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segunda-feira, 14 de junho de 2021

O Adeus às Armas (A Farewell to Arms) 1932

 Nesta adaptação do famoso livro de Ernest Hemingway, o Capitão Rinaldi, um cirurgião italiano, conta ao seu amigo Frederick Henry, um tenente no serviço de ambulâncias que está apaixonado por uma enfermeira, Catherine Barkley, e tenta juntar na sua ambulância a colega desta, Ferguson. No entanto, o noivo de Catherine morreu no exército depois de 8 anos de serviço, e ela está interessada em Henry. 
Membros do SRC há muito que estavam avisados contra este livro, que iria ser feito por um estúdio grande. Em 1930 foi reportado ao chefe do SRC que o livro continha profanidade, amor ilícito, nascimento ilegítimo, deserção do exército, e uma imagem não muito favorável de Itália durante a guerra. Em 1931 a Warner Bros fez uma tentativa de passar o livro para filme, mas os revisionistas avisaram que o livro era anti-italiano, e avisaram que se o filme fosse feito seria automaticamente banido em Itália, e noutros países, coisa que o estúdio não queria. Em contraste, a Paramont resolveu arriscar, e avançar com o filme. 
Apesar dos censores tentarem demover a produção do filme, ela avançou, e o filme foi gravado em apenas dois meses com um orçamento chorudo para a época, para satisfazer o apetito do público, que entretanto já tinha ouvido falar muito do filme. Tiveram de ser removidas algumas cenas já identificadas anteriormente, e o filme depois foi rejeitado pelo chefe do SRC, mas depois do final do filme ter sido substituído por aprovado pelo consulado italiano, e depois de ter sido aprovado por um júri de produtores de Hollywood, teve finalmente autorização para estrear. Mais tarde, quando foi colocado em funcionamento o Catholic Legion of Decency (LOD, que há falamos neste ciclo), o filme foi novamente banido, e colocado na lista negra da Igreja católica.

sábado, 5 de setembro de 2020

O Jardim do Diabo (Garden of Evil) 1954

Três americanos que se dirigem para os campos do Ouro da Califórnia, vão parar a uma pacata vila Mexicana, onde lhes é oferecida a tarefa de seguir uma senhora mas profundezas das montanhas infestadas de índios no México, para resgatar o marido da mulher, preso num desabamento na sua mina de ouro. Pelo trabalho eles recebem 2 mil dólares cada um, enquanto que cada um faz os seus planos para ficar com a mulher, e talvez mesmo a mina de Ouro.
Produzido em 1954 pela 20th Century Fox, foi um dos primeiros filmes em Cinemascope, lançado para atrair o público da TV de volta aos cinemas. O tema da ganância é roubado mais obviamente, embora com muito menos imaginação, a "O Tesouro da Sierra Madre", feito sete anos antes. 
Filmado em exteriores no centro do México, com as montanhas cinzentas para sustentarem o tema austero, tinha uma equipa de produção fabulosa: realização de Henry Hataway, Milton Krasner na fotografia, montagem de James B. Clark, música de Bernard Hermann, e um grande naipe de actores, como Grary Cooper, Susan Hayward, Richard Widmark, Hugh Marlowe ou Cameron Mitchell. Mesmo assim algo correu mal, e o filme caíu no esquecimento com o passar dos anos. Dizem que foi por causa do produtor Charles Brackett cujo nome nem aparece nos créditos.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Ídolo do Público (The Pride of the Yankees) 1942


Sobre Lou Gehrig e a fascinação fora de tempo pelos heróis que nos formaram na primeira idade, John Fante, o poeta da bruteza do quotidiano e das rotinas mas também o mais terno irmão que nunca conhecemos, escreveu em 1933 was a Bad Year

