segunda-feira, 1 de março de 2021

Maré Cheia (Moontide) 1942

Um marinheiro mal-humorado e bêbado, Bobo acorda de ressaca em San Pablo, sem ter certeza se cometeu ou não um assassinio. Depois encontra a felicidade quando evita o suicídio da jovem Anna. No entanto,  o velho amigo Tiny fica com cíumes e deseja que Anna vá embora. O crime ainda não esclarecido pode ser o ingrediente que ele necessita para colocar seu plano em ação.
Primeiro de dois filmes que Jean Gabin fez nos Estados Unidos. Gabin foi um dos muitos da indústria cinematográfica europeia que fugiram para Hollywood para fugirem do flagelo Nazi. O problema é que Holywood não sabia o que fazer com ele. Uma mega star na sua França natal, mas relativamente desconhecido em terras americanas. A TCF colocou-o a trabalhar com Fritz Lang, um realizador também europeu que já vinha a trabalhar em Hollywood há alguns anos, mas as diferenças entre os dois eram muitas, e Lang acabou por sair fora da produção ao fim de duas semanas. Quem o substituiu foi Archie Mayo, que ficou com os créditos finais. 
Alguns defeitos são apontados ao filme, desde o nome estúpido do protagonista, a algumas cenas bizarras, mas mesmo assim o filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Fotografia a preto e branco, e vale, sobretudo, pelo fantástico trabalho dos quatro principais actores. Os restantes três são Ida Lupino, no papel da jovem suicida, e ainda Thomas Mitchell e Claude Rains. Gabin voltaria a França logo depois da guerra acabar.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Retiradas do Mundo (Ladies in Retirement) 1941

Londres, finais do século XIX. Tensões emergem entre a actriz aposentada Leonora Fiske e a empregada Ellen Creed (Ida Lupino) quando esta convida as irmãs Emily e Louise para uma visita à mansão vitoriana onde residem. Tudo pode acontecer. Mas até mesmo um assassinio?
Ida Lupino uma vez intitulou-se a ela própria de "Bette Davis dos pobres", mas na verdade o seu talento estava à altura da actriz lendária, e neste filme em particular as semelhanças entre as duas eram notáveis. Ida tem uma das suas melhores interpretações como a forte Ellen, que em desespero para proteger as irmãs que ama comete um crime, mas o tem vai consumi-la de remorsos e medo.
"Ladies in Retirement" originalmente estreou nos palcos de Londres em 1940, com Flora Robson no principal papel. A Columbia Pictures comprou os direitos nesse mesmo ano, com o objectivo de ser um veículo para uma das suas principais estrelas, Rosiland Russell, que três anos antes tinha conseguido grande sucesso com um thriller de atmosfera semelhante, "Night Must Fall".  No entanto o papel iria parar às mãos de Lupino, com Isobel a repetir o seu papel da peça.
Embora relativamente obscuro hoje em dia, foi um filme bastante aclamado na altura da estreia, tendo sido nomeado para dois Óscares e merecendo lugar entre outros filmes misteriosos da época, como "Gaslight" ou "The Picture of Dorian Grey". Intenso e silencioso, é um óptimo trabalho de Charles Vidor.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Acabou o Nevoeiro (Out of the Fog) 1941

Os pescadores Jonah Goodwin e Olaf Johnson enfrentam o gangster Harold Goff, que quer extorquir dinheiro aos dois homens, em troca de "proteção" do barco da sua propriedade. Com medo de denunciá-lo à justiça, os dois homens decidem resolver o problema pelas próprias mãos.
"Out of the Fog" (1941), adaptação para o cinema por Robert Rossen, Jerry Wald e Richard Macaulay da peça de Irwin Shaw "The Gentle People", escrita para o The Group Theater de Nova Iorque em 1939, com realização de Anatole Litvak, e direcção de fotografia de James Wong Howe. A produção diluiu tanto a crítica contundente da peça incisiva ao capitalismo e às intenções antifascistas, que o resutlado final inventado acaba por ser desilusão, com os heróis a parecerem tão amorais como a sua vítima. 
"Out of the Fog" era um exemplo de como Hollywood lidava com adaptações de trabalhos com conteúdo político durante a era do código de produção. Segundo o código de produção todos os criminosos deveriam ser punidos, o que significava que o final tinha de ser alterado em relação à peça original.
Um óptimo elenco, com John Garfield, Thomas Mitchell, Eddie Albert, e Ida Lupino, como filha de um dos pescadores, e graças ao seu estatuto de estrela teve honras de créditos em primeiro lugar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O Lobo do Mar (The Sea Wolf) 1941

