quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Importante é Amar (L'important C'est D'aimer) 1975

Servais Mont, um fotógrafo, conhece Nadine Chevalier, que ganha a vida e entrar em filmes baratos de soft-core. Tentando ajudá-la, pede dinheiro emprestado para financiar uma produção teatral de "Richard III", e dá um papel a Nadine. Nadine fica dividida entre Servais, por quem se apaixona, e o marido, por quem tem obrigações morais.
"L'important c'est d'aimer" é uma das mais comoventes e agonizantes manifestações emocionais de um tema que precorre grande parte do trabalho de Andrezj Zulawski, que, como o título indica, o mais importante é amar. Para Zulawski o amor é mais importante do que as preocupações burguesas de honra e fidelidade, ilustradas no triângulo amoroso da actriz (Romy Schneider, num papel que é considerado a sua melhor interpretação, e para o qual ganhou um César) entre as obrigações morais com o marido (Jacques Dutronc), e o amor crescente com um fotógrafo (Fabio Testi).
O filme é marcado pela banda sonora esparsa de Georges Delerue, com a mesma sensibilidade usada no filme de Godard, "O Desprezo", Zulawski retrata um mundo de actores, pornógrafos, drogas e violência, em que o amor pode ser a única arma salvadora. Adaptado de um livro de Christopher Frank, era uma co-produção europeia, e o primeiro filme do realizador fora da Polónia. Do elenco fazem ainda parte Claude Dauphin, Michel Robin, e Klaus Kinski.
Filme escolhido pela Julia Moellmann.

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O Tesouro de Arne (Herr Arnes pengar) 1919

Na Suécia do Século XVI cruzam-se a vida de três mercenários escoceses com um velho vigário sueco e a sua família, e no crime indiscriminável que resulta, uma pequena comunidade costeira é alterada para sempre.  Enquanto que os três mercenários lutam para escapar da cidade, descobrem que a natureza conspirou contra eles, todos os navios ficaram congelados no gelo forçando-os a permanecer até que o trágico conto chegue até à sua catastrófica conclusão.
Um filme chave para a primeira era de ouro do cinema sueco, "Herr Arnes Pengar" está há muito tempo entre os mais famosos, e notoriamente mais difíceis de encontrar, clássicos do cinema mudo. Agora restaurado pelo Swedish Film Institute e apresentado com uma magnifica partitura musical de Matti Bye e Fredrik Emilson, estre trabalho de referência do mestre Mauritz Stiller, pode finalmente ser visto em toda a sua glória.
Realizado numa altura em que a Suécia era das principais forças dominantes no panorama internacional, "Herr Arnes Pengar" mostra Mauritz Stiller no auge dos seus poderes cinematográficos, trabalhando lado a lado com a autora vencedora do Prémio Nobel, Selma Lagerlof, de quem foi adaptado o argumento. Ajudado pelo director de fotografia pioneiro Julius Jaenzon, Stiller preenche cada quadro com gelo e neve para enfatizar a opressão das condições climatéricas e do terreno proibitivo. Raramente no cinema o Inverno pareceu tão ameaçador, e raramente a paisagem da Suécia foi usada para um efeito tão magnífico.
Intertitles em inglês, o filme foi escolhido pelo António Neves.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A Vergonha (Skammen) 1968

Jan (Max von Sydow) e Eva Rosenberg (Liv Ullmann) são um casal apaixonado, habituado a discutir, que mora numa pequena ilha isolada, sem nome, na costa de um país também sem nome, envolvido numa guerra cívil, para o qual o casal apolítico prefere ficar distante. Ambos são violinistas clássicos que se mudaram para esta ilha há quatro anos atrás, quando a sua orquestra foi desfeita. Quando o inimigo ataca a ilha, ficam ambos ligados a esta guerra, de uma maneira ou de outra.
Ingmar Bergman, um realizador apolítico, dirige uma parábola sombria, passada num ambiente bucólico de uma quinta pacífica. Fala sobre o que a miséria da guerra causa a todos os envolvidos, já que não há forma de o evitar quando começa. O objectivo é forçar-nos a encarar a realidade de que qualquer um dos lados de uma guerra é capaz de infringir grande crueldade, e que a guerra só serve para nos desumanizar, à medida que exerce forças externas das quais muitas vezes não temos controle. Neste drama de guerra alegórico, nenhuma das posições dos lados é declarada e Bergman quer deixar claro que não importa quem está certo ou errado, porque pretende fazer uma declaração geral condenando todas as guerras como erradas.
"A Vergonha" foi nomeado como melhor filme do ano para a National Society of Film Critics, mas passados cinquenta anos é quase considerado um filme menor na carreira de Bergman (se é que há filmes menores). Talvez tivesse mais impacto se tivesse sido feito sobre uma guerra específica. Por exemplo, a guerra que estava a ser mais badalada nesta altura era a Guerra do Vietname. Acontece que dois anos antes, em "Persona", Bergman tinha utilizado imagens famosas de um monge vietnamita a queimar-se vivo, e por causa disso tinha sido considerado anti-guerra do Vietname, e recebido más críticas nos Estados Unidos.
Filme escolhido pela Dora Domingos. 

