sexta-feira, 18 de junho de 2021

Scarface, o Homem da Cicatriz (Scarface) 1932

Um dos primeiros filmes sobre crime organizado, "Scarface" é baseado num livro escrito por Armitage Trail, mas o argumento, escrito pelo nativo de Chicago Ben Hecht, infusa os personagens com experiências de gangsters da vida real, como Al Capone, Deanie O´Banion, Johnny Torrio, e "Big Jim" Colosimo. O filme abre com um perfácio que clama que os acontecimentos são baseados em actividades da vida real mafiosa, e corrupção do governo. O perfácio desafio então os espectadores, perguntando o que eles vão fazer acerca disso. 
Os censores condenaram filmes como Scarface", que combinavam entretenimento e cometário social, porque, mesmo que os criminosos sofressem mortes violentas no final, porque, segundo eles, "ao longo do caminho criava-se sempre uma certa simpatia pelos criminosos, ou noutros casos, ensinava-se métodos do crime bem sucedidos a jovens influenciáveis". O mais perigo de uma série de filmes de gangsters do inicio da década de 30 tinha de ser este "Scarface", a quem Jason Joy, o chefe do SRC rejeitou a ideia inicial de fazer o filme ao produtor Howard Hughes, e que ele nem pensasse em fazê-lo sob nenhuma circunstância. Nesta altura os filmes de gangsters eram repugnantes, tanto para os censores como para o público, mas isso não fez Hughes mudar de idéias, e ordenou que Howard Hawks avançasse com o projecto. 
A primeira versão do filme era tudo o que Hughes queria, mas chumbou no SRC, como seria de esperar, por excesso de violência, e não só. Mostrava políticos e cidadãos comuns a socializar com gangsters, e depois a denunciá-los publicamente. Até a própria mãe do gangster principal tratava o filho com amor, e isso incomodava os censores. 
Muitas mudanças foram feitas para que o filme pudesse ser aprovado, e foi ordenado que ao título fosse acrescentado um sub-titulo, que seria "Shame of a Nation", para que não restassem dúvidas que o filme estava a acusar os gangsters e não a glorificá-los. Mesmo depois de todas as mudanças aprovadas, e o sub-titulo acrescentado, o filme ainda seria rejeitado por diversos censores locais, como em Nova Iorque, Virginia, Ohio, Kansas, Maryland. Ao todo viriam a ser feitas três versões do filme. 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

O Sinal da Cruz (The Sign of the Cross) 1932

 "O Sinal da Cruz" é adaptado de uma peça de Wilson Barrett, e apresenta uma perspectiva da perseguição do Imperador Nero aos cristãos. Cecil B. DeMille cria um espectáculo maciço no filme, contatando 4 mil extras e construindo um modelo de Roma em miniatura. Também ordenou a construção de um anfiteatro onde colocou dezenas de animais tirados de zoos locais. O cenário é o ano de 64 e Roma está a arder. Circulam rumores de que foi Nero que começou o fogo, mas ele pretende culpar os cristãos por toda esta devastação. 
Cecil B. DeMille tornou-se num dos mais famosos realizadores a escapar aos censores, e uma boa parte da sua fama veio deste filme, onde segundo ele "uma legião de seguidores da igreja podia sentir a sua libido estimulada desde que os pecadores fossem punidos no final por um anjo vingador". A mistura de pecado e sensação significou que os censores não apontaram algumas cenas que noutros filmes seriam apontadas, como por exemplo uma cena onde uma mulher nua é amarrada numa arena para ser violada por um gorila. Os censores estaduais eram menos premissivos, e foi este e uma série de outros filmes que levaram a que fosse criada a Catholic Legion of Decency (LOD), e levou a que a fosse criado o mais resstrito PCA.
Jason Joy, do SRC, aprovou o argumento com apenas algumas reservas, no entanto avisou que os censores locais poderiam ter outra visão sobre o filme. Depois de estreado, a Paramont recebeu uma série de cartas de grupos católicos a criticarem o filme, e depois de ter sido criado o PCA que reclassificava todos os filmes, "The Sign of the Cross" foi considerado dos mais ofensivos, e por isso, retirado da circulação. A cópia original foi seriamente cortada, mas foi recuperada recentemente pela UCLA Film and Television Archive.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

