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segunda-feira, 25 de abril de 2022

Casino Royale (Casino Royale) 1967

Quando o chefe “M” (John Huston) da agência secreta é assassinado, James Bond (David Niven) deixa a reforma de espião para ajudar a esmagar a SMERSH, o grupo de assassinos possivelmente responsáveis. E para proteger a sua verdadeira identidade, o nome de Bond é dado a vários agentes, incluindo Evelyn Tremble (Peter Sellers) e o sobrinho neurótico de Bond, Jimmy (Woody Allen).
"Casino Royale" é a paródia original, estabelecendo os precedentes para os filmes de Austin Powers no final dos anos 90. A presença de cinco realizadores aliada ao enredo excessivamente complicado, torna o filme quase impossível de se seguir. Uma sátira ao mais alto grau, foi o primeiro filme não oficial de James Bond, mas é desnecessário compará-lo a qualquer filme de série. O elenco de celebridades está embaraçosamente em piadas ridiculas atrás de piadas ridiculas, mas o mais valioso do filme é mesmo a banda sonora da autoria de nomes como Burt Bacharach, Herb Albert e Dusty Springfield.
John Huston, Ken Hugues e Robert Parrish foram alguns dos realizadores associados ao projecto, enquanto que o elenco contava ainda com Ursula Andress, Orson Welles, Deborah Kerr, William Holden, Charles Boyer, Jean-Paul Belmondo, Barbara Bouchet, entre tantos outros. A banda sonora conseguiu uma nomeação para os Óscares. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Quando os Sinos Dobram (Black Narcissus) 1947

Quando os Sinos Dobram, tradução portuguesa para Black Narcissus, é o filme visualmente mais belo de Michael Powell e de Emeric Pressburger. Para isso contribuiu o facto de ter sido rodado nos Himalaias, num cenário de grande beleza natural, o que exigiu meios técnicos prodigiosos para a época, mas também pela singularidade do palácio que serve de convento para as freiras. Por isso ganhou os prémios de melhor cinematografia (Jack Cardiff) e melhor direcção artística (Alfred Junge).
A utilização da cor, tal como em Um Caso de Vida ou de Morte, é absolutamente deslumbrante, só tendo paralelo no tratamento que lhe deu Douglas Sirk na década seguinte; o enquadramento dos objectos e de alguns planos, a sua riqueza pictórica, remetem-nos muitas vezes para aquilo que vimos em Parajdanov e Tarkovski, mas eles só surgiriam vários anos depois. Logo por aqui percebemos o carácter pioneiro de Black Narcissus. Mas por mais excepcionais que sejam os elementos formais, não são estes que mais me impressionaram. O filme relata a odisseia de cinco freiras que são destacadas para um palácio adaptado a convento, numa remota região dos Himalaias, de clima agreste e gente pobre, mas afável. Pertencem a uma ordem religiosa trabalhadora e não meditativa, o que implica relações estreitas com a comunidade, para quem se propõem trabalhar nas áreas da educação e da saúde. O que é absolutamente espantoso é que, embora envolvido num ambiente religioso, é um filme sobre a dessacralização a vida das próprias pessoas que nela participam, em particular das freiras. Black Narcissus exala sensualidade por todos os poros. Martin Scorsese chegou a referir-se a este filme como um dos primeiros grandes filmes eróticos da história do cinema e o próprio Michael Powell a ele se referiu como a mais erótica obra que realizou. Este é o principal paradoxo de Black Narcissus; o profano a irromper no plano do sagrado, como uma inversão de uma hierofania. A assumpção do corpo em detrimento da espiritualidade, dos sentidos sobre a racionalidade da fé e da devoção. Perdoem-me a deriva filosófica, mas Nietzsche teria gostado deste filme. É a recusa total do ideal ascético, que serviu de base à moral cristã e que o genial filósofo alemão tão bem soube denunciar. É a irmã mais velha, a jardineira que decide plantar flores em vez de vegetais e que afirma que desde que chegou a este lugar se tem recordado de muitas coisas que julgava estarem sepultadas. Face à beleza agreste do lugar que interfere e modifica a própria forma de estar das freiras, só se pode viver ou como um santo ou de forma puramente hedonista. Nenhum meio termo é possível. Quando tudo começa a soçobrar, quando se completa a dessacralização das personagens e a desocultação da essência de cada personalidade, impera a paixão recalcada, a inveja, o despeito e o ciúme. No mundo físico terreno, ninguém está imune à tentação, ninguém pode ostentar uma superioridade moral como anuncia a fé cristã. Todos somos essencialmente terrenos e mundanos, no sentido de que fazemos parte deste mundo. O filme já o anuncia desde o início: A Madre Superiora, mulher jovem e bonita, é constantemente assaltada pelas recordações da sua Irlanda e do seu amor que nunca se concretizou. Ela sublima as memórias, mas elas regressam de forma poderosa. Dir-se-á que perante a magnificência da paisagem, cada uma delas se sente confrontada com a sua verdadeira integridade e com a sua própria história pessoal. Afinal o que leva as freiras a optarem por esta forma de vida: uma vocação transcendental, ou um refúgio pela decepção que o rumo das suas vidas tomou?
O final repleto de sensualidade mesmo na tragédia, caminha para um apocalipse tão anunciado, quanto inconclusivo. Não se pode parar o vento, nem remover as montanhas, ou obscurecer a luxúria das flores. À Madre Superiora resta partir antes que se volte a apaixonar e acabe por renegar os seus próprios votos. Guarda o essencial, ou o que julga ser: a sua vocação. Mas ela já não será a mesma. Nunca deixará de pensar no amor antigo que um dia perdeu, nem num mais recente que não chegou a encontrar. E neste simbolismo do desmontar de feira, alguns viram a despedida da Grã- Bretanha da mais importante jóia do seu império: a Índia. 
Por fora e por dentro, Black Narcissus é um filme belíssimo. Também pelo que mostra e pelo que sugere. E ainda pelo que nos faz pensar e sentir. O cinema não produziu muitas obras assim. Por isso, perdê-lo é um sacrilégio. 
* texto de Jorge Saraiva

