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domingo, 22 de julho de 2018

A Aldeia de Cartão (Il Villaggio di Cartone) 2011

Uma igreja. Um pároco. Uma empresa de mudanças. A igreja já não é utilizada, sendo esvaziada de todas as decorações sacras, incluindo o grande crucifixo sobre o altar. Restam apenas os bancos num espaço vazio. O velho padre parece não conseguir resignar-se a este destino e o sacristão apercebe-se disso. Mas, em pouco tempo, um grande grupo de clandestinos à procura de refúgio entra na igreja e, com os bancos e com cartões, instala aí uma pequena aldeia. O sacerdote vê a sua igreja ganhar de novo vida mas, de fora, os homens da Lei tornam-se ameaçadores.
Comentário do Filipe Furtado acerca do filme:
"De certa forma uma alegoria sob o colapso do projeto humanista europeu.
Poderoso justamente porque simples e direto. Olmi sabe onde quer chegar e vai até lá. Aquela igreja, em particular, é um cenário fortíssimo, ao mesmo tempo simbólico e muito claro. Sei que muitos não gostam destes filmes que Ermanno Olimi rodou na última década, mas me parecem sempre experiências das mais marcantes. 
Separadamente o Cesar Zamberlan e o Bruno Amato traçaram a relação do filme com o Klotz e acho-a interessante menos pelo tema (até porque é natural pensar a política de imigração lá hoje) e muito mais pela forma complicada que ambos apresentam a figura do imigrante ilegal."

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sábado, 21 de julho de 2018

Cantando por Detrás das Cortinas (Cantando Dietro i Paraventi) 2003

Num quarteirão insalubre e de má reputação no Oriente, há um bordel, um covil cheio de fumo, que atrai ocidentais em busca de prazeres. Em palco, um velho capitão pirata conta a história de uma pirata viúva, a célebre Ching. Clientes e espectadores são transportados para a China do século XIX a bordo do navio da viúva Ching, que depois do assassinato do marido assume o comando dos seus homens para se vingar e lavar a sua honra. Destemida, nem mesmo a armada do Imperador ela teme atacar.
Anos trás David Thomson escreveu o seguinte sobre Ermanno Olmi: "Uma questão paira sobre a obra de Ermanno Olmi, como se ele precisasse de um pouco de paixão ou surrealismo para libertá-lo das aspirações do realismo". Isto notou-se mais no filme anterior do realizador, "A Profissão das Armas", e tornou-se num vendaval em larga escala nesta nova produção do realizador, estreado em Itália de uma forma invulgar, com uma distribuição entre a Mikado e a 01 Distribution.
Este é um filme visionário que eleva a meditação sobre a guerra e a paz iniciada em "A Profissão das Armas" para um nível muito superior. Se alguma crítica pode ser levantada contra o impressionismo neste filme de piratas chinês é que ele muitas vezes tenta envolvê-lo apenas na atmosfera. Filmado em exteriores, em Lake Scutari na fronteira entre Montenegro e a Albânia, é um filme de grande beleza material, que celebra a força da natureza.
O narrador é o actor Bud Spencer, e as legendas são em inglês.

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quinta-feira, 19 de julho de 2018

A Profissão das Armas (Il Mestiere Delle Armi) 2001

Com apenas 28 anos de idade, Joanni de Medici, é já capitão de um armada pontifícia na campanha contra os "Lanzichenecchi" de Carlos V. Devido à sua grande experiência no ofício das armas, torna-se um mito inatingível ainda em vida. No entanto, a introdução das armas de fogo irá traí-lo...
Como é costume, Ermanno Olmo concentra-se nas paisagens cinzentas das suas planícies nativas de Padana, envoltas numa neblina que domina as figuras humanas que se movem através delas, numa atmosfera de melancolia intemporal. Como na sua obra prima maior, "A Árvore dos Tamancos", Olmi tenta, com sucesso, pintar um quadro dos sentimentos e esforços dos personagens, através das armadilhas de uma existência difícil, desprovida de qualquer significado. 
De certa forma é o mais complicado e maduro filme de Olmi, e a sua austeridade e a sua narrativa marginalizante tornam o filme de difícil entendimento. Assemelha-se às biografias históricas de Rosselini, com a acção a ser mostrada muita vezes num ecrã largo, com a produção cinematográfica e as interpretações a serem bastante eficazes.
Passou por vários festivais, incluindo Cannes onde fez parte da selecção oficial.