O Adeus às Armas (A Farewell to Arms) 1932

 Nesta adaptação do famoso livro de Ernest Hemingway, o Capitão Rinaldi, um cirurgião italiano, conta ao seu amigo Frederick Henry, um tenente no serviço de ambulâncias que está apaixonado por uma enfermeira, Catherine Barkley, e tenta juntar na sua ambulância a colega desta, Ferguson. No entanto, o noivo de Catherine morreu no exército depois de 8 anos de serviço, e ela está interessada em Henry. 
Membros do SRC há muito que estavam avisados contra este livro, que iria ser feito por um estúdio grande. Em 1930 foi reportado ao chefe do SRC que o livro continha profanidade, amor ilícito, nascimento ilegítimo, deserção do exército, e uma imagem não muito favorável de Itália durante a guerra. Em 1931 a Warner Bros fez uma tentativa de passar o livro para filme, mas os revisionistas avisaram que o livro era anti-italiano, e avisaram que se o filme fosse feito seria automaticamente banido em Itália, e noutros países, coisa que o estúdio não queria. Em contraste, a Paramont resolveu arriscar, e avançar com o filme. 
Apesar dos censores tentarem demover a produção do filme, ela avançou, e o filme foi gravado em apenas dois meses com um orçamento chorudo para a época, para satisfazer o apetito do público, que entretanto já tinha ouvido falar muito do filme. Tiveram de ser removidas algumas cenas já identificadas anteriormente, e o filme depois foi rejeitado pelo chefe do SRC, mas depois do final do filme ter sido substituído por aprovado pelo consulado italiano, e depois de ter sido aprovado por um júri de produtores de Hollywood, teve finalmente autorização para estrear. Mais tarde, quando foi colocado em funcionamento o Catholic Legion of Decency (LOD, que há falamos neste ciclo), o filme foi novamente banido, e colocado na lista negra da Igreja católica.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Até segunda

 Peço desculpa, mas não tenho tido o tempo que pretendia para actualizar o blog. Vou estar ausente até segunda, e enquanto isso aproveitem para dar uma vista de olhos num blog sobre o meu outro hobby, visitar e fotografar sitios abandonados. O One Thousand Abandoned Places
Também podem seguir-me no instagram, com o user frocha74. Até segunda. 

terça-feira, 8 de junho de 2021

A Vénus Loira (Blonde Venus) 1932

"Blonde Venus" foi um de uma série de filmes feitos que apareceram entre 1930 e 1933, que lidavam com assuntos como o divórcio, o adultério, a prostituição, e a promiscuidade. Muitos críticos viram estes filmes como reflexo das condições durante a Grande Depressão, que obrigavam as pessoas a tomar más decisões morais. Neste filme, no entanto, a personagem feminina principal comete adultério, mas faz com o objectivo de obter dinheiro para o pagamento de um tratamento de saúde ao marido. Ele a rejeitará quando fica a saber da atitude dela, sem querer saber das razões.
A controvérsia começou logo no primeiro argumento, quando o chefe da Paramont rejeitou o argumento original, escrito por Josef Von Sternberg, considerando-o "muito crú", ordenando uma nova versão que fosse mais aceitável. Nesta primeira versão do argumento, a personagem de Marlene Dietrich termina a carreira de bailarina e volta para o marido, que a perdoa do adultério. O MPPDA encarregue de fazer a revisão do argumento rejeitou-o porque segundo ele "nas mentes do público iria destruir o caracter do marido, até então um homem decente que tinha sido enganado pela sua esposa. A segunda versão, escrita em grande parte pelo chefe da Paramont, mostrava Helen sozinha no final, removendo a possibilidade de "compensar os valores morais". Só uma terceira versão, que seria uma mistura das duas primeiras, seria finalmente aprovada pelos censores.
O filme move a personagem de Dietrich para cima e para baixo na escada socioeconómica. Começa como uma cantora de um cabaret em Berlim, muda para uma vida de quase pobreza de um americano moribundo e depois entra num caso que a leva a um opulento apartamento em Manhattan, para caír nas profundezas da prostituição da classe baixa no Deep South. 
Em 1934, quando depois da igreja exercer muita pressão os códigos de produção se tornarem mais rígidos, "Blonde Venus" foi uma das grandes vitimas. Foi reclassificado como "Classe 1", o nível mais elevado, e foi ordenado que fosse retirado de circulação, e que nunca mais fosse mostrado no seu formato original.

domingo, 6 de junho de 2021

Frankenstein (Frankenstein) 1931

Num prológo antes da exibição dos créditos, um senhor de smoking sai de trás de uma cortina fechada e faz um "aviso amigável" ao público:
"Como vai? O Sr. Carl Laemmle [o produtor] acha que seria um pouco desagradável apresentar este filme sem apenas uma palavra de advertência amigável. Estamos prestes a desvendar a história de Frankenstein, um homem da ciência que procurou criar um homem segundo a sua própria imagem sem contar com Deus. É uma das histórias mais estranhas já contadas. Ele lida com os dois grandes mistérios da criação - vida e morte. Acho que vai emocionar. Isto pode chocá-lo. Pode até - horrorizá-lo. Então, se algum de vocês sente que não se consegue submeter os nervos a tal tensão, agora é sua hipótese. . . uh ... bem, nós avisamos."
A história de Frankenstein dificilmente causaria uma reação nos dias de hoje, mas o público que assistiu à estreia a 29 de Outubro de 1931, no Granada Theatre em Santa Barbara, Califórnia, achou o filme violento demais, e traumatizante para as crianças. Numa biografia do realizador James Whale, um produtor que acompanhou o realizador na estreia disse que o filme deixou o público nervoso, uma reação que deixou Laemme perturbado, ao ponto de considerar o filme um desastre. 
Depois das críticas recebidas na estreia, alguns estados foram exigentes e ordenaram uma série de cortes para que o filme fosse exibido, como por exemplo, na cena em que o monstro afoga a menina, uma cena que ainda é dura para os dias que correm, entre várias outras. Depois dos cortes terem sido feitos, ainda foram pedidos mais uma série de cortes para que o filme fosse exibido noutros estados.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Drácula (Dracula) 1931

