quarta-feira, 15 de julho de 2020

El Extraño Viaje (El Extraño Viaje) 1964

A gira em volta dos irmãos Vidal, todos solteiros. Os dois mais novos, Paquita e Venancio, sofrem nas mãos da irmã mais velha, Ignacia, que manda neles como se fossem seus empregados. As coisas mudam quando eles suspeitam que alguém anda a entrar no quarto de Ignacia e tentam descobrir o que está a acontecer.
Fernando Fernán Gómez conseguiu com esta obra um dos seus melhores trabalhos, e o mérito reside na descrição fiel e exacta da Espanha rural, analfabeta, rançosa e púdica dos anos sessenta. Rebelde e inconformista, consegue combinar habilmente vários géneros de filmes, do drama à comédia, passando pelo aterrorizante, pelo suspense e o policial, para alcançar e descrever a hipocrisia, a opressão e os duplos padrões que eram vigentes nessa época.
Originalmente intitulado "El Crimen de Mazarrón", título que foi reprimido pela censura da época, "El Extraño Viaje" é um elemento surpreendente no meio de um período bastante negativo na história contemporânea espanhola. A surpresa está mais no conteúdo do que qualquer outro aspecto em si. Surgiu da misteriosa aparição de dois corpos na praia de Mazarrón, Murcia, e de uma conversa que Fernán Gómez teve com Berlanga, em que este disse que poderia ser feito um filme de tal ocorrência. Fernán Gómez levou as palavras de Berlanga a sério, e fez mesmo o filme, mais uma pérola do cinema espanhol.
Legendas em inglês.

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terça-feira, 14 de julho de 2020

El Verdugo (El Verdugo) 1963

A história de um jovem tímido e simplório que se apaixona e casa com a filha do carrasco da região. Cabe-lhe, por sucessão, tomar o seu lugar quando aquele se aposenta. Mau grado escrúpulos e agonias, acabará por cumprir a missão. É tudo uma questão de hábito, dirá por outras palavras, o sogro. Ou como a rotina da morte gera a indiferença.
Em 1963, quando "El Verdugo" estreou no festival de cinema de Veneza, o embaixador espanhol em Roma, Alfredo Sanchez Bella, condenou o filme publicamente como propaganda anti-fraquista. Embora tenha ganho o Prémio Internacional da Crítica, a censura oficial condenou o realizador Luis Garcia Berlanga e paralisou temporariamente a sua carreira. "El Verdugo" teve uma estreia oportuna, pouco tempo antes do lançamento do filme três pessoas foram executadas em Espanha com a pena de morte: Julián Grimau, um comunista, e os anarquistas Francisco Granados Mata e Joaquín Delgado Martínez. Estes incidentes provocaram uma onda de criticas internacionais condenando o atraso do regime de Franco e provocaram um debate sobre a pena de morte em Espanha. Neste contexto sócio-político o filme de Berlanga era entendido como tendencioso e cúmplice da rejeição internacional do franquismo. 
"El Verdugo" não apenas condenava a prática da pena de morte em Espanha como também denunciava a paralisia social que resultava do regime ditatorial opressivo que aparentemente apenas começava a liberalizar. O clima politico repressivo estava em desacordo com as transformações culturais da década de sessenta, e as mudanças sociais que afectavam Espanha, como o rápido desenvolvimento económico e a chegada do turismo em massa. Berlanga ilustra a realidade ambivalente de Espanha, contrastando a persistência de práticas arcaicas com imagens de modernidade representadas pelo turismo em Maiorca. Pode-se argumentar que Berlanga também criticava a natureza repressiva e patriarcal do regime de Franco através do carácter de José Luis e a sua submissão aos mandados do seu sogro. Finalmente Berlanga lança um olhar irónico e crítico para as politicas urbanas franquistas e a dificuldade de encontrar habitações nas áreas urbanas em expansão. 
O extraordinário sentido de humor que opera ao longo desta história trágica faz deste filme uma comédia negra clássica e reflecte o excelente trabalho do co-argumentista Rafael Azcona, cuja experiência anterior com o neorrealismo influenciou claramente a forma e o conteúdo de "El Verdugo". 
Legendas em inglês. 

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domingo, 12 de julho de 2020

El Buen Amor (El Buen Amor) 1963

Dois jovens estudantes universitários decidem passar o dia em Toledo, a fim de esquecerem um pouco da rotina em que estão. Às nove da manhã José Luis espera na estação de Atocha pela sua namorada, Mari Carmen. O dia é eterno e a permanência na cidade, em vez de surpreendê-los, como esperavam, mergulha-os ainda mais na monotonia em que viviam, mas que também os irá ajudar a se conhecerem melhor.
Um filme seminal, mas poucas vezes visto, no desenvolvimento do Novo Cinema Espanhol dos anos sessenta, tem uma qualidade quase episódica, que faz dele um contraponto curioso à atmosfera de repressão silenciosa que se fazia sob o domínio de Franco. Dois estudantes universitários de Madrid, aborrecidos com a sua vida da cidade e ansiosos por se conhecerem melhor, partem para o interior, acabando por ir parar a Toledo. A jornada parece ser uma "declaração de independência pessoal", mas encontros casuais com personagens e situações de Madrid, surgem continuamente.
Ao contrário da geração anterior do cinema espanhol (Bardem, Berlanga) "El Buen Amor" evita as contradições mais flagrantes da era Franco em Espanha, por uma abordagem que, em vez disso, discretamente aponta os efeitos mais ruinosos do "fascismo quotidiano" sobre os personagens tão simpáticos. Filme de estreia de Francisco Regueiro, com honras de exibição no festival de Cannes de 1963.
Legendas em inglês.

