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quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Filha (A Filha) 2003

"Há mais de vinte anos - rigorosamente, desde "Dina e Django" (1981), Que Solveig Nordlund vem falando de filhos. Nesse filme era uma jovem que se deixava enredar pelo romantismo da fotonovela e acabava a cometer um crime.  Em "Até Amanhã, Mário"(1993) e "Comédia Infantil" (1997), eram miúdos de risco, em cenários sociais devastados. Em "Aparelho Voador a Baixa Altitude" 2001), era um próximo futuro em que as crianças nasciam mutantes e a procriação se tornava interdita. Nesse caminhar, chegou agora Solveig Nordlund a um ponto extremo: "A Filha" é uma história de desespero suicidiário, lá onde os fantasmas de incesto e da violência se convocam.
O filme começa em ambiente reconhecível: uma gala de televisão, o seu protagonista, produtor de "reality shows" escandalosos de sucesso vai à Madeira receber um prémio, entre flashes de fotógrafos e a pressão libidinosa de uma mulher que percebemos ser sua amante. Mas há uma ameaça no ar: o nosso homem recebe uma mensagem da filha no telemóvel, a urgir que venha para casa ou não a verá mais... Ele faz todos os esforços para vir, mas acaba por ceder à chantagem da amante. E quando chega a Lisboa a filha desapareceu de facto. Entra em cena uma jovem candidata a apresentadora de um novo "reality show" a ser produzido.  Uma jovem disposta a tudo para conseguir a fama. Disposta a mentir-lhe dizendo onde a filha está, disposta a tomar o lugar da própria filha...
Não há no cinema português memória de um filme assim. Um filme que parte de um quotidiano banal para um universo concentracionário onde a crueldade e a alienação tomam conta. Uma crueldade fria, lenta, sistemática, onde se cavalgam em rota de colisão um pai atormentado e abusador e uma rapariga que acredita até à insanidade na sua capacidade de manipulação. Uma alienação em que a existência oscila nos seus valores mais essenciais - não há um único personagem eticamente sustentado em todo o filme, todos se movem sem padrões que não sejam os do egotismo - e em que a loucura do protagonista é apenas um desvio mais pronunciado a uma desnormalização generalizada. Há um desencanto cavado no olhar de Solveig Nordlund, o mundo corrompeu-se sem esperança. Na obra da realizadora aflora a sua matriz escandinava, mais de trinta de mediterraneidade não apagaram os genes socioculturais em que se formou."
Texto in Expresso, Jorge Leitão Ramos

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terça-feira, 5 de junho de 2018

Sem Ela (Sem Ela) 2003

Jo e Fanfan são irmãos gémeos, embora de sexo diferente. Filhos de um casal de portugueses emigrado em França, apanhamo-los em princípio de férias a caminho de Portugal. E descobrimos, logo logo, que entre eles existe uma intimidade muito particular. Andam juntos para todo o lado, partilham o mesmo quarto, os mesmos gostos, a mesma moto, a mesma tenda de campismo. Mas também percebemos que um princípio de conflito se instala. Jo descobre que Fanfan se iniciou sexualmente com um tipo que conhecem do bar e sente ciúmes. Depois, lentamente, verificamos que os dois irmão se vão afastando. Quando as férias terminam, Fanfan permanece em Portugal por mais uns tempos. E Jo fica desasado e progressivamente inquieto.
"Sem Ela" é uma história de uma ausência. De como um adolescente sofre ao enfrentar a vida. Mas é também uma metáfora para a situação de muitos luso-descendentes, divididos entre dois países, duas almas, duas culturas. A felicidade está na fusão dessas duas entidades, mas no corpo do filme, essa pulsão é proibida, incestuosa. "Sem Ela" é uma história que faz medo, porque já não há paz possível para aquelas duas criaturas (o final, em "happy end" não poderia ser mais enganoso...). O mundo em volta, de resto, não ajuda a apaziguar tensões: lá esta essa cultura de margem de muitos jovens gauleses excluídos que é o racismo político, lá se identifica uma textura social atabafante, no nosso país. E há mais nuvens do que sol. 
Filmado com grande liberdade de movimentos, câmara à mão, atenção aos rostos, à pele, àquilo que nos actores é físico mais do que profissionalmente premeditado, esta fita de estreia de Anna da Palma tem frescura, intenção e revela uma realizadora. Atenta ao enquadramento social, traça do casal de emigrantes, pais dos protagonistas (interpretado com sabor pela dupla Maria Emilia Correira / Vitor Norte), é um retrato onde se mescla ternura e severidade, com quem compreende o seu ser e modos, mas não os acompanha já. Apetece gostar deles, como apetece gostar do filme inteiro.
 Há planos iluminados por uma espécie de plenitude que nos deixam repletos. Logo vem uma cena mais frágil que nos desacerta a atenção?  Há momentos em que amamos aqueles dois jovens (belíssimos Aurélien Wiik e Bérénice Bejo), tão frágeis que quase dá vontade de aconchegar. Outros há em que os sentimos desarticulados ao ponto de fazerem crescer em nós irritação?. Obra primeira, "Sem Ela" tem virtudes surpreendentes e erros expectáveis - e uma vontade impulsiva de existir."
In Expresso de 11-09-2004
Nota: legendas em português incluidas no ficheiro. Convém verem com o VCL. 

