Mostrar mensagens com a etiqueta Martin Ritt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Martin Ritt. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de outubro de 2017

Um Homem (Hombre) 1967

"Paul Newman é um homem branco raptado em criança pelos Apaches e criado com os da sua raça.Tendo herdado a pobreza e regressado aos brancos, descobre-se numa diligência no Novo México com um grupo variado que incluí Diane Cilento como uma viúva divertida, Fredric March como um corrupto agente dos assuntos indios, e Martim Balsam como o cocheiro mexicano da diligência. A meio da jornada são assaltados por um bando ligado a outro passageiro, Richard Boone. Newman, demonstrando o seu treinamento Apache, mata dois dos bandoleiros mas não vê razão para dar mais assistência aos viajantes, já que alguns deles deixaram claro o seu ódio pelos índios.
"Um Homem", de Martin Ritt, exibe muito do sentimento liberal que se tornou um lugar-comum nos westerns dos anos sessenta e depois, mas a retórica fica em segundo plano relativamente ao agravar das tensões entre as personagens, à medida que o jogo do gato e do rato entre o bando e os seus prisioneiros se desenvolve. Newman é excelente como um John Russell gelidamente autocontrolado, cuja dualidade ética lhe dá uma visão muito especial do preconceito racial, e Richard Boone, como o seu adversário, afasta-se jovialmente da hipocrisia dos cidadões mais respeitáveis." Texto de Edward Buscombe  
O elenco de luxo contém ainda nomes como Cameron Mitchell, Barbara Rush e Frank Silvera.

Link
Imdb

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ultraje (The Outrage) 1964

Numa estação ferroviária do sudoeste americano na década de 1870, três homens: um ex-presidiário, um padre e um prospector, trocam histórias sobre o julgamento de um criminoso mexicano, condenado à forca pela violação a uma mulher e o assassinato do seu marido. Três testemunhas estão nesse julgamento, o acusado, a vítima e um velho índio, que contam versões amplamente divergentes sobre o que aconteceu, e pelo que os homens falam na estação, há mais versões. Na restituição do incidente, que vai do realismo ao humor físico, a natureza da verdade e a natureza humana são examinadas. 
"The Outrage" (1964) é um remake de um conhecido filme de grande realizador japonês, Akira Kurosawa: "Rashomon" (1950), que ganhou um Óscar para melhor filme em língua estrangeira. Os argumentistas Michael e Fay Kanin transformam a história numa peça, mantendo o cenário medieval. Durante a sua exibição nos palcos em 1959, Rod Steiger interpretava o violador, e a sua então esposa Claire Bloom, era a mulher enganada. Esta versão cinematográfica era transportada para o grande ecrã por Michael Kanin, com Martin Ritt atrás das câmaras, mundando-se o cenário para o velho Oeste, e a personagem do samurai para um fora da lei do sul da fronteira, entregando-se o papel principal a uma estrela da bilheteira, Paul Newman. Ao seu lado estava um elenco recheado de estrelas: Laurence Harvey, Claire Bloom, Edward G. Robinson e William Shatner. 
Curiosamente, "The Outrage" era um dos filmes preferidos de Newman, que foi um papel onde ele investiu muito para expandir os seus horizontes além das personagens americanas urbanas, com as quais ele era mais conhecido. O actor viajou para o México, e esteve um tempo considerável entre a população daquele país, como forma de se preparar para esta personagem, e aprender o sotaque. A maioria dos críticos considerou que a sua interpretação era de tal forma exagerada e o seu sotaque tão forçado, que quase se podia considerar uma paródia aos vilões mexicanos. No entanto, Newman continuou a considerar este um dos seus melhores desempenhos, provavelmente por causa da sua atração pela bravura da personagem.

