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sábado, 12 de janeiro de 2019

História de Um Fotógrafo (Blowup) 1966

Um modesto fotógrafo de sucesso em Londres, cujo mundo é limitado pela moda, música pop, droga e sexo fácil, começa a sentir a sua vida aborrecida. Conhece uma bela e misteriosa mulher, e também que há algo de misteriosamente suspeito numa das suas fotos tiradas num parque. O facto de ele poder ter fotografado um assassinato só lhe ocorre depois de começar a revelar os negativos, descobrindo detalhes que antes não se tinha apercebido para montar este quebra cabeças.
Primeiro filme de  Michelangelo Antonioni em língua inglesa, "Blowup" é uma exploração estonteante de imagens, aparências e existência no meio da Swinging London dos anos 60. Antonioni trouxe a sua influência da sua filosofia existencialista, vista em filmes anteriores como "L'avventura" (1960), "La Notte" (1961), "The Eclipse" (1962) e "Red Desert" (1964) e eleva-a para uma escala muito maior, e em vez de apenas questionar a existência ele questiona a natureza da própria realidade. Assim como Thomas (o personagem principal, interpretado por David Hemmings) explora as suas fotografias até que sejam pura abstracção, Antonioni usa um enquadramento deliberadamente estranho, o uso expressionista da côr e uma lente objectiva extremamente longa, que elimina a profundidade da imagem, fazendo com que o filme pareça impressionante e opaco.  O próprio Thomas anda à deriva neste mundo, absorvido na superfície das coisas mas incapaz de perceber a beleza intrínseca. 
Foi um filme muito importante para a geração dos realizadores da Nova Hollywood, obtendo eco na obra de Coppola em "The Conversation" (1974), e Brian de Palma em "Blow Out" (1981).

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Identificação de uma Mulher (Identificazione di una Donna) 1982

Niccolo é um realizador de cinema que foi deixado pela sua esposa. Isto dá-lhe idéia de começar a fazer um filme sobre o relacionamento com as mulheres. Começa então a procurar uma mulher que possa interpretar o papel principal no filme, mas também na sua vida...
Este era um filme muito pessoal, porque o personagem principal Nicolo (Tomas Milian) era um realizador de cinema, e a história contava uma crise pessoal do cineasta. Niccolo era interpretado por um dos mais famosos actores do cinema italiano do seu tempo, Tomas Milian, famoso pelos seus papéis nos spaghetti westerns, e uma estrela de acção. Isto foi essencial para o último filme de Michelangelo Antonioni antes do seu acidente vascular cerebral, antes de passar a maior parte do tempo a publicar contos, e a exibir as suas pinturas abstractas. "Identificazione di una Donna" aproxima-se do período clássico de Antonioni, explorando os seus temas preferidos, como a indefinição da identidade, mas fazendo-o com um novo e refrescante erotismo.
O que dá a este filme uma sensação de elegância é que o realizador aponta todas as suas armas à alienação que a sociedade moderna se tornou, como as pessoas apenas não conseguem comunicar com estranhos, como muitas vezes também não estão em sin
tonia com as pessoas que se relacionam. 
 Em França, as revistas "Cahiers du Cinema" e "Positif" consideraram-no um dos melhores filmes do ano, mas só teve distribuição nos Estados Unidos em 1996. Foi um filme que dividiu bastante a opinião dos fãs dos realizador, mas na Europa fez um enorme sucesso, também devido às suas cenas de erotismo. Foi exibido em Cannes, ma selecção oficial.

