domingo, 5 de dezembro de 2021

Utopia Film Festival - 12 a 19 de Dezembro de 2021

 Este ano, tal como no ano passado, estou no Utopia Film Festival, um festival de Cinema em Língua Portuguesa que habitualmente tem lugar no Uk, e que irá este ano ter lugar a partir de Lisboa, na Universidade Lusófona, com transmissão em streaming para todo o UK.   
Entre os dias 12 e 19 de Dezembro iremos passar 6 longas, 8 curtas, 7 conversas com os respectivos realizadores, e ainda uma homenagem ao actor Pedro Hestnes, porque este ano faz 10 anos do seu falecimento. 
As entradas serão gratuitas, e eu vou andar por lá. Apareçam, e se quiserem deixar uma palavrinha mandem um mail.
Podem ver toda a programação no site do festival: Utopia Film Festival 

O Último Tango em Paris (Ultimo tango a Parigi) 1972

"O Último Tango em Paris" relata a relação sexual e emocional invulgar que se desenvolve entre Jeanne, uma bela jovem parisiense que se vai casar em duas semanas, e Paul, um misterioso americano expatriado de luto pela morte da sua esposa, por suicídio. Os dois encontram-se acidentalmente num apartamento vazio em Paris, quando procuram um apartamento. Eles são instantaneamente atraídos um pelo outro, e envolvem-se em relações sexuais intensas e tempestuosas. Depois da insistência de Paul eles concordam em encontrar-se regularmente, sem revelar informações pessoais, incluindo os seus nomes, um ao outro. 
Classificado com um X (por sexualidade, nudez e linguagem) em 1972, "O Último Tango em Paris" desbravou novo terreno, principalmente porque o seu tipo de paixão, violenta e desinibida, que nunca antes tinha sido mostrada de forma tão claro num filme. Ao contrário do sexo suave visto em outros filmes, a extrema franqueza na fisicalidade das relações sexuais deixou alguns espectadores pouco confortáveis. 
De 1972 a 1987 o filme foi proibido em Itália, depois das autoridades federais terem apresentado acusações de obscenidade contra Marlon Brando, Maria Schneider, Bernardo Bertolucci, Alberto Grimaldi e a United Artists. Embora tivessem todos sido absolvidos no ano seguinte, a proibição ao filme permaneceu até 1987. A Itália chegou mesmo a revogar o direito de votar a Bertolucci, e o filme foi também banido em vários países da Europa, incluindo Portugal.   
Nos Estados Unidos a classificação de X deixou-o longe dos cinemas convencionais, e permitiu-lhe ser exibido apenas em casas de arte. A maioria dos cinemas locais não estava disposto a passar por problemas com a lei, dada a fama que o filme já deixava atrás de si, portanto teve poucos desafios jurídicos.  em Montgomery, no Alabama, o operador de um cinema fez um acordo com a United Artists em exibir o filme sem submeter à aprovação. O chefe da policia alertou o dono do cinema que se exibisse o filme sem aprovação prévia seria detido e acusado. A United Artists antecipou-se, e colocou uma acção na justiça contra a cidade de Montgomery, pedindo que a lei do estado fosse considerada inconstitucional e que as restrições ao filme fossem levantadas. O tribunal concordou, e as restrições foram mesmo levantadas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