O filme começa com o aparecimento de uma carruagem puxada por cavalos serpenteando por uma estrada estreita e ingrime através das montanhas dos Cárpatos da Transilvânia na Europa Ocidental. A carruagem finalmente pára numa velha estalagem ao anoitecer. Um passageiro anuncia os seus planos de prosseguir. O nervoso proprietário da pousada diz-lhe que o cocheiro tem medo de continuar e que deveriam esperar até ao nascer do sol. Destemido, o corretor imobiliário chamado Renfield não é supersticioso, e não tem medo do aviso, e decide partir para o castelo de qualquer forma...
"Drácula" foi proposto como projecto de filme em 1930 por Carl Laemmle Jr., o aparente herdeiro da Universal Pictures, que teve de lutar até mesmo com o seu pai para fazer o filme.  Os executivos do estúdio enviaram cópias do livro de Bram Stoker, e da bem sucedida peça teatral de John L. Baldcrston e Hamilton Deane ao coronel Jason S. Joy, administrador da PCA. E. M. Arsher, produtor associado da Universal escreveu a Joy a pedir os seus "ângulos de censura" na história que ele alegou que seria filmada pela Universal como "um filme de terror e mistério. com o tema do amor como alívio". Asher estava especialmente preocupado porque os relatórios dos leitores sobre a peça e o livro identificaram várias áreas de conteúdo que poderia ser censurado, mas por sua vez, Joy, não encontrou nada censurável no que leu, em contraste com as preocupações do Estúdio. Naquela altura eram muito poucos os filmes americanos do mainstream que lidavam com o sobrenatural, e os poucos que o fizeram nunca criaram polémica. Por outro lado, o Production Code não falava nada sobre vampiros.
Aprovado pelo MPPDA, com o selo da PCA, o filme estreou em 1931, mas neste caso, o público foi mais reclamante do que o próprio regulador, e as reclamações chegaram imediatamente. Inúmeras cartas chegaram, de todos os quadrantes da sociedade, a protestar contra o filme, que era um perigo, que era horrível, que não podia ser mostrado a crianças. Um pouco por todo o mundo foram requeridos extensos cortes no filme, incluindo o diálogo de Renfield sobre sangue de rato, aranhas e moscas, o choro de uma criança num cemitério, e a leitura em voz alta da narração de um jornal sobre a vitimização de uma criança. Censores também exigiram que as mulheres vampiras do castelo de Drácula fossem removidas do filme. Nos Estados Unidos foram os censores de Massachussetts que exigiram que fossem cortadas duas breves cenas: uma que mostra uma parte de um esqueleto num caixão e outra que mostra um insecto a emergir de um caixão minúsculo.

terça-feira, 1 de junho de 2021

A Idade do Ouro (L'âge d'or) 1930

Um dos lendários filmes de Luis Buñuel ,"A Idade do Ouro" seria, à primeira vista, uma história de frustração sexual numa sociedade reprimida. Um homem e uma mulher apaixonados tentam consumar a sua paixão mas sofrem a oposição das suas famílias, da Igreja Católica e da classe média. À medida que o filme prossegue, no entanto, emerge a natureza radical do trabalho de Buñuel, este faz numerosos ataques à religião organizada, além de criticas intransigentes da sociedade.  Par dar ironia às já perturbantes e contraditórias imagens o realizador completa o filme com música clássica de Richard Wagner, Beethoven e Claude Debussy.
Escrito em colaboração com o pintor surrealista Salvador Dalí, o filme é extremamente desarticulado e bombardeia os espectadores com imagens bizarras e irracionais. Quando o casal aparece pela primeira vez, a tentar fazer amor a rolar na lama enquanto uma multidão, representando a sociedade, está de costas. Membros da multidão, culturalmente variada, situados de acordo com a sua classe social, ficam fascinados ao assistir a uma comemoração bem-humorada de quatro homens que morreram de forma mais sem sentido. Mais  perto do espectáculo estão os representantes da classe alta, que usam gravatas, joias e cartolas. Os membros da classe media estão mais distantes e vestem de forma mais moderada. A classe trabalhadora está no fundo, e mal consegue ver os eventos. Quando os membros da classe trabalhadora vêm os amantes levantam os punhos e chamam a polícia.
Quando o filme estreou em 1930 foi criticado pela falta de moral. A insinuação sexual e a natureza foram temas de acalorados debates, e os 6 primeiros dias de exibição, em Paris, tiveram sempre salas esgotadas. Depois da primeira semana, grupos conservadores patrocinados pela igreja católica w grupos de pressão da direita protestaram em frente ao cinema e atacaram publicamente o realizador e o argumentista na imprensa. O que levou ao banimento do filme durante 49 anos, no entanto, foi o desdém que Buñuel e Dali demostraram para com a igreja, no seu apoio ao sexo antes do casamento, a representação de Jesus como um impostor assassino, e as mensagens anti-católicas prokectadas por um slide no filme. Apesar de ter passado em cineclubes e casas privadas, só viria a ter uma estreia oficial nos Estados Unidos em 1979.

