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sábado, 28 de setembro de 2019

The Shadow Box (The Shadow Box) 1980

Foi há trinta e nove anos que Paul Newman realizou este filme para a televisão que resiste pacientemente a cada nova visualização, com personagens que nos parecem olhar nos olhos e perguntar uma e duas vezes “como é que estás?” ou “o que é que fizeste este último ano?” com a mesma candura e a mesma implacabilidade. Com vinte, trinta, cinquenta, ou sessenta anos. Setenta. Este mês de Agosto, Louis Skorecki parece ter visitado o website letterboxd numa noite de embriaguez cinéfila para qualificar The Shadow Box de “great film” e “best film ever”. Não houve mais actividade. Talvez não seja mentira, permanece um poço sem fundo de emoções, implicações complexas e problemas indecifráveis. É sobre a morte e, portanto, sobre a vida – o que não quer dizer grande coisa nem diz o que quer que seja sobre o filme. Mostra-nos três pacientes terminais interpretados por James Broderick, Christopher Plummer e Sylvia Sidney, rodeados pelas mulheres e ex-mulheres, os amantes que encontraram e os filhos, interpretados por Valerie Harper, Joanne Woodward, Ben Masters, Melinda Dillon e Curtiss Marlowe. Há um médico enquadrado sempre de costas que os entrevista para manter uma espécie de diário de bordo e dar conselhos.
Somos avisados ao princípio de que as gravações são uma experiência televisiva, câmaras ligadas em circuito fechado para um hospital, onde médicos, enfermeiros e alunos assistem às entrevistas. Nós vemos o mesmo. Em 1980, quando não se sabia demais e passavam Paul Newman cineasta na televisão, a coisa podia passar mesmo como a verdadeira experiência, transmitida em directo pela American Broadcasting Company (ABC). A personagem de James Broderick diz que a família vem ter com ele, porque agora já têm dinheiro para o fazer. Nem uma palavra sobre a morte, só uma menção à crença passada de uma melhoria, o que visto pela primeira vez pode passar ao lado como dado insignificante, tal como as palavras sobre o mar e as montanhas. Mais para a frente chegam as perguntas. Porque é que a mulher interpretada por Valerie Harper não consegue entrar em casa com o filho e com o marido? Porque é que dá uma bofetada ao filho quando este a tenta fazer entrar de forma inocente? Não há razão que o explique, naquela família não se fala tão abertamente como no chalé de Christopher Plummer e Sylvia Sidney. Pode-se adivinhar, mas vão ser precisas mais bofetadas, muitas bebedeiras e muita negação até se ter a certeza. Só que quando a revelação chega, com o “I'm going to die, Maggie” de Broderick (um delírio de simplicidade, um delírio puro e simples), não há certezas que nos amparem. Estamos todos em negação.
Pode-se voltar ao início outra vez, somos avisados da experiência, corta para duas televisões, uma enfermeira vai encher a chávena de café e volta, corta outra vez para Broderick. É um beco sem saída. Podemos pensar que é Ben Masters, com a sua seriedade assertiva e bem informada, quem tem as respostas. Uma garrafa de vodka, dez bofetadas, um abraço e uma masterclass de interpretação depois é Joanne Woodward quem dá a volta por cima, mas voltamos ao mesmo. “He always cared about the wrong people”. Uma mulher de setenta anos agarrada à vida por uma mentira da filha, que só quer a morte. A certeza da morte no abstracto não é o mesmo que a notícia, confirmada por médicos e aceite como irreversível pelo paciente, os segundos e os minutos distendem-se só com a aflição e a cisma no prazo de findas. Formalmente, Newman consegue o mesmo com as cenas da família de Broderick, o elo de ligação entre os outros dois residentes (faz-se tudo num plano: Ben Masters passa a correr da direita para a esquerda pela entrada desse chalé, Sylvia Sidney passa de cadeira de rodas na direcção contrária, com a filha). O tempo distende-se até à aceitação, que acelera o processo mas nos devolve a sanidade. “I'm going to die, Maggie”. Passa-se tanto tempo que quando vão dizer ao filho ele já sabe. A revelação não é informativa, mas um empurrão milagroso para a vida, uma alternativa ao limbo ou ao purgatório. Uma saída. 
Outra forma de ver as coisas é aceitar essa revelação como a simples colocação do problema, numa altura em que se costumam dar as resoluções e as morais das histórias – o que por si só é extraordinário – e voltamos aos círculos. Sylvia Sidney pede à filha que lhe leia a carta (escrita por ela mas atribuída à irmã, que já morreu), o último apego da senhora à vida e à realidade. E Melinda Dillon lê a carta, uma e outra vez, já a sabe de cor. Lê-a como se tivesse encontrado um remédio para a morte da mãe à custa da própria vida, de olhos postos no céu estrelado, numa melancolia bem desanimadora. Estamos todos em negação. Não há saída. E não há-de ser por termos cinquenta, sessenta, setenta, oitenta ou noventa anos que vamos ter melhores respostas para as perguntas que este filme nos faz, enquanto olha de frente para algumas das escolhas que fizemos este ano numa tentativa de fugir da morte, mais uma vez, negando a vida. Dirão os iluminados que não são os filmes que mudam, somos nós. Mas não têm em conta as excepções, em que por apatia nossa ou grandiosidade dos filmes, ficamos na mesma enquanto os vemos a mudar. 
“best film ever”.
* texto de João Palhares