A Última Sessão (The Last Picture Show) 1971

Adaptado pelo realizador Peter Bogdanovich e por Larry McMurtry a partir do próprio livro do segundo, "The Last Picture Show" permaneceu fiel à sua fonte, e em quase todos os aspectos o filme segue o livro quase literalmente. Tal como no livro, a história fala do desespero e da claustrofobia da vida numa pequena cidade, onde geração após geração passam pelos mesmos ritos, vivendo as mesmas vidas de frustração e sonhos não realizados. Situado na pequena Anarcne no Texas, entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coreia, o filme narra um breve período nas vidas de Sonny e Duane, melhores amigos que passam a vida a jogar basquetebol, a ir ao cinema e a perseguir jovens raparigas da sua idade. Duane tem uma namorada estável, desejada por todos os rapazes da escola.
"The Last Picture Show" foi geralmente exibido pelos Estados Unidos sem incidentes, por causa da classificação "R" ( restrito a público de 18 anos e maiores, excepto se acompanhados por adultos) atribuidos pela Administração de Classificação e Rating. A classificação alertou os donos dos cinemas e o público que o filme continha conteúdo sexual, nudez e linguagem. Na verdade, o conteúdo sexual era apenas verbal, a linguagem continha palavrões e referências anatómicas inerentes aos personagens retratados, e a nudez consistia numa cena em que Cybill Sheppard se prepara para nadar numa festa de nudismo numa piscina. Os espectadores podem ver a sua hesitação quando ela percebe o que tem de fazer para se conformar. No entanto, a única tentativa de censurar o filme que entrou nos tribunais federais, obrigou-os a mudar a sua percepção de "obscenidade", no ano seguinte.
Depois de receber queixas de residentes no drive-in local, o procurador da cidade de Phoenix, Arizona, escreveu ao dono do teatro que o filme violava os termos do estatuto de obscenidade estatal, e que poderia ser visto por pessoas que passassem pelo público que estava no drive-in. O procurador da cidade advertiu que se não parassem de exibir o filme poderiam ser processados. A exibição do filme só poderia continuar se o distribuidor concordasse em apagar o segmento de 4 segundos em que Cybill Sheppard aparece em nu frontal, uma ordem rejeitada pelo produtor e pelo distribuidor. Estes avançaram logo com uma acção em tribunal, argumentando que o estatuto de obscenidade violava os seus direitos civis, aos quais os tribunais responderam dando razão.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Iniciação Carnal (Carnal Knowledge) 1971

 "Carnal Knowledge" relata a história de dois colegas de quarto na universidade, Sandy e Jonathan, e as suas relações conturbadas com as mulheres, desde o final da década de 40 até à década de 60. Os críticos frequentemente comentam que este é um filme desconfortável para muitos homens assistirem, porque muitas das interacções humanas são comuns, mas também disfuncionais. Sandy e Jonathan abordam as mulheres de formas diferentes. Sandy é tímido e desajeitado e afirma sentir-se atraído pelas mulheres por causa da sua sensibilidade e inteligência. Em contraste, Jonathan é ousado e misógino, selecionando as mulheres com base nos seus recursos físicos. Quando os dois conhecem uma bela rapariga de nome Sandy numa festa da faculdade, Jonathan descarta-a porque os seus seios são muito pequenos. Sandy namora com ela e descobre que ela sexualmente apaixonante, embora virgem. Quando Jonathan descobre, convida-a para saír, e também se envolve com ela.
 "Carnal Knowledge foi aclamado como um dos 10 melhores filmes de 1971, mas em Março de 1972, um júri de Albany, na Geórgia, considerou o filme obsceno, e condenou o operador do cinema Billy Jenkins por distribuir material obsceno. O caso foi a julgamento no tribunal superior de Dougherty Country, e  juiz considerou Jenkins culpado. O júri baseou a sua decisão no estatuto de obscenidade da Geórgia, que podia variar de intérprete para intérprete. 
De apelação em apelação, o caso chegou ao Tribunal Supremo dos Estados Unidos, mais de dois anos depois, e finalmente Jenkins conseguiu ser ilibado do caso. Realizado por Mike Nichols, o filme foi um enorme sucesso comercial, e foi visto por quase 20 milhões de espectadores.

