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quinta-feira, 18 de julho de 2019

O Príncipe com Orelhas de Burro (O Príncipe com Orelhas de Burro) 1980

No tempo do rei Leonardo, uma guerra e a peste que a acompanhou despovoaram a Traslândia. Ignorando esses trágicos acontecimentos, a rainha Isménia, a princesa Camila e a aia Narcisa, oriundas de um reino distante, chegam à Traslândia, quando a guerra se aproxima do final…
"Adaptação do romance homónimo de José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro (fotografia de Elso Roque, música de Carlos Zíngaro) corresponde a um projeto acalentado por António de Macedo desde 1957, concretizado numa aproximação subversiva ao material literário que adapta inspirando-se no estilo teatral de António José da Silva (O Judeu): o reino imaginário da Tralândia, um mundo de fantasia mais ou menos medieval, fica quase despovoado devido à guerra e à peste. Ignorando o que se passa, a princesa de um outro reino distante e a sua aia chegam à terra desolada, quase no fim da guerra. Uma sátira ao poder político."
"O Príncipe com Orelhas de Burro" contava com a colaboração de uma companhia teatral chamada "Os Cómicos". É deles o melhor desta obra.
Nota: esta é a versão televisiva do filme.

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sexta-feira, 4 de março de 2016

As Horas de Maria (As Horas de Maria) 1979

Inspirado no relato pela imprensa de um caso verídico, com argumento, diálogos e realização de António de Macedo e fotografia de Elso Roque, As Horas De Maria prolonga na ficção o gesto de Fátima Story. Esta produção Cinequanon foi parcialmente filmada em Fátima, assente numa estrutura de doze capítulos que seguem a história da personagem de uma rapariga cega e internada num hospital, convicta na probabilidade de um milagre de Nossa Senhora de Fátima. Estreado com enorme escândalo em 1979, foi um dos mais polémicos filmes da época, acusado de blasfémia pela igreja católica.
As Horas de Maria é uma obra de valor simbólico, numa época de bruscas e dramáticas mutações em Portugal. No ano em que o filme foi produzido, 1976, não teria por certo acontecido o que aconteceu três anos mais tarde, quando estreou em Lisboa. A suposição não é sem fundamento. O recuo das forças progressistas da Revolução dos Cravos, num contexto social que lhes era desfavorável, fez-se sentir com avanços da direita em políticas em que muito recuara, como a cultura. A viragem foi rápida.
Na estreia, a 3 de Abril de 1979, um evento insólito deu relevo ao filme nos meios de comunicação e gerou considerável polémica: um grupo agressivo de manifestantes de direita, sentindo-se apoiados pelo repúdio já manifestado pela Igreja católica, que achava a obra blasfema, insultaram e agrediram espectadores em frente da sala – o Nimas, na Av.5 de Outubro, em Lisboa, – com actos violentos e apedrejamentos. O ritual manter-se-ia por vários dias, com agrupamentos a rezar o terço e a entoar ladainhas para a conversão de Macedo, dos espectadores contaminados, dos fãs heréticos.
A explicação do insólito é assim dada por João Bénard da Costa : «O realizador, baseado nos chamados Evangelhos apócrifos, propunha uma visão não trascendental de Jesus e punha em causa a virginidade de Maria». (João Bénard da Costa, Histórias do Cinema, Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 1991, ed. Imprensa Nacional).
Voltam ao de cima certas sensibilidades, próximas das que dominavam antes. O efeito que o filme provocou ilustra isso e não só: as bem prováveis consequências de um atrevimento assim. De mais um: a filmografia de Macedo está cheia disso.