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domingo, 15 de abril de 2018

Vício de Matar (The Left Handed Gun) 1958

William Bonney - Billy the Kid - consegue um trabalho como vaqueiro para um criador de gado conhecido como "The Englishman", um homem pacífico e religioso. Quando um xerife com más intenções e os seus homens matam "The Englishman" porque ele pretendia fornecer o forte local do exército com a sua carne, Billy pretende vingar a morte do amigo, matando os quatro homens responsáveis, e envolvendo toda a gente em redor: Tom e Charlie, dois amigos com quem trabalha; Pat Garret, que está prestes a se casar; e um gentil casal mexicano que o abriga quando está metido em sarilhos.
Um western completamente único, que se situa entre o peculiar e o profético, "The Left-Handed Gun" (1958), marcava a estreia na realização de Arthur Penn, e elevava Paul Newman, que até então era mais visto como um actor bonito, a um estatuto mais sério.
 Baseado numa história para televisão de Gore Vidal, oferece-nos uma nova abordagem para a lenda e a vida do pistoleiro conhecido como William "Billy the Kid" Bonney, tratando-o mais como um jovem problemático do que como um desesperado sanguinário. Superficialmente parece um western tradicional, mas as suas armadilhas de filme de cowboys são ultrapassadas pela interpretação de Paul Newman. Acabado de saír das formação no Actor's Studio, Newman (que tinha participado na versão televisiva desta história), desafia as convenções do western, contorcendo-se em poses de angústia interna. O seu colega do Método James Dean tinha mostrado interesse em interpretar Billy the Kid, e quase podemos ver a sua angustia na interpretação atormentada de Newman no papel principal. 
Não foi muito bem recebido na América, mas foi na Europa, principalmente durante a década de setenta, quando as audiências começaram a aceitar estes filmes estilizados.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Corações na Penumbra (Sweet Bird of Youth) 1962

Paul Newman é Chance Wayne, um ex-"gigolo" que volta à sua terra natal acompanhado por Alexandra Del Lago (Geraldine Page), uma actriz em decadência. A intenção de Wayne é impressionar Tom Finley (Ed Begley), o cacique local, um político corrupto que o expulsou da cidade. Mas a figura patética de Del Lago, que se afoga em álcool, drogas e sexo com a sua incapacidade de aceitar a passagem dos anos, não é a mais adequada para melhorar a imagem de Wayne. 
Uma das peças mais corrosivas e perturbadoras de Tennessee Williams, "Sweet Bird of Youth" foi um grande sucesso nas mãos de Elia Kazan pelos palcos da Broadway, mas teve uma produção algo problemática a passar para a tela. Por um lado, A MGM sabia que ía ter problemas com o Código de Produção, por causa da sua história: um ex-gigolo com aspirações a se tornar um actor de Hollywood tem uma relação com uma actriz outrora famosa, com um fraco por álcool e haxixe. Quando o casal visita a terra natal dele alguns segredos são expostos. O terrível final da peça original tinha Chance a ser castrado por vários durões. A versão cinematográfica não podia ser tão explicita, e Richard Brooks teve de reescrever completamente o final para algo muito mais optimista.
Por sorte, quatro dos principais membros do elenco da peça da Broadway concordaram entrar no filme: Paul Newman, Geraldine Page, Rip Torn, e Madeleine Sherwood, todos concordaram recriar os seus papéis na Broadway. Newman estava a tornar-se numa estrela de Hollywood muito rapidamente, contando já com duas nomeações para o Óscar de melhor actor (uma por "Cat on a Hot Tin Roof"(1958) e outra por "The Hustler"(1961)). Embora o seu desempenho em "Sweet Bird of Youth" seja louvável, é Geraldine Page quem rouba o filme, no papel de Alexandra del Lago, uma personagem originalmente inspirada em Tallaluh Bankhead, uma amiga próxima de Tennessee Williams.
 Foram três os actores nomeados para Óscares neste filme: Ed Begley, Geraldine Page e Shirley Knight, mas apenas o primeiro conseguiu levar uma estatueta para casa.

