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terça-feira, 4 de maio de 2021

O Vigilante (The Conversation) 1974

Como convém a um filme sobre um especialista em escutas e vigilância, The Conversation, de Francis Ford Coppola é impulsionado pela sua banda-sonora, pelas complexas intersecções das gravações, a música jazz e a sobreposição de diálogo. O vigilante Harry Caul (Gene Hackman) é um homem solitário e paranóico, um profissional consumado que constrói o seu próprio equipamento e guarda zelosamente os segredos de toda a gente à sua volta, incluindo o seu parceiro de longa data Stan (John Cazale) e a sua amante, Amy (Teri Garr). A vida solitária, mas estável, de Harry, é interrompida quando se envolve mais do que o normal num caso mais recente, em que um empresário pediu a Harry e à sua equipa para gravarem uma conversa entre um jovem casal num local público. O casal, Mark (Frederic Forrest) e Ann (Cindy Williams), estão cientes de que estão a ser observados, então vão para um parque público com movimento a meio do dia, andando em círculos sem fim no meio da multidão, acreditando que isso fará com que seja impossível registrar o que estão a dizer. Para Harry, isto é acima de tudo um desafio profissional, e que, inicialmente, gostou da dificuldade da tarefa que lhe foi dada. Está orgulhoso das suas habilidades, e sabe que é, possivelmente, o único homem no ramo que poderia fazer este trabalho. 
A introdução do filme centra-se, assim, nas habilidades técnicas de Harry, e Coppola corta, secamente, para a frente e para trás, os homens de vigilância nos seus vários esconderijos, enquanto o casal anda conversando. Ouvimos trechos da conversa, por vezes cristalina, por vezes altamente processada ​​ou interrompida por outros ruídos. A banda sonora reflecte as tentativas dos homens de vigilância para montar uma fita coerente, acompanhando o casal com três microfones diferentes. O casal fala sobre coisas aparentemente inofensivas: presentes de Natal, os sem-abrigo, ficando aborrecidos de andar em círculos. Este diálogo básico vai voltar novamente e novamente durante todo o filme, com novos detalhes a serem preenchidos e novos trechos do diálogo que está a ser ouvido, enquanto Harry trabalha nas fitas e descobre novas nuances no som. De cada vez que ele ouve a gravação, parece ouvir algo novo, e como novos detalhes são revelados, os anteriores assumem novos significados. Noutras vezes, uma simples frase pode significar várias coisas diferentes, com base no contexto em que ela foi dita, o tom exacto da voz por trás dela. O áudio e as imagens do casal que muitas vezes acompanham esta gravação, formam a base estrutural para o filme, como Harry começa a investir mais e mais emocionalmente no significado para esta gravação. 
O final extenso acaba por ser uma reversão pura e irónica do que nós (e Harry) assumimos que estava a acontecer. Um pedaço crucial da gravação é repetido, uma última vez, e desta vez uma pequena mudança de ênfase numa palavra muda completamente o significado do que está a ser dito. É uma última lembrança sobre a importância das palavras, do quanto elas podem alterar o significado e a intenção de uma única palavra, uma única sílaba, de quanta informação pode ser codificada no áudio mais aparentemente inócuo. Uma palavra, pronunciada de forma ligeiramente diferente, faz toda a diferença entre a inocência e a culpa, entre o assassino e a vítima. É neste tipo de pequeno efeito, surpreendente que faz com que o filme de Coppola, tão poderoso como tenso, um filme onde a banda sonora sonora é pelo menos tão importante, e provavelmente até mais importante do que, as imagens metódicas, cuidadosamente compostas.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Chove no Meu Coração (The Rain People) 1969

Depois de descobrir que está grávida, Natalie Ravenna (Shirley Knight), uma doméstica de Long Island, entra em pânico e foge de casa com o pensamento que poderia ter feito algo diferente da sua vida. se conseguisse libertar-se da vida que leva com o marido, que ama. No quarto de um motel, onde pára para descansar durante o dia, senta-se na cama imóvel e experiência a exuberância da completa liberdade. Continua a viagem e dá boleia a um jovem caminhante (James Caan), um atraente jogador de futebol com danos cerebrais. É por causa dele que coloca uma questão mais perturbante, do que a responsabilidade doméstica. 
No final dos anos sessenta  Francis Ford Coppola tinha feito nome como argumentista em filmes de grande orçamento, e tinha dirigido uma série de filmes peculiares. A Warner tinha-lhe entregado em mãos o musical com Fred Astaire "Finian's Rainbow" (1968), e estava satisfeita com a sua evolução e eficiência, apesar do filme ter sido um flop, e o estúdio decidiu financiar-lhe outro projecto. Coppola, por sua vez, não estava satisfeito com a sua falta de controle em "Finian's Rainbow", e decidiu partir para uma obra mais pequena, e mais pessoal, escrita e realizada por ele, e foi assim que nasceu "The Rain People" (1969).
Coppola conheceu Shirley Knight no festival de Cannes de 1967, onde estava na promoção de " You're a Big Boy Now", e a encontrou a chorar, perturbada por um confronto com um jornalista, e disse-lhe para não chorar porque iria escrever um filme para ela. Assim nasceu "The Rain People", um road movie filmado inteiramente em exteriores, viajando com uma caravana de cinco carros e um pequeno autocarro onde levava o equipamento. Entre a equipa estavam George Lucas e Mona Skager, que se tornaram figuras chaves, mais tarde, na sua própria produtora. Partiram para a estrada sem um argumento completo, adicionando eventos com os quais cruzavam no dia a dia, e contando com improvisações dos actores para ajudá-lo a moldar a história. Shirley Knight era uma actriz de créditos já firmados, nesta altura já nomeada para dois Óscares, e teve dificuldades em trabalhar num ambiente tão desorganizado, o que a levou a ter algumas discussões com o realizador, mas mesmo assim arrancando uma prestação soberba.
Depois desta experiência, Coppola decidiu começar a fazer os seus filmes longe de Hollywood, e fundou a sua própria produtora, a American Zoetrope, em São Francisco no final de 1969, com George Lucas a vice-presidente.
Tudo isto aconteceu três anos antes do monumental sucesso de "The Godfather", com Lucas a aproveitar dois dos protagonistas deste filme, James Caan e Robert Duvall.