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

A Falha (A Falha) 2002

A visita a uma pedreira de mármore, uma tragédia que os leva a confrontar-se com terríveis fantasmas do passado Um grupo de antigos colegas reencontra-se para um almoço comemorativo, após 25 anos terem terminado o liceu. O tempo deixou as suas marcas e acentuou as diferenças entre as vidas que cada um seguiu. No ambiente tenso sente-se, nos olhares, os antigos rancores, desamores e cumplicidades. No final, um deles anuncia a surpresa que tem preparada: a visita a uma impressionante pedreira de mármore da região.
"Há uma estupefacção, inicial, de raiz: a escolha de João Mário Grilo em adaptar um romance com uma matriz ficcional onde a parábola é tão fácil de ler que rescende a lugar-comum e onde,  - mais grave porque falamos de cinema - a dramaturgia dos personagens, reduzida a um osso esquemático, dificilmente permitiria um trabalho sustentado aos actores. Há uma malformação congénita na origem de "A Falha": o seu argumento que faz passar abruptamente figuras que se encontram num almoço de antigos alunos de uma turma de liceu para uma situação de psicodrama, sem que nada na sua primeira metade justifique a devastação psicológica da segunda (com irrupções ao nível da carnalidade e da violência). O filme salta da trivialidade para territórios extremos, como se o absurdo estivesse pronto a soltar-se ao mais pequeno golpe na rotina. " Texto de Jorge Leitão Ramos.
Um elenco recheado de estrelas do cinema português: Alexandra Lencastre, Teresa Roby (no seu ultimo filme), Rogério Samora, João Lagarto, Suzana Borges, Adriano Luz, Rita Blanco, Orlando Costa e Henrique Viana.

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domingo, 3 de junho de 2018

O Delfim (O Delfim) 2002

Portugal, finais dos anos 60. Tomás Palma Bravo, o Delfim, o Infante, é o herdeiro de um mundo em decomposição. É ele o dono da Lagoa, da Gafeira, de Maria das Mercês, sua mulher infecunda, de Domingos, seu criado preto e maneta, de um mastim e de um "Jaguar E", que o leva da Gafeira a Lisboa e às putas. Um caçador, detective e narrador, que todos os anos volta à Lagoa para caçar patos reais, descobre, um ano depois, que Domingos apareceu morto na cama do casal Palma Bravo e que Maria das Mercês apareceu a boiar na Lagoa. Quanto a Tomás Palma Bravo e ao mastim, dizem-lhe que desapareceram sem deixar rasto. E que da neblina da Lagoa se ouvem agora misteriosos latidos. 
 "O Delfim" foi realizado por Fernando Lopes, a partir da obra homónima de José Cardoso Pires, tendo sido o argumento escrito por Vasco Pulido Valente. Nas palavras do realizador, é "sobretudo um prodigioso pretexto cinematográfico para entender paixões e emoções, misérias e grandezas de um Portugal agonizante, em plena guerra colonial e com o seu ditador (Salazar) a morrer lentamente, como o país. Será também um filme sobre um tempo em suspensão. E sobre um universo metafórico - a Gafeira - que é a propriedade e ao mesmo tempo a imagem de Tomás Palma Bravo, o herdeiro e último representante de uma raça em vias de extinção".

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sábado, 2 de junho de 2018

Rasganço (Rasganço) 2001

Numa fria manhã de Janeiro, Edgar chega à cidade dos estudantes. Determinado, fará uma tentativa de integração, traçada de forma cerebral e severa, seduzindo para esse efeito três mulheres: Ana Rita (estudante de Direito), Maria dos Anjos (responsável pelo albergue local) e a dra. Zita Portugal (figura influente em Coimbra). Ainda assim, Edgar não é aceite naquele grupo fechado. Mas ele vai escolher não se sujeitar passivamente à rejeição. Para isso elabora um complexo plano de vingança, escolhendo de entre os alunos as suas vitimas.
"Há um plano em "Rasganço" que ilumina tudo. Edgar está reclinado sobre um braço, em nú frontal e Zita acaricia-lhe as formas. Quando o plano começa nem temos a certeza que seja um corpo de homem o que lá está (como noutros momentos, em planos fechados sobre os olhos do actor, também nos confunde a indefinição do sexo). O que é certo é que para mulheres várias (e de diferente condição - uma estudante, a bibliotecária, mulher de um professor, e uma funcionária superior da Misericórdia)  Edgar é uma criatura erótica, a materialização de um desejo. Que para outras (narcotizadas) ele actue como identidade violadora, mutilação de que só se dão conta ao acordar, não é menos perturbador. Nas entrelinhas, se calhar, é licito ler qualquer coisa de medonho: Edgar não existe, é uma invocação, um fantasma que subjaz à vontade de integração de todos os restantes comparsas e que materializa uma pulsão intima de desordem. A vertiginosa atração pelo Outro, pelo que não faz parte, pelo que desestabiliza, o suor e a violência (e, porque não, o sémen e os genes?) do que está em baixo,obsessão burguesa por excelência. Edgar é um homem, certamente, mas, porque projecção feminina, mulher num lugar essencial da sua natureza. O plano atrás referido de Edgar com Zita é isso mesmo que sussurra.
Estou a prever que quem veja o filme com os olhos frios (era uma vez um homem que chega a Coimbra e encontra uma estudante e etc.) me diga que tresleio e deliro significados onde eles não estão. Nada contra. Acontece que não consigo olhar "Rasganço" com uma história com princípio, meio e fim - há demasiados "buracos", alçapões, planos que se colam para abruptas conjunções, há vermelhos por todos os lados, a cor do sangue, a cor da alma. É por isso que sustento que "Rasganço" não é simplesmente uma fita sobre Coimbra, os seus estudantes e um violador. É, antes, um mergulho que parte de um lugar preciso, mas ocorre num espaço quase abstracto. Uma mulher e os seus fantasmas, pois claro. Com a energia, a urgência, a impudícia e a ausência de cálculo que se pede a um filme de juventude."
In, Expresso (1-12-2001)

