quarta-feira, 14 de março de 2018

A Greve (Stachka) 1925

Numa região fabril russa, durante o regime czarista, há grande inquietação entre os planeadores de uma greve, com a gestão a trazer espiões e agentes externos ao movimento. Quando um trabalhador se enforca depois de ser erradamente acusado de roubar, os outros trabalhadores entram em greve. No início, há excitação nas suas casas, e nos lugares públicos, enquanto eles desenvolvem as suas demandas comunitariamente. Depois, à medida que a greve se desenvolve e as suas demandas são rejeitadas, a fome aumenta, provocando uma aflição doméstica e cívica. Provocadores recrutados pelos patrões, e em conluio com os policias e os bombeiros, trazem problemas para os trabalhadores. Os espiões fazem o seu trabalho sujo, e os militares chegam para liquidar os grevistas.
Nos anos vinte, Eisenstein tornou-se famoso pelo uso da montagem, cortes rápidos, e contrapontos abstractos, estranhos à acção brutal, garantiram-lhe um respeito duradouro. A sequência do matadouro intercalada com o abate de trabalhadores inocentes em greve, ainda é ousada e desagradável nos dias que correm. Com o uso de motivações magníficas, interlúdios poéticos, ângulos expressionistas incríveis, composições construtivas, e sequências de multi-ângulos, "A Greve" é um dos mais dinâmicos filmes filmados e montados na época do cinema mudo.
Sergei M. Eisenstein tinha apenas 26 anos quando dirigiu este seu primeiro filme, que é considerado uma das maiores estreias na história do cinema. Eisenstein tinha outra coisa em mente. Ele queria fazer um filme revolucionário sério para o povo. Felizmente, é uma obra tão energética e feroz, que nenhuma quantidade de propaganda pode oprimir o seu poder. Este também seria uma espécie de aquecimento para o seu filme seguinte, "O Couraçado Potemkine", onde Eisenstein desenvolveu todas as suas ferramentas, e as empregou da melhor forma. Independentemente disso, "A Greve" é muito mais do que um pouco de história. É a própria história viva.
Este filme já tinha sido incluido no ciclo "Consciência de Classe e Luta", mas tinha de ser repetido neste. 

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segunda-feira, 12 de março de 2018

Cinema Olho (Kinoglaz) 1924

 Este documentário promovia as alegrias da vida numa vila soviética, e centrava-se em volta das actividades dos jovens pioneiros. Estas crianças estavam constantemente ocupadas, colando cartazes de propaganda em paredes, distribuíam panfletos de mão em mão, para incentivarem as pessoas a comprarem da cooperativa, como oposição ao sector público, promovendo os seus aliados e ajudando os pobres.
Para um filme projectado para mostrar os aspectos positivos da Revolução, "Kino-Eye" é desarmantemente franco sobre a pobreza e a corrupção na sociedade russa dos anos 20. A quinta bobine do filme é um catálogo de doenças sociais: mercado negro, viciados em cocaína desabrigados dormindo nas ruas, e presos que se arrastam à volta de um hospital psiquiátrico estatal.  Mas este material muito grave e deprimente é muito bem compensado pela excelente montagem de "Kino-Eye".
 "Kino-Eye" é o primeiro documentário de longa-duração de Dziga Vertov, e é feito, não de "found footage", como era então habitual no realizador, mas sim de shots filmados de propósito. A estratégica foi anunciada num jornal pouco antes da estreia do filme: "o Kino-Eye é composto por uma câmara de filmar e duas ou três pessoas, partiram numa viagem para o "campo dos pioneiros", través dos pátios dos camponeses, através dos campos, através dos mercados e favelas da cidade, com uma ambulância para um moribundo, olhando para todos os pequenos cantos da vida social. Olhou e filmou vida, que não foi alterada pela sua presença, não suavizou nada, porque ninguém sentiu a sua presença."