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Vale do Arco-Íris (Finian's Rainbow) 1968

Um irlandês chamado Finian (Fred Astaire), e a sua filha Sharon (Petula Clark) chegam ao estado americano de “Miltucky” com um pote cheio de ouro, que Finian roubou de leprechaun (Tommy Steele), com a intenção de o enterrar no chão e acelerar o seu crescimento. Enquanto isso, um sonhador (Don Francks) colabora com um botânico (Al Freeman, Jr.) para criar tabaco mentolado, e um senador ganancioso (Keenan Wynn) tenta comprar o terreno onde Finian enterrara o seu pote de ouro.
Em 1968, Coppola dirige esta adaptação de um popular musical da Broadway (produzido pela primeira vez em 1947 e revivido em 2009), com uma mistura invulgar de fantasia e justiça social, que incluía intolerância racial, pobreza e corrupção política. Na verdade, esses tópicos "quentes" impediram o musical de ser transformado num filme durante muitos anos, até que o clima social dos anos sessenta finalmente permitiu que tais preocupações fossem satirizadas. O resultado final é um musical esporadicamente divertido, mas em última análise desigual, tentando incorporar muitos fios narrativos sem nunca se conseguir concentrar no seu foco.
Nas interpretações, o destaque vai para Fred Astaire, com 69 anos, participa aqui num dos seus últimos musicais. O restante elenco reúne alguns actores conhecidos,  embora grande parte das interpretações não sejam bem conseguidas. Coppola, então com 29 anos, transformava-se num dos mais novos realizadores a trabalhar no "studio system", e conseguia um orçamento minúsculo para produzir o filme, pela Warner Bros, que tentava aproveitar o ressurgimento dos musicais, depois de obras como "My Fair Lady" (1964) e "The Sound of Music" (1965). Trabalhar debaixo das mãos de um estúdio grande foi um desastre para Coppola, tendo filme sido considerado um flop a nível crítico. Mesmo assim o filme conseguiu duas nomeações para os Óscares, nas categorias técnicas.

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quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Noite É Perversa (You're a Big Boy Now) 1966

O pai de Bernard Chanticleer deu-lhe um conselho muito simples: "Cresce". Bernard sabe que o primeiro passo a dar é encontrar uma rapariga que valha a pena, mas ele trocou uma rapariga "certa", Amy Partlett, por um objectivo mais evasivo. Ela é Barbara Darling (Elizabeth Hartman), uma dançarina. Há vários obstáculos que o mantêm longe do seu mundo de sonho: a mãe (que continua a pensar que ele ainda não é crescido), um playboy malicioso que ataca todas as mulheres bonitas, e a própria Barbara, que parece odiar todos os homens.
O enredo básico de "You’re a Big Boy Now" pode parecer mais um filme vulgar sobre a entrada na idade adulta, sobre um jovem inocente a aprender sobre a vida e o amor na cidade de Nova Iorque, mas Coppola transforma a história numa "screwball comedy" contemporânea, com toques de romance e de uma audaciosa pirotecnia visual. Isto inclui o longo plano de abertura filmado na sala de leitura da Biblioteca Pública de Nova Iorque, uma perseguição louca por entre lojas, ou uma sequência nocturna à volta da decadente "42nd Street".
O projecto foi primeiramente sugerido a Coppola pelo actor Tonny Bill, grande fã do livro original escrito por David Benedictus. Coppola comprou os direitos e começou a escrever uma adaptação cinematográfica, enquanto estava em filmagens na Europa para a Seven Arts, colaborando com Gore Vidal e vários outros escritores no argumento do grande épico de guerra "Is Paris Burning?". Phil Feldman, um ex-agente de negócios da Seven Arts, agora a trabalhar para a Warner, reconheceu talento em Coppola, e negociou um acordo com o jovem cineasta para o seu segundo filme.
E assim nascia o filme, lançado cerca de um ano antes de "A Primeira Noite" (The Graduate), de Mike Nichols, aborda uma temática muito parecida com a deste filme, levando os dois a serem sucessivamente comparados ao longo do tempo. Claro que o filme de Lumet é bastante melhor, acabando por ser considerado o filme mais simbólico sobre este tema. Mas o de Coppola também merece ser visto.
Legendas em espanhol, mas é um espanhol bastante acessível.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Demência 13 (Dementia 13) 1963