domingo, 21 de novembro de 2021

Três Mulheres na Intimidade (The Killing of Sister George) 1968

O enredo de "The Killing of Sister George" centra-se em June Buckridge, uma actriz de meia idade de uma longa série da BBC, que descobre que a sua personagem, uma enfermeira chamada Sister George, irá ser morta passados tantos anos. Buckridge é ultrajante, sádica, e dominadora com a sua namorada Childie, que mora com ela, e gosta de puni-la ritualisticamente por quebrar as regras que ela própria criou. A relação das duas é tempestuosa, e o comportamento abusivo de Buckridge aumenta quando ela começa a perceber que já não tem o mesmo sex appeal de outrora. A relação entre as duas irá ficar mais tensa quando uma terceira mulher entra na vida das duas, Mercy Croft, uma executiva lésbica que tenta viver num mundo hétero,  e se irá envolver com Childie.
Baseado numa peça teatral com o mesmo nome, "The Killing of Sister George" ganhou notoriedade pelo assunto do lesbianismo e também por ter representado a primeira cena de amor lésbico num filme de grande orçamento. Os críticos focaram a sua atenção numa cena gráfica entre Childie e Croft. Pauline Kael intitulou a sua crítica de "Frightening Die Horses", e expressou choque sobre "os 119 segundos que mostravam exactamente o que as lésbicas podiam fazer". 
De uma forma geral, a abordagem de Robert Aldrich, realizador e produtor, é uma abordagem imparcial para lidar com este tema controverso, um tema que era muito controverso na Inglaterra dos anos sessenta. No entanto, embora tenha sido pensado para defender os direitos dos homossexuais, o seu retrato das lésbicas como doentes, depravadas ou infelizes, causaram uma péssima imagem da comunidade, mesmo com o público homossexual a opor-se ao retrato de June Beckridge como demasiado masculino e demasiado agressivo.
Na américa o filme recebeu o rating de "X", por causa do seu tema lésbico. Muitas cidades proibiram totalmente o filme, noutras um reel inteiro foi removido para que o filme pudesse ser mostrado. Até o anúncio do filme foi censurado pelo Los Angeles Times, que alterou o desenho de uma figura feminina e apagou referências à temática da longa metragem. Hoje em dia, o filme adquiriu um status de "camp" pela representação estereotipada dos papéis lésbicos.

sábado, 13 de novembro de 2021

Vixen! (Vixen!) 1968

 A trama do filme é sobre as escapadelas sexuais de Vixen Palmer, que possui uma pousada na Columbia Britânica, com o marido Tom. Enquanto Tom Palmer está longe de casa, trabalhando como piloto no mato ou servindo como guia para caçadores hóspedes da pousada, a sua esposa aborrecida procura agressivamente outros homens e mulheres para parceiros sexuais. Como diz uma crítica da revista Time, ela tem "casos com todos, desde a polícia montada do Canadá até à esposa de um pescador. A história também procura lidar com questões da contemporaneidade como o racismo, antimilitarismo,  comunismo, que o tribunal viu como, simplesmente "um comentário social inventado totalmente sem relação com o tema dominante do filme".
O filme foi classificado com um "X" (apenas para adultos) pela MPAA, para que não pudesse ser reproduzido em cinemas comerciais, mas foi-lhe permitido ser exibido em cinemas de arte. Em Ohio o distribuidor foi proibido permanentemente de exibir o filme no estado depois das autoridades locais entrarem com um pedido de liminar contra o filme. Os advogados do distribuidor levaram o caso para a Suprema Corte do Ohio, para levantar a proibição. O tribunal manteve a proibição depois de se recusar a distinguir legalmente a diferença entre a "representação de supostos actos sexuais na tela e a realização de tais actos". O tribunal também alegou que qualquer valor social que o filme pudesse ter foi negado pela evidência de que "o expositor do filme foi motivado principalmente pela perspectiva de ganho financeiro, equivalente a ceder a lascivos interesses em sexo, e por isso era tão negativo qualquer valor social ou importância que o filme possa ter".  
Sem legendas.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Candy (Candy) 1968

Baseado num livro clássico do mesmo nome, escrito por Terry Southern e Mason Hoffenberg, sob o pseudónimo de Maxwell Kenton. A história apresenta uma banda sonora bastante animada de música contemporânea, e goza com algumas das modas dos anos sessenta, como o uso de LSD, religiões orientais, protestos antimilitares e hippies. Os críticos denegriram "Candy", alegando que faltava um enredo coerente, mas o público gostou da sátira social e auto-crítica, pontuada por um elenco de excelência com estrelas de topo daquele período, como Charles Aznavour, Richard Burton, Marlon Brando, John Astin, Ringo Starr, Walter Matthau, James Coburn e John Huston. 
O filme é sobre o despertar sexual de uma jovem que embarca numa série de aventuras sexuais bizarras com um bando de personagens estranhas e perturbadoras. Ao longo do caminho para se tornar uma mulher, Candy encontra um médico que incentiva a masturbação prolífica e frequente, um ginecologista exibicionista que examina Candy publicamente, e um corcunda ladrão. Enquanto que a maior parte do filme se desenvolve como se fosse um filme pornográfico com enredo, uma trama subtil surge. Através das suas estranhas façanhas sexuais Candy torna-se uma adulta auto-suficiente, capaz de ter emoções e decisões independentes.
O filme, que defende a liberdade sexual e a experimentação, foi censurado quando estreou em França e nos Estados Unidos. A versão original tinha 124 minutos, mas foram cortados 14 para ser em exibido em França. Nos Estados Unidos, a reputação do livro, que tinha sido lançado 10 anos antes, era muito má,  o que levou muitos cinemas a rejeitarem o filme, mesmo depois dele receber a classificação "R" pelo MPAA. Em Jackson, no Mississippi, o director do cinema resolveu exibir o filme, e foi preso com o seu projecionista por exibir um filme obsceno. 

