécie de “futuro do passado”. Parece que estamos a ver imagens de como seria imaginado a década de 1980 a partir do ponto de vista dos anos 60."
Texto de Cinegnose

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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Outono/Inverno

Já vamos pelo Outono fora, em mais um ano de Thousand Movies, e está na altura de fazer um resumo do que por aí vem:

Quem Programa Sou Eu
Logo depois do actual ciclo, vem aí mais um convidado especial, a programar o seu próprio ciclo. O próximo chega-nos do Brasil, e não posso levantar o véu, mas garanto que vai ser muito bom.

Hammer Studio - o Terror Vive Para Sempre
Já é da praxe fazer por aqui um ciclo de terror pela altura do Halloween, e este ano cabe-nos à famosa produtora Hammer. Será um ciclo bem recheado, com cerca de 30 filmes, entre os maiores sucessos e algumas pérolas menos conhecidas. Começa perto do final do mês.

Straub and Huillet - O Cinema é uma Arma
Este ciclo também será bem recheado, com muitas obras desta dupla de realizadores. Terá a colaboração do professor Jorge Saraiva, um já habitual colaborador do M2TM, que neste momento está a escrever os textos. Como devem imaginar, não é fácil escrever sobre eles, por isso este ciclo está dependente, ou será depois da Hammer, ou será um ou dois ciclos depois.

Outros ciclos ainda sem ordem definida, mas dos quais já tenho os filmes:
- Weimar Cinema
- Ida Lupino
- Noir Nórdico
- Cinema Espanhol no Tempo de Franco

Pelo meio podem ainda aparecer outros ciclos, pensados entretanto.
Como sabem também, em vez de darem sugestões, podem fazer uma coisa muito melhor. Podem programar os vossos próprios ciclos, e participar na rubrica "Quem Programa Sou Eu". Já vamos para a sexta edição, e penso que os resultados até agora têm sido muito bons.
Podem escolher 10 filmes sobre um tema específico, ou, simplesmente, 10 filmes da vossa preferência. Terão de ser filmes que ainda não tenham passado no blog, claro.
Se quiserem participar mandem um mail para myonethousandmovies@gmail.com, e falaremos. Neste momento só tenho mais um convidado programado, por isso, se quiserem participar, sejam rápidos.

Até já.


1 (1) 2009

Uma livraria famosa pelas suas raras obras é misteriosa e completamente cheia de cópias de um livro intitulado "1", que parece não ter um editor, ou autor. O estranho almanaque descreve o que acontece a toda a humanidade no espaço de um minuto. Uma investigação policial começa, e a equipa da livraria é colocada em isolamento pelo Bureau for Paranormal Research (RDI Reality Defense Institute). À medida que a investigação avança a situação torna-se mais complexa e o livro mais conhecido, suscitando inúmeras controvérsias (políticas, científicas, religiosas e artísticas). Atormentado por dúvidas, o nosso protagonista tem de enfrentar os factos: a realidade só existe na imaginação dos indivíduos.
Uma das adaptações cinematográficas menos conhecidas da obra de Stanislaw Lem, o famoso escritor polaco de ficção científica, chega-nos da Hungria, pela mão do realizador Pater Sparrow, baseado em "One Human Minute", uma colecção de três ensaios apócrifos com a peça-título escrita na forma de uma crítica de um livro imaginário de dados estatísticos, uma compilação de tudo o que acontece com a vida humana no espaço de 60 segundos. 
O tema central do filme é o homem. Paradoxalmente limitado pelo seu intelecto, e impotente quando confrontado com casos estranhos, como o surgimento repentino de um estranho almanaque numa livraria de elite.  É mais um filme do género fantástico que nos chega do leste da Europa, com pouca visibilidade no Ocidente, mas com um punhado de prémios em festivais pelo mundo fora, incluíndo o Fantasporto.
Legendas em Inglês.

