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sexta-feira, 15 de março de 2019

Olney São Paulo

Chega assim ao fim o ciclo dedicado a Olney São Paulo, um dos cineastas brasileiros mais esquecidos e que mereceu aqui honras de um ciclo em nome próprio, que contou com a maravilhosa ajuda do Yves São Paulo, um familiar seu, que me forneceu todos os textos que acompanharam as postagens. O meu grande obrigado. 

Podem ler mais sobre o Olney neste endereço.  

Obrigado a todos, e até já.

Pinto vem Aí (Pinto vem Aí) 1976

Chico Pinto foi prefeito de Feira de Santana (Bahia) e deposto no meio de seu mandato pela ditadura instaurada no Brasil em 1964. Em 1976, Olney São Paulo realiza Pinto Vem Aí para mostrar o retorno do político que teve seus direitos de seguir exercendo seu mandato cassados. O cineasta perseguido dá voz a um político perseguido.
O que me chama particular atenção com Pinto Vem Aí é o ar de deboche que começa com o título, se esbarra nos títulos do genérico apresentado em pichações nos muros, e continua com a participação das crianças ajudando a desenvolver uma campanha eleitoral. Escavações em Pompeia encontraram pichações de direto conteúdo erótico/pornográfico. Uma das imagens símbolo da luta contra a ditadura no Brasil é exatamente a de um homem a fazer pichação “abaixo à ditadura”. Unindo as duas coisas, Olney brinca com as palavras, com o nome do político e com o caráter obsceno da pichação para, de maneira velada ou metafórica, levantar o dedo do meio para o governo corrente. A democracia está voltando para a alegria orgástica de toda população que não aguenta a repressão militar.

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Ciganos do Nordeste (Ciganos do Nordeste) 1976

Documentário encomendado pela Rede Globo de Televisão para fazer parte de sua série, ainda existente, Globo Repórter, Olney São Paulo tomou a estrada em busca destas personagens erráticas para transformar em tema de seu mais novo filme. Aproveitando a oportunidade de ter dinheiro para filmar, fez mais que uma obra de reportagem para televisão, realizando dois cortes diferentes, um
para quem havia feito a encomenda e outro com sua própria visão sobre as personagens párias de seu filme, esta ultima enviada para diversos festivais de cinema. 
O filme abre com um grupo de ciganos montados em jumentos, montando acampamento ao lado de estrada, seu lado marginal, uma identificação que pode ser logo encontrada em como Olney São Paulo aborda estas personagens, o cineasta independente correndo de um lado para outro para encontrar os temas de seus filmes e realizar seus registros, à margem do mundo das grandes produções – especialmente ao considerarmos seus status como documentarista, desde sempre visto como lado menor do cinema, adorador de dinheiro e maquinário “de última geração”. A simplicidade dos jumentos e a montagem de acampamento à beira de pista poderia ser o resumo de um cinema independente e – por que não? – de guerrilha, ainda que recebendo o suporte minoritário de gigante das comunicações, mas que não enxergava este “documentário” como uma peça merecedora de prioridades.

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quinta-feira, 14 de março de 2019

Sob Ditame de Rude Almajesto: Sinais de Chuva (Sob Ditame de Rude Almajesto: Sinais de Chuva) 1975

Este é um dos filmes mais queridos dentro da filmografia de Olney São Paulo, ensaio baseado em crônica, filmado na roça de irmão mais novo, figurando alguns de seus familiares, sobrinhos, avô.
Não somente os cientistas com seus métodos bem estabelecidos e aceitos por pares acadêmicos dispõem de técnica para estudar o ambiente no qual trabalham. O tratado científico popular, seu Almajesto, mesmo não sendo aceito por sua falta de precisão por este mesmo grupo científico, é passado de geração em geração por àquele aspecto da literatura costumeiramente esquecido, mas de extrema importância, a oralidade. E é por meio de uma narração dinâmica que simula uma conversa entre sertanejos a demonstrar os métodos de prever quando choverá neste semi-deserto, que Olney São Paulo apresenta algo da tradição popular, passada ao longo das décadas, atravessando fronteiras.
O filme é de uma beleza lírica imagética ímpar ao captar nas lentes de sua câmera em filme colorido as características peculiares da região do semiárido baiano. Lá estão os vespeiros, a terra seca, os mandacarus, e até a inesperada aparição de redemoinho.