sábado, 6 de novembro de 2021

Sou Curiosa (Jag är nyfiken - en film i gult) 1967

"I Am Curious - Yellow" cria a impressão de ser quase totalmente improvisado. Inclui números musicais aleatórios, comerciais, concursos para entrar por correio, e uma séries de outros inovações que pontuam a busca da heroína pela verdade. Lena, de 22 anos, quer saber tudo o que puder sobre a vida e sobre a realidade. A sua busca centra-se no questionamento social, moral e político que a rodeia, e fantasia em manter uma conversa com Martin Luther King, manifesta-se contra a guerra do Vietname, e entrevista homens e mulheres nas ruas de Estocolmo, enquanto mantém um caso com um homem casado que vende carros. Os dois envolvem-se em actividades sexuais em vários locais, incluindo numa varanda do Palácio Real, e numa árvore.
Embora o filme seja conhecido pelo conteúdo sexual, é pouco mais do que atrevido para os padrões actuais. Os actores, o realizador e a equipa de filmagem são mostrados num enredo paralelo humorístico, sobre a produção do filme e a reação à história e uns e aos outros. Ao mesmo tempo, o questionamento sexual exige atenção, porque contém ampla nudez e cenas atrevidas de sexo.
Quando estreou, o filme inspirou centenas de artigos em jornais e revistas, debatendo o seu impacto no cinema internacional. Segundo os criticos, foi responsável por "atiçar as chamas de uma nova era em Hollywood", e foi banido não só por todo os Estados Unidos, mas também em muitos países na Europa. A realização era de Vilgot Sjoman, de quem já tinhamos visto neste ciclo, "491".

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Titicut Follies (Titicut Follies) 1967

Este documentário regista cenas de maus tratos a presidiários e as condições numa prisão para criminosos loucos, contrastando com cenas de uma musical executado pelos pacientes e pela equipa dentro do mesmo local. Um dos documentários mais perturbadores já feitos, é honesto e inflexível no seu retrato dos horríveis abusos nesta instituição. Mais importante, Frederick Wiseman, esperava que o filme lançasse luz sobre o tipo de sociedade que trataria os menos afortunados dos seus membros, nesta forma desumanizante e cruel.  
"Titicut Follies" foi o único documentário a ser mostrado no festival de Nova Iorque de 1967. Recebeu algumas críticas bastante positivas e foi também assunto de vários artigos nos jornais e revistas que elogiavam a coragem do realizador, condenando as condições que este expôs. Pouco depois do filme estar concluido, Wiseman tentou mostrar o filme em Massachusetts, mas os legisladores estaduais proibiram de imediato, quando um juiz decidiu que as representações de reclusos nús, ou exibindo manifestações de extrema "doença mental" constituíram uma intrusão indecente nos aspetos privados das suas vidas. Os advogados do distribuidor apelarem da decisão, e o tribunal modificou a proibição para que o filme pudesse ser exibido para "legisladores, juízes,  advogados, médicos, psiquiatras, estudantes desses ou campos relacionados, e organizações que lidam com os problemas sociais de cuidados de custódia e enfermidades mentais. 
Segundo um juiz, o filme era ao mesmo tempo uma acusação contundente das condições desumanas que prevaleciam dentro de uma instituição do estado, e uma inegável violação da privacidade dos prisioneiros do filme, que são mostrados nus e envolvidos em actos que inquestionavelmente embaraçariam um individuo de sensibilidade normal.  O público pode e tem o direito de saber o que se passava nas instituições públicas, mas aqui este direito estava em conflito com o "interesse do indivíduo na privacidade e dignidade". Assim, a recusa do tribunal em rever o caso afirmou as limitações do tribunal inferior. 
Os funcionários da instituição de Bridgewater também entraram com uma acção contra o filme para proibir este de ser exibido por motivo de difamação e invasão de privacidade. O tribunal não lhes deu razão, mas até 1991 o filme permaneceu restrito aos profissionais que eu referi em cima. 

