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domingo, 12 de março de 2017

La Pelota Vasca. La Piel Contra la Piedra (La Pelota Vasca. La Piel Contra la Piedra) 2003

Com mais de 100 entrevistas e imagens de arquivo, "Basque Ball" é um documentário incisivo sobre a Espanha, a ETA e a região basca. O realizador Julio Medem é mais conhecido pelas pelas suas histórias de amor elegantemente eróticas, mas neste documentário exaustivo (com sobrecarga de informação), ele oferece-nos uma visão fascinante da política tortuosa da região basca e da região do famoso grupo de terroristas separatistas. 
Controverso ao extremo, o documentário de Medem provocou a censura das autoridades espanholas, com o ministro da culta espanhola a marcar o filme como "suspeito". Esta resposta do ministro era típica das questões a que a questão basca suscita. Felizmente, a abordagem imparcial de Medem chega a ambos lados do espectro político, tratando a complexa teia da história, identidade e política em torno do seu tema com grande maturidade.
Entrevistando uma série de artistas, políticos, padres, activistas, jornalistas e académicos, Medem entrega-nos uma torrente de opiniões contraditórias, pintando uma história vívida, tanto do país basco como do seu status contestado. É uma mistura inebriante de vozes concorrentes: desorientadoras, estonteantes e exigentes. 
Por vezes há tanta coisa a ser atirada ao espectador que é impossível recebê-la toda. Um pormenor importante, é que os representantes do governo de Jose Maria Aznar, e da ETA não estão aqui representados, recusando-se a participar. Assim, com a "guerra do terror" escondida, em segundo plano, e os espectros do atentado de Madrid a acrescentarem um interessa adicional à discussão do filme sobre o terrorismo, este é o documentário oportuno e exaustivo possível. 

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Lúcia e o Sexo (Lucia e el Sexo) 2001

Lúcia é empregada de mesa num restaurante em Madrid. Depois de acabar com uma relação de longa data, procura refúgio numa ilha mediterrânica. Aí, numa atmosfera impregnada de ar fresco e luz, começa a reviver os momentos obscuros desse passado, como se fossem passagens proíbidas de uma novela que o autor, agora, autoriza-a a ler.
Escrito e realizado por Julio Medem, "Lucia e o Sexo" segue uma estrutura similar ao seu filme anterior, o notável "Os Amantes do Círculo Polar", em que o seu significado é composto por imagens, linguagem e narrativa, todas desdobrando-se umas nas outras, e enrolando-se umas nas outras ao mesmo tempo. Os personagens espelham-se e refratam-se uns aos outros, as suas histórias são similares e paralelas etrelaçando-se, fluidas e fragmentadas. Todas as histórias são sobre sexo, a intensidade e intimidade oferecidas pelo sexo bem como a ilusão da segurança. Isto significa, em parte, que o filme está cheio de cenas de sexo consumado, close-ups e explicito, mas tudo muito artistico.
Medem circula sempre tão próximo da linha entre a ficção e a realidade que nunca sabemos realmente o que é real e o que não é. Mas isso também não interessa, o que é realmente importante é o poder do desejo e da sexualidade, as tentações da fantasia. Existem poucos filmes que representam o sexo na tela com maior beleza ou sensibilidade, capturando acima de tudo a diversão do grande sexo. O sexo visualizado por Medem é profundamente feliz e puro, com uma intimidade que estabelece a real afeição entre os seus personagens.

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sexta-feira, 10 de março de 2017

Os Amantes do Círculo Polar (Los amantes del Círculo Polar) 1998

O Destino não pode ser negado. Otto e Anna ainda são míudos quando se conhecem… Encontram-se por acaso, relacionam-se por acaso, numa história de vidas circulares, com nomes circulares e um local "circular"(o Círculo Polar). Neste local o sítio o dia jamais acaba ao sol da meia-noite, á semelhança de outras coisas que não mais acabam, como o Amor! 
Julio Medem cria uma história assombrosamente bonita e intensamente atmosférica sobre o destino e a perdição, em "Os Amantes do Círculo Polar". Semelhante a "A Dupla Vida de Verónica", e "Vermelho", de Krzysztof Kieslowski, na medida em que expõe os seus temas
circulares e padrões recorrentes. Além da história se desdobrar numa narrativa circular, os eventos específicos também se repetem dentro da narrativa do filme, contadas a partir de perspectivas diferentes, por Ana e Otto. Episodicamente o filme começa e termina com a imagem de Otto reflectida nos olhos de Ana. Os seus nomes palindrómicos e os encontros com o honónimo de Otto, Otto Midelman (Joost Siedhoff), refletem ainda a estrutura circular do filme. No monólogo de abertura de Ana, ela pergunta: "Podes correr de volta? Algumas horas atrás, uma vida de volta?".
Na terra do sol da meia-noite, na surrealidade do Circulo Ártico, ainda não se está longe o suficiente para escapar do destino Se o coração é um caçador solitário, também circula em todas as direcções. Uma vez crescido e atirado fora através de todo o tipo de trauma emocional, Otto e Ana procuram um pelo outro. É uma jornada fascinante, cheia de ironia e discernimento, levando à noite do ano em que o sol nunca se põe.
 
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quinta-feira, 9 de março de 2017

Terra (Tierra) 1996

"Tierra" abre com uma viagem hipnótica através do espaço, enquanto a câmara sobe através da atmosfera etérea, descendo para uma área agrícola, para, de seguida, se concentrar num viajante solitário que está a ter uma conversa motivacional consigo próprio. Uma localidade foi infestada por uma praga de insectos, conferindo um sabor a terra ao vinho produzido localmente. Um exterminador, um homem que se auto-descreve como complexo chamado Angel (Carmelo Gomez), foi contratado pelo presidente para fumigar a região. A voz interior de Angel, o anjo figurativo do seu subconsciente que morreu mas voltou a existir dentro do seu eu corporal, acredita que foi enviado para a terra numa missão divina. 
O argumento surreal de "Tierra" pode ser uma alusão ao seu compatriota Luis Bunuel, mas a história subjacente é exclusivamente de Julio Medem. Em "O Objecto Obscuro do Desejo", de Bunuel, o protagonista  Mathieu (Fernando Rey) é um homem vil e hipócrita que tenta incansavelmente conquistar a atenção de uma jovem esquiva chamada Conchita, e é a sua ambivalência  que se reflete na vacilação física das duas actrizes que interpetam o papel, Carole Bouquet (fria e recatada) e Angela Molina (sensual e agressiva). Em "Tierra" Angel está dividido entre a doce e melancólica Angela (Emma Suarez), a esposa negligenciada de um agricultor chamado Patricio (Karra Elejalde), e a sensual e desinibida  Mari (Silke), amante de Patricio. Ao contrário da obsessão de Mathieu, Conchita, cuja personagem é interpretada por duas actrizes diferentes, o objecto do desejo de Angel são duas mulheres diferentes, e é o protagonista que sofre de uma personalidade dividida. À medida que Angel é gradualmente seduzido pela encantadora e brincalhona Mari, o seu anjo omnipresente é cada vez mais atraído pela alma e o calor de Angela. Com um conflito tão polarizado dentro da sua própria mente, a decisão de Angel assume um significado maior do que a simples selecção de uma amante, tornando-se uma luta metafórica pela posse da alma. 
A capacidade de Medem em trabalhar em trabalhar em múltiplos níveis de significado entrelaçando eventos internos e externos, eleva "Tierra" do estigma de servir como filme de homenagem. Estruturalmente Medem não transmite a história através de uma narrativa circular ou elíptica. O filme em essência desdobra-se sobre si próprio. O dilema de escolher entre Angela e Mari é uma manifestação da luta interna dentro de Angel pela posse da sua alma, e reflete a sua própria personalidade dividida. "Tierra" é um filme assombroso, uma viagem fascinante ao mundo estranho do comportamento humano - atração e ligação, amor e ciúme, o espiritual e o corporal.

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terça-feira, 7 de março de 2017

La Ardilla Roja (La Ardilla Roja) 1993

Jota está quase a cometer suicídio. Enquanto trava uma luta contra si próprio para se atirar de uma ponte uma jovem cai de uma ponte enquanto conduzia uma moto. Jota corre para ajudá-la, e vai com ela até ao hospital. Ela não se lembra de nada, nem do seu nome, e Jota inventa-lhe uma vida, dá-lhe um nome, e conta-lhe que vivem juntos desde há alguns anos como um casal. A questão é, até quando pode durar esta mentira?
Julio Medem apresenta-nos um filme inteligente e perspicaz sobre a natureza do amor e da ilusão. Através da imagem recorrente da água Medem cria uma metáfora visual para a imagem criada e insustentável de Jota sobre Lisa:a sequência de abertura de um nadador subaquático, o reservatório no lago na parque de campismo, a referência lúdica de Jorge sobre Lisa como "sereia", a imagem de um carro a mergulhar no mar. Em essência, a amnésia de Lisa fornece a oportunidade perfeita para criar figurativamente um ideal semelhante a "Pigmaleão", uma mulher que foi mentalmente modelada do amor não realizado de Jota, e da sua relação falhada. No entanto, ao contrário de Galatea, o que resulta é uma imagem superficial e vazia de uma fantasia elusiva, e inevitavelmente, é o enigma da identidade real de Lisa que o atormenta.
O segundo filme de Julio Medem foi exibido no Festival de Cannes, onde ganhou o Prémio da Juventude. Os protagonistas Emma Suárez e Nancho Novo eram actores recorrentes na filmografia de Julio Medem, assim como alguns secundários. A presença de Maria Barranco no elenco também é uma boa ajuda.

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segunda-feira, 6 de março de 2017

Vacas (Vacas) 1992

A acção começa em 1875, nas trincheiras da Biscaia. Manuel (Carmelo Gomez) é um soldado novato, saído de uma quinta basca perto de uma floresta. Quando o seu vizinho, o sargento Carmelo (Karra Elejade) fica a saber que ele entrou no seu batalhão torna-se seu amigo, desesperado por notícias do seu recém-nascido filho. Manuel não foi feito para lutar, e em pouco tempo a sua covardia trás trágicas consequências, que mergulharão a sua família em décadas de disputas. Passam-se trinta anos, e os filhos destes homens continuarão a disputa iniciada antes.
Na sua longa-metragem de estreia, Julio Medem cria uma pesquisa interessante sobre o tema do amor, e uma visão inteligentemente elaborada e visualmente estimulante sobre o tema do dever, e do nacionalismo. O título do filme refere-se à omnipresença passiva das vacas, e serve também como uma alusão contrastada à tradição nacional das touradas. Usando a repetida perspectiva de um espectador, filmado através da simulação de uma dioptria circular, Medem dá-nos uma crónica objectiva que capta a coexistência da paz e da violência, amizade e traição, tranquilidade e caos. Confrontando a rivalidade das familias Mendiluze e Iriguibel no contexto da história espanhola, Medem ilustra ainda a natureza cíclica da luta não resolvida, e da aliança vacilante usando o mesmo actor para retratar várias gerações de personagens. Nota-se a transformação do actor Carmelo Gómez no covarde Manuel Iriguibel nas guerras carlistas, no filho de Manuel, Ignacio, em 1905, e eventualmente no fotógrafo maduro Peru Mendiluze, que regressa à região basca no inicio da Guerra Civil Espanhola, em 1936. Enquanto o filme segue a estranha união dos soldados bascos com os monarquistas e a igreja católica durante as guerras carlistas, à aliança invulgar com os socialistas e comunistas para a preservação da república contra as forças fascistas lideradas pelo general Franco durante a Guerra Civil Espanhola, Medem apresenta um relato imparcial, mas profundamente pessoal e provocador, da continua devastação, nacionalismo e aliança inconstante do povo basco, enquanto lutam pelas causas aparentemente indescritíveis da autonomia, autodeterminação e identidade cultural. 

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