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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Gata em Telhado de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof) 1958

Harvey Pollitt (Burl Ives) é um rico proprietário de terras, além de possuir uma fortuna de US$ 10 milhões. Harvey festeja o aniversário e é visitado pelos dois filhos, mas ignora que tem um cancro inoperável, pois o médico tinha lhe dito que estava recuperado. Gooper (Jack Carson), um dos filhos, e a sua esposa (Madeleine Sherwood) tiveram algumas crianças e cobiçam poder herdar os milhões do "Velho". Por outro lado Brick (Paul Newman), o seu filho preferido, é um alcoólatra e ex-estrela de futebol americano, que vive um casamento infeliz. Esta situação deixa Maggie (Elizabeth Taylor), a sua esposa, muito frustrada, porque ama o marido apesar de ser desprezada por ele. 
A peça "Cat on a hot Tin Roof" foi um êxito da Broadway na primavera de 1955, e não demorou muito para que a MGM comprasse os direitos para a sua adaptação ao cinema, com James Dean e Grace Kelly apontados para os papéis principais, de Brick e Maggie. A peça de Tennessee Williams vencedora de um prémio Pulitzer, revelou-se ser mais complicada do que parecia, e foram precisos três anos para que a MGM conseguisse uma adaptação do do argumento que conseguisse satisfazer os standards do Código Hays, e quando o argumento ficou pronto já Dean tinha morrido e Kelly era uma princesa na vida real. O argumento ficou sem qualquer referências à homossexualidade do protagonista, e foi-lhe retirado bastante narrativa para tornar o filme fluído para um público mainstream. Tennessee Williams não ficou muito satisfeito com todas estas alterações, e chegou a desencorajar as pessoas a verem o filme, mas apesar disso foi um dos grandes sucessos de bilheteira do ano, para além de ter conseguido seis nomeações para o Óscar (incluindo Filme, Realizador, Actor, Actriz e Argumento), acabando por perder tudo. 
Apesar de toda a inépcia da MGM em lidar com críticas a valores da sociedade americana (homofobia, mentira, avareza, são apenas três dos pontos que o autor aponta o dedo nesta peça), o filme é compensado pela electrificante presença de Paul Newman e Elizabeth Taylor. É incrível pensar que poucas semanas depois de iniciar a rodagem deste filme, Taylor tinha perdido o marido num acidente de avião. Poucas foram as vezes que a actriz tinha conseguido uma prestação tão arrepiante. Taylor e Newman representavam duas escolas de interpretação muito diferentes, ela era muito instintiva, ele era muito devoto ao "método", com o confronto entre os dois a ser brilhante.
O filme era originalmente para ter sido dirigido por George Cuckor, mas este acabou por ser substituído por um muito menos experiente Richard Brooks quando se apercebeu nos problemas que seriam levantados pelos censores. Brooks já era um dos autores do argumento, e a sua decisão de ensaiar o filme como se fosse uma peça de teatro assegurou-lhe a intensidade claustrofóbica da fonte original, e ainda amplificava o poder das interpretações, como não havia mise-en-scéne ou trabalho de câmera para nos distrair. 

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Raquel, Raquel (Rachel, Rachel) 1968

Rachel é uma professora de 35 anos, que não tem qualquer homem na sua vida, e vive com a mãe. Quando um homem da grande cidade regressa w a convida para saír, ela tem de começar a tomar grandes decisões sobre a sua vida, e perceber até onde quer ir.
 "Rachel, Rachel" é uma meditação madura sobre a solidão, e a angustia existencial. Alguns anos antes de "The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds", um filme de culto, Paul Newman realizava o seu filme de estreia, "Rachel, Rachel". Era difícil de imaginar o actor de filmes como "Cool Hand Luke" ou "The Hustler" escolher para se estrear atrás das câmaras com o retrato tão sensível e extraordinário, de partir o coração, de uma mulher envelhecida antes do seu tempo, da solidão a larga escala, dos pequenos detalhes da vida e da psicologia. Baseado no livro "Jest of God", de Margaret Laurence, conta a história de uma professora que vive em casa com a mãe, e tem feito tudo desde os 14 anos, idade em que o pai morreu. Ela vive em silêncio, vivendo para o trabalho, e a cuidar da sua mãe refilona, e a caminho de casa da sua amiga Calla, que também dá aulas na escola. Mas Rachel começa a aperceber-se que realmente nunca viveu a vida, e talvez esteja na altura de o fazer. O argumento é da autoria de Stuart Stern, que alguns anos antes tinha escrito o argumento de "Rebel Without a Cause", outro filme sobre a alienação, e o anseio pelas relações humanas.
A protagonizar estava Joanne Woodward, esposa de Newman, que já tinha conquistado um Óscar anteriormente com "The Three Faces of Eve", e que aqui arrecadaria a sua segunda nomeação. Newman achava que ela era a pessoa mais genial do casal, e, por isso, queria-a a trabalhar consigo. Mantém a câmara fixa no seu rosto ao longo do filme, que é feito, sobretudo, de closeups. 
Além de Melhor Actriz, conseguiu mais três nomeações aos Óscares, incluindo Melhor Filme e Argumento Adaptado.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Juiz Roy Bean (The Life and Times of Judge Roy Bean) 1972