domingo, 24 de outubro de 2021

A Raposa (The Fox) 1967

"The Fox", a adaptação de uma história curta do mesmo nome, escrita por D. H. Lawrence, contém apenas quatro personagens principais. A história gira à volta de duas mulheres, Jill Banford e Ellen March, que se conheceram na universidade, e que vivem juntas numa quinta isolada no Canadá. Jill assume o papel da mulher tradicional, a tomar conta da casa e a cozinhar, enquanto Ellen assume os tradicionais deveres masculinos, de fazer os trabalhos na quinta e servir como protectora de Jill. Cada uma veste-se para acomodar os seus deveres, tornando Jill a mais feminina das duas. O filme pega na criação de Lawrence sobre uma inconsciente atracção lésbica, e torna-o numa relação lésbica intensa e obsessiva, o público vê as duas mulheres na cama a beijarem-se e a abraçarem-se apaixonadamente.
Esta harmonia é ameaçada por uma raposa que ameaça o galinheiro. Ellen tenta matar o animal várias vezes sem sucesso, mas o animal é na realidade uma metáfora para o que está a chegar. Irá chegar um homem que irá atrapalhar as suas vidas, o neto do falecido proprietário da quinta onde as duas jovens vivem, e que decide visitar o lugar de onde tem muitas memórias de infância.
O filme não foi selecionado para passar em muitos cinemas, por causa do selo "Mature Audiences Only", que foi dado pela MPAA. Em 1968, em Jackson, Mississippi, dois polícias acompanhados por um advogado, compraram bilhetes para ver uma das sessões do filme. Imediatamente após a exibição, sem qualquer mandato, apreenderam o filme e prenderam os operadores do cinema, acusando-os de ter violado uma leita estatal do Mississippi, que fazia da exibição do filme um espectáculo "obsceno", sujeito a punição. Os operadores do teatro foram logo julgados e condenados sem poderem apresentar contestação, os seus advogados foram acusados das mesmas violações, e não foi um caso fácil de resolver. Segundo um juiz, o filme era sórdido e bizarro, e continha cenas repulsivas e ofensivas, e que excedia todos os limites de propriedade e decência. A decisão não viria a ser revertida, revelando a profundidade do medo que tópicos lesbianos motivaram na década de 60.


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Viva Maria! (Viva Maria!) 1965

"Viva Maria!" é um western cómico que relata as aventuras de um circo itinerante e uma troupe de música no fictício país de San Miguel. O filme apresenta inúmeras sequências cómicas, incluindo granadas de mão lançadas por um pombo, Brigitte Bardot a balançar por entre as árvores com uma corda, um presidente corrupto, revolucionários ineptos cujos comportamentos põem em causa a sua capacidade de se conduzirem. O filme caricatura a infância revolucionária de Maria O´Malley, desde 1891 na Irlanda até 1907, na América Central, quando a jovem Maria explode uma ponte que o soldados coloniais britânicos estão a cruzar enquanto tentam alcançar o seu pai, um anarquista irlandês. Ela foge dos soldados e junta-se a um grupo itinerante em San Miguel. Durante uma perfomance, acidentalmente faz um número de striptease, que a torna muito famosa na região.
"Viva Maria" não se levou muito a sério, mas os censores do Texas, sim. O distribuidor submeteu o filme para a MPCB, em Dallas, para solicitar licença de exibição. Oito membros do MPCB votaram no filme como impróprio para menores, enquanto um nono membro se absteve. Uma portaria local permitia que o MPCB pudesse fazer esta classificação se acreditasse no seu julgamento que um filme "descrevesse ou retratasse brutalidade, violência criminal ou depravação de forma a incitar os jovens ao crime, delinquência ou promiscuidade sexual". A lei previa também que se um exibidor não aceitasse as regras, a MPCB devia entrar com um processo judicial para impedir a exibição do filme. O exibidor, neste caso, não aceitou a avaliação do filme, e fez uma exposição por escrito alegando que o filme tinha sido mal avaliado. 
O juiz da primeira instância alegou que o filme tinha duas ou três cenas que poderiam influenciar negativamente os jovens, mas o exibidor voltou a apelar até o caso ser julgado na Suprema Corte dos Estados Unidos, que deu razão ao filme realizado por Louis Malle, num caso que levaria a indústria de Hollywood a abandonar o Production Code. 


