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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

L'Assassin Habite... au 21 (L'Assassin Habite... au 21) 1942

O Inspector Wens investiga o caso de um serial killer que deixa um cartão de visita para as suas vítimas: Monsieur Durand. Quando o Inspector recebe uma pista de que o assassino mora numa pensão resolve infiltrar-se na pensão com a namorada, que só deseja ser famosa para ser cantora, e começa a investigar os outros inquilinos. Um suspeito é preso, mas o assassino continua a matar...
A primeira longa metragem de Clouzot é um filme de um suave contraste com os thrillers carregados de suspense que ele é melhor conhecido, como "Les Diaboliques" ou "Le Salaire de la Peur", e um excelente exemplo do que era conhecido como o "polar" nos anos 40.
"L'Assassin Habite au 21" é um thriller "whodunit" que apesar de ser mais leve que os filmes de Clouzot posteriores, ainda contém alguns elementos perturbantes, e uma técnica surpreendentemente madura e efectiva para alguém que estava ainda a fazer o seu primeiro filme, principalmente por causa dos primeiros cinco minutos, que contêm alguns momentos emocionantes e chocantes. 
Nota-se claramente que viria a ser uma influencia importante para o film noir americano, particularmente na iluminação da atmosfera e na fotografia. Pierre Fresnay repete o seu papel de Inspector Wens, do filme anterior "Le Dernier des Six", que Clouzot igualmente escreveu. Suzy Delair também regressa no papel da namorada de Wens, Mila Milou.
Os censores em tempo de guerra (dos Nazis e do público em geral) foram talvez o factor mais importante para determinar o ambiente do filme. Poderia ter sido um thriller psicológico bem mais obscuro, como aconteceu no seu filme seguinte, "Le Corbeau", mas em vez disso Clouzot optou por uma abordagem mais leve, com algum humor que parece aumentar em vez de aliviar a tensão, com alguns personagens a parecerem algo cómicos no inicio, mas que acabarão por se tronar personagens sinistras.
Legendas em português.



quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Mistério de Picasso (Le mystère Picasso) 1956

"Ao contrário das habituais cinebiografias ficcionais (uma das mais famosas, Sede de Viver, sobre Van Gogh, tendo sido produzida no mesmo ano) ou dos filmes documentais, sobretudo curtas-metragens que se detém sobre as obras de arte acabadas de grandes artistas, o filme de Clouzot se propõe a mostrar o artista em atividade. Nesse sentido, compõe as sequências iniciais do filme com gravuras realizadas em tempo real ou próximo do real e, posteriormente, através do recurso da montagem procura ilustrar o que Picasso descrevera como sua técnica de justaposição de cores e desenhos. O sentido de utilizar uma colagem das alterações efetivadas no quadro se faz a partir da própria reclamação de Picasso de que as obras desenhadas em tempo real são bastante superficiais. Pode-se perceber nitidamente a diferença quando contrapostas com a primeira obra que deixa para lado a preocupação com a filmagem em tempo real. Ao final, o realizador expressa sua preocupação de que o espectador poderá acreditar que foi produto de 10 minutos e o próprio Picasso afirma que foi de 5 horas de trabalho. Embora as obras apresentadas a partir dessa opção sejam via de regra mais bem acabadas, Picasso demonstra desgosto com os rumos que a sobreposição de gravuras e cores que efetuou em um dos quadros. O aspecto de improviso e espontaneidade é visivelmente enganoso, o que deixa a indagação do quanto o “erro” provocado no quadro que desgostou o pintor não serviria apenas para exemplificar o seu próprio processo de produção. Trata-se de uma produção indicada sobretudo aos aficcionados incondicionais do mundo das artes, no sentido de que Clouzot não introduz seu documentário com nada que diga respeito especificamente a Picasso ou sua arte e tampouco o entrevista. No máximo, existe o evidentemente ensaiado contato de Clouzot com seu “ator” no ateliê do mesmo, procurando controlar o tempo de realização da pintura com o tempo de filme restante no chassi da câmera, etc. Sua estrutura é basicamente composta das imagens do pintor e da trilha sonora triunfante de Auric, um dos mais tradicionais do cinema francês de então. O filme foi tema de um artigo de André Bazin." Cid Vasconcelos, daqui.
Em 1956 ganhou o prémio do Juri no festival de Cannes, e voltaria a ser exibido, fora de competição, neste ano de 1982.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O Corvo (Le Corbeau) 1943