Quando o seu marido John tem um ataque de coração enquanto navegava num pequeno bote, Louise Haloran atira o seu corpo borda fora, e mais tarde diz à família que ele partiu numa viagem de negócios urgente. A sua maior preocupação é que ela só pode herdar uma parte da grande fortuna da família se o marido estiver vivo. Os Halorans são uma estranha família, ainda de luto pela morte da filha mais nova Kathleen, que morreu afogada numa lagoa enquanto ainda era criança. A família vai reunir-se, como faz todos os anos, mas desta vez anda um assassino à solta.
Coppola foi um dos muitos realizadores graduados na universidade de Roger Corman, fazendo parte de uma lista com nomes tão consagrados como John Sayles, Ron Howard, Jonathan Demme, Peter Bogdanovich, ou Jack Hill. Corman propôs "Dementia 13" a Coppola quando terminava outro filme realizado na irlanda: "The Young Racers", no qual Coppola era técnico de som. Corman tinha aproximadamente 22 mil dólares que tinham sobrado do filme anterior, e ofereceu-os a Coppola para fazer um filme que homenageasse "Psycho" de Alfred Hitchcock, lançado três anos antes.
As exigências de Corman eram as do costume, as mesmas que ele fazia a qualquer outro seu protegido. Coppola teve de ficar com parte dos actores, e da equipa de produção de "The Young Racers" (alguns deles eram seus colegas de curso): o filme teve de ser filmado em 3 dias, e de acordo com a agenda apertada de Corman, e teve de incluir um cenário gótico (um castelo), e violência extrema. Para economizar ainda mais dinheiro, Coppola teve de filmar de noite, e a preto e branco.
Durante a pós-produção Coppola e Corman discordaram fortemente: Corman queria mais violência e mais voiceovers, e também queria que o filme fosse mais longo. Para isso chamou Monte Hellman para filmar um prólogo que só saíu na versão para cinema. A acompanhar a versão cinematográfica, uns truques seguindo o espírito de William Castle. Um psicanalista, antes das sessões, fazia um teste chamado "D-13”, para averiguar se as pessoas estavam aptas psicologicamente pata ver o filme, ou não.
O "mood" do filme é perturbador, com um ambiente sinistro e gótico e uma narrativa densa. Mas em termos de qualidade é o melhor que se podia fazer perante tantos contratempos e obrigações. Normalmente é catalogado como a primeira longa-metragem de Coppola, apesar dele ter uns pequenos filmes escolares realizados antes.

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Terror (The Terror) 1963

Um jovem tenente francês (Jack Nicholson) perde-se do seu regimento e vai parar a uma praia aparentemente deserta. Logo vê a imagem de uma bela jovem, que o ajuda a encontrar água bebível – é certo que ela o livrou de um problema, mas está para lhe criar uma série de outros, numa trama envolvendo um estranho assassinato passional, que teria sido cometido pelo Barão Von Leppe (Karloff), um velho sinistro que vive soturnamente no seu castelo, alvo de estranhas feitiçarias. Encantado com a mulher e intrigado com os mistérios do local, o jovem tenente vai tentar desvendar o mistério.
"The Terror" foi realizado em apenas três dias. Roger Corman tinha apenas três dias para o cenário do filme que tinha acabado de fazer, "The Raven", ser retirado, e também mais três dias de contracto com Boris Karloff, uma estrela. Falou com alguns elementos da produção de "The Raven" para fazerem um trabalho rápido, e convidou o actor Leon Gordon para escrever um argumento que girasse em volta dos cenários do castelo, com as cenas exteriores a serem rodadas mais tarde. Corman também convidou alguns dos seus protegidos para realizarem algumas sequências, que acabaram por dar ao filme um ar confuso. Entre as pessoas que deram uma mãozinha encontravam-se Francis Ford Coppola, Jack Hill, Monte Hellman, ou Jack Nicholson, que também era protagonista. Dado os nomes que participaram na produção, todos eles viriam a alcançar sucesso no futuro, esta obra tornou-se num filme de culto.
Jack Nicholson estava em inicio de carreira, e este seria o seu primeiro papel de protagonista. Para contracenar com ele chamou Sandra Knight, a sua esposa da altura, também ela ligada a Roger Corman. Uma nota também para outro actor em início de carreira e ligado a Roger Corman: Dick Miller.

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domingo, 24 de abril de 2016

Coppola - O Inicio



Basta referir títulos como "Apocalypse Now", "Do Fundo do Coração", "Cotton Club", "Jardins de Pedra", ou "Tucker" para aquilatar a importância deste cineasta no contexto da produção cinematográfica mundial. E nem sequer vale a pena apelar à majestosa saga da família Corleone apresentada na série "O Padrinho" para sublinhar o génio, a desmesura do seu cinema.
Por agora vamos esquecer estes "clássicos" do cinema mundial, e vamos nos concentrar no inicio da carreira do realizador. Coppola nasceu no ano de 1939, e começou no cinema fabricando "nudies" (soft cores à moda do início da década de sessenta) transitando depois para a "universidade de Corman", onde aprendeu a trabalhar com orçamentos reduzidos. Para Roger Corman desempenhou diversas funções (operador de som, montagem, realizador de segunda equipa) até dar provas de estar à altura para realizar um filme. Primeiro realizou algumas cenas para "The Terror", um filme creditado a Roger Corman, mas que contava com a ajuda dos "alunos" Coppola, Monte Hellman, Jack Hill, e o próprio Jack Nicholson. Com as sobras de "Young Racers" (também de Corman) partiu para a Irlanda onde dirigiu "Dementia 13".
Desligou-se depois de Corman e partiu para a Warner, onde realizou "You're a Big Boy Now", uma obra já com um orçamento maior e um elenco bastante interessante. O seu primeiro filme de grande orçamento chegou depois na forma de um musical, o último de Fred Astaire, "O Vale do Arco-Irís", mas foi um flop:"Finian's Rainbow". Seguiu-se um pequeno road movie, "The Rain People", ainda antes do final da década de sessenta, enquanto começava a trabalhar na idéia dos estúdios Zoetrope, na comunidade criativa que "iria mudar os destinos do cinema americano".
A carreira de Coppola é mais conhecida a partir de 1972, o ano em que saíu o primeiro filme da saga "O Padrinho", mas durante esta semana vamos até ao fundo do baú, para conhecer as primeiras obras deste excelente realizador.