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segunda-feira, 7 de março de 2016

O Deserto Vermelho (Il Deserto Rosso) 1964

Chuva, neblina, frio e poluição assolam a cidade industrial de Ravenna, em Itália. Ugo, o gerente de uma fábrica local, é casado com Giuliana (Mónica Vitti), uma dona de casa que sofre de problemas psicológicos. Um dia, ela conhece o engenheiro Zeller (Richard Harris), o que pode mudar sua vida.
Tal como os primeiros filmes de Antonioni, "O Deserto Vermelho" é um enigma. Metódico na sua sinuosa e lenta velocidade, e na falta de interesse narrativo, apesar das personagens principais estarem muito bem caracterizadas, e o triângulo amoroso central a obrigar-nos a concentrar como se estivéssemos a viver uma experiência puramente audiovisual (por esta razão Tarkovsky considerou este um dos piores filmes de Antonioni). Antonioni não só faz a sua primeira experiência a cores, mas também brinca com a banda sonora do filme, aplicando uma discordante e eletrónica música que leva a audiência ao limite na sequência dos créditos iniciais, mantendo um sentimento de desconforto e desarmonia durante todo o filme.
Um dos pontos fortes de Antonioni como realizador sempre foi a sua capacidade de transmitir um poderoso sentido de localização, muitas vezes à custa de personagens que são literalmente ofuscadas pelos cenários, mesmo que não nos lembremos da história de "L’Avventura", é impossível esquecer a beleza da ilha rochosa onde os personagens se encontram. A respeito disto, "O Deserto Vermelho" pode ser das maiores obras primas do realizador, uma vez que torna palpável e visceral a ascensão da indústria petroquímica na Itália da década de 50, com as suas enormes torres de refrigeração e enormes edifícios de aço que abrigam centenas de trabalhadores anónimos que constituíram uma nova classe trabalhadora na Itália do pós-guerra.
Tal como todos os filmes de Antonioni, "O Deserto Vermelho" é uma experiência provocadora e desafiadora, que nos recompensa na nossa primeira visualização, para além da natureza visual poderosa e o casamento, não convencional, entre o som e a imagem.
Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1964.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Profissão: Repórter (Professione: Reporter) 1975


"Há apelos difíceis de ignorar. E o feito por Hollywood nos anos 70 a um obstinado Antonioni, em pico de carreira, culminou mesmo na feitura de "Zabriskie Point" e em "Professione: Reporter", obras vistas pelos puristas do mestre italiano como menores.
Longe dessa verdade, "Professione: Reporter" conta outra vez como tema assombrado da personalidade fílmica do seu autor, embora também fruto de contemporaneidade cinematográfica pós neo-realista e nouvelle vague a que deu forma, uma história de malaise e alienação. Com o aparato hollywodesco sempre na sombra e uma rara liberdade de actuação, Antonioni escolheu a dedo os actores, particularmente a dupla Jack Nicholson/ Marie Schneider e partiu para o deserto. E da sua viagem (deles) pelo mundo, numa afirmação de identidades transitórias que passa no lado de cá para o de lá da câmara, nasceu, à data, um sucesso moderado, quer comercial, quer crítico.
Jack Nicholson, também ele apanhado numa fase da vida de mudança da sua dramatis personae - passando da energia e rudeza viril de "Chinatown" ou "Five Easy Pieces", sucessos anteriores, à aura negra e cerebral de "The Shining" e "One Flew Over the Cuckoo´s Nest")- encarna agora David Locke, um repórter televisivo que investiga os movimentos armados terroristas num país do norte africano. Quando um conhecido do quarto ao lado morre, Locke, sem grande reflexão, decide fugir da sua vida, mulher, emprego, responsabilidades, assumindo a identidade do falecido, transmitindo a “morte” para si próprio. E desta fuga identitária, que assume na visão de Antonioni uma dimensão de road movie calmo, melancólico e surpreendentemente cosmopolita (alguns dos seus melhores momentos são no sul de Espanha ou em Munique), muito do que se conta são as palavras não ditas de Jack Nicholson, os seus gestos densamente minimais, a sua postura mansa de ebulição intelectual. Muito da grandeza de "Professione: Reporter" é sobretudo a superior afirmação, por parte de um actor sanguíneo, de algo que nunca teria sido e certamente nunca voltou a ser, um corpo endemoinhado por uma entidade, uma alienação difícil de explicar.
 Da fuga do jornalista à sua perseguição pela Europa, por parte da mulher que deixou, - por ela já não ser aquilo que ele era, como ele que já não queria ser aquilo que é-, parte da correria lenta por casas rústicas, hotéis encaixados na paisagem e linhas do infinito traçadas por estradas percorridas, justifica-se com uma nova postura de vida activa. Ou por outras palavras, o seu novo eu, o assumido com a morte de Robertson (Charles Mulvehill), está mais fincado na vida do que ele estava, tendo assim que correr e abandonar o alheamento e observação passiva próprias do “seu” jornalismo, pouco inquisitivo.
Como fosse a insatisfação identitária uma corrida à volta da própria cauda (como confessa o protagonista, debaixo de uma árvore à sua nova namorada, “que se sente só um”, apesar das muitas identidades), "Professione: Reporter" também é, apesar de aparentar o seu contrário, uma obra de imobilidade, uma viagem interior, labirinto emocional kafkiano, que justifica uma circularidade e pontos da contacto no trajecto dos personagens. Claro que, este tipo de leituras metafísicas, e sobretudo metapsíquicas, reconhecidamente o “colestrol” do cinema de Antonioni, verdadeiros locais decadentes de chegada, são infinitamente mais débeis do que estes corpos em fuga(s) que palminham esta Europa estranhamente serena. Ainda assim, as diversas leituras que carrega "Professione: Reporter" são certamente mais justificadas, ou não fosse, em momento da sua reposição, anunciada a obra no poster lançado entre nós, como a mais narrativa das viagens de Antonioni. E é essa dose de narratividade, esses traços de história, os elementos menos geridos. Demasiadamente marcados e evidentes, reenviam o espectador a um cinema que não é bem o de Antonioni, ou pelo menos, no qual também ele se sente um viajante, como indica o seu título em linha inglesa, "The Passenger".
Texto de Carlos Natálio, daqui.