O Juiz Roy Bean é um homem irredutível. Uma espécie de mito no velho Oeste. Ele mesmo criou as suas próprias leis e aplica-as com seus os métodos, como acha correcto. Qualquer pessoa que cometa um crime (na visão do juiz) é severamente punido. Severamente mesmo.
John Huston, o realizador. John Milius, o argumentista. Paul Newman, o protagonista. Violento, caricatural, e conto sentimental, bem embrulhado, como se fosse um western, é mais uma das pérolas da fase final da carreira de John Huston. "The Life and Times of Judge Roy Bean" é uma crónica sombria sobre as promessas e desilusões do chamado "sonho americano".
Qualquer filme que ouse cobrir tanto terreno em termos de tempo, e tente chamar a atenção para o seu significado histórico, corre sérios riscos de ficar facilmente datado. No entanto, este filme é tão divertido e vigorosamente interpretado, principalmente por Newman no papel principal, que as suas pretensões acabam por se tornar qualidades.
Embora o Roy Bean da vida real tenha morrido em 1903, o argumento de Milius acaba por ser vago sobre datas e épocas. O filme parece cobrir toda a história do Texas, bem reflectido no crescimento de Vinegaroon, que no início parece um único bar de prostitutas situado num terreno baldio, de uma desolação quase cómica, até ser uma cidade fronteiriça próspera.
Um destaque especial, para a qualidade do restante elenco: Anthony Perkins, Ned Beatty, Tab Hunter, Stacy Keach, Roddy McDowall, Jacqueline Bisset, Ava Gardner e Richard Farnsworth.

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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Marcado Pelo Ódio (Somebody Up There Likes Me) 1956


Rocky Graziano (Paul Newman) está a tentar evoluir no mundo do crime quando é finalmente apanhado e preso. Na cadeia, ele é indisciplinado e está sempre a envolver-se em sarilhos. Quando sai passados vários anos decide começar uma nova vida. Rocky descobre que consegue ganhar algum dinheiro a lutar boxe e é rapidamente aclamado como um novo talento do pugilismo.
Esta é a verdadeira história de Rocky Graziano, e segue-o desde a altura em que ele cometia crimes, passando uma temporada temporada na cadeia e no exército, até se tornar campeão do mundo de pesos-médios. Ao contrário do que indica o título do filme, ninguém lá em cima estava a olhar pelo filme. A produção acidentada começou com a morte do primeiro protagonista do filme: James Dean. A história do pugilista Rocky Graziano era da preferência de Dean, que queria muito interpretar o pugilista, e iria voltar a juntá-lo ao seu co-protagonista de "Rebel Without a Cause", Sal Mineo, e colocá-lo ao lado da sua namorada de fora do grande ecrã, Pier Angeli. O novo protagonista era Paul Newman, já com a idade de 31 anos era considerado demasiado velho, e canastrão, para o papel do pugilista. A estreia de Newman em "The Silver Chalice" tinha sido um fracasso, mas este filme iria colocá-lo no mapa.
Newman mergulhou profundamente no papel, e retirou uma interpretação de alto calibre, muito diferente que o público se habituou nos seus filmes mais famosos. O filme foi rodado nas ruas de Nova Iorque, num belíssimo preto e branco, com uma fotografia que acabaria por ganhar um Óscar.
Com dois filmes sobre o mundo do boxe tão importantes, a saírem no mesmo ano, começava-se a adivinhar um grande futuro para os filmes sobre este desporto, que continua a ser o desperto mais bem retratado no cinema. Para além de todos estes pormenores, também era o filme que lançava actores como Steve McQueen, Robert Loggia, ou Robert Duvall, em papéis muito secundários. A realização estava a cargo de Robert Wise, um realizador já com um percurso de respeito em Hollywood, que tinha feito, por exemplo, a montagem de "Citizen Kane". Este filme ganhou 2 Óscares.

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