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domingo, 11 de março de 2018

Dziga Vertov e a Avant-Garde Soviética

Dziga Vertov foi o primeiro a considerar o filme, não como uma performance teatral ou um documento histórico, uma como um artefacto independente. Segundo as suas palavras: "Eu sou o olho do Cinema. Sou um olho mecânico. Sou uma máquina a mostrar-vos o mundo de uma forma que só eu posso ver", declarou ele num dos seus primeiros manifestos.
Para Vertov, a eficácia da impressão do filme no espectador não está relacionada com os actores que interpretam uma história divertida em frente à câmara, ou a câmara a ser colocada num lugar específico, por exemplo, numa reunião em que Lenine devia falar. O efeito primário é causado pela interacção de shots completos, shots médios e close-ups, pelo ritmo em que os shots alternam, e como a velocidade e o slow motion são usados. Mesmo ao filmar eventos oficiais Vertov fê-lo a partir de pontos inesperados e ângulos com uma câmara escondida: de um carro em movimento, de um tubo numa fábrica, das rodas de um comboio.
Este ciclo que iremos seguir aqui nas próximas três semanas, foi preparado e apresentado em Março de 2008, faz agora 10 anos, no Harvard Film Institute, por Yuri Tsivian, um dos mais famosos estudiosos do cinema soviético. Colocando o trabalho de Vertov ao lado dos seus contemporâneos, tem por objectivo mostrar os diferentes estilos e abordagens que contribuíram para um dos períodos mais ricos e significativos da história do cinema. Serão exibidos aqui os 15 filmes da mostra de Yuri Tsivian.
 Para vos ajudar na introdução do ciclo, aqui fica um dos livros da autoria de Yuri Tsivian, chamado "Early Russian Cinema and Its Cultural Reception". Aqui. E fiquem com imagens de um tributo a Dziga Vertov.



Boa semana e bons filmes.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Memórias de uma Sobrevivente (Memoirs of a Survivor) 1981

"D" é uma cronista de uma sociedade mergulhada no caos, que olha para os gangues da cidade e as ruas cheias de lixo de dentro da fortaleza do seu apartamento. Impedida por sonhos e por ansiedades de saír, encontra um mundo alternativo depois de atravessar a parede do seu quarto, tal como Alice atravessou o espelho. Agora está na Inglaterra vitoriana, no seio de uma família, talvez precursora da decadência que há-de vir. Vai navegando entre os dois lados da sua dupla vida, observando sempre, mas nunca participando.
Os livros brilhantes de Doris Lessing raramente foram objecto de grandes filmes. Este trabalho interpretado por Julie Christie foi uma das raras adaptações para cinema da autora, e contava com a realização e argumento de  David Gladwell, um montador que realizou apenas duas longas metragens, ficando mais conhecido pela montagem de dois filmes de Lindsay Anderson ("If..." e "O Lucky Man", duas obras da Nova Vaga do cinema Inglês). Gladwell está mais preocupado em relatar a obscuridade semi-autobiográfica do texto de Lessing, mas as preocupações sociais profundas e o grande desempenho de Christie tornam lamentável que mais do trabalho de Lessing não tenha sido filmado.
Foi um dos grandes vencedores do primeiro festival do Fantasporto, vencendo o prémio da audiência, realização (ex-aqueo com Piotr Szulkin), com Christie a levar ainda para casa o prémio de Melhor Actriz. 
É um filme bastante raro, não tem legendas nem em inglês.

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terça-feira, 6 de março de 2018

Brevemente, no M2TM: Os ciclos mais aguardados do ano




Já agora, fica a sugestão:
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O Mal de Hamburgo (Die Hamburger Krankheit) 1979

A Alemanha é assombrada por uma praga misteriosa e mortal. Em Hamburgo, um grupo de pessoas um grupo de pessoas parte numa odisseia pelo país através da país para procurar sobreviventes, e alguém que os passa ajudar. A jornada evolui para uma viagem até às montanhas da Baviera, cujo idílio, no entanto, é uma falácia.
Superficialmente parece mais um filme excêntrico pós-apocalíptico europeu, onde a causa final é menos importante do que a rápida deterioração da sociedade. Um punhado de sobreviventes salta de aventura para aventura, encontrando pelo caminho todo o tipo de pessoas enlouquecendo, numa espécie de viagem frenética. Mas o que torna este filme mais do que uma obra excêntrica é o próprio Fernando Arrabal, actor, realizador argumentista, e escritor, autor do argumento de "Fando e Lis" de Alejandro Jodorowsky, numa interpretação verdadeiramente demente, como um sobrevivente muito vigoroso, numa cadeira de rodas, numa atitude muito malvada, bem como várias facetas satíricas numa cultura alemã petrificada, a morrer por causa de um vírus estranho, que reverte as pessoas para a posição primária.
Realizado por Peter Fleischmann, um dos rostos da nova geração de cineastas alemães, e autor do muito falado "Cenas de Caça na Baixa Baviera", tem aqui o filme que o revelava para o resto da Europa.  Fleischmann tinha ganho o prémio de melhor realizador no Mystfest, um festival de cinema fantástico italiano, de onde saíu outra obra exibida no primeiro Fantasporto, "Arrebato". Uma nota também para a banda sonora da autoria de Jean-Michel Jarre, numa das suas primeiras criações para cinema. 
Legendas em inglês.