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Respirar (Debaixo D'água) (Respirar (Debaixo D'água)) 2000


O que impede duas pessoas de estarem juntas? Uma pessoa a mais. O que impede uma pessoa de lutar por outra? Nada! Pedro vive na periferia, onde trabalha na oficina do seu pai. Diáriamente desloca-se ao centro da cidade onde estuda e encontra o seu grupo de amigos que por alturas do verão, desce até ao rio e aí passam as tardes, os tempos livres ou o tempo de aulas. Entre charros, passeios de mota e mergulhos, tudo parece correr bem neste grupo, até que Pedro e o Amigo começam a disputar a mesma rapariga. Pedro é lançado numa espiral descendente, onde tudo à sua volta se parece desmoronar. Como o iman atrai a limalha, parece Pedro atrair os problemas, desde a escola até à relação com os pais.

"António Ferreira filma o desamparo da adolescência num registo minimalista que privilegia a sedução epidérmica do corpo submerso. Há um olhar inegavelmente sensual que se derrama sobre os corpos dos actores e que, de alguma forma, acentua o abandono que é condição da estação etária. E, depois, o fascínio de ver Coimbra filmada do lado errado do bilhete-postal, assumida como cenário de uma urbanidade hodierna. 
Há, ainda, um domínio dos elementos fílmicos absolutamente irrepreensível: a direcção de actores é rigorosa, a fotografia é quente e limp
a como um dia de verão, a música serve na perfeição a narrativa, o tempo é sincopado e elíptico. Mas, retomando, o que nos prende os olhos é o que fascina o realizador: a fisicalidade de um actor, Alexandre Pinto, que, na tradição dos grandes actores do corpo, quanto mais se oferece mais nos arrebata".
Média-metragem premiada em Cannes.

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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Noites (Noites) 2000

João vive da prostituição; é um homem já perto dos 30, com os olhos vazios e o corpo roído pelas drogas e pela vida. O pouco que tinha deixou-o para trás para andar por aí, sem nunca procurar nada de especial. Antes trabalhava nos cafés ou nas obras, mas o vício tornou-o amargo e é preciso ganhar mais dinheiro e mais depressa. Teresa já o acompanha há mais de três anos. Sem sonhos nem ambições, cedo deixou a casa dos pais, Teresa tem uma natureza sombria e é levada por um instinto suicida, que a faz perder o amor-próprio. Agora está doente e deixa-se andar suja e desprotegida. Devia fazer tratamentos no hospital, mas já tanto lhe faz... Teresa e João acompanham-se neste processo repetitivo e cansado.
Sozinhos, mas ante o vazio repetitivo, o tempo sem mudança, a dor contínua, a exposição descarnada da mais irremedível das grilhetas (a heroína), estão os dois protagonistas de "Noites". É um filme curto, sem passado nem devir para os seus protagonistas,  sem parentesco no cinema português, que nos obriga a olhar para os toxicodependentes de um modo obsessivo. Onde, no quotidiano, sem desviar o olhar, aqui Cláudia Tomaz força-nos uma realidade. Uma realidade dura, em que a dupla protagonista (Cláudia Tomaz/João Pereira), também interpretes e co-argumentistas, casal que a edificação do filme emparceirou) se expõe até ao limite, na dúbia e perturbante vacilação das fronteiras do que é cinema e do que é verdade, do que é preciso do que haja de verdade para que o cinema seja alguma coisa da vida. Ternura e aflição, quase nada de raiva, eia o que "Noites" exala. Acho que ninguém saberá dizer se este é um grande filme, mas é, com certeza, um objecto onde se jogam coisas fundamentais para o lugar do cinema. E isso basta.
* In Expresso, 9-9-2000.

