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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Vilarinho das Furnas (Vilharinho das Furnas) 1971

"Vilarinho das Furnas" não é o primeiro trabalho de fôlego de António Campos, mas é aquele que impõe o nome do seu realizador como personalidade singular do documentarismo português dos anos 60-70.
Retrato de uma aldeia comunitária do Norte do País, condenada a desaparecer pela construção de uma barragem, o mais notável deste filme é a dissociação operada entre banda de imagem e banda de som, num jogo de autonomias que mutuamente se cavalgam, se completam, se contraditam. Campos recolhe, testemunha e, na secura do seu procedimento (nenhum comentário pessoal acontece), na disponibilidade de ver e ouvir, faz-se solidário - e não em visita, nem lamento, nem missionação - da realidade moribunda que encontra.
Tecnicamente precário, "Vilarinho das Furnas" é um exemplo de ética face ao real, que não sai ferido, em essência, pelo facto de ter escassas condições de produção. Talvez seja mesmo o contrário. Na sua rudeza ele assume-se vertical num tempo em que o restante documentarismo luso era, sobretudo, polido, bem acabado, mas vazio.* Texto de Jorge Leitão Ramos

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sábado, 27 de fevereiro de 2016

A Almadraba Atuneira (A Almadraba Atuneira) 1961

"Sem palavras, com um ímpeto que faz lembrar coisas fortes e antigas, chega António Campos. Do cinema amador, de uma estética que se quer perto do povo e ao seu serviço, chega António Campos.
E vai ao mar, , à ultima campanha de um arraial algarvio da ilha de Abóbora, arraial que o mar levou logo após este filme. Rostos, gestos, objectos, esforço, o rude trabalho e o espadanar violento do atum apressado, disso se faz "A Almadraba Atuneira". Inventário etnográfico e homenagem ao trabalho são os vectores, de olhos atentos mas enxutos, que norteiam Campos neste filme, onde a azáfama, a espera e a captura são banhadas por um sopro de grandiosidade e tristeza.
Assim, em directo sobre o real mas usando os materiais (montagem/som) sem pudores de transparência, chega António Campos: uma personalidade única, solitária, no cinema português.
Embora o genérico não o credite, sabe-se que a fotografia, a montagem e a produção são de António Campos (que contou com subsidios do Grupo de Teatro Miguel Leitão e da Fundação Calouste Gulbenkian). A música utilizada no filme é extraída de "A Sagração da Primavera" de Stravinky". Texto de Jorge Leitão Ramos.
O filme é de 1961, mas só estrearia em 1979, na RTP2.

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