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sábado, 11 de julho de 2020

Viridiana (Viridiana) 1961

Viridiana, uma jovem noviça prestes a fazer os seus votos finais como freira, aceita, movida puramente pelo senso de obrigação, um pedido do seu tio para visitá-lo. Agitado pela semelhança da sobrinha com a sua falecida esposa, tenta seduzi-la, e a tragédia segue-se...
Depois de quase vinte anos sem filmar em Espanha, Luis Buñuel resolveu enfrentar o desafio de voltar à sua terra natal para fazer "Viridiana", que segundo Victor Fuentes, se tornou na "maior e mais divina orgia erótica do cinema". A decisão do realizador em filmar em Espanha provocou fortes críticas de republicanos espanhóis no exilio. Aos olhos de muitos exilados Buñuel cedia nas suas críticas ao regime de Franco, e voltou a Espanha abandonando a sua postura política radical. No entanto, é precisamente neste filme que Luís Buñuel produziu a sua crítica mais forte aos elementos mais emblemáticos promovidos durante o franquismo. A sua irreverência pelo simbolismo católico rendeu-lhe a condenação do Vaticano quando "Viridiana" estreou.
O regresso de Buñuel a Espanha é o resultado de circunstâncias complicadas. Duas importantes produtoras convergiram durante a produção de "Viridiana", a UNINCI e a Films 59, de Pere Portabella, juntamente com o produtor mexicano Gustavo Alatriste. A UNINCI foi a primeira produtora a tentar ir além dos parâmetros ditados pelo regime, produziu "Sonatas", um filme que Juan António Bardem fez no México em 1959, e queriam atrair realizadores envolvidos politicamente. Foi ainda no México que fizeram o convite a Buñuel. Por outro lado, Pere Portabella tinha produzido "Los Golfos", o primeiro filme de Carlos Saura, e conheceu Buñuel no festival de Cannes de 1960, propondo que fizessem um projecto juntos. O mexicano Alatriste também se envolveu no projecto, em parte porque a sua esposa Silvia Pinal queria trabalhar com um realizador de prestígio, como Buñuel, acabando por ficar com o papel da protgonista.
O Director Geral da Cinematografia, José Muñoz Fontán, escolheu "Viridiana" para representar Espanha no Festival de Cannes, com a intenção de obter reconhecimento internacional por ter recuperado o grande exilado do cinema espanhol, Luís Buñuel. Este gesto representa um dos muitos paradoxos do periodo de abertura na Espanha de Franco. O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e recebeu uma ovação unânime do público e do júri, no entanto levantou uma onda de questões, porque apresentava imagens para os costumes espanhóis da época. Tornou-se imediatamente num objecto de debate internacional, atacado pela igreja, e proibido pelos censores espanhóis, (só seria visto em Espanha em 1977), não obstante o grande sucesso internacional que conseguia. As furiosas denuncias da igreja forçaram a renúncia do Fontán do cargo que ocupava, ele que tinha aceitado pessoalmente o prémio em Cannes, a conselho de Partabella e Juan António Bardem. Como resultado do escândalo, Buñuel afastar-se-ia novamente do país.

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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Plácido (Placido) 1961

Um grupo de senhoras decidem comemorar a véspera do Natal com um jantar de caridade: cada dona de casa rica da cidade espanhola levaria um sem-abrigo para comer com eles. Um desfile também foi realizado, do qual participou Plácido (Casto Sendra), cuja família vive num banheiro público por causa da dificuldade de pagar o aluguer. Para complicar, o homem humilde tem de pagar a segunda prestação do seu veículo antes da meia-noite.
A filmografia de Luis Garcia Berlanga atinge o seu auge no inicio da década de sessenta, quando ele começa a trabalhar com o argumentista Rafael Azcona. Juntos fizeram, em pouco tempo, dois marcos do cinema espanhol que ofenderam o regime do general Franco, mas foram admirados no exterior: "Plácido" (1961), e "El Verdugo" (1963).
"Plácido" é uma comédia triste. Ao mostrar a moral deformada dos personagens dá-nos uma descrição desmistificante da Espanha da altura, e, por extensão, uma imagem devastadora da condição humana. As façanhas prosaicas de Plácido são usadas para mostrar a miséria dos seus concidadãos. Egoísmo, hipocrisia, e falta de consideração são os principais atributos dos seus personagens, com a burguesia provincial a esforçar-se para manter a aparência dos seus vizinhos e superiores. 
O argumento é contundente na descrição de hipocrisias mas também excecionalmente engraçado. O elenco é fudamental, e não foi por acaso que muitos actores deste filme não só trabalharam com Berlanga várias vezes, como também se tornaram estrelas e defensores da comédia espanhola. E o filme acabou por ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua estrangeira. 
Legendas em inglês.