 

domingo, 30 de maio de 2021

A Oeste Nada de Novo (All Quiet on the Western Front) 1930

O primeiro grande filme anti-guerra na era do som, feito apenas 12 anos depois do final da Primeira Guerra Mundial, é baseado num livro de Erich Maria Remarque com o mesmo nome, cujas experiências como jovem soldado alemão na Grande Guerra são retratadas através do personagem principal, Paul Baumer. O livro começa com os jovens já em guerra, com flashbacks das suas adolescências e dias que antecipavam a guerra, mas o filme apresenta as suas vidas de uma forma cronológica através de uma série de sequências que retratam a natureza sem sentido da guerra sob o ponto de vista destes jovens nas trincheiras alemãs. Contrariamente à visão romantizada da guerra na altura, os jovens soldados não encontram glória no campo de batalha, apenas morte de desilusão. 
Muito clamado criticamente e um sucesso de bilheteira desde a sua primeira estreia, é ainda hoje considerado um dos maiores filmes anti-guerra, apesar da ausência de efeitos especiais de que as audiências contemporâneas esperariam. Apesar de conter alguns momentos cómicos e de quatro dos jovens terem algumas experiências amorosas com camponesas francesas, o foco está nos horrores da guerra, e na perda de esperança que os recrutas vão sentindo à medida que a guerra avança. 
O coronel Jason S. Joy do SRC descreveu o filme como "ousado e cheio de veracidade".  Para evitar do que ele chamava de "preocupações mesquinhas e insignificantes" dos conselhos de censura locais, tentou obter apoio para o filme nos Estados Unidos antecipadamente, através de vários grupos, mas sem grande sucesso. Os censores estavam preocupados com uma cena de homens despidos a banharem-se num rio, "dando cambalhotas e expondo-se indevidamente", e exigiram que essa cena fosse cortada do filme. 
O filme foi depois revisto para a SRC com uma audiência prévia, onde se prestou atenção, sobretudo, à reação da audiência a duas cenas. Numa dessas cenas o personagem principal, e dois soldados, levam comida para casa de três raparigas francesas e passam a noite. Embora nenhuma actividade sexual seja mostrada ou falada a cena termina com a sombra de Paul e uma das raparigas projectada no que seria a parede de um quarto. Passou nos censores, mas no Ohio não foi aprovado, e a Universal Pictures foi obrigada a cortar o filme para passar só naquele estado.  Em 1938 o filme teve um relançamento, os censores eram mais apertados, e o PCA ordenou que tanto esta última cena como a dos soldados a banharem-se no rio fossem cortadas dos negativos originais, ou não obteriam selo para ser exibido. Por outro lado, foram adicionadas cenas para dar uma forte mensagem anti-nazi.


sexta-feira, 28 de maio de 2021

O Anjo Azul (Der Blaue Engel) 1930

 "O Anjo Azul", primeiro filme sonoro alemão, foi filmado simultaneamente em inglês e alemão. Josef Von Sternberg construiu o filme à volta de Marlene Dietrich, e tencionava trazê-la para o estrelato. O cenário do cabaret estava destinado a fazer reviver a infância de Von Sternberg, e as canções, que tinham poucas notas,  tinham sido escolhidas de propósito para a voz limitada de Dietrich. A história retrata a queda e humilhação do professor Immanuel Rath, um professor de literatura. Os seus alunos gozam com ele e não mostram interesse nas suas aulas, e preferem passar o tempo a falar e passar fotos da cantora de um clube noturno, que o professor confisca. Determinado a salvar os alunos do que ele acha ser a influência negativa da cantora, decide falar com ela, e vai até ao clube noturno Anjo Azul.
"O Anjo Azul" é uma parábola erótica que expressa o estado do intelectualismo alemão entre as duas grandes guerras. De certa forma, explora a forma como uma mente educada olha para os prazeres sensuais, parte do medo com que certos desejos façam do homem um idiota, até o mais intelectual, tal como Lola Lola faz a Rath. Lola Lola é a fantasia dos adolescentes, com meias altas, maquilhagem e uma cartola. Ela é responsável pela queda do professor da classe média, que se apaixona por ela enquanto tenta salvar os alunos da sua influência. 
O filme foi primeiro criticado na Alemanha. Era um projecto muito pessoal para Von Sternberg, que tratou de tudo com base no seu interesse e obsessão por Marlene Dietrich, por quem estava apaixonado. Por mais pessoal que fosse o filme, Alfred Hugenberg, um político nacionalista da extrema-direita e chefe da Ufa, o estúdio que produziu o filme, viu-o como um ataque à classe média, embora não tenha deixado instruções para que o filme fosse alterado, e, nos Estados Unidos, foi avaliado pela SRC por causa da extrema sexualidade que o filme apresentava, e que segundo algumas opiniões violava o código de decência americano. Acabou por passar com distinção, mas isso não impediu que o fosse proibido em várias cidades de ser exibido, pelos censores locais, como em Pasadena, na Califórnia.
Esta é a versão em alemão, com legendas em inglês.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Outubro (Oktyabr) 1927

