Nos anos 90, antes da internet se tornar habitual em casa das pessoas, havia outros meios de partilhar informação. Um deles eram as fanzines, que eram revistas feitas por fãs para passar informação a outros interessados. Uma das revistas da altura chamava-se "Giallo Pages", da autoria de John Martin e vários colaboradores. Nas décadas de 80 e 90, John Martin era um dos melhores cronistas sobre o cinema de género, e cronista da revista The Dark Side, uma famosa revista de cinema de terror, que durou vários anos.
Apesar do nome, Giallo Pages focava-se no cinema italiano de culto em geral, e não apenas no Giallo. Durante quatro anos, cinco revistas foram lançadas, todas elas contendo entrevistas a diversos realizadores, artigos sobre vários filmes e algumas críticas. Ler esta revista funciona como uma interessante viagem no tempo, e traz-nos uma interessante visão sobre a política cultural e económica do cinema europeu de culto da época. O primeiro volume foi republicado nos Estados Unidos, mas não se seguiu mais nenhum, e actualmente todos os volumes estão esgotados no mercado, excepto os que se encontram à venda em segunda mão, e pelos quais é pedido um bom dinheiro.
Creio que depois os Giallo Pages também foram lançados como livro, mas não tenho muita informação sobre isso. Se souberem de mais alguma informação, deixem um comentário aqui embaixo. Ou então deliciem-se com estas revistas, no formato PDF.
Infelizmente falta o quinto volume.
Eu penso que sim, e que por esta altura alguns de vocês já devem estar bastante envolvidos por este ciclo, e para ajudar no vicio, aqui fica um livro muito interessante, chamado "La Dolce Morte: Vernacular Cinema and the Italian Giallo Film", escrito por Mikel J. Koven, um especialista que nos trás aqui um ponto de vista diferente, visto noutra perspectiva.
Hoje é Domingo, é dia de se abastecerem com livros para lerem durante a semana. Estes são os livros que temos para vós.
- História do Cinema Mundial, de Fernando Mascarelo. Link
Este livro concretiza uma proposta no cenário brasileiro - apresentar um panorama horizontal da produção internacional dessa forma narrativa que chamamos 'cinema'. A aposta na dimensão diacrônica tem seus predicados. Percorrer esse livro é deparar-se com a efervescência das tradições que reivindicaram para si o estatuto de cinematográficas. O cinema das origens, o cinema clássico, o diálogo criativo do cinema com o construtivismo, o expressionismo, o surrealismo, as particularidades da vanguarda cinematográfica chamada impressionista, o cinema realista e seu coroamento no neo-realismo, a chegada da modernidade com a Nouvelle Vague, os novos cinemas, o retorno de Hollywood, os grandes autores e as grandes personalidades da história do cinema, o pós-modernismo e o cinema documentário - o cinema no século XX é o universo que esse livro se propõe a discutir - de partida, um desafio elevado.
- Transgressão, Mercado e Distinção A Violência Extrema no Cinema, de Paulo Scarpa. Link
Uma dissertação de mestrado muito interessante.
- Re-viewing Fascism- Italian Cinema, 1922-1943 , de Jacqueline Reich. Link
Quando Mussolini proclamou que o "Cinema era a arma mais poderosa", estava apenas a contar metade da história. Na verdade, poucos filmes durante o fascismo podem ser considerados de propaganda. Este livro analisa muitos filmes que falharam como "armas" para criar uma consciência cultural e em vez disso reflectiu as complexidades e contradições da cultura fascista.
- Alfred Hitchcock: The Icon Years, de John William Law. Link
A década de 60 foi muito positiva para Alfred Hitchcock. Alcançou o êxito no cinema, na televisão, nos livros. Este livro de John William Law vai analisar estes anos de ouro de um outro ponto de vista.
O cinema de terror floresceu em períodos de crise ideológica e traumas nacionais - A Grande Depressão, a guerra fria, a era do Vietname, o pós 11/9. Este livro discute uma sucessão de realizadores a trabalhar no terror, desde James Whale a Sylvia Soska, que usaram o género e o choque da sua era para desafiar o "status quo" desses tempos.
Hoje é Domingo, e por isso é dia de publicar de publicar mais alguns livros.
Os livros de hoje são especiais, são em português, e são sobre o cinema português. Alguns deles estão livres na internet, mas provavelmente pouca gente sabe. Aqui fica o conjunto desta semana.