sábado, 16 de outubro de 2021

Desafiando o Perigo (The Bedford Incident) 1965

 "The Bedford Incident" retrata o choque de vontades nacionalistas durante a guerra fria, e os resultados de um confronto entre as forças dos Estados Unidos e da Rússia. O capitão Eric Finlander, um capitão naval experiente, ganhou uma reputação de capitão confiante, que pode ser duro com as suas tropas de vez em quando. É especialmente exigente com o desempenho de Ensign Ralston, um jovem oficial novo no contratorpedeiro, que Finlander acredita ter potencial se for treinado da maneira correcta - a  sua maneira. A nova missão de Finlander é a atribuição do comando do USS Bedford, um recém lançado destruidor naval, cuja missão é erradicar submarinos hostis do Atlântico Norte.
Devido ao aumento de atenção dos média sobre a guerra fria, o governo deu autorização a um jornal para entrevistar o capitão e documentar as actividades do navio. Ben Munceford é o civil selecionado para acompanhar o navio na sua patrulha de rotina. É um jornalista veterano queparece pouco hesitante sobre o poder, e o capitão deixa claro desde o inicio que vê o jornalista como uma distração desnecessária. Finlander também está chateado com outra decisão do alto comando, a quem ele sente terem prestado um péssimo serviço, enviando um médico substituto.
"The Bedford Incident" é o outro filme selecionado pela Columbia, em conjunto com "Bunny Lake is Missing", para testas as leis da censura inconstitucionais do Kansas.  Apesar de uma condenação informal do filme por exibir uma visão demasiado liberal ao retratar o confronto de um destruidor da marinha com um siubmarino russo como uma situação sem saída, o filme não foi banido nem censurado em mais nenhuma cidade do país. Em Novembro de 1965 a Columbia tentou exibir o filme no Kansas sem pedir selo de aprovação, decisão que foi vedada pelo tribunal. O caso seguiu para julgamento em conjunto com "Bunny Lake is Missing", o filme que vimos no post anterior, tendo a distribuidora levado a melhor.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Desapareceu Bunny Lake (Bunny Lake is Missing) 1965

 Filmado a partir de um argumento adaptado do livro de Marryam Modell, escrito como Evelyn Piper, "Bunny Lake is Missing" é um filme assustador que sugere que o personagem principal vive num mundo de fantasia. Ann Lake, uma jovem mãe solteira, recentemente restabeleceu-se em Londres com a sua filha Bunny, e o irmão Stephen. Quase depois de chegar, Ann matricula a sua filha num colégio, e quando vai buscá-la depois do primeiro dia de aulas, não há qualquer registo da menina, nem ninguém se lembra de a ver. As suspeitas caem sobre o irmão de Ann, que parece mentalmente perturbado. 
"Bunny Lake is Missing" é um de dois filmes selecionados pela Columbia Pictures para servir como teste para provar que as leis da censura no Kansas eram inconstitucionais. Apesar da condenação informal do filme pelo retrato de uma mãe solteira, e pela sugestão de uma relação incestuosa entre dois irmãos, o filme não foi censurado nem banido pelo conteúdo em todo o país. Em Novembro de 1965, sete meses depois do Supremo Tribunal dos Estados Unidos acabar com a lei da censura no estado de Maryland, a Columbia resolveu testar estes dois filmes no Kansas, distribuindo-os sem buscar aprovação prévia, e informando a Kansas Board of Reviews que não submeteriam futuros filmes que decidissem exibir no estado.
O Procurador-Geral do estado moveu logo uma acção contra a Columbia para impedir o distribuidor de distribuir filmes sem primeiro obter autorização. O ex-governador do Kansas, John Anderson Jr, viria a defender a Columbia em tribunal, num caso que acabou por ser decidido em tribunal, e que levou finalmente a distribuidora a conseguir obter a razão nas suspeitas em que tanto este filme, como "The Bedford Incident" seriam censurados.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