Depois do grande sucesso que foi o seu filme de 1925, "Battleship Potemkin", Sergei Eisenstein foi chamado pela produtora soviética Sovkino para fazer um filme para comemorar a revolução de Outubro. Primeiro Eisenstein chamou o filme de "Ten Days that Shocked the World", e usou como base o popular livro de 1919 com o mesmo nome de John Reed para escrever o argumento, transcrevendo para o cinema a história de Reed, e usando o que ele chamaria de "montagem intelectual", ou o uso de vários dispositivos metafóricos para usar diversas ideias dentro do objectivo do filme. John Reed era um jornalista americano que serviu como correspondente durante a Guerra Mexicana (1916, 1917) e depois durante a Primeira Guerra Mundial, que o levou a Petrograd em 1917, no inicio da Revolução Bolshevik (Outubro). Quando regressou aos Estados Unidos ajudou a fundar o Partido Comunista. A reprodução das batalhas e destruição com milhares de pessoas eram difíceis de reproduzir com os limitados meios da época.
Filmado em estilo de documentário relata os eventos da Revolução Russa com uma tendência para suportar o lado comunista, embora mantenha uma postura factual em vários assuntos, como a dedicação de muitos à causa e o sofrimento suportado Eisenstein encena os eventos em Petrograd desde o fim da monarquia czarista em 1917, até ao fim do governo provisório e os decretos da paz e da terra em Novembro daquele ano.  
Eisenstein completou poucos filmes no seu país de origem, e a maioria deles sob supervisão dos censores Stalinistas, e apesar do respeito que Hollywood tinha por ele, "Outubro" tinha tido supervisão do governo, e por causa das mudanças politicas no país Eisenstein tinha sido instruído a cortar sumariamente muitos dos participantes na revolução, como era o caso de Leon Trotsky. Por causa das ordens do governo Eisenstein teve de cortar um terço do filme, e segundo o seu colaborador Aleksandrov Stalin apareceu no estúdio na fase final da montagem, e foi-lhe mostrado vários partes do filme que ele também mandou cortar. Assim, o filme estreou nos Estados Unidos e Inglaterra numa versão muito simplificada, e não teve grande exibição nos cinemas por causa do seu forte apoio ao comunismo. 

terça-feira, 25 de maio de 2021

O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation) 1915

"The Birth of a Nation" foi a interpretação pessoal de D. W. Griffith sobre a era da Reconstrução no sul dos Estados Unidos, que ele adaptou de dois livros, "The Clansman" e "The Leopard Spot", escritos pelo pregador da Carolina do Norte Thomas Dixon Jr., cujo tio era um grande titã no Ku Klux Klan. O filme tem um prefácio que diz o seguinte: "Não temos medo da censura, não queremos ofender com mentiras ou obscenidades, mas nós queremos, como um direito, a liberdade de mostrar o lado negro do errado, para que possamos iluminar o lado bom da virtude, a mesma liberdade concedida à arte da palavra escrita - aquela arte que também devemos a Bíblia e as obras de Shakespeare". Outra mensagem sobre o horror da guerra precede o filme: "Se nesta obra transmitimos à mente as devastações da guerra, a fim de que a guerra seja considerada abominável, este esforço não terá sido em vão." Típico para este período, os principais papéis de negros no filme eram interpretados por brancos com a cara pintada de negro, enquanto os actores negros no filme desempenhavam papéis secundários.
Estudiosos sobre cinema consideram "The Birth of a Nation" um dos mais importantes filmes de todos os tempos, pelas suas inovações cinematográficas, pelos efeitos técnicos e avanços artísticos. Teve um impacto enorme na história do cinema, e no desenvolvimento do filme como arte. Com cerca de 3 horas de duração, era mais longo do que qualquer outro filme até então feito, estabelecendo novas regras para as longas metragens. Comercialmente também foi um dos maiores êxitos da história. 
Mas o filme também representava o racismo no seu estado mais puro, o auge de um género que eram os filmes sobre as plantações. A mensagem racista aberta foi declarada claramente numa das legendas para descrever os membros do Ku Klux Klan marchando "em defesa do direito da primogenitura ariana". 
Quando o filme estreou protestos ocorreram na maioria das cidades americanas, e nos anos seguintes foi alvo de inúmeros piquetes e processos no tribunal. Na cidade de Nova Iorque os editoriais pediam a criação de um censor local oficial e comentavam sobre a indignação generalizada e o ódio racial que o filme tinha despertado. Em Boston os manifestantes fizeram piquetes e tentaram fazer com que as pessoas assistissem ao filme, e dez dias depois da estreia uma multidão de 3000 pessoas marcharam até à capital do estado para exigir o fim da exibição do filme. Em Chicago, o mayor impediu que o filme fosse exibido até que fosse aprovada uma legislatura estatal que proibisse materiais racialmente inflamados em todos os meios de comunicação. O governador do Ohio proibiu completamente o filme em todo o estado por conselho dos censores, que também foi proibido nas cidades de Denver, Pittsburgh, St. Louis e Minneapolis. Mas a proibição não prejudicou a venda de bilhetes, ainda fez aumentar o interesse pelo filme, que se tornou no primeiro sucesso de bilheteira do cinema mudo. 
A controvérsia não acabou com o fim do cinema mudo, batalhas com os censores continuaram de cada vez que ele voltava a ser lançado, em 1924, 1931, 1938, e em muitos locais o filme era banido para evitar que o Ku Klux Klan usasse a exibição para recrutar novos membros. 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Filmes Poibidos: a história dos filmes banidos na América