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Spiritual Voices (Dukhovnye golosa. Iz dnevnikov voyny. Povestvovanie v pyati chastyakh) 1995

Em 1994, Alexander Sokurov acompanhou as tropas russas designadas para um posto militar algures na fronteira entre o Tajiquistão e Afeganistão,  para filmar as suas experiências. Enquanto forças tribais não identificadas ocasionalmente envolviam-se com as tropas em escaramuças, este documentário assombroso narra o tempo de inatividade antre actividades.
O mundo militar da antiga união soviética é motivo de interesse de Sokurov, tanto devido à sua ligação autobiográfica com o tema, porque a sua infância foi passada a seguir as pisadas do pai, um soldado no exército soviético, e porque o exército é uma das principais instituições do país, que durante décadas marcou a vida de grande parte da população russa. Sokurov fez três filmes sobre a vida militar: "Spiritual Voices", "From the Commander’s Diary" e "Soldier’s Dream". Enquanto que os dois últimos são praticamente desconhecidos, "Virtual Voices" era um documentário de longa duração, com cerca de 5 horas e meia, que apenas tem sido exibido em festivais alternativos de cinema, e centros de arte contemporânea.
"Spiritual Voices" era uma meditação cinematográfica sobre a guerra e o espírito do exército russo. Estruturado em cinco partes, ou episódios ( com38, 33, 87, 77 e 92 minutos, respectivamente), é um diário atemporal, com grande parte a ser filmada no campo de batalha. A fotografia da paisagem tem um papel de destaque no filme, mas a música, que inclui trabalhos de Mozart, Messiaen e Beethoven, e o som, são também muito importantes. 
O filme reúne todos os elementos que caracterizam o cinema de Sokurov, os takes longos, o processamento de imagem e o método de filmagem bastante elaborados, a mistura entre documentário e ficção, a importância da paisagem, e o profundo sentido metafísico de um realizador que trás transcendência a gestos do quotidiano.
Filme escolhido pelo Allan Jones Martins Mororó, e tem legendas em inglês.

Parte 1
Parte 2
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terça-feira, 7 de agosto de 2018

O Navio Farol (The Lightship) 1985

Skolimowski abandonou a Polónia em 1967 após a realização do filme Barrier. Até chegar aos Estados Unidos mediaram 18 anos onde foi fazendo filmes na Europa, entre os quais Deep End (1970) que lhe trouxe prestígio internacional, The Shout (1978) e Moonlighting (1982) que aliaram os elogios da crítica a um relativo sucesso de bilheteira, neste último caso com o inestimável contributo de Jeremy Irons com um desempenho notável enquanto protagonista.
A sua chegada aos EUA tornou-se quase inevitável e lógica. Mas foi feita, em termos cinematográficos, de forma inusitada. O Navio Farol adapta o pequeno romance Das Feuerschiff do escritor alemão Siegfried Lenz, um dos mais importantes escritores alemães da segunda metade do século XX e autor da obra prima Uma Lição de Alemão. O livro, até pela sua pequena dimensão, é quase minimalista, sentido que Skolimowski respeitou integralmente. Trata-se de um filme de baixo orçamento, quase teatral, que decorre inteiramente num barco ancorado que serve de farol para evitar que outros barcos colidam com rochas perigosas, O navio é comandado pelo capitão Miller, um oficial com um comportamento suspeito durante a segunda guerra mundial, acusado, embora não formalmente, de cobardia. Tem uma tripulação mínima que vive de forma monótona executando as suas tarefas rotineiras. Na altura em que o seu filho o visita o navio é assaltado por três bandidos armados que dominam o barco e o tentam pôr em movimento e sequestram a tripulação e o filho do capitão.
 O que me fascina neste filme é, em primeiro lugar, a sua sobriedade espartana. Não existe nada de acessório, nem nas imagens, nem nas palavras, nem sequer no cenário. Diríamos estar em presença de um filme de essências e não de aparências, com um cenário fixo centrado no barco e que só vai variando em função das suas diversas divisões. Em segundo lugar e pelas razões acima expostas, todo o ambiente é absolutamente claustrofóbico. Ninguém pode abandonar o barco: os tripulantes porque estão sequestrados e os assaltantes porque se regressarem a terra serão capturados. Há, assim, um convívio forçado entre uns e outros. Em terceiro lugar, o espantoso contraste entre o capitão e o chefe dos assaltantes. O primeiro é um homem tranquilo, quase sempre silencioso que entende a sua missão como uma espécie de castigo imposto, mas que está disposto a cumprir de forma determinada a sua missão, por mais irrelevante que a mesma possa parecer; o segundo é uma espécie de gentleman verboso, histriónico e cínico, pronto a filosofar sobre tudo e sobre nada. Em quarto lugar pela tensão crescente que se vai instalando entre os dois grupos transformando O Navio Farol numa espécie de thriller, uma vez que a tripulação depois de uma fase de aturdimento perante a surpresa da invasão indesejada, começa a resistir, com excepção do capitão que pretende preservar a missão do barco e a segurança da tripulação. Em quinto lugar, e este é talvez o aspecto mais importante, pelas questões filosóficas que coloca: primeiramente os dilemas morais do capitão, entre a resistência incitada pela tripulação e pelo seu próprio filho e a necessidade de preservar o barco e as vidas das pessoas, numa dimensão quase existencialista; mas, numa análise mais funda, a dicotomia metafísica entre permanência e a mudança, desta vez aplicada ao destino do barco. Como diria Caspary, o chefe dos assaltantes, os barcos foram construídos para navegar e não para estarem parados. Esta contradição entre o ser e o devir, remete-me para os bancos da Universidades e as polémicas entre Parménides e Heraclito, dois filósofos pré-socráticos. 
 É um filme de pequeno orçamento, que não ganhou prémios internacionais, não teve os favores do público e é frequentemente omitido das listas dos melhores de Skolimowski. Klaus Maria Brandauer (capitão) e Robert Duvall (Caspary) têm desempenhos notáveis bem acompanhados, entre outros, por Arliss Howard e William Forsythe, ainda então nos primeiros passos das respectivas carreiras. Que eu saiba houve uma edição em dvd que hoje se vende a baixo preço na Amazon. Não encontro na net grandes análises, ou qualquer clube de apaixonados por ele. Em suma, não gerou nenhum culto em seu redor. Trata-se, portanto, de um pequeno segredo, um filme desconhecido para muitos e que tenho o prazer de partilhar convosco.
Uma escolha do Jorge Saraiva, que também escreveu o texto de acompanhamento. 