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terça-feira, 29 de maio de 2018

...Quando Troveja (...Quanto Troveja) 1999


A relação de António e Ruth termina inesperadamente. Ruth vai viver com Pedro, o melhor amigo de António. António, desesperado, deixa-se esmagar pelas suas próprias fraquezas. Mas, do bosque, surgem dois estranhos seres, Violeta e Gaspar, que vão interferir na vida de António… 
"O título de "... Quando Troveja" começa por reticências e começa bem. O título do primeiro filme de Manuel Mozos ("Um Passo, outro passo, e depois...", de 1990, feito para a RTP) tinha-as no fim, só que o "depois" foi a experiência traumática de Xavier (rodagem em 1991, falência da produtora, filme inconcluído todo este tempo - e o material, digo eu que já o vi, era excelente, o que agrava a frustração). Depois de um esperançoso alvor, um buraco negro de quase dez anos - e agora um retorno que que tem praticamente o sabor de um recomeço. Não admira que o filme seja um bocadinho negro - o que é que se esperava?
António, o protagonista, não é um sujeito muito interessante. A mulher de quem gostava trocou-o por outro e o rapaz desceu a rampa dos abismos: álcool, solidão partilhada com uma companheira de morada a quem a asma parece colocar às portas da morte, sobrevivência através de fracos recursos de pequeno-burguês intelectual (traduções e etc.), habitação em estado de pré-desmoronamento - há fendas, insectos, e os caroços das cerejas atiram-se em frente, para um chão que adivinhamos conter todos os restos provisórios de existências que estão numa encruzilhada que pode ser apenas a antecâmara do oblivio. Correm por ali fantasmas de suicídio - logo desde a sequência de abertura - nada vale a pena. 
Uma personagem assim não tem muito para nos ensinar. Nem para nos distrair. Mas consegue, por artes mágicas de um filme que as invoca muito concretamente, ter alma de herói, porque é mais difícil sobreviver à selva da infelicidade urbana, armadilhada pelos desencontros da vida, que é a selva do Vietname. Na realidade e no cinema. Na selva do Vietname há tiros e correrias, adrenalinas, combates de frente ou de través, acção. Na selva da infelicidade, os protagonistas estão tomados pela tragédia da apatia, pelo estado vegetativo de um dia que se segue a outro sem remissão, não fazem coisa alguma e não vêem como saír do buraco. Pior: as mais das vezes, as tentativas que encetam conduzem-nos em sentido contrário, não sem antes terem experimentado o agravo da humilhação que quase sempre vem no contrapeso de tais empresas. Só por milagre as coisas se podem voltar a pôr sobre carris. 
É aqui que Quando Troveja faz apelo a duas personagens rigorosamente únicas em toda a caminhada do cinema português. Dois adolescentes que de crianças muito infelizes se transformam numa espécie de duendes da floresta, duas criaturas que contêm em si toda a dor, inocência e esperança do mundo e que vão interferir nas outras vidas para consertar a insustentável desdita que nelas reina. Nada de extraordinário, porém. António regressa à superficie do poço para onde se deixara afundar, as cores da realidade perdem as tonalidades de negrume, chuva, noite e deliquescência, vão-se os azuis e os castanhos, ressurgem amarelos e claridade - e é como se uma pitonisa se intrometesse entre nós e o filme e nos começasse a sussurrar coisas bonitas ao ouvido. Os duendes dançam entre luzeiros e regozijo, o filme de Manuel Mozos pode fechar porque a tempestade - aquela tempestade, pelo menos - já passou. 
Como se vê, Quando Troveja não tem uma história de seres singulares. É gente como eu e vocês, em percurso muito comum, aí se fixando o seu primeiro trunfo: nada de reflexões vastas, nada de recolocar o destino do país, nada de Portugal, anos 90, mas uma coisa íntima, estreita, breve. Simples não se dirá, porque é de extrema dificuldade o terreno que pisa - para credibilizar os vários níveis de realidade em que decorre, para materializar as suas personagens (e Miguel Guilherme faz o pleno do desamparo sem miserabilismos, no desempenho do protagonista), para dar dramaticidade a um quotidiano sem elementos de excepcionalidade. Simples não, que a morfina da vida é bem complicada." 
* Texto in Expresso de 5-2-2000

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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Glória (Glória) 1999

Ivan vai viver com o pai, Vicente, chefe de estação dos caminhos de ferro de uma aldeia remota no interior de Portugal. As pessoas andam ocupadas com o seu trabalho, cada uma enredada na sua própria vida. Glória vive a sua carreira e parece afastar-se de tudo e de todos. O único lugar seguro do planeta é o refúgio de Ivan que fica feliz por poder partilhar o segredo com Glória. Um pequeno abrigo escondido no rio, debaixo da água que separa os mundos. Apetece ficar aqui...
"Manuela Viegas não pertence ao universo dos contadores de histórias. Talvez porque venha da montagem com incursões no ensino da Matemática e formação de economista, percebe-se que o seu terreno de eleição seja formal: modelos, linhas, circulações abstractas - nada de psicologia. Os materiais humanos estão antes de serem personagens (antes que um organizador de histórias as preencha de uma função, lhes afirme traços característicos ao serviço dessas histórias - processo corrente - ou então deles faça brotar um devir, uma acção encadeada, deles façam brotar histórias). Os humanos são pessoas - opacas - e o olhar da câmara não sabe, delas, mais nada do que aquilo que mostra. 
Há uma linhagem de "Glória". Começa, certamente, na fecundidade do universo de António Reis, passa pelo corte aberto por Pedro Costa, mas não tem a prodigalidade do primeiro (uma severidade impregnada de afectos), nem a aspereza do segundo. É, ao seu modo, um cinema mais moderno, pois não ilude a sapiência de uma estetização do sujo, do pobre, da barba de três dias que hoje circula como valor. E não só no cinema - veja-se a fiel coincidência do cartaz original do filme (com a assinatura de Julião Sarmento), infelizmente substituído, na campanha para o lançamento português, por um outro de muito menos adequadas notações visuais electrónicas. É uma estetização que parte de simulacros, que cultiva de maneira acentuada uma preocupação de perfeição, de um modo tão obsessivo que à proposta de deslumbramento a que não devemos furtar-nos, apetece contrapor a impetuosidade da unha que respasse a superfície da tela. - para ver se há algo por baixo, para ver se sangra. Não há maneira de o saber e não é licito apostar no escuro."
Texto in Expresso - 11-12-1999