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A Promessa (A Promessa) 1973

Baseado na obra de Bernardo Santareno, este filme conta a história de um jovem casal de pescadores, unidos por um voto de castidade, que acolhe um cigano ferido na sequência de uma disputa em que foi esfaqueado. Há medida que o tempo vai passando, nasce uma relação de amor entre a jovem mulher e o cigano, acabando por dar origem a um clima de grande tensão. A acção, tal como no Mudar de Vida de Paulo Rocha, desenrola-se numa típica aldeia de pescadores, mas ao contrário do primeiro não tenta fazer o retrato de uma sociedade maioritariamente pobre e sem esperança no futuro, mas explora a questão da influência quase nefasta que a religião exerce sobre um povo ignorante. Todo o filme tem, por isso, uma espécie de aura esotérica que vai de encontro aos interesses do próprio autor, que se diz anarco-místico. Para tal, contribuem o uso da cor, do nevoeiro, de planos em câmara lenta e de uma certa representação mais teatral, ou como diria António de Macedo, mais melodramática, porque o povo português é melodramático. Porém, não se deve aqui confundir teatral com artificial, pois à excepção de um certo exagero na interpretação de um dos ciganos – que torna os diálogos quase imperceptíveis de cada vez que intervém – estamos perante um bom trabalho de actores, infelizmente tão raro nos filmes portugueses deste período. Também merecedora de destaque é a fotografia de Elso Roque que, em consonância com o misticismo de António de Macedo, proporciona momentos de grande interesse, como na poderosa cena da violação ou a pictórica cena final.
A Promessa, talvez por não corresponder aos ideais traçados pelo Cinema Novo (mas não só), não está entre os melhores filmes da época. Mas, uma vez mais, António Macedo demonstra uma grande ousadia, quer ao nível do tema quer ao nível da técnica, sendo por isso um importante contributo para o cinema nacional.

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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Domingo à Tarde (Domingo à Tarde) 1966

Jorge, um médico racional e solitário, está condenado pela sua especialidade a lidar diariamente com a morte. Até que um dia conhece Clarisse, uma jovem a quem detecta uma leucemia avançada e por quem se apaixona. O casal vive um romance assombrado pelo fim inevitavelmente próximo e, apesar dos esforços de Jorge para combater a doença com novas descobertas, Clarisse acaba por morrer, colocando à prova as suas crenças e as suas pesquisas científicas. "Domingo à Tarde" é um dos filmes produzidos por Cunha Telles, ou seja, uma das grandes apostas do início do Cinema Novo. António de Macedo havia chamado a atenção dos colegas e da crítica alguns anos antes com a curta metragem Verão Coincidente, onde revelava já uma certa audácia e vontade de experimentar novas técnicas, principalmente relativas ao uso da cor.
Como era recorrente, esta é também uma adaptação de uma obra literária, neste caso do romance de Fernando Namora, facto que gerou alguma polémica. Prado Coelho, por exemplo, refere que existe um desentendimento profundo entre os dois autores e que António Macedo se serviu de um argumento que é um apelo à vida para desenvolver algumas das suas mais insistentes obsessões (morte, sacrilégio, sagrado). No entanto, há que considerar que, como diz o próprio Fernando Namora, o conceito de “fidelidade”, quando se trata de uma recriação, não pode ter a rigidez que habitualmente lhe atribuímos.
Esta primeira longa metragem de António Macedo introduz – e aí reside a sua mais valia – determinados elementos novos (ou raros) nos filmes realizados até então. Comecemos pela narrativa. A história de Domingo à Tarde aparece-nos entrecortada, isto é, há uma descontinuidade temporal que nos revela logo o final da história: Clarisse morre, deixando Jorge atormentado com a impotência perante esse facto. Livres da tensão de descobrir o desenlace da trama, e através de flashbacks e narrações em voz off, deixamo-nos contagiar pelas inquietações e reflexões que o filme desperta. Outra aspecto inovador é a substituição da banda sonora por sons ligados ao quotidiano do hospital. Os sons das máquinas em funcionamento e das experiências no laboratório sublinham a frieza e o morbidez do lugar, criando uma atmosfera tensa e opressiva, principalmente quando comparada com o absurdo da morte. Por fim, um detalhe que será talvez um dos mais interessantes do ponto de vista da experimentação: a criação de um filme dentro do filme. Paralelamente à história de Fernando Namora, António Macedo filma uma outra que parece ir mais ao encontro das suas inquietações, e que corresponde ao filme que Jorge e Lúcia, a sua assistente, estão ver no cinema enquanto ocorrem os flashbacks. Uma vez que a função desse filme era provocar em Jorge um problema de consciência relativo aos seus doentes e, em particular, a Clarisse, seria difícil encontrar um filme que se adequasse perfeitamente a essa demanda.
Assim, António Macedo, usando uma paisagem estranha e neutra – o cabo de Espichel – filmou um suposto filme estrangeiro, invertendo o som dos diálogos para que parecessem falados numa outra língua.

