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sexta-feira, 8 de março de 2019

Ao longo de quase 4 semanas fizemos um viagem ao interior de um dos sub-géneros mais importantes e também mais relegados do cinema italiano. Foi uma seleção de 25 filmes imprescindíveis, esperemos que tenham gostado. Obrigado aos que seguiram.


Terror na Opera (Opera) 1987

Uma jovem cantora de ópera chamada Betty (Cristina Marsillach) é colocada no centro das atenções  antes da noite de estreia de "MacBeth", de Verdi, quando a protagonista da ópera Mara Czekova fica lesionada. Um fã enlouquecido persegue Betty enquanto que mata todos que são próximos a ela. Será   que Betty consegue desmascarar o assassino antes de se tornar na próxima vítima?
Em 1987 Dario Argento realizou aquele que muitos fãs consideram o seu último grande filme, "Opera". O filme supostamente foi feito durante os momentos mais tumultuosos da vida do realizador, ao mesmo tempo que falecia o seu pai, e também na altura em que ele terminava um longo relacionamento com a actriz Daria Nicolodi. A história do filme gira em volta de um assassino sádico que tem laços com um jovem cantora de ópera, é um dos melhores argumentos mais de toda a carreira de Argento, com todos os eventos a desdobrarem-se como se fossem uma tragédia de Shakespeare. 
O filme, tal como a peça, estava amaldiçoado, e isso levou a alguns contratempos pelo caminho. A música de Giuseppe Verdi com a partitura de Claudio Simonetti, junto com o heavy metal que é injectado no filme nas partes de assassinato, são partes integrantes de todo o filme. Apesar de Argento ser conhecido pelos seus visuais barrocos, os seus filmes sempre tiveram uma grande dívida para com os compositores, que ao longo das várias etapas da sua carreira sempre contribuíram com bandas sonoras assombrosas e ameaçadores, que faziam parte do ambiente dos seus filmes. Em termos visuais, "Opera" tinha uma das composições mais elegantes da carreira de Argento. O filme ocorre praticamente apenas em dois lugares: a casa da Ópera e o apartamento de Betty. As cores não são tão vívidas como a maioria dos filmes do realizador, mas os fãs dos primeiros filmes de Argento vão gostar de alguns detalhes que já eram usados anteriormente, como o excessivo uso da chuva ou o assassino de luvas negras, que são usados com grande efeito. Um filme imperdível. 

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quinta-feira, 7 de março de 2019

O Estripador de Nova Iorque (The New York Ripper) 1982

Um assassino em série assassinando e mutilando jovens mulheres, geralmente prostitutas, anda a aterrorizar Nova Iorque nos anos 80, tal como Jack, o Estripador o tinha feito algumas décadas anteriormente, em Londres. O tenente da polícia Fred Williams está a seguir o caso e recebe ajuda do psiquiatra e professor universitário Paul Davis. Quando uma estudante sobrevive a um ataque do estripador as entrevistas com ela levam a um suspeito, uma figura sombria com a mão direita deformada. Mas será que é mesmo ele o assassino?
Tal como a maioria dos giallos desta era, testemunhamos os crimes do ponto de vista do assassino, sabendo muito pouco sobre a sua identidade, além de uma certa particularidade - o assassino gosta de falar como um pato. Também gosta de fazer telefonemas ameaçadores e fazer grasnidos como o Pato Donald enquanto faz o seu trabalho. É um dos aspectos mais estranhos do filme. 
"O Estripador de Nova Iorque" funciona com qualquer típico filme de crime e mistério, mas com Lúcio Fulci ao leme já sabemos que podemos contar um estilo único e uma estética visual. Há uma mistura fascinante de terror clássico italiano dos anos 70, com algumas cenas absolutamente cheias de cor, e uns exteriores sujos de Nova Iorque que nos remetem a "Taxi Driver" ou aos primeiros filmes de Abel Ferrara. São dois estilos muito diferentes, cuja mistura satisfaz bastante o espectador.
O nível de violência, especificamente a violência sexualizada, causou uma grande agitação entre os censores, principalmente no Reino Unido, que provocou que o filme fosse banido em muitas salas e dificultou o seu lançamento em VHS. Também seria dos últimos grandes lançamentos de Fulci, que a partir daqui dedicar-se-ia sobretudo a filmes de baixo orçamento.

