sexta-feira, 10 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "A Máscara da Morte Vermelha", de Roger Corman

O “Jornal do Fundão“, os “Encontros Cinematográficos”, o “Lucky Star – Cineclube de Braga“, o “My Two Thousand Movies” e “A Comuna” associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blogue “My Two Thousand Movies”.

Sinopse: Talvez a obra-prima de Corman, esta adaptação de Poe, que o realizador filmou em Inglaterra. A história do príncipe Próspero, tirano e sádico, mas também um intelectual e um filósofo, que se refugia no seu castelo, fechado ao exterior para evitar a entrada da “morte vermelha”, numa região dominada pela peste.

O décimo convidado é a crítica de cinema Inês Lourenço, que escolheu A Máscara da Morte Vermelha de Roger Corman, escrevendo assim sobre esta obra entusiasmante do grande artesão:
“De todas as adaptações de Edgar Allan Poe que Roger Corman levou ao grande ecrã, The Masque of the Red Death (1964) é a mais inebriante. Uma autêntica vertigem de cores que coloca a morte no centro do baile da vida, como metáfora pintada para uns olhos de criança. E, ainda assim, não há nada de infantil no substrato deste filme que conta a história do malvado príncipe Próspero, encerrado no seu faustoso castelo medieval enquanto a população fora das muralhas morre de uma praga chamada “Morte Vermelha”. Esse espaço interior, onde quase tudo se passa, serve de refúgio para os nobres, mas estes são submetidos a jogos perversos orquestrados pelo próprio príncipe, Vincent Price, claro, figura soberba de todas as adaptações cormanianas de Poe, que molda a atmosfera com os olhos bem abertos e aquela expressão de realeza de que estas produções de baixo orçamento souberam tirar partido.
O que mais me fascina neste filme de esplendor artesanal, sem medo do excesso, é precisamente o modo como amplifica o prazer da visão sem adormecer sobre o valor da metáfora do conto – aqui, a evocação de O Sétimo Selo é inevitável, e, de facto, podemos olhar para The Masque of the Red Death como um ensaio Technicolor que coça a ferida da meditação de Bergman. 
Não deixa de ser curioso, no meio deste discurso sobre a cor, que o seu director de fotografia, um jovem Nicolas Roeg, tenha depois, em 1973, assinado a brilhante adaptação de um conto de Daphne du Maurier – Don’t Look Now – cujo trauma da morte está representado no casaco vermelho de uma criança… »

Amanhã, a escolha de José Oliveira.

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quinta-feira, 9 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera:"Le Horla" de Jean-Daniel Pollet

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O nono convidado é o crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, que escolheu Le Horla de Jean-Daniel Pollet e nos disse para “ver em quarentena o máximo filme de quarentenas.” 

Sinopse: LE HORLA transpõe livremente uma novela fantástica de Maupassant (primeiro publicada como “Lettre d'un Fou” e depois “Le Horla”, em 1885/86), em que um jovem, belo e vulnerável homem, única personagem do filme, é visitado pela loucura numa solitária casa à beira mar.Sinopse: LE HORLA transpõe livremente uma novela fantástica de Maupassant (primeiro publicada como “Lettre d'un Fou” e depois “Le Horla”, em 1885/86), em que um jovem, belo e vulnerável homem, única personagem do filme, é visitado pela loucura numa solitária casa à beira mar. 

Entrevistado em 1968, o realizador explicou que “em Le Horla há três percepções diferentes do tempo. Em primeiro lugar há o tempo da história de Maupassant, depois o tempo da pessoa que conta a história. Tudo isso é situado no passado leitor de cassetes que está no fundo do barco, e que forma o terceiro tempo. Graças aos planos que se seguem uns aos outros, os três tempos dissolvem-se para se transformarem apenas num, o do filme. Também pedi ajuda a um pintor que tem andado a trabalhar há dez anos na relação entre a psicopatologia e as cores. Em Le Horla cada cor corresponde a um aspecto da doença do personagem numa correlação muito precisa.” 

* Legendado em inglês.

Amanhã, a escolha de Inês Lourenço. 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Passeio ao Campo", de Jean Renoir

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O oitavo convidado é a crítica de cinema Maria João Madeira, que escolheu Passeio ao Campo de Jean Renoir porque “tem de ser.”