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domingo, 4 de março de 2018

O Império das Formigas (Empire of the Ants) 1977

Algumas formigas têm contacto acidental com material radioativo e tornam-se gigantes e assassinas. Uma agressiva empresária do ramo imobiliário que planeia drenar uma zona pantanosa, para levantar um condomínio residencial exclusivo, visita com os seus potenciais clientes o lugar das obras, com objetivo de fechar negócios. Aluga um iate de um experiente capitão do rio, e passeia com os seus convidados. Quando se apercebem que um desastre radioativo, causou uma mutação nas formigas, que em breve lapso de tempo, alcançam o tamanho de um ser humano e evoluíram tanto, que dominam telepaticamente a população do local mais próximo.
Bert I. Gordon adapta vagamente uma curta história de H.G. Wells. Gordon tinha uma ligeira obsessão para fazer filmes de ficção cientifica sobre insectos mutantes gigantes (veja-se "Beggining of the End" e "Earth vs. The Spider"). Produzido por Samuel Z. Arkoff  e pelos estúdios American International Pictures, e Joan Collins como estrela de serviço, nascia mais uma produção sobre insectos gigantes. 
Ficção científica de série B, muito pouco interessante, que se não foi o pior filme deste ano do Fantasporto, esteve lá perto.

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sábado, 3 de março de 2018

Arrebato (Arrebato) 1979

José Sirgado (Eusebio Poncela) é um realizador de filmes de terror, preste a terminar o seu último filme de vampiros. Quando chega a casa encontra duas coisas à sua espera: a sua ex-namorada Ana (Cecilia Roth) deitada inconsciente em cima da cama, e um pacote enviado por Pedro (Will More). Pedro é um jovem estranho, primo de uma ex-namorada (Marta Fernández Muro), obcecado com a sua câmara Super 8, gravando coisas aparentemente aleatórias, em intervalos cronometrados. Pedro enviou a José uma bobine de filme e uma cassete, e agora os três irão passar uma noite turbulenta. 
Nascido em 1943, Ivan Zulueta estabeleceu-se como um dos mais promissores jovens realizadores de Espanha, depois de um punhado de curtas metragens realizadas nas décadas de 60 e 70. "Arrebato" veio uma década depois da estreia do realizador, uma paródia aos musicais chamada "Un, dos, tres... al Escondite Inglés" (1970). Entre estas duas longas metragens, Zulueta viajou várias vezes a Marrocos, um local que o inspirou bastante e o levou a fazer uma série de curtas metragens. Viajava sempre acompanhado por uma câmara de Super 8, e foi nesta base que surgiu a idéia para "Arrebato". 
Depois de uma produção acidentada, e uma estreia muito modesta o filme acabaria por alcançar um estatuto de culto, que foi aumentando de ano para ano. Problemas de saúde afastaram o realizador de conseguir fazer outro filme, dedicando-se apenas a fazer cartazes para os filmes dos seu amigo Pedro Almodovar. Como o filme era muito falado, e poucas vezes visto, foi crescendo a sua fama de filme maldito, experiência cinematográfica única, e um nome incontornável na filmografia espanhola. 
Em boa hora o Fantasporto o exibiu, sendo um dos filmes mais falados neste primeiro ano. Ganharia três prémios nesta primeira edição: argumento, melhor actor (Eusebio Poncela), e o prémio da crítica.

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quinta-feira, 1 de março de 2018