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quarta-feira, 6 de março de 2019

Tenebre (Tenebrae) 1982

O escritor de best-sellers de mistério Peter Neal (Anthony Franciosa) viaja de Nova Iorque para Roma para promover o seu novo livro, "Tenebre".  Um assassino obcecado por Neal começa uma série de brutais assassinatos tal como estão descritos no livro. São seguidos por notas enigmáticas tiradas do livro, endereçadas ao autor. Quem vai investigar será o capitão dos homicídios Germani (Giuliano Gemma), e a inspectora Altieri (Carola Stagnaro), que suspeitam de todos, inclusive do escritor.
Em 1982, exausto com a experiência que foi fazer "Inferno", Dário Argento voltaria mais uma vez ao giallo puro, com "Tenebrae", um termo latino que significa escuridão ou sombras. Segundo relatos, uma das inspirações de Argento para este filme foi um stalker que o perseguiu na vida real, durante a rodagem de um filme anterior. Outras das inspirações foram "Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle e "The Red Shoes", de Michael Powell e Emeric Pressburger. 
De um ponto de vista narrativo, "Tenebrae" não se desvia da impressão deixada com "O Pássaro com Plumas de Cristal", e tal como "Deep Red" usa flashbacks / memórias do ponto de vista do assassino. Mas, mesmo assim nenhum giallo de Argento, até agora, se tinha afastado tanto do tema, como este "Tenebrae". 
Do ponto de vista visual, raramente há um momento em que o filme não ostente habilmente o seu trabalho de câmara acrobático e composições difíceis. Um dos momentos mais memoráveis inclui uma jovem que está a ser aterrorizada por um cão feroz, e sem saber como vai parar ao covil do assassino.
Destaque especial para o elenco, que para além de Franciosa e Gemma, contava com um bom naipe de secundários, que incluíam John Steiner, Lara Wendel, Ania Pieroni, e um tal de Jogh Saxon, que Argento foi buscar directamente ao primeiro giallo, "A Rapariga que Sabia Demais", talvez por alguma razão.

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terça-feira, 5 de março de 2019

A Casa das Janelas Malditas (La Casa dalle Finestre che Ridono) 1976

Stefano é um restaurador contratado para uma pequena aldeia perto de Ferrara para restaurar uma pintura de São Sebastião, feita por um pintor mentalmente perturbado chamado Buono Legnani, na igreja local. Stefano foi recomendado pelo seu amigo, Dr. Antonio Mazza, e descobre que Legnani era conhecido como "o Pintor da Agonia", porque costumava pintar pessoas à beira da morte. Além disso foi dado como morto há muitos anos, mas o seu corpo nunca foi encontrado. António andou em investigações e conta a Stefano que descobriu um segredo sobre o pintor e os aldeões.
"A Casa das Janelas Malditas", de Pupi Avati, posiciona-se como um giallo desde início, não apenas pelo seu enigmático e comprido título (típico do género), mas também pelo prólogo monocromático, em que duas figuras vestidas com robe apunhalam repetidamente um homem, enquanto uma voz masculina é ouvida delirantemente sobre cores infeciosas.
Noutros aspectos, "A Casa das Jenelas Malditas" também é um giallo clássico, com as suas intrigas psicossexuais, assassinatos brutais, reviravoltas imaginativas, mas aparte a abertura ensanguentada do filme, Avati em grande parte dispensa o grandioso estilo barroco visto em obras de Bava, Argento ou Fulci. Em vez disso, o seu lento acumulo de tensão paranóica é mais parecido com os filmes da década de sessenta de Roman Polanski, que como já vimos neste ciclo teve bastante inflência em vários giallos, com Avati a fazer o terror manifestar-se mais na mente das pessoas do que na tela. O resultado enervante faz desde filme um giallo bem acima da média, apesar de não ser dos mais conhecidos, nem ter um realizador ou actores conhecidos. 

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segunda-feira, 4 de março de 2019