São Francisco, 1900. Perseguido pela polícia, George Leach aceita entrar na tripulação do barco de pesca « The Ghost », apesar da sua reputação execrável. Ao largo de São Francisco, um transatlântico choca com outra embarcação : dois viajantes, o escritor Humphrey Van Weyden e Ruth Webster, evadida de uma prisão feminina, escapam milagrosamente à catástrofe e são recolhidos pelo « Ghost ». O seu temível capitão, Wolf Larsen, declara imediatamente aos dois náufragos que têm de permanecer a bordo durante toda a travessia porque ele não tem intenção alguma em perder tempo a voltar para Frisco.
Michael Curtiz adapta um romance de Jack London de 1906, com um argumento do jovem Robert Rossen, bem antes de realizar a sua primeira longa metragem. É um conto atmosférico, embora por vezes bastante literário sobre o poder de um sociopata descontrolado. Depois de uma breve introdução a alguns personagens chave em terra, a maior parte do filme passa-se a bordo do "The Ghost", um navio enorme que a maioria dos marinheiros conhece suficiente bem para ficar longe, já que o seu capitão "Wolf" Larsen, governa com punho de ferro com intimidação física e verbal. 
Há quem diga que este é o melhor papel da carreira de Edward G. Robinson, e mesmo não sendo o melhor é certamente dos melhores. Mas o filme também vive do brilhante naipe de secundários que tem. Ida Lupino e John Garfield como o casal de fugitivos, e ainda Alexander Knox, Gene Lockhart e Barry Fitzgerald.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O Último Refúgio (High Sierra) 1941

Roy Earle sai da prisão depois de estar oito anos preso, e é procurado por um chefe do crime, que o contrata para roubar um hotel na Califórnia. O assalto, entretanto, não sai como planeado, e Earle é forçado a fugir para as montanhas da Sierra Nevada.
Raoul Walsh realizou, e John Huston escreveu o argumento deste clássico de gangsters, baseado num romance do co-argumentista W.R. Burnett, que permitiu a Humphrey Bogart se tornar num protagonista de pleno direito. Walsh pega numa história dos clássicos westerns e transpõe-a para o género gangster, que mais tarde iria refinar em "White Heat"(1949).  O cinismo faz parte de Bogart, e há muito disso neste filme, e provavelmente foi isso que o catapultou para o sucesso. O seu personagem não é malicioso, embora use a violência contra todos que atravessam no seu caminho.
Ida Lupino volta a ser a co-estrela de Bogart, depois do sucesso de "They Drive by Night", igualmente realizado por Raoul Walsh. Devido à prestação dela no filme anterior, o Estúdio resolveu colocar o nome de Lupino em primeiro lugar nos créditos, mas sem dúvida que o filme é de Bogart. Os dois aparecem à frente de um grande elenco, que inclui Alan Curtis, Arthur Kennedy, Joan Leslie, e Cornel Wilde. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Vidas Nocturnas (They Drive by Night) 1940