- Novas & Velhas Tendências no Cinema Português Contemporâneo, coordenação de João Maria Mendes. Link
Este livro, resultante de um projecto de investigação apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e desenvolvido na Escola Superior de Teatro e Cinema, no âmbito do Centro de Investigação em Artes e Comunicação, com a colaboração de investigadores da Universidade do Algarve, esboça, nos seus textos introdutórios, nas entrevistas nele antologiadas e nas suas conclusões, respostas a estas e outras questões. É ao mesmo tempo um inquérito à cultura organizacional do meio cinematográfico português e um retrato inter-geracional dos agentes criativos que contribuem para a definição dos perfis marcadamente sui generis da cinematografia portuguesa nestes primeiros anos do século XXI.
- Em Busca de um Novo Cinema Português, de Michelle Sales. Link
Em busca de um novo cinema português discorre acerca da gênese do referido movimento que se tornou conhecido por tratar-se de uma transformação ampla no modo de ver e fazer cinema em Portugal. Como se mostrou evidente, inúmeros debates acerca da função social da arte nasceram das discussões em torno do impasse estabelecido entre uma arte de viés modernista e outra, de feições neo-realistas.
- Geração Invisível - Os Novos Cineastas Portugueses, de Ana Catarina Pereira e Tito Cardoso Cunha. Link
Páginas que analisam a inquietude, a poesia, a liberdade e o olhar de uma nova geração de cineastas portugueses. Páginas que dão a conhecer o trabalho de um grupo de realizadores e realizadoras que filma com escassos recursos, contra o tempo e o esquecimento.
- Breve História do Cinema Português (1896-1962), de Alves Costa. Link
Livro que visa contar a história do cinema português, desde o seu início, até ao inicio da década de sessenta, altura em que saíram os primeiros filmes do chamado "novo cinema português".
- Cinema em Português - IX Jornadas, de Frederico Lopes, Paulo Cunha e Manuela Penafria (Eds). Link
A presente publicação reúne doze das vinte e uma comunicações apresentadas durante as IX Jornadas Cinema em Português que decorreram entre 27 e 29 de abril de 2016 na UBI, organizadas pelo Labcom.IFP, da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior. A nona edição das Jornadas Cinema em Português trouxe a debate questões atuais e pertinentes para a reflexão sobre as produções e relações cinematográficas entre os diversos países que falam em português, procurando reunir esforços para ensaiar hipóteses de leitura conjunta e complementar.
A partir de esta semana, e como reparei que é do interesse de muita gente, vou abrir uma secção nova aqui no blog. Todas as semanas, sempre ao fim de semana, poderão encontrar aqui cinco publicações que tenham a ver com o mundo do cinema. Poderão ser ensaios, teses de mestrado, revistas, ou até mesmo publicações vossas. Se quiserem mandar algum trabalho vosso mandem para myonethousandmovies@gmail.com. Será aqui publicada com todo o gosto.
Para a primeira semana serão estas as publicações:
- Women, Desire, and Power in Italian Cinema, de Marga Cottino-Jones - Link
Estudo contextual sobre a representação das mulheres nos filmes italianos do século XX. Marga Cottino-Jones argumenta que as formas como as mulheres são tratadas na tela reflectem um "conservadorismo sexual" subconsciente, típico de uma sociedade italiana enraizada dentro de uma ideologia patriarcal.
- Monte Hellman: His Life and Films, de Brad Stevens - Link
Em 1970 o LA Times escreveu que ele era o segredo mais bem guardado de Hollywood. Mais de 40 anos depois, Hellman e o seu trabalho continuam secretos, e o seu génio reconhecido apenas por um grupo fechado de fãs. Este livro é uma biografia, e um estudo intenso sobre a sua carreira até ao ano de 2003.
- Future Imperfect: Philip K. Dick at the Movies, de Jason P. Vest - Link
Philip K. Dick foi um dos autores americanos mais incisivos e subversivos da última metade do século XX. As adaptações cinematográficas da sua obra geraram muito interesse a partir do filme "Blade Runner" (1982), que é necessária uma dissertação sobre os seus filmes. Future Imperfect é a primeira publicação a examinar as primeiras oito adaptações da obra de Dick à luz das suas fontes literárias.
- Through the Mirror: Reflections on the Films of Andrei Tarkovsky, de Gunnlaugur A. Jonsson, Thorkell A. Ottarsson - Link
Já passaram mais de 30 anos desde que Andrei Tarkovsky faleceu de cancro no seu exílio em França. Esta é uma de muitas obras escritas em torno do seu trabalho, e uma forte indicação do interesse continuo, e dos desafios colocados pelos seus filmes. Esta colecção de ensaios, cada uma com uma abordagem única, ajuda-nos a compreender um pouco melhor o seu mundo.