- "The Terror" (1963)

- "Dementia 13" (1963)

- "You're a Big Boy Now" (1966)

- "Finian's Rainbow" (1968)

- "The Rain People" (1969)

Boa semana!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker's Dracula) 1992



Esta versão de Drácula é vagamente baseada na história de Bram Stoker do mesmo nome. A Jonathan Arker (Keanu Reeves), um jovem advogado, é atribuída a tarefa de de deslocar a uma distante e sombria aldeia, nas brumas do leste europeu. É capturado e aprisionado pelo morto-vivo vampiro Drácula (Gary Oldman), que viaja para Londres, inspirado pela fotografia da noiva de Harker, Mina Murray (Winona Ryder). Em Inglaterra, Drácula começa um reino de sedução e terror, drenando a vida da melhor amiga de Mina, Lucy Westenra. Os amigos de Lucy juntam-se para tentar destruír Drácula.
É difícil ignorar o apelo universal dos vampiros. Ostensivamente, o terror gótico nasceu em 1816, nas férias de verão compartilhadas por Mary e Percy Shelley, Lord Byron, e o Dr. John Polidori no Lago de Genebra, na Suíça. Foi aqui que Mary Shelley escreveu Frankenstein, e as sementes foram semeadas para a actualização de Polidori dos vampiros do folclore, na versão moderna chamada The Vampyre. Em 1897, Bram Stoker publicou o seu quinto romance, Drácula, e influenciou, e de que maneira, toda a cultura pop até aos dias de hoje.
A história de um aristocrata, um conde, que bebe sangue para sustentar a imortalidade, é um monstro que agora é um clássico, mas Coppola pegou nessa personagem e mudou-o para um reino de um herói trágico. Como Gary Oldman descreve a sua abordagem ao personagem principal do filme: "O sangue é a vida", e Oldman tentou interpretar o personagem-título como um anjo caído. Brincando com a sua própria forma, defraudando a mais liberal de todas as artes, confundindo a sua cronologia e por vezes confundindo o seu próprio enredo, e quase cruelmente disposto a pôr a nu as limitações e vulnerabilidades de um elenco improvável de apoio. Drácula de Bram Stoker é feito em partes iguais de loucura e terror, e a sua própria definição de amor equivale a uma fusão destes dois elementos, cada uma bebendo livremente da outra.
Mas este é um filme de Coppola. Um mestre saboreando claramente a oportunidade de colocar a sua marca num produto mais mainstream, e pinta um quadro com uma paleta de cores vivas e preenche as suas perfomances com interpretações de classe. Os aspectos técnicos são todos de primeira linha, com menção especial a Roman Coppola (filho de Francis), que foi encarregado de criar os efeitos visuais, o Designer de Produção, Thomas E. Sanders, e o Diretor de Arte, Andrew Precht. Uma menção também deve ser feita para Eiko Ishioka, que, junto com toda a sua equipa de make-up, e trouxe a estes personagens uma grande vibração.
Um grande destaque para o elenco. Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Richard E. Grant, Cary Elwes, Monica Bellucci, e Tom Waits. Habituado já a trabalhar com Coppola, Waits tem aqui o papel de Renfield, um servo de Drácula.

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domingo, 26 de janeiro de 2014