No Céu Tudo é Perfeito (Eraserhead) 1977

"Produto notável de mais de cinco anos de filmagens intermitentes e de montagem pós-produção, "Eraserhead" foi a primeira longa-metragem de Lynch, depois de várias curtas prometedoras mas raramente vistas. Uma popular "fita de meia noite" e um filme de culto, este "sonho de coisas sombrias e perturbadoras", segundo a descrição do próprio Lynch, assegurou ao cineasta uma base de admiradores apaixonados e antecipou as extraordinárias imagens de "O Homem Elefante" (1980), "Dune" (1984) e "Coração Selvagem" (1990), bom como as bizarras narrativas distorcidas de "Twin Peaks", "Estrada Perdida" e "Mulholland Drive" (2001).
Com a sua intriga estranha, cenário de desolação pós-industrial e imagística a preto e branco, que parece extraída do subconsciente de um neurótico introvertido, "No Céu Tudo é Perfeito" atraiu comparações com as mises en scène expressionistas de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1919) a decadência urbana futurista de "Metrópolis" (1926) e a paisagem de sonho absurda / surrealista de "Un Chien Andalou" (1929) - e todas elas com alguma justificação, embora muitos comentadores comecem as suas discussões acerca desta obra, notando que a pergunta "Sobre o que é este filme?" é mal colocada, senão irrelevante, tratam tipicamente de argumentar que, mesmo com as suas idiossincracias, é um filme de narrativa com diálogo, um protagonista, e uma linha de história mais ou menos linear.
O último argumento não é fácil de provar pelo resumo de uma intriga convencional. "No Céu Tudo é Perfeito" abre com um homem de aspecto estranho (Jack Fish) puxando alavancas nas profundidades dum planeta, enquanto para fora da boca do nosso flutuante "herói", Henry Spencer (Jack Nance), surge uma criatura tipo verme, talvez a simbolizar concepção e nascimento. Ao chegar ao seu esquálido bloco de apartamentos, localizado no centro de uma erma paisagem urbana, um vizinho informa-o que a sua namorada Mary o quer para jantar em casa dos seus pais. Durante uma refeição, entre outros pratos, há uma galinha-miniatura que deita sangue e mexe as pernas para cima e para baixo quando ele lhe espeta um garfo. Henry fica a saber que é pai de um bebé permaturo ainda internado no hospital. Mary vai lá com Henry, mas vem-se embora pouco depois, quando o choro constante do bebé defeituoso e aparentemente quadriplégico a mantêm acordada toda a noite.
 O bebé, que parece um cruzamento de um réptil com um feto de vitelo, torna-se cada vez mais repulsivo e flagelado pela doença. Depois de fantasiar sobre uma mulher loura (Laurel Near), com bochechas de esquilo, que canta num palco e pisa vermes umbilicais dentro do seu radiador, e passando uma noite com a sua sedutora vizinha (Judith Anna Roberts), Henry imagina a sua própria cabeça a saltar - para ser substituída pela do filho - e de seguida levada para uma fábrica onde será convertida em borrachas para pontas de lápis. 
Nenhum simples resumo da intriga, por mais exacto que seja, pode lograr transmitir o tom deste filme único e desafiante. A sensação de mal-estar, até de horror, que resultam de o ver e que continuam a aumentar de intensidade a cada novo visionamento são simplesmente inesquecíveis." Texto de SjS

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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

The Night of the Werewolf (El Retorno del Hombre Lobo) 1981

O filme começa quando Daninsky, juntamente com a sua sinistra amante, a condessa  Bathory (Julia Saly), são executados, e enterrados com uma adaga no coração. Nos tempos modernos vemos dois ladrões de túmulos a desenterrarem o corpo de Daninsky, e a tirar-lhe a adaga de prata do peito. Com a adaga removida Daninsky volta a viver, e não perde tempo em fugir pela cidade. Enquanto isso, três jovens estudantes de uma universidade fazem uma peregrinação até ao castelo que Bathory chamou de casa. Pelo caminho, são atacada por um trio de ladrões e salvas por Daninsky. O que Daninsky não percebe é que há mais do que olhos bonitos por detrás destas jovens. Uma pode salvar a sua alma da maldição do lobisomem, e outra é uma bruxa que quer trazer a condessa de volta à vida. 
Esta era uma série bem antiga. Pela nova vez Paul Naschy interpreta o mítico lobisomem Walter Daninsky, pela primeira vez também como realizador, já que andava a tentar uma carreira atrás das câmaras. Depois do declínio do Euro-Horror em meados da década de 70, Naschy embarcou numa série de filmes obscuros, para explorar a sua falta de fé na humanidade, mas voltou ao terror no início da década de oitenta, graças ao seu amigo Masurao Takeda capaz de garantir quantidades consideráveis de financiamento japonês para as suas produções. Naschy trazia de volta a sua lendária personagem, depois de alguns anos de ausência, escrevendo ele próprio o argumento, tal como já tinha feito em outros filmes da série. 
 Visualmente o filme é um verdadeiro deleite. Naschy banha o filme com uma beleza de iluminação e efeitos especiais que realmente ajudam a criar uma atmosfera gótica, comparável ao melhor de Mario Bava ou Terence Fisher. Os efeitos do vampiro e do lobisomem são muito bons, e o filme apresenta uma longa sequência de transformação, antecipando a famosa cena de "An American Werewolf in London".
Esta versão que aqui apresento é dobrada em inglês, infelizmente, porque a única que consegui na língua original  perde a sincronia nos últimos minutos. Mas tem legendas em português.

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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

The Power of Darkness (El poder de las Tinieblas) 1979

Baseado no conto "Informe sobre Ciegos", de Ernesto Sábato, o filme mostra a trajetória de Fernando, um rapaz que é alertado por um amigo de infância de que o mal domina o mundo por meio de uma seita de cegos. Fernando não acredita na história até que o amigo morre em circunstâncias misteriosas. Ele começa então a investigar o mundo dos cegos, vivendo estranhas situações em que o limite entre realidade e fantasia vai se tornando indistinguível. 
O realizador argentino Mario Sábato adaptou esta história de um conto escrito pelo seu pai, Ernesto Sábato, e transformou-o nesta peça esférica sobre um mundo ainda inexplorado, com a característica de ter várias leituras. Sábato filmou em alguns lugares de surrealismo natural, túneis, lugares abandonados, ruínas, porões, tudo para entrar na mente de um homem, Fernando Olmos. 
A história também funciona como uma metáfora aplicada aos tempos da ditadura na Argentina, mas facilmente a universalidade deve ser estabelecida em qualquer cenário onde existam pessoas que se recusem a ver, acordar, entender que a ignorância é um bálsamo para aqueles que preferem ter os olhos fechados. Não há pior cedo do que aquele que não quer ver, é o lema do filme. 
Não ganhou qualquer prémio, mas foi um achado para esta primeira edição do Fantasporto.
Legendas em Inglês.

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Inseminóide - O Planeta do Medo (Inseminoid) 1981

Num futuro indeterminado, uma nave que transporta 12 cientistas chega a um distante planeta desolado, com a missão de investigar o que aconteceu com a sua antiga civilização. Depois de uma das integrantes do grupo ser atacada e violada por uma criatura extraterrestre, mortes brutais começam a acontecer.
Provavelmente, a melhor parte do filme, além dos efeitos especiais de alto nível, são as interpretações. Judy Geeson interpreta uma das personagens mais insanas já vistas num filme de ficção científica, desde os seus gritos, expressões faciais, tudo num tom bastante assustador. 
Filme britânico lançado em 1981, "Inseminoid", também conhecido por "Horror Planet", é o filho de Nick e Gloria Maley. Nick é o maquilhador de serviço de "Lifeforce", "Krull", "Star Wars Episode IV", "Star Wars Episode V", "Superman", e "Superman II". Na saga de "Star Wars" ele fez, por exemplo, a cena da Cantina, uma das mais reconhecíveis universalmente. E não esquecer o realizador Norman J. Warren, que tinha fala dos seus filmes serem inesperadamente violentos. Traz consigo uma sólida plataforma para os autores tecerem a sua teia de enganos e realidade. E foi assim que a equipa formada pelos Maley e por Norman J. Warren funcionou lindamente.
Estreado em Março de 1981 no Reino Unido, chegou ao Fantasporto no ano seguinte, mas ainda passou por outro festival de cinema fantástico, também a sar os primeiros passos. O Fantafestival, em Roma, onde ganhou o prémio de melhores efeitos especiais.

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Guerra dos Mundos: o Próximo Século (Wojna Swiatów - Nastepne Stulecie) 1981

28 de Dezembro de 1999. Três dias antes do início do novo século. Um repórter local, Iron Idem, anuncia que os marcianos aterraram. Pouco tempo depois o seu programa perde a independência: recebe instruções para dizer às pessoas como acolher os invasores. Então rebenta o caos: os marcianos e a polícia maltratam a população, e as coisas tornam-se violentas. A própria esposa de Idem é raptada, e parece que alguém está a tentar reduzir a sua eficácia como repórter. 
Dedicado a H.G. Wells e a Orson Welles esta sátira de ficção científica polaca, da era da solidariedade, não é bem uma sequela para a invasão que o título sugere, embora siga Welles em alguns pormenores, como os marcianos a beberem sangue humano. Uma possível leitura do filme, é que nem se tratam de extraterrestres mas sim uma conspiração de vampiros, que falsificam uma visita de marcianos para cumprirem os seus próprios propósitos.
Realizado por Piotr Szulkin, um realizador polaco autor de quatro parábolas políticas nos anos oitenta, todas disfarçadas de filmes de ficção cientifica, leva a que se questione como era o mundo em que se vivia naquele tempo, pois Szulkin oferece-nos um assalto bem violento às realidades da vida comunista. A Polónia era na altura um dos estados mais repressivos da Europa do Leste, o que torna tudo ainda mais estranho, e o filme é um ataque brutal à televisão, ao governo, e aos meios utilizados para coagir o público. 
Passou pela primeira edição do Fantasporto, e ganhou o prémio de Melhor Realizador, ganho ex-aqueo com David Gladwell de "Memoirs of a Survivor".

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

The Fortress (Az Eröd) 1979

 Uma empresa do estado ficcional anuncia um programa bizarro: os turistas que procuram emoção, e podem pagá-la, têm 48 horas com armas reais, para cercar um castelo principalmente construído para mercenários defensivos. O objectivo é que os mercenários caem e os turistas possam ficar contentes por tomarem o castelo. Masas coisas não vão correr conforme planeado...
 Um jogo de Guerra ao estilo de paintball bastante realista, que coloca frente a frente um grupo de clientes ricos contra mercenários altamente qualificados, e que começa a correr mal quando a guerra simulada começa a ficar muito real. Uma espécie de "reality TV", onde amadores lutam contra profissionais e as regras nunca são muito claras. Desde o ínicio ficamos com a sensação de que os criadores do jogo estão a esconder alguma coisa dos jogadores pagantes, e é possível que o governo esteja metido nisto.
Da Hungria chegava-nos este pequeno filme, uma espécie de batalha futurista realizado por Miklós Szinetár, um realizador de Budapeste, mais virado para a televisão, numa das suas poucas aventuras pelo cinema. Baseado num livro de Gyula Hernádi, um conhecido escritor húngaro que colaborou em alguns filmes de Miklós Jancsó, entre os quais "Vermelhos e Brancos". 
Por esta altura era dificil ao cinema húngaro saír do seu pais, mas "Az Eröd" ficou primeiro conhecido por ser exíbido no Festival de Moscovo de 1979, que, nesta altura, era uma montra importante para o cinema feito na Europa do Leste.
Legendas em inglês. O filme nunca teve lançamento em DVD, esta versão é gravada da televisão. 

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

El Caminante (El Caminante) 1979

Na Idade Média, o diabo assume a forma humana, atende pelo nome de Leonardo, e viaja em volta da Terra para ver como os seres humanos evoluíram. Ao fazer isto, ele mente, rouba, seduz, mata e torna-se rico no processo. Pelas suas viagens, ele adopta um jovem, Tomás, e faz dele seu servo, ensinando-lhe os maus caminhos. 
Os críticos que não se tinham entusiasmado muito com os filmes de terror do actor e argumentista Paul Naschy, desde este "El Caminante" reavaliaram a sua carreira, principalmente os seus trabalhos mais significativos. O próprio Naschy considerou este o seu filme mais significativo: uma fantasia medieval satírica e descarada, muito na veia de Luis Buñuel ou Pier Paolo Pasolini. Ambicioso e acompanhado pelo excepcional director de fotografia Alejandro Ulloa, que já tinha filmado "The Diabolical Dr. Z" (1965) para Jess Franco, "Perversion Story" (1969), para Lucio Fulci, ou "Companeros" (1970) de Sérgio Corbucci, e uma série de clássicos da exploitation, o filme tem um ambiente apocalíptico muito mais inquietante do que qualquer outro filme de terror de Naschy, e na sua essência nem sequer é um filme de terror, funcionando muito mais como uma comédia.
Naschy também tem o papel de protagonista, que lhe assenta como uma luva, um arrogante fanfarrão com uma cintilação diabólica e maliciosa nos seus olhos. Neste contexto, finalmente faz sentido todas as mulheres caírem a seus pés. Observando o seu Satanás crucificado a olhar para o céu e amaldiçoando Deus pela sua parte de culpa em dar vida a todos nós "porcos", é talvez a cena mais pungente e poderosa que o actor já fez.
Naschy participou com dois filmes nesta primeira edição do Fantasporto. O segundo veremos mais para a frente.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Fantasporto 1982