 Não é fácil fazer uma história sobre todos os filmes banidos, censurados, contestados nos Estados Unidos, muito menos em todo o mundo. Mesmo listas mais extensas podem ser inadequadas, porque falta a análise dos filmes e a sua supressão. Colocar este tema num ciclo é uma tarefa ainda mais difícil, mas vou tentar contar o ponto de vista dos filmes banidos a partir da história do cinema dos Estados Unidos, à partida o país mais livre do mundo, ou, provavelmente, talvez não.
A chamada censura nos filmes começou pouco depois dos média terem tornado o cinema uma arte mais visível para um mais vasto público. Mesmo na altura dos filmes serem mudos, uma obra podia ser mais expressiva apenas em imagens do que em mil palavras, e esse facto não passou por despercebido aos pretensos moralistas. Em 1915, "The Birth of a Nation", de D. W. Griffith,  impressionou o mundo  e chocou audiências com as suas cenas de lutas raciais e glorificação do Ku Klux Klan. Depois de ver o filme numa exibição privada na Casa Branca, o presidente Woodrow Wilson disse que "era como escrever uma história do país... e o problema é que era tudo tão terrivelmente verdade". Apesar da opinião do presidente, e do filme apenas tentar contar a história, seria a obra mais frequentemente banida na história do cinema.
Tentativas de suprimir o filme em 1915 levaram a uma decisão do United States Supreme Court, que um filme deveria ser tratado como um produto comercial, e como tal, não poderiam reivindicar protecção de garantias constitucionais como liberdade de expressão e imprensa. Este julgamento não apenas negou protecção constitucional aos filmes, mas também os deixou abertos a serem censurados e banidos por cidade ou por distrito de acordo com cada censor regente, pelo menos até ao início da década de 50.
A indústria do cinema, representada pelo Motion Picture Producers and Distributors Association (MPPDA) liderada por Will Hayes, criou um código ao qual todos deveriam aderir. O MPPDA que incluía os donos dos cinemas e os estúdios, criaram uma série de auto-regulamentos, começando pela criação do Studio Relations Comittee (SRC) em 1927, que levou ao desenvolvimento do Prodution Code Administration (PCA) em 1934, que criava um selo de aprovação ou negação para cada filme. Os donos dos cinemas, na sua maioria, concordaram exibir apenas filmes com o selo de aprovação, mas grupos como o Catholic Legion of Decency (LOD) acharam o SRC demasiado relaxado. Já há muitos anos que a igreja católica tentava controlar o conteúdo dos filmes, começando por ter banido o filme "The Power of the Cross", de 1916, e ameaçado excomungar o realizador, A. M. Kenelly. Em 1922 a igreja católica começou a publicar listas de filmes recomendados, depois bispos e padres católicos começaram uma vigorosa campanha para purificar o cinema, levando à criação do LOD. As suas ameaças e acções levaram a indústria do cinema a restringir ainda mais o PCA, que levou à supressão de muitos filmes lançados anteriormente, e resultou na mutilação de outros, para que pudessem caber dentro dos requisitos, levando a uma guerra com os censores.
Os filmes sofreram escrutínios de várias formas, desde alterações no argumento antes da produção começar, de cortes de frames e mesmo segmentos para poderem obter o selo de exibição, e até mesmo cortes posteriores de acordo com os censores de cada cidade.
É a partir destes pressupostos que se desenvolve o nosso ciclo, que irá percorrer um período desde o "Birth of a Nation" até ao inicio dos anos 80. Vamos ver que até no país mais democrático do mundo as coisas não foram tão fáceis como deveriam ter sido, e iremos analisar mais de 60 filmes que foram banidos pelas mais variadas razões, em ordem cronológica. Espero que gostem do ciclo.
 

domingo, 23 de maio de 2021

Final do Festival

 E assim chega ao fim esta edição do Festival de Cannes, e vamos ver quem são os vencedores:

Grande prémio do Festival: "O Vigilante", de Francis F. Coppola
Grande Prémio do Júri: "As Mil e Uma Noites", de Pier Paolo Pasolini
Melhor Argumento: Hal Barwood, Matthew Robbins, Steven Spielberg, por "Asfalto Quente"
Melhor Actor: Jack Nicholson, por "O Último Dever", e Charles Boyer por "Stavisky"
Melhor Actriz: Marie-José Nat, por "Os Violinos do Baile"

Fipresci Prize: "O Medo Come a Alma". de Rainer Werner Fassbinder (em competição)
                         "Lancelot do Lago", de Robert Bresson, (fora de competição, declinou)

Grande Prémio Técnico: "Mahler", de Ken Russell

Prize of Ecumenical: "O Medo Come a Alma", de Rainer Werner Fassbinder
Menção Especial: "O Vigilante", de Francis F. Coppola

Espero que tenham gostado. Vamos por momentos voltar a 2021, e o próximo ciclo começa muito em breve.


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Delito de Amor (Delitto d'Amore) 1974

No núcleo da história de "Delitto d'amore" está a paixão entre dois jovens operários fabris, um do norte (ele, Nullo) e outro do sul de Itália (ela, Carmela). Os obstáculos à relação amorosa entre eles são múltiplos e destes conflitos se faz o filme de Comencini, em registo drama social.
Uma joia pouco vista dos anos de glória do cinema italiano, "Delito de Amor" é uma história de amor diferente. De certa forma, um retrocesso ao período do neorealismo, o filme é uma história estimulante e nada sentimental de dois operários que se sentem atraídos, apesar das suas grandes diferenças. É um caso de amor malfadado mas a sua destruição deve-se em parte ás forças ambientais e problemas económicos, tanto como pressões sociais. Funciona como um estudo sociólogo fascinante das diferenças regionais entre as classes trabalhadoras do norte e do sul de Itália. 
Enquanto a poluição das industrias de Milão influenciam todo o visual do filme, Luigi Comencini evita transformar a sua história num filme de mensagem ecológica, preferindo focar-se nas emoções conflituantes dos seus dois protagonistas, interpretados por Giuliano Gemma e Stefania Sandrelli, dois jovens presos em empregos sem saída numa fábrica, com poucas opções de carreira.
Fez parte da seleção oficial de Cannes. Legendas em inglês.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Último Dever (The Last Detail) 1973

Dois oficiais de baixa patente, Buddusky (Jack Nicholson) e Mulhal (Otis Young), são designados para levar um jovem marinheiro, Meadows (Randy Quaid), da base naval da Virgínia à prisão naval de New Hampshire para cumprir uma sentença de oito anos por causa de um erro banal. Buddusky e Mulhal apegam-se a Meadows e estão determinados a mostrar-lhe algumas coisas boas da vida em sua viagem ao norte.
Filme fantástico do grande realizador Hal Ashby, que incorpora tudo o que se deve esperar de um grande filme americano. É surpreendentemente ousado, transbordando de emoções e filmado com uma precisão casual brilhante que a tecnologia digital nunca será capaz de replicar. Ashby realizaria uma série de filmes dos mais importantes da década de 70, e vinha da montagem, tendo ganho um Óscar nesta categoria por "In the Heat of the Night" (1967), de Norman Jewison, com quem trabalhou mais activamente.
O filme é baseado num famoso livro de Darryl  Ponicsan, mas tanto as suas personagens e identidade vêm do excelente argumento de Robert Towne, um dos melhores argumentistas de Hollywood que no ano seguinte escrevia "Chinatown". Na verdade, a jornada narrada no livro é apenas a base para Towne mergulhar nestas personagens impregnadas de muito humor e da filosofia da rua testada na universidade da vida. O mais importante está nas trocas e descobertas que os três homens fazem uns dos outros. E um destaque especial para dois actores, Jack Nicholson e Randy Quaid, ambos seriam nomeados para o Óscar com este filme que também concorria para o prémio principal no festival.



terça-feira, 18 de maio de 2021

Jogos de Gatos (Macskajáték) 1974

As heroínas do filme são as duas irmãs Szkalla, que quando eram novas eram brilhantes e bonitas, mas agora estão velhas, e vivem separadas uma da outra. Giza é a mais solitária, porque tem de andar presa a uma cadeira de rodas, e vive com o filho em Munique. A outra é a senhora Orbánné, que dá aulas de canto para sobreviver em Budapeste e vive um romance com Csermlényi, um antigo pretendente, que é um tenor já na reforma. Quando está de bom humor ainda tem uma grande proximidade com o seu inquilino, Egérke... 
Três anos depois do seu primeiro grande sucesso internacional, e consequente vitória no grande prémio do Júri em Cannes, Karoly Makk regressa com uma história de partir o coração sobre duas irmãs solteiras, que depois de uma vida dolorosa, ainda procuram acreditar na esperança e no amor. Mais uma vez Makk faz-se valer dos desempenhos extraordinários da sua dupla de actrizes, desta vez interpretadas por Margit Dajka e Elma Bulla. "Macskajáték" opõe-se à desolação do mundo exterior com paixão, amor e lealdade. 
Além de ter concorrido para a Palma de Ouro em Cannes, "Macskajáték" conseguiu ainda uma nomeação para o Óscar de Melhor filme em Lingua Estrangeira, o segundo da Húngria a conseguir ser nomeado para este prémio, seis anos depois de "The Boys of Paul Street", de Zoltán Fábri, um filme que já por aqui passou num ciclo deste realizador. Os húngaros continuariam a tentar, para conseguir finalmente ganhar um Óscar para "Mephisto", de István Szabó, em 1982. "Macskajáték" teve estreia em Portugal no festival da Figueira da Foz em 1986. Legendas em Inglês.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Milarepa (Milarepa) 1974