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quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Segredo do Bosque Velho (Il Segreto del Bosco Vecchio) 1993

Este conto de fadas ecológico, com actores de carne e osso e animais falantes conta a história de um coronel (Paolo Villaggio) que fica encarregado de uma grande propriedade de florestas até que o seu sobrinho atinge a maioridade. Desconsiderando a tradição local e a práctica do estimado e falecido irmão, o militar decide cortar selectivamente a madeira das árvores mais antigas. É confrontado com os protesto dos espíritos das árvores (Giulio Brogi) e os moradores da cidade, mas sem sucesso destes. Sob a objecção deles liberta um vento imprevisível de uma caverna, e deseja o falecimento prematuro do seu sobrinho para que possa possuir a floresta só para ele. 
Segundo Ermanno Olmi o filme foi feito com extremo cuidado com as imagens, só porque essas imagens não eram apenas um pano de fundo para uma acção física, mas a paisagem, que normalmente é chamada de "pano de fundo", tinha a mesma importância que o actor que estava interpretando. 
O filme era baseado no livro do mesmo nome, da autoria de Dino Buzzati, e com pouco tempo de antena nas salas de cinema, acabou por ser mais visto por alguns festivais. Ganhou o prémios de melhor fotografia em diversos festivais, assim como nos David Di Donatello Awards, prémios considerados os Óscares italianos. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Lenda do Santo Bebedor (La Leggenda del Santo Bevitore) 1988

Um vagabundo, exilado em Paris e assombrado por um passado criminoso, não vê saída para a sua situação, até que, quase milagrosamente, recebe 200 francos de um estranho rico, cujo único pedido é que, quando puder pagar, devolva o dinheiro a uma capela em honra de Santa Teresa. Um homem de honra, mas com vontade fraca, aproveita a hipótese de voltar para um mundo do qual já era um estranho, encontrando trabalho, a companhia de mulheres, jantando em restaurantes e dormindo em boas camas. Mas, tais luxos, entretanto, distraem-no da sua obrigação...
Esta adaptação de Ermanno Olmi sobre uma obra de Joseph Roth, é fiel e encantadora, filmado com uma simplicidade que está próxima do livro original. Na pele do ex-vagabundo Rutger Hauer tem uma interpretação que mistura o orgulho, a dignidade, e a vulnerabilidade da personagem, enquanto Olmi evita o realismo prosaico na sua evocação de Paris, vista aqui como uma cidade estranhamente atemporal e universal. O filme tem a ressonância e a inocência de uma parábola, com os seus elementos religiosos amplamente subordinados a uma história que é contada com o mínimo de diálogo e barulho explicativo. O porquê do filme ser tão difícil é complicado de definir, talvez seja porque Olmi tenha tanta certeza do seu toque gentil e generoso que não sente necessidade de exagerar.
Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 1988.

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domingo, 15 de julho de 2018

Cammina Cammina (Cammina Cammina) 1983

Quando Mel, um sacerdote astrónomo, descobre uma nova estrela no céu, interpreta a sua chegada como a vinda de um rei salvador que trará justiça e bondade à terra. Um grupo de peregrinos reúne-se para começar uma jornada para lhe prestar homenagem. Este grupo inclui ricos e pobres, jovens e velhos, soldados e camponeses, e uma mulher em decadência. Esta jornada através do deserto, ao longo das costas oceânicas, sobre as montanhas e através das florestas, é difícil, e muitos voltam para trás. 
No seu primeiro filme desde "A Árvore dos Tamancos"  Ermanno Olmi cria uma rica e fascimante parábola dos reis Magos. Embora "Cammina Cammina" seja baseado nos relatos bíblicos do conto, também incorpora elementos temáticos de outras fontes. O filme, cujos personagens são interpretados por actores não profissionais, tem uma simplicidade e um ambiente que faz lembrar "O Evangelho Segundo São Mateus", de Pasolini.
Tem havido relativamente poucos filmes sobre a natividade, e quase todos os que foram feitos contam sempre a história sob a perspectiva de Maria e José. "Cammina, Cammina" é em muitos aspectos o filme perfeito sobre o assunto, porque concentra-se em tudo à volta de Maria e José, e na mais longa e perfeita viagem feita pelos homens sábios. Ao fazê-lo, examina a história da natividade em geral, bem como a idéia da peregrinação com muito mais profundidade. 
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 13 de julho de 2018