Pensione Paura (Pensione Paura) 1978

Francesco Barilli já tinha provado ser um grande talento a criar uma atmosfera de pesadelo com seu mais famoso filme "Il Profumo Della Signora em Nero" (1974), e enquanto esse é uma verdadeira jóia, o seu segundo Giallo "Pensione Paura", de 1977, não lhe fica muito atrás. Com apenas alguns assassinatos e uma história obscura que não está muito preocupada com a série de crimes, "Pensione Paura" não é exemplo típico para o género Giallo. Passada numa casa de hóspedes na zona rural da Itália na fase final da 2 ª Guerra Mundial, "Pensione Paura" mantém uma espessa atmosfera de pesadelo, o que faz o filme parecer um sonho febril sombrio, por vezes. Bonito, mas incrivelmente estranho, o filme exala uma atmosfera constante da desgraça que é intensificada por personagens para lá de dementes, e uma banda sonora magnífica que se destaca entre as melhores do género.
Quando a 2 ª Guerra Mundial se aproxima do fim, Rosa (Leonora Fani) e a mãe Marta (Lidia Biondi) estão mantendo uma misteriosa velha hospedaria aberta para um grupo de pessoas dementes, entre eles o sórdido e sinistro playboy Rodolfo (Luc Merenda), assim como o amante de Marta (Francisco Rabal), que está escondido de alguém. Rosa, que aguarda ansiosamente o regresso do pai da guerra, anda a escrever cartas para ele diariamente ... Como em qualquer Giallo, é claro, há uma série de homícidios envolvidos, e a velha e decadente guest-house, em decomposição, tem uma configuração imaginável. Leonora Fani está muito bem no papel de adolescente inocente, uma personagem que facilmente sentimos estar com medo. O resto dos personagens são quase totalmente dementes. Um actor italiano de culto, Luc Merenda ("Torso", "Milano Trema", "L'Uomo Senza Memoria", ...) tem o papel masculino principal, e é brilhantemente sinistro. Outra grande personagem é interpretada pelo actor espanhol Francisco Rabal .
"Pensione Paura" é um exemplo fantástico do poder atmosférico do filme de terror italiano. Sem mostrar nada explicitamente 'horrível' na primeira parte, o filme mantém uma atmosfera estranhamente bela e exclusivamente de pesadelo e tristeza pura, desde o início até ao fim. Enquanto o filme não é muito sangrento para os padrões italianos do terror, mas é completamente intransigente.

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Suspiria (Suspiria) 1977

Jéssica Harper é Suzy Bannion, uma estudante de ballet americana numa academia alemã, que testemunha os últimos momentos de outra estudante que morre misteriosamente, e de forma cruel, assassinada, o que leva a suspeitar que existe algo mais na academia do que aparenta. Os instrutores parecem um pouco antagónicos, e a equipa um pouco estranha, e alguns acontecimentos levam-na a suspeitar que existem adoradores do ocultismo naquele meio.
"Suspiria" de Dário Argento, é frequentemente considerado um filme de terror clássico, um dos melhores filmes do sub-género giallo, e talvez o melhor do realizador. Mais de 40 anos depois da sua estreia ainda é um filme maravilhoso de se ver, a parte visual uma classe própria , e a forma como usa a cor e a luz que nunca foi correspondida. É uma excursão ao cinema sensorial, onde a história e as personagens estão ali para transmitir o que o realizador e argumentista Argento quer contar: um clima de mau presságio e causar alguns choques horripilantes.
Sem dúvida que o melhor do filme são os seus recursos visuais, preenchidos com composições inventivas e esquemas de cores vibrantes que saltam da tela. Os visuais deste filmes foram inspirados pelo processo Technicolor e pelos filmes sobre contos de fadas, como "Branca de Neve e os Sete Anões". O director de fotografia autor desta obra prima era Luciano Tovoli, não muito conhecido mas que tinha acabado de trabalhar com Antonioni em "Profissão: Repórter" e Zurlini em "O Deserto dos Tártaros", e que voltaria a trabalhar com Argento no seu próximo giallo: "Tenebre".
A música mais uma vez desempenha um papel proeminente num filme de Dário Argento. A partitura musical era composta pelos Goblin, uma banda de rock progressivo que já havia trabalhado com Argento em "Deep Red". Embora os Goblin tivessem vários membros que já tinham trabalhado com Argento noutros filmes, seria com "Suspiria" que eles alcançariam o seu melhor momento. A música funde-se perfeitamente com os seus visuais, e existe uma grande intensidade criada por estes dois elementos. 