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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os Emissários de Khalom (Os Emissários de Khalom) 1988



"Este é o filme de ficção científica português por excelência. Não só porque seja o único que eu saiba, mas pela qualidade do seu argumento que aguenta o teste do tempo, normalmente inclemente para este género. Os Emissários de Khâlom desenrola-se em duas épocas paralelas. No final do século XIX a comissão real das minas reúne-se para decidir a continuação da exploração de uma mina que ameaça ruir. Parece assunto de pouca monta, mas o bom senso científico choca com os interesses económicos que visam manter a minha aberta a todo o custo. No futuro (que, agruras da ficção e do tempo, é agora o nosso passado) um grupo de cientistas portugueses ao tentarem evitar a previsível aniquilação atómica à escala planetária envia ao passado um ser artificial, mas uma instabilidade desconhecida divide-o em dois, provocando um nível elevado de incerteza no fluxo temporal e o risco de desaparecimento de um dos cientistas, descendente directo do presidente da real comissão que um dos emissários tenta assassinar por vários meios.
O aparentemente banal momento do século XIX é na verdade um ponto focal na história. Da continuidade da mina depende a assinatura de um contrato que irá criar uma firma obscura que irá gerar os maiores conglomerados económicos e industriais do século XX. Os dois emissários, o original e a cópia que provoca interferências (criada num assomo passional por um dos investigadores do futuro) estão no passado para auxiliar ou travar a decisão fulcral, mas também no futuro onde se envolvem com os cientistas. E no passado profundo, numa civilização utópica milenar desaparecida há milénios. Só nos momentos finais do filme nos apercebemos qual é o emissário "mau"... e na verdade esse epíteto não se aplica, uma vez que são ambos faces de um mesmo conceito, uma dicotomia animus/anima com implicações esotéricas.
Sendo um filme de António de Macedo, podemos esperar um surpreendente e complexo argumento, cheio de linhas narrativas que colidem nos momentos cruciais do filme. O humor corrosivo do cineasta também se revela em pormenores hilariantes, como o conde inválido que todos os dias vai praticar com pouca pontaria tiro, incapaz de acreditar que o adversário para um duelo que devia ter acontecido anos antes tinha falecido de causas naturais. A fiel criadagem alimentava-lhe as pistolas com pólvora seca. Ou a visão particularmente corrosiva da ciência aplicada, com sugestões de produtos da pesquisa científica de utilidade duvidosa. Ou ainda, num pormenor pequeno que diz volumes sobre a história das mentalidades portuguesa, um sacristão que tenta em vão exorcizar aquilo que pensa ser um demónio enquanto bate em retirada, disfarçando o susto com esgares santificados.
O filme também se distingue pelo cuidado visual nos cenários. A caracterização do século XIX foi muito bem conseguida, mergulhando-nos na Belle Époque portuguesa. O futuro, inevitavelmente, surge ao olhar contemporâneo como um passado dos anos 80 do século XX, mas o aspecto futurista do centro de pesquisas surpreende apesar de pormenores que ficam inexoravelmente datados, como os computadores típicos dos anos 80. Curiosamente, temos nestes computadores de época (com as suas gloriosas diskettes de 5") um pormenor presciente. Uma modificação feita por um dos emissários permite aos computadores do centro de pesquisa comunicar com o computador em casa de um investigador, isolado numa tempestade de neve na Serra da Estrela. Uma inesperada antevisão avant la lettre da internet?
Junte-se a isto a habitual riqueza estética dos filmes deste cineasta, com a sua atenção à cor e enquadramentos, e temos um filme divertido e intrigante que marca um lugar na história do cinema português pela sua temática, originalidade e qualidade. E, fiel à tradição do conto de ficção científica, não deixa de ter um curioso plot twist no final, quando os últimos movimentos de câmara revelam a razão dos nomes de Verónica e Valdemar, os emissários da distante Khâlom/constructos digitais de software." Por Artur Coelho