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terça-feira, 7 de julho de 2020

Dia dos Mortos (Dia de Muertos) 1960

Primeira curta-metragem documental dirigida por Joaquín Jordà, em colaboração com Julian Marcos. Filmado a preto e branco, descreve um dia inteiro do Dia de los Muertos, desde a primeira luz da manhã, até ao relógio soar as 12 badaladas. Os primeiros planos da curta correspondem a uma Madrid à noite, e rapidamente chegam os sinais de um despertar, com autocarros vazios a circularem, e também um comboio, igualmente vazio, a saír de uma estação e a entrar num túnel. 
Embora o seu nome seja mais conhecido em Barcelona, Joaquim Jordá iniciou a sua carreira no final dos anos 50 em Madrid, no ambito que mais tarde seria conhecido como o Novo Cinema Espanhol. "O Dia dos Mortos" seria financiado pela UNINCI, uma produtora vinculada ao Partido Comunista Espanhol, do qual o próprio realizador fazia parte, uma produtora que também viria a financiar, por exemplo, "Viridiana", de Buñuel e "Bienvenido Mr. Marshall". Jordá em breve partiria para Barcelona, onde viria a ser um dos nomes mais importantes da chamada Escola de Barcelona".
O documentário era para ser mais longo, mas a censura também apertou aqui, e obrigou a cortar alguns planos, tendo a policia interrompido as filmagens. A censura considerou-o um "documentário nauseabundo". Fernando Rey e Laly Soldevila são os narradores. 
Não tem legendas.

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segunda-feira, 6 de julho de 2020

Os Delinquentes (Los Golfos) 1960

Julián, Ramón, Juan, el Chato, Paco e Manolo são jovens espanhóis delinquentes a quem ninguém prestava atenção a não ser nos postos da polícia. Jovens da classe social baixa, miseráveis e desconhecidos, são um grupo de amigos que sobrevivem como podem nos subúrbios de Madrid. Juan quer ser toureiro, e os seus amigos dão pequenos golpes para ajudar na sua estreia.
Em relação aos estudantes do EOC que eu falei no post anterior, e que deram origem ao chamado Novo Cinema Espanhol, é difícil classificá-los como um grupo, já que os seus interesses variavam muito, desde as tendências introspectivas e obras altamente personalizadas de Basilio Martín Patino, até ao uso da alegoria de Carlos Saura. Não obstante, esta geração foi incomodada pela influência da ditadura política e frustrada pelos limites impostos à liberdade de expressão politica e criativa. 
O primeiro filme de Carlos Saura, "Los Golfos", produzido pela Filmes 59, de Pere Portabella, é por vezes considerado precursor do movimento, feito ainda em pleno periodo neorrealista, e com muitas características deste cinema, mas pode ser visto, estética e politicamente, como ponto de partida para o Novo Cinema Espanhol.
O filme teve um início difícil. Feito em 1959, estreado no Festival de Cannes de 1960, disputando a Palma de Ouro com filmes como "La Dolce Vitta", "A Balada do Soldado", ou "A Fonte da Virgem", de Bergman, não foi lançado em Espanha até 1962, depois de uma longa batalha com os censores e mais de 10 minutos de filme cortados. Uma tentativa consciente de romper com os filmes de estúdio da época, "Los Golfos" leva-nos até às ruas de Madrid, com algumas cenas que enfatizam o cenário urbano, enquanto que outras decorrem em locais que mostram a degradação e a pobreza. Este cenário sombrio transforma-se numa crítica social implícita, com os jovens protagonistas plenamente conscientes de que o seu ambiente social limita as suas perspecticas e contribui para a falta de objectivos das suas vidas diárias. Tornar-se alguém naquele ambiente parece um sonho impossível.
O destino deste filme, e do seu próximo trabalho ("Llanto por un Bandido", que veremos em breve neste ciclo) pelas mãos dos censores espanhóis, levaram Saura a um estilo de cinema mais opaco, ou matafórico, com o qual ele fez um nome de respeito no panorama internacional nos anos sessenta e setenta. 
Legendas em inglês.

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domingo, 5 de julho de 2020

O Cinema Espanhol no Tempo de Franco - A Década de 60, o Novo Cinema Espanhol e a Escola de Barcelona