Cotton Club (The Cotton Club) 1984



Francis F. Coppola começou a década de 80 a fazer homenagens a tendências anteriores - o musical clássico em One From the Heart (1982), o Technicolor em Widescreen sobre a delinquência juvenil em The Outsiders (1982), e o expressionismo alemão em Rumble Fish (1983). Atingiu o auge desta tendência em 1984 com The Cotton Club, uma dupla e ambiciosa homenagem a dois dos grandes géneros cinematográficos da década de 1930: o filme de gângsters e o musical.
Produzido por Robert Evans, Coppola nunca teve o controle completo sobre a produção, o argumento foi sendo constantemente reescrito, as tensões eram altas no set, e acabou por custar uns supostos 47 milhões de dólares. As histórias sobre as dificuldades enfrentadas durante a produção deste filme só rivalizavam em status lendário apenas pelos excessos de Coppola em Apocalypse Now. No entanto, ao contrário de Apocalypse Now, The Cotton Club não acabou por ser uma das maiores obras do realizador. Pelo contrário, é uma ode interessante e divertida de um tempo passado que pode ser melhor visto como uma oportunidade perdida para algo maior.
The Cotton Club é, em primeiro lugar, uma carta de amor sobre a Era do Jazz, o fim do Loucos Anos Vinte, quando parecia que nada poderia dar errado na América, até que o mercado accionário caiu em 1929. Se Coppola faz uma coisa muito boa no filme, é transcrever a atmosfera eléctrica do clube de jazz nocturno, mesmo que a sua técnica seja mais estilizada do que ele provavelmente precisava para chamar a atenção. Todo o filme tem um estilo conscientemente teatral, algo que é levado a um clímax no final, quando Coppola literalmente transforma a tela num palco da Broadway. Obviamente queria fazer um filme delirantemente optimista, mesmo que inclua alguns crimes brutais ao estilo da máfia que remontam aos momentos mais sangrentos em "O Padrinho".
A história tem lugar no final dos anos 1920 e início dos anos 1930, e grande parte da acção é centrada em torno do The Cotton Club, um clube infame de jazz no Harlem construído com o dinheiro dos contrabandistas e preenchido com empresários ricos, gangsters e estrelas de cinema. Durante 17 anos, foi uma das salas centrais do Renascimento do Harlem, embora a política racial do seu sucesso tenha sido vergonhosa - os negros forneciam todo o entretenimento, os brancos ficavam com todo o dinheiro. Coppola poderia facilmente ter mergulhado mais fundo nas tensões raciais complexas que envolvem este estabelecimento, mas prefere tomá-lo como um dado e contar uma história diferente.
A personagem central do filme é Dixie Dwyer (Richard Gere), um músico de jazz branco que se envolve com o submundo do crime organizado de Nova York, quando salva a vida do gangster Dutch Schultz (James Remar), que lhe retribui, dando-lhe trabalho. Dixie rapidamente descobre que não é necessariamente uma coisa boa trabalhar para o holandês...
O elenco era fabuloso. Contava ainda com actores como Gregory Hines, Diane Lane, Lonnette McKee, Bob Hoskins, Nicolas Cage, Tom Waits. Mais uma vez num papel bastante secundário, era a quarta vez (e consecutiva), que Waits trabalhava com Coppola. Aqui também apenas à frente das câmaras.

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Rumble Fish - Juventude Inquieta (Rumble Fish) 1983



É fácil de perceber porque a esta odisseia juvenil foi dada tanta precedência, com a sua fotografia monocromática artística e uma mistura variada de talentos americanos, incluindo os nomes de Matt Dillon, Mickey Rourke, Nicolas Cage e Diane Lane. No entanto, é também um filme difícil de se compreender, com a voz autoral de SE Hinton tão ressonante como a do seu realizador, Francis F. Coppola. Dillon protagoniza como líder de um gang, Rusty James, um jovem abandonado na rua, resistente, que um dia se envolve numa briga de rua, e vê o seu estômago cortado com uma faca.
Salvo no último momento pelo seu  idolatrado irmão mais velho, "The Motorcycle Boy" (Rourke), o duo caminha pelos passeios de Tulsa, Oklahoma, sonhando com um modo de sair deste beco sem saída. James luta para permanecer ao lado da sua exigente jovem namorada Patty (Diane Lane). Segunda adaptação consecutiva de Hinton, pot Coppola (depois de The Outsiders), Rumble Fish parece-se muito mais como um filme de art house europeu do que uma obra de um dos mais importantes realizadores da América. No entanto, as ligações para o restante trabalho do realizador estão todas lá, como o cameo de Dennis Hopper, como o alcoólatra pai dos protagonistas.
A inspiração de Coppola pode ser vista em muitos pontos do filme. O desenvolvimento de cada personagem, de certa forma metódica, é fascinante, com influências que chegam a Rumble Fish de muitos ângulos diferentes. Um dos muitos elementos que realmente atrai na história é o clima existencial eterno que está presente por todo o lado e é enfatizado pelos protagonistas centrais. Por um lado, uma série de paralelos podem ser traçados entre este filme e os romances de Albert Camus e elementos do seu trabalho em geral - em especial, o personagem de Meursault (the Outsider) e o Motorcycle Boy, interpretado por Mickey Rourke. Antes das filmagens, Coppola entregou a Rourke uma seleção de livros do filósofo existencialista, a fim deste ter uma idéia de como o personagem que deve ser desenvolvido. Motorcycle Boy possui o desapego, a indiferença e o narcisismo que muitos dos personagens de Camus possuem, mas ele também se inspirou em algumas fotos tiradas pelo próprio autor - como o cigarro pendendo dos seus lábios.
A atmosfera despertada no filme é provavelmente melhor descrita como a de uma existência condenada - o destino de Rusty James, cuja personagem poderia chegar mais longe, mas que é incessantemente tentanda a ser alguém que não pode ser, presa, atrás da sombra do irmão, e presa num mundo onde a violência é algo muito normal. Desta forma, ele também é retratado como um personagem trágico num mundo estranho.
Tom Waits participou como uma personagem secundária.
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sábado, 25 de janeiro de 2014