Uma viciosa série de cartas anónimas espalham rumores, suspeições e o medo entre os habitantes de uma pequena aldeia do interior de França, e uma após outra, elas revoltam as pessoas umas contra as outras, revelando segredos muito bem escondidos, mas o único segredo que não é revelado é a identidade do autor das cartas...
"Le Corbeau" é um filme obscuro e feroz, duas das características principais dos filmes do seu autor, Henri-Georges Clouzot. Feito em 1943, no auge da ocupação alemã em França, e originou assim muito controvérsia durante e depois da guerra, já que Clouzot não pintou um retrato da burguesia muito favorável. A luz é a metáfora principal do filme. Uma lâmpada a balançar marca o limite da linha entre o bem e o mal, simbolizando tanto o conflito interno entre as pessoas, como as batalhas exteriores a um nível social. Esta moralidade relativista é o núcleo de um filme construído sobre a feiura, a mentira e a corrupção, como uma pequena localidade da província é dilacerada por um misterioso anónimo que se auto-intitula "Corbeau", que metodicamente expõe todos os segredos mais sombrios dos habitantes da cidade.
Clouzot foi criticado tanto pelo governo da extrema-direita de Vichy, como pelo movimento da resistência ou ainda pela igreja católica. O jovem realizador, ainda no seu segundo filme, foi proibido de filmar durante alguns anos, mesmo depois da libertação francesa, acusado de ter criado um filme anti-francês e de propaganda Nazi (foi produzido por uma companhia alemã, e o próprio realizador era acusado de ser um colaborador), mas o argumento tinha sido escrito seis anos antes por Louis Chavance. Felizmente, muitos intelectuais franceses defenderam o filme, como Jean Cocteau ou Jean-Paul Sartre, e o ban seria levantado poucos anos depois, acabando o filme por ser reconhecido como uma fábula anti-Gestapo, e também anti-informantes.
Tem um ambiente propício de um genuíno filme Noir, mas o Noir só seria descoberto depois da Segunda Guerra Mundial. É um filme que emerge directamente a partir do período de ocupação alemã. É sem dúvida uma das maiores obras do cinema francês que merece ser partilhado. É baseado em eventos verdadeiros ocorridos na década de 20.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Verdade (La Vérité) 1960