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domingo, 27 de maio de 2018

Chuva (Chuva) 1999

Duas mulheres no interior de uma casa de paredes verdes. Luz reflectida do exterior projecta a sombra transparente das gotas de chuva nas suas faces. Falam de uma pessoa que lhes é comum, um homem que desapareceu, e agora estas duas mulheres só têm uma à outra para lembrar algo que lhes foi querido, um momento da sua vida em que foram felizes. Num momento anterior procuram-se nas ruas da cidade, na confusão e no ruído, o trânsito e os comboios.
Luis Fonseca fundou em 1993 a produtora Contracosta Produções, com Francisco Villa-Lobos, e foi assistente de realização em filmes como "Aqui na Terra", de João Botelho, "Os Olhos da Ásia", de João Mário Grilo, e anotador em "Porto Santo" de Vicente Jorge Silva, e "Glória" de Manuela Viegas, curiosamente filmes que já vimos, ou ainda iremos ver, neste ciclo. Também já aqui tínhamos visto anteriormente "Antes que o Tempo Mude", a sua primeira longa metragem, realizada em 2003, do qual este "Chuva" é uma espécie de antecipação, pela equipa, e pela temática, ambos com Monica Calle, uma actriz com quem trabalhou várias vezes, tanto no teatro como no cinema.
Na altura da estreia de "Antes Que o Tempo Mude", Jorge Leitão Ramos escreveu: "Do autismo de "Chuva" ao estremecimento de "Antes que o Tempo Mude" vai a distância entre o balbuceio complicado e o sopro vital que é a marca de um verdadeiro cineasta. Na novíssima geração de realizadores portugueses - emergindo do campo da curta-metragem - Luis Fonseca marca posição como um daqueles (um dos raros...) que vai valer a pena seguir com esperança."

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sábado, 26 de maio de 2018

Longe da Vista (Longe da Vista) 1998

Eugénio, um simpático sexagenário, cumpre pena numa prisão portuguesa. Para passar o tempo torna-se correspondente de um emigrante português nos Estados Unidos sob o pseudónimo e a personalidade forjada de uma mulher, Maria da Luz. Inventando uma história dramática, Eugénio, obtém algum dinheiro do emigrante que o ajuda a suportar os longos anos de prisão. Um dia, um jovem recluso, Vasco, vem partilhar a cela com Eugénio que lhe revela o seu invulgar passatempo, no qual aquele participa com as suas fotografias. Quando Eugénio morre, doente e desiludido, Vasco pega na caneta e começa a escrever uma carta ao emigrante. 
 Partindo de um argumento baseado em factos verídicos, João Mário Grilo assina um belo, comovente e inteligente drama psicológico sobre a malancolia, a solidão e a amargura da prisão. Rodado em décors reais de instituições prisionais, "Longe da Vista", é um irónico poema sobre a impossibilidade de deter o espírito humano, a partir da história do velho e desiludido recluso que para matar o tempo assume a personalidade de uma jovem mãe solteira com uma atribulada e infeliz vida que vai narrando em longas cartas ao seu correspondente nos Estados Unidos, um emigrante português em busca de uma mulher para casar que se apaixona e comove com as cartas da infeliz portuguesa, nunca imaginando tratar-se de um velho, doente e imaginativo recluso. "Longe da Vista" é um dos filmes mais surpreendentes de João Mário Grilo que deu a Canto e Castro um dos papeis mais marcantes da sua carreira no cinema.