491 (491) 1964

"491", um filme chocante para o seu tempo, mas que provavelmente parece mais comovente do que pertubador para os espectadores contemporâneos. Adaptado do livro do mesmo nome escrito por Lars Gorling (que acabou por cometer suicídio), a história fala-nos de seis rapazes problemáticos que são selecionados para passar por uma experiência social, na casa de uma assistente social sob diretrizes comportamentais específicas. Supostamente estão por sua própria vontade, mas na verdade não têm escolha, porque a alternativa é a prisão. O filme contém algumas sequências chocantes para o público da década de 60, incluindo a alusão à sodomia entre dois dos jovens e o inspector a quem eles devem reportar as suas actividades, e uma cena (retratada fora do campo de visão) de violação de uma jovem por um cachorro. 
O realizador Vilgot Sjoman é mais conhecido nos Estados Unidos por "I Am Curious: Yellow", mas o seu filme anterior, "491", também criou polémica, quando os agentes alfandegários dos Estados Unidos se recusaram a permitir a entrada deste filme no país. Sjoman queria retratar uma actriz adolescente nua no filme, mas as limitações da censura nos Estados Unidos obrigaram o realizador a cobri-la. O realizado" concordou mas resmungou sobre os "clichés" de Hollywood, que teve de satisfazer. Mesmo assim, o filme não passou na alfândega, foi declarado "obsceno" e confiscado. 
Mais um longo caso se iniciou em tribunal, entre o Governo dos Estados Unidos e o filme "491", uma dura batalha que acabou por ter como vencedor o filme. Na sua decisão os juízes escreveram que o filme "lidava com problemas sociais que não estavam apenas à nossa porta, mas muito além do limiar", e consideraram o filme como "constitucionalmente protegido e não obsceno".
* Legendas em inglês

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Flaming Creatures (Flaming Creatures) 1963

"Flaming Creatures" emprega um elenco de travestis para brincar com as convenções do filme clássico e explorar as implicações da mudança de género. Os primeiros três minutos e meio consistem nos créditos acompanhados de sequências do filme "Ali Babá e os 40 Ladrões", imterpretado por Maria Montez, completo com uma banda sonora composta por gongos e tambores. A abertura é fornecida em contraste com um dos personagens de "Flaming Creatures",  uma jovem espanhola, interpretada por um homem que se auto denominou Mario Montez. Depois dos créditos a tela entra em erupção no caos com fotos em close up de bocas enrugadas, linguas balançando e um pénis ocasional, pontuado pelo aparecimento aleatória de uma espécie de "criaturas". 
"Flaming Creatures" é um filme de avant-guarde que faz parte do movimento livre, cinema experimental da década de 60, que testou tabus sexuais e gozava com as visões rígidas que a sociedade mainstream dominante considerava sagradas. Quando "Flaming Creatures" estreou no Gramercy Arts Theater em Nova Iorque, em Outubro de 1963, o proprietário Jonas Mekas não cobrou entrada, o que seria ilegal porque o filme não foi submetido aos censores do estado de Nova Iorque, para obter licença. Para obter compensação Mekas solicitou contribuições pela Love and Kisses to Censors Film Society, um grupo formado por espectadores determinados a desafiar os censores, e cujos membros mudavam a cada exibição. Em Dezembro Mekas planeava apresentar o realizador Jack Smith com o Independent Filmmaker Award, mas pouco tempo antes da cerimónia o gerente do cinema onde esta iria ser realizada foi pressionado para cancelar a sessão, acabando esta por ser realizada na rua. Jonas Mekas viria, ele próprio, a ser um dos nomes mais importantes do cinema avant-guarde.
Em Março de 1964 Mekas estava a mostrar o filme no New Bovery Theater, quando dois detectives foram enviados para impedir a sessão e apreender a película. Os detectives também prenderam Mekas e o projecionista que foram a julgamento no tribunal de Nova Iorque, onde três juizes os condenaram por violarem a secção 1141 da Lei Penal de Nova Iorque, que condena quem "vende, empresta, dá, distribui, mostra ou transmuta" qualquer conteúdo "obsceno, lascivo, imundo, indecente, sádico, ou masoquista", numa pena que podia dar prisão de 10 dias a um ano. Numa longa batalha judicial em que académicos testemunharam a favor do filme, o juiz não concordou e sentenciou Mekas a 60 dias de prisão. A pena ficou suspensa, mas só muito tempo depois a situação seria revertida a favor de Mekas.
Sem legendas.