Sinopse: UNE PARTIE DE CAMPAGNE, cuja rodagem foi interrompida no verão de 1936 e cuja montagem foi concluída dez anos mais tarde a partir do material então filmado (a sua génese alimenta uma das lendas da história do cinema), é uma das obras-primas de Renoir, no seu período mais fértil. Adaptando um conto de Maupassant, Renoir assina o mais impressionista dos seus filmes em acordo com o universo pictórico do seu pai Pierre Auguste, mas UNE PARTIE DE CAMPAGNE é um filme do movimento. O dos elementos na imagem (a água do rio, o vento nas árvores) e o da fluidez da câmara.

No monumental Dictionnaire du Cinéma de Jacques Lourcelles, diz-se que “quis o destino que este filme, por razões financeiras, psicológicas (desentendimento da equipa) e técnicas (mau tempo persistente), ficasse incompleto e fosse apresentado ao público dez anos depois da sua realização, numa versão de quarenta minutos. Mas na verdade, e sobre todos os planos por que o queiramos julgar, este Passeio ao Campo continua uma obra acabada e completa. É mesmo um concentrado límpido e perfeitamente florescente das temáticas e do estilo de Renoir. Deslumbramento quase sagrado perante a beleza da natureza (e capacidade da câmara em captar esse deslumbramento e essa beleza ao mesmo tempo). Caricatura e ternura na apreensão das personagens (sendo a caricatura geralmente mais reservada aos homens e a ternura às mulheres). Espontaneidade avassaladora, justeza quase milagrosa da interpretação e das entoações. Crueldade na pintura social, subjacente mas muito clara, em que se abre a tendência anarquista permanente do autor ; as famílias normais e a sociedade estão condenadas a trazer a miséria, a resignação e a insatisfação ; a felicidade, essa, só pode ser clandestina, momentânea e como que roubada à sociedade. Perfeitamente fiel a si mesmo, plasticamente, Renoir também é fiel ao seu pai e ao impressionismo e dramática, emocional e moralmente a Maupassant. O fascínio pela água, elemento cuja perenidade impera sobre toda a vida humana, cujo percurso sinuoso nega qualquer ideia de domesticação, é tão importante para o cineasta como para o escritor. O que aqui domina é uma melancolia irrepreensível perante a perfeição da natureza e que contrasta com a perfeição do homem enquanto animal social. Na sua brevidade, Passeio ao Campo dá a impressão de conter apenas o essencial do que era realmente importante para Renoir. Está também entre o que o autor – e o cinema francês – produziram de mais perfeito.” 

Amanhã, a escolha de Luís Miguel Oliveira.

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terça-feira, 7 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "The Man i Love", de Raoul Walsh

O “Jornal do Fundão“, os “Encontros Cinematográficos”, o “Lucky Star – Cineclube de Braga“, o “My Two Thousand Movies” e “A Comuna” associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blogue “My Two Thousand Movies”. O sétimo convidado é a actriz e realizadora Marta Mateus, que escolheu The Man I Love de Raoul Walsh.

Sinopse: The Man I Love é uma obra “diferente”, um soberbo melodrama à volta do destino de várias mulheres e das suas manifestações de independência, antecipando os retratos femininos que Walsh desenhará na década seguinte. Uma das obras maiores e mais “esquecidas” de Walsh e um dos filmes favoritos de Martin Scorsese, que expressamente o citou em New York, New York. Seguindo-se a Artists and Models, They Drive by Night e High Sierra, foi o quarto filme de Raoul Walsh com Ida Lupino, numa das suas grandes criações….