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Chá Forte com Limão (Chá Forte com Limão) 1993


Verão de 1970. A velha proprietária da fidalguia provinciana Raquel, habita num casarão antigo, com o mordomo e poucos criados, sem abandonar os limites rurais. Entre os vagos amigos que a visitam, chega um dia Adriana e a sua afilhada, Ermesinda. Adriana viveu na mansão há 15 anos, tendo saído por razões que se desconhecem. Raquel convida-as a passarem 15 dias. Recomeçam, assim, as tardes de estranhas quimeras, mas o reencontro das duas mulheres não esconde certa reservas, uma ambiguidade onde se afloram antigas feridas.
Chá Forte com Limão é a última longa-metragem de António de Macedo até à data. Com argumento e montagem do próprio realizador - uma constante, aliás, de todos os seus filmes - é  aparentemente uma ghost story, de ambientação romântica, pretexto para o realizador descrever sucessivas etapas iniciáticas das personagens envolvidas. Reconhecendo ser um "atormentado pelo cânone narrativo", presiste na sua busca incansável daquilo a que ele chama "os velhos canônes": "Para mim o grande mistério consiste em saber como se escreve compõe qualquer coisa de maneira que, em cada momento, o espectador esteja interessado, não no que está a ver, mas naquilo que ele imagina, quer ou deseja ver a seguir.. É a isto que eu chamo o cânone clássico". O filme recebeu o Prémio Internacional CICAE 1993.
Jean-Pierre Cassel faz parte do elenco.

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Os Abismos da Meia-Noite (Os Abismos da Meia-Noite) 1984



Irene, agente de uma companhia de seguros, é encarregada de investigar o desaparecimento de um velho bibliotecário, numa cidade de província. No decurso das suas averiguações, trava conhecimento com Ricardo, professor de história, que conhecia a vítima e se interessa pelas tradições lendárias da região. Assim, Irene tem conhecimento do antiquíssimo castelo medieval - cuja entrada secreta se abre, misteriosamente, na noite de Natal, durante as 12 badaladas da meia-noite.
Os filmes de António de Macedo - e de uma maneira muito particular, Os Abismos da Meia-Noite - apresentam um notável rigor e eficácia ao nível da imagem e do som. Para a criação de um mundo bizarro e expectante - cujos habitantes estão suspensos de nova fecundação siderial, sendo surpreendidos pela chegada de terrestes impuros e intrusos - Macedo fez construír no estúdio da Tóbis Portuguesa um insólito cenário, ora luxuriante ora metalizado, concebido por Antonio Casimiro, e propício a invocar uma atmosfera sobrenatural, com recursos aos efeitos especiais e trucagens ópticas nunca antes tentadas entre nós... Destaca-se igualmente a elaborada sonoplastia - proporcionando ao registo musical e de ruídos virtualidades que ultrapassam o estrito sublinhar da acção, para adquirir uma específica intencionalidade dramática.
António de Macedo teve sucessos de bilheteira - recorde-se A Promessa (1972) ou Os Abismos da Meia-Noite (1983) - e muitas vezes foi mal visto por isso mesmo. Igual argumento emprega, aliás, António-Pedro Vasconcelos para criticar a falta de oportunidades que teve na sua carreira pós-O Lugar do Morto (1984). No entanto, o rigor que António de Macedo sempre manifestou no tratamento estético dos seus filmes e a riqueza e diversidade dos mesmos fazem com que seja quase um acto criminoso.


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