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La Antena (La Antena) 2007

Era uma vez uma cidade sem voz. Alguém retirou a voz de todos os seus habitantes. Muitos anos se passaram e ninguém parece incomodado pelo silêncio.
Em "la Antena", explora a sua distopia muda de conto de fadas usando todas as estilizações expressionistas monocromáticas do cinema da era silenciosa, não que a "cidade sem voz" esteja completamente quieta, pois enquanto que raramente ouvimos uma voz humana, há barulho, há música e até, nos momentos de suposto silêncio, ouve-se claramente o som das bobines do filme a passarem, como se o que estávamos a ver realmente estivesse a ser mostrado por um velho projector.
E claro, como a citação seguinte sugere, há o texto: "Eles roubaram-nos a voz, mas ainda temos as palavras", como é citado por um personagem. E assim os cidadãos conseguem comunicar-se, lendo os lábios, notas, sinais, correio, e até as legendas uns dos outros (que neste filme têm uma fisicalidade que os torna disponíveis tanto para o espectador como para os outros personagens).
"La Antena" é realizado pelo argentino Esteban Sapir, com um orçamento minúsculo, e desde a sua estreia no início de 2007, foi exibido em inúmeros festivais de cinema fantástico, e não só. A Portugal chegaria ao Motelx de 2008.

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terça-feira, 8 de outubro de 2019

A Dog's Dream (To oneiro tou skylou) 2005

A história de uma noite mágica em Antenas. Um homem tem um sonho que diz respeito a um estranho assalto. Quando volta para casa descobre que todos os seus pertences foram roubados de forma igualmente estranha. Chama a polícia, e um policia experiente tenta resolver o caso com métodos pouco ortodoxos, mas à medida que a noite se arrasta. o mistério, gradualmente, parece arrastar-se por toda a cidade. Estranhos incidentes levam os nossos heróis a um mundo estranho que parece escaparar da realidade...
Apropriadamente descrito como uma "mistura intrigante de filme policial, realismo mágico e odisseia lynchiana, "To Oneiro tou Skylou" é uma fantasia urbana que leva os espectadores num passeio invulgar por Antenas, representada por um labirinto de muitos becos sem saída.
O realizador Angelos Frantzis, na sua segunda obra, e o seu co-argumentista Spiros Krimbalis dão um novo significado à expressão "reviravolta do destino" e apoiam-se na lógica dos sonhos, pois os seus personagens estranhamente interligados tentam tentam controlar os mecanismos do subconsciente.
É considerado dos raros filmes de ficção ciêntifica gregos, mas o seu argumento circula mais por um mundo de fantasia, embora o seu orçamento tenha sido minúsculo, e não suficiente para grandes efeitos visuais.
Legendas em inglês.

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O ciclo deste Halloween



Hammer Studio - O Terror Vive Para Sempre
Final de Outubro 2019

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Nuit Noire (Nuit Noir) 2005

Num mundo dominado pela escuridão eterna, um entomologista abandona os seus fantasmas para abraçar o desconhecido. Óscar é um conservador do Museu de Ciências Naturais, e passa a maior parte dos dias cercados por insectos. Quando Óscar não anda de volta dos seus espécimes na sua casa ou local de trabalho, podemos encontra-lo frequentemente no consultório do psiquiatra a reflectir sobre os seus traumas de infância. Um dia, quando volta para casa do trabalho, encontra uma mulher africana do museu deitada na sua cama.
Depois de várias curtas metragens muito intrigantes, o realizador belga Olivier Smolders avançou finalmente para a sua primeira longa, e única até agora. Smolders é um realizador muito peculiar na sua forma de descrever o mundo, e é visto como um David Lynch belga. 
Em "Nuit Noir" Smolders é obcecado por aspectos que foram completamente invertidos: Óscar que cria e sacrifica insectos raros para a colecção de um museu, vive num mundo sombrio, perpetuamente envolto em escuridão por causa de um eclipse solar que ocasionalmente inverte e banha o seu mundo com uma luz dolorosamente brilhante. O tempo não tem sentido, e não há uma narrativa real que nos dê um sinal sobre quais são os aspectos da vida de Óscar que são actuais. 
Visualmente, "Nuit Noir" é impecável, com cenários soberbamente projectados, um design inteligente e um imaginário muito estranho e inventivo. Há muito simbolismo escondido nas imagens, algum muito directo (muitas fotos de insectos) e outro um pouco difícil de detectar, por isso é um filme que exige muita atenção.