Os irmãos Paul e Joe Fabrini (George Raft e Humphrey Bogart) dirigem um negócio de camionagem na Califórnia, principalmente virado para o mercado da fruta, transportando produtos das explorações agrícolas para os mercados de Los Angeles. Lutam para sobreviver contra os empresários corruptos e a intensa competição. São forçados a conduzir muitas horas e uma noite dão boleia à jovem Cassie Hartley (Ann Sheridan), que acabara de se despedir do seu emprego num terminal de camionagem. Os três testemunham a morte de um conhecido mútuo, que adormece ao volante. Isto causa um profundo efeito em Paulo e Joe, que ficam determinados a encontrar um modo de conseguir um bom dinheiro, para desistir deste trabalho. 
Um dos filmes mais populares da Warner no início dos anos 40, "They Drive by Night" é uma obra intensa e emocionante, que apresentava um quarteto de quatro estrelas (Raft, Bogard, Sheridan e Ida Lupino), e era baseado no livro "Long Haul", de A. I. Bezzerides, com argumento de Jerry Wald e Richard Macauley. A segunda parte do filme, é uma vaga adaptação de um outro filme chamado "Bordertown", um "bad girl" melodrama interpretado por Bette Davis e Paul Muni. Como as duas histórias se complementam, e são adaptadas de um modo convincente, acaba por ser uma refrescante mudança de ritmo, pouco normal nas produções de Hollywood. 
Já era a segunda colaboração entre Raoul Walsh e Humphrey Bogart, que por esta altura ainda não era uma estrela grande de Hollywood, mas sim um actor mais habituado a papéis de vilão. Os dois voltariam a encontrar-se no ano seguinte em "High Sierra", outra das mais interessantes obras da década de 40. A direcção de Walsh era sólida, e a interpretação de Boogie consegue manter o filme tenso o suficiente para que nunca consigamos adivinhar o que vai acontecer a seguir.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Sherlock Holmes Contra Moriarty (The Adventures of Sherlock Holmes) 1939

O Professor Moriaty arquitecta um plano para roubar as jóias da coroa na Torre de Londres. Para que não seja impedido por Holmes, Moriaty envolve-se em num assassinato para que o detective se distraia com o caso enquanto o professor realiza o roubo.
Entre 1939 e 1946 foi produzida uma série de 15 filmes sobre o lendário Sherlock Holmes e o seu fiel companheiro Watson, interpretados por Basil Rathbone e Nigel Bruce. Os dois primeiros filmes foram produzidos pela 20th Century Fox, passando depois para a Universal, que produziu os restantes, sempre com o mesmo par de actores. Estes dois primeiros filmes são passados no período vitoriano adequado de Doyle, os restantes, da Universal, são passados no período da Segunda Guerra Mundial.
O filme de hoje, é o segundo e último da Fox, por isso passado ainda na era vitoriana, e era vagamente baseado numa peça de William Gillete. George Zucco interpreta um magnifico Professor Moriaty, o vilão de serviço, força motriz do filme, enquanto que uma novinha Ida Lupino, então com 21 anos interpreta a donzela em perigo, numa combinação vencedora de contenção e resiliência. Realizado por Alfed L. Werker.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Ladrão Dentro da Lei (The Lone Wolf Spy Hunt) 1939

Warren William é Lone Wolf é um antigo espião, determinado a permanecer reformado para o bem da sua filha, mas um gang de espiões internacionais rapta-o e obriga-o a roubar os planos de uma arma secreta. Tal como um espião secreto que se preze, Lone Wolf também é mulherengo, e tem dois amores: a namorada interpretada por Ida Lupino, e a espia sedutora interpretada por Rita Hayworth, pouco antes do estrelato. 
"The Lone Wolf Spy Hunt" é um remake de "The Lone Wolf´s Daughter", de 1929, e como o filme anterior é baseado na personagem criada por Louis Joseph Vance. Muitas pessoas pensam que Sean Connery foi o primeiro herói espião da história do cinema, mas o facto é que muitos anos antes houve uma outra personagem a caminhar pelos anéis da espionagem internacional. Warren William foi o actor que deu cara a este herói, em nove filmes.
Peter Godfrey realizou este segundo episódio da série, considerado também o melhor, e que contava com duas futuras estrelas de Hollywood como co-protagonistas: Ida Lupino e Rita Hayworth.  Muita acção, e muita espionagem estão garantidas.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Ida Lupino - Actriz e Realizadora