A implementação do Primeiro Plano de Desenvolvimento Económico, em 1963, elaborado pelo governo tecnocrático com colaboração com o Banco Mundial, levou a Espanha a uma nova era. Acima de tudo, o plano incentivou o desenvolvimento do turismo e o aumento do investimento estrangeiro. A industria do turismo passou de hospedar poucos milhões de visitantes no inicio de 1958, para 14 milhões em 1964. Uma mudança que indicava o inicio da prosperidade económica em Espanha. No entanto, a rápida introdução do capitalismo de consumo e o influxo de estrangeiros trouxeram novos valores culturais, que conflituavam com os costumes espanhóis tradicionais.
Houve grandes mudanças na politica interna e externa. Manuel Fraga Iribarne, uma voz liberal que se adaptou bem ao clima ao clima politico cada vez mais modernizador, substitui Manuel Arias Salgado como ministro da Informação e Turismo, em 1962. Fraga Iribarne trabalhou em prol da reforma política, e redigiu uma lei de imprensa mais liberal. No entanto, juntamente com as rápidas mudanças politicas e culturais de Espanha, surgiram crescentes tensões sociais e distúrbios causados por estudantes e trabalhadores, que pediam direitos políticos e sindicais. A inquietação estudantil culminou no fecho das Universidades de Madrid e Barcelona em Fevereiro de 1967, enquanto as organizações da classe trabalhadora se tornavam mais organizadas, poderosas e ameaçadoras para o sistema ditatorial. O ativismo operário provocou a suspensão dos direitos constitucionais em 1968, em Guipúzcoa, e depois no resto da Espanha. A abertura liberal parou em 1969, coincidindo com a nomeação do Principe Juam Carlos como sucessor de Franco, e a renuncia forçada de Manuel Fraga Iribarne, que em 1966 aprovou a liberdade de imprensa, embora dentro dos limites da ditadura de Franco.

Todas estas mudanças foram reflectidas nas práticas e políticas do cinema. Iribarne nomeou José Maria Garcia Escudero como director geral da cinematografia, cargo que ele já tinha ocupado entre 1951 e 1952, como já vimos atrás. O mandato de Garcia Escudero, de 1962 a 1967, viu uma significativa liberalização e inovação na industria cinematográfica espanhola. Estes anos corresponderan à vitalidade da Escuela Oficial de Cinematografía (EOC), anteriormente o IIEC, e a ascenção do movimento chamado Novo Cinema Espanhol. A promoção do cinema espanhol novo por Garcia Escudero procurou rivalizar a industria cinematográfica e projectar una imagem mais liberal no exterior, principalmente em festivais de cinema.

O movimento do Novo Cinema Espanhol, patrocinado por Garcia Escudero, tinha uma grande contradição, e era criticado por ser dirigido de cima, e pelo apoio deliberado, consciente e egoísta do Estado. No entanto, a visão pioneira de Garcia Escudero abriu espaço para um cinema menos dependente de interesses comerciais. O sector cinematográfico, de realizadores a produtores, encontrou circunstancias favoráveis para produzir filmes mais pessoais e mais políticos, apesar  da implementação de novas medidas protecionistas apoiadas pelo Estado. Vamos falando deste Novo Cinema Espanhol, e da chamada Escola de Barcelona, um movimento alternativo do cinema espanhol nos próximos dias, e ao longo dos filmes que que por aqui passarão.
Foi apenas uma pequena nota introdutória. Os filmes seguem já de seguida. 


sábado, 4 de julho de 2020

A Motoreta (El Cochecito) 1960

O septuagenário Don Anselmo Proharan, um ministro aposentado do governo, vê-se a dividir um espaço com o filho e a família. Don Anselmo, um viúvo, fica restrito a um cómodo da casa, e a sua vida social fica reduzida a assistir a vigílias, funerais, e visitar o cemitério. Quando o seu amigo paraplégico pega uma cadeira de rodas motorizada Don Anselmo acompanha-o até ao túmulo da esposa para deixar flores. Don Anselmo fica obcecado em conseguir a sua própria cadeira de rodas motorizada, e pertencer assim à subcultura dos outros donos de "cochecitos". E vai tentar tudo ao seu alcance para conseguir uma.
O argumento é baseado numa novella, publicada nos anos 50, chamada "El Paralítico", de Rafael Azcona. A história surgiu de uma anedota que Azcona publicou anteriormente em "La Codorniz", uma revista cultural semanal que criticava o regime de Franco. A história narrava como um grupo de homens deficientes criticava os jogadores de um jogo de futebol ao deixarem o estádio nas suas cadeiras de rodas motorizadas. A história despertou o interesse de Marco Ferreri, que já tinha adaptado com sucesso outro conto de Azcona, "El Pisito". Imediatamente visualizou José Isbert no papel de protagonista, que só poderia ser a escolha ideal. 
Don Anselmo, o personagem central do filme, poderia ser visto como uma variante de um dos personagens mais famosos do neorrealismo italiano, Umberto D., do filme do mesmo nome, dirigido por Vittorio de Sica em 1952. No entanto, em contraste com "Umberto D.",  o personagem de Don Anselmo provoca empatia no espectador, apesar do crime que vai cometer para pagar a cadeira que tanto deseja. Exactamente por esse motivo, os censores suprimiram a cena em que Don Anselmo comete esse crime, e o realizador teve de filmar a cena novamente, mais curta e mais simples, a fim de tornar o final moralmente mais aceitável. 
Os passeios de Don Anselmo em Madrid dão ao público uma visão da Espanha da década de 50. A câmara de Baena captura o contexto quotidiano do espaço urbano de Madrid, e é fundamental para reflectir a marginalização social. O pano de fundo desta comédia negra é o conflito entre a vertiginosa modernização industrial ocurrida naquele momento (o chamado milagre económico que levou a Espanha a outro momento), e a estrutura persistentemente desactualizada da ditadura de Franco. A crise que ocorre dentro de certas estruturas sociais (família, vizinhança, amigos) critica a escassez de solidariedade e a crueldade do grupo em relação ao individuo. Na essência, a crise que a sociedade enfrentou naquela altura é ficar presa entre os velhos modelos sociais e os novos ditames da modernidade. Desta forma, "El Cochecito" evoca o neorrealismo que Ferreri tinha iniciado nos dois filmes anteriores.
Ferreri partiria de Espanha depois de terminar este filme, deixando para trás um conjunto de três obras que vieram a ter bastante repercussão no cinema espanhol, tendo a sua estreia em Itália, mais propriamente no festival de Veneza, onde ganhou o prémio Fipresci.
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Los Chicos (Los Chicos) 1969

