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sexta-feira, 30 de maio de 2014

O Caso Mattei (Il Caso Mattei) 1972



Enrico Mattei ajudou a mudar o futuro de Itália, primeiro como combatente da liberdade contra os Nazis, depois como investidor em gás metano, através de uma empresa pública, e, finalmente, como chefe da E.N.I., um organismo do estado formado para o desenvolvimento de recursos petrolíferos. A 27 de Outubro de 1962 ele morreu, quando o seu avião particular caíu, um minuto antes ele devia estar a aterrar no aeroporto de Milão. Oficialmente ele morreu num acidente de avião, mas outros jornalistas exploram outras razões plausíveis para a sua morte.
O mistério da vida e da morte de Mattei, e a investigação que sucedeu à sua morte, é o tema deste thriller político de Francesco Rossi, vencedor da Palma de Ouro no festival de Cannes, a meias com outro filme que já vimos neste ciclo: "A Classe Operária Vai ao Paraíso". Rossi já estava habituado a lidar com personagens controversas, como era o caso de "Salvatore Juliano", e já desde o início dos anos 60 que vinha a produzir obras dentro do cinema político.
O filme é uma inovação híbrida do documentário e de ficção, representado o conceito de Rossi do que é cinema de investigação. A estrutura em flashback mostra influência de filmes como "Citizen Kane", ou Salvatore Giuliano", um filme anterior de Rossi. O realizador mantém-se fiel ás suas raízes neo-realistas com filmagens em exteriores, e actores não profissionais. O filme é intercalado com imagens do realizador tentando encontrar o seu amigo, o jornalista investigador Mauro de Mauro, que desapareceu enquanto fazia pesquisas para o filme. Diz-se que foi morto pela Máfia siciliana, mal tal como o caso de Enrico Mattei, este também nunca foi resolvido.
Um destaque especial para o actor Gian Maria Volonté, protagonista do filme, e que a esta altura já era figura de proa dentro deste cinema político italiano, já que aparecia como protagonista de alguns dos mais importantes filmes desta série. Para além dos que já vimos esta semana, ele também protagonizava "Uomini Contro", de Rossi, "Sbatti il Mostro in Prima Pagina", de Bellocchio, "Lucky Luciano", de Rossi, "Io ho Paura", de Damiano, "Todo Modo", de Petri, entre outros.
 
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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Confissões de um Comissário de Polícia ao Procurador da República (Confessione di un Commissario di Polizia al Procuratore della Repubblica) 1971



A corrupção da Máfia no sistema é o foco deste filme, mais especificamente em como dois oficiais do governo tão díspares escolhem lidar com ela. Ambas as filosofias individuais e a abordagem ao problema são bastante diferentes, levando os homens a entrar em conflito em vez de trabalharem juntos.
A capital da Sicília, Palermo, é o cenário. O responsável pelo comando da polícia é o Capitão Bonavia (Martin Balsam), um polícia veterano, cuja atitude imperturbável  esconde um inimigo implacável para o crime organizado, personificado por D'Ambrosio (Luciano Catenacchi), o chefe máximo da Máfia local. D'Ambrosio está bem colocado na indústria de construção em Palermo, e como tal tem amigos muito bem colocados na comunidade empresarial e no governo da cidade. Ao longo dos anos Bonavia prendeu-o várias vezes, para o ver liberto logo a seguir, por falta de provas. Entretanto chega o novo procurador da republica,  Traini (Franco Nero). Os dois oficiais da justiça desconfiam um do outro, já que os tentáculos da Máfia chegam a todo lado. Será que vão conseguir trabalhar juntos?
Superficialmente, "Confessione di un Commissario di Polizia al Procuratore Della Repubblica" é um típico drama sobre o mundo do crime, igual a tantos outros saídos na década de 70, chamados  "Poliziotteschi", cheio de negócios sujos, e intensas lutas entre policias e ladrões, mas o filme tem alguns toques invulgares, para o colocarmos alguns furos acima da média. Franco Nero, que não era dos actores mais expressivos da sua geração, tem aqui um dos seus papéis mais determinantes, e Martin Balsam traz algum vigor ao seu papel de um capitão da polícia, que pode ter pisado a lei em nome da justiça. Balsam e Nero fazem convincente jogo de confiança/desconfiança, e formam uma dupla perfeita ao longo do filme. 
Damiano Damiani era um realizador que já vinha a fazer filmes politicos a algum tempo, sempre disfarçados de outros sub-géneros. Tomamos como exemplo "A Bullet for the General", um Zapata Western, que eram spaghetti westerns com um fundo político, neste caso a revolução mexicana. Aqui temos um "Poliziotteschi" disfarçado, mas tão bem disfarçado que nem nos apercebemos para colocar esta etiqueta no filme, colocando-se entre os melhores filmes do mundo do crime daquela época.  
O norte americano Martin Balsam tinha acabado de participar em "O Pequeno Grande Homem", de Arthur Penn, e entraria numa série de filmes italianos na década de 70, alguns dos quais policiais. 
Seria um dos primeiros filmes italianos a colocar a Máfia no centro de toda a corrupção. Este filme ainda produziu duas pseudo-sequelas, ambas realizadas por Damiano, e com Franco Nero no mesmo tipo de papel, mas ambas menos importantes.