Em 2018 vamos prestar uma série de homenagens ao Fantasporto, e provavelmente também a outros festivais, mas, numa série de ciclos, iremos aqui recordar várias edições deste festival, cada ciclo respeitante a um ano, com os filmes dessa edição a passarem aqui no blog. Ao fim de 37 anos este festival continua a ser um dos festivais de cinema fantástico mais importantes da Europa.
O Fantasporto - Festival Internacional de Cinema do Porto teve início em 1981, com uma edição experimental, mas foi em 1982 teve uma edição mais séria, com uma secção competitiva. Neste primeiro ano fizeram parte da selecção oficial 19 filmes, originários de países como Checoslováquia, Jugoslávia, Espanha, França, RFA, Estados Unidos, Polónia, entre outros. Destes 19 filmes, 14 irão passar neste ciclo do My Two Thousand Movies, ficando de fora apenas 5 por serem muito raros e serem impossíveis de se encontrar na internet. Mais para a frente, em 2018, irão ser recordadas outras edições do festival, em cada ciclo respectivo. Por agora, preparem-se para a primeira edição do Fantasporto Online. Até já.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Arco (Hwal) 2005

Nos anos 60, num barco de pesca em alto-mar, um homem cria uma jovem desde quando era bébé. O combinado é que se casariam quando ela completasse 17 anos e falta um ano para que tal aconteça. Eles vivem de uma forma simples, rezando e alugando o barco para pescadores, mas as coisas mudam quando um jovem tripulante entra nas suas vidas.
"Kim Ki-duk e os seus filmes estranhos e poéticos. “O Arco” é ousado, corajoso, desconcertante, incómodo, bizarro e quem o assiste sente esse peso nas próprias costas, não pelas cenas fortes, mas pelo tema que é tratado, ainda mais na atualidade que casos do tipo ocorrem com frequência. O grande mérito do filme é a capacidade extrema de provocar essas sensações. Só não é considerado o teor muito controverso porque o Kim sabe fazer filme com muita beleza e sensibilidade, um exercício musical e de poesia, um “cinema-arte” tocante. A banda sonora, como já foi destacada pelos críticos, tem uma fusão despadronizada e arrepiante com as cenas, elevando ainda mais os sentimentos.
O desenrolar da história é de um total anticlímax, desejamos profundamente uma reconciliação heróica por parte do senhor homem, todavia, percebemos a pura realidade de um filme fora dos arquétipos, que possivelmente isso não aconteça, que possivelmente não nos agrade em termos de ideologia, mas nunca em termos cinematográficos, porque tudo é feito com muita dignidade."

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domingo, 11 de fevereiro de 2018

Nocturna - A Noite Mágica (Nocturna) 2007

Tim, um menino que vive num orfanato, enche-se de coragem para enfrentar a sua assustadora sombra que lhe mete tanto medo. Para o conseguir, vai viver uma fantástica aventura em Nocturna, um mundo paralelo que surge cada noite ao adormecermos. Aqui irá conhecer todas as criaturas da noite e com elas fará uma fabulosa viagem para tentar salvar a sua estrela mais querida: Adhara.
A beleza desta aventura animada reside na caracterização da infância. É representada como um momento em que as crianças brilhantes e sensíveis se encontram capazes de reconhecer problemas e perigos que os adultos não possam ver até que seja tarde demais. "Nocturna" é uma descrição lírica de uma batalha de uma criança contra os pressupostos dos adultos, que por vezes são perigosamente incorrectos.
Realizado a quatro mãos pelos espanhóis Adrià Garcia e Victor Maldonado, é o único trabalho desta dupla de realizadores até hoje.  Por cá foi visto unicamente numa das primeiras edições do Motelx, e no Brasil nunca foi visto, mas é uma obra de animação a descobrir por toda a família.