 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Lolita (Lolita) 1962

"Lolita", o sexto filme de Stanley Kubrick, é uma adaptação do famoso, mas controverso, livro de Vladimir Nobokov, de 1953, que relata a trágica história de um professor de meia idade e a sua obsessão sexual por uma jovem precoce e sedutora a viver a pré-puberdade. No livro, Dolores "Lolita" Haze tem 12 anos, mas num esforço para ultrapassar os censores ela é retratada no filme como tendo 14. Apesar desta mudança, a produção do filme ocorreu sob a ameaça da censura, e Kubrick temia que a MPAA negasse ao filme o selo de aprovação. Foi o primeiro filme de Kubrick a ser feito de forma independente em Inglaterra, e começou com uma longa procura por uma actriz que tivesse idade suficiente para evitar tumultos, mas que tivesse sensualidade suficiente para caracterizar a personagem tal como Nabokov a concebia. 
Cartazes publicitários do filme incluíam o slogan: "Como é que fizeram um filme de Lolita?", com uma foto de Lolita a usar uns óculos escuros em forma de coração e a lamber um chupa-chupa. Os créditos de abertura contêm algumas das imagens mais eróticas de toda a película, e definem o seu tom. Originalmente "Lolita" recebeu a nota "C" de condenado, dado pela Legião de Decência (LOD). Depois de negociações privadas o filme recebeu mudanças de natureza vital, para evitar o rating de "condenado". Era uma prática conhecida na indústria, e muitos outros filmes, incluindo "Spartacus", foram objecto do mesmo tipo de negociação. 
O PCA teve de rever a clausula da "perversão sexual", que incluía temas como a pedofilia ou a homossexualidade, menos restringentes, para que o filme passasse para a classificação "R", que queria dizer que o ele pudesse ser visto por pessoas maiores de 18 anos, a não ser que fossem acompanhadas por um adulto. Em 1962 o Lod analisou o filme, e de um concelho de 12 membros, 9 consideraram-no "condenado". Mas as objecções vocais dos dissidentes levaram ao órgão conceder a "Lolita" uma "classificação especial". O filme resultante não recebeu grandes desafios depois de ter estreado, devido à extensa censura e modificações que sofreu até ser lançado. Oito anos depois Kubrick reflectiu que teria feito tudo de forma diferente, teria enfatizado a componente erótica da relação da mesma forma que Nabokov fez. 

domingo, 26 de setembro de 2021

Spartacus (Spartacus) 1960

"Spartacus" é baseado numa figura histórica, e na história da ascenção e queda de um escravo que vivia em Roma antes do nascimento de Jesus Cristo. Spartacus é resgatado de trabalhar numa mina a céu aberto por um treinador de gladiadores, Batiatus, que vê que o escravo tem fogo nos olhos e a capacidade de cativar o público. Inscrito numa escola de gladiadores, Spartacus é instruído para lutar, mas não tem permissão para matar. Como forma de recompensa pelos bons desempenhos os alunos por vezes têm permissão de ver mulheres. A maioria dos gladiadores tratam as mulheres como suas próprias escravas, mas isso não acontece com Spartacus, que primeiro desenvolve uma amizade com Varinia, e depois uma relação. 
"Spartacus" foi censurado mesmo antes de estrear, e foi um dos últimos filmes em que a homossexualidade  foi removida antes do código ter sido alterado. Geoff Shurlock, chefe de produção do PCA, opôs-se às sugestões de homossexualidade do personagem Crassus, e recomendou à Universal que qualquer referência que este personagem sinta uma atracção por Antoninus tem de ser evitada. A razão da fuga frenética de Antoninus tem de ser diferente do facto de que ele é repelido pela abordagem sugestiva de Crassus. Shurlock também avisou que em algumas cenas o tema da perversão sexual era tocado, e que essas cenas teriam de ser removidas. 
Antes da estreia do filme, a Universal enviou uma cópia para a LOD, e nesta versão claramente é sugerido que o general romano é homossexual e quer adquirir Antoninus para sua própria gratificação.  A cena teve mesmo de ser cortada, além de outras por causa da violência, e depois de todos os cortes efectuados o continuou a ser um dos filmes mais violentos a saírem dos estúdios de Hollywood. Foi cortada mais de meia hora de filme, que só seriam restaurada numa nova versão que saíu em 1991. Além de tudo isto, o filme também foi criticado por causa do seu argumentista ser Dalton Trumbo, e estar na lista negra de Hollywood.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021