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quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Classe Operária Vai para o Paraíso (La Classe Operaia va in Paradiso) 1971



Lulù é muito trabalhador. Por causa disso é amado pelos patrões, e odiado por alguns colegas de trabalho. Os sindicatos decidem revoltar-se contra os patrões. Lulù não concorda, até cortar um dedo, por acidente. Agora, depois de confrontado com as condições de trabalho dos empregados, ele concorda com os sindicados e participa numa greve. É despedido imediatamente, e abandonado pela sua amante, e também por outros trabalhadores seus amigos. Só lhe resta o sindicato.

Drama social vencedor da Palma de Ouro em 1972 (ex-áqueo com "O Caso Mattei", que também veremos neste ciclo), que por acaso era a segunda Palma de Ouro para Elio Petri, em apenas três anos. Uma vez mais com a colaboração no argumento de Ugo Pirro, e com Gian Maria Volonté como protagonista. Há poucas dúvidas de que as convicções do realizador-argumentista são comunistas, projetando uma visão cínica do trabalhador, que ao mesmo tempo é fascinante e preocupante.
Petri, em Cannes, chamou ao seu filme de "propaganda para a classe trabalhadora", mas os seus activistas são fracos defensivamente quando confrontados com um Lulù desempregado, e os sindicalistas parecem estar a agir por conta própria.
O conceito do filme pode não ser totalmente original, já que "Coup Pour Coup", um filme francês de 1971, também mostra um caso de injustiça industrial. Mas, "La Classe Operaia va in Paradiso" é uma declaração de propaganda mais forte, e o mais importante, formou um movimento mais rápido e humano, muitas vezes perturbador. O filme tornou-se numa das obras-chave do cinema político.

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terça-feira, 27 de maio de 2014

Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (Indagine su un Cittadino al di Sopra di Ogni Sospetto) 1970



O arrogante inspector da policia de homicídios (Gian Maria Volonté), corta a garganta da sua sexy namorada (Florinda Bolkan), enquanto faz amor, e, propositadamente, vai deixando pistas que conduzirão os investigadores a ele, apesar de se considerar um cidadão acima de qualquer suspeita. Acabado de ser promovido a novo chefe da polícia, será que o bem sucedido polícia consegue escapar do que crime que cometeu enquanto o realizador da extrema-esquerda Elio Petri nos conta uma história em que o poder corrompe?
Elio Petri era um ativista da esquerda bastante dedicado (e membro do partido comunista italiano), cuja carreira era brilhante para o conjunto de apenas 11 longas-metragens que realizou, mas é dificil de ser julgado porque as suas obras dificilmente eram vistas fora de Itália. O seu filme mais acessivel fora do país é uma sátira de ficção científica chamada "The 10th Victim" (1965), com Marcello Mastroianni e Ursula Andress, um conto sombrio que se transforma numa comédia lúdica.
Este filme de Petri era uma das dissecações mais incisivas sobre a patologia do poder, alguma vez passada para filme, e foi extremamente controverso na altura em que foi lançado, num período bastante volátil depois das convulsões sociais dos anos 60. Ainda com o filme em produção e já os produtores estavam preocupados com as repercussões das autoridades, e antecipando problemas com os censores. Mas, em tempos tão turbulentos, nem mesmo as forças da ordem têm força para levar para a frente a sua autoridade, contra um filme que estava a adquirir uma enorme popularidade, e elogios por todo o lado. Os censores permitiram que o filme fosse mostrado apesar do pedido de várias autoridades para ser proibido, por difamar a polícia.
O filme é dominado pela interpretação hipnotizante de Gian Maria Volonté, o polícia, a quem nunca é dado um nome. Um militante da esquerda, Volonté, que começou a sua carreira nos western spaghetti e se tornou na maior estrela do cinema político italiano no início dos anos 70, era um actor de extraordinária presença. Raramente fora do ecrã, ele atravessa todo o filme elegantemente vestido, carismático, num filme simultaneamente belo e repelente, numa mistura inebriante de Marx, Freud, Wilhelm Reich, e Brecht, com um pouco de Dashiell Hammett.
É um dos filmes italianos mais premiados dos anos 70. Em Cannes ganhou a Palma de Ouro, o Grande Prémio do Júri e o FIPRESCI Prize. Em 1971 ganhou o Óscar de Melhor Filme em Lingua Estrangeira, e em 1972 ainda conseguiu ser nomeado para o Óscar de Melhor Argumento. 
Uma palavra especial para a banda sonora de Ennio Morricone. Uma das minhas preferidas.

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri) 1966



Um filme comissionado pelo governo argelino, que mostra a revolução argelina dos dois lados. A Legião Francesa tinha deixado o Vietname derrotada, e tinha algo a provar. Os argelinos procuram a independência, e dá-se o choque. Os franceses usam a tortura, e os argelinos respondem com o uso de bombas tradicionais. O filme traz um olhar desagradável sobre a guerra, e todos nela envolvidos.
Marco de Gillo Pontecorvo sobre o anticolonialismo, é provavelmente o mais famoso filme sem verdadeiros imitadores ("Z" e outros thrillers políticos são bem diferentes), em grande parte porque os países coloniais costumavam ser os países financiadores desses filmes. Aqui os financiadores eram o país que lutava pela independência, o que traz um ponto de vista totalmente diferente para o cinema político. Os argelinos são mesmo o centro das atenções do filme, mas mesmo isso não é o que nos faz simpatizar com eles. Pontecorvo faz-nos entender a podridão da guerra, que nenhum dos lados é inocente, pois os argelinos fazem explodir bombas em cafés que matam inocentes, e os franceses que com a sua tecnologia massiva, também matam inocentes.
Antes das grandes revoluções serem televisionadas, o cinema político permitia que as grandes populações contemplassem a uma certa distância as maquinações e as consequências das agitações violentas. Em "A Batalha de Argel" os avanços técnicos permitiram à narrativa fundir-se com a estética documental e formular um novo tipo de realismo. Pontecorvo mergulha nesta estética, que pode ser o maior filme sobre a insurreição, perfilando a luta da Argélia pela independência em tal detalhe e agitação que muitas cenas parecem tiradas directamente de um Telejornal da actualidade. Pontecorvo desliga-se dos aspectos mais emocionais, e adopta a táctica da "câmara ao ombro", não apenas para estabelecer o efeito documentário, mas também para fazer sobressair o impacto de cada tiroteio ou explosão, como uma experiência profundamente pessoal.
Acção e reacção são inevitáveis, assim como a banda sonora memorável de Ennio Morricone, utilizando o mesmo tema para cada um dos lados, é uma banda-sonora perturbadora.  Três nomeações ao Óscar, e três prémios no festival de Veneza, incluindo o Leão de Ouro.

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sábado, 24 de maio de 2014

O Cinema Político Italiano

Excluindo o cinema revolucionário soviético, nenhuma outra cinematografia abordou o tema da política de uma forma tão constante e variada como a Italia da segunda metade do século XX. Este movimento tem raízes no neo-realismo de De Sica e Rossellini e forte influência no jornalismo e no documentário, e floresceu particularmente nos anos 60 e 70.
O movimento estudantil do final da década de 60, e os que na década seguinte teriam uma forte influência no cinema italiano, geraram um género político e social. A violência política nunca deteu os realizadores italianos deste período, que em todas as suas variantes pode ser considerado dos mais prolíficos do cinema italiano - tanto em qualidade como quantidade.
Um tema tão interessante como este, era digno de um abordagem bem mais profunda, já que o próprio cinema político italiano divide-se em vários sub-sub-géneros, que vão desde filmes anarquistas, a obras sobre terrorismo. Nesta semana vamos ver os mais importantes, os filmes francamente militantes que chegaram quase a configurar uma fórmula: o tema cadente, o tom documental, estrutura de investigação policial, e...Gian Maria Volonté.
Não consegui deixar de fora "La Battaglia di Algeri", de Gillo Pontecorvo, que apesar de se debruçar sobre um tema exterior ao país, a guerra civil argelina, é um filme completamente italiano, e que se debruça sobre um tema político muito profundo.
Vamos ver também dois filmes de Elio Petri, o maior de todos os realizadores políticos, com dois dos mais interessantes filmes italianos dos anos 70, e também com dois dos mais compridos títulos do cinema italiano: "Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", e "A Classe Operária Vai Para o Paraíso".
Dos muitos realizadores políticos de Itália não poderíamos deixar de fora Francesco Rossi, de quem já tinha feito um ciclo no outro blog chamado, exactamente: "O Cinema Político de Francesco Rossi". Escolhi apenas um filme seu, desta vez. O ciclo completa-se com uma obra de Damiano Damiani, que eu nunca tinha partilhado até agora.
Outros realizadores que não vão ser aqui abordados, mas que também têm muito de política no seu cinema: Bernardo Bertolucci, Marco Bellocchio, Dino Risi, Ettore Scola, Giuliano Montaldo, Mario Monicelli, ou o próprio Pasolini.

Aqui fica a programação para esta semana:

Segunda: A Batalha de Argel (1967), de Gillo Pontecorvo

Terça: Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970), de Elio Petri

Quarta: A Classe Operária Vai Para o Paraíso (1971), de Elio Petri

Quinta: Confissões de um Comissário da Polícia ao Procurador da Républica (1971), de Damiano Damiani

Sexta: O Caso Mattei (1972), de Francesco Rossi

Todos os filmes serão legendados em português. Boa semana a todos.