Quatro rapazes encontram-se num quiosque numa tarde chuvosa. Um deles precisa de estudar, e os outros três tentam ir ao cinema, embora não consigam entrar por não serem maiores de idade. Andrés trabalha como mensageiro num hotel e sonha ser toureiro, "El Chispa" administra o quiosque do pai, Carlos é estudante, e "El Negro" é um rapaz tímido. Eles são um grupo de amigos que só se quer divertir, no entanto, a realidade obriga-os a lidar com os problemas do mundo adulto.
"Los Chicos" de Marco Ferreri, é sobre a vida de quatro jovens espanhóis da classe média /baixa, que são obrigados a lidar com os efeitos da Guerra Civil Espanhola. Retrata um ambiente urbano inóspito, o conflito entre adolescentes do sexo masculino e feminino numa atmosfera de imperfeição social. Recebeu criticas negativas dos pais, políticos e grupos religiosos, que acreditavam que o filme podia ter um efeito negativo sobre os adolescentes. Os censores consideraram o filme pessimista, doentio, hostil ao regime de Franco, e uma má influência para a juventude urbana. Por causa disso, o filme nunca foi exibido comercialmente, teve apenas uma exibição pública em Barcelona, em 1963. 
Marco Ferreri era um italiano a trabalhar em Espanha, e teve assim a sua permissão de residência cancelada, sendo obrigado a deixar o país. Antes disso ainda completaria o seu terceiro filme no país, "El Cochecito", que veremos a seguir. 
É um filme com clara influência do neo-realismo italiano. Legendas em inglês.

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terça-feira, 30 de junho de 2020

El Pisito (El Pisito) 1958

Rudolfo e Petrita vivem em quarteirões separados de Madrid, enquanto procuram ter um pequeno apartamento em conjunto (ou "pisito", no dialecto espanhol). Infelizmente, os seus baixos salários impedem-nos de ter um. Os colegas de Rudolfo sugerem que ele se case com a velha e frágil Dona Martina, que é a principal inquilina do apartamento onde ele se hospeda. De acordo com a lei espanhola do aluguer, ele pode herdar o arrendamento da sua esposa.
Marco Ferreri nasceu em Milão (Itália), mas a sua carreiro começou em Espanha. Os três filmes que por lá realizou são amplamente reconhecidos como obras fundamentais para o desenvolvimento do cinema espanhol na década de 60. Ferreri queria ser veterinário, mas depois acabou por estudar para jornalismo. Depois de escrever numa revista de cinema que rapidamente se tornou popular, que contava com artigos de realizadores bem conhecidos como Visconti, De Sica e Antonioni, acabou por se tornar assistente de realização e produção de alguns realizadores de nomeada. Em 1955 viajou para Madrid, onde conheceu Rafael Azcona, que mais tarde se tornou um dos seus colaboradores mais próximos.
Em 1958 ele co-realizou "El Pisito" com Isidoro Ferry. O argumento, escrito por Azcona, é baseado na novella "Pobre, paralítico y muerto", e tornou-se num grande sucesso da crítica e popular. O filme reflectia a falta de habitações disponíveis na altura, e as subvenções que o estado deu para a construção de vários apartamentos com preços moderados. Com o seu humor negro, o filme apresentava o mesmo tipo de critica social à corrupção e especulação de terrenos urbanos, característico de obras posteriores de Ferreri e Azcona. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A Sangue Frio (A Sangre Fria) 1959

Carlos é um jovem pobre mas ambicioso que vive nos arredores de Barcelona. Desejando melhorar a vida e ganhar muito dinheiro, mesmo que seja através do crime, irá sugerir a um velho amigo que tem muitos contactos o plano de roubar os escritório da empresa onde trabalhava.
Filmes espanhóis sobre o mundo do crime nos anos 50 e 60 eram escritos sob o restrito escrutínio do Conselho de Censura (JSOC), e a polícia só poderia ser apresentada como eficiente e exemplar em todas as circunstâncias. O final, era portanto, previsível, mas os argumentistas podiam se concentrar em como a policia chegava até lá. Se o filme encobrir a acção policial para não perturbar os censores, isso será compensado pelos fragmentos que oferece de uma Espanha urbana do final dos anos cinquenta (neste caso Barcelona). 
Realizado por um jovem e quase estreante Juan Bosch, um nome que nos vai escapar um pouco neste ciclo, mas que mesmo assim está aqui bem representado, e que durante a década de sessenta foi um artesão que se moveu em vários géneros, e sobretudo na série B. Fez uma trilogia de filmes noir, dos quais este é o melhor exemplo, e também um óptimo exemplo do film noir espanhol que se fazia em Espanha pelo final dos anos 50.
Legendas em inglês