 
Dominada pelos homens e limitada pelo restritivo Código Hays, a Hollywood do pós-guerra deu pouco apoio a uma realizadora que procurava fazer filmes sobre assuntos polémicos. Mas Ida Lupino resistiu ao sistema, escreveu e realizou uma série de filmes onde expôs o lado negro da sociedade americana, em tópicos como violação, mães solteiras, bigamia, entre muitos outros temas, que habitualmente só era retratados pelos homens.
Tendo crescido numa famosa família do teatro inglesa com raízes italianas, Lupino trabalhou como actriz desde a infância, e no cinema desde a adolescência. É mais conhecida pela sua versatilidade nos noirs do pós-guerra, onde mostrava as suas variações sobre a mulher dura com uma veia vulnerável. 
"Deep Valley" foi o fim de um contrato tenso com a Warner Brothers durante o qual ela dizia ser a "Bette Davis dos homens pobres", ela também seguiu a tendência de Bette Davis em perturbar o sistema e ser suspensa por reclamar dos seus papéis. Foi nesta altura que ela desenvolveu o interesse pela realização. 
Quando casou com o produtor Collier Young em 1948 formaram a sua própria editora, chamada The Filmakers. Lupino passava assim a fazer parte de um grupo de actores que desta forma assumiam um maior controle das suas carreiras, através das suas próprias produtores. Outros actores já tnham seguido o mesmo caminho, como John Garfield, John Wayne, Burt Lancaster ou Kirk Douglas. 
Da frente das camaras para trás delas foi um salto. A sua carreira de realizada era baseada em filmes baratos, afiados, sábios, e agradavelmente pequenos. Obras incisivas e memoráveis que eram sempre mais misteriosas do que deixavam transparecer. 
Neste ciclo, que começa hoje, vamos visitar uma boa parte da carreira de Isa Lupino. Começaremos pelo seu trabalho como actriz, e passaremos depois para o de realizadora. Espero que gostem. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

 Peço desculpa, pessoal. Tenho andado com problemas, mas volto muito em breve.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Dogma (Dogma) 1999

Dois anjos, Bartleby e Loki, são expulsos do Paraíso por Deus. Acreditam que podem regressar ao céu se aproveitando de um dogma, participando numa certa comemoração que perdoa todos os pecados de quem passa pela porta da catedral de Nova Jersey. Só que isto pode ter uma terrível consequência: o fim da humanidade. Para evitar que a tragédia ocorra é montada uma equipe de combate aos anjos, formada por Bethany Sloane, um 13º apóstolo negro, dois profetas e uma Musa Inspiradora.
O quarto filme de Kevin Smith, de quem já vimos outros dois neste ciclo, é uma obra controversa e hilariante, em que o objectivo era fazer uma comédia que espiritualmente reafirmante sobre os rebeldes do catolicismo, uma proeza nada pequena, na verdade. E o facto de Smith se sair tão bem, com apenas alguns erros, é uma prova do seu talento e dedicação. Antes do filme começar Smith começa com uma declaração, para as pessoas não se ofenderem, porque afinal é apenas um filme. Ao lermos a defesa hilariante e honesta de Smith e do seu filme, ficamos logo cientes das coisas. 
Estreando no festival de Cannes de 1999, veio a passar por diversos festivais antes da estreia em sala. Tem alguns nomes bem conhecidos no elenco, como Matt Damon, Ben Afleck e Linda Fiorentino. Não falta a partcipação das personagens Silent Bob e Jay.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Queres Ser John Malkovich? (Being John Malkovich) 1999

Quinze minutos na pele de John Malkovich é a experiência vivida por Craig Schwartz (John Cusack) depois de ter descoberto, no sétimo andar e meio do escritório onde trabalha, uma porta que dá acesso à mente daquela celebridade. Rapidamente a notícia espalha-se e a identidade do famoso actor (que aqui se representa a si próprio) vai ser partilhada por um grupo de pessoas, incluindo a mulher de Craig (Cameron Diaz). E todos querem ser John Malkovich...
Primeira obra, e filme que trouxe para a ribalta Spike Jonze, um famoso realizador de videoclipes que desde o ínicio da década de noventa vinha a trabalhar com alguns dos mais variados músicos da música popular, como Sonic Youth, Teenage Fanclub, Beastie Boys, R.E.M., Pavement, Bjork, Daft Punk, entre muitos outros. 
Jonze mantém o filme como uma paródia da vida, e uma paródia de si própria. O único momento em que o filme corre o risco de inclinar a balança é quando permite um desfile de verdadeiras estrelas de Hollywood façam pequenas aparições para aumentar a sensação de verdadeira realidade bizarra. O melhor deles é Charlie Sheen, com um papel bastante substancial que faz um riff depreciativo da sua própria personalidade de estrela manchada. Mas Jonze, e o argumentista Charlie Kaufman, também a estrear-se nas longas metragens, nunca deixam o filme ficar fora de controlo.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Deuses e Monstros (Gods and Monsters) 1998