A Árvore dos Tamancos (L'albero Degli Zoccoli) 1978

"Nesta recriação elegíaca das vidas dos camponeses da Lombardia, Ermanno Olmi proporciona um antídoto contra a angústia dos seus anteriores retratos da Itália contemporânea. Várias histórias emergem de pormenores do trabalho dos camponeses e da vida comunitária: o namoro e boda de um casal de um casal jovem e modesto; um pai cortando a árvore do proprietário rural para fazer uns sapatos para o filho e ir à escola; um velho adubando tomates com estrume de galinha para eles amadurecerem mais cedo. A iluminação suave, aparentemente quase toda de fontes "naturais" e, acima de tudo, a banda sonora precisa e discreta dá-nos a sensação de assistir a uma realidade quase sem sombra de intermediários. A brevidade dos planos é uma declaração directorial, não nos deixando envolver, por muito tempo, numa actividade ou num ponto de vista e permitindo ao filme expandir-se, placidamente, em múltiplas direcções.
Numa sequência privilegiada, uma mulher reza enquanto caminha, enche uma garrafa de vinho num regato e vemo-la finalmente, em silhueta, à porta de uma igreja. É aqui, talvez (ou na utilização de Bach em diversas alturas do filme), que um espectador desdenhoso poderia acusas Olmi de esteticismo. Mas tal crítica perderia o ponto de vista do realizador sobre o papel positivo da fé religiosa na vida dos camponeses. O seu tratamento discreto deste tema faz de "A Árvore dos Tamancos" o mais tocante e apaixonante filme sobre a religião. 
O efeito de acumulação emotiva de "A Árvore dos Tamancos" está perto de "I Fidanzati", uma obra-prima anterior de Olmi, situada num mundo industrial, alienante e contemporâneo, e demonstra como são inúteis palavras como "humanismo" (muitas vezes invocado como referência ao cineasta) quando se tenta explicá-lo. A combinação de profunda incerteza e fervente idealismo no fim de "I Fidanzati" é extremamente comovedora. Também é assim que ficamos com o fim de "A Árvore dos Tamancos", francamente pessimista, e pode ser isso que, em primeiro lugar, marca o trabalho de Olmi, com a sua dor e urgência."
*Texto de Chris Fujiwara  

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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Un Certo Giorno (Un Certo Giorno) 1968

Um executivo de meia idade (Giovanna Ceresa) questiona os seus valores quando recebe uma promoção. Ele assume a posição de topo quando o seu chefe tem um ataque cardíaco e outro homem faleceu num acidente de aviação. Ele tem um caso com uma colega de trabalho (Lidia Fuortes) até se aperceber que o seu trabalho e dinheiro não são tão importantes como eram antes. A sua boa fortuna provém da infelicidade dos outros, à medida que tenta fortalecer laços de amizade com amigos e familiares.
Ermanno Olmi, que também escreveu o argumento, queria fazer uma declaração de como certos indivíduos, mesmo sendo honestos, se desviavam para outros caminhos não tão importantes na vida. Apesar do protagonista ser um bom homem, algumas partes do seu passado vêem à tona quando ele tem de enfrentar a morte por causa de um acidente bizarro que ele próprio causa.
A melhor parte do filme é mesmo Brunetto Del Vita, um actor desconhecido para nós, e que só entrou em dois filmes no cinema. Depois daqui, só o veríamos em "A Vontade de um General", dois anos mais tarde, um filme de Francesco Rossi. Um desempenho muito rico e cheio de nuances. O restante elenco também feito de estreantes, que não foram vistos em mais papéis no cinema.
O director de fotografia Lamberto Caimi capta as cenas invernais de forma a aproveitar melhor o filme. A partitura musical original é de Gino Negri. Ermanno Olmi dirige no seu estilo habitual, prestando muito atenção na história, e nas consequências que teve num homem numa encruzilhada da sua vida.
Legendas em Inglês.

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terça-feira, 10 de julho de 2018

