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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Capítulo 12 - Erótico

Esta era a secção mais sexual de todas, e era formada por duas sub-secções: a pornográfica, para maiores de 18, e que era das mais procuradas nos video clubes. Não iremos falar dela neste ciclo. E depois havia a secção erótica. Fugindo à exposição do sexo e dos actos sexuais, a arte erótica prefere os meios tens da penumbra, prefere a sugestão à revelação, as roupas em desalinho à nudez total. Não era assim das secções mais procuradas, mas que albergava escondidos alguns filmes interessantes.

Emmanuelle (Emmanuelle) 1974
A exótica Tailândia. É lá que Emmanuelle (Sylvia Kristel), uma linda e sensual modelo viaja para encontrar o marido diplomata, Jean (Daniel Sarky), bem mais velho do que ela. Ambos são bem tolerantes com os casos extraconjugais do outro. Embora Emmanuelle tenha aprendido muitas coisas sobre o amor com o marido, Jean acredita que ela se deva aventurar em novas experiências eróticas. Seguindo o conselho, Emmanuelle faz sexo com a filha da sua vizinha, mas é pela fotógrafa loira, Bee (Marika Green), por quem ela se apaixona.
"Emmanuelle" causou bastante agitação quando foi lançado em 1974, apesar de ser muito soft para os padrões de hoje em dia. É uma espécie de clássico de culto para quebrar muitos tabus, como o lesbianismo, os trios e o sexo duro. Normalmente recebe criticas favoráveis por ser considerado inovador, mas se for observado com um olhar crítico é um filme bastante pobre. Realizado pelo francês Justin Jaeckin, e protagonizado por Sylvia Kristel, que depressa se tornaria uma estrela, foi seguido por seis sequelas, todas de um nivel de qualidade pouco elevado.

O Império dos Sentidos (Ai No Korida) 1976
Japão, 1936. Sada (Eiko Matsuda), uma ex-prostituta, inicia um tórrido caso com Kichizo (Tatsuya Fuji), o seu actual patrão. O que parecia uma diversão inconsequente logo se transforma numa intensa relação regida pela obsessão do prazer. Para os amantes não existem fronteiras na busca do mais completo êxtase. É o amor louco.
Nagisa Oshima nunca foi um estranho para a controvérsia. Desde que começou a realizar filmes no final da década de cinquenta, que a sua inclinação esquerdista, política e filosófica, além de basear os seus filmes em eventos escandalosos da vida real, o colocavam em perigo, na rota de colisão com os censores. Um dos seus primeiros filmes, "Night and Fog  in Japan", foi retirado dos cinemas por razões políticas. No entanto, o seu filme mais famoso, apensar de nem estar entre os seus melhores, é este "O Império dos Sentidos", que juntamente com "O Último Tango em Paris", de Bernardo Bertolucci, e alguns filmes de Pier Paolo Pasolini, ajudaram a redefinir os limites da sexualidade, dentro de um certo "cinema de arte". Ao contrários dos filmes de Pasolini e Bertolucci, "O Império dos Sentidos" foi particularmente controverso por causa das suas representações gráficas da sexualidade, que ultrapassavam os limites das restrições legais sobre a "obscenidade" no Japão, razão pela qual parte do filme teve de ser filmado e montado em França.
Na altura colocava-se a questão: erótico ou pornográfico? Esse factor já foi ultrapassado passados tantos anos, mas continua a ser um filme actual.

Vícios Privados, Públicas Virtudes (Vizi Privati, Pubbliche Virtù) 1976
Os irmãos Sofia e Franz fazem parte da vida de escândalos de um jovem príncipe. Os três mantêm um relacionamento sob suspeita: Sofia pode ser meia-irmã do príncipe. Diz-se que a sua mãe, quando jovem, era amante do imperador. Um dia, eles inventam que é aniversário do príncipe e organizam uma grande festa, transformando o castelo no palco de uma orgia, com todos os jovens ricos do império. O resultado revela-se muito comprometedor.
Uma interpretação do histórico incidente de  Mayerling envolvendo um assassinato-suicidio escandaloso, do Príncipe da Áustria, herdeiro do trono do império Austro-Húngaro. Este filme de arte de Miklós Jancsó decide ir pelo mesmo caminho de uma histórica orgia de Ken Russell, ou pelo desfile de carne de Borowczyk.O príncipe e os seus convidados têm "threesomes", "foursomes" com um hermafrodita, violam o general, têm orgias selvagens, dançam nús todo o dia, enquanto conspiram para derrotar ou humilhar o imperador. A idéia artística é contrastar a juventude permissiva, sexualmente liberta com o antigo regime repressivo.
Passou no festival de Cannes em 1976.

Contos Imorais (Contes Immoraux) 1974
O filme conta 4 histórias, que por muitos são consideradas imorais:
- La Marée: Rapaz induz a prima adolescente ao sexo, numa praia deserta, durante a maré alta. 
Thérèse Philosophe: Em 1890, uma menina é trancada num quarto de castigo, e tem alucinações sexuais com santos.
Erzébet Báthory: Em 1610, uma condessa húngara usa as suas jovens súbditas para estranhos prazeres sensuais. 
Lucrezia Bórgia: em 1498, Lucrecia Bórgia visita o pai, o Papa Alexandre VI, e o seu irmão; o Cardeal Cesare e com eles mantém relações sexuais, enquanto o dominicano Savonarola é preso por denunciar a imoralidade dos religiosos, que também era pregada por São Jeronimo.
Walerian Borowczyk começou a sua carreira profissional como animador, mas assim que se formou começou a fazer o que eram chamados de "blue movies", mas, ao contrário de outros, ele não se considerava um pornógrafo, que os filmes que ele fazia se debruçavam sobre o território erótico. Era dificil de explicar a diferença entre os dois, sobretudo nesta louca década de setenta, tanto dava a perversões sexuais, mas, sobretudo, os filmes de Borowczyk, eram regados por uma certa classe e sofisticação, que o afastavam dos filmes então denominados de pornográficos.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Capítulo 9 - Guerra

O cinema soube alimentar-se das grandes e pequenas guerras da história da humanidade. Encenando os grandes conflitos onde se projectava a eterna e suprema luta entre o bem e o mal, o cinema encontrou um cenário onde o espectáculo ganha uma nova dimensão. Na década de 80, a que estamos a analisar, fazia-se o rescaldo da Guerra do Vietneme, e o cinema americano explorou este filão ao máximo, com filmes tão contemporâneos como: "Apocalypse Now", "Coming Home", "Deer Hunter", "Platoon", "Born on the Fourth of July", "Full Metal Jacket", entre muitos outros. Mas, o cinema de guerra no tempo do VHS não vivia só sobre esta guerra, havia muito mais guerras. Aqui está a nossa seleção para o nono capítulo.

Feliz Natal, Mr. Lawrence (Merry Christmas, Mr. Lawrence) 1983
Baseado no livro de Sir Laurens der Post, relata o tenso conflito entre brutais comandantes japoneses e os seus obstinados prisioneiros ingleses. O ano é o de 1942, e o mundo está em guerra. Feito prisioneiro pelos japoneses num campo de concentração na ilha de Java, o oficial britânico Jack Celliers (David Bowie), inicia um conflito quando resolve não acatar as regras ditadas pelo Capitão Yonoi), um cruel comandante japonês. Mas, entre eles está o Coronel John Lawrence (Tom Conti), um homem que tem um grande amor pela cultura e língua japonesa, mas que se torna uma ameaça por ser o único a entender ambos os lados.
"Merry Christmas, Mr. Lawrence" é uma curiosa produção internacional do inicio dos anos 80. Produzido por Jeremy Thomas, um produtor britânico de mentalidade internacional (habitual colaborador de Bernardo Bertolucci), e realizado pelo Japonês Nagisa Oshima, num registo bem fora do habitual, e um argumento escrito pelo próprio Oshima e pelo crítico britânco Paul Mayersberg a partir de um romance semi-autobiográfico do escritor sul-africano Laurens Van der Post, com um elenco que misturava actores britânicos com japoneses, como David Bowie, Tom Conti, Ryuichi Sakamoto (também autor da banda sonora), e Takeshi Kitano.
Era uma lógica comparação (e contraponto) ao famoso "A Ponte do Rio Kwai", de David Lean, um filme ao qual Oshima parece reagir activamente de encontro a uma tomada deliberadamente modernista sobre tensões em tempo de guerra, dando uma genuína ênfase no conflito cultural, de ambos os lados, e um desenlace que sugere que ninguém está verdadeiramente certo, nem verdadeiramente errado, o oposto ao heroismo de David Lean.

 A Grande Batalha (Cross of Iron) 1977
Uma frente de soldados alemães luta para sobreviver aos ataques soviéticos na Segunda Guerra Mundial, contando com a liderança do novo comandante, o condecorado oficial Steiner, que busca apenas uma coisa: a Cruz de Ferro para honrar sua família.
"“Cross of Iron” (ou A Grande Batalha, o muito inspirado título português) é o único filme de guerra de Sam Peckinpah e retrata um pelotão não americano, mas alemão, liderado por Rolf Steiner (James Coburn), durante a 2ª Guerra Mundial. Anárquico tematicamente mas, também, estilisticamente, “Cross of Iron” é o filme, formalmente, mais radical do seu realizador. Violento, sim, mas anti-violência como (acredite-se ou não) todo e qualquer filme de Peckinpah: Orson Welles, depois de ter visto o filme achou-o o melhor filme anti-guerra alguma vez feito (pode não o ser, mas estará lá perto). Fora isso, é um “chupem-me” à montagem e narrativas tradicionais e aos produtores e estúdios que tanto atormentaram Peckinpah. E a Hitler, também, claro está.." Tirado daqui
Aconselho também uma leitura sobre este filme, daqui.

Fuga Para a Vitória (Victory) 1981
Num campo alemão de prisioneiros de guerra o major Karl von Steiner (Max Von Sydow), que já tinha pertencido à seleção alemã de futebol, tem a idéia de fazer um jogo entre uma seleção dos prisioneiros aliados, liderados pelo capitão John Colby (Michael Caine), um inglês que era um conhecido jogador de futebol. Colby também teria a tarefa de selecionar e treinar a equipa, para enfrentar a selecção alemã no Estádio Colombes, em Paris. Enquanto os nazis, com a excepção de Steiner, planeiam fazer de tudo para vencer o jogo e assim usar ao máximo a propaganda de guerra nazi, os jogadores aliados planeiam uma arriscada fuga durante a partida. 
O projecto original era um drama sério, baseado na história verídica de um grupo de prisioneiros de guerra aliados desafiado para uma partida de futebol pelos alemães. O acordo era que se os alemães ganhassem os prisioneiros de guerra eram libertados na Suiça. Se fossem os prisioneiros a ganhar, seriam fuzilados. Os prisioneiros decidiram pela vitória, ganharam a partida, e, consequentemente, foram fuzilados.
Realizado por John Huston, já em periodo final da sua carreira, contava com um elenco de estrelas, formado por actores e jogadores de futebol reais, como Pelé, Bobby Moore, Osvaldo Ardiles, John Wark, entre outros. Sylvester Stallone também fazia parte do elenco, como guarda-redes dos aliados. Já era na altura uma estrela em ascenção, em parte por causa do êxito de "Rocky", e insistiu para que fosse ele a marcar o golo da vitória, e o elenco de jogadores de futebol tentou convencê-lo do absurdo que seria o guarda-redes marcar o golo da vitória, mas era apenas para massajar o seu ego. 
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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Violência ao Meio Dia (Hakuchû no Tôrima) 1966

Baseado numa história da vida real, Nagisa Oshima analisa o caso do brutal violador Eisuke (Kei Sato), retratando a sua relação com a esposa protectora Matsuko (Akiko Koyama), e a sua última vitima Shino (Saeda Kawagushi). Apesar de viverem num ambiente rural, as cruéis condições de vida que os três personagens principais têm de enfrentar, são retratadas como sendo igualmente abomináveis para as actividades do próprio violador, cujas acções revelam a deterioração amoralidade e corrupção que a sociedade moderna se tem afundado.
Retrato perturbador do pós-guerra do Japão, que deve muito aos filmes de Alain Resnais e Robert Bresson, em termos da sua estrutura não-linear, e o fascínio pela actividade amoral de cidadão "outsider". Agora já bem estabelecido como um dos nomes mais importantes para a Nova Vaga do Cinema Japonês, Nagisa Oshima frequentou a escola de cinema em França, e a sua abordagem fragmentada da narrativa, e as críticas mordazes da sua sociedade nativa na época da ocidentalização eram a antítese do cinema humanista de realizadores como Yasujiro Ozu ou Akira Kurosawa. Vendo o filme tantos anos depois do seu lançamento fica a idéia de que o realizador teve influência em provocadores cinematográficos posteriores, como Nicolas Roeg, Donald Cammell ou Olivier Assayas.
O argumento de Takseshi Tamura, a partir de uma história de  Taijun Takeda, salta para trás no tempo para mostrar como o assassino teceu uma teia sensual em torno das mulheres. Oshima e Akira Takada usam inventivas técnicas com a câmara para reflectir os múltiplos pontos de vista, e o sentimento que as mulheres partilham. Não é dos filmes mais conhecidos do realizador, mas é uma pérola a descobrir.

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sábado, 7 de maio de 2016

O Enterro do Sol (Taiyô no Hakaba) 1960

Na favela de Osaka a juventude sem futuro envolve-se em assaltos, prostituição, compra e venda de bilhetes de identidade e de sangue. As alianças mudam constantemente.  Tatsu e Takeshi, amigos desde a infância, relutantemente juntam-se ao gang de Shin. Shin muda o seu gang muitas vezes para evitar o grande chefe local. Vão cruzar com Hanoko, uma jovem de grande ambição. Primeiro ela anda no negócio da venda de sangue, mas acaba por se juntar a Shin.
Um dos vários filmes que Nagisa Oshima fez sobre a juventude descontente do início dos anos sessenta, "Enterro do Sol" traça a rivalidade entre vários gangues nas favelas e guettos de Osaka. Fragmentado e elíptico, é passado num mundo de soluções a curto prazo, com gerações a esperarem pela próxima catástrofe, certos de que a terceira guerra mundial surgirá tão repentinamente como a segunda. Tal como os filmes de Pasolini do mesmo período ("Accatone", "Mamma Roma"), há algo de redentor nesta subclasse criminal - usam uma espécie de código de honra feudal - mas é muito mais fugaz e provisório. Talvez porque os adolescentes eram um animal tão raro no cinema japonês até ao momento, os filmes sobre jovens sem futuro deste período sentiam que realmente podiam resgatar estes adolescentes, como se o legado mais vergonhoso da derrota japonesa fosse o aumento da cultura adolescente, regredindo a nação para uma nova era, impulsionada pela ícone de culto Kayoko Hanoo, a actriz principal deste filme.
Oshima oferece-nos aqui um retrato perturbador de um Japão do pós-guerra amoral e arruinado, como ele retrata o caos, com pessimismo e perda de nacionalismo, a perda da identidade japonesa e a perda da cultura no rescaldo da guerra. É um estudo contundente da decadência do Japão no pós-guerra. O Sol enterrado do título do filme é o mesmo da bandeira imperial japonesa, e indicava o estado de desespero do Japão moderno.

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Cerimónia (Gishiki) 1971



Os flashbacks de Masuo no tempo presente, permite-nos visualizar a fortuna da familia Sakurada, onde Masuo pertence, e por sua vez, isso reflecte a história do pós-guerra do Japão: tal é a intenção ambiciosa de "Gishiki". É um filme complicado no seu conteúdo, quase underground. Começa com Masuo (Kenzô Kawarasaki) e o primo Ritsuko (Atsuko Kaku) a fazerem planos urgentes para viajar para uma ilha ao largo da costa de Kyushu para descobrirem se alguém chamado Terumichi cometeu suicídio. Oshima não nos dá qualquer indicação de quem é este Terumichi excepto Masuo afirmando na sua narração em voiceover que se Terumichi não tivesse entrado nas suas vidas, eles agora seriam umas pessoas diferentes. A partir daqui, Oshima conta-nos a história em flashbacks para preencher as lacunas.

O filme acompanha o destino e os infortúnios da família Sakadura desde 1946 até à década de realização do filme, através das diversas cerimónias que vão tendo lugar: funerais, casamentos e reuniões. Através do uso magistral dos flashbacks, Oshima revela o passado negro dos Sakadura - expondo os seus antecedentes comunistas e militaristas, os criminosos de guerra e os empresários arrivistas, os atletas ilustres e os patriarcas suicidas – e a sua contribuição para a ascensão económica, bem como para o escalar de um sentimento de embaraço social que grassou no Japão do pós-guerra.
A lógica narrativa fragmentada, apoiando o interrogatório social e representações sublimadas da sexualidade pervertida, "Gishiki" é uma sátira provocadora sobre a natureza amorfa da moderna identidade japonesa que só poderia ter sido forjada na esteira da crescente desilusão de Nagisa Oshima, com a impotência do movimento de esquerda. Este sentimento de destino frustrado e sentido ambivalente dão lugar em uma rápida alteração da paisagem social. 
 Legendado em inglês.

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quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Menino (Shônen) 1969



O rapaz (Tetsuo Abe) tem 10 anos de idade. Ele viaja por todo o país com o pai (Fumio Watanabe), a madrasta (Akiko Koyama) e um jovem irmão (Tsuyoshi Kinoshita). O pai reclama que os ferimentos da guerra, e os diabetes, o impedem de trabalhar, então encontra uma maneira de gerar dinheiro. A madrasta atira-se para a frente de carros que vão a passar e finge-se magoada, para o pai intimidar o motorista para lhe dar um valor em dinheiro. Até que um dia a madrasta fica mesmo lesionada, e descobrem que o rapaz é uma vítima mais rentável...

A trémula bandeira japonesa flutua num silêncio impotente contra um fundo em Technicolor, as paisagens urbanas, lançando um olhar triste no declínio da inocência e a perda de identidade no Japão do pós-guerra. A assustadora ocidentalização destruiu uma geração de pessoas, enquanto eles se afundam num mal estar e desilusão. Estas não são imagens e temas que não sejam familiares à obra de Oshima, ele próprio à deriva, tentando descobrir um sentido, ou propósito maior para o estado alienado das pessoas no seu país. O povo japonês dos anos sessenta era um povo derrotado, sem algum senso de identidade. Oshima mais uma vez foi buscar inspiração a uma história verdadeira, e canalizou nela o sofrimento da sua geração. Os pais são levados para a exploração dos seus próprios filhos para satisfazer as suas necessidades materiais.
"Shonen" não é necessariamente uma chamada para as reformas do bem estar social, como as atrocidades realizadas por causa do materialismo não são um indicativo para as necessidades de sobrevivência. É uma lamentação das prioridades causadas pela ocidentalização. No fundo estas pessoas estão desesperadamente à procura de refúgio, mas os seus esforços são dificultados pelo impacto do mal estar, e o abrigo que procuram ainda não existe. 
Legendado em inglês. 

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quarta-feira, 11 de junho de 2014

O Enforcamento (Kôshikei) 1968



De acordo com uma sondagem feita em 1967 no Japão, pelo ministro da justiça, 71% das pessoas eram contra a abolição da pena de morte, 16% a favor, e 13% não sabiam. Mas aqueles que se opunham à abolição, alguma vez viram uma câmara da morte? Já assistiram a uma execução ao vivo?
Nagisa Oshima não perde tempo em comunicar a sua opinião sobre a pena de morte, e, de seguida, narra-nos em estilo de documentário uma viagem por uma câmara de execução, enquanto um condenado à morte é guiado ao local para ser enforcado.