Em 1957, James Whale, um realizador homossexual que fez grande sucesso no passado a fazer filmes de monstros, sente-se solitário e começa a contar as suas experiências para o seu musculoso jardineiro. Mesmo desconfiado dos interesses do patrão, a amizade deles cresce e o jardineiro é pago para posar para ele, porque o realizador agora é pintor. Estes acontecimentos ocorrem sob os olhares vigilantes da sua governanta, que, conhecendo bem o patrão, quer evitar que ele se envolva com o jovem.
Em plena idade de ouro de Hollywood, James Whale foi encontrado morto na piscina da sua casa, suicídio. Naquela momento, o realizador inglês emigrado não fazia um filme desde que se tinha aposentado do cinema no inicio dos anos 40, para viver como pintor. Era um homem assumidamente gay numa Hollywood urbana, mas fechada, dos anos 30, onde tinha sido rejeitado pela sua imprudência sexual / profissional. 
Realizado por Bill Condon, na sua segunda longa-metragem. "Gods and Monsters" é um relato especulativo dos últimos dias da vida de James Whale, inventando personagens, e baseando o filme no livro de Christopher Bram "Father of Frankenstein". Vencedor do Óscar de Melhor Argumento, o filme vive também do belíssimo trabalho dos actores, com Ian Mckellen e Lynn Redgrave em destaque, a serem também nomeados nas suas categorias. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Buffalo '66 (Buffalo '66) 1998

O jovem Billy Brown sai da prisão depois de ter cumprido 5 anos por um crime que não cometeu. Tem duas ideias fixas na cabeça: revêr os pais e vingar-se de Scott Woods. No primeiro caso, justificou aos pais a sua ausência dizendo-lhes que casou e vive confortavelmente. Woods é o jogador de futebol responsável pela derrota da sua equipa há cinco anos. Billy conhece, por acaso, Layla, a quem rapta e obriga a fazer-se passar por sua mulher em casa dos pais, que se revelam grotescos e desprezíveis. 
 "Buffalo 66" é a primeira experiência do jovem actor Vincent Gallo como realizador, que assina, também, o argumento e a música, para além de assumir o principal papel. Trata-se de uma crónica familiar desconcertante sobre a deprimente relação de um jovem marginal com os pais, seres deploráveis e crueis, que acabou de cumprir uma pena de cinco anos por um crime que não cometeu mas está obcecado pela ideia de cometer um homicídio. Acaba por ser salvo pelo amor de uma rapariga que obriga a fazer-se passar por sua mulher e que se apaixona por ele. Gallo manipula de forma soberba um punhado de personagens tão antipáticas e tão singulares que se tornam fascinantes, num filme construido como um complexo jogo de múltiplas recordações e evocações pessoais, em tom amargo e irónico, atravessado por um humor insólito. Destaque para um grande elenco, onde para além de Gallo, se contam os nomes de Angelica Huston, Ben Gazzara, Christina Ricci, Mickey Rourke e Rosanna Arquette.
* Texto RTP

