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sábado, 16 de janeiro de 2021

O Apóstolo (The Apostle) 1997

Em 1939, numa pequena cidade do Texas, um pastor popular (Robert Duvall) prega fervorosamente. A sua esposa (Farrah Fawcett), cansada da relação, apaixona-se por um pastor mais jovem. O marido abandonado não aceita a situação e tenta a reconciliação sem sucesso. Num momento de desespero agride o rival com um bastão de basebol, deixando-o em coma. Em virtude do acontecido ele deixa a cidade e, com um novo nome, chega numa pequena cidade da Louisiana. 
A verdadeira fé e a sua expressão através da religião organizada é um assunto difícil de ser abordado de frente num filme, e por isso poucos o fazem. Mesmo realizadores mais religiosos, como Scorsese ou Bergman geralmente tratam desta questão de forma mais implícita. Foi por isso que Robert Duvall levou 15 anos para trazer esta história para o grande ecrã, e mesmo assim não conseguiu financiamento diferente, acabando por colocar 5 milhões de dólares do seu bolso. Duvall assumiria o argumento, a realização e ainda interpretou o papel principal.
Como realizador, a câmara de Duvall simplesmente capta o que está à sua frente, com muito pouca intrusão. Não há shots extravagantes de guindaste, ou close-ups excessivos, Duvall sabia o poder das personagens do seu filme, e muitos deles são actores não profissionais e habituais frequentadores das igrejas. Desta forma, "O Apóstolo" desenrola-se quase como um documentário, não apenas na sua simplicidade técnica, mas em todo o sentido da realidade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Sling Blade - O Arremeso (Sling Blade) 1996

Um homem parcialmente deficiente chamado Karl é libertado de um hospital mental, cerca de 20 anos depois de ter assassinado a sua mãe e outra pessoa. É frequentemente questionado se vai matar de novo, mas encolhe os ombros e diz que não há razão para isso. Agora fora da instituição mental instala-se na sua velha cidade natal, trabalhando como mecânico. Conhece um rapaz chamado Frank, de quem se torna amigo, e é convidado para ficar na casa deste pela mãe, que o vê como uma pessoa estranha mas amável. Já o namorado desta vê as coisas de outra forma... 
O filme que fez de Billy Bob Thornton uma estrela, e um veículo improvável para ser um dos melhores filmes do ano. "Sling Blade" também recebeu o Óscar de Melhor Argumento para Thorton, que além de interpretar o papel principal também realizava. Não é um filme sobre o bem e o mal, com um protagonista ou antogonista claro, mas antes um filme sobre o certo e o errado. É uma distinção complicada, mas isso torna a história ainda mais atraente. "Sling Blade" era uma extensão de uma curta metragem a preto e branco que Thornton escreveu e interpretou em 1994, chamada "Some Folks Call it a Sling Blade". Ao expandir o filme para fora dos quatro muros da prisão estadual, Thornton é capaz de expandir plenamente o seu sentido de tempo e lugar, e dá-lhe uma atenção ao detalhe normalmente reservada para obras literárias, que permitem aos seus personagens crescerem e se desenvolverem. O facto de que Thornton teve vários anos para trabalhar o personagem de Karl é bastante evidente, e nota-se na forma como ele habita o papel, desde a sua postura até à forma de caminhar. 
No seu coração, "Sling Blade" é um conto de Southern Gothic, de amor e redenção. Tem o tipo de personagem que William Faulkner teria ficado orgulhoso de escrever sobre, e cria e sustenta um clima sugestivo que carrega traços do grotesco mas que permanece resolutamente humano. Para um realizador estreante em longas metragens Thornton é extremamente tranquilo, mesmo quando cede ao sentimentalismo perto do final.

