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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

This Strange Passion (El) 1953

Francisco é rico, bastante rigoroso nos seus princípios e ainda é solteiro. Depois de conhecer Glória por acidente, está decidido a corteja-la até ela aceitar casar com ele, o que acaba por acontecer. Francisco torna-se num marido dedicado, mas aos poucos a sua paixão começa a revelar traços perturbadores. No entanto, Gloria encontra-se com cepticismo quando revela a sua preocupação aos conhecidos.
Em El, o realizador Luis Bunuel alega que a insanidade incontrolável pode crescer até mesmo nos homens mais racionais. Francisco imagina que o ex-amante da esposa os está a espiar. No inicio, os ciúmes manifestam-se em breves explosões de violência contra intrusos fantasmas. Mas a loucura do noivo floresce até que ela deixe de estar acessível aos outros. Bunuel alterna a desintegração de Francisco com os seus ataques normais ao catolicismo: a igreja não pode oferecer nada a este homem infeliz, a não ser mentir-lhe, que ele está curado, e no fundo todos sabemos que ele nunca estará. O critico William K. Everson acertou em cheio quando considerou o filme como "a mais cínica dissecação de um paranoico em loucura total". 
Realizado no auge do período mexicano de Luis Bunuel, "El" é um dos seus maiores filmes, apesar de ser pouco conhecido. Ironicamente, não tem nada de mexicano. É um simples retrato de um paranoico, que, como um poeta, "nasce, não é feito", diz o realizador na sua autobiografia.

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sábado, 21 de novembro de 2015

Assim Nasce a Aurora (Cela s'appelle l'aurore) 1956

Numa pequena povoação de uma ilha do sul de França, Dr. Valerio (Georges Marchal) é um médico que consulta a população pobre do local, composta por pescadores e operários. A sua esposa, Angela, está insatisfeita e tenta convencê-lo a mudar-se para Nice, cidade onde vive o pai dela. Depois de uma indisposição, ela parte em viagem até aquela cidade francesa enquanto o doutor continua atarefado cuidando dos seus doentes. O doutor Valério conhece Clara (Lucia Bosé), uma jovem viúva recém-chegada de Génova, e inicia com ela um caso extraconjugal, ao mesmo tempo que tenta ajudar Sandro,o caseiro de uma quinta daquela localidade.
Foi graças ao sucesso de filmes como "Los Olvidados"(1950) e "El" (1953), feitos por Buñuel durante o exílio no México, que o realizador conseguiu elevar o seu "star profile", dando-lhe oportunidade para realizar filmes com orçamentos maiores, e co-produções para o mercado internacional, começando com "Robinson Crusué" (1954), o seu primeiro filme a cores. "Cela s'appelle l'aurore" veio pouco depois, uma co-produção franco-italiana filmada na ilha da Corsica, e o primeiro filme francês do realizador, desde "L'Age d'Or"(1930).
Luis Buñuel não era apenas um grande realizador, também era um grande humanista, e isso não poderia estar melhor demonstrado do que em "Cela s'appelle l'aurore", um melodrama de consciência social. Menos estridente e muito menos provocativo do que outros dramas sociais anteriores do realizador, como "Los Olvidados", uma crítica mordaz da pobreza no México, este "Cela s'appelle l'aurore" é atravessado pelo mesmo sentimento anti-burguesia que os seus filmes posteriores, mas tudo isto é desenvolvido com um elevado grau de compaixão e envolvimento emocional. Mesmo aqueles mais familiarizados com o estilo do realizador vão ficar surpreendidos com o humanismo demonstrado neste pequeno e pouco apreciado filme, que o próprio Buñuel considera um dos seus preferidos.
Este é dos filmes mais acessíveis do realizador, talvez por isso mesmo, dos mais desconhecidos.