domingo, 24 de janeiro de 2021

Um dia no Paraíso (Another Day in Paradise) 1998

Nos anos 70, um jovem casal de adolescentes e toxicómanos, Bobbie e Rosie, vive de pequenos roubos. Quando Bobbie é ferido na sequência de um golpe, Rosie propõe-lhe refúgio junto do seu tio Mel, um traficante de droga que vive com Sid. Mel e Sid fascinam Bobbie e Rosie, com a sua vida de luxo, de drogas e de facilidades, e deixam-se arrastar para um importante roubo de narcóticos que corre mal. 
 Larry Clark, cujo filme "Kids" criou grande polémica com o seu impressionante retrato dos jovens adolescentes de Nova Iorque arrastados para a vertigem da droga e da SIDA, volta a assinar um filme perturbador e incisivo que gira, mais uma vez, em torno de adolescentes e droga. "Um Dia no Paraíso", que parte da adaptação de um romance de Eddie Little, é um cruel, irónico e impressionante "road movie" sobre o alucinante convívio de um jovem casal de adolescentes, marginais e toxicómanos, com um casal de traficantes de droga, que criam entre si uma espécie de laço familiar regido por leis absolutamente perversas ao longo de uma trajectória de crime e violência. Clark constrói uma espécie de melodrama familiar num mundo de marginalidade, amoralidade e decadência de valores morais, no qual os adolescentes são as melhores e mais trágicas vítimas. Um filme duro, cruel e perturbador, com James Woods, Melanie Griffith e os jovens Vincent Kartheiser e Natasha Gregson Wagner nos principais papéis.
* texto de RTP

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Pi (PI) 1998

Em Manhattan vive Max, um jovem génio que evita contacto com outras pessoas e sofre de terríveis dores de cabeça. Quando descobre o número completo de pi, compreende todos os segredos da existência de vida na Terra e, com isso, desperta o interesse de representantes da bolsa de mercado.
A brilhante estreia de Darren Aronofsky, pode não ter movimentado muito público na estreia, e pode ter afastado algum público dos seus filmes, mas marcou-o como um novo talento emergente do cinema norte-americano, e um nome a ter em conta para o século 21. Foi um dos filmes mais inteligentes dos anos 90, com estilo ousado e conteúdo intelectual que nunca o deixa ficar desatualizado, com os anos a passarem.
"Pi" assume teorias relacionadas a números e padrões de todos os tipos, de culturas antigas e modernas. Oferece-nos uma tour histórica da relação humana com a matemática, enquanto cataloga a desintegração de um homem, ou a ascensão.  O trabalho de câmara frenético permite que o espectador menos instruído se envolva com a mentalidade de Max. Imagens granuladas a preto e branco, e padrões variáveis de luz e sombra funcionam bem para aumentar o elemento do suspense, e há uma banda sonora techno, cada vez mais agressiva, para nos lembrar que a música também é uma forma de expressão matemática.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Following (Following) 1998

"Jeremy Theobald, o protagonista de "Following", pratica um desporto pouco comum: gosta de seguir pessoas na rua, observando as suas deslocações e formas de comportamento. Objectivo: recolher material de inspiração para a escrita do seu primeiro romance... 
 Quando vemos, agora, "Interstellar", é inevitável associarmos o seu realizador, Christopher Nolan, a modelos grandiosos de produção, ligados aos estúdios de Hollywood. O certo é que ele começou em Inglaterra (nasceu em Londres, em 1970), precisamente com este "Following", um objecto austero e fascinante, rodado a preto e branco, em película de 16 mm — enfim, um caso exemplar de produção independente. 
 À medida que o protagonista desenvolve a sua insólita actividade, vai-se instalando um crescente mal-estar. E não apenas porque há qualquer coisa de grosseiro no voyeurismo do candidato a escritor. Também porque, a pouco e pouco, ele se vê envolvido num submundo que não controla — "Following" começa como uma espécie de jogo policial para, a pouco e pouco, se transfigurar numa aventura de estranhos assombramentos. 
 Depois de "Following", Nolan dirigiu "Memento" (2000), título que o projectou decisivamente nos circuitos da crítica internacional e também no espaço da difusão de "arte-e-ensaio". O resto da história, com Batman pelo meio, é bem conhecido — o certo é que, com o passar dos anos, "Following" foi-se transformando num caso sério de popularidade cinéfila e, por fim, num genuíno filme de culto."
* Texto de João Lopes.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