Dominique Marceau (Brigitte Bardot) vai a tribunal por causa do assassinato do seu amante Gilbert Tellier (Sami Frey). À medida que o julgamento se vai desenrolando vamos ficando a conhecer os eventos do passado que levaram à actual situação. Ficamos a conhecer a sua vida com os pais e a irmã Annie, que era noiva de Gilbert. Dominique seduz Gilbert para se divertir, como uma mulher livre, e sem trabalho, envolvendo-se com vários homens. Depois vemos a sua tentativa de se suicidar depois de Gilbert a deixar, e voltar para Annie. O seu advogado é capaz de tudo para tentar salvá-la, mas mas regras da sociedade estão contra ela, e nem a inocência parece ser suficiente para a salvar.
Com "La Vérité" Clouzot fez o seu ataque mais virulento a uma sociedade que estava a ser prejudicada com a falsa moralidade da burguesia, e incapaz de se adaptar aos novos tempos. Já com um anterior filme anti-burguesia, "Le Corbeau" (1943), Clouzot tinha sido censurado no Vaticano, mas toda a hostilidade aberta contra si durante anos não foi suficiente para saciar o seu ódio e o seu desprezo contra esta classe social. Em "La Vérité", um dos mais perfeitos e absorventes filmes de Henri-Georges Clouzot, não é o crime que está a julgamento mas toda uma geração, que são julgados pelos mais velhos por serem egoístas, preguiçosos e imorais. A verdade sobre a culpa ou a inocência é irrelevante. No fim sabemos que a teimosia e um coração de pedra vão decidir o veredicto.
A estrutura do filme, um drama de tribunal em que os eventos do passado são contados em flashback, enfatizando o conflito entre duas gerações que parecem nada ter em comum. Os que vemos no tribunal são manifestadamente mais tradicionalistas, de direita, os que vemos nos flashbacks são os jovens da actualidade, que vivem para o momento, e não têm intenção nenhuma de deixar os valores da classe média antiquada estragar a sua felicidade. São dois mundos completamente diferentes, divididos por diferentes valores morais, e Clouzot dá-nos um vislumbre do que irá acontecer no decorrer da década de 60, e que irá culminar nos acontecimentos de Maio de 68.
Por esta altura Brigitte Bardot era mais conhecida por aparecer em comédias leves, e ela seria uma das últimas pessoas esperadas num filme de Clouzot, mas foram poucos os realizadores que foram capazes de tirar proveito da actriz, porque todos queriam aproveitar o seu sexy appeal, mas Clouzot esteve muito bem, sendo dos melhores que soube trabalhar a actriz.
Este filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira, e ganhou um Globo de Ouro na mesma categoria.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Anjo Preverso (Manon) 1949



Uma adaptação da clássica obra de Abbe Prevost, chamada  "Manon Lescaut", transportada para o pós guerra Francês da segunda guerra mundial, na qual um ex-activista da resistência francesa resgata Manon dos camponeses por a quererem linchar por colaborar com os Nazis. Os dois mudam-se para Paris, mas a sua relação fica tensa depois de se envolverem em especulações, prostituição e assassinatos.
Talvez a coisa que melhor caracteriza o cinema de Henri-Georges Clouzot seja uma preocupação mórbida com a susceptibilidade da natureza humana. Isto é mais aparente nos primeiros filmes de Clouzot, "L'Assassin Habite au 21" (1942), e "Le Corbeau" (1943), onde é mais subtilmente sentido que nos filmes do pós- Segunda Guerra Mundial. A infâmia e a injustiça de ser expulso depois de fazer filmes como "Le Corbeau", foi considerada imoral e ofensiva para o realizador, influenciando a sua escolha do assunto e do estilo nos filmes posteriores. E isso não podia ter sido mais flagrante do que aqui, na adaptação da história de Manon Lescaut, inspirada no livro de Prevost.
Sem grande esforço transportado para os anos que se seguiram à Libertação da França, "Manon" não só é uma poderosa história de amor, como também era um dos mais fortes e chocantes indicadores de como era a vida depois da Segunda grande guerra, depois da ocupação Nazi. Enquanto que a maioria dos realizadores daquele período tentavam apenas entreter, com melodramas escapistas ou comédias ligeiras, Clouzot era o único a remar contra a maré, tentando abrir os olhos às pessoas para a decadência que estava lentamente a cair sobre o país. A França que era retratada em "Manon" não era a França prometida pelo General de Gaule, uma terra orgulhosa renascida das cinzas, mas sim uma França suja, habitada por novos ricos que se tinham enchido de dinheiro graças ao mercado negro e à exploração do negócio da prostituição. O filme provocou assim grande controvérsia, tanto por causa da sexualidade evidente como por mostrar o que era realmente o país nos dias correntes, com conseguiu grande aclamação internacional, tendo ganho o Leão de Ouro no Festival de Veneza.
Hoje em dia é menos conhecido do que outros grandes filmes de Clouzot, mas merece ser considerado uma das suas melhores obras, não só pela sua representação muito real do que era a França da altura, mas também pela sua humanidade, inteligência e brilhantismo artístico. 