Os Marginais (The Outsiders) 1983



The Outsiders era um pequeno filme, passado numa pequena cidade do sul do país - Tulsa, Oklahoma. Sem a sensação épica e gloriosa  de O Padrinho e Apocalypse Now é um retrato íntimo de um grupo de adolescentes conhecidos como "Greasers", focado principalmente em Ponyboy Curtis (interpretado por C. Thomas Howell), um órfão de 14 anos de idade, cuidado pelos seus dois irmãos mais velhos (uns jovens Rob Lowe e Patrick Swayze). Ponyboy é um protagonista carismático e mantém sempre num bom nível. Torna-se o cerne emocional de tudo o que é vivido pelo grupo. É realmente um filme sobre a posição social de um grupo de crianças, sem muitas esperanças, e como eles conseguem lidar com a sua situação, cuidando uns dos outros.
É interessante que C. Thomas Howell, aqui tão envolvente, nunca se tenha tornado numa estrela, apesar de ter protagonizado o excelente "Terror na Auto-Estrada". Principalmente quando o comparamos com o resto do deslumbrante elenco deste filme. Temos Rob Lowe, Patrick Swayze, Matt Dillon, Emilio Estevez, Tom Cruise, Diane Lane, Ralph Macchio, e uma participação especial de Tom Waits. Tenham em mente que este filme é de 1983 - por isso, antes de Top Gun, Dirty Dancing ou The Karate Kid. Além de Waits (que era conhecido como músico), nenhum destes actores tinha feito algo digno de nota anteriormente.
The Outsiders é um filme agradável e estranho na filmografia de Francis Ford Coppola. Decidiu partir para o projecto depois de receber uma carta da Lone Star School em Fresno, Califórnia, com muitas assinaturas, pedindo-lhe para fazê-lo. A novela original foi escrita por SE Hinton (que também escreveu Rumble Fish, que também foi filmado por Coppola e lançado em 1983), quando era uma adolescente, e claramente se compara com os adolescentes norte-americanos dos anos oitenta, que poderiam se identificar com muitos dos personagens e temas. A história dá-nos uma visão muito clara, infantil, do mundo, mas ainda consegue tocar em muitas decisões da vida que nos podem afectar, jovens ou adultos.
Ao contrário do filme anterior de Coppola, Tom Waits não fez a banda-sonora, nem escreveu qualquer música para este filme. Aparece como líder do grupo rival, os Socks. Filme de culto por excelência.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Do Fundo do Coração (One From the Heart) 1982



Na década de 1970, não havia nenhum realizador que tivesse atraído tantos elogios como Francis Ford Coppola. Enquanto lançava quatro filmes nesta década, O Padrinho, O Padrinho - Parte II, The Conversation e Apocalypse Now, também pertencia ao movimento chamado New Hollywood, ao qual pertenciam realizadores como Steven Spielberg, Peter Bogdanovich e Martin Scorsese. Coppola era também um argumentista e produtor, que também ajudou as carreiras de George Lucas e Carroll Ballard. Embora a década de 1970 fosse um triunfo para Coppola, ele estava prestes a entrar noutra em que teve de enfrentar o fracasso, falta de dinheiro, e outros problemas pessoais.
Durante anos, Coppola desejava tornar-se independente e formar o seu próprio estúdio, onde pudesse criar os seus próprios filmes. Assim nascia o Zoetrope Studios, que começou como um estúdio independente que permitia a realizadores iniciantes terem um impulso para a sua carreira. Também era o lugar onde Coppola esperaria criar o tipo de filmes que queria sem a interferência de um grande estúdio. Para o seu próximo projeto, Coppola decidiu fazer uma obra que seria uma experiência completamente nova, a criação de um filme com novos gadgets eletrónicos para o cinema da época, no início dos anos 80. O filme era suposto ser pequeno, um musical romântico passado em Las Vegas. One from the Heart quase daria cabo da carreira de Francis Ford Coppola, e fê-lo andar no limbo por vários anos.
Originalmente com um orçamento de 2 milhões de dólares, era para ser filmado dentro de um estúdio no Zoetrope Studios para criar uma versão artificial de Las Vegas. Com a ajuda do diretor de fotografia Vittorio Storaro e o designer de produção Dean Tavoularis, a re-criação de Las Vegas, juntamente com outros cenários parecia ser difícil. Como Coppola queria experimentar novas câmeras, novos modos de filmar, e novas técnicas, acabou por ser construída uma cidade artificial, e a produção subiu em flecha para 26 milhões de dólares, isto para um filme lançado no início de 1982. Quando surgiram notícias sobre o seu orçamento final, era claro que Coppola estava prestes a entrar em apuros.
Dois anos antes, Michael Cimino tinha lançado "Heaven’s Gate", um western revisionista histórico passado nas Johnson County Wars, no final do século 18. Seria a continuação de Cimino para o seu aclamado filme de 1978, vencedor dos Oscares, The Deer Hunter, e por isso as expectativas estavam altas. Em vez disso, o filme com um custo de 40 milhões de dólares tornou-se num enorme desastre que iria levar a United Artists à falência, bem como trazer um fim à era de ouro da "New Hollywood", e dos seus realizadores-autores. Para Coppola, a produção e o lançamento de "One from the Heart" deixou-o nervoso, e o filme acabaria por ser um fracasso enorme, uma vez que só iria render 600 mil dólares na bilheteria durante a primeira semana. Depois disto, o realizador resolveu tirar o filme dos cinemas e iria passar o resto da década de 1980 e parte da década de 1990 a fazer filmes para saldar as dívidas.
Coppola acabaria por recuperar o dinheiro perdido, bem como reviver a Zoetrope como American Zoetrope. Mas, muitas pessoas não viram "One From the Heart", que começou a ser elogiado por um pequeno grupo de cinéfilos que o tinha visto com interesse, quando saíu. Em 2001, Coppola lançou uma versão estendida de Apocalypse Now chamada Apocalypse Now Redux, com grande sucesso, que o levou a decidir revisitar o filme que lhe tinha dado tantos problemas. Com a ajuda de Storaro e o executivo da American Zoetrope, Kim Aubry, Coppola fez algumas mudanças na montagem, e deu a "One From the Heart uma nova hipótese de ser visto.
Com argumento de Coppola e Armyan Bernstein, baseado numa história verdadeira, "One from the Heart" é a história de um casal cuja relação de cinco anos está a começar a desmoronar-se. Os dois caminham em mundos diferentes, como a mulher a apaixonar-se por um empregado de mesa, enquanto o homem é surpreendido por uma artista de circo alemã. Um retrocesso aos musicais e filmes românticos das décadas de 40 e 50, de produção abundante, é um filme em que Coppola combina esse estilo de produção pródiga, em sintonia com o mundo colorido dos anos 80. Interpretado por Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski, Lainie Kazan, e Harry Dean Stanton.
A história do filme é bastante simples. Um rapaz e uma rapariga, namorados, separaram-se e conhecem os seus parceiros ideais, até perceberem que ainda estão apaixonados um pelo outro. Isso é muito bonito, e é parcialmente contado através da música do filme. A música de Tom Waits é o verdadeiro destaque, uma vez que não joga apenas com cool world de Las Vegas, mas também com o desejo de romance dos personagens. Com músicas e letras de Waits, as canções jogam até com o cerne emocional do filme, quando são cantadas por Waits e Crystal Gayle. A voz de Gayle sobe ao mesmo tempo de muitos momentos comoventes. A banda sonora acabaria por ser nomeada para um Óscar, a única nomeação do filme, e era a primeira fez que Waits trabalhava a tempo inteiro numa banda sonora.
O argumento é apenas um pano de fundo para o que Coppola quer criar, um filme mais sobre a parte visual do que sobre a história. Como a história não tem muito brilho, com uma enorme falta de tensão e surpresas, permite que Coppola crie sequências mais sobre o momento e os visuais. A realização de Coppola é definitivamente maravilhosa, não apenas a recriar Las Vegas, mas também a recriar um lugar de fantasia. Um puro filme de culto.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dementia 13 (Dementia 13) 1963



