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domingo, 23 de outubro de 2016

Sombras Brancas (The Savage Innocents) 1960

Inuk é um esquimó que, ofendido por um padre, comete um assassinato. Perseguido pela polícia,  aventura-se pelo inóspito norte canadiano em busca de refúgio.
Para uma mais moderna audiência "The Savage Innocents" pode apresentar vários problemas. Para começar temos um animal que é morto na tela, e nestes tempos pré-CGI ele é morto de verdade. Na sequência de abertura vemos um urso polar a nadar nas águas geladas, antes de ser atingido por dois arpões e começar a sangrar para o mar. Num documentário sobre o povo Inuit bem podíamos esperar por isso, mas numa longa metragem de ficção somos apanhados de surpresa.
Depois há o casting. Apesar da história ser sobre o povo Inuit, ou povo esquimó como eram também conhecidos, há poucos deles no filme. O personagem principal é interpretado por um actor nascido no México (Anthony Quinn), e a sua restante família é interpretada por uma mistura de actores chineses e japoneses. São quase tão credíveis como Marlon Brando o era a fazer de japonês em "Teahouse of the August Moon". A vida dos esquimós é romantizada como o tinha sido por Robert Flaherty no seu filme de 1922, "Nanook of the North", e observada a partir de uma perspectiva então moderna (1959). Até o título do filme trai este ponto de vista, sugerindo que os esquimós são "selvagens inocentes": "inocentes" porque não entendem os caminhos da então sociedade civilizada, "selvagens" porque não aderem ás suas restrições morais e comportamentais. 
O filme era distribuído por um estúdio de Hollywood, a Paramont, numa altura que não havia actores de origem étnica a trabalhar no cinema mainstream, obrigando os estúdios a escolher regularmente actores brancos para estes papéis. Anthony Quinn interpretou uma grande quantidade destes papéis ao longo da sua carreira, italiano em "La Strada", pintor francês em "Lust for Life", líder tribal árabe em "Lawrence of Arabia", e foi nomeado para o Óscar como protagonista em "Zorba, the Greek". E não nos podemos esquecer que o primeiro filme feito por um realizador esquimó, e com um elenco esquimó, só aparecia em 2001, chamando-se "Atanarjuat, The Fast Runner". "The Savage Innocents" mostra os esquimós no seu estilo de vida numa forma surpreendentemente positiva. Inclui elementos que seriam considerados pela chamada sociedade civilizada de primitivos, e apresenta-nos o povo esquimó nas suas acções diárias. 
Foi mais um filme de Ray a ser criticado na altura da estreia, e a ser recuperado anos mais tarde, sendo dos seus filmes menos conhecidos. Peter O´Toole é um dos perseguidores de Anthony Quinn, estreia-se aqui no cinema, nas longas metragens.

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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Lord Jim (Lord Jim) 1965



Baseado num conto de Joseph Conrad, "Lord Jim" é uma história de um homem em busca de redenção, por um acto de covardia que surgiu a partir da própria fragilidade humana. "Lord Jim" conta com Peter O'Toole na pele do personagem do título, um jovem oficial na Marinha Mercante, que se desgraça ao abandonar o navio. Desonrado procura uma forma de aliviar o seu erro, não apenas perante os olhos da marinha inglesa, mas também perante si próprio. Entretanto, recebe a dura missão de entregar um carregamento de dinamite, algures num local desconhecido do Oriente, e acaba por se unir aos nativos locais na sua luta contra O General (Eli Wallach), um rude opressor. Pelo caminho ele conhece Brown (James Mason), um pirata que tem um plano misterioso e que irá colocá-lo em confronto com o seu verdadeiro destino.
Realizado por Richard Brooks, no auge da sua popularidade, durante a década de sessenta, "Lord Jim" é um filme que viveu na sombra de uma outra grande obra interpretada pelo mesmo protagonista, Peter O´Toole. Estou a falar, é claro, de "Lawrence da Arábia", de David Lean. Há uma relação simbiótica entre estes dois filmes, isto porque a personagem do romance de Conrad deu a hipótese a O'Toole de trabalhar mais um anti-herói, igualmente forte e mentalmente desgastante. O filme de David Lean era um exercício de poética cinematográfica, construido sobre uma estrutura de estudo de personagem, Brooks oferece uma estrutura filmíca rigorosa. Enquanto as versões anteriores de Brooks de obras de Dostoyevsky, Williams, e Fitzgerald foram prejudicadas pelos caprichos de Hollywood, "Lord Jim" abriu-lhe uma janela para ele fazer o filme que quisesse, sem falsos finais felizes impostos, mas a sua visão acabou por irritar mais gente do que era esperado.
Estilisticamente, Lord Jim é um retrato da técnica cinematográfica em transição, dividida entre a mística de Hollywood e autenticidade de uma abordagem mais moderna. Não foram apenas as raízes de Conrad que fazem "Lord Jim" parecer um precursor de Apocalypse Now, entre outros, mas o seu desejo de se envolver mais a sério em temas como a raça e a sexualidade, política e o carácter pessoal, deixam o filme um pouco abaixo das suas expectativas. Ainda assim é um grande épico da década de 60.

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