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sexta-feira, 29 de março de 2013

O Salário do Medo (Le Salaire de la Peur) 1953


Numa empoeirada e quente cidade mineira sul americana, os imigrantes europeus têm uma existência miserável, lutando para encontrar trabalho num local com elevado desemprego. Um jovem francês da Córsega, Mario, inicia uma amizade com um recém-chegado à cidade, Jo. A situação parece desesperada, até que, um dia, uma empresa de petróleo americana anuncia que está recrutando quatro camionistas para a realização de uma missão perigosa. Os motoristas têm de transportar dois camiões da nitroglicerina explosiva para um campo de petróleo, para apagar um furioso incêndio. A jornada é de 300 milhas de comprimento, através de terrenos montanhosos e traiçoeiros. Mario, Jo, e dois outros homens são selecionados para levar a cabo a missão, atraídos pelo alto salário oferecido. Pouco depois da partida, os quatro homens encontram o primeiro de uma série de obstáculos que ameaçam destrui-los, mas o maior obstáculo de todos é medo...
 "Le Salaire de la Peur", representa o ponto mais alto da carreira do realizador Henri-Georges Clouzot, uma mistura inebriante de film noir de aventura e road movie que é de longe o mais sombrio dos trabalhos do realizador e uma obra-prima no género thriller. Antes de fazer este filme, Clouzot já tinha adquirido uma reputação como um realizador cínico, sem o menor respeito pela natureza humana, através de filmes como Le Corbeau (1943) e Quai des Orfèvres (1947). Aqui, no seu seu pior exercicio da exploração da fragilidade humana, ele supera-se a si mesmo e parece chafurdar no carnaval nada edificante da misoginia, da ganância, da exploração e do sado-masoquismo que ele evoca para nossa diversão. Dificilmente poderíamos imaginar um retrato mais cruelmente misantropo da humanidade do que o traçado aqui por Clouzot, nos tons mais cruéis e mais pungentes possíveis. No entanto, apesar do seu tema sombrio, "Le salaire de la peur" é também o filme mais atraente de Clouzot, e o que lhe permitiu ser comparado a outro grande mestre do suspense, Alfred Hitchcock.
As motivações de Clouzot para fazer este filme eram inicialmente políticas. Enquanto visitava o Brasil em lua de mel (ele tinha acabado de casar com Vera Amato, a filha do embaixador do Brasil), Clozout ficou impressionado com a extensão em que os nativos dos países sul-americanos eram explorados e maltratados por empresas americanas de gasolina. Ao adaptar o romance de Georges Arnaud, de 1950, "Le salaire de la peur", viu uma oportunidade de fazer um ataque ao tipo de imperialismo capitalista desenfreado que permitiu que os países ricos do hemisfério norte violassem economicamente os países mais pobres do sul. No coração, o filme de Clouzot é um estudo do abuso de poder - o comportamento cínico de uma empresa de petróleo que parece ter falta de escrúpulos de qualquer tipo, espelha a relação tensa entre os quatro protagonistas centrais, cuja ganância, desespero e postura machista transforma-os em brutos desumanizados, a degradação do produto final de um sistema económico imperfeito. As estridentes conotações políticas do filme tornam-no tão relevante hoje como era no início dos anos 1950; deprimentemente pouco mudou nas mudanças feitas em meio século.
É na primeira hora do filme, o prelúdio do ritmo da viagem de carro, que Clouzot estabelece os seus personagens e enredos fora da trajectória que irá conduzi-los ao seu destino inelutável. A definição de favela empoeirada serve como uma metáfora para a gritante aridez espiritual e moral dos protagonistas que, levados ao limite da resistência humana pelo auto-infligido infortúnio, estão preparados para agarrar qualquer oportunidade, mesmo arriscada, de escapar e encontrar uma nova vida noutro lugar. É o filme noir clássico criado - personagens presas num meio de que desesperadamente querem fugir, mas que estão destinadas a fracassar na sua ânsia de liberdade através das suas falhas do seu próprio caráter. O seu destino está selado na cena de abertura, onde um jovem rapaz é visto inocentemente pendurando quatro besouros.  
"O Salário do Medo", venceu o Festival de Cannes em 1953. 

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