Passado na Irlanda, "Dementia 13" conta a história da família Haloran, um clã um pouco estranho e sombrio reunido para comemorar a morte da pequena Kathleen, que se afogou na lagoa das terras do castelo sete anos antes. Por causa da sua perda, a enlutada Lady Haloran (Ethne Dunn) planeia doar a sua fortuna a instituições de caridade, em nome da filha amada. Este plano não se coaduna com a gananciosa filha adoptiva, Louise (Luana Anders), que pretende fazer o que for preciso para mudar a mente da velha senhora. A fortuna da família torna-se um ponto discutível, quando uma série de homicidios macabros, com um machado, começa a cair sobre os Holorans, com o homicida a ser conduzido por sua obsessão com a falecida Kathleen. É claro que a identidade do assassino permanece um mistério ao longo do filme, e como qualquer giallo que se preze, as pistas falsas são abundantes. Poderia ser Richard Haloran (William Campbell), um artista sofredor, ou o seu irmão, Billy (Bart Patton), um jovem sensível que sofre com pesadelos. Ou ainda poderia ser o Dr. Justin Caleb (Patrick Magee), o médico da família, que está sempre por perto e agir de um modo suspeito.
Dementia 13 foi muito barato (e estamos a falar de barato em 1963). A história por trás da produção do filme, e a luta pelo controle que depois foi envolvida, é infinitamente mais interessante do que o filme em si.  
Roger Corman é famoso por descobrir grandes realizadores, argumentistas e actores, incluindo Martin Scorsese, Jack Nicholson, Ron Howard, Joe Dante, Peter Bogdanovich e James Cameron. Além da sua capacidade para trabalhar com orçamentos muito reduzidos, ele tinha um olho para o talento. Entre os seus alunos estava um jovem Francis Coppola, que ainda era um estudante de pós-graduação na Universidade da Califórnia, a quem pagou US $ 250 para pegar num filme russo, "Battle Beyond the Sun", re-editá-lo e filmar algumas cenas extras como um filme de exploitation. O resultado não foi melhor ou pior do que outro material pirateado, no início da década de sessenta. Depois de dirigir algumas cenas adicionais para a americanização de alguns "nus" estrangeiros, Coppola participou como técnico de som no filme de Corman "The Young Racers". Com o apoio estrangeiro, Corman conseguiu rodar o filme em exteriores, na Irlanda, um dos muitos países que estava ansioso para receber produções cinematográficas. Quando o filme terminou, Coppola falou com Corman para este lhe dar os restantes US $ 22.000 para fazer um segundo filme, prática que não era incomum para o produtor de baixo orçamento. Sendo lhe dado três dias, Coppola fez um script com as especificações de Corman, usando o sucesso de "Psycho" como modelo. Toda a gente andava a fazer isso, até mesmo William Castle que teve um dos seus maiores sucessos em 1961, com "Homicidal". Usando os mesmos exteriores de Dublin, que "The Young Racers", uma mansão assustadora torna-se o pano de fundo para uma família que luta pelo controle do dinheiro da matriarca, entre a assombração de uma irmã morta e um psicopata assassino à solta, entre a população.
Tal como Janet Leigh em "Psycho", o ponto de vista muda de protagonista para os secundários. O elenco, uma mistura de actores de The Young Racers e colegas da UCLA de Coppola, que voaram para Dublin com o próprio dinheiro, fazem um trabalho admirável com o diálogo formal e conturbado, e a sinuosa linha da história. Patrick Magee, um ator de teatro irlandês que mais tarde iria encontrar notoriedade em filmes como "Laranja Mecânica" ou "Barry Lyndon", era a única excepção. 
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Vigilante (The Conversation) 1974



