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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Zéfiro (Zéfiro) 1993

Zéfiro é um filme sobre Lisboa, a última das cidades mediterrâneas, condenada ao Atlântico pelo estuário vastíssimo que a separa "da outra banda". A princípio, o trajecto escolhido parece ser o dos cacilheiros, os "ferry-boats" que ligam a margem Norte à Margem Sul do Tejo, na realidade, quando chega à margem sul, o filme muda inesperadamente de registo e, enquanto nos fala dos povos que sucederam ou coexistiram no Sul profundo de Portugal, cruza a planície do Alentejo, e desde do outro lado até ao mar, onde pára finalmente, a contragosto, como se quisesse continuar até ao Mediterrâneo. Depois volta desencantado para cima, e é já de noite quando atravessa o rio de novo.
Zéfiro é uma crónica histórica de Lisboa face ao Sul, onde a um discurso quase de carácter didáctico-informativo se sobrepõem fiapos de ficção, como se o espaço visitado segregasse, ele mesmo, uma vontade de imaginar, como se as planuras, os castelos ou as vielas tivessem lá dentro ficções.Um marinheiro pode, por isso, ser acometido de uma vontade de dança no convés de um cacilheiro, um misterioso cavaleiro árabe pode atravessar os campos do Alentejo, como uma visão, um homem pode esfaquear uma mulher nas sombras vizinhas a S. Vicente de Fora e fugir desabaladamente. E sobre tudo pode pairar a sombra errante de Corto Maltese. É quase um principio poético que enforma a construção de Zéfiro, de José Álvaro Morais, cineasta de pouquíssimos filmes, perguntamo-nos todos porquê, mas que sempre inventa, procura, joga, cria.
* Texto de Jorge Leitão Ramos.

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Quaresma (Quaresma) 2003


David é casado, tem uma filha pequena, e está a poucos dias de partir para o estrangeiro com a família. Mas com a morte do avô, ele tem ainda que regressar à terra, e ao seio de uma família com quem há muito não convivia. E uma viagem que era para durar o tempo de um funeral, acaba por transformar-se numa estadia de vários dias. Porque aí David conhece a mulher do seu primo, e vai-se deixando enredar no seu sortilégio de mulher perturbada mas encantadora...
Eis um daqueles filmes que apetece amar sem conta, peso ou medida. A cada imagem, a cada novo gesto, sentimos planar as forças mais essenciais da existência - o desejo, a solidão, o fardo de gerações sobre as nossas costas, as pedras, o frio, a incomunicação dos corpos e das idéias - numa espécie de teia onde uma jovem mulher se debate, sem saber que caminho dar à sua inquietude. Ainda por cima essa mulher tem o nervo de uma actriz de excepção - Beatriz Batarda - a reivindicar todo o nosso assombro. Mas o filme peca por alguma insuficiência no tecido dramatúrgico, na concatenação dos conflitos entre os personagens, na geografia dos sentimentos, prometendo sempre voar mais alto que aquilo que concretiza. Mesmo assim é um filme para ser visto.
Foi selecionado para o Festival de Cannes.

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