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Brasil: problemas com o Mega

Recebi algum feedback para ultrapassar os problemas que estão a ter com o mega.

- Primeira, e parece-me a mais fácil, é utilizarem o programa jdownloader. Podem tirá-lo daqui.
É muito simples, basta instalar e depois selecionar os links do mega, que automaticamente passam para este programa.

- Segunda solução, leiam aqui.

- terceira opção é usarem o navegador Opera, que tem um VPN gratuito. Leiam aqui.


Se tiverem mais alguma dúvida, digam alguma coisa.
O My Two Thousand Movies segue dentro de momentos.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Filmes no Mega

Sei que algumas pessoas no Brasil estão a ter problemas em tirar filmes do mega. Estou a tentar arranjar uma solução, mas enquanto não encontro, e se quiserem os filmes, contactem-me para o mail myonethousandmovies@gmail.com.

Obrigado.

Hotel (Hotel) 2004

Irene começa um trabalho novo como recepcionista de um famoso hotel nas montanhas. Depressa descobre que a sua antecessora desapareceu em circunstâncias misteriosas, e que o seu destino está cada vez mais entrelaçado com o da outra mulher, com o hotel e a sua equipa a desempenharem um papel muito estranho. Irene é então confrontada com uma ameaça da qual tenta desesperadamente escapar...
The Bates Motel em "Psycho" (1960), de Alfred Hitchcock, o "Overlook Hotel em "Shining" (1980), de Stanley Kubrick, o Pine-Wood Motel em "Vacancy" (2007), de Nimrod Antal, são todos exemplos dos perigos inesperados que estão para além do balcão do check-in cinematográfico, enquanto David Lynch, sem dúvida o grande mestre a subverter os cenários aparentemente mais comuns, aparecia como produtor executivo da estranha série televisiva "Hotel Room", que foi abruptamente cancelada depois de apenas três episódios. Assim como os hotéis devem acomodar as necessidades dos seus hóspedes, e oferecer conforto e relaxamento, os realizadores pegaram no macabro para distorcer o objectivo pretendido e transformá-lo em armadilhas para tormento físico e psicológico, dos quais os protagonistas centrais podem não conseguir fazer o check-out.  "Hotel" de Jessica Hausner é uma adição estranhamente atmosférica a este subgénero, que brinca com a consciência do público com os truques fílmicos a partir dos seus frames de abertura. 
Segunda obra da realizadora e argumentista austríaca Jessica Hausner, depois de uma estreia bem interessante em 2009 com "Lovely Rita", com ambos os filmes a estrearem em diferentes anos em Cannes, ambos na secção "Un Certain Regard". Algures entre o universo de Lynch e "Shining", Hausner cria um exercício de suspense que brinca com os nossos mendos nos espaços comuns, e apesar de ambíguo, nunca entra no território dos efeitos especiais ou dos monstros de borracha. 

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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Aparelho Voador a Baixa Altitude (Aparelho Voador a Baixa Altitude) 2002

Num futuro próximo, o mundo não é muito diferente do que é hoje, com uma excepção... Há muito poucas pessoas. E nenhuma criança. A raça humana está a caminho da extinção. Por alguma razão as mulheres já não engravidam. As poucas que o conseguem só geram seres mutantes que são imediatamente eliminados pelas autoridades. Judie Foster é fertil: já engravidou por 6 vezes. De cada vez, os obrigatórios testes de gravidez mostraram que se tratava de um mutante e e Judite foi obrigada a abortar. Agora ela engravida novamente. E pensa, e se os complicados testes que fazem ao feto foram a causa das mutações? Ela e o seu marido, André fogem da cidade para um hotel numa pequena e decandente estância balnear, na orla do continente, onde não há polícia e não há lei. Lá, Judite fica ao cuidado do enigmático Doutor Gould, que desaparece frequentemente no seu pequeno avião. Onde vai Gould? O que anda a fazer?
Na muito pequena lista de filmes portugueses de ficção científica, ou fantasia, "Aparelho Voador a Baixa Altitude", realizado pela sueca naturalizada portuguesa Solveig Nordlund,  merece um enorme destaque, e cai muito bem neste ciclo de Fantasy Lo-Fi. Nordlund escolheu para adaptar uma pequena história de J.G. Ballard, com o argumento feito em conjunto com Colin Tucker e Jeanne Waltz a tornarem a história mais rica, além das grandes interpretações de Margarida Marinho e Miguel Guilherme, e ainda os cenários desoladores da região de Tróia, e do sul do rio Tejo.
Os cenários são mesmo a parte mais importante do filme. A sua presença desoladora e sem vida aparecem sempre em fundo na maioria dos shots de Nordlund, conseguindo tirar o máximo proveito que estes prédios em ruínas têm para oferecer, conseguindo ângulos invulgares ao filmar varandas, corredores, átrios, portas e janelas para maximizar o efeito visual e psicológico do filme, pois é nos corredores escuros do hotel que a maioria dos momentos mais importantes do filme é rodado.