Como convém a um filme sobre um especialista em escutas e vigilância, The Conversation, de Francis Ford Coppola é impulsionado pela sua banda-sonora, pelas complexas intersecções das gravações, a música jazz e a sobreposição de diálogo. O vigilante Harry Caul (Gene Hackman) é um homem solitário e paranóico, um profissional consumado que constrói o seu próprio equipamento e guarda zelosamente os segredos de toda a gente à sua volta, incluindo o seu parceiro de longa data Stan (John Cazale) e a sua amante, Amy (Teri Garr). A vida solitária, mas estável, de Harry, é interrompida quando se envolve mais do que o normal num caso mais recente, em que um empresário pediu a Harry e à sua equipa para gravarem uma conversa entre um jovem casal num local público. O casal, Mark (Frederic Forrest) e Ann (Cindy Williams), estão cientes de que estão a ser observados, então vão para um parque público com movimento a meio do dia, andando em círculos sem fim no meio da multidão, acreditando que isso fará com que seja impossível registrar o que estão a dizer. Para Harry, isto é acima de tudo um desafio profissional, e que, inicialmente, gostou da dificuldade da tarefa que lhe foi dada. Está orgulhoso das suas habilidades, e sabe que é, possivelmente, o único homem no ramo que poderia fazer este trabalho.
A introdução do filme centra-se, assim, nas habilidades técnicas de Harry, e Coppola corta, secamente, para a frente e para trás, os homens de vigilância nos seus vários esconderijos, enquanto o casal anda conversando. Ouvimos trechos da conversa, por vezes cristalina, por vezes altamente processada ​​ou interrompida por outros ruídos. A banda sonora reflecte as tentativas dos homens de vigilância para montar uma fita coerente, acompanhando o casal com três microfones diferentes. O casal fala sobre coisas aparentemente inofensivas: presentes de Natal, os sem-abrigo, ficando aborrecidos de andar em círculos. Este diálogo básico vai voltar novamente e novamente durante todo o filme, com novos detalhes a serem preenchidos e novos trechos do diálogo que está a ser ouvido, enquanto Harry trabalha nas fitas e descobre novas nuances no som. De cada vez que ele ouve a gravação, parece ouvir algo novo, e como novos detalhes são revelados, os anteriores assumem novos significados. Noutras vezes, uma simples frase pode significar várias coisas diferentes, com base no contexto em que ela foi dita, o tom exacto da voz por trás dela. O áudio e as imagens do casal que muitas vezes acompanham esta gravação, formam a base estrutural para o filme, como Harry começa a investir mais e mais emocionalmente no significado para esta gravação. 
Harry, que começa o filme insistindo que não se preocupa com o conteúdo real das gravações, e não se preocupa com o impacto que o seu trabalho tem além de fazê-lo, começa a sentir o peso moral da sua profissão. Por certo que esta moralidade é algo de que ele já tentou escapar, como é revelado no final do filme. O desprezível concorrente de Harry, Bernie Moran (Allen Garfield) conta uma história sobre como as informações conseguidas num dos trabalhos anteriores de Harry levou à morte de uma família inteira. Harry tenta minimizá-la, insistindo que não é nenhum dos seus objectivos, que a sua única preocupação são os desafios técnicos de tirar o melhor possível do áudio, mas é óbvio que ele é movido pela idéia de que o seu trabalho pode ter implicações devastadoras e terríveis. Este sentimento de culpa logo se transforma em pura e simples paranóia, quando Harry sente que está a ser perseguido pelo sinistro Martin Stett (Harrison Ford), um representante do empregador de Harry, que está com dúvidas sobre a entrega das fitas.
O final extenso acaba por ser uma reversão pura e irónica do que nós (e Harry) assumimos que estava a acontecer. Um pedaço crucial da gravação é repetido, uma última vez, e desta vez uma pequena mudança de ênfase numa palavra muda completamente o significado do que está a ser dito. É uma última lembrança sobre a importância das palavras, do quanto elas podem alterar o significado e a intenção de uma única palavra, uma única sílaba, de quanta informação pode ser codificada no áudio mais aparentemente inócuo. Uma palavra, pronunciada de forma ligeiramente diferente, faz toda a diferença entre a inocência e a culpa, entre o assassino e a vítima. É neste tipo de pequeno efeito, surpreendente que faz com que o filme de Coppola, tão poderoso como tenso, um filme onde a banda sonora sonora é pelo menos tão importante, e provavelmente até mais importante do que, as imagens metódicas, cuidadosamente compostas. 
Três nomeações aos Óscares, incluindo o de Melhor Filme, e uma Palma de Ouro em Cannes, para um dos filmes mais importantes da década de 70.

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