terça-feira, 19 de março de 2019

A Quadrilha (The Outfit) 1973

Earl Macklin está sedento de vingança. Ele quer vingar a morte de seu irmão e não vai hesitar um só instante em seu objetivo até acertar as contas com os responsáveis, nem que tenha que mandar para o inferno todos aqueles que tentarem impedi-lo.
Em linhas gerais o que temos aqui é um filme na linha da vingança cega e obstinada, marca registada de Richard Stark, também autor de "à queima roupa" (point blank), de John Boorman, e que trazia Lee Marvin em seu melhor papel. Se Boorman se aproveita da história para criar um filme policial ultramegaestilizado que, em alguns momentos, se torna uma bela investigação sobre a memória, John Flynn, ao contrário, entrega um filme de ação genuíno, perfeito, objetivo. Era essa a sua característica: a objetividade. Talvez ele a tenha herdado de Robert Wise, com quem trabalhou em "homens em fúria" (odds against tomorrow). Ele vai direto ao assunto, sem firulas narrativas, dando a "a quadrilha", com o auxilio luxuoso de uma câmera nervosa, o tom de urgência que a história pede. 
O elenco também ajuda - e muito! O papel de Earl Macklin caiu direitinho para Robert Duvall. Quem também está nele é Joe Don Baker (que puta ator!), Karen Black, Tim Carey e Robert Ryan. Com todos esses elementos, por que "a quadrilha" não é considerado um clássico do cinema ao nível de um "gun crazy", por exemplo? Vai saber... E ser subestimado era algo do qual John Flynn sabia. Mesmo tendo feito filmes muito bons como "na solidão do desejo" (the sargeant), "a outra face da violência" (rolling thunder); "a marca da corrupção" (best seller); e "fúria mortal" (out for justice), seu nome é, no mais das vezes, associado pela critica àquela pecha de filmes descartáveis, sem muito conteúdo, sem que neles fossem observadas as sutilezas em sua objetividade realista. 
Depois desse filme há que ser pensado: a obra de John Flynn não seria merecedora de uma revisão? 
* Texto do Alexandre Mourão.

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terça-feira, 7 de agosto de 2018

O Navio Farol (The Lightship) 1985

Skolimowski abandonou a Polónia em 1967 após a realização do filme Barrier. Até chegar aos Estados Unidos mediaram 18 anos onde foi fazendo filmes na Europa, entre os quais Deep End (1970) que lhe trouxe prestígio internacional, The Shout (1978) e Moonlighting (1982) que aliaram os elogios da crítica a um relativo sucesso de bilheteira, neste último caso com o inestimável contributo de Jeremy Irons com um desempenho notável enquanto protagonista.
A sua chegada aos EUA tornou-se quase inevitável e lógica. Mas foi feita, em termos cinematográficos, de forma inusitada. O Navio Farol adapta o pequeno romance Das Feuerschiff do escritor alemão Siegfried Lenz, um dos mais importantes escritores alemães da segunda metade do século XX e autor da obra prima Uma Lição de Alemão. O livro, até pela sua pequena dimensão, é quase minimalista, sentido que Skolimowski respeitou integralmente. Trata-se de um filme de baixo orçamento, quase teatral, que decorre inteiramente num barco ancorado que serve de farol para evitar que outros barcos colidam com rochas perigosas, O navio é comandado pelo capitão Miller, um oficial com um comportamento suspeito durante a segunda guerra mundial, acusado, embora não formalmente, de cobardia. Tem uma tripulação mínima que vive de forma monótona executando as suas tarefas rotineiras. Na altura em que o seu filho o visita o navio é assaltado por três bandidos armados que dominam o barco e o tentam pôr em movimento e sequestram a tripulação e o filho do capitão.
 O que me fascina neste filme é, em primeiro lugar, a sua sobriedade espartana. Não existe nada de acessório, nem nas imagens, nem nas palavras, nem sequer no cenário. Diríamos estar em presença de um filme de essências e não de aparências, com um cenário fixo centrado no barco e que só vai variando em função das suas diversas divisões. Em segundo lugar e pelas razões acima expostas, todo o ambiente é absolutamente claustrofóbico. Ninguém pode abandonar o barco: os tripulantes porque estão sequestrados e os assaltantes porque se regressarem a terra serão capturados. Há, assim, um convívio forçado entre uns e outros. Em terceiro lugar, o espantoso contraste entre o capitão e o chefe dos assaltantes. O primeiro é um homem tranquilo, quase sempre silencioso que entende a sua missão como uma espécie de castigo imposto, mas que está disposto a cumprir de forma determinada a sua missão, por mais irrelevante que a mesma possa parecer; o segundo é uma espécie de gentleman verboso, histriónico e cínico, pronto a filosofar sobre tudo e sobre nada. Em quarto lugar pela tensão crescente que se vai instalando entre os dois grupos transformando O Navio Farol numa espécie de thriller, uma vez que a tripulação depois de uma fase de aturdimento perante a surpresa da invasão indesejada, começa a resistir, com excepção do capitão que pretende preservar a missão do barco e a segurança da tripulação. Em quinto lugar, e este é talvez o aspecto mais importante, pelas questões filosóficas que coloca: primeiramente os dilemas morais do capitão, entre a resistência incitada pela tripulação e pelo seu próprio filho e a necessidade de preservar o barco e as vidas das pessoas, numa dimensão quase existencialista; mas, numa análise mais funda, a dicotomia metafísica entre permanência e a mudança, desta vez aplicada ao destino do barco. Como diria Caspary, o chefe dos assaltantes, os barcos foram construídos para navegar e não para estarem parados. Esta contradição entre o ser e o devir, remete-me para os bancos da Universidades e as polémicas entre Parménides e Heraclito, dois filósofos pré-socráticos. 
 É um filme de pequeno orçamento, que não ganhou prémios internacionais, não teve os favores do público e é frequentemente omitido das listas dos melhores de Skolimowski. Klaus Maria Brandauer (capitão) e Robert Duvall (Caspary) têm desempenhos notáveis bem acompanhados, entre outros, por Arliss Howard e William Forsythe, ainda então nos primeiros passos das respectivas carreiras. Que eu saiba houve uma edição em dvd que hoje se vende a baixo preço na Amazon. Não encontro na net grandes análises, ou qualquer clube de apaixonados por ele. Em suma, não gerou nenhum culto em seu redor. Trata-se, portanto, de um pequeno segredo, um filme desconhecido para muitos e que tenho o prazer de partilhar convosco.
Uma escolha do Jorge Saraiva, que também escreveu o texto de acompanhamento. 