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terça-feira, 1 de outubro de 2019

The American Astronaut (The American Astronaut) 2001

"The American Astronaut" começa quando Samuel Curtis (McAbee) pousa a sua nave espacial num bar intergaláctico situado num dos maiores asteroides que ocupam o espaço entre Marte e Júpiter. Um narrador explica-nos então uma história bastante complicada. O novo trabalho de Curtis é trocar uma mulher clonada que vive numa caixa, levá-la para Júpiter, um planeta só de homens, e trocá-la pelo Rapaz que viu os Seios de Uma Mulher (Gregory Russell Cook), depois levar o rapaz para Vénus para trocá-lo pelo cadáver de um criador, e finalmente trazê-lo de volta para a sua família de luto na terra.
Tudo muito simples até que os problemas acontecem. E não esquecer que o narrador é o Professor Hess (Rocco Sisto), um velho inimigo de Curtis, que mata toda a gente sem razão. Por outro lado, ele não matará se tiver um motivo (sim, é mesmo assim).
"The American Astronaut" é um musical, na grande tradição das estranhas bandas de São Francisco, como Primus ou The Residents, e onde a música de Billy Nayer Show é realmente bizarra, variando do rockabilly a pequenas rimas.  É um filme tão ferozmente caseiro, com efeitos extravagantes do espaço sideral, uma fotografia com pouca luz (projetada para encobrir cenários de aparência barata) e um argumento onde vale tudo, e onde é difícil de acreditar no que quer que seja. 
O grande problema do filme provém do facto do realizador, argumentista e protagonista Cory McAbee pretender que este filme se torne uma obra de culto, mas como diz o velho ditado, um filme de culto não pode procurar o seu público, mas tem de ser o público a próprio filme de culto. 

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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Fantasy Lo-Fi

Lo-Fi Sci-Fi é um subgénero que tem estado muito em voga nos últimos anos, inspirado pelo Mumblecore e pelas restrições orçamentais. O termo deriva da união de "Lo Fidelity" (baixa fidelidade) e ficção cientifica, e aparentemente pretende justificar o baixo orçamento e uma abordagem amadora a um filme de ficção científica, sem grandes efeitos especiais, sem guerras interplanetárias, mas sempre com algum interesse.  Entre os filmes que fizerem sucesso nestes últimos anos, contam-se obras tão interessantes como "Moon", "Her", "Under the Skin", "Upstream Color", "Coherence", entre tantos outros.
Este seria o ponto de partida para este ciclo, mas não é, porque na realidade iremos ter um ciclo muito diferente:
- Em primeiro lugar iremos esquecer todos estes filmes que vos falei em cima, e que muito provavelmente já ouviram falar, e iremos, sobretudo, privilegiar o cinema europeu, tantas vezes esquecido no que consta a este género (mas também iremos ter alguns filmes americanos).
- Em segundo lugar, vamos também sair um pouco do mundo da ficção científica, e conhecer outros mundos alternativos, outros territórios lynchianos, outras abordagens ao território da ficção científica e ao mundo dos sonhos.
Desta forma, teremos um ciclo completamente diferente do que esperavam, espero eu, e que é difícil de descrever por palavras. Vai ser descrito por imagens, e podem acompanhá-lo aqui, durante os próximos dias. Serão 14 filmes ao todo. Preparem-se.