Uma história inspirada num texto clássico da literatura tibetiana, o filme anda para trás e para a frente no tempo, entre a história do personagem do título, uma mística do século XI, e um jovem ocidental cujas angústias não são muito diferentes, embos divididos entre a busca do conhecimento e a busca do poder.
O ioga tibetiano Milarepa é um dos principais professores de budismo. A sua autobiografia é filmada em paralelo com a história de um jovem dos nossos dias, ambos procurando respostas das mesmas perguntas. Ambos têm mestres com quais cujas decisões não concordam totalmente, e há mulheres cujos papéis são ambíguos. Mestre e discípulo dependem um do outro, na procura feroz da verdade, onde apenas a crença e a honram contam.
Liliana Cavani faz um filme extraordinário que não perde nada do charme dos seus últinos filmes. É uma meditação do destino do homem, e também uma narrativa das vidas paralelas, do homem e da mulher. Um trato filosófico e uma homenagem a Milarepa, que foi selecionado para concorrer para o principal prémio em Cannes. Legendas em Inglês.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Um Filme Doce (Sweet Movie) 1974

A história entreligada de duas mulheres: uma é a vencedora do concurso Miss Mundo cujo prémio foi casar-se com um magnata do petróleo e que foge desse casamento tumultuado para Paris, tem um caso selvagem com um famoso rock star, El Macho e muda-se para uma comunidade radical. A outra dirige um barco carregado de doces e açúcar, atraindo homens e rapazes com sexo, morte e conversa revolucionária.
Depois do sucesso internacional da crítica de  "WR: Mysteries of the Organism" (1971), o tratado subversivo sobre o comunismo, Wilhelm Reich e a liberdade sexual, o provocador Dusan Makavejev usou toda a sua infâmia para produzir "Sweet Movie", um dos mais desafiadores e chocantes filmes dos anos 70. Muitos dos criticos que já admiravam "WR", em si um desafio subversivo aos costumes politicos e sexuais tradicionais, já consideraram "Sweet Movie" um filme exagerado, enquanto outros o elogiaram como um marco, um filme estimulante cuja quebra de todos as fronteiras convenciomais foi central para a sua tese sobre a necessidade de libertação completa. 
Tal como "WR", "Sweet Movie" dispensa a narrativa convencional a favor de um efeito de colagem de narrativas múltiplas. O fio narrativo dominante começa como uma espécie de comédia política em que uma jovem é coroada de Miss Mundo em 1984. O concurso de beleza exige que ela seja virgem, o que é verificado em palco por um ginecologista de renome mundial que se maravilha com a perfeição do seu hímen intacto.  
"Sweet Movie" foi exibido no festival de Cannes de 1974, na semana dos realizadores.

terça-feira, 11 de maio de 2021

El Santo Oficio (El Santo Oficio) 1974

Gaspar de Carvajal, um dominicano, não vê a sua família desde os 10 anos, quando foi mandado embora para seguir uma vida religiosa. Comparece ao funeral do pai, onde percebe que o corpo foi lavado, depois enterrado numa mortalha e sem caixão. Gaspar diz ao confessor que suspeita que a sua família, os judeus convertidos ao catolicismo, ainda seguem os velhos hábitos. Padre Lorenzo diz que este assunto deve ser levado à Inquisição.
O longo braço da inquisição, ou Santo Ofício, chegou até pelo menos ao século 16 no México (ou Nova Espanha, como era chamada na altura). Muitos católicos espanhóis de origem Moura ou Judaica acharam conveniente fugir para o Novo Mundo para escapar da sufocante atenção da inquisição. Em Espanha, simplesmente ser descendente de um destes povos era suficiente para garantir uma morte horrível por imolação. No Novo Mundo demorou um pouco mais, e este filme mexicano de 1974 relata o sofrimento de uma família que pratica secretamente o judaísmo sendo entregues à inquisição por um membro da família. Curiosamente, um pequeno clã familiar de judeus familiar foi descoberto no Novo México em finais da década de 80 do século passado, tendo conseguido manter a sua fé em segredo durante quase 500 anos.
Realizado por Arturo Ripstein, na altura um jovem mexicano que já tinha trabalhado como assistente de Luis Buñuel, realiza aqui uma das suas primeiras de fição, que o levou direcamente ao Festival de Cannes, para a seleção oficial. Legendas em Inglês.