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domingo, 3 de março de 2019

O Mistério da Casa Assombrada (Profondo Rosso) 1975

Uma psíquica que tem o poder de ler mentes consegue ler o pensamento de um assassino que está na plateia, e torna-se na sua próxima vítima. Um pianista inglês envolve-se na resolução do crime e começa a investigar, mas descobre que muitas das suas vias de investigação foram interrompidas por novos assassinatos e começa a perguntar como é que o assassino consegue acompanhar os seus movimentos de tão perto.
Depois de ter dirigido três giallos no espaço de dois anos, Dário Argento passaria os anos seguintes a tentar dar um novo rumo à sua produção. Realizou dois episódios e produziu uma série de televisão chamada "La Porta Sul Buio", e para o cinema realizou um híbrido entre a comédia histórica e o drama chamado "Cinco Dias em Milão", que teve resultados muito pobres nas bilheteiras, e depois de uma tentativa de adaptar Frankenstein, voltou ao género que o fez popular, o giallo. O enredo de "Deep Red", como é conhecido internacionalmente, era muito parecido com o dos seus primeiros três filmes. Girava em volta de um detective amador que começa a investigar depois de testemunhar o crime original, que coloca toda a acção em movimento. E tal como nos anteriores, o protagonista terá uma companhia que o irá ajudar nas investigações.
"Deep Red" foi também um filme de transição para Argento. Uma ponte entre os seus giallos de início de carreira e a sua posterior produção de terror e sobrenatural. É também um dos seus melhores filmes, pois prefigura alguns dos seus dispositivos estilísticos que viriam a consumir o seu trabalho posterior, mas ainda estava profundamente enraizado numa narrativa firme e absorvente."Deep Red" é acima de tudo um filme de crime e mistério, mas já está colorido com elementos de horror e sobrenatural.

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O Perfume da Senhora de Negro (Il Profumo della Signora in Nero) 1974

Silvia (Mimsy Farmer) é uma jovem aparentemente bem ajustada na vida, com um emprego estável (como química) e um namorado. Quando não está a trabalhar, podem encontra-la a jogar ténis ou a participar em eventos sociais. No entanto, começam a acontecer-lhe fenómenos estranhos: começa a ver coisas que podem não ser reais, como uma mulher misteriosa vestida com um vestido preto. Também começa a ter visões estranhas da sua infância - memórias, talvez - que há muito tempo esqueceu.
Pintor, actor ocasional, argumentista, Francesco Barilli fez a sua estreia nas longas metragens com este muito peculiar giallo, que é ostensivamente sobre a descida de uma jovem à loucura, mas, como ele próprio explica, o filme é um híbrido de duas ideias. Barilli lançou o conceito da loucura para os produtores do filme, mas como o argumento foi desenvolvido em conjunto com Massimo D'Avak, acabou por se transformar em algo diferente, que eu não posso falar. 
Quando de fala em giallos, a imagem de um assassino com luvas pretas a espreitar numa esquina vem muitas vezes à mente, embora nem todos os filmes do género estejam vinculados a esta característica. Em termos de conteúdo, as duas influências mais obvias de Barilli em "O Perfume da Senhora de Negro" são "Don´t Look Now" de Nicolas Roeg, e "Rosemary´s Baby" de Roman Polanski. O estilo cinematográfico de Polanski teve uma influência inegável neste filme de Barilli, e não só no filme mencionado mas também com "Repulsa". 
Embora a estrutura narrativa possa por vezes parecer um desafio, o climático "payoff" é estranhamente adequado e torna tudo o que se passou até então bastante claro. Entre os visuais hipnóticos, o ritmo perfeito e a banda sonora evocativa de Nicola Piovani, este é sem dúvida um dos giallos mais surpreendentes. 

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sábado, 2 de março de 2019

Vícios Proibidos (Il tuo Vizio è una Stanza Chiusa e Solo io ne ho la Chiave) 1972

Oliviero é um escritor esgotado, vivendo na sua propriedade perto de Verona com a mãe a dominar a sua imaginação. Também é um degenerado: dorme com a empregada e uma ex-aluna, e humilha a sua esposa na frente de estranhos, que vive aterrorizada. Quando uma jovem é assassinada a polícia suspeita de Oliviero, e as coisas complicam-se quando a sua sobrinha bela, jovem e autoconfiante faz uma visita inesperada.
"Vicios Proibidos" era o quarto giallo de Sergio Martino, e a sua quarta tentativa para inventar emoção e entretenimento dentro do ambiente estilizado do giallo. Os seus três filmes anteriores mostravam um cineasta disposto a  desenvolver e expandir as convenções em que estava a trabalhar. Embora o desenvolvimento do argumento tenha alguma similaridades com "O Estranho Vício da Senhora Ward", desta vez está mais preocupado com a caracterização, motivações e psicologia das personagens.
A câmara está ansiosa por rondar a mansão, que na melhor tradição dos contos de Poe, funciona como uma metáfora para as iniquidades nauseantes dos seres humanos que vivem dentro das suas paredes. Irene não tem só que lutar contra o seu marido mas também contra o gato de estimação, Satan, e a forma como este a atormenta, principalmente atacando os seus adorados pombinhos de estimação, dá-nos uma pista claramente óbvia do papel de Irene dentro daquela casa.
Edwige Fenech aparece a meio da narrativa como a precocemente provocadora sobrinha de Oliviero. Qualquer filme como Fenech e Anita Strindberg tem de ser de visão obrigatória.
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 1 de março de 2019