No seu livro sobre o realizador, Michel Marmin escreve que “The Man I Love, um dos mais belos monumentos de ternura e compaixão existentes, não requer nenhuma recomendação. Convido-os a deixarem-se guiar pelas tramas intrincadas de destinos plebeus cujas alegrias e tristezas geram o mais nobre encantamento, a deixarem-se fascinar por uma mise en scène exacta e feliz, eminentemente apta a captar a vida sem a abismar nem a sufocar, nas suas palpitações mais ténues e íntimas. The Man I Love, filme raro e pouco reconhecido, é no entanto uma manifestação exemplar de um cinema lúcido e forte.”
Justificando a sua escolha, Marta Mateus situa-nos “a grande Ida Lupino, actriz, realizadora e produtora na vanguarda da luta pela igualdade dos direitos das mulheres em Hollywood, frente à câmara de Raoul Walsh. O tema de George Gershwin (inesquecível na voz de Billie Holiday) empresta-lhe o título. O mais belo e exemplar filme onde o cinema vai ao encontro da música para a integrar na narrativa e no enredo, unindo duas das grandes artes que aqui respiram o mesmo tempo, ritmo e melodia. A memória de que a vida é também um clássico de desencontros em busca desta unidade.”

Amanhã, a escolha de Maria João Madeira

* Legendas em espanhol

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segunda-feira, 6 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “As Forças do Universo”, de Tobe Hooper

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O sexto convidado é João Palhares, que escolheu As Forças do Universo de Tobe Hooper.


Sinopse: Tobe Hooper entrou para a História do cinema com o fenómeno intitulado THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE / MASSACRE NO TEXAS, que causou escândalo e teve problemas com a censura em muitos países. LIFEFORCE, tem um argumento absolutamente delirante: vampiros vindos do espaço sideral conseguem chegar a Londres. Um inspector da Scotland Yard e um cosmonauta lançam-se no encalço dos monstros. Mas toda a população de Londres é transformada em vampiros e a NATO decide aniquilar a cidade. Os efeitos especiais são excelentes e muitos diálogos (in)voluntariamente divertidos.

Justificando a sua escolha, João Palhares escreve-nos que “em 1984, a Cannon Films de Menahem Golan e Yoram Globus (que já tinha produzido uma selecção bem ecléctica e fascinante de filmes, de That Championship Season de Jason Miller a Ninja III: The Domination de Sam Firstenberg, passando por Love Streams de John Cassavetes) deu carta-branca a Tobe Hooper e passou-lhe 25 milhões de dólares para a mão. Hooper era (e ainda é) mais conhecido pelos sucessos de Massacre no Texas e Poltergeist, que foi produzido por Steven Spielberg. Spielberg estava impedido contratualmente pela Universal de realizar qualquer outro filme enquanto E.T. - O Extra-Terrestre estivesse em preparação, e a partir do momento em que disse à imprensa, durante o Verão em que estrearam os dois filmes (E.T. e Poltergeist), que “o Tobe... não é tipo de sujeito para assumir controlo” caiu o Carmo e a Trindade. De repente Hooper era um testa-de-ferro, era declarado o “Verão de Steven Spielberg”, o Sindicato dos Realizadores abriu uma investigação e decidiu a favor de Hooper, mas a dúvida permaneceu. Portanto quando chegou a Cannon com a sua oferta, Hooper não se fez rogado e embarcou na aventura.
“Filme de ficção científica, de terror, um policial, uma fantasia, um filme-catástrofe, uma história de amor com vampiros espaciais, forças vitais como resposta para a vida depois da morte e do fim do mundo, mulheres presas em corpos de homens e homens presos aos encantos sobrenaturais das mulheres, As Forças do Universo é absolutamente inclassificável. Ao longo das suas duas horas somos levados de revelação em revelação, enquanto um astronauta, um cientista e dois detectives da polícia vão atando ou tecendo a trama, assistindo a cadáveres a desintegrar-se numa questão de segundos, descargas e transfusões de energia com beijos, sangue a expelir-se sozinho de um corpo para formar outro corpo. As ramificações desta bizarria descontrolada e apaixonada de Tobe Hooper são quase infindáveis. Impulsos irresistíveis, a pureza como uma força de destruição maciça, a vida como estância de um trajecto muito maior e que atravessa o coração do cosmos, sexo, amor, morte, ciência e superstição, embalados pela música épica de Henry Mancini e condensados pelo complexo e enigmático “use my body” proferido pela mulher do espaço. 
“Depois disto tudo, uma multidão de londrinos cadavéricos abraçam-se e beijam-se uns aos outros nas ruas de uma cidade em quarentena, em busca dessa força vital de cor azul clara que fulgura em planos prodigiosos pela noite ou de um bocado de afecto e calor humano em tempos de pestes e isolamentos forçados. Como lidar com uma ameaça e com um flagelo que não se resolve (e só ganha mais força) com um abraço ou um toque nas mãos? O filme em que Tobe Hooper teve rédea livre para exorcizar e libertar os seus demónios, e que foi um insucesso considerável em meados dos anos 80, no século XXI e no ano da graça de 2020 torna-se profético. Para completar a profecia, também começa tudo com morcegos, estes gigantes, importunados nos seus altares selados de cristal nos confins do universo pela curiosidade humana, sempre tão propensa a abrir caixas de Pandora para tentar vislumbrar o fundo do abismo, empoleirada sobre as bordas que nos sustentam a todos.” 