La Cotta (La Cotta) 1967

Andrea (Luciano Piergiovanni) pode ser um estudante milanês de apenas 15 anos de idade, mas gosta de se ver como um homem do mundo, principalmente no que se refere a romance. "Todos os homens têm a sua técnica de apanhar raparigas", explica ele. "Alguns fingem indiferença, outros parecem apaixonados. Alguns agem de uma forma dura, mas a maioria são tristes, ninguém sabe porquê, mas apaixonarem-se fá-los ficar tristes e mal-humorados. A minha técnica é muito pouco usada, mas talvez a mais eficaz. É usar ideias e autocontrole. Eu falo, falo, até que elas ficam totalmente confusas, e o truque está feito."  Depois de conhecer uma nova rapariga de nome Jeanine, Andrea fica logo intrigado. Fica a saber pelos amigos que ela vem para Milão para viver com a avó depois de sofrer uma desilusão amorosa em Paris, a sua cidade natal. 
Média metragem realizada por Ermanno Olmi para televisão, que traduzido à letra seria "A Paixão", que é o que Andrea sente no primeiro momento que conhece a jovem. Atrás da história inteligente existem alguns elementos documentaristas que são extremamente reveladores da carreira do realizador. Por um lado, a tecnologia progrediu claramente desde o final dos anos sessenta, mas a natureza adolescente permanece uma constante no filme. 
A Itália estava então a viver um boom económico sem precedentes, caracterizado pela transição da agricultura para a industrialização, e é com este pano de fundo que Andrea apresenta a sua "abordagem industrial" para engatar raparigas. Ao contrário dos outros, que agem de uma forma emocional ou desinteressada, e perdem tempo em longos períodos de namoro, o seu método é muito mais eficiente, mais de acordo com a mudança dos tempos que se estava a viver.
A banda sonora com a alegre música de Rock ‘n’ Roll dos anos sessenta encaixa-se perfeitamente nesta doce mistura de inocência adolescente e paixão insensata. Legendas em inglês.

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domingo, 8 de julho de 2018

I Fidanzati (I Fidanzati ) 1963

Um jovem rapaz, abandona a noiva e muda de cidade em busca de um trabalho que lhe proporcione melhores condições de vida. Fica durante 18 meses a morar e trabalhar na Sicília. A solidão e a melancolia da sua nova vida levantam-lhe questões existenciais sobre o amor.
Ermanno Olmi pega no cliché de que uma relação à distância sempre falha e transforma as pessoas, e explora como o amor floresce quando os seus amantes são separados pelo trabalho, o filme é uma exploração da solidão e das relações de longa distância, onde um casal tem de lidar consigo mesmo, e com o amor pelo outro.
A acumulação de detalhes é lenta e deliberada, lentamente empurrando o protagonista para a percepção de quão profundamente ele sente a falta da noiva, e quanto valoriza a sua relação. A partir de certa altura o casal começa a trocar cartas que são lidas em voz alta na narração. Esta súbita abertura de comunicação aberta e sincera tem um contraste com o resto do filme, quieto e reservado. E apesar do romantismo dessa relação centrar e da beleza das imagens de Olmi, o filme também serve como uma crítica marxista à alienação do trabalho, das pressões económicas que levam os trabalhadores a arrancar das suas casas e das duas famílias em busca de recursos cada vez mais escassos. Como a maioria dos grandes filmes políticos, "I Fidanzati" situa a sua política no campo pessoal, nos dramas da separação e do amor, que guiam o casal central. 
Nomeado para Cannes, ganhou o prémio OCIC, mas a concorrência para a Palma de Ouro era enorme. O principal prémio foi para "O Leopardo", de Visconti. 

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sábado, 7 de julho de 2018

O Emprego (Il Posto) 1961

Domenico (Sandro Panseri) é um jovem, recém-formado, que pretende um trabalho para a vida no sector administrativo de uma grande empresa. Antonieta (Loredana Detto) é uma jovem que pretende entrar no ramo administrativo assim como Domenico. Depois de um longo processo selectivo, invasivo, eles conseguem dois cargos dentro da empresa. No entanto, o cargo do jovem é diferente do que esperava, trabalhando como mensageiro. 
Um dos filmes italianos mais invulgares referente ao período entre final dos anos cinquenta, e inicio dos anos sessenta, da forma como nos oferece múltiplas perspectivas sobre o mesmo evento, o "boom" económico depois da recuperação do pós-guerra. Onde os realizadores franceses da Nouvelle Vague criaram o seu próprio universo único, o cinema italiano parecia uma série de luas a circular em volta de um mesmo planeta.  De todos os realizadores deste período, poucos tinham tanta alma como Olmi, cuja segunda longa-metragem introduziu algo de novo no cinema mundial: uma sensação de intimidade entre realizador e personagens, que superava qualquer coisa no cinema neorealista. Nos anos seguintes, "Il Posto" teria  um efeito profundo em realizadores tão distintos como Wu Nien-jen, Abbas Kiarostami, ou Martin Scorsese (há mais do que uma citação visual a "Il Posto" em "Raging Bull"), admitido pelos próprios realizadores, e se o filme não atingiu o estatudo de culto como "L’Avventura" ou "La Dolce Vita", foi provavelmente por causa da sua intimidade.
Olmi filmava quase sempre pessoas na extremidade inferior da escala económica, pessoas que levavam vidas não espectaculares, e ele tratava sempre dos detalhes dessas vidas de uma forma muito cuidadosa. Olmi identificava-se com Domenico, o jovem herói deste filme, um jovem que pretendia um emprego para assegurar o seu futuro. A narrativa é ajustada ao tumulto interno do jovem, à sua curiosidade a ao seu desejo humano, como dois pedaços de madeira unidos por um carpinteiro experiente.
O filme estreou no Festival de Veneza de 1961, onde não ganhou o grande prémio, mas levou três outros prémios para casa. Não seria de admirar, já que neste ano também concurriam "O Último Ano em Marienbad" de Alain Resnais, "Yojimbo" de Akira Kurosawa, e filmes de Rossellini, De Sica, Wajda, entre outros.