Que Fizeram a Solange? (Cosa Avete Fatto a Solange?) 1972

Enrico ‘Henry’ Rossini (Fabio Testi) é um professor numa escola feminina em Londres e tem um caso com uma das suas alunas, Elizabeth (Cristina Galbó). Os dois amantes passeiam num barco a remos pelo rio quando Elizabeth pensa que vê uma jovem a ser perseguida por uma figura misteriosa empunhando uma faca na mão. Mais tarde Enrico descobre que uma das suas alunas foi assassinada e mais alunas irão morrer com Enrico a tornar-se o suspeito número um. Não lhe resta outra coisa senão começar a investigar para limpar o seu nome.
No cinema italiano Massimo Dallamano foi um dos muitos directores de fotografia que se tornaram realizadores. Como director de fotografia trabalhou em filmes importantes, como "Por um Punhado de Dólares" e "Por Alguns Dólares Mais", enquanto que como realizador não passou dos doze filmes, até à sua morte precoce aos 59 anos. "What Have You Done to Solange?" é um dos seus filmes do meio, e tem dois colaboradores para com quem ele tem uma grande dívida: Joe D'Amato, outro director de fotografia que se tornou realizador, não ainda neste momento, e Ennio Morricone, que Dallamano já conhecia de outras guerras, e que era sempre um colaborador de ouro. 
É a banda sonora de Morricone que evoca temas de uma inocência perdida, e em nenhum lugar isso é tão evidente como nos créditos de abertura tão enganadores, com um grupo de jovens raparigas a passearem nas suas bicicletas. A partir daqui o filme estabelece um tom ameaçador, logo com um crime a acontecer nesta cena de abertura. Embora o momento de carnificina seja breve, o impacto é de longo alcance devido à natureza horripilante do assassinato. O assassino esfaqueia a sua vítima, uma jovem, ma sua vagina com uma grande faca. 
Como um giallo, o filme tem todos os ingredientes que possam agradar aos seus fãs. Uma narrativa bem construída com um numero considerável de pistas ao longo do caminho para manter o interesse. A direcção contida de Dallamano também mantém a violência na maioria dos casos fora da tela, implicando mas não mostrando.

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Todas as Cores da Escuridão (Tutti i Colori del Buio) 1972

Jane vive em Londres com o namorado, Richard. Quando tinha cinco anos a sua mãe foi assassinada, e recentemente perdeu um bébé num acidente de carro. É atormentada por pesadelos de um homem de olhos azuis a empunhar facas. Richard, um vendedor de produtos farmacêuticos acha que a cura é vitaminas. A sua irmã Bárbara, que trabalha para um psiquiatra, recomenda-lhe análises. Mas vai aparecer um estranho na sua vida que parece ter a solução…
Enquanto que a maioria dos realizadores do Giallo trabalhavam no género onde o conteúdo e a formula que havia sido expostos em filmes como "Blood Black Lace" ou "The Bird with Crystal Plumage", Sérgio Martino andava sempre a procurar expandir o seu universo como cineasta. E nada é tão claro como nos giallo que ele realizou nos anos setenta.
O argumento de "All Colors in the Dark" foi escrito por Ernesto Gastaldi, um colaborador frequente de Martino ao longo da década de setenta, e que escreveu todos os seus giallos durante este período. A narrativa foi inspirada por elementos do filme de Roman Polanski "Rosemary´s Baby", com uma mistura satisfatória entre elementos do sobrenatural e elementos relativos ao giallo. Sendo um Giallo soberbamente elegante, apresenta todas as emoções que os fãs procuram encontrar ( sexo, violência, e estranheza em abundância) e combina uma trama misteriosa de mulher em perigo com assassinatos hitchcockianos.
Edwige Fenech é a actriz principal e estrela da companhia, considerada por muitos como a rainha do Giallo. Como já se disse anteriormente, ela namorava nesta altura com o irmão de Sergio Martino, o produtor Luciano Martino.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O Estranho Segredo da Floresta dos Sonhos (Non si Sevizia un Paperino) 1972