Amanhã, a escolha de Marta Mateus.

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domingo, 5 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Cassandra Crossing”, de George Pan Cosmatos

O “Jornal do Fundão“, os “Encontros Cinematográficos”, o “Lucky Star – Cineclube de Braga“, o “My Two Thousand Movies” e “A Comuna” associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blogue “My Two Thousand Movies”.
O quinto convidado é o jornalista Rui Pelejão: “Porque é um filme terrível. Lembra-me um pouco a história de um amigo meu que tem pânico em andar de avião, tal como o personagem interpretado por Richard Harris neste filme. A terapia ocupacional deste meu amigo é ver sites de desastres aéreos com as comunicações dos últimos minutos das caixas negras dos aviões. Este filme de 1976 é terrível por isso, porque nesta época de pandemia, nos confronta com os nossos medos de uma forma crua.
Datado no tipo de produção, com um impressionante elenco de estrelas (Sophia Loren, Richard Harris, Ava Gardner, Martin Sheen, Burt Lancaster, Alida Valli, Lee Strasberg e até OJ Simpson) co-produção italiana e um realizador pouco virtuoso George P. Cosmatos (também realizou Rambo II e o filme Cobra, ambos com Sylvester Stallone), Cassandra Crossing é um filme sobre o medo e a forma como lidamos com ele, pessoal e politicamente. 
Nada como um bom filme catástrofe para um domingo à noite, para expiarmos os nossos demónios e ver como neste momento a Humanidade está confinada no mesmo comboio em direção a uma Cassandra Crossing, seja ela qual for.”

Sinopse: Na sequência de um assalto à sede da Organização Mundial de Saúde em Genebra, um terrorista penetra num laboratório onde se executam perigosas experiências bacteriológicas. Contaminado por um poderoso e devastador vírus, o terrorista refugia-se a bordo de um comboio que parte em direção a Estocolmo. Assim que a sua localização é descoberta, e face ao potencial perigo de contaminação que ele representa, o comboio é desviado para a Polónia, onde deverá permanecer com todos os seus passageiros de quarentena num antigo campo de concentração. Mas a viagem vai ser particularmente acidentada, sobretudo com a incrível passagem de uma ponte perigosa. 
Cassandra Crossing”, com co-produção europeia, é um espetacular e emocionante thriller de aventuras em atmosfera de filme-catástrofe sobre a acidentada viagem de um comboio transcontinental que leva a bordo um terrorista contaminado com um perigoso e devastador vírus. George Pan Cosmatos, gerindo os importantes meios postos à sua disposição por Lew Grade e Carlo Ponti, constrói um filme trepidante, pleno de suspense, que se desenrola quase inteiramente a bordo de um comboio e que assenta acima de tudo num elenco de grandes vedetas, entre elas Sophia Loren, Burt Lancaster, Ava Gardner e Richard Harris.

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sábado, 4 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Sete Mulheres”, de John Ford

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O quarto convidado é o crítico espanhol Miguel Marías, que quando foi desafiado para a escolha nos respondeu que “Confinados num sítio, acossados pela ameaça externa, com conflitos internos, com epidemia e com uma médica heróica, além de muito valente e bonita (Anne Bancroft), o primeiro que me ocorre é “7 Women” (1965/6), uma das maiores e menos conhecidas obras-primas de John Ford.”

Sinopse: O último filme de John Ford é também uma das suas obras mais importantes, onde se impõe com inesperado vigor aquilