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domingo, 9 de julho de 2017

Destino (Yazgi) 2001

Musa, um contador que trabalha com a alfândega, acredita no vazio e no absurdo da existência. Ele não luta para mudar a vida, deixa-se levar, juntamente com os acontecimentos porque acha que tudo segue para o mesmo fim. A morte da sua mãe não o afecta. Embora ele a ame, a sua morte não o deixa triste. E este facto vai ter consequências pesadas no seu futuro.
O primeiro filme da trilogia de Zeki Demirkubuz "Tales About Darkness" é vagamente baseado numa obra de Albert Camus de 1942, "L’Étranger", com a história a ser bastante alterada, embora a intertextualidade com Dostoyevsky seja um elemento comum em ambas as obras. A noção de liberdade e a consciência de liberdade com fontes de sofrimento que podem cessar o custo do sofrimento humano são parte integrante deste trabalho de Camus. 
Demirkubuz cria o seu filme dentro da realidade sócio-política da Turquia. Musa é o arquetipo do cidadão comum, apolitizado no rescaldo de várias intervenções militares. Vive entre a casa e o trabalho, sem questionar a razão que está por trás das coisas. Quando o seu vizinho lhe pede para escrever uma carta para atraír a namorada com o fim de lhe "ensinar uma lição" ele concorda em evitar o confronto sem reflectir sobre as consequências da acção sobre a mulher. Preso pelo crime de outra pessoa, Musa não se defende. Porquê lutar por uma injustiça quando não se tem confiança no sistema de justiça? A violência e a miséria tornam-se a rotina com a invasão do espaço privado pelos ecrãs de televisão. Enquanto Musa observa o ecrã da televisão sem emoções, a câmera de Demirkubuz vira-se para janela e os pobres a procurarem por comida no lixo aparecem como uma imagem borrada, que não é notada por Musa.
O filme é rodado num estilo minimalista, com muito poucos movimentos de câmera. Começa com Musa a abrir a porta do seu apartamento e a luz a acender-se, e termina com a luz a apagar-se. A porta é algo essencial nos filmes de Demirkubuz, assim como nos de Nuri Bilge Ceylan. Aparece como um objecto que faz conexão com o que está fora e o que está dentro. Pode proibir a rua, ou pode proibir a sala num sistema de tradições e proibições.

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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Inocência (Masumiyet) 1997

Entre as paredes em ruínas de hotéis degradados, bares sórdidos e cidades esquecidas, três párias, prisioneiros do seu amor, vivem uma roda-viva. Um deles é uma prostituta, o segundo o seu chulo/guarda-costas e outro um jovem ingénuo, recém saído da prisão, mas que está preso num círculo de fogo. A miséria das suas vidas só é mais intensa à medida em que se apegam a coisas que nunca tiveram. A sociedade tem voltado as costas para os três, Bekir, Ugur e Yusuf, mas eles continuam procurando o amor nos lugares mais improváveis.
Do título do filme à narrativa, o realizador
Zeki Demirkubuz, no seu filme revelação, questiona os valores morais de uma sociedade masculinizada, ressalvando a sua variabilidade. Ironicamente a "honra" da dona de casa oprimida é a a sua maldição, enquanto que o seu trabalho "sexual" é a sua libertação. O encontro de Yusuf com a família é crucial na sua transformação de um homem que mata pela honra da família a um homem disposto a se tornar proxeneta de uma prostituta e a recompor a família, se ela aceitar. Embora os julgamentos morais permaneçam constantes, ele adquiriu compaixão. 
Evocando a intensidade emocional de um filme de Ingmar Bergman com a combinação idiossincrática de humor discreto e melodrama, "Inocência" é elegante, incrivelmente complexo e um estudo minucioso de obsessões. Mas, para além da obsessão psicológica que define a interminável jornada de Bekir e Ugur para lugar nenhum, o enquadramento da sua relação através da sua perspectiva da inocência, primeiro através da criança muda de Ugur, e depois através do bem intencionado Yusuf, Demirkubuz apresenta um retrato intrigante, não só de uma personalidade flexível, mas também da hipocrisia inerente aos relacionamentos abusivos, onde a crueldade é racionalizada por uma sensação de vitimização indefesa.

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