Link
Imdb

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Hud: O Mais Selvagem Entre Mil (Hud) 1963

Hud Bannon (Paul Newman), é um jovem implacável que deixa marcas em tudo o que toca. Hud representa a encarnação perfeita da juventude em fúria, capaz de entrar em qualquer briga sem medir as consequências. Há um amargo conflito entre o insensível Hud e o seu pai Homer, um homem severo e altamente fundamentado. O sobrinho de Hud, Lon, admira a rebeldia de Hud, embora se dê conta da amoralidade que acompanha o seu tio. 
Protagonistas pouco simpáticos nunca foram estranhos para os ecrãs americanos quando "Hud" viu a luz do dia, em 1963. Na década de 30, James Cagney tinha construído uma carreira à custa de criminosos carismáticos, e Clark Gable (cujos primeiras obras inspiraram Martin Ritt e os argumentistas deste filme) muitas vezes interpretava personagens que se encontravam do lado errado da lei. Mas como Ritt observava, Gable era sempre convertido perto do final do filme, e sobrevivia, e os personagens de Cagney, bem mais perversos e brutais, acabavam por ser punidos ou mortos. Parecia que o cinema americano não estava disposto a apresentar um rebelde que não estivesse disposto a se apresentar e curar, até que apareceu "Hud", apresentando um personagem amoral do princípio ao fim do filme.
"Hud" também abordava uma mudança na sociedade americana, e um novo cinismo sobre o nosso modo de vida, e as pessoas que nela alcançam sucesso. Na história, o velho Homer Bannon,,um rancheiro respeitável e com princípios, cujo mundo desmorona em torno dele, adverte o seu neto sobre os perigos de admirar o seu outro filho, Hud. Homer diz-lhe que a nossa percepção do mundo muda conforme as pessoas que admiramos, adivinhando a queda da inocência do jovem e um passo para o que muitos vêm como a sociedade corporativa, cada vez mais popular.
"Hud" era um de vários westerns modernos, que lamentavam a morte do mundo aberto e livre do velho Oeste, e os seus códigos de ética. Filmes como "The Lusty Men" (1952) e "Lonely Are the Brave" (1962), eram centrados na figura de um robusto herói masculino individualista destruído por um mundo que o deixava para trás, com pressa em direcção ao progresso. Mas neste fillme, é esse robusto individualista que se recusa a comprometer-se, o que é mostrado como a sua força mais destruidora. 
O que era mais incrível nesta caracterização, foi o facto de ter levado à tela a estrela mais popular dos seus dias, Paul Newman, e era apresentado com desempenhos sensíveis e atraentes, não só da parte de Newman como também do restante elenco (Patricia Neal e Melvyn Douglas ganharam Óscares). Newman ficou consternado ao ver como os mais jovens receberam o filme. Em vez de odiarem Hud viram nele uma personagem carismática e atraente, transformando-se num ídolo para a juventude transviada. Martin Ritt, o realizador, não gostou do que viu, e considerou ter cometido um erro na sua representação. A história estava prestes a ultrapassar as exigências morais do cinema, sinais de que o cinismo, e o respeito pelos egoístas estavam a tornar-se nos novos padrões.

Link
Imdb

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Paixões Que Escaldam (The Long, Hot Summer) 1958