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Pântano (La Cienaga) 2001

No mês de fevereiro, no pantanal do Noroeste argentino, o calor se junta às chuvas tropicais. Hà alguns kilometros da cidade La Ciénaga está a Mandragora, uma propriedade rural onde Mecha, com 50 anos, passa as férias de verão com os seus quatro filhos e um marido inexistente. Esquece a sua tristeza no vinho. Tali é a prima de Mecha. Também tem quatro filhos. Dois acidentes vão reunir essas duas familias.
"Na sequência de abertura de La ciénaga (Le marécage)(2001), o intenso tilintar do gelo nas taças é algo que fica tão impregnado na nossa memória quanto o vermelho excessivamente saturado que colore a bebida servida aos personagens. Também são extremamente pregnantes os ruídos que acompanham os planos-detalhes ou fechados desses instantes iniciais do filme – como se, na mixagem final, o volume desses elementos tivesse recebido um ganho sonoro muito maior que os outros sons que os circundam em cena. Escutamos claramente o arrastar do ferro das cadeiras de praia pelo chão de cimento, o ranger de suas molas ao sabor dos corpos que se esticam em letargia, as trovoadas anunciando a intensa chuva de verão vindoura – todos eles não apenas estão bastante presentes, como também colaboram na desconfortável sensação de imprecisão perceptiva que se apossa do espectador, graças a um encadeamento de planos que não nos permite mensurar adequadamente distâncias e localizações no espaço cênico que lhe é apresentado.
Mais adiante, um grupo de garotos corre pelas ruas agitadas da cidadezinha, tentando alcançar as jovens que, incansáveis, tentam fugir das bexigas cheias d’água que seus perseguidores insistentemente lançam em sua direção. Subitamente, elas entram numa loja de roupas, e uma delas fecha atrás de si uma grande porta de vidro. Num big close, vemos os lábios de uma adolescente murmurarem algo, enquanto a bexiga estoura contra o vidro que a protege. A água escorre pela superfície com uma suavidade que contrasta com a intensidade com que o ruído ecoa pela sala de exibição, mais próximo das entrelinhas que pontuam o jogo erótico travado entre meninos e meninas recém-ingressados à puberdade. Todavia, essa sobrevalorização dos elementos sonoros acaba sendo essencial para a experiência sensorial proposta ao espectador pelo filme de Lucrecia Martel, criando pontos de escuta privilegiados que permitem traduzir, de certa forma, a sensação dos corpos filmados a vagar por um ambiente em que o calor e umidade insuportáveis regem tanto o torpor dos adultos quanto a ebulição dos mais jovens.
Acredito que os três longas-metragens que compõem a filmografia da argentina Lucrecia Martel partilham de um certo “realismo sensório” (Vieira Jr., 2011) que emerge numa certa vertente do cinema contemporâneo. Tal realismo seria marcado pela construção narrativa através de ambiências, pela adoção de um olhar microscópico sobre o espaço-tempo cotidiano e por uma experiência afetiva marcada pela sobrevalorização de uma sensorialidade multilinear e dispersiva. Trata-se de uma espécie de denominador comum entre filmes realizados nas últimas duas décadas por cineastas tão diversos quanto Lucrecia Martel, Hou Hsiao Hsien, Apichatpong Weerasethakul, Claire Denis e Naomi Kawase, entre outros."
Texto de Erly Vieira Jr.

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Blind Mountain (Mang Shan) 2007

A jovem estudante Bai Xuemei é enganada e vendida como esposa por traficantes de seres humanos para uma aldeia isolada. Violada e espancada, ela leva a vida de uma escrava sexual e fica sem esperanças de conseguir fugir, por causa da apatia e egoísmo dos moradores locais. Quando finalmente fugir é apenas o começo de uma outra tragédia.
Alguns periodos sobre a epidemia do tráfico de seres humanos concentraram-se no papel do crime organizado, que seguiam mulheres desesperadas da Europa do Leste que se deixavam levar pela promessa de trabalho de um proxeneta e acabavam por ser escravizadas na prostituição. Mas os mitos da história também estão repletos de incidentes por raptos de mulheres para esposas, e "Blind Moutain" demonstra que este péssimo costume não desapareceu na antiguidade.
O chinês Li Yang, no seu segundo filme, é particularmente eficiente a demonstrar o quanto é tão difícil, mesmo para uma mulher espirituosa e educada escapar, seja por resistência activa ou passiva, protestos contra o chefe da aldeia ou a sua família em casa, ou suborno sexual. Fugir desta bela paisagem montanhosa é quase impossível. Embora Bai tenha momentos dispersos de gentileza, com meninos e professores da escola, os horríveis momentos de castigação aumentam de dia para dia. 
Li Yang fez uma extensa pesquisa, e o casting de uma série de actores não profissionais, incluindo algumas vitimas verdadeira de violações e os seus salvadores. Enquanto o seu primeiro filme "Blind Shaft" era sobre a ganância na industria da mineração e foi feito de forma completamente anónima sem permissão do governo, "Blind Mountain" tem uma longa lista de colaborações entre autoridades governamentais, e o dedo apontado apenas para os habitantes locais e os legisladores. 

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