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domingo, 28 de junho de 2020

O Amor e uma Cabana (La Vida por Delante) 1958

Terminadas as suas carreiras em Direito e Medicina, respectivamente, Antonio Redondo e Josefina Castro, são um casal de jovens espanhóis, que procuram trabalho para comprar um apartamento e começar uma vida juntos, mas irão enfrentar muitas dificuldades ao longo do processo.
"La Vida por Delante" é o segundo filme de Fernan Gomez, um dos mais completos artistas do cinema espanhol. Depois da sua estreia com "Manicómio", em 1954, como co-realizador, a sua carreira de realizador foi pouco apreciada pelo público, sendo mais conhecido pela sua carreira de actor às ordens de outros realizadores. "La Vida por Delante" é um filme interessante, apesar de longe de outras das suas obras mais interessantes, como "El Mundo Sigue" (1963) e "El Extraño Viaje" (1964), que também veremos neste ciclo.
É uma análise bastante confiável para mostrar a dura vida quotidiana daquele tempo, contado com bastante sentido de humor, com algumas cenas hilariantes, com ênfase na maravilhosa cena do acidente, com um actor secundário de luxo, Pepe Isbert, que demonstra uma enorme presença e conhecimento.
Um ano depois teve uma sequela, chamada “La Vida Alrededor”. Legendas em inglês.

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quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Vingança (La Venganza) 1957

José Diaz deixa a prisão depois de cumprir uma sentença injusta de 10 anos por assassinato. Voltando à cidade de onde é originário, ele e a irmã, Carmen, planeiam matar Luis, quem pensam ter incriminado José. Apesar das intenções originais, o medo e a miséria que vêm fazem José e Carmen integrar um grupo de trabalho que Luis está a organizar, e daí começa uma uma amizade entre os dois homens.
Realizado por Juan António Bardem, foi o primeiro filme espanhol a ser nomeado para o Óscar de Melhor filme em Lingua Estrangeira. O filme que Bardem originalmente queria chamar de “Los Segadores”, é um drama rural com quadros tradicionais de trabalhos agrícolas e a questão típica da vingança e o confronto entre famílias vizinhas depois de uma briga criminosa. Pode ser visto como uma alegoria à reconciliação entre dois lados.
Brilhante no aspecto estético, com cores vivas em Eastmancolor, a história desenrola-se de uma forma convencional, com uma abordagem romântica previsível e progressiva, embora não tivesse a força de filmes anteriores de Bardem, como "Muerte de un Ciclista" ou "Calle Mayor", que agora vistos a tantos anos de distancia são bem melhores do que este "La Venganza", no entanto seria este filme que além da nomeação do Óscar, também conseguiria uma nomeação para a Palma de Ouro em Cannes.
Legendas em Inglês.

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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Rua Principal (Calle Mayor) 1956

Um grupo de amigos resolve pregar uma partida a uma rapariga solteira. Um deles tem de se fingir apaixonar por ela, o que acaba mesmo por acontecer.
Um filme que nos dá um retrato da Espanha provincial durante as décadas de quarenta e cinquenta do século passado, principalmente em relação aos papéis sociais e de género. Adaptado de uma das peças mais populares de Carlos Arniches, "Calle Maior" lida com a representação de sentimentos ambíguos que se podem ter enquanto se observam pessoas que vivem num ambiente isolado e agem de acordo com formas e regras antigas e fixas. A esse respeito, o filme pode não ser apenas "espanhol", como insiste em afirmar a voz off de abertura imposta pela censura pró-Franco, mas é óbvio que lida com uma imagem da Espanha amplamente divulgada por intelectuais e artistas nacionais e estrangeiros. O realizador Juan António Bardem partilha com Arniches a mesma atitude ao adoptar um ponto de vista contraditório, crítico e nostálgico. Mesmo que nenhuma referência a um contexto político seja dado, Bardem consegue imortalizar uma época e uma forma de viver e pensar, na qual a maioria das pessoas se resignavam a permanecer a mesma, já que para aqueles que não eram felizes, e, principalmente, para  as mulheres, não havia saída.
"Calle Mayor" é um filme muito influente hoje em dia. Testemunhamos desamparadamente a inevitável queda de Juan e Isabel e a eventual alienação social. Enquanto isso os cruéis e astutos brincalhões nunca recebem uma punição nem são apontados como culpados no filme. A visão de António Javier Bardem sobre a sociedade do seu tempo era sombria, principalmente quando se concentrava na, então renascida, classe média. Uma visão que também seria partilhada por outros realizadores espanhóis, como Berlanga ou Buñuel.
Venceu 4 prémios no festival de Veneza. Legendas em inglês.