«Quando cheguei, o Ken não estava lá. Vesti o fato de treino, calcei as sapatilhas e fiz os alongamentos num banco no balneário, enquanto esperava por ele. As janelas da cave ficavam ao nível da rua e conseguia ver a neve a cair no passeio e as pernas dos transeuntes a caminhar a custo pela recente borrasca. 
Era uma boa altura para mim, a melhor parte do Inverno, aquelas tardes passadas com o Ken Parrish. Ele era finalista na secundária de Roper, e o meu melhor amigo. O que nos fazia levantar de manhã era o basebol. O Ken tinha regressado a Roper após ter sido expulso de duas escolas preparatórias do Leste, não por tirar más notas, mas por fazer gazeta para ir assistir a partidas de basebol no Fenway Park, em Boston. 
O ídolo dele era o Lou Gehrig dos Yankees. Tinha três tacos partidos do Gehrig e um penso com o sangue coagulado e pêlos do seu polegar colados. O que aconteceu foi isto: certa tarde, estava o Kenny sentado atrás do banco de suplentes dos Yankees, quando viu o Lou Gehrig arrancar o adesivo do polegar e atirá-lo para junto da primeira base. O Ken desatou a correr pela bancada, saltou a barreira para o recinto de jogo, e apanhou o penso do relvado enquanto dois porteiros o agarraram pelo pescoço. Expulsaram-no do parque, mas o Ken ficou com a sua recordação e não se importou. 
No final do jogo, manteve-se por perto dos balneários dos Yankees até o Gehrig sair. O Ken pediu ao grande Lou para lhe autografar o penso e este fê-lo com a sua própria caneta de tinta permanente. Esse penso ensanguentado estava agora pendurado numa moldura na parede do quarto do Ken. Ele tinha a certeza de que um dia valeria imenso dinheiro, mas eu tinha as minhas dúvidas. Os velhos jogadores de basebol caem rapidamente no esquecimento.» 

O livro foi postumamente publicado em 1985, mas já nos anos 40 se tinha prestado uma bela homenagem a esse ídolo das massas que chegou a rivalizar com Babe Ruth, no The Pride of the Yankees de Sam Wood. Ídolo das massas e coração ternurento, visão luminosa em movimentos radiantes, portador de dádivas gloriosas que cativaram milhões, simples beleza e simples emoção que todos compreendiam, deixando de um momento para o outro de conseguir praticar a sua grande paixão, morrendo precocemente e deixando em lágrimas tantas famílias e tantos desamparados. 
Sobre corpos celestes assim terrenos e em fusão com o outro mais anónimo, encontro de almas sem tempo nem espaço, Walt Whitman, um dos cantores capitais do desporto americano por excelência e logo um dos seus inventores espirituais, escreveu: «Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes.» 
O resto, o rasto estelar, indefinível, inexplicável, incontável, é a história de amor entre o Gehrig que só a Gary Cooper pode pertencer e essa Eleanor da frágil e blindada Teresa Wright, num percurso Borzageano que passa pelo presente imaculado e pelas sombras do destino com a mesma resolução; num imaginário de sonhos talvez pudesse ter-se chamado outro dos sonhos que Frank Borzage nunca filmou, em branco sobre branco sobre branco: Este Coração que te pertence (como alguém chegou a traduzir para português o titulo do livro póstumo de Hans Fallada, Dies Herz...)
*Texto de José Oliveira.

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sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Comboio Apitou Três Vezes (High Noon) 1953



O Marshall de uma pequena cidade, Will Kane (Gary Cooper) enfrenta uma vigília solitária e sombria quando ouve que um inimigo mortal e assassino vingativo foi libertado pelas leis abolicionistas liberais. Tenta recrutar ajuda e apoio dos seus bons vizinhos para reprimir o adversário, Kane encontra apenas covardia e medo. Pior ainda, quando se prepara para o inevitável duelo Kane enfrenta a desaprovação da sua esposa Amy (Grace Kelly). Enquanto isso, Miller e o seu gang aproximam-se da estação do comboio a todo vapor. 
"High Noon" faz uma coisa muito importante ao longo da sua pouco menos de hora e meia, e fá-lo excepcionalmente bem. É um exemplo perfeito de como uma dedicação sincera da criação de um ambiente pode resultar numa experiência fílmica verdadeiramente recompensadora e atraente. Cada faceta no filme, cada momento da sua estrutura económica, contribui para a  tensão cada vez maior que irá atingir o auge nos minutos finais do filme. O realizador Fred Zinnemann mantém um rígido controle sobre o ritmo do filme, usando rápidos close-ups de relógios como marcadores na montagem, com batidas enfatizadas que aumentam a tensão. 
Impulsionado por uma interpretação altamente digna de um envelhecido Gary Cooper, que desde então passou a ser visto como um sinónimo de herói masculino, este western tenso trabalhado meticulosamente por Zinnemann, em grande parte representado em "tempo real" com ênfase nos relógios tiquetaqueando a acção, ainda se destaca como um dos maiores filmes no género. De certa forma era uma alegoria sobre a caça ás bruxas levadas a cabo pelo Senador McCarthy, com o argumento a ser escrito por Carl Foreman, um dos nomes que esteve na lista negra. 
Gary Cooper ganhava aqui o seu Segundo Óscar, e o elenco contava ainda com nomes como Thomas Mitchell, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Lon Chaney Jr, Harry Morgan, e brilhantes como vilões Ian MacDonald e Lee Van Cleef.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As Aventuras do Capitão Wyatt (Distant Drums) 1951