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Dama Sem Camélias (La Signora Senza Camelie) 1953

Clara Manni, vendedora de tecidos, é descoberta por Gianni, produtor de cinema, e parte para Roma para se tornar actriz. Gianni apaixona-se por ela e com a cumplicidade dos pais de Clara, casam-se. O filme que fazem vai ser um sucesso, mas Gianni, por ciúmes, proíbe-a de fazer mais cinema e quer fazer dela uma senhora. Mas Clara tem outras ideias...
Enquanto esta era a terceira longa metragem de Michelangelo Antonioni, marcava a segunda colaboração entre o realizador e Lucia Bosé, que já tinha protagonizado o primeiro filme do realizador. O filme anterior do realizador, "I Vinti", tinha marcado a estreia do realizador no festival de Veneza, e este filme, realizado pouco depois, tinha cenas gravadas no festival, que lhe dava um ar documental, a servir como pano de fundo. Conta-nos a história de uma estrela fictícia, traçando a sua ascensão meteórica, e a sua queda, e faz uma declaração muito realista sobre a indústria italiana da época, que produzia mais de 300 filmes anuais.
Mais uma vez, a mulher tem o papel mais forte, com os personagens masculinos a serem mais básicos, faltando-lhes algumas das qualidades que fazem de um personagem líder. Vemos como Gianni se torna um monstro, possessivo da sua mulher como um troféu. A sua idéia do casamento é de tê-la como dona de casa, dando-lhe o suficiente para ter uma vida confortável, o que para Clara é o mesmo que a prisão.
 Não é dos filmes mais conhecidos de Antonioni, mas é uma das obras mais interessantes do mundo do cinema, visto ao espelho, pelo próprio cinema.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Escândalo de Amor (Cronaca di un Amore) 1950

