Superficialmente "A Vingança é Minha" é um filme sobre um serial killer.
Foi feito muito tempo antes da vaga recente de Hollywood começada com
"O Silêncio dos Inocentes", mas alguns anos depois dos pioneiros do
género, como "A Kiss Before Dying"(1951), "The Boston Strangler"(1968),
"Peeping Tom" (1960), "Psico" (1960) e 10 Rillington Place (1971). O
filme está alinhado com estas obras anteriores, seguindo as actividades
do assassino, em vez da investigação para localizá-lo, mas
estilisticamente, é muito diferente. Baseado na história verdadeira de
Nishiguchi Akira, que foi preso em 1964 depois de uma matança por todo o
país, o filme segue o assassino Iwao Enokizu enquanto viaja pelo Japão,
vivendo de fraudes e enganos, além de cometer uma série de assassinatos
insensíveis, incluindo narrativamente os seus problemas da infância
pré-guerra, e a problemática do pós-guerra, e a sua relação amarga com o
pai, um católico devoto.
Neste contexto, conteúdo e estrutura narrativa, a abordagem do filme é
complexa e meticulosa. Começando com o transporte de Iwao para a
esquadra da polícia depois da sua detenção, a história desenrola-se
inicialmente numa forma não-linear, pulando para trás e para a frente
através do tempo, nem sempre com a ajuda gráfica da data actual e local.
A descoberta do primeiro corpo, por exemplo, vem depois da captura de
Iwao, mas muito pouco tempo antes são mostrados os acontecimentos que
levaram ao assassinato em si. Ocorrendo no início da narrativa, esta não
é uma matança no estilo dos thrillers tradicionais modernos, mas uma
matança desajeitada, amadora e deliberadamente desagradável, o fracasso
das tentativas de Iwao colocar inconsciente a sua vítima com um martelo,
obrigando-o a recorrer a uma faca, que é espetada violentamente no
peito de um homem que só depois vai morrer. É uma cena chocante por
todas as razões. O efeito sobre a nossa percepção de Iwao é imediata, e
quando um pouco mais tarde, ele procura numa loja para comprar uma faca
de cozinha (ele escolhe a mais barata, que é um detalhe interessante),
este simples acto provoca um arrepio de medo sobre o que ele vai fazer
com esta compra. Um segundo assassinato segue de seguida, tão
desagradável de se ver como o primeiro, e a partir daqui até mesmo a
ameaça de violência por parte de Iwao deixa-nos os nervos em franja.
Como a narrativa de flashback a torna-se cada vez mais linear em termos
de estrutura, a personagem de Iwao é consideravelmente mais expandida, e
a história à sua volta proporciona uma imagem mais clara do caminho
que o levou de criança para adulto rebelde, a ser tão destrutivo. Tendo
estabelecido Iwao como tema do filme, Imamura engana-nos a todos,
ignorando-o depois e concentrando-se na relação que se desenvolve entre a
sua jovem esposa e o pai idoso. Mas mesmo o fio dessa história avança
de uma forma inesperada.
Repetidamente o filme leva-nos a lugares inesperados e perturbadores.
Grande parte da violência ocorre fora da narrativa e, ocasionalmente,
joga com as nossas expectativas. Como se a própria narrativa não fosse
suficientemente confusa, Imaura também inclui algumas referências
intrigantes a aspectos menos discutidos da sociedade japonesa.
E, para finalizar, o filme é muito atraente. Pelo seu realismo
documental, pela sua técnica da narrativa complexa mas emocionante, pelo
desempenho magnífico de Ken Ogata, pela sua abordagem de não julgamento
ao material consistente, e pela profundidade intelectual e emocional.
Imamura ainda tem coragem de terminar o filme com uma cena de
peculiaridade surrealista que, todavia, funciona perfeitamente para o
filme, justamente por causa de suas possíveis leituras escondidas. "A
Vingnaça é Minha" é o cinema realmente grande, desafiador, inteligente e
de confronto, uma história brilhantemente contada, tratada com firmeza e
explorando o lado mais obscuro da natureza. Isto nem sempre torna fácil
a sua visualização, mas é uma experiência memorável.
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