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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Perseguição Impiedosa (The Chase) 1966

O xerife Calder (Marlon Brando) tem problemas a resolver numa pequena cidade quando Bubber (Robert Redford) foge da prisão e é acusado de assassinato. O problema é que o filho do magnata do petróleo Val Rogers (E.G. Marshall) tem um caso com a esposa de Bubber, que acabou de escapar da prisão, e Rogers quer Bubber fora do caminho para poder encobrir o caso do filho. Só que Calder quer encontrar o prisioneiro vivo e não quer ceder ao magnata do petróleo.
"The Chase" era uma produção ambiciosa de Sam Spiegel, baseado num romance e numa peça de Horton Foote. Era o primeiro filme de Spiegel desde o sucesso internacional de "Lawrence of Arabia", o filme vencedor do Óscar de 1962, que queria que a argumentista Lillian Hellman lhe escreve-se o argumento.
No final dos anos cinquenta e inicio da década de sessenta, as relações raciais estavam entre os temas mais quentes do momento, e vários realizadores veteranos acharam que fazia sentido investigar facetas dos males da sociedade, que se estendiam já por várias gerações nos Estados Unidos. "The Chase" passou por várias reavaliações, em parte porque Arthur Penn era responsável por uma série de clássicos "modernos", como o seu filme anterior, "Mickey One". "The Chase" era um ensaio sobre as coisas mais terríveis da América, que podem corromper o poder, como racismo, sexo e violência, usando uma pequena cidade do Texas, Tarl, para defender a teoria de que todos nós somos pecadores e que não podemos ser salvos.
O filme faz-se valer, sobretudo, de um grande elenco: Marlon Brando, Robert Redford, Jane Fonda, E.G. Marshall, Angie Dickinson, Robert Duvall, James Fox, entre outros.

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Chove no Meu Coração (The Rain People) 1969

Depois de descobrir que está grávida, Natalie Ravenna (Shirley Knight), uma doméstica de Long Island, entra em pânico e foge de casa com o pensamento que poderia ter feito algo diferente da sua vida. se conseguisse libertar-se da vida que leva com o marido, que ama. No quarto de um motel, onde pára para descansar durante o dia, senta-se na cama imóvel e experiência a exuberância da completa liberdade. Continua a viagem e dá boleia a um jovem caminhante (James Caan), um atraente jogador de futebol com danos cerebrais. É por causa dele que coloca uma questão mais perturbante, do que a responsabilidade doméstica. 
No final dos anos sessenta  Francis Ford Coppola tinha feito nome como argumentista em filmes de grande orçamento, e tinha dirigido uma série de filmes peculiares. A Warner tinha-lhe entregado em mãos o musical com Fred Astaire "Finian's Rainbow" (1968), e estava satisfeita com a sua evolução e eficiência, apesar do filme ter sido um flop, e o estúdio decidiu financiar-lhe outro projecto. Coppola, por sua vez, não estava satisfeito com a sua falta de controle em "Finian's Rainbow", e decidiu partir para uma obra mais pequena, e mais pessoal, escrita e realizada por ele, e foi assim que nasceu "The Rain People" (1969).
Coppola conheceu Shirley Knight no festival de Cannes de 1967, onde estava na promoção de " You're a Big Boy Now", e a encontrou a chorar, perturbada por um confronto com um jornalista, e disse-lhe para não chorar porque iria escrever um filme para ela. Assim nasceu "The Rain People", um road movie filmado inteiramente em exteriores, viajando com uma caravana de cinco carros e um pequeno autocarro onde levava o equipamento. Entre a equipa estavam George Lucas e Mona Skager, que se tornaram figuras chaves, mais tarde, na sua própria produtora. Partiram para a estrada sem um argumento completo, adicionando eventos com os quais cruzavam no dia a dia, e contando com improvisações dos actores para ajudá-lo a moldar a história. Shirley Knight era uma actriz de créditos já firmados, nesta altura já nomeada para dois Óscares, e teve dificuldades em trabalhar num ambiente tão desorganizado, o que a levou a ter algumas discussões com o realizador, mas mesmo assim arrancando uma prestação soberba.
Depois desta experiência, Coppola decidiu começar a fazer os seus filmes longe de Hollywood, e fundou a sua própria produtora, a American Zoetrope, em São Francisco no final de 1969, com George Lucas a vice-presidente.
Tudo isto aconteceu três anos antes do monumental sucesso de "The Godfather", com Lucas a aproveitar dois dos protagonistas deste filme, James Caan e Robert Duvall.

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sling Blade - O Arremeso (Sling Blade) 1996

Um homem parcialmente deficiente chamado Karl é libertado de um hospital mental, cerca de 20 anos depois de ter assassinado a sua mãe e outra pessoa. É frequentemente questionado se vai matar de novo, mas encolhe os ombros e diz que não há razão para isso. Agora fora da instituição mental instala-se na sua velha cidade natal, trabalhando como mecânico. Conhece um rapaz chamado Frank, de quem se torna amigo, e é convidado para ficar na casa deste pela mãe, que o vê como uma pessoa estranha mas amável. Já o namorado desta vê as coisas de outra forma...
O filme que fez de Billy Bob Thornton uma estrela, e um veículo improvável para ser um dos melhores filmes do ano. "Sling Blade" também recebeu o Óscar de Melhor Argumento para Thorton, que além de interpretar o papel principal também realizava. Não é um filme sobre o bem e o mal, com um protagonista ou antogonista claro, mas antes um filme sobre o certo e o errado. É uma distinção complicada, mas isso torna a história ainda mais atraente.
"Sling Blade" era uma extensão de uma curta metragem a preto e branco que Thornton escreveu e interpretou em 1994, chamada "Some Folks Call it a Sling Blade". Ao expandir o filme para fora dos quatro muros da prisão estadual, Thornton é capaz de expandir plenamente o seu sentido de tempo e lugar, e dá-lhe uma atenção ao detalhe normalmente reservada para obras literárias, que permitem aos seus personagens crescerem e se desenvolverem. O facto de que Thornton teve vários anos para trabalhar o personagem de Karl é bastante evidente, e nota-se na forma como ele habita o papel, desde a sua postura até à forma de caminhar.
No seu coração, "Sling Blade" é um conto de Southern Gothic, de amor e redenção. Tem o tipo de personagem que William Faulkner teria ficado orgulhoso de escrever sobre, e cria e sustenta um clima sugestivo que carrega traços do grotesco mas que permanece resolutamente humano. Para um realizador estreante em longas metragens Thornton é extremamente tranquilo, mesmo quando cede ao sentimentalismo perto do final.

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segunda-feira, 1 de abril de 2013

M.A.S.H (M.A.S.H) 1970



À frente do seu tempo e ainda uma das mais subversivas comédias de sempre a surgir a partir de um grande estúdio, não é de surpreender que tivesse havido alguma resistência nas posições superiores da 20th Century Fox para lançar M.A.S.H., em 1970. Apesar de ser passado na Coreia, as ligações com a guerra politicamente e publicamente impopular do Vietname eram muito fortes... a mistura de comédia obscena e sexista com sequências sangrentas  de cirurgia muito desconcertante... o desprezo flagrante por qualquer forma de autoridade era muito pronunciado ... e assim por diante... O que é que eles estariam a pensar quando fizeram um filme de guerra em que o exército parecia uma enorme piada, e apenas uma arma é disparada no filme inteiro, por um árbitro num jogo de futebol?
No entanto, "M.A.S.H." conseguiu escapar do estúdio e chegar aos cinemas, e foram todas essas qualidades que os executivos do estúdio estavam preocupados que tornaram o filme tão revolucionário. Nunca houve um filme de um grande estúdio como este, e as audiências responderam à sua mistura ousada de realismo e comédia e simpatizaram com a postura anti-autoritária dos seus difíceis mas simpáticos personagens principais. 
Baseado num romance pouco conhecido de 1968, de Robert Hooker, acerca dos veteranos cirurgiões de combate da Guerra da Coreia, M.A.S.H ​​é contado num estilo solto, de forma episódica, com muitos dos seus diálogos a serem improvisados no set (para a consternação do argumentista Ring Lardner Jr., um dos infames "Hollywood Ten", que tinha sido penalizado pelo Macarthismo desde os anos 50). O realizador Robert Altman, que era na altura quase desconhecido, com apenas um punhado de pequenos filmes e episódios de TV no seu currículo, compreendeu no material aquilo que outros não conseguiram, e logo percebeu que o humor desta história subversiva precisava de espaço para trabalho, e que não podia ser limitada pelas exigências das narrativas tradicionais de Hollywood.
Os vários episódios centram-se num trio irreverente, mas altamente talentoso de cirurgiões, num Mobile Army Surgery Hospital (daí o nome, M.A.S.H.) a poucos quilómetros da linha de frente da Coreia: Hawkeye Pierce (Donald Sutherland), Trapper John McIntyre (Elliottt Gould), e Duque Forrest (Tom Skerritt). Não são profissionais do Exército rígidos, nem arrogantes, são jovens que foram levados contra a sua vontade e, portanto, estão dispostos a fazer qualquer coisa para evitar a autoridade e a disciplina, especialmente na forma de a enfermeira-chefe, uma major chamada Houlihan (Sally Kellerman).
O que este trio mais odeia é a hipocrisia, que vêem em todo os lado, especialmente nas figuras de autoridade (daí o apelido que dão a Houlihan, "Hot Lips", depois de transmitirem o seu encontro amoroso com outra figura autoritária, o major Frank Burns(Robert Duvall), pelo altifalante do acampamento). Há um elemento carnavalesco em tudo o que fazem, onde o ponto principal é a inversão do poder-hierarquia para fazerem aqueles que são a autoridade parecerem tolos. Ao mesmo tempo, há uma veia profundamente humanísta que corre ao longo do filme, com Hawkeye e os outros a usarem o seu comportamento desordeiro como uma forma de psicologicamente distanciar-se dos horrores à volta deles. O verdadeiro horror que eles vêem não é o seu próprio cinismo travesso, mas a natureza estóica da rotina do exército, apesar dos corpos mutilados que percorrem o acampamento todos os dias. 
Ganhou a Palma de Ouro em 1970, e no ano seguinte o Óscar de Melhor Argumento, além de ter conseguido outras quatro nomeações, incluindo Melhor Filme e Realizador. 

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