Uma série de assassinatos de crianças ocorreram numa vila rural de Itália, levando o medo e a culpa às pessoas da localidade. Como de costume, a polícia chegou ao fim das suas pistas sem resultados em concreto, e avança o repórter Andrea Martelli (Thomas Milian) que decide fazer a sua própria investigação. Patrizia (Barbara Bouchet), uma mulher rica, junta-se a Martelli na busca pelo assassino, enquanto que o Padre Don Alberto (Marc Porel) e Aurelia (Irene Papas) tentam ajudar todos que na vila perderam filhos. Os suspeitos e as crianças começam a amontoar-se, levando a um assassino cujos motivações são ainda mais chocantes do que os crimes cometidos.
O giallo foi um dos géneros em que Lúcio Fulci alcançaria maior sucesso como artista, fazendo alguns dos melhores filmes da sua carreira, como é aqui o caso. Mas a história de "Non si Sevizia un Paperino" não seria nada fácil, já que o filme quando foi estreado originalmente em 1972 foi listado na lista negra, por causa da sua história polémica que levou a que tivesse um lançamento reduzido na Europa, e nos Estados Unidos tivesse apenas um lançamento em DVD muitos anos mais tarde. 
Os assassinatos eram o tema principal em quase todos os giallos, mas a trama sinistra deste filme centrava-se no assassinato de crianças, algo visto muito poucas vezes no cinema, e no cinema mais popular já não era visto desde "M", de Fritz Lang, em 1931. Mão seria assim de estranhar a controvérsia que cercou este filme na altura da estreia, e também seja um tema que ainda é tabu nos dias que correm.
A banda sonora de Riz Ortolani é uma das mais inesquecíveis da sua carreira, dando ao filme uma sensação melancólica que contrasta com a perda de inocência aqui vivida. E apesar do filme não ser tão sangrento como alguns outros do realizador, há alguns momentos sádicos bem pesados, como aquele em que Maciara é chicoteada pela população por ser confundida com o assassino. Esta sequência é uma das mais brutais e assombrosas de toda a carreira de Fulci, mas no resto do filme ele mantém a violência mais para segundo plano, enquanto se concentra na história e nas personagens. 

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

"Giallo Pages" de John Martin

Nos anos 90, antes da internet se tornar habitual em casa das pessoas, havia outros meios de partilhar informação. Um deles eram as fanzines, que eram revistas feitas por fãs para passar informação a outros interessados. Uma das revistas da altura chamava-se "Giallo Pages", da autoria de John Martin e vários colaboradores. Nas décadas de 80 e 90, John Martin era um dos melhores cronistas sobre o cinema de género, e cronista da revista The Dark Side, uma famosa revista de cinema de terror, que durou vários anos.
Apesar do nome, Giallo Pages focava-se no cinema italiano de culto em geral, e não apenas no Giallo. Durante quatro anos, cinco revistas foram lançadas, todas elas contendo entrevistas a diversos realizadores, artigos sobre vários filmes e algumas críticas. Ler esta revista funciona como uma interessante viagem no tempo, e traz-nos uma interessante visão sobre a política cultural e económica do cinema europeu de culto da época. O primeiro volume foi republicado nos Estados Unidos, mas não se seguiu mais nenhum, e actualmente todos os volumes estão esgotados no mercado, excepto os que se encontram à venda em segunda mão, e pelos quais é pedido um bom dinheiro. 
Creio que depois os Giallo Pages também foram lançados como livro, mas não tenho muita informação sobre isso. Se souberem de mais alguma informação, deixem um comentário aqui embaixo. Ou então deliciem-se com estas revistas, no formato PDF. Infelizmente falta o quinto volume. 

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4

A Cauda do Escorpião (La Coda dello Scorpione) 1971

Um avião explode. Uma das vitimas é um empresário de Londres que tem um seguro no valor de 1 milhão de dólares, e a sua esposa infiel é a beneficiária. A empresa de seguros providencia para pagar, mas também envia o seu melhor investigador, Peter Lynch, para detectar irregularidades. A  viúva vai para a Grécia para receber o pagamento, e Peter segue-a e apresenta-se. Torna-se o seu protector e companheiro, mas a relação é de curta duração.
Apesar de não ser tão reconhecido como Argento, Bava ou Fulci, Sérgio Martino foi um dos mais importantes nomes do giallo na década de 70. Realizou cinco filme num curto espaço de tempo, dos quais este era o segundo (veremos os cinco filmes neste ciclo). "A Cauda do Escorpião" veio logo a seguir a "O Estranho Vício da Senhora Ward", e adoptou o mesmo padrão de um maníaco de vestes negras à solta, que era uma cópia a carvão dos giallos desde "Blood and Black Lace", o segundo Giallo de Mário Bava.
"A Cauda do Escorpião" é mais um thriller bem montado às mãos de Sérgio Martino, apesar de alguns efeitos especiais risíveis, como um avião de brincar a explodir em vez de um verdadeiro, ou de um manequim mal disfarçado a ser cortado, na vez de uma mulher. Embora não seja tão bem sucedido como o filme anterior de Martino, beneficia de um argumento inteligente e imprevisível, trocando de heróis para surpresa do espectador, e valendo de algumas boas interpretações como do uruguaio George Hilton, herói de muitos western spaghetti, ou da actriz sueca Anita Strindberg, que aparece nua em algumas cenas para o gosto de muitos fãs. Strindberg já era uma cara conhecida para os fãs do giallo, depois de neste mesmo ano ter aparecido como a vítima Julia Durer em "Serpente com Pele de Mulher".

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domingo, 24 de fevereiro de 2019

Livro - "La Dolce Morte: Vernacular Cinema and the Italian Giallo Film"

Está a ser um ciclo maravilhoso, não acham?
Eu penso que sim, e que por esta altura alguns de vocês já devem estar bastante envolvidos por este ciclo, e para ajudar no vicio, aqui fica um livro muito interessante, chamado "La Dolce Morte: Vernacular Cinema and the Italian Giallo Film", escrito por Mikel J. Koven, um especialista que nos trás aqui um ponto de vista diferente, visto noutra perspectiva.

Link para o livro - aqui

Despeço-me com este vídeo de tribute ao Giallo, e com a informação de que ainda vamos a meio do ciclo. Bom fim de semana.


Serpente com Pele de Mulher (Una Lucertola con la pelle di Donna) 1971

Carol Hammond (Florinda Bolkan) tem tido sonhos bizarramente eróticos e devastadoramente violentos com a sua sedutora vizinha Júlia. Quando Júlia é encontrada esfaqueada até à morte Carol torna-se suspeita. Ela tenta resolver o mistério da morte da vizinha enquanto é perseguida por um misterioso stalker, aparentemente com a intenção de mantê-la longe do crime que aconteceu…
Em 1971 Lúcio Fulci e Carlo Rambaldi estavam longe de ser as figuras reconhecidas que são hoje em dia. Fulci é um dos mestres do cinema de terror italiano, Rambaldi é um especialista em efeitos especiais que ganhou Óscares em filmes como "ET - O Extraterrestre" ou "Alien - O Oitavo Passaseiro", mas nesta altura ainda eram ilustres desconhecidos fora do país.
No centro do filme está a ambiguidade psicológica em torno de Carol. "A Lizard in a Woman’s Skin"  é frequentemente considerado um giallo, mas como muitos exemplares deste período não se encaixa perfeitamente nos moldes. Na verdade, é mais uma reminiscência dos thrillers paranoicos de Roman Polanski, até o cenário do apartamento. Alguns resíduos de "Repulsion" na forma como Fulci paira com o trabalho de câmara invasivo que por vezes sufoca os personagens. Também usa imagens surrealistas que acabariam por torna-lo famoso mais tarde, sempre que explorava a parte psicológica de Carol, quer em sonhos, fantasias ou pesadelos. 
O filme ganhou uma certa fama de infame por causa de algumas cenas mais grotescas. Como a sequência dos cães que nem vou falar, mas também há algumas sequências memoráveis, como a excursão de 11 minutos através das catacumbas de uma igreja, que inclui um ataque de morcegos e culmina num sangrento duelo na cobertura. Razões mais do que suficientes para verem um dos melhores giallos. 

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sábado, 23 de fevereiro de 2019

O Estranho Vício da Senhora Ward (Lo Strano Vizio della Signora Wardh) 1971

Julie Wardh, de regresso a Viena com o marido diplomata Neil, encontra a cidade aterrorizada por um maníaco assassino. Imediatamente lembra-se de Jean, o violento e sádico ex-namorado, que convenientemente voltou à cidade ao mesmo tempo do início dos assassínios e retomando o contato com ela, parece querer reatar a relação. Também entra em cena o enigmático e elegante George que também demonstra alguns interesses em relação a Julie. Assim, acompanhando os passos do assassino, Julie deve descobrir quem, entre os homens à sua volta, tem intenções mais nefastas do que apenas leva-la para a cama.
Estreado sensivelmente na mesma altura da trilogia dos animais de Argento, "The Strange Vice of Mrs. Wardh" marcava a estreia no thriller de Sergio Martino, um talento de génio pronto para explorar o género popularmente conhecido por Giallo. Encontrou a protagonista perfeita na pele da actriz nascida na Argélia chamada de Edwige Fenech, uma beleza quase perfeita, até então vista apenas no giallo de Mário Bava "Five Dolls for na August Moon". Na altura Fenech namorava com o irmão de Sérgio, o produtor Luciano Martino, e juntos ainda fariam mais uma série de giallos e comédias sensuais. 
Bastante diferentes dos filmes de Argento e Bava, os thrillers de Martino apresentavam histórias bizarras e fraturadas, nas quais uma variedade de personagens colide com uma variedade de vilões, oferecendo uma série de pistas desorientadoras, sempre filmando num scope sumptuoso. Embora não seja tão barroco como alguns dos seus sucessores, "The Strange Vice of Ms, Wardh" ainda se apresenta muito bem como um "shocker" ousado e extremamente sombrio, que estabeleceu o ritmo durante alguns anos.

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Quatro Moscas de Veludo (4 Mosche di Velluto Grigio) 1971

Roberto, o baterista de uma banda de rock, anda a receber telefonemas estranhos e a ser seguido por um homem misterioso. Uma noite, ele consegue apanhar o seu perseguidor e tenta fazê-lo falar, mas na luta que se segue ele acidentalmente apunhala-o. Ele foge, mas percebe que os seus problemas estão apenas a começar quando recebe um envelope com fotos dele a matar o homem misterioso, e alguém começa a chantageá-lo.
Terceiro filme de Dário Argento, e terceiro filme da sua trilogia dos animais. Historicamente é o mais raro, porque durante muitos anos só podia ser visto através de uma cópia em VHS pirateada, até que em 2009 viu uma bela edição em DVD.
Sendo o terceiro filme lançado numa rápida sucessão, ele partilha muitas particularidades com os outros dois precedentes: um assassino desequilibrado à solta, um mistério imprevisível, uma frequência recorrente a sequências de sonho e flashbacks, sequências de stalking noturnas perfeitamente executadas, um elenco de mulheres bonitas que encontram fins brutais, um protagonista que não resiste brincar aos detectives, e a banda sonora do lendário Ennio Morricone, composta principalmente de rock progressivo. Infelizmente Argento e Morricone desentenderam-se por causa da banda sonora, e só voltariam a trabalhar juntos vinte cinco anos depois, em "La Síndrome di Stendhal".
Não teve o impacto do filme de estreia, nem a atmosfera cheia de suspense de "Deep Red", no entanto é um final muito interessante para a trilogia dos animais, um filme completo, e com muitas marcas pessoais do realizador, além de uma Mimsy Farmer muito bem como co-proganista, a fazer uma boa parelha com Michael Brandon.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O Gato das Sete Vidas (Il Gato a Nove Code) 1971

Franco Arnò (Karl Malden) é um cego que vive com a sua sobrinha e ganha a vida a escrever palavras cruzadas. Uma noite, enquanto caminha pela rua, ouve uma estranha conversa entre dois homens dentro de um carro estacionado frente a um instituto medico onde são realizadas experiências genéticas. Na mesma noite alguém invade o instituto e derruba um guarda. Arnò decide investigar com a ajuda do repórter Carlo Giordano (James Franciscus).
Depois do seu primeiro filme Dario Argento era chamado do Alfred Htichcock italiano, muito embora o seu estilo estivesse mais próximo do que seria o estilo de Brian de Palma, por exemplo. "O Gato das Sete Vidas" era o seu segundo filme, e o segundo da trilogia animal. que começara com "O Pássaro das Plumas de Cristal", e acabaria com  "Quatro Moscas de Veludo", com Ennio Morricone a compôr a música para os três filmes. 
Enquanto que muitos dos seus contemporâneos do giallo trabalhavam com orçamentos minúsculos, os recursos de Dário Argento eram muito maiores, por causa do deu pai, o produtor Salvatore Argento, que lhe dava o luxo, por exemplo, de contratar actores americanos. No caso deste "O Gato das Sete Vidas", contava com Karl Malden, um actor bem experiente que já tinha ganho um Óscar, e James Franciscus, que tinha acabado de ser estrela da sequela de "O Planeta dos Macacos". 
Argento referiu que não gostou do resultado do filme, e o considerava dos seus menos favoritos. Embora não tivesse o gore e a violência que fariam parte dos seus giallos posteriores, era compensado pela exuberância do seu estilo visual. Era também um dos seus filmes mais experimentais, mas apenas ao seu segundo filme ele ainda não se tinha encontrado como realizador. 

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