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Os Viciosos (The Addiction) 1995

Um dos meus filmes preferidos, The Addiction é um curto filme de vampiros que lida com o vício e o controlo do impulso de matar. Uma jovem é atacada por uma jeitosa a meio da noite numa rua escura. Chega a casa com uma dentada profunda no pescoço e aos poucos percebe que as coisas mudaram. A sintomática vampírica vai-se revelando e ela tem que aprender a lidar com o vício do sangue. Tenta manter a sua personalidade mas rapidamente a sua repulsa por humanos acaba por vencer. 
Não é por ser um filme de vampiros ou sequer por ser um filme sobre dependência que gosto dele, mas pela vertente filosófica e a explicação sobre a existência dos grandes pensadores da História da humanidade, a sua visão sobre a imortalidade, a inevitabilidade da mudança, a futilidade da resistência e a nossa evolução enquanto indivíduos (mesmo que nos tornemos em algo que sempre abominámos). Filmado em preto e branco, mais preto do que branco, negro como a noite mais fria e polvilhado de analogias e metáforas para a vida real, para enfrentar a vida dura dos tempos modernos, da solidão dentro da multidão. Fez tanto sentido quando saiu, no tempo existencialista do grunge e da “geração rasca” às voltas com a incerteza do futuro e do fim da festa, com faz hoje em dia, num momento em que a lei da selva aplicada â economia e ao quotidiano impera.
Filme escolhido pelo Pedro Cinemaxunga, que também escreveu o texto.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Carnival of Sinners (La Main du Diable) 1943