Paola Fontana (lucia Bosé) é incrivelmente bonita, e casada com um homem muito mais velho e extremamente rico. Antes do casamento, alguns anos antes, ela teve um caso com Guido (Massimo Girotti) que estava envolvido com outra mulher na altura. Os dois deixaram-na caír para um poço de um elevador, e podiam-na ter salvo. Esta morte vai influenciar para sempre a relação dos dois, que se separaram, embora ainda se amem. E um estranho começa a investigar a história.
Em 1950,  Michelangelo Antonoini tinha feito uma série de curtas documentários, e a sua longa-metragem de estreia mostrava o seu futuro estilo quase totalmente formado. De certa forma, antecipava a obra-prima "L'Avventura" (1960), mas também devia muito aos filmes de crime, e noirs, como "Ossessione" (1943), de Luchino Visconti.
Tal como em  "L'Avventura", a suposta busca não importa tanto como o sentimento de isolamento, e desconexão com a realidade. Antonioni já tinha aprendido a colocar as suas figuras solitárias em paisagens desoladas, vazias e industriais, separá-las e fazê-las sentir sem vida. Mas "Cronaca di un Amore", foi feito antes do realizador se tornar conhecido nos anos sessenta, mas o filme já tem os seus momentos de paixão e suspense. 
É um filme admirável pela sua brilhante mise-en-scène, pela sua câmara móvel inovadora que rodopia em torno dos personagens inquietos, com grandes desempenhos conseguidos por todo o seu elenco, apesar das grandes diferenças de experiência e para a abordagem "maverick" do realizador em se distanciar da estética pós-guerra dos filmes italianos da altura. Lucia Bosé tinha apenas 19 anos, e estreava-se no mundo do cinema nesse ano. Girotto já tinha uma carreira considerável, incluindo a protagonização de "Ossessione". Estão os dois brilhantes.

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domingo, 15 de dezembro de 2013

O Eclipse (L'Eclisse) 1962



Vittoria abandona o amante intelectual e começa uma relação com um jovem cruel corretor da bolsa, Piero. Primeiro, Vittoria está nervosa sobre se envolver com Piero - sente-se fisicamente atraída por ele, mas algo a segura. Aos poucos, o materialismo de Piero começa a repelir Vittoria e ela acaba por encontrar-se sozinha num mundo sem alma, incapaz de se comprometer com alguém.
A descrição de L' Eclisse de Michelangelo Antonioni fazem-no soar como um caso insuportavelmente chato, um verdadeiro produto de arte dos anos 60. Trata-se de "alienação", certo? E desconexão, e o isolamento de pessoas na idade moderna. Com uma maior ênfase na reflexão interior, fotografia ambigua, L'Eclisse não é um filme particularmente acessível. Como muitos dos filmes de Antonioni, faz grandes exigências do espectador. Apesar disso, oferece muitos prazeres. Monica Vitti parece uma figura heroína trágica em busca de uma satisfação inalcançável num universo estéril. O filme é perfeitamente construído em torno do seu desempenho, na medida em que o espectador compartilha a cada minuto a sua angústia, frustração e incerteza. A sua co-estrela, o francês Alain Delon é tão sedutor, incorporando uma mistura arrepiante de beleza e com materialismo humano sórdido.
Apesar da falta de drama convencional, é um filme agitado e quase trágico. A sequência final do filme, quando Vittoria percebe o seu destino, é assombrosa e intensamente perturbadora, pintando um quadro chocante crível de um mundo futuro que não tem alma.
 
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sábado, 14 de dezembro de 2013