In the Company of Men (In the Company of Men) 1997

Durante uma viagem de negócios de seis semanas, dois executivos rejeitados e frustrados com as suas vidas amorosas decidem vingar-se. Eles escolhem a mulher mais vulnerável e pura possível, e tentam arruinar a vida dela.
Filme de estreia do realizador e argumentista Neil LaBute, é um daqueles filmes que não apenas ignora as convenções de Hollywood, como também as despreza. Estreou com grande aclamação da crítica no festival de Sundance de 1997, e inicialmente teve grandes problemas para conseguir um distribuidor. A razão é simples: por cauda da sua descrição brutalmente directa de certos aspectos do actual clima social norte-americano. É impossivel assistir a este filme sem sentir desconforto.
O filme não segue uma linha linear. No início tudo aparece aparentemente simples, mas há camadas de complexidade a cada momento. Conforme a história se desenvolve torna-se dificil discernir uma acção simples de uma com duplo significado, e os motivos, antes claros, tornam-se obscuros. Aos poucos a verdade começa a afirmar-se, para quem realmente entende o que move estas personagens, e o fim é inevitável. 

sábado, 16 de janeiro de 2021

O Apóstolo (The Apostle) 1997

Em 1939, numa pequena cidade do Texas, um pastor popular (Robert Duvall) prega fervorosamente. A sua esposa (Farrah Fawcett), cansada da relação, apaixona-se por um pastor mais jovem. O marido abandonado não aceita a situação e tenta a reconciliação sem sucesso. Num momento de desespero agride o rival com um bastão de basebol, deixando-o em coma. Em virtude do acontecido ele deixa a cidade e, com um novo nome, chega numa pequena cidade da Louisiana. 
A verdadeira fé e a sua expressão através da religião organizada é um assunto difícil de ser abordado de frente num filme, e por isso poucos o fazem. Mesmo realizadores mais religiosos, como Scorsese ou Bergman geralmente tratam desta questão de forma mais implícita. Foi por isso que Robert Duvall levou 15 anos para trazer esta história para o grande ecrã, e mesmo assim não conseguiu financiamento diferente, acabando por colocar 5 milhões de dólares do seu bolso. Duvall assumiria o argumento, a realização e ainda interpretou o papel principal.
Como realizador, a câmara de Duvall simplesmente capta o que está à sua frente, com muito pouca intrusão. Não há shots extravagantes de guindaste, ou close-ups excessivos, Duvall sabia o poder das personagens do seu filme, e muitos deles são actores não profissionais e habituais frequentadores das igrejas. Desta forma, "O Apóstolo" desenrola-se quase como um documentário, não apenas na sua simplicidade técnica, mas em todo o sentido da realidade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Jogos de Prazer (Boogie Nights) 1997

Eddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem de 17 anos sexualmente bem-dotado. Ele é descoberto por Jack Horner (Burt Reynolds), um realizador veterano que o transforma em Dirk Diggler, uma celebridade da subcultura do mundo porno no apogeu dos anos 70. O sucesso faz com que Eddie se envolva no mundo das drogas e a fama pode ter um preço.
Embora "Boogie Nights" não seja o primeiro filme de Paul Thomas Anderson, foi o trabalho que o trouxe para a ribalta, e a primeira exposição que muitos puderam ter do seu excelente trabalho. Como já era evidente no seu filme anterior, "Hard Eight", Anderson tem um talento especial para a caracterização, e em usar o movimento de câmara e a música para criar sons tão bem, que poderíamos dizer que vinha de um Scorsese. Apesar de nem todos possam achar o filme do seu agrado, alguns possam considerar longo demais ou fora de foco, não há que negar que o filme seja corajoso, e tenha momentos de um brilho inegável. 
Anderson tinha apenas 26 anos quando escreveu e realizou o filme, e conseguiu reunir um grande elenco entre jovens actores em ascensão, e estrelas já firmadas. Para além de Whalberg e Reynolds, contava com Julianne Moore, John C. Reilly. Don Cheadle, Heather Graham, William H. Macy, alguns deles viriam a ser recorrentes nos futuros filmes do realizador. Valeu 3 nomeações para os Óscares: Reynolds, Moore, e o argumento.