Nas montanhas, numa noite chuvosa de Inverno, um homem misterioso chega a uma pousada cheia de turistas. O estranho comportamento de Roland Brissot (Pierre Fresnay) chama a atenção de todos, e compelido pelos acontecimentos, bem como pela hostilidade da multidão circundante, ele relutantemente começa a contar a sua história. Outrora um fracasso como pintor, e como homem, ele conheceu Mélisse (Noël Roquevert), dono de um restaurante que lhe vendeu um talismã que trouxe grande sucesso tanto na sua vida pessoal como profissional. Infelizmente, como o espectador irá descobrir, ele não se consegue livrar do talismã, uma mão esquerda que pertence ao próprio Diabo, que a vem pedir de volta.
Enquanto que o seu filho Jacques Touneur injectava novo sangue no cinema de terror americano com o seu primeiro trabalho produzido por Val Newton, "Cat People" (1942), Maurice Tourneur filmava a sua primeira obra do género desde que tinha voltado para França, em 1928. "La Main du Diable" é uma adaptação moderna e bastante livre do conto de Gérard de Nerval (A Mão Encantada), publicada pela primeira vez em 1832.
O tema da mão alienada ou "possuída" não era muito vulgar para o género terror, sendo o exemplo mais famoso "Les Mains d'Orlac", escrito pelo romancista francês Maurice Renard e filmado pela primeira vez por Robert Wiene, em 1924. No conto de Renard as mãos de um assassino são transplantadas para o protagonista, obrigando-o a matar. "La Main du diable" de Maurice Tourneur não lida com nenhuma transformação física espectacular. Quando Roland compra o talismã apenas as suas impressões digitais mudam. Muito antes do DNA ser descoberto, as impressões digitais de uma pessoa eram consideradas provas irrefutáveis da sua identidade. 
O filme era produzido pela Continental Films, a companhia mais importante em França durante a ocupação alemã. Presidida por um alemão, Alfred Greven, a Continental era financiada pelo dinheiro das forças de ocupação. Tem sido bastante discutido se os filmes feitos por esta produtora eram de propaganda ou não, e de facto, aparentemente, não eram. Alguns estudiosos concluíram que os filmes de terror feitos neste período passavam mais facilmente pelas restrições à censura.
Filme escolhido pela Inês Esteves. 

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A Roda (La Roue) 1923

“Há cinema antes e depois de La Roue tal como há pintura antes e depois de Picasso” Jean Cocteau.

Abel Gance, “o Victor Hugo do cinema”, “o Cecil B. DeMille avant-garde”, entre tantos outros epítetos que recebeu pelo seu engajamento ao Romantismo numa proporção épica e artisticamente revolucionária, foi o cineasta megalómano por excelência, um inovador técnico guiado apenas pelas suas ambições visuais e narrativas na criação de um cinema-monumento inigualável ao dos seus contemporâneos. Cada uma das suas obras mais auspiciosas só poderia, portanto, conduzi-lo a um de dois resultados: a aclamação unânime ou a humilhação instantânea. Napoléon trouxe-lhe a primeira, La Fin du Monde a segunda. E se La Roue (feito antes de um e de outro) foi um caso bem-sucedido na época, as consequentes amputações que sofreu para uma melhor divulgação comercial (durava originalmente quase 9 horas, foi reduzido a 2h30), bem como a ausência de uma restauração canonizadora semelhante à de Napoléon na década de 80, levaram-na a ser relegada da vanguarda de grandes obras cinematográficas que em tempos ocupou. Em 2008, finalmente, La Roue foi restaurado numa edição produzida pela Flicker Alley com 4h30 de duração, sendo a mais completa comercialmente disponível, reimplantando o deslumbre do talento visionário de Gance em novas audiências. É esta que colocamos disponível.
 Autêntica tragédia grega (a começar pelo nome do protagonista) de alturas olímpicas, é preso a um triângulo incestuoso que observamos Sisif, um maquinista atormentado pela culpa sexual inerente à paixão que nutre pela filha adoptiva, Norma, enquanto o vértice em falta é ocupado pelo seu filho biológico Elie, inconscientemente apaixonado pela rapariga de quem julga estar ligado pelo sangue. Esta intriga encontra-se desenvolvida por uma linguagem visual rica, capaz de transformar o melodrama diegético num trabalho de ressonância emocional extraordinário. Se são fascinantes as sequências que envolvem os descarrilamentos e conduções das locomotivas colossais (onde é sublimado o amor magoado e proibido de Sisif) não menos o são os eventos passados à escala humana. La Roue é um dos exemplos superlativos dessa corrente cinematográfica de tirar o fôlego que foi o Impressionismo Francês, onde permite o espectador experienciar, por uma série de dispositivos fílmicos, os turbilhões emocionais e pulsões fatalistas que assolam o seu leque principal de personagens. O pathos mais ardente é criado pelos planos subjectivos de Sisif, à medida que o ciúme, a culpa e, finalmente, a cegueira o domam, os seus impulsos auto-destrutivos são transmitidos intensamente pela montagem rápida pré-eisensteiniana que confere ao filme um ritmo periclitante e frenético nos momentos em que este pretende provocar o seu suicídio, e as paixões consumidoras de Sisif e Elie surgem liricamente representadas por uma série de sobreimpressões e sequências fantasistas. 
E o que é “a Roda” do título a não ser o cerco periódico que encarcera os homens com os seus destinos fatais e desejos inexauríveis, o eterno ciclo de vida e morte, amor e ódio, crime e perdão? Conformar-se com ela é aceitar dar as mãos numa farândola fraternal, a uma altura onde se está mais perto dos deuses que dos homens. Como Sísifo, que cego e cansado acolhe a serenidade do derradeiro repouso, deixamos o filme em estado de aceitação. A Roda continuará a girar.
* Filme escolhido pelo Duarte Mata, que também escreveu este texto, de propósito para este ciclo. 