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sexta-feira, 5 de junho de 2015

The Young One (La Joven) 1960

 Um guarda-caça e a sua filha de 13 anos vivem numa ilha onde chega, fugido à polícia, um negro acusado de violação. Os confrontos entre os dois homens dão lugar a uma certa cumplicidade até à chegada de outro homem para prender o negro. A jovem, cuja sexualidade desperta durante o confronto, vai ajudar o negro a fugir.
Um dos dois únicos filmes rodados por Buñuel em inglês, é uma obra provocativa, uma fascinante história de poder, engano e manipulação. É muitas vezes entendido como sendo um filme falhado, que foi assim considerado por ser uma produção atípica de Buñuel não contendo nenhuma das suas características conhecidas do cinema surreal. Como acréscimo, algumas outras características que não eram habituais no realizador: racismo, pedofilia, falsas acusações de violação, tudo isto passado numa pequena ilha da Carolina do Sul, onde ele nem precisava de apresentar uma visão tão exagerada ou inquietante.
A parte maravilhosa deste pequeno filme, e na, verdade, o filme é muito melhor do que aquilo que foi visto na altura pelos críticos e pelo público, é que apresenta estas questões no contexto dos Estados Unidos de uma maneira que muito poucos filmes no seu tempo podiam sugerir. Na altura da rodagem deste filme, um outro com preocupações semelhantes, "The Defiant Ones", foi feito. Mas o trabalho de Stanley Kramer, embora notável pela dupla (literalmente algemada), com um racista (Tony Curtis) e um homem negro (Sidney Poitier), estava muito mais ligada ao mundo de Hollywood, não declarando totalmente os seus sentimentos liberais. Esta obra de Buñuel é muito mais subtil, e preocupada pelas mesmas razões. O realizador e o filme, embora tenham claramente um ponto de vista, apresentam os seus vários personagens com grande detalhe, recusando-se a julgá-los de imediato, seja ele qual for.
O filme foi escrito e rodado por muitos antigos artistas de Hollywood, anteriormente colocados na lista negra do Macartismo, o que tornava as questões do filme ainda mais pungentes. O filme, denunciado pelo crítico do New York Times Bosley Crowther, só aponta o facto de que o filme de Buñuel só poderia ser feito fora dos Estados Unidos, neste caso México, e reitera o sentimento de que no início dos anos 60, foram ainda mais conservadores do que em vários anos da década anterior.
Ganhou uma Menção Especial no festival de Cannes de 1960.

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domingo, 5 de outubro de 2014

Os Esquecidos (Los Olvidados) 1950



Um grupo de crianças brinca num terreno baldio, subindo escombros e tentando arranjar algo para passar o tempo. Já aqui sentimos a falta de direcção que a vida destes jovens está a ter, mas eis que chega Jaibo, um jovem recentemente fugido da cadeia, e por isso mesmo visto como um herói pelas outra crianças. Ele anda a recrutar jovens para outro gang, e é aqui que o impressionável Pedro vai iniciar a sua descida em direcção ao Inferno deixando de roubar por necessidade e passando a fazê-lo por prazer, tornando-se num cruel criminoso.
Luis Buñuel mostra-nos a descida de Pedro, primeiro com a sua aceitação do comportamento desnecessariamente cruel perante um velho e cego artista de rua. Testemunhamos a sua relação difícil com a mãe, e os seus sonhos surreais de sexo e morte, bom como algumas das imagens mais chocantes e desesperantes do filme, com um jovem a ser abandonado numa esquina pelo pai. Jaibo eventualmente envolve-se com a mãe de Pedro, completando o trágico círculo da sua existência disfuncional.
Estas imagens de sofrimento teriam sido lugar comum para criar algumas convenções de heróis e vilões de Hollywood, vitórias e derrotas. Mas neste filme ninguém ganha, e não existem soluções, apenas um retrato sombrio da humanidade, e a profundidade de quanto fundo pode ir o futuro destas crianças.
O ponto de vista do realizador Luis Buñuel é único e visionário. Ele foi capaz de projectar os seus ideais de vanguarda mesmo dentro de um "studio system". Apesar de "Los Olvidados" ter sido rejeitado comercialmente dentro do seu país (México), quando da sua estreia, ganhou aclamação da crítica seis meses depois, quando foi exibido em Cannes, ganhando o prémio de Melhor Realizador no festival, e assinalando o seu regresso ao topo do cinema mundial, depois dos gloriosos anos 30.

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