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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Porto Santo (Porto Santo) 1997

"Dois viajantes solitários, um navegador e uma repórter fotográfica, que se encontram na ilha de Porto Santo. A fotógrafa vai parar à ilha quando o avião que a transportava sofre uma avaria durante uma tempestade e é obrigado a fazer uma aterragem de emergência. Fascinada com a beleza do sítio, decide permanecer ali mais algum tempo. Entretanto, no mar alto, a tempestade interrompe também a viagem de um iate, obrigando o seu navegador solitário a regressar à terra firme. Na ilha há um pequeno museu dedicado a Cristovão Colombo. Consta que Colombo viveu lá durante o período do seu casamento com a filha do primeiro capitão donatário de Porto Santo. A figura mítica de Colombo vai unir os dois solitários.
Vicente Jorge Silva assinou em 1997 uma primeira obra que assenta, acima de tudo, em duas evidentes paixões: o cinema e a bela ilha de Porto Santo. Da memória de Colombo aos pássaros exóticos passando por essa dimensão de terra perdida no mar-oceano onde se cruzam destinos, itinerários e sortilégios, físicos e emocionais, "Porto Santo" é um belo, sereno e por vezes fascinante jogo de mistérios, acasos e memórias, protagonizado por dois solitários viajantes dos finais do século XX: uma fotógrafa e um navegador. Uma surpreendente primeira realização de Vicente Jorge Silva, servida pela magnífica fotografia de Mário Barroso e por um trio de excelentes actrizes: Leonor Silveira, Beatriz Batarda e Ana Zanatti." RTP

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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Os Olhos da Ásia (Os Olhos da Ásia) 1996

Padre japonês da Companhia de Jesus, Julião Nakaura foi, em 1583, um dos quatro jovens embaixadores enviados a Roma pelos Jesuítas, como prova da cristianização do Japão. Cinquenta anos depois dessa gloriosa embaixada, que tanto fascinou as cortes da Europa, Julião é forçado a dar, de novo, prova de fé, desta vez perante a obstinação da milícia e dos tribunais do Shogun, que o querem forçar à apostasia. Julião resiste e será Miguel Chijiwa, um dos seus companheiros de embaixada, que o conduzirá, tragicamente, ao martírio. Traído por Cristóvão Ferreira, que não aguenta o sofrimento da tortura, Julião morre ingloriamente... ou talvez não. Aos olhos da Ásia, Nakaura permanece um dos símbolos mais profundos e indecifráveis do diálogo surdo entre o Oriente e o Ocidente. Daí, a razão deste filme.
"O martírio de Nakamura Julião e a apostasia de Cristóvão Ferreira são dos episódios mais fascinantes das relações luso-nipónicas do século XVII. Três séculos depois, João Mário Grilo foi aí buscar o entrecho central do seu filme. É um feliz regresso do cineasta à prática do cinema, três anos depois de "O Fim do Mundo" - até porque "Os Olhos da Ásia" aborda uma questão assaz ausente do cinema português: a esfera religiosa. Na verdade, mais do que uma hagiografia martiriológica, interessa a João Mário Grilo avançar para o interior das questões de fé. As linhas finais do filme - de um Cristóvão Ferreira assimilado à cultura do Japão dirigindo-se ao "fantasma" de Julião mártir - são, a este respeito, lapidares: "Eram palavras, Julião, eram palavras".
Ao apresentar "Os Olhos da Ásia" perante o público de Locarno, o director do festival, Marco Muller, declarou que ele fora o único filme dos filmes seleccionados que o fizera chorar - o que dá bem a dimensão do impacto que a fita pode provocar. Até pela "ausência do único culpado - Deus", como frisou Jean Rouch numa intervenção entusiasmada no debate que se seguiu à projecção". Expresso 24-08-1996

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terça-feira, 22 de maio de 2018

Corte de Cabelo (Corte de Cabelo) 1995

Rita nunca tinha pensado muito em casar - uma rapariga com 19 anos tem a vida pela frente ainda para mais se é bonita, e tem uns cabelos negros, negros, e longos como a noite... E no entanto aqui está ela no Centro Comercial das Amoreiras, a pensar em Paulo, rodeada do brilho dos anúncios luminosos e dos reflexos das montras, a caminha em direcção ao cabeleireiro, onde as amigas, impacientes, a aguardam... Hoje é o dia do casamento da Rita. Todas querem ajudar. Nucha, a manicura trata-lhe das unhas, Lena, o cabelo, as colegas da perfumaria, uma maquilhagem fabulosa. Mas... e se o Paulo só gosta de mim pela minha beleza? As amigas desesperam. Mas Rita já decidiu. Pega numa revista e ordena à cabeleireira que lhe corte o cabelo, assim, como este... muito curto!
"Foi em meados dos anos 90 que Joaquim Sapinho trouxe uma lufada de ar fresco ao cinema português com "Corte de Cabelo". O filme deixava uma sensação de novidade, sentida pela crítica e pelo público. Foi também a estreia de Joaquim Sapinho nas lides cinematográficas, marcada por prémios internacionais como o da Crítica para a melhor actriz (Carla Bolito) do Festival de Genebra e a nomeação para o Leopardo de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Locarno de 1995. “Corte de Cabelo” trata do caos da vida urbana e da complexidade da vida a dois com um subtil sentido de humor." in Público

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sábado, 19 de maio de 2018

Ao Sul (Ao Sul) 1995

"Ao Sul" é a história de um homem (Henrique/Antonino Solmer) que regressa da Holanda a Portugal, depois de muitos anos de ausência, o coração dividido entre insatisfatórios amores abandonados, a vontade de retorno ao Alentejo natal como bálsamo para uma vida que percebemos ter sido gasta em coisas sem importância. Agarrar o tempo e a raiz - eis o seu projecto. A realidade que vem encontrar é-lhe, todavia, hostil. Em Lisboa, a memória de ocorrências na Guerra colonial reacende conflitos esquecidos; o Alentejo, incapaz de se reconverter a uma agricultura concorrencial, recebendo-o como um traidor que vem trabalhar para uma grande empresa holandesa. Um sopro de desespero atravessa "Ao Sul" como uma adaga suspensa sobre o pescoço de todos nós. Em Portugal abafa-se.
Fernando Matos Silva filma esta respiração sufocante, fazendo-se cruzar no filme uma miríade de personagens. Primeira constatação: a maior parte dessas personagens existe, quer dizer, tem, mesmo se a sua passagem é curta, densidade humana, peso, justificação dramática. Mérito, já agora, também dos actores. Não falo de Antonino Solmer, que desde já tem aqui o melhor desempenho da sua carreira cinematográfica,  mas dos outros, dos que pouco espaço e pouco tempo têm para nos convencer, como José Manuel Mendes, Luísa Cruz, Miguel Guilherme ou Manuel Cavaco: brevíssimas interpretações, perfeito entendimento. E se também há personagens frágeis (caso do avô louco, interpretado por Canto e Castro, ou de Liberato/João Cabral), isso se deverá mais a problemas do argumento que a inabilidade dos intérpretes. É que Fernando Matos Silva (que teve Maria Isabel Barreno como co-argumentista) não resistiu à tentação dos símbolos, a uma sobrecarga de elementos que desviassem a leitira do filme para lugares mais vastos, introduzindo, aqui e ali, desequilíbrios incomodativos, porque tornando óbvio o que melhor seria ir perdurando subterraneamente. Aliás, "Ao Sul" teria ganho muito com algum incremento de contenção.
Estamos em presença de um filme que gere precariamente os equilíbrios. Constatação que não deve iludir-nos o essencial. A força de uma narrativa que trás dentro de si uma convicção e uma força humana que nenhuns desequilíbrios anulam. A dor no rosto de Luísa Cruz, a luz do espaço alentejano, o homem que corre a medir o espaço de uma casa, seu novo território, uma cena de amor físico que cheira à mais funda solidão, são coisas destas que nos fazem guardar um filme e saber o que quer dizer pensar cinema. Coisas que estão em "Ao Sul", feito por um cineasta que sabe o que fala.
Texto no Expresso de 2-9-1995

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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Três Palmeiras (Três Palmeiras) 1994

Lisboa, num dia de Inverno de 1994, entre as seis e as catorze horas. Uma mulher de quarenta anos desespera ("ter a idade que tenho e não saber nada de ter filhos") nas últimas oito horas que precedem o nascimento do seu primeiro filho. Entre risos e lágrimas, o seu companheiro, um homem muito mais novo do que ela, inventa-lhe histórias que coincidem com as horas que passam e lhe aliviam a dor. Trágicas, cómicas, caóticas e alucinadas.  No preciso momento em que, ao princípio da tarde, o cadáver de um dos personagens é retirado do rio, um recém-nascido solta os primeiros e emocionantes berros da vida. De manhã, Lisboa é assim.
"Um freixe de histórias entrecruzadas num filme que faz manhã em Lisboa. A cerzidura é precária, mas não o material de base onde onde se entrevê um sem número de hipóteses para outros tantos filmes, possíveis de construir isoladamente, com outro tempo, outra respiração. Filmes em géneros diversos, do melodrama ao musical, da história de amor ao registo fantástico, expostos como numa montra de charcutaria. E tal como aí, uma a uma, é provável que as "delicatessen" fossem de aprovar. Em conjunto é quase certo que os sabores se anulem e que haja indigestão em perspectiva". Jorge Leitão Ramos.

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Zéfiro (Zéfiro) 1993

Zéfiro é um filme sobre Lisboa, a última das cidades mediterrâneas, condenada ao Atlântico pelo estuário vastíssimo que a separa "da outra banda". A princípio, o trajecto escolhido parece ser o dos cacilheiros, os "ferry-boats" que ligam a margem Norte à Margem Sul do Tejo, na realidade, quando chega à margem sul, o filme muda inesperadamente de registo e, enquanto nos fala dos povos que sucederam ou coexistiram no Sul profundo de Portugal, cruza a planície do Alentejo, e desde do outro lado até ao mar, onde pára finalmente, a contragosto, como se quisesse continuar até ao Mediterrâneo. Depois volta desencantado para cima, e é já de noite quando atravessa o rio de novo.
Zéfiro é uma crónica histórica de Lisboa face ao Sul, onde a um discurso quase de carácter didáctico-informativo se sobrepõem fiapos de ficção, como se o espaço visitado segregasse, ele mesmo, uma vontade de imaginar, como se as planuras, os castelos ou as vielas tivessem lá dentro ficções.Um marinheiro pode, por isso, ser acometido de uma vontade de dança no convés de um cacilheiro, um misterioso cavaleiro árabe pode atravessar os campos do Alentejo, como uma visão, um homem pode esfaquear uma mulher nas sombras vizinhas a S. Vicente de Fora e fugir desabaladamente. E sobre tudo pode pairar a sombra errante de Corto Maltese. É quase um principio poético que enforma a construção de Zéfiro, de José Álvaro Morais, cineasta de pouquíssimos filmes, perguntamo-nos todos porquê, mas que sempre inventa, procura, joga, cria.
* Texto de Jorge Leitão Ramos.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Encontros Imperfeitos (Encontros Imperfeitos) 1993