Parte 1
Parte 2
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domingo, 5 de agosto de 2018

Conhecendo o Grande e Vasto Mundo (Poznavaya Belyy Svet) 1980

As relações amorosas entre Nicolai, um camionista, e Liuba, uma trabalhadora, são difíceis. Ela sonha com um grande amor, euquanto ele só se quer divertir. Um dia Liuba conhece outro camionista,  Mikhaïl, outro camionista, mas muito mais calmo e reservado do que Nicolai. É então que um triângulo amoroso começa a emergir. 
Kira Muratova nasceu na Roménia, no território agora ocupado pela Moldávia, mas é de ascendência ucraniana, e fez este "Getting to Know the Big Wide World", talvez o seu filme mais interessante, na sua colaboração solitária com os estúdios soviéticos Lenfin, sendo também o seu regresso aos filmes depois de uma suspensão de vários anos. 
 Com este filme ela regressava ao que parecia ser o seu território mais familiar. O argumento básico tratava-se de um triângulo amoroso filmado entre os tijolos e o cimento de uma construção, mas ao contrário de filmes seus anteriores este trio parece estar a agir por puro instinto. Há uma qualidade voluptuosa e sensual que Muratova continuaria a explorar em filmes posteriores, criando imagens que disparam o poder humano contra a monotomia do ambiente quotidiano. Menos crítico, talvez, do que os seus trabalhos anteriores, o filme, no entanto, incomodou suficientemente os censores para que eles temporariamente o arquivassem. Mais tarde advertiram Muratova para parar de fazer filmes sobre temas contemporâneos.   
Filme escolhido pelo Roberto Cotta. 

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sábado, 4 de agosto de 2018

Ciclo 10 anos de Thousand Movies

Estamos a entrar na recta final para o décimo ano dos Thousand Movies, juntando os dois blogues em termos temporais. É um número redondo demais, e exigia uma comemoração especial. Como estes blogs foram alimentados todos estes anos a pensar em, e para vocês, pensei que a melhor homenagem tinha de ser feita com a ajuda dos próprios leitores.
Convidei então uma série de seguidores, colaboradores, ou simples observadores para escolherem um filme para este ciclo, e o resultado foi muito interessante, e poderá ser seguido aqui nas próximas semanas. Ainda não sei ao certo quantos filmes e convidados serão, porque ainda nem fiz os convites todos, mas conta-se com mais de 80 filmes com toda a certeza, criteriosamente escolhidos por vós. Vamos ter filmes dos 4 cantos do mundo, e das mais variadas nacionalidades.

O dia de aniversário será o dia 23 de Agosto, e paralelamente haverá um evento de comemoração no dia 25 de Agosto, Sábado, em Lisboa. Todos que queiram estar presentes, estão convidados, enviem um mail para myonethousandmovies@gmail.com.

Vou tirar 3 ou 4 dias de descanso, e na próxima semana arranca este ciclo. Até já.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Daughters of the Dust (Daughters of the Dust) 1991

No início do século 20, a comunidade Gullah mantém as suas tradições africanas em solo americano. Entre a narrativa épica e o mito, o drama e o musical, temos a história de três gerações de mulheres da mesma família, unidas pela habilidade criativa da realizadora, e visuais marcantes que influenciariam novas gerações de artistas, como Beyoncé.
Primeiro filme de uma realizadora afro-americana a ganhar ampla distribuição nos Estados Unidos. Mas mais do que uma questão de representatividade, esta longa metragem de Julie Dash (a primeira) impressiona pelos detalhes visuais, e pelos toques poéticos na sua narrativa. Discussões sobre tradição, modernidade, buscas por novas identidade e géneros atrvessam a apresentação da cultura Gullah, ligada aos escravos libertados e aos seus descendentes no sul dos Estados Unidos.
Julie Dash traça graciosamente as suas ligações e contradições, o ponto onde o passado encontra o presente, onde a decisão de ficar ou ir é feita, onde ambos os sistemas de crenças podem combinar. Por tudo isso, há um sentimento de liberdade florescente,  aquilo que nos é transmitido pelos nossos ancestrais e pais encontrando aquilo que escolhemos para nós próprios, resultando numa mistura dos dois. 

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To Sleep With Anger (To Sleep With Anger) 1990

A vida de uma família negra de classe média de Los Angeles é interrompida pela chegada de um velho amigo do sul, neste drama servido por camadas. Inicialmente temos lembranças encantadoras do passado, mas conforme o tempo vai passando o visitante começa a mostrar-se cada vez mais sinistro, levando o um conflito inevitável. 
Estreado em 1990, pouco antes da primeira vaga de filmes de gangsters afro-americanos, como "New Jack City", "Straight Out of Brooklyn", e "Boyz N the Hood" serem lançados nas salas, o filme de Charles Burnett nunca alcançou o público que merecia. Enquanto os gangs, armas e drogas tomavam conta do novo cinema negro, esta história lírica de Burnett sobre o confronto entre o mundo moderno de South Central Los Angeles e as antigas superstições do sul americano foi substituída por uma série de explosivos, mas não menos maduros, dramas de acção. 
"To Sleep with Anger" é também um estudo tentador do efeito assombrador do passado no presente, com um fascinante tema sobrenatural: Harry será um demónio do passado ou apenas um indivíduo à procura de problemas? É um desempenho impressionante de Danny Glover, um dos melhores da sua carreira, senão mesmo o melhor. Nesta altura Glover já era um actor de sucesso. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

My Brother's Wedding (My Brother's Wedding) 1983

Dois irmãos tem visões muito diferentes sobre a vida: enquanto um acredita na simplicidade e o outro sonha com a possibilidade de ascenção social. O contraste entre os dois torna-se mais violento com o passar do tempo e cria uma distância cada vez maior entre os dois, mas uma hipótese de conciliação surge quando um convida o outro para ser o seu padrinho de seu casamento.
O menos conhecido dos três primeiros filmes de Charles Burnett (os outros são "Killer of Sheep" e "To Sleep With Anger", que também poderão ver neste ciclo), viu mais de 30 minutos cortados da sua versão original, que não era a pretendida pelo realizador, é uma mistura entre uma novela da vida real e melodrama do crime urbano, num filme cujas personagens nunca proferem uma nota falsa. Burnett que é reconhecido por muitos críticos como o melhor realizador que ninguém conhece, neste filme a cores de baixo orçamento mostra porque é tão reconhecido no underground do cinema norte-americano, enquanto ataca habilmente os problemas do guetto entre a população negra, no centro-sul da Los Angeles do crime, onde impera a resignação e o desemprego.
Como é costume, Burnett consegue gerir muito bem o seu conjunto de actores, a maioria dos quais não profissionais, e os seus dons como contador de histórias fazem o filme crescer de forma constante até ao seu final. 
Filme sem legendas.

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terça-feira, 31 de julho de 2018

Illusions (Illusions) 1982


"Illusions" retrata um estúdio ficcional da Hollywood dos Anos 40, e define o cinema como um historiador poderoso, no entanto, omite muitas culturas da sua história. O protagonista Mignon Dupree expressa a necessidade de "filmes que dêem ao público situações e personagens que eles possam reconhecer como parte das suas próprias vidas". "Illusions" é um filme francamente auto-consciente, pois ocorre num estúdio fictício, e os seus personagens discutem directamente a produção de Hollywood. O título do filme refere-se às falhas que retratam a realidade.

Curta metragem realizada por Julie Dash, um dos nomes mais importantes deste movimento da "L.A. Rebellion", era a última curta metragem da realizadora, antes de se estrear nas longas, em 1991. Em 34 minutos Dash revive engenhosamente temas e estilos clássicos de Hollywood, com o fim de submetê-los a uma forte crítica histórica. Com imagens filmadas num preto e branco de alto contraste por Ahmed El Maanouni, Dash infunde um repertório visual de musicais e melodramas com inflexões modernistas. Combina o retrato intimo com reflexos e exposições múltiplas que capturam o jogo angustiante de Hollywood, e das múltiplas e ocultas identidades.
Filme sem legendas.

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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Ashes and Embers (Ashes and Embers) 1982

Anos se passaram desde que Nay Charles regressou de lutar na guerra do Vietname, mas as cicatrizes mentais deixadas por esta experiência nunca foram curadas. Pelo contrário, cresceram ainda mais. Como um veterano negro, não há lugar para ele na América, nem casa, se é que alguma vez houve alguma. Sente-se irritado com todos em redor - a namorada, Liza Jane, o seu filho Kimathi, e a avó resistente que vive no campo. Não consegue discernir nem o amor nem a bondade à sua volta, nem focar-se numa direcção para seguir a vida. Liza Jane espera atraí-lo para o movimento negro de libertação em que participa, mas ele recusa todos os convites para se aproximar pessoas ou fazer parte de uma comunidade.
"Ashes and Embers" de Haile Gerima, passa por tantos momentos de inquietação, como o seu protagonista em estado de choque. É como uma longa e indigesta montagem sem indicação de que curso irá seguir, ou quando passa subitamente para outro ponto da vida de Nay Charles. O filme de Gerima não é linear, meio experimental, meio narrativo, mas, acima de tudo, um filme de combate. No filmes, de uma forma quase Resnaisca Nay Charles descola-se no tempo e no espaço com a facilidade e a anarquia da memória.
Estreado em 1982, depois da primeira vaga de filmes sobre o Vietname, como "Coming Home", ou "Apocalypse Now", que é citado ironicamente no filme, e antes da segunda vaga, que começaria quatro anos depois com "Platoon",  mas o que mais se aproxima de Nay Charles é o Travis Bickle de "Taxi Driver".
Filme raro, sem legendas.

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domingo, 29 de julho de 2018

A Different Image (A Different Image) 1982


Alana (Margot Saxton-Federlla), uma estudante de parte, explora a sexualidade, os ideais ocidentais de beleza, e a sua própria auto-estima na Los Angeles dos anos 80. Vincent (Adisa Anderson), um amigo de longa data, sente-se pressionado a transformar esta relação platónica numa relação sexual, que desencadeia a frustração de Alana com os padrões de beleza e as normas de género ocidentais.

Um olhar comovente sobre os jovens que entram na idade adulta num mundo dominado por divisões sexuais, geracionais e raciais, "A Different Image" seria reconhecido como um marco do cinema feminista negro, mesmo mais de 30 anos depois do seu lançamento. Uma jovem profissional de Los Angeles que luta para ser vista como mais do que um objecto sexual, enquanto o seu amigo tenta envolver-se com ela, acabando por perceber que precisa conciliar as suas expectativas e experiências com as dela. O filme enfatiza bastante o uso da montagem, justapondo vários tipos de fotografias de algumas mulheres, quando das suas sequências narrativas. 
A realizadora é Alile Sharon Larkin, que tinha 29 anos quando fez esta sua primeira longa metragem, de quem se diz que imaginou e criou um cinema negro contra as convenções de Hollywood, e contra o cinema de Blaxploitation.
Filme muito raro, não tem legendas.

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Bush Mama (Bush Mama) 1979

Uma mulher negra à beira de um ataque de nervos. Uma filha para criar e outro bébé a caminho, o marido na prisão, a Assistência Social que ameaça cortar os benefícios caso ela não faça um aborto, os vizinhos que falam demais. A violência racista da sociedade americana se precipita sobre uma vida. Mas sua imaginação não cabe no mundo estreito que fizeram para ela. Dorothy sonha. 
 "Dorothy observa o mundo de sua janela e no recorte dessa moldura o que ela vê e ouve é um espaço que repele e nega sua subjetividade. Portanto, muitas das vezes em que Dorothy se põe diante dessa janela, seu corpo se revela cansado, o seu próprio exercício de olhar o mundo vem carregado com a vontade de desistir dele. Ainda assim, ela insiste em olhar, como se a atitude em si mesma fosse uma possibilidade de resistência. Quando Haile Gerima filma a atriz Barbara Jones na ação de se colocar observando o ambiente externo enquanto, internamente, tudo lhe sugere não desafiar o que está dado lá fora, sob a moldura retangular da janela de um apartamento na periferia de Los Angeles, há na repetição desse enquadramento uma forte marcação política sobre o próprio cinema ao qual Gerima está vinculado. Um que está ciente do quão insubordinado pode ser o simples gesto de levantar os olhos. E observar o mundo de sua própria janela. E ligar uma câmera.
 Quando surgem então as primeiras imagens de Bush Mama (1979), segundo longa-metragem de Gerima, aquilo que a princípio parece ser a encenação de mais um baculejo da polícia na população negra é, na verdade, uma declaração pessoal do diretor sobre seu direito de olhar. Não sabemos, e o filme em nenhum momento revela esse dado, mas as cenas projetadas em câmera lenta na abertura do longa são da própria equipe de filmagem, incluindo aí também o diretor, sendo abordados pela polícia no meio da rua. A câmera que captura essas cenas está atrás de uma janela, escondida, discretamente dando um zoom no que vê."
Texto de Fora de Quadro 
Este filme não tem legendas. 

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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Penitentiary (Penitentiary) 1979

Um homem chamado Martel Gordone envolve-se numa luta com dois motociclistas por causa de uma prostituta, e mata um dos dois. Gordone é apanhado e enviado para a prisão, onde se junta à equipa de boxe num esforço para garantir a liberdade condicional, mas cedo começa a estabelecer o domínio sobre o gang mais duro da prisão.
"Penitentiary" é o primeiro filme de uma trilogia com o mesmo nome, escrita e realizada por Jamaa Fanaka, de quem já tínhamos visto aqui "Bush Mama". É um filme que se aproxima muito mais da Blaxploitation do que outro género qualquer, embora esta fosse apenas uma sombra do que tinha sido alguns anos atrás. A maioria dos filmes que ainda eram feitos, eram mais uma homenagem a este sub-género do que propriamente um novo capítulo. 
Numa entrevista em que Fanaka foi interrogado sobre o realismo de "Penitentiary", desde o diálogo ao retrato da vida na prisão, ele respondeu: "Mas tu achas que George Lucas já esteve no espaço? Eu consegui até agora evitar o encarceramento penitenciário". Era uma coisa incrível, já que o filme desde há muito que vinha a ser elogiado pelo seu realismo em retratar a vida na prisão. O filme de Fanaka também foi elogiado pelo seu comentário social, na forma como mostra com desprezo o lado duro, e na pior das hipóteses sádico, da vida na prisão, mostrando o quanto longe um homem pode ir para fazer justiça. Esta é no entanto uma leitura pretensiosa acerca do filme, porque existem observações vagas a este respeito. Mas o que é realmente recomendável neste filme, são as interpretações. Leon Isaac Kennedy, na sua estreia como protagonista brilha radiantemente. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 25 de julho de 2018