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domingo, 14 de agosto de 2016

A Noite de Iguana (The Night of the Iguana) 1964

Numa cidade isolada da costa mexicana, um padre com a fé abalada esforça-se para juntar os cacos da sua vida despedaçada. E três mulheres - uma viúva proprietária de um hotel, uma artista etérea e uma adolescente ninfomaníaca - podem ajudar a salvá-lo. Ou destruí-lo! 
Baseado numa peça da Broadway de Tennessee Williams sobre um padre sem hábito que se tornou guia turístico no México, a versão cinematográfica de John Huston foi nomeada para 4 Óscares: Melhor Actriz Secundária ( Grayson Hall), Melhor Fotografia a Preto e Branco, Direcção de Arte e Guarda Roupa. O único Óscar ganho seria pelo Guarda Roupa da autoria de Dorothy Jeakins.
"Night of the Iguana" é essencialmente um estudo de personagem, sobre a crise existencial de um homem (Richard Burton) cujo legado familiar tanto sobre liderança espiritual como irresistíveis "apetites" continuam a assombrá-lo. O restante elenco é pura dinamite, com uma Ava Gardner muito tensa como a infeliz proprietária de um hotel, Deborah Kerr como a visitante sexualmente inexperiente, Sue Lyon num papel bem próximo do que ela havia tido dois anos antes, em "Lolita", e Grayson Hall como a solteirona com um segredo. Burton certamente que tem o seu próprio segredo, e com o avançar da noite mais interessantes as conversas ficam. 
Burton vivia na altura um romance com a actriz Elizabeth Taylor, com quem casaria pela primeira vez pouco depois de terminadas as filmagens. Corriam rumores que a actriz o visitava durante o set, o que colocava a produção do filme constantemente nos jornais. O filme era rodado no México, num local que não aparecia nos mapas, chamado Puerto Vallarta, uma localidade que nem sequer tinha voos comerciais. Depois ficou um local muito conhecido, e hoje em dia tem resorts de luxo que recebe milhares de visitantes todos os anos.

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segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Olho do Diabo (Eye of the Devil) 1966



O marquês Philippe de Montfaucon (David Niven) é chamado de volta para o seu castelo de Bellenac, por causa de outra estação seca. Ele pede que a esposa e os filhos permaneçam em Londres, mas eles ainda vão logo depois dele. A sua esposa, Catherine de Montfaucon (Deborah Kerr) descobre que o seu marido anda a agir misteriosamente e que os seus funcionários andam a seguir os rituais pagãos antigos, que exigem a vida do marquês para salvar as colheitas.
O efeito de se assistir a "Eye of the Devil" é menos interessante do que as histórias que surgiram sobre ele. O filme sofreu nas mãos dos censores, e rumores sobre o poder oculto das imagens que foram cortadas cresceram em torno dele, embora infundadas, mas depois de Sharon Tate ter sido assassinada três anos depois, houve aqueles que quiseram fazer uma ligação entre os fictícios acontecimentos sobre a magia negra, e os horrores da vida real, da família Manson, principalmente porque o marido da actriz, Roman Polanski, também tinha feito um filme sobre adoradores do diabo, na mesma altura: "Rosemary´s Baby". Mas, na verdade, "Eye of the Devil" não suporta o peso desses rumores. Era apenas um filme de mistério e horror, feito para um público inglês. Daí que também tenha passado um pouco ao lado no território americano.
Curiosamente, embora haja algumas semelhanças entre este e o anterior terror clássico de Deborah Kerr, "Os Inocentes", ela não tinha sido a primeira escolha para o papel, que estava destinado para Kim Novak. Mas por várias razões acabaria por ir parar a Kerr. Mas enquanto no anterior filme de suspense sobrenatural a preto e branco era extremamente eficaz, aqui reduz-se a um desculpa esfarrapada durante hora e meia para assustar o público.
A fotografia atmosférica de Erwin Hillier funciona muito bem, causando um ambiente opressivo. e o elenco contém algumas estrelas interessantes da época: Donald Pleasence, Edward Mulhare, Flora Robson, David Hemmings, entre outros. Foi o primeiro papel importante de Sharon Tate, escolhida pelo produtor Martin Ransohoff que a considerava a sua grande descoberta.

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Os Paraquedistas (The Gypsy Moths) 1969



No fim de semana de 4 de Julho, três paraquedistas chegam a uma pequena cidade do Kansas para uma performance.  Ficam hospedados em casa da tia do mais novo membro do grupo, uma mulher com um casamento infeliz. Uma relação condenada nasce entre esta mulher e um dos paraquedistas, e a tensão cresce, para terminar num fantástico espectáculo de paraquedismo.
O desafio de John Frankenheimer em "The Gypsy Moths" é explicar que razões tem um paraquedista em saltar de um avião e deixar-se cair a direito sobre o chão. O realizador resolve este problema admiravelmente, e consegue dar uma explicação bastante razoável.
Burt Lancaster, Gene Hackman e Scott Wilson representam três pontos de vistas diferentes sobre o paraquedismo. Para Hackman é um negócio, para Wilson é um modo de fuga e aceitação, para Lancaster é algo mais pessoal. Sete paraquedistas amadores fizeram mais de 2000 saltos para criar o trabalho de duplos deste filme, e entre ventos e chuvas não cooperativos, foram obrigados a mudar de local de filmagens sete vezes, dentro do estado do Kansas. Scott Wilson foi chamado a substituir um John Philip Law lesionado, que foi a primeira escolha para o papel de jovem temerário. Gene Hackman era ainda um actor relativamente desconhecido, e ainda assim conseguiu roubar a maior parte das cenas a Burt Lancaster, um actor já muito experiente.
Frankenheimer consegue fazer um excelente uso de exteriores do Centro-Oeste americano, e o resultado final acaba por ser agradável, sobretudo para os fãs do paraquedismo.

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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Fim da Aventura (The End of the Affair) 1955



Recentemente libertado do contrato com a MGM, Van Johnson partiu para Inglaterra para interpretar uma série de filmes, o primeiro dos quais foi este "The End of the Affair", realizado por Edward Dmytryk, que também foi dividindo uma carreira entre os Estados Unidos e Inglaterra. Adaptado por Coffee Lenore do romance de Graham Greene, o filme lança Van Johnson como Maurice Bendrix, o amante clandestino da casada Sarah Miles (Deborah Kerr). Quando Maurice desaparece durante a blitz de Londres, Sarah sente-se responsável, talvez se ela não tivesse traído o marido Henry (Peter Cushing), Maurice poderia nunca ter sido colocado em perigo. Ela reza, prometendo voltar para o marido e desistir de Maurice se a vida do seu amante for poupada.
Basicamente este é um filme sobre um triângulo amoroso, um marido, uma mulher, e o homem que se coloca entre eles. Aparentemente, Sarah não encontra muita emoção na sua vida, porque quando o escritor americano Maurice Bendrix (Van Johnson) aparece, ela permite que a sua atração para se mova rapidamente para o adultério. Os dois tornam-se apaixonados rapidamente, mas a culpa, o ciúme, a paixão, a raiva e a suspeita, ameaçam esta relação.O filme é dirigido com uma mão segura por Edward Dmytryk e dá-nos um olhar impressionantemente realista do tempo de guerra em Londres. O seu olho para a câmera é impecável, embora sentimos que o seu método de desvanecimento do preto entre as cenas pareça um pouco datado agora. Os cenários e os exteriores, e os efeitos especiais dos bombardeamentos nazis eram muito realistas, especialmente para o período de tempo em que o filme foi feito. Os cenários não são afectados pelo tempo e pela tecnologia, e são ricamente decorados e texturizados. Ainda mais impressionante foi a escrita e interpretações dos três personagens principais. Um destaque ainda para a interpretação de John Mills, no papel de um detective.
Em 1999 saíu um remake, realizado por Neil Jordan.

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sábado, 4 de maio de 2013

Os Inocentes (The Innocents) 1961



Truman Capote e William Archibald adaptaram a peça de Henry James "The Turn of the Screw" e transformaram-na num dos filmes de terror mais memoráveis do século 20. Tem o sabor de uma dessas produções polidas dos estúdios britânicos, com muitas mãos a contribuirem para o produto final, mas a realização de Jack Clayton e a fotografia, em widescreen e a preto-e-branco por Freddie Francis ajudam a torná-lo num filme único (embora seja quase sempre ligado a outro filme enorme de Robert Wise, The Haunting - realizado nos Estados Unidos na mesma altura). Deborah Kerr interpreta Miss Giddens, a filha de um pregador que aceita um emprego como babysitter para duas crianças numa mansão isolada (o tio das crianças é um homem rico e ocupado, solteiro e não tem tempo para as crianças.) Miss Giddens conhece Flora (Pamela Franklin) com quem se dá bem, mas depois conhece o outro filho, Miles (Martin Stephens) depois deste ter sido expulso da escola. Miss Giddens começa a sentir coisas estranhas na mansão, vendo fantasmas e percebendo um comportamento estranho nas crianças. Ela conclui que dois antigos empregados mortos (amantes ilícitos) estão a possuír as crianças, mas será que é mesmo isso?
A abordagem atmosférica de Clayton sobre o material, criando um tom sinistro através da sombras, no foco profundo e pequenas peculiaridades, como velas a soprarem para fora e movimentos periféricos, culminando em eventuais manifestações visuais terríveis, de horror sobrenatural, dá-lhe uma qualidade atemporal. Também ajuda a traçar um paralelo entre a realidade física e objectiva sobre o estado psicológico de Miss Giddens, fazendo com que a natureza da antagonista não seja clara, superficialmente falando. O que é claro é a natureza dos segredos e os fantasmas como a representação de uma passada repressão. A misantropia  e a manipuladora disposição das crianças sugerem algum tipo de abuso, que Clayton projecta para o território sexual quando um beijo de boa noite entre Miles e Miss Giddens dura um pouco mais do que devia.
O filme faz um uso notável de espaços drásticos, tanto interiores como exteriores, bem como o ruído usado na banda sonora aterrorizante. Não perdeu a sua eficácia ao longo dos anos, e continua a ser um must-see para os fãs do terror. Se o seguirmos atentamente, notamos a escrita inteligente de Capote no argumento, provavelmente mais em grande parte no diálogo de Miles, e definitivamente em alguns dos diálogos do tio. 

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