O filme é inspirado no caso de Ri Chin’u, um pobre mas imensamente talentoso coreano, que matou duas jovens no que é curiosamente conhecido como incidente Komatsugawa High School, em 1958. O filme começa com a tentativa de execução de um jovem de 22 anos de idade, não muito diferente de Ri Chin’u, que vamos conhecer apenas como  R (Yun-Do Yun), e que foi considerado culpado de violação e assassinato de duas jovens quatro anos antes. R é, de facto, enforcado, mas permanece vivo no final do acto, com o pescoço muito intacto. E assim seguimos, de modo muito satírico, os esforços do comité de execução decidirem o que fazer a seguir. R sobreviveu, e perdeu a memória de quem realmente é, e o grupo não é capaz de decidir se é capaz de enforcar uma pessoa que não está ciente das suas capacidades mentais.
O filme foi lançado em 1968. Quase uma década depois dos acontecimentos de Ri Chin’u, e apenas duas décadas depois do Japão ter retirado as suas tropas da Coreia. Oshima, corajosamente, levanta a sua voz contra a pena de morte, e contra o racismo praticado pelas autoridades, o preconceito contra os coreanos, que era igual ao da sociedade japonesa. Mais de 40 anos passados, o Japão mantém a prática da execução institucional (tal como os Estados Unidos), mas as relações com a Coreia melhoraram bastante (e até a pena de morte pode chegar a um ponto de inflexão nos próximos anos).
Este não é tanto um filme de género, e mais um filme de "auteur" . Não tenta lidar com as questões que confrontam a vida na prisão, e parece, à primeira vista, ser uma sátira à pena de morte, e a todos que se opõem à sua abolição. Mas no curso dos acontecimentos, o filme vai passar do documentáro à fantasia surrealista, em gradações cada vez maiores, e passará a tratar de questões da política sexual, raça, religião e identidade. Apesar do incremento da paródia, cada vez mais absurda, Oshima insiste na realidade. Ele nunca nos conduz directamente para a comédia/tragédia, e por isso a mensagem do filme mantém-se forte.
Legendas em inglês.

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terça-feira, 10 de junho de 2014

Contos Cruéis da Juventude (Seishun Zankoku Monogatari) 1960



Kiyoshi é um jovem mal-humorado que trata as mulheres como objectos. Makoto é uma jovem que está a passar pelo seu despertar sexual. Ela e as amigas aceitam boleias de homens mais velhos, embora afirmem que não seja mais do que diversão, e não pretendam ter algo sério com eles. Kiyoshi e Makoto conhecem-se quando ele a salva de um desses homens de meia idade, quando este tenta abusar dela. Apesar de se tratarem de forma abusiva, começam uma relação que os lava até aquilo que eles chamam de amor, mas que parece mais como uma dependência emocional, e uma vontade de se rebelarem contra a sociedade tradicional.
Um filme que ilustra a disconexão entre a juventude rebelde e as influências inconscientes que ajudaram a moldar a cultura japonesa nos anos 60. Era uma altura de reconstrução do pós-guerra e uma geração de jovens que estava preparada para definir os padrões do seu próprio mundo. Pela sua exuberância juvenil, os personagens de "Contos Cruéis da Juventude" são incapazes de escapar à influência Ocidental, para preencher o vazio cultural deixado por uma rejeição reacionária, de todas as coisas pré-modernas. Eles, essencialmente, selam o seu próprio destino, adoptando estereótipos da cultura pop, dos filmes americanos, e da música americana, para tentar criar uma identidade própria. Há uma ironia profundamente enraizada na rebelião dos jovens, que neste filme não podem ver as consequências fatalistas de noções românticas da cultura ocidental com a natureza delicada e impressionável de uma sociedade em fase de reconstrução. 
Oshima compreendia o mundo onde estes jovens viviam. Tinha apenas 28 anos, e o seu idealismo era temperado pela natureza pensativa que podia encontrar as contradições em ambos os lados da barricada, e possui duas filosofias aparentemente opostas, simultaneamente, e sentia a alienação entre as gerações mais velhas e o movimento estudantil. Por isso este filme é geralmente considerado o "à Bout de Souffle" do cinema japonês.
Legendas em inglês.