E assim termina o ciclo dedicado a Douglas Sirk. Ao longo do último mês passaram aqui 22 filmes do realizador, sempre acompanhados de belíssimos textos do professor Jorge Saraiva, ao qual agradeço esta magnifica colaboração.
Para finalizar este ciclo, tenho aqui 3 brindes para todos, para que se possam contextualizar ainda melhor com a obra do realizador.
Ensaio, "The Vanity Tables of Douglas Sirk", de Mark Rappaport Link
Para se ter uma idéia do que esta nova abordagem significava, pode ajudar a entender que antes de serem realizadores, os autores principais da Nouvelle Vague eram film geeks, ou cinéfilos. O cinema era muito importante numa sociedade sedenta de cultura, como a França do pós-guerra, e a maioria dos futuros realizadores da Nouvelle Vague, passaram uns bons tempos a escrever sobre cinema. Alguns eram críticos, outros eram apenas simpatizantes de cinema, e quase todos aguçaram a sua sensibilidade cinematográfica através de longas horas passadas em cinematecas, e cineclubes parisienses. As influências destes realizadores eram variadas, desde o neo-realismo italiano, filmes de série B americanos, até aos clássicos do cinema mudo, e mesmo os musicais clássicos em Technicolor americanos. A partir de uma enorme paixão pelo cinema, eles foram desenvolvendo uma teoria, de que os melhores filmes eram originários de um cinema de autor, ou seja, produto de uma expressão artística pessoal, e deviam conter o carimbo de um realizador, assim como uma grande obra da literatura devia ter o carimbo do seu escritor.
Apesar deles admirarem alguns filmes feitos naquela altura, achavam que a maioria do cinema actual e mainstream, não expressava a vida humana, nem os pensamentos de forma genuína. A maioria dos filmes populares da altura eram secos, reciclados, inexpressivos, e não tinham nada a ver com os sentimentos da juventude francesa da altura.
A Nouvelle Vague começou por não ser um movimento formalmente organizado, os seus realizadores estavam ligados por uma rejeição ao chamado "cinema de qualité", os filmes de grandes valores de produção que dominavam então em França. Estes filmes eram basicamente feitos para impressionar o público, e davam pouca liberdade criativa aos seus realizadores, para que pudessem atender aos desejos comerciais dos seus realizadores. A maioria destes jovens realizadores da Nouvelle Vague, escreviam para uma publicação de cinema chamada "Cahiers do Cinema", elogiavam regularmente os filmes que amavam, e rasgavam os que odiavam. A partir do processo de julgar a arte do cinema eles começaram a pensá-lo, e a tentar descobrir um caminho para melhorar as coisas, e assim se foram inspirando para começarem os seus próprios filmes.
Sendo assim, a Nouvelle Vague rejeitou a idéia da narrativa tradicional de Hollywood, com histórias e estilos narrativos baseados nos mídia anteriores, como livros e peças de teatro. Estes realizadores não nos queria conduzir as emoções em cada cena, com uma narrativa fixa. Havia uma teoria de que este modo de contar histórias, interferia com a habilidade do espectador em perceber e reagir ao filme, da mesma forma que percebia a vida real. Estes realizadores queriam mudar a experiência do cinema, para torná-la fresca e emocionante, para fazer o espectador pensar e sentir, não só sobre aquilo que está a ver no momento, mas também na sua própria vida. Os diálogos tinham de ser o mais realistas possíveis, ou tinham de ser feitos de um modo que nos fizesse pensar para além do filme. Dizer a verdade era de extrema importância, o objecto do cinema não era apenas para entreter, mas também para comunicar.
Os argumentos destes jovens realizadores eram por vezes revolucionários, mas os filmes, feitos com orçamentos modestos, eram obrigatoriamente inventivos. Como resultado, algumas das mais conhecidas técnicas de filmar, foram inventadas ou aperfeiçoadas nesta altura, como é o caso dos jump cuts, das montagens rápidas, filmagens em exteriores, luz natural, diálogo improvisado, gravação de som em directo, câmaras móveis e takes longos. Muitas vezes estes filmes envolviam-se com as convulsões sociais e políticas da sua época.
Durante as próximas semanas, vamos ter aqui uma espécie de curso intensivo sobre a Nouvelle Vague, um ciclo quase integral, com perto de 70 filmes. Para começar temos um livro que podem usar como guia... filmes a partir de amanhã.