A história segue Isaac (Ricardo Trêpa), um jovem fotógrafo que vive numa pensão numa pequena cidade ao longo do Rio Douro. Um noite chuvosa, por um acaso, ele é convocado por uma família rica das redondezas para tirar um retrato da sua jovem filha, Angélica (Pilar López de Ayala), que morreu tragicamente. Enquanto procura o melhor ângulo para tirar o retrato, quando olha através do seu visor, vê Angélica abrir os olhos e sorrir. Depois do medo inicial de se aperceber o que acabou de acontecer, e que mais ninguém reparou neste momento mágico, Isaac apaixona-se pelo fantasma de Angélica, sonhando e pensando nela a todo o momento, ao ponto de se distrair da sua vida.
Um filme muito simples, não particularmente forte em interpretações, argumento ou drama, mas que transporta uma atmosfera maravilhosamente leve e divertida, convidando à contemplação dos mistérios da vida, captando a beleza pitoresca da região do Douro, na região Norte de Portugal, com todas as suas colinas e vales, arquitectura antiga, e vastas vinhas, com uma câmara que mantêm sempre uma distância calculada da acção. O mais importante é o sentimento nostálgico atemporal que Manoel de Oliveira dá ao longo do filme, com uma sensibilidade constante das diferenças entre a vida moderna e de como as coisas costumavam ser.
Oliveira já era centenário quando realizou este filme, e estreou "O Estranho Caso de Angélica" no Festival de Cannes de 2010, onde o filme foi exibido, na secção "Un Certain Regard".
"Apesar de ter sido realizado em 1982, ainda não foi comercializado, por vontade expressa do seu autor. Manoel de Oliveira para além de ser o realizador, é actor que contracena com Maria Isabel de Oliveira (sua mulher) e Urbano Tavares Rodrigues (escritor).
É uma espécie de filme autobiográfico, cujo cenário é a sua própria casa, onde residia por volta de 1940, até há bem pouco tempo. Nela viveu algumas alegrias e outros tantos dissabores, como a detenção feita pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) em 1963, que é reconstituída no filme. Foi na prisão que veio a conhecer Urbano Tavares Rodrigues, sem saber quem era.
Numa entrevista sobre o filme feita em 1996, por José Matos-Cruz Oliveira referiu-se nestes termos. «Ora, cada um tem o seu papel na vida. Este mundo é um teatro, nós os intérpretes, estamos a desempenhar algo, que vamos sabendo à medida que o vivemos. Não conhecemos o futuro, porque o autor ainda não o revelou; portanto, Visita surge de uma circunstância, que provocou o acaso, o qual resultou num filme. Eu entendi que devia guardar aquela memória, e passei-a ao cinema... Haverá, depois, razões mais subterrâneas. Mas, do subconsciente não se pode falar!»."
"Visita - Ou Memórias e Confissões", tem hoje estreia mundial na internet. Um presente de Natal do My Two Thousand Movies.
Gilbert Valence é um actor de teatro, e o seu talento e a sua
carreira deram-lhe os papéis mais importantes que um actor pode desejar. Uma
noite, no fim de uma representação, a tragédia irrompe na sua vida; o seu
agente e velho amigo, Georges, diz-lhe que a sua mulher, a filha e o genro
acabaram de falecer num acidente de viação.
A tristeza tarda em chegar, mas, lá mesmo no fim, alvorece. É num daqueles planos mágicos de que Oliveira e muitos poucos outros detêm o segredo, quando o miúdo vêm à porta e, entre ombreiras, vê o avô subir a escada. De súbito o seu rosto tolda-se e fica assim, traçado a mágoa, antes que o escuro aconteça, o genérico final desponte e uma musiquinha de maquineta sublime ainda mais, na sua graciosidade, o que acabámos de ver. O grande actor envelhecido vai repousar, dissera ele, o mais provável é que vá para morrer, já que cumprindo-se no filme o que a peça de Ionesco anunciara na sua abertura, ninguém nasce para sempre.
Depois de "Viagem ao Princípio do Mundo" e antes de "Porto da Minha Infância", Manoel de Oliveira, encara, ainda uma vez, a morte. Não o colapso, o momento terminal, o ataque cardíaco, o último suspiro, melodramatismos em que não está interessado. Antes, a morte em trabalho.