A Noite (La Notte) 1961



No caminho para uma recepção para comemorar a publicação do seu mais recente romance, Giovanni Pontano leva a esposa Lidia a visitar o seu amigo Tommaso, que está a morrer de cancro, num hospital particular. A visita perturba tanto Giovanni como Lidia e faz com que eles reflitam sobre a sua relação, que está prestes a ruir...
Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, ícones do cinema italiano e francês, entram neste retrato sombrio de um romance sobre a morte, de um dos grandes mestres do cinema italiano, Michelangelo Antonioni. La Notte é o segundo de um ciclo de três filmes feitos por Antonioni que exploram a esterilidade da vida e a futilidade do amor no mundo moderno. A trilogia começou com L'Avventura e termina com L'Eclisse, e todos os três filmes contam efetivamente a mesma história, girando em volta da falta de sentido da existência num mundo pós-industrial, onde o dinheiro e a busca insensata de prazer contam para muito mais do que o sentimento e a auto-realização. 
Antonioni é muitas vezes criticado pelo ritmo letárgico e pelo simbolismo pesado nos seus filmes, e tanto "L' Avventura" como "La Notte" foram particularmente mal recebidos por muitos críticos quando foram lançados pela primeira vez. É interessante comparar o seu trabalho com o do seu contemporâneo, Federico Fellini, cuja propensão para o espetáculo e artifício atraiu um público maior e mais saudável do que a crítica de explorações introspectivas de Antonioni sobre a psicologia humana. Os filmes de Fellini podem ser mais fáceis de assistir, porque o seu estilo visual colorido e personagens altamente emocionais são mais fáceis de nos agarrar, mas as de Antonioni são, talvez, mais profundas e ousadas, sondando mais profundamente os aspectos mais sombrios da experiência humana. São certamente mais abstratos, dando ao espectador mais espaço para refletir e interpretar o que vê. Pode-se argumentar que Michelangelo Antonioni foi o Ingmar Bergman do cinema italiano - ambos foram grandes cineastas com interesse em temas existencialistas, e morreram no mesmo dia - 30 de julho de 2007.
La Notte é um filme que é principalmente sobre um casal que se quer separar, mas que não consegue  fazê-lo. A esterilidade do mundo ao seu redor e o tédio incessante do seu meio burguês sufocante refletem o vazio do seu amor um pelo outro. Giovanni, um escritor à beira do sucesso, demonstra a sua natureza irresoluta, permitindo-se a ser tentado por uma oferta de trabalho que fará dele um escravo rico. Lidia é mais honesta sobre as suas emoções, mas mesmo ela hesita, e é preciso a morte de um ex namorado para fazê-la aceitar que a vida com Giovanni acabou. O filme termina nem com uma separação nem uma reconciliação - só uma impressão de que algo precioso morreu e naquela noite caiu algo sobre os dois personagens tragicamente ligados. Quem sabe o que a manhã pode trazer... 

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A Aventura (L'Avventura) 1960



Um grupo de turistas ricos de Roma desfrutam de uma excursão de iate pela costa da Sicília. Depois de chegarem a uma ilha deserta vulcânica, um do grupo - uma jovem mulher chamada Anna - desaparece misteriosamente. A sua melhor amiga, Claudia, e o seu namorado Sandro fazem uma busca completa pela ilha, sem qualquer sucesso. A ausência de Anna tem o efeito de juntar Claudia e Sandro, mas também os pode afastar...
"L'Avventura" é o filme que estabelece a reputação do realizador Michelangelo Antonioni e anuncia uma nova era do modernismo no cinema italiano no início dos anos 60, um digno sucessor do neo-realismo. O filme representa uma grande mudança na essência da arte cinematográfica, com o estilo artístico assumindo uma importância muito maior sobre o conteúdo narrativo. A inovação de Antonioni é a maneira pela qual ele cria relações fortes entre os seus personagens (geralmente sem expressão) e os espaços que habitam. Os seus personagens são definidos mais por onde eles estão do que pelo que eles dizem ou fazem. Enquanto isto faz os seus filmes parecerem artificiais, quase de sonho, tem o efeito de que  as impressões reforçam o estado de humor interno e o conflito - uma espécie de impressionismo cinematográfico.
A mestria com que Antonioni meticulosamente compõe cada cena e a beleza da fotografia de alto contraste, torna o filme extremamente sedutor, mas é só quando olhamos para baixo da superfície que começa a fazer sentido o que está a ser dito pelo génio de que o realizador aparenta ser. Os filmes de Antonioni são como uma extensão de água calma num dia de verão brilhante - tranquilos e convidativos na sua superfície reluzente, ainda que se encontrem abaixo um turbilhão de forças que vão arrastar alguém para a sua condenação. Antonioni parece estar contente a mostrar-nos a superfície - o resto é deixado, em grande parte, para nossa imaginação.
L'Avventura é uma obra de arte existencialista - que explora a psicose humana com profundidade e inteligência, transmitindo a natureza efémera do amor e das poderosas forças psicológicas que muitas vezes fazem a experiência do amor um calvário com consequências de longo alcance. É também um comentário sobre os costumes sexuais da sua época, retratando as atitudes predominantes no amor livre com - na altura - uma chocante honestidade. Claudia (interpretada por Monica Vitti) é uma das primeiras personagens femininas verdadeiramente liberais - uma mulher que tem consciência do poder da sua sexualidade, que não está preparada para apresentar-se inquestionavelmente para o macho dominante, que não está contida pela consciência social, mas pelos seus próprios instintos de culpa.
Embora agora seja quase universalmente considerado um marco no cinema italiano, L'Avventura nem sempre teve o elogio unânime da crítica. Durante a pré-estreia no Festival de Cinema de Cannes, foi vaiado por um público insatisfeito, e foi condenado pelo ritmo lento e não convencional, e aparente falta de substância. Não é provavelmente o mais acessível dos filmes - o seu apelo é limitado a uma minoria de entusiastas do cinema que gostam de filmes com um alto teor de arte e que têm prazer em fazer a sua própria interpretação das mensagens ambíguas. Apesar de ter sido controverso quando foi lançado, L'Avventura teve um efeito imediato. Colocou Michelangelo Antonioni na vanguarda de uma nova geração de cineastas de todo o mundo que reinventaram o cinema na década de 60 e fizeram um impacto duradouro.

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quinta-feira, 13 de junho de 2013

As Amigas (Le Amiche) 1955



A banda Joy Division uma vez gravou uma canção chamada "Love Will Tear Us Apart". Podiam muito bem estar a falar de "Le Amiche", uma das mais fascinantes visões da doce devastação do amor que o cinema já viu. O filme passa-se na Turim burguesa, dura, de olhares infinitos, e coloca as pessoas a pedirem umas às outras para se conectarem, mas incapazes de fazê-lo elas mesmo. A distância física torna-se distância emocional. Um homem fala com uma mulher ocupada a olhar para um espelho, ambos de costas para nós, o reflexo do seu rosto aparente, mas o próprio rosto invisível.
Elas são as amigas (ou as namoradas) deste filme indescritível, que talvez seja melhor compreendido através de uma série de frames. O filme é baseado num romance de Cesare Pavese, "Tra donne sole", com o qual compartilha superficialmente uma história: Uma jovem mulher tenta e não consegue suicidar-se e, na procura de perceber os motivos, os seus amigos confrontam-na com a sua própria infelicidade. O filme muda muito o enredo do livro (retira um romance de lésbicas), mas a sua maior mudança é a perspectiva. A narradora na primeira pessoa do livro, Clelia, observa o mundo sombrio. O filme, por contraste, conta histórias de cinco mulheres, preferindo sequências filmadas ao longe do que o ponto vista de qualquer personagem. A psicologia emerge da paisagem, em vez de partir de uma perspectiva individual.
As pessoas são tão personagens como as ondas, as roupas, as pinturas, o apito do comboio, os saltos altos estalando contra a pedra do passeio, são todos valores numa paisagem em movimento. Isto é usual no trabalho do realizador Michelangelo Antonioni, que em 1962 faria "O Eclipse", um filme com sete minutos de sequências com candeeiros, faixas para pedestres, e poucos minutos com as estrelas Alain Delon e Monica Vitti. Já em 1969, por altura de Zabriskie Point, os blocos de madeira chamados de actores eram irrelevantes face ao Vale da Morte. Antonioni era fascinado pelas tentativas das pessoas para caberem num mundo moderno mecanizado, e em segui-los revelando que o mundo era composto por peças animadas e dinâmicas, as pessoas incluídas. E se os objetos têm vidas secretas, então as pessoas devem ter também. Um dos amantes masculinos de "Le Amiche" é arquiteto, outro pintor. Assim como qualquer obra de arte é composta de peças de materiais diferentes, também as consciências humanas ficam isoladas, mesmo dentro dos mais profundos laços emocionais.
Antonioni estava longe de seu materialismo mais radical quando fez Le Amiche. Na altura ele estava a afastar-se de um outro movimento materialista: o neo-realismo. A quantidade de filmes itallianos que cresceram após  a Segunda Guerra Mundial, em muitos dos quais Antonioni serviu como assistente, usava actores amadores, filmagens no exterior e momentos improvisados ​​que visavam uma realidade emocional mais autêntica. Ao mesmo tempo, Le Amiche é um documentário, no sentido de que o filme é uma gravação literal de pessoas que interagem com o mundo. Antonioni afirmou que a sua primeira experiência no cinema foi uma tentativa de registrar pacientes num asilo de loucos, durante o qual as suas reacções instintivas provaram ser bastante intrigantes para ele.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Deserto de Almas (Zabriskie Point) 1970