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Legendas
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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uma Cidade de Amor e Esperança (Ai to Kibô no Machi) 1959


Masao parece ter o mundo inteiro contra ele. O pai morreu, a mãe está doente, e a sua pequena irmão tem uma deficiência mental, e passa a maior parte do tempo a brincar ou desenhar figuras de animais mortos. Masao é um jovem brilhante, mas vê-se na obrigação de arranjar um trabalho para sustentar a família. Ele quer trabalhar, mas a mãe acha que ele deve continuar a estudar para arranjar um trabalho melhor no futuro. Masao faz tudo para trazer algum dinheiro para casa, inclusive vender os pombos de estimação da irmã. No entanto, a venda dos pombos é uma farsa, já que depois de vendidos os pombos regressam a casa, o que faz do negócio ilegal...
Na sua estreia como realizador, Nagisa Oshima apresenta uma análise escaldante e provocante, das pessoas socialmente habilitadas, das interelações entre a pobreza e o crime. Embora fosse um estreante, Oshima já tinha trabalhado com um realizador experiente, como Keisute Kinoshita. Os filmes de Kinoshita na década de 50 eram filmes feministas, eram mitos sobre a bondade humana, o amor romântico e a justiça paternal. Oshima viria a subverter os elementos familiares do melodrama, inaugurando uma direcção artística que incentivava a criatividade não tradicional, e o experimentalismo que viria a definir a futura "new Wave". É interessante notar que a obsessão mórbida da irmã de Masao por animais mortos dá uma impressão do que se tornaria um elemento recorrente nos filmes de Oshima: a repressão, a aberração psicológica profundamente enraizada que se manifestava no incompreensível, e no comportamento muitas vezes destrutivo. O filme é também um documento realista, duro e sentimental, sobre a disparidade da classe social e a inevitabilidade da pobreza.
Legendas em inglês.

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domingo, 8 de junho de 2014

Nagisa Oshima

Nagisa Oshima, mais conhecido como realizador de "O Império da Paixão", "O Império dos Sentidos" e "Feliz Natal, Mr. Lawrence", estava na vanguarda dos realizadores da nova vaga do cinema japonês que emergiram nos anos 60, e que ficaram conhecidos por abordar temas como a pena de morte, racismo e homossexualidade. Inicialmente trabalhou para os estúdios Shochiku Co., mas desistiu depois do distribuidor ter retirado de circulação o seu filme "Noite e Nevoeiro no Japão", com a acusação de desunião com o movimento de esquerda do país, apenas três dias depois do seu lançamento.
 Oshima é o mais importante representante da sua geração, da qual fazem parte nomes como Shohei Imamura, Seijun Suzuki e Hiroshi Teshigahara. Ao contrário dos seus conterrâneos franceses, a maioria destes realizadores veio do Studio System, como aprendizes tradicionais de realizadores importantes (como Ozu e Mizoguchi), até se rebeliarem contra os estilos de filmagem mais contido dos seus mestres.
Ninguém empurrou tanto esta nova vaga como Oshima, que na sua rejeição pelo cinema clássico japonês, retratou uma nova geração amoral de punks, gangsters e bandos juvenis. As imagens gentis do pós-guerra dos filmes a preto e banco de Ozu, dão lugar às explosões de cor dos filmes de Oshima, penteados orientais e roupas elegantes, mostrando o quanto havia mudado o Japão nos anos 50.
Outros realizadores foram comparados com Jean-Luc Godard, mas neste caso, a comparação é apropriada. Não só nos primeiros filmes de Oshima, e nas suas preocupações, mas os dois vieram para a relização do mesmo modo, começando ambos como críticos. Como Godard, Oshima também escrevia os seus próprios argumentos e era um mestre nos diálogos de improviso.
Neste ciclo, vamos deixar de lado os filmes mais conhecidos do realizador, e vamos abordar a primeira fase da sua carreira, a fase de rebelde. Vamos deixá-lo no início da década de 70, depois de ter realizado mais de 30 obras na década de 60, para o cinema e para a televisão. A nossa escolha para esta semana vai ser a seguinte:

Segunda: Street of Love and Hope (1959) - primeiro filme do realizador

Terça: Cruel Story of Youth (1960)

Quarta: O Enforcamento (1968)

Quinta: Shonen - The Boy (1969)

Sexta: A Cerimónia (1971)

Todos os filmes são bastante raros, por isso serão apresentados com legendas em inglês.