Gary Cooper interpreta o capitão Quincy Wyatt, que tem a missão de reprimir a rebelião dos índios semínolas na Flórida, bem como impedir que contrabandistas vendam armas aos índios. Baseado numa história verdadeira passada em 1840.
Muito poucos westerns se tinham debruçado sobre os índios semínolas, localizados na região do Leste em vez do Oeste, mais propriamente na Florida. "Distant Drums", de Raoul Walsh foi quem quebrou este vazio, e vários outros se seguiram nos anos próximos, todos na década de 50: "Semínole" (1953), "War Arrow" (1953), "Shark River" (1953), "Seminole Uprising" (1955) e "Naked in the Sun" (1957). 
"Distant Drums" tinha o mérito de ter sido filmado em extensas paisagens da Flórida, com muita da acção a ser filmada na região pantanosa dos Everglades. Também foi dado um grande uso do Castillo de San Marcos (anteriormente conhecido como Fort Marion) uma fortaleza espanhola onde este aprisionado o Chefe Seminole Osceola em 1837, durante a Segunda Guerra Seminole. Esta personagem é interpretada no filme por Larry Carper, um raro exemplo onde um caucasiano interpreta um indio americano. Na vida real Osceola era um misto de Caucasiano com Índio, e nasceu com o nome de Billy Powell.
O filme é um misto de western com "Objective, Burma!" (1945), uma das obras de guerra mais marcantes de Walsh, e conta-nos a história do Capt. Quincy Wyatt (Gary Cooper) e do tenente Richard Tufts (Richard Webb), e a sua companhia de soldados especialistas em andar nos pântanos, numa missão de recapturar um forte que foi tomado pelos Semínoles. Ao longo do percurso têm de atravessar várias dificuldades, como passar por areias movediças, escalar paredes, combates subaquáticos, por vezes só com uma faca, um revólver ou com os punhos, bem à maneira de Walsh.
Era muito difícil filmar nos pântanos, e Walsh contou que teve de contratar dois especialistas em serpentes, para limparem o terreno à medida que íam filmando. Mesmo assim os perigos ainda eram muitos. Cooper caíu nas areias movediças um dia antes de começar as filmagens, e o director de fotografia Sid Hickox disse que quase foi engolido por um jacaré. Segundo o realizador, Cooper também se queixou que tinha doado uma boa quantidade de sangue aos mosquitos e sanguessugas.
Longe de ser um dos melhores filmes de Walsh, ainda é um entretimento bem interessante. O equivalente a um blockbuster para a altura.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Oitava Mulher do Barba Azul (Bluebeard's Eighth Wife) 1938



Michel Brandon (Gary Cooper) é um milionário norte-americano que gosta de casar, mas que não consegue permanecer casado. Teve já sete mulheres e está à procura da número oito. Na Riviera Francesa, conhece Nicole de Loiselle (Claudette Colbert), filha de um marquês francês falido que vê no casamento da filha uma oportunidade de negócio. Mas ao perceber que vai ser a 8ª mulher de Michael, Nicole engendra um plano para que não venha a ser apenas mais um número na lista das ex-mulheres de Michael.
Com um argumento escrito por Charles Brackett e Billy Wilder, e realização de Ernst Lubitsch, esta comédia romântica só poderia resultar em pleno. O filme era uma releitura do romance "The Taming of the Shrew", mas tem a distinção de ser uma das mais originais screwball comedies. Colbert a demonstrar que tem muito talento cómico, talvez até mais do que Cooper, com destaques ainda no campo das interpretações para Edward Everett Horton, no papel do pobre pai, e o britânico David Niven como outro pretendente.
O argumento era o primeiro de uma série de colaborações de sucesso entre Billy Wilder e Charles Brackett ((Ball of Fire, Ninotchka, Sunset Boulevard), e está cheio de grandes tiradas (”I only have to look at your pants to know everything”). Não é tão cruel como as obras posteriores dos dois, em especial de Wilder, mas ainda assim é um grande argumento. Também é um filme de Ernst Lubitsch, ele que é famoso pelo seu toque especial no campo da comédia, assim como aproveita da melhor maneira os cenários luxuosos da velha Europa, e da classe rica de Nova Iorque, repleta de maravilhosos hotéis, vestidos, jóias, e uma divertida série de empregados de hotel, tudo temperado com a fria batalha dos sexos, que era normal nas comédias da altura.
Não foi um sucesso de crítica na altura da sua estreia, mas com o tempo tornou-se num dos filmes mais importantes do realizador.
Foi uma escolha do Rui Alves de Sousa.

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