"Vou para Casa" é um filme de cumplicidade. De cumplicidade entre um cineasta e um actor, ambos com respeitadíssimas idade e carreira (Oliveira com 92 anos de idade e 70 de profissão, Piccoli com 76 de idade e 52 de actividadade) que enfrentam o inominável, numa parceria onde o humor e a ironia sábia dão cartas e há uma serenidade sem angustias. Só essa cumplicidade muito estreita permite aquele longo plano em que o actor é maquilhado, rejuvenescido, para efeitos de cinema e transformado num boneco assaz ridículo. Só um entendimento partilhado da vida permite concede essa cena em que se fala de solidão e se mostram sapatos. E, depois, "Vou Para Casa" é um filme de cinema. Com maiúscula, vale o atrevimento, porque não há muitos exemplos actuais de cometimentos que só o cinema propicia, da exploração do fora-de-campo e do tempo de um plano, das modificações de um rosto, da potencialidade de narrar imenso sem palavras. (In Expresso - 22-9-2001).
No Alentejo, numa grande casa isolada, suspeita-se que a filha dos proprietários, Benilde, está grávida. O médico, chamado em segredo pela governanta, Genoveva, confirma o seu estado de gravidez. Mas Benilde jura que não conheceu homem algum, e que se está à espera de um filho é por vontade de um Anjo de Deus.
Um vagabundo circunda a casa, com uivos tremendos, sem nunca ser visto. A convicção de Benilde da intervenção divina, perturba todos à sua volta, particularmente a sua tia que procura explicações mais razoáveis. Benilde anuncia a Eduardo, seu noivo, destruído pelos factos, que vai morrer em breve. Na hora da morte diz-lhe que em breve se encontrarão.
"Segundo painel da "tetralogia dos amores frustrados", "Benilde" contrasta com "O Passado e o Presente" pela estática teatralidade com que é filmado, em respeito total ao texto.
Do único décor - a casa de Benilde - , Oliveira só sai duas vezes: no início, quando um fulgurante travelling atravessa o espaço imenso e vazio do estúdio de cinema até entrar por um quadro (paisagem do Alentejo) na cozinha-estúdio do primeiro acto da peça. No final, quando, após a morte de Benilde, a câmara se eleva e regressa ao estúdio vazio por um buraco existente no tecto. É o cinema que invade o teatro, num jogo de alçapões e sótãos, como se sob a profundidade do primeiro se escondese o espaço do segundo. E é dos subterrâneos do cinema que emerge essa história erótica e mística em que é legítimo ver-se também a parábola do país perdido que fomos e somos e a impossibilidade de rapidamente o transformar.
Na sua única alteração à peça, Oliveira fez abrir as janelas e entrear o vento na cena capital em que uma tia de Benilde a acusa de hipocrisia e mentira. O vento varre a sala e decompõe a personagem que a custo volta a fechar a janela. "Benilde" é esse espaço fechado que não se deixa varrer, é essa claustrofobia onde o ar não chega, é esse mundo que só existe enquanto clausura. É um filme de "estado de sítio". De tudo o que se passou em Portugal, entre a tacanha paz de Salazar e a espúria agitação de 75, talvez seja, por muitos ínvios caminhos, o mais profundo retrato."
João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991.
"Este filme surgiu, quando Oliveira andava por Trás-os-Montes à procura de moinhos que satisfizessem o seu imaginário para fazer um filme sobre o pão. Aconteceu que numa dessas viagens encontrou junto à estrada 3 grandes cruzes em madeira tosca. Curioso por saber a sua utilidade, depressa lhe disseram que serviam para uma festa popular, sobre a paixão de Cristo.
Oliveira neste filme mostra-nos um jogo entre a vida material, a mundaneidade de um homem que se julga imortal e um outro homem frágil, crente e submisso a Deus, que será a sua salvação. É entre este jogo carnal, espiritual que Oliveira dá um toque de sensibilidade, quando Maria Madalena beija os pés de Cristo, deixando os seus cabelos deslizarem sobre a pele dos pés. Por outro lado, é a submissão do homem a Deus e por outro, um acto de carinho, compaixão, por um homem igual aos outros que está ali a sofrer pelos outros homens.
Numa outra instância, é a transfiguração de uma festa secular, enraizada num povo, numa cultura cristã , da qual Manuel de Oliveira comunga em profundidade por ser cristão. É um elogio do realizador às pessoas daquela região. Gente virada para o cultivo da terra e para o cultivo de Deus - ser omnipotente, que tudo lhes concede e lhes tira.
É preciso não esquecer que este é o segundo filme de ficção de Oliveira e apesar de mais uma vez o público não ter correspondido a mais uma obra de Oliveira, ou por incompreensão, ou por não gostar, a verdade é que este foi sem dúvida mais um grande filme deste cineasta portuense." Daqui