Emma Mae (Emma Mae) 1976

Emma Mae é uma jovem do interior que chega a Los Angeles com a sua tia, usando uns terríveis saltos altos, e como um peixe fora da água no seu novo bairro no centro da cidade. Vai viver com os primos que pensam que ela é uma nerd, mas Emma vai provar-lhes que estão enganados. Acaba por se envolver com um traficante de droga, e é inevitável fazer amigos indesejáveis, que a vão levar por um caminho do lado errado da lei.
É estranho pensar que tantos anos passarem desde "Boyz N´the Hood" (1991), de John Singleton e ainda se encontra tanto em comum com o filme de Jamaa Fanaka "Emma Mae", que chegamos a uma conclusão que possívelmente Singleton poderá tenha visto este filme para se inspirar para o seu de 1991. O estilo naturalista de Fanaka preenche o tempo com shots em exteriores, aproveitando ao máximo as músicas pelas quais eles pagaram os direitos. Sempre uma parte importante de qualquer filme "negro" as músicas são certamente funky. 
Jerri Hayes era a protagonista, uma jovem estudante de drama na UCLA da altura, e que tem uma interpretação cheia de carisma. Era o seu primeiro filme, e esta jovem nunca mais seria vista na tela a partir daqui. Fanaka nunca quis tornar Hayes numa nova Pam Grier, mas sem dúvida que ela dá bastante porrada no final do filme. Quando "Emma Mae" foi vendido a um distribuidor no exterior, o nome teve de ser mudado para "Black Sister´s Revenge", para fazer o filme parecer o oposto do que Panaka pretendia.
O filme não tem legendas.

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terça-feira, 24 de julho de 2018

Killer of Sheep (Killer of Sheep) 1978

Stan trabalha num matadouro. A sua vida pessoal é monótona. A insatisfação e o tédio mantem-no insensível às necessidades da sua adorada esposa, e ele deve lutar contra as influências que o desonram e o pôem em perigo, e à sua familia. Esta não é uma história vulgar. Como um artista de côr a trabalhar dentro de um meio não necessariamente amigável, Charles Burnett travou uma enorme batalha para se tornar um cineasta. Tal como aconteceu com muitos estudantes dos anos 60, ele pegou na sua câmera de 16 milímetros para fazer a tese na UCLA, com foco na zona perturbadora de Watts, em Los Angeles, numa meditação invulgarmente bela e comovente sobre a raça e a rejeição do sonho americano. Com a esperança de ver o filme a ser lançado comercialmente, mas não percebeu que as muitas canções incluídas como parte da poesia em geral, eram inseguras. Os custos por causa das questões dos direitos de autor, feita a distribuição eram impossíveis, e além de algumas sessões em festivais, o filme acabou por se tornar numa lenda pouco vista.
Escuro e num estilo documentarista, "Killer of Sheep" de Charles Burnett é uma janela para um mundo que poucos já ousaram entrar, e muitos nem sequer sabiam existir. Capturando o olhar, o tacto, do sentido da pobreza como nenhum outro filme o tinha feito antes, representa uma notável perspectiva artística. Sem qualquer narrativa real a falar de personagens, com sequências tiradas directamente da implacável vida real, permanece como uma experiência surpreendentemente autêntica, e um verdadeiro testemunho dramático sobre o espírito humano. Enquanto se vive claramente na década de 70, Burnett baseia-se nos antigos blues e numa banda sonora soul, para fazer um exame intemporal da vida à margem da sociedade normativa, uma olhada para situações flagrante e as circunstâncias insondáveis​​. Quando um matadouro parece mais convidativo do que a casa de uma família pobre, reconhecemos que o comentário cultural é muito potente.
Burnett rodou "Killer of Sheep" ao longo de uma série de fins de semanas com um orçamento apertado de um pouco menos de US $ 20.000, com amigos e parentes como actores. Nenhuma destas características devem ser tomadas como limitações, porque o que o filme vale em parte por causa destes pormenores. Se não fosse pelo sentido quase poético do ritmo e as conotações bíblicas do diálogo, Killer of Sheep poderia muito bem passar por um documentário sobre a vida no ghetto de Watts. Killer of Sheep é desenvolvido a partir de evocações do comportamento Afro-americano.

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