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O Forte (O Forte) 1974

Segundo longa-metragem de ficção de Olney São Paulo, baseado em romance do escritor Adonias Filho, O Forte apresenta a chegada de engenheiro a Salvador, responsável por erguer parque de diversões no lugar onde correntemente reside o Forte de São Marcelo, edificação centenária que se
encontra no meio do mar, e onde por muito tempo foram encaminhados prisioneiros políticos.
O filme em questão teve produção tumultuada, muitas brigas entre diretor e produtor, equipamentos de má qualidade (em muitos casos filmando com películas fora do prazo de validade), e tendo ainda que lidar com a morte de um de seus atores principais.
Ainda assim, mostra-se como uma das obras mais encantadoras desta filmografia. Um filme que, assim como seu antecessor fictício Manhã Cinzenta, abandona certos tradicionalismos narrativos para misturar o fantástico com o real, a encenação ficcional com o documentário. Em certos trechos do filme a câmera se dirige diretamente a moradores da cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, e pergunta: o que você acha da derrubada do Forte de São Marcelo? Em outros momentos o lado romântico da adaptação fala mais alto, seja nos romances do engenheiro protagonista, seja na figura de sua esposa. O tempo em O Forte não é linear, ecoando a história dos prédios que circundam seus personagens, para além de suas próprias memórias. Salvador é uma cidade de sofrimentos e aprisionamentos, e suas paredes sussurram os fantasmas de seus dias idos.

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quarta-feira, 13 de março de 2019

Como Nasce uma Cidade (Como Nasce uma Cidade) 1973

Filme encomendado à Olney São Paulo em ocasião da comemoração dos 100 anos da cidade de Feira  de Santana, Como Nasce Uma Cidade é filme sobre as idiossincrasias que marcam o crescimento da urbanidade e flerte com o “progresso” e a “modernidade” enquanto tenta-se manter conectado com o passado. De seu lançamento até nossos dias, Feira de Santana comemorou algo em torno de oitenta anos, símbolo de um lugar lutando por encontrar suas raízes e suas identidades numa mutabilidade constante, querendo apontar sua importância num cenário muito mais amplo que o meramente local, porque cidade grande que se prese tem que suspirar em virar metrópole com tudo que este título tem para entregar, e portanto tem que experimentar a passagem do tempo diferente de todo o resto.
À primeira vista Como Nasce Uma Cidade pode ser visto como documento histórico sobre um local em específico – Feira de Santana, interior do estado da Bahia – mas o espectador com olfato apurado (porque a cinefilia atiça todos os sentidos) notará certa universalidade no ensaio sobre esta cidade, o confronto entre velho e novo, entre moderno e tradicional – nem todo progresso leva para frente.

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terça-feira, 12 de março de 2019

Manhã Cinzenta (Manhã Cinzenta) 1969

Um grupo de líderes estudantis se reúne e pensa em organizar resistência frente à ditadura estabelecida. Presos, são submetidos a torturas e a um julgamento feito por cérebro artificial. O lado maquínico da lei e da ordem são impostos sobre a paixão e a liberdade humana.
O mais conhecido dos filmes de Olney São Paulo, Manhã Cinzenta foi exibido em diversos festivais ao redor do mundo, incluindo a Quinzena dos Realizadores, em uma de suas primeiras versões. Fugindo do tradicional, Olney monta seu filme com o que Glauber Rocha chamou de “montagem caleidoscópica”, o que pode ser evocado como uma resistência do próprio cineasta ao tradicionalismo aristotélico de empregar começo meio e fim, respectivamente, evocado até mesmo pela estudante líder estudantil, que apesar da angústia e apatia que abate seus companheiros, anuncia: eles me encontrarão de pé. O cérebro mecânico adota leis e ordens, mas a arte não possui regras intransponíveis. 
A existência do filme tem uma história por si só. Rendeu prisão e tortura ao realizador, acusado de compactuar com sequestro de avião desviado para Cuba, sob alegação de que seu filme teria sido exibido a bordo. Todas as cópias de Manhã Cinzenta encontradas pelas forças militares foram destruídas. Antes da perseguição o cineasta conseguiu exportar cópias para outros países, e assim o filme figurou em festivais internacionais depois de banido de solo brasileiro. O público brasileiro somente teve acesso ao filme graças membro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que trocou o filme de latas em sua cinemateca, mantendo uma cópia exibida clandestinamente em cineclubes e em casas de amigos.