Mário esteve envolvido num atentado em África. Todos pensam que foi um acidente, mas Mário sabe que não foi. Escondido agora no Alentejo, sabe que, mais cedo ou mais tarde, "eles" o vão encontrar e, no entanto, não quer fugir não quer fugir com uma nova identidade enquanto não descobrir a sua paixão, Alice. Mas, "eles" encontram-no, mas Mário consegue escapar com a ajuda de Matilde, uma mulher fascinante que lhe dá abrigo...
Primeira, e única, longa metragem de ficção de Jorge Marecos Duarte, um realizador da geração da Escola Superior de Cinema de 1980/81, que tinha já um passado interessante na área, tendo trabalhado como assistente de realização de Fonseca e Costa e Fernando Lopes, além de ter produzido "Sem Sombra de Pecado". Para a sua primeira longa de ficção Jorge Marecos Duarte tentou construir um "thriller" inteligente combinando acção e muitas reviravoltas psicológicas, e de certa forma até conseguiu. Era a primeira vez desde "O Lugar do Morto" que o cinema português lançava um filme tão declaradamente comercial, mas os resultados ficaram muito aquém do anterior, tendo "Encontros Imperfeitos" saído de circulação por muito tempo.
Vale também pela recordação do excelente elenco: Diogo Infante (uma quase estreia, era apenas o seu terceiro filme), Fátima Belo, Paula Guedes, Nicolau Breyner, João Grosso, João Perry, Maria João Luis, Curado Ribeiro, e o omnipresente Canto e Castro.

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domingo, 13 de maio de 2018

O Fim do Mundo (O Fim do Mundo) 1993

Foi por coisa pouca. Mas o certo é que Augusto Henriques (Henrique Viana) matou Conceição das Neves (Adelaide João). Tudo por causa da água de um riacho. Agora, aos 65 anos de idade, Augusto vai enfrentar, pela primeira vez na sua vida, a prisão, um julgamento, polícias e tribunais. E ainda por cima ele até nem se acha culpado. Afinal de contas foi a mulher que se baixou porque ele tinha feito pontaria ao ombro.
Mais um episódio da série da RTP "Os Quatro Elementos", representando a Terra, é, ao mesmo tempo, o melhor episódio desta pequena série, e um dos melhores filmes de João Mário Grilo. Grilo já tinha filmado a história do passado em "O Processo do Rei", e desta vez fala sobre a história contemporânea, abordando temas como o despovoamento do interior e a emigração. É um filme de poucas falas, onde se fala praticamente o essencial, e cada palavra tem o seu peso na caracterização de cada personagem, mas mesmo assim vale pela excelente prestação dos actores. Carlos Daniel tem a sua melhor prestação em cinema, e José Viana e Alexandre Lencastre também brilham a grande altura.
Sendo ele um telefilme feito para a RTP, "O Fim do Mundo" andou "perdido" durante muito tempo, nunca tendo lançamento comercial em DVD ou VHS, mas merece ser visto como um filme por inteiro. Foi também exibido no Festival de Cannes em 1993.

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sábado, 12 de maio de 2018

Das Tripas Coração (Das Tripas Coração) 1992

Dois gémeos ruivos de vinte anos, Beatriz e Armando realizam o seu sonho tornando-se bombeiros. No exercício dessa função Armando acode a uma linda vizinha em apuros. Entre eles nasce uma calma amizade, mas que se transforma nas conversas com a irmã, numa paixão escaldante. Beatriz começa então a sentir estranhos sintomas: ouve fogos! Para se proteger do ruído destas imaginárias fogueiras ela compra um walkman, coisa que contribui para a isolar dos outros e sobretudo do irmão. Até que, por acaso, descobre a cura: beijos. É simples: basta que alguém a beije para que o silêncio volte à sua cabeça. Passa então de homem em homem, escolhendo de preferência turistas, que ela não verá nunca mais....
Alguns dos filmes portugueses mais interessantes dos anos noventa eram sobre a adolescência, e a forma como tentavam construir a sua subjectividade. Joaquim Pinto constrói uma bela, tocante e intensa história em torno de dois irmãos gémeos, um rapaz e uma rapariga, ambos bombeiros que se deixam perturbar muito mais pelo fogo interior das suas paixões, desejos e receios, que pelo fogo real que combatem no quotidiano. Pinto mais uma vez traça o retrato de jovens almas em conflito num filme sensível e amargo que conta com a participação de Leonor Silveira, Armando Cortez e Márcia Breia no elenco.
Contribuição de Joaquim Pinto para a série “Os Quatro Elementos” (co-produção Madragoa, RTP, La Sept) em que lhe coube filmar o Fogo, ao lado de João César Monteiro (a Água: "O Último Mergulho"), João Mário Grilo (a Terra: "O Fim do Mundo") e João Botelho (o Ar: "No Dia dos Meus Anos").

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