Diz a lenda que quando o italiano Michelangelo Antonioni chegou à América para fazer o seu segundo filme em língua Inglesa (depois do sucesso monstruoso de Blow-up), ficou chocado com a reacção como a produção do seu filme o recebeu. Nunca houve qualquer dúvida sobre os seus ideais - o cineasta era famoso por declarações cinematográficas seminais como "L'Avventura", "La Notte" ou "L'Eclisse" - e o seu filme foi planeado para ter em conta todos os aspectos da cultura devassa ocidental (leia-se: EUA). Mas, com a aplicação da lei local, acusando Antonioni de tudo, de incitar motins para corromper a moral da juventude, a contracultura deste autor estava a dirigir-se para um confronto com os mais conservadores dos americanos - e realmente não foi uma luta justa.
Como resultado, muitos consideram Zabriskie Point como um fracasso. Eles viam isto como uma espécie de compromisso, uma versão das filosofias de Antonioni frustradas por um momento em que os anos 60 estavam a morrer e não havia ninguém por perto para elogiar o cadáver. Charles Manson tinha morto a esposa de Polanski, a Guerra do Vietname (e a batalha dentro de casa) alastrava-se e a política da liberdade e senso comum para o bem da nação adormecia. Antonioni queria que o seu encapsulamento etéreo da Geração da Paz fosse uma afirmação forte e inabalável, da visão de uma terra corrompida pelo consumismo e ganância corporativa. O que ele fez, em vez disso, foi um poema tentador, uma obra-prima que faz os seus pontos em símbolos tão óbvios e reclamações tão calculadas de forma que não podiamos imaginar que a sua mensagem fosse tão simples.
Quando pela primeira vez encontramos o nosso herói, Mark, ele está a manifestar-se numa greve de estudantes. Está cansado de toda a conversa e quer agir - e agora. Infelizmente, durante o confronto, resultante com a polícia, um policia é baleado e morto - e Mark é apontado como o mais provável suspeito. Na fuga da lei, rouba um pequeno avião e dirige-se para o Vale da Morte, na Califórnia. Lá, ele encontra uma jovem estudante de antropologia, Daria. Um exemplo do poder do amor livre e do flower power, ela está disposta a ajudá-lo, e a garantir um acordo para explorar um terreno local.
No minuto em que se encontram, Daria corteja Mark com a sua sexualidade e ficam ligados com a necessidade de rebelião e revolução. Partem para Zabriskie Point, onde continuam a discutir políticas, tanto sociais como pessoais. Ele tem a certeza da sua inocência e sentido de justiça.
Costuma-se dizer que os cineastas estrangeiros fazem um trabalho muito melhor a captar o espírito da época americana, não importa a época, que os seus colegas americanos. Um exemplo perfeito chega na forma de Zabriskie Point. Não se encontra uma melhor destilação da década dos anos 60 inteiros e tudo o que eles representavam - bom, mau, perspicaz, indiferença - que esta visão artística intransigente. Como um modernista, um cineasta conhecido pelos seus ideais desconexos, Antonioni ainda era capaz de ultrapassar as expectativas. Zabriskie realmente conta uma história bastante linear, fixando-se na fuga de Mark e Daria da sociedade como a base para tudo o que se segue. Ao contrário de alguns críticos que já afirmavam que o filme estava desatualizado, Zabriskie Point, na verdade, constrói, oferecendo-nos múltiplos significados para cada acção. Pode nem sempre ter sucesso, mas quando o faz, é mágico. Em essência, esta é uma história sobre o pecado, e o sacrifício de dois seres humanos para o aperfeiçoamento da humanidade em geral.

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