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segunda-feira, 11 de março de 2019

O Grito da Terra (O Grito da Terra) 1964

Duas jovens camponesas que enxergam seu espaço natal de maneiras diferentes. Lóli (Lucy Carvalho) quer subir de vida, abandonar a pobreza de sua família e, quem sabe, ir para a cidade. Mariá (Helena Ignez) gosta do trabalho na terra, e pensa em poder continuar nela e prover para sua
família. Mesmo não sendo dada a tremores, as terras do interior baiano são cambiáveis, se movimentam, as cercas das grandes fazendas avançam sobre a de pequenos agricultores. A chegada do Professor (Lídio Silva) mexe com os ânimos dos proprietários de terra com sonhos de grandeza. Estudar para não ser explorado, para saber lutar por seus direitos. Palavras que não devem ser ditas, sob pena de ter seu barraco incendiado.
Neste cenário de lutas pela terra que Olney São Paulo nos apresenta seu primeiro longa-metragem, Grito da Terra. Filma o sertão com algumas reminiscências de sua cinefilia, colocando seu gosto pelo cinema de faroeste, até mesmo encontrando uma pedra imensa que poderia aproximá-lo dos épicos filmados no Monument Valey. E como nos faroestes, o sertão é terra sem lei, quem tem dinheiro contrata matadores, avança cercas, impõe preços impraticáveis para explorar a miséria dos mais pobres. Diferente dos faroestes, a perspectiva tomada frente aos embates de ricos e pobres não é de fabulário, porque o que Olney apresenta em seu filme não é conflito deixado para contos de um país em formação, sendo antes casos corriqueiros.
Vale aqui uma nota especial para a trilha sonora original de Remo Usai e as canções de Fernando Lona, escritas em conjunto com o cineasta Orlando Senna.

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Um Crime na Rua (Um Crime na Rua) 1954

Um assassinato é cometido e dois detetives seguem a pista do crime a partir de um cigarro encontrado na cena do crime. Filme amador feito por um grupo de amigos se valendo das referências do cinema policial que costumavam assistir unido a alguns costumes folclóricos – como colocar uma moeda na boca do morto para pagar sua passagem na terra dos mortos, remontando à Grécia antiga.
A vontade de fazer cinema já estava muito bem tatuada em Olney São Paulo quando um de seus amigos aparece em Feira de Santana, cidade onde morava, com uma câmera de filmar de 16mm. Mesmo sem equipamento ou experiência para fazer o filme, os amigos escrevem uma história e começam a filmagem. Parando o filme na câmera e voltando a fita dentro dela, fazem as diferentes sequências em diferentes locações – uma peça histórica sobre o interior do Brasil, e em especial para a história da cidade de Feira de Santana. Depois de pronto, viajam por algumas cidades da Bahia exibindo a peça feita por cinéfilos em clubes. Por algumas décadas resistiu em apenas uma cópia exibida para amigos e familiares, e hoje surge aos espectadores como uma curiosidade, quase um filme de férias de família, o primeiro passo do cinéfilo em direção à direção de cinema (um segredo partilhado por metade da cinefilia).

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Não tem imdb

sábado, 9 de março de 2019

Olney São Paulo

"Por muito tempo os filmes de Olney São Paulo ficaram fadados ao escuro de latas guardadas em prateleiras e esquecidas debaixo de camadas de poeira. Um esquecimento não feito ao acaso devido à má qualidade de sua obra – o que não é o caso – mas sim esquecimento programado, ainda que com certo descuido. Cineasta marginal, que financiava a maior parte de seus próprios filmes com dinheiro do bolso com seu salário de funcionário público, filmando com rolos de película vencida ou montando seus filmes durante a madrugada (horário mais barato do aluguel do equipamento de montagem), que viu um de seus filmes caçado e destruído pela ditadura brasileira instalada a partir de 1964 (por sorte, não puseram as mãos em todas as cópias, e o filme em questão figurará em nosso ciclo). Se tinha alguém que poderia ter todos os motivos do mundo para abandonar o cinema e não mais querer saber dele, esse alguém era Olney São Paulo. Não o fez. Até seu leito de morte (prematura – aos 41 anos) em 1978 seguiu planejando filmar. Bem-vindos ao mundo do cinema de Olney São Paulo, feito com um pedaço de folclore brasileiro esquecido, feito com um pouco de folclore inventado pelo próprio autor – seja em ficção, seja em documentário, seja numa inusitada mistura dos dois."

Este ciclo terá a colaboração do Yves São Paulo, familiar do realizador, que gentilmente cedeu os filmes (a maior parte deles inéditos na internet) e os textos que acompanharão o ciclo, com muita informação que ajudará a conhecer um pouco melhor o realizador.  Podem conhecer o blog do Yves, Siga a Cena. O meu muito obrigado pela sua ajuda.

Irei estar fora no fim de semana, por isso passeremos aos filmes a partir de segunda-feira. Bom fim de semana, e até já.