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domingo, 21 de junho de 2020

Paraíso Esquecido (Calabuch) 1956

No último filme antes da sua morte, o actor Edmund Gween interpreta o professor Jorge Serra Hamilton, um cientista nuclear que foge para uma vila isolada de pescadores do mediterrâneo para impedir que as suas teorias sejam usadas para fins militares. Em Calabuch as pessoas vivem em paz, longe da louca evolução da civilização, movimentando-se ao seu próprio ritmo, sobrevivendo de uma forma modesta, mas cheia de fraternidade e camaradagem. A chegada do professor irá trazer mudanças relevantes nesta pequena localidade.
Terceira longa-metragem de Luis Garcia Berlanga, (quarta se contarmos com "Esa Pareja Feliz", a meias com Juan Antonio Bardem) é um filme sensível, mergulhado no espírito das obras de Frank Capra. Isto faz do filme uma peça quase única na filmografia de Berlanga, acostumada a observações mais contundentes e a um humor mais sombrio. No entanto o filme ainda tem algumas provocações, lançando pequenas subversões que se manifestam discretamente, mas com bastante inteligência.
Matias, policia e carcereiro, trata os prisioneiros como se fossem convidados, deixando-os saír sempre que quiserem. A autoridade eclesiástica, isto é, o padre, tem uma mente aberta e jovial, que não era normal naqueles tempos. O Professor Hamilton diz a certa altura: "o que eu gosto em Calabuch é que cada um é o que quer ser, ninguém interfere na vida dos outros, todos se dedicam apenas à sua vida". Esse sentimento libertário é uma característica muito comum no cinema de Berlanga, que não hesitava em servi-la, mesmo tendo em conta a escuridão dos tempos que se vivia fora daquela pequena localidade, criando uma vila de essência utópica.
Legendas em inglês.

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sábado, 20 de junho de 2020

Orgullo (Orgullo) 1955

Depois de anos a estudar no estrangeiro, Laura Mendoza, herdeira de grandes terras, com uma rivalidade que já vem de várias gerações com os vizinhos por causa do controle da água de um rio: os Alzaga. A rivalidade vai reacender quando Laura se apaixona pelo herdeiro dos Alzaga.
Manuel Mur Oti, de quem já  vimos dois filmes neste ciclo, é uma das grandes injustiças do cinema espanhol, há décadas esquecido pelo público, e desprezado pela crítica (que também não conhecia muito bem o seu trabalho), sendo mais visto apenas nos últimos anos, graças ao aparecimento dos seus filmes na internet. Foi acusado de ser um cineasta pedante, melodramático e pretensioso, de enorme ego e ambição excessiva, que acabaram por prejudicar a sua carreira. Essa foi a mensagem que foi passada através de gerações, no entanto isso não é verdade, e descobrimos à medida que vemos os seus filmes.
"Orgullo" era o seu quarto filme (não vimos o primeiro neste ciclo), e surpreende porque tem todos os elementos de um western épico de Hollywood, mas é passado em Castilla. Um maravilhoso e espectacular “gazpacho-western” em que o Monument Valley é substituido pelos picos da Europa,e as canções folclóricas americanas pelas "jotas castellanas", com reminiscências de "The Big Country" de Wyler, e "Westward the Womem" de Wellman, mas também de John Ford e Anthony Mann, que surpreenderá por ter sido filmado na Espanha Negra dos anos cinquenta, e por ter permanecido escondido durante tanto tempo.
Podem ler um texto maravilhoso sobre o filme do nosso amigo João Palhares, para o site À Pala de Walsh, aqui
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Morte de um Ciclista (Muerte de un ciclista) 1955