Depois de ser obrigado a deixar uma cidade por ser considerado, sem provas, um incendiário, Ben Quick manda-se pela estrada fora. Então, vai parar a uma pequena cidade onde passa a viver, e onde acaba por ter uma ascensão meteórica após se envolver com uma mulher e cair nas boas graças do líder da cidade.
"The Long, Hot Summer" é uma adaptação de duas histórias curtas, e de uma longa de William Faulkner, todas fundidas num único argumento. Continua a parecer uma obra de Faulkner, mantendo a atmosfera, a ironia, e a sensação de calamidades que caracterizam o seu trabalho. Paul Newman é impecavelmente escolhido como protagonista, no filme onde conheceria a mulher da sua vida, Joanne Woodward, com quem passaria o resto da sua vida, e provavelmente um dos casamentos mais longos de Hollywood (50 anos). Mas seria Orson Welles quem levaria realmente o filme a bom porto, no papel de "big man in town". Welles numa interpretação tão brilhante que ultrapassa mesmo a de Newman.
Parte da atração do filme, reside em assistirmos no grande ecrã ao inicio desta paixão tão duradoura entre Newman e Woodward, que depressa passou para a vida real, tendo os dois casado pouco tempo depois das filmagens terem acabado, assim como as tensões entre todos os personagens.
Seria a primeira colaboração entre Martin Ritt e Paul Newman, uma colaboração que se iria estender por mais alguns filmes. Ritt tinha sido colocado na lista negra de Hollywood, e estava com extrema necessidade de provar que era um realizador capaz de criar êxitos de bilheteira, e "The Long, Hot Summer" chegou em óptima altura, iniciando uma colaboração que se iria prolongar por mais alguns anos, durante a década de sessenta, como "Paris Blues", "Hud", "The Outrage", e "Hombre".

Link
Imdb

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Norma Rae (Norma Rae) 1979



Norma Rae (Sally Field) é uma viúva corajosa, de 31 anos (o marido morreu numa briga de bar), com dois filhos (um dos quais é ilegítimo), que não tem uma educação formal mas possui um bom senso comum. Ela é uma trabalhadora de salário mínimo numa pequena fábrica têxtil no sul dos Estados Unidos, com condições de trabalho deploráveis (o filme é rodado no Alabama).  O pai, um operário da fábrica (Pat Hingle), morre por falta de atendimento médico adequado, enquanto a mãe (Barbara Baxley) fica surda com o ruído excessivo dos equipamentos da fábrica. Os donos da fábrica recusam-se a permitir que os trabalhadores da fábrica possam ter um sindicato, para resolver as suas queixas, mas aparece em cena um agressivo intelectual e liberal chamado Reuben (Ron Leibman), que vai fazer dupla com Norma Rae, que apesar de comportamentos opostos fazem um relacionamento platónico, ganhando a aceitação da união dos trabalhadores, apesar de contrariarem os patrões.
Muitas pessoas provavelmente reviraram os olhos quando Sally Field foi anunciada como protagonista de um filme de Martin Ritt sobre o sindicalismo, e a luta pelos direitos dos trabalhadores. Por esta altura, ela era uma ilustre desconhecida, conhecida mais pelo papel na série "The Flying Nun", que protagonizou entre 1967 e 1970. Acabaria por se tornar numa enorme revelação em "Norma Rae", com um desempenho maravilhosamente doce, mas de aço, que lhe iria valer o primeiro Óscar da sua carreira, e transformar-se numa actriz de primeiro plano, onde se manteria por alguns anos.
"Norma Rae" tocou muitos corações quando foi originalmente estreado, e parte do seu sucesso deveu-se à prestação incrível de Sally Field. Em 1978 a verdadeira Norma Rae (Crystal Lee Jordan) fez pela indústria têxtil do sul dos Estados Unidos, o que Erin Brockovich fez pelas vítimas da  PG&E em Hinkley. A sua coragem chamou a atenção de dois jovens produtores de Hollywood, que ficaram obcecados por contar a sua história. A personagem do título, Norma Rae, é uma amálgama das mulheres da pequena cidade, que arriscaram tudo por uma vida melhor. Depois de muitas actrizes terem recusado o papel (incluindo três que vieram a concorrer contra si na corrida aos Óscares desse ano), este acabaria por ficar, e muito bem, nas mãos de Sally Field.
Mais de três décadas depois, continua a ser um lembrete histórico sobre as condições de trabalho num passado bastante recente. Mas para lembrar também que os sindicatos, representados aqui por Reuben Warshawsky, continuam a arriscar a sua própria segurança para introduzir os conceitos de União aos trabalhadores hesitantes de todo o mundo. 
 

E agora a visão sobre este filme, do Bruno - convidado do M2TM:



Há filmes que usam a fantasia para nos fazer reflectir sobre a vida. Há outros que se confundem com a própria vida ao ponto de parecer um documentário. Este é um deles.

Norma Rae, mulher, trabalhadora têxtil, é a personagem principal que dá nome ao filme. Do nada, como se algo pudesse surgir do nada, um sindicalista chega à cidade decidido a organizar os trabalhadores da fábrica de algodão. Neste homem, Reuben Warshowsky, podemos vislumbrar o espectro de Tom Joad, de Vinhas da Ira, que não era nem mais nem menos do que um operário em construção que no final do filme parte em luta, desaparecendo no horizonte como quem se dissolve num colectivo de luta pelos explorados, os humildes, a classe trabalhadora. O espectro de Tom Joad vive onde quer que se lute e, em Norma Rae, reaparece corporizado no sindicalista Reuben Warshowsky, pois nada surge do nada e ninguém nasce revolucionário. Aprende-se.

O filme aborda imensos pontos importantes relativamente à vida dos trabalhadores, mas nem sempre explícito, e acredito que haja muitos que possam assistir a este filme sem notarem na sua riqueza como obra documental e formativa. Documental na descrição de situações como a segurança no trabalho, violência e submissão patriarcal e patronal, preconceito anti-comunista, uso do álcool para entorpecer as mágoas após a saída da fábrica, racismo...; formativa, no sentido em que oferece elementos de como se cria e se desenvolve a organização dos trabalhadores através de um sindicato. Não basta reconhecer que a união faz a força, é preciso muito mais.
  • é preciso muito trabalho, que resulta frequentemente em prejuízo próprio e familiar, coragem, sobretudo dos activistas;
  • é preciso reconhecer que esses activistas trabalham muitas vezes em grupos muito pequenos e com aparente falta de solidariedade dos demais;
  • é preciso perceber que a luta faz-se de avanços e recuos, tal como acontece no filme quando um arrojo dos trabalhadores tem como retaliação o aumento de horas dos turnos;
  • é preciso persistência, pois os resultados das lutas nem sempre são óbvios ou imediatos; 
  • é preciso ter atenção aos provocadores e a boatos que surgem com o objectivo dividir e confundir os trabalhadores;
E muito mais, mas fica para a atenção do espectador.

Contudo, há um elemento fundamental deste filme do Ciclo e, para vos ajudar a perceber do que falo, vos conto uma pequena história.

Um dia, na Festa do Avante, tive finalmente oportunidade de conhecer o Rui – só mais um anónimo chamado Rui. Uma amiga foi chamá-lo para que nos conhecêssemos. Ele estava muito ocupado, mas para podermos conversar um bocado interrompeu por 10 minutos a sua tarefa subversiva: descascar batatas. Foi então que na minha ainda muito insipiente militância reparei no óbvio: descascar batatas era um acto revolucionário! Depois, claro está, ficou por compreender o que faz uma acção tão comum do nosso dia-a-dia ganhar a qualidade de revolucionário. O filme de hoje ajuda a compreender: que coisa faz com que uma acção ganhe caracter revolucionário?

Nesta sociedade onde a substância tente a reduzir-se ao espectáculo e entretenimento, também no cinema se caí na tendência de se destacar as cenas mais espectaculares, tais como uma revolução, um massacre, um grande discurso ou um acto heróico, mas, o filme Norma Rae tem a virtude de enfatizar o cariz revolucionário das pequenas acções do dia-a-dia. Tal como o Rui, ou qualquer outro revolucionário digno desse nome, se vê como Norma Rae a realizar num conjunto imenso de tarefas rotineiras, burocráticas, aborrecidas, cansativas, mas necessárias. Não há nada de espectacular nisto.

Norma Rae, a heroína deste filme, confirma o conhecido adágio: a mulher que luta é a mais bonita.

por Bruno - Leitura Capital*