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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Il Tempo si è Fermato (Il Tempo si è Fermato) 1959

No alto dos Alpes Italianos uma represa está a ser construída. As condições são demasiado adversas para se trabalhar no Inverno, quando a única equipa presente é uma dupla de guardas: Salvetti (Paolo Guadrubbi) e Venerocolo (Natale Rossi). Salvetti é obrigado a tirar umas férias quando a sua esposa dá à luz, e o seu substituto é Roberto (Roberto Seveso), um jovem estudante universitário com a esperança que o isolamento lhe sirva para estudar para um próximo exame. No início existe uma tensão entre os dois, mas a ligação vai-se tornando cada vez mais forte, principalmente depois de uma tempestade...
Primeira longa metragem de Ermanno Olmi, embora a câmara não fosse novidade para ele. Durante oito anos vinha a dirigir uma série de curtas metragens, e não muito tempo depois realizaria dois filmes muito aclamados. 
O que é mais atraente nesta sua primeira longa, é a restrição que Olmi mostra. Nunca subestima as diferenças entre os dois homens, eleva a relação entre os dois para um nível que parece autêntico, de modo que nunca precisa de dar grandes saltos na história para a levar a um bom porto. Acreditamos plenamente em casa fase deste relacionamento e o resultado é uma excelente obra sobre a amizade, com uma espécie de relação entre pai e filho em desenvolvimento. 
Rossi e Seveso têm duas óptimas interpretações, e infelizmente este é o único filme em que poderão vê-las. Rossi nunca mais entrou noutro filme, e Seveso só teria um pequeno papel num filme chamado "Il Terrorista", alguns anos mais tarde. Seveso dedicaria o resto da sua carreira a ser operador de câmara, colaborando em "I Fidanzati" de Olmi.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ermanno Olmi - O Último Adeus

No passado dia 5 de Maio o Céu ganhou mais uma estrelinha, e nós perdemos um dos poucos cineastas italianos resistentes, desde a década de sessenta.
Ermanno Olmi frequentou uma escola de Ciências, e tirou vários cursos de interpretação na Academia de Artes Dramáticas de Milão. Aprendeu sobre cinema quando trabalhava na Edisonvolta, uma grande companhia eléctrica de Milão. Ali dirigiu mais de 40 curtas-metragens e documentários informativos sobre a empresa, entre 1952 e 1961. A sua primeira longa-metragem chamava-se "Il Tempo si è Fermato", uma análise sobre a relação entre dois guardas que são obrigados a passar o tempo juntos. O sucesso deste filme levou-o à formação da 22 December S.p.A., uma produtora co-fundada por Olmi que distribuiu o seu primeiro filme comercial, "Il Posto", uma história melancólica sobre o isolamento de um jovem, logo seguido por "I Fidanzati" (1962), sobre as dificuldades de um jovem casal milanês durante um trabalho temporário na Sicília.
Depois voltou-se para temas como o catolicismo e a estrutura das classes, que dominaram o seu trabalho até à década de 90. É estranho que tão poucos realizadores italianos sejam considerados religiosos, pelo menos no sentido em que os seus filmes tenham incluídos sinais da sua fé. Entre as poucas excepções estão Rossellini, de um modo mais complexo Pier Paolo Pasolini, e de forma mais enfática Ermanno Olmi.  
A sacralidade da vida, a dignidade do trabalho e a busca do homem pelos valores espirituais mais elevados são temas que coloram profundamente a sua obra. É impossível olhar para os seus filmes sem levar em conta o seu cristianismo.
Nos próximos dias vamos fazer uma passagem, algo rápida, pois incluirá 12 filmes, da carreira deste grande realizador. Serão poucos filmes, mas os suficientes para terem um contacto mais aprofundado com a obra do realizador. Espero que gostem.