Como as obras do início da Nouvelle Vague ou os filmes mudos de Eisenstein, "Morte de um Ciclista" (Muerte de un ciclista) de Juan Antonio Bardem é um filme forjado a partir da convicção teórica e ideológica. Produzido em Espanha debaixo do regime de Franco, onde o cinema se tornou, nas palavras do próprio Bardem, "politicamente ineficaz, socialmente falso, intelectualmente inútil, esteticamente inexistente, e industrialmente partido," "Morte de um Ciclista" foi uma tentativa consciente de infundir o cinema espanhol com nova vida, para mostrar que o cinema podia, ao mesmo tempo, ser nacional e universal.
A inspiração imediata do filme veio do neo-realismo italiano, que cineastas espanhóis como Bardem viam como uma abordagem estética significativa para lidar com o tempo presente e passado. Bardem tentou mesmo trazer o imediatismo, o humanismo e profundidade emocional para o filme que tinha visto em "Ladrões de Bicicletas", de Vittorio De Sica (1948) ou Umberto D. (1952). Ao mesmo tempo, Bardem foi influenciado pelo cinema de Hollywood, particularmente pelo melodrama e suspense, que fundiu com a estética neo-realista neste filme, para produzir uma obra verdadeiramente original que funciona tanto como entretenimento tenso como uma crítica às divisões de classe na sociedade espanhola. O filme começa numa estrada solitária, onde vemos o ciclista do título a subir uma colina. Este homem anónimo (nunca lhe vemos o rosto) é abalrroado por um carro que está a ser dirigido por María José de Castro (Lucia Bosé) e Juan Fernandez Soler (Alberto Closas). Juan é um professor universitário de baixo nível, e Maria é a mulher de um rico empresário (Otello Toso). Porque eles estão no caminho de volta de um encontro sexual, estão relutantes em ajudar o moribundo, com medo do seu relacionamento ser descoberto. Então, deixam-no abandonado na estrada e voltam para as suas vidas, mas este evento irá assombra-los, especialmente quando um jornalista das colunas sociais chamado Rafa (Carlos Casaravilla) insinua que sabe qualquer coisa. Ele não diz exactamente o que, nem porque, porque deixá-los a adivinhar faz parte da sua tática de poder, que só inflama o medo dos protagonistas de perder tudo. 
 A nível narrativo, "Morte de um Ciclista" está estruturado de uma forma descendente, em que vemos estes dois membros da classe superior lentamente a descerem aos infernos, com sentimentos como a culpa e o medo a começarem a consumi-los. Há aqui um certo tipo de suspense hitchcockiano, onde estamos constantemente no limite, esperando alguma grande revelação, que desafia os nossos preconceitos morais porque essencialmente nos encontra à espera que o casal adúltero seja acusado de fuga, e de homicídio. Nem Maria nem Juan estão de alguma forma inocentes, embora o atropelamento do ciclista foi, certamente, um acidente não intencional, mas a sua decisão de deixar o pobre homem a morrer na beira da estrada, a fim de protegerem-se é um pecado de proporções assustadoras , um acto verdadeiramente desumano que tentam justificar, mas nunca pode realmente resolver. A veia mais humanista no filme está centrada grande parte em Juan, que se sente pior com a situação, embora ele indiscutívelmente tenha menos a perder. Bardem usa a culpa como uma forma de explorar a classe dividida em Espanha.

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

O Filho que não Existiu (Los peces rojos) 1955

Numa noite de tempestade, Hugo e Ivón chegam a um hotel em Gijón acompanhados do filho do primeiro.Saem para ver o mar revolto e, pouco depois Ivón regressa a pedir ajuda porque o jovem foi levado pelo mar. Como o corpo não aparece, um comissário encarrega-se do caso.
Um excelente exemplo do film noir espanhol, que apesar das boas interpretações de Arturo de Córdova e Emma Penella, não foi bem recebido, nem pelo público, nem pela crítica. Um golpe que afectou a carreira do realizador, José Antonio Nieves Conde que tinha tido um grande impacto com "Surcos" (1951) e do argumentista Carlos Blanco, conhecido pelo seu trabalho com José Luis Sáenz de Heredia, para quem escreveu outro noir, "Los ojos dejan huellas" (1952), também interpretado por Emma Penella.
Nieves Conde deu ao enredo uma estética visual expressionista que gerou situações de grande força, enquanto Blanco escreveu um argumento complexo, repleto de decepções e pretensões, optando por romper com a linha cronológica dos acontecimentos. Longe de ser mais um film noir convencional, a história ganha em originalidade os ecos de um personagem fictício que se volta contra o seu criador e ganha densidade graças a um herói sofredor.
Legendas em inglês.

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terça-feira, 16 de junho de 2020

Cómicos (Cómicos) 1954

Uma jovem actriz de teatro com desejos de sucesso chamada Ana Ruiz (Elisa Galvé), rebaixada para papéis secundários, pode realizar o sonho de se tornar protagonista de uma nova peça. O único obstáculo para alcançar o seu objectivo, é que o empresário que promove a peça, Carlos Márquez (Carlos Casaravilla), quer que Ana seja sua amante, mas ela está apaixonada por Miguel (Fernando Rey).
Depois de Juan António Bardem ter um início de carreira em comum com Luis Garcia Berlanga, com o qual realizou em conjunto "Esa Pareja Feliz" e escreveu alguns argumentos, a carreira de ambos seguiria caminhos separados. Desta forma, "Cómicos", realizado em 1954, seria o primeiro filme a solo de Bardem, que no final se tornará numa homenagem realista ao mundo do teatro, um mundo ao qual ele pertenceu, já que fazia parte de uma família de actores.
Como documento, tenta expôr a grandeza e as muitas misérias de uma profissão tão pouco reconhecida. Das dificuldades económicas, da renúncia à estabilidade sentimental, dos ciúmes profissionais ou a promiscuidade usual, para não chamá-la directamente de prostituição, à qual alguns iniciantes são forçados. Tudo isto por uma vida diferente, por uma liberdade paradoxal em que a melhor recompensa é o elogio à vaidade, e, num reconhecimento imediato, pelo meio de aplausos.
Bom para o seu primeiro filme, pela intimidade do tema, embora a exposição não seja inconclusiva, contrasta com os seus trabalhos posteriores, "Muerte de un Ciclista", "Calle Mayor", que atingem um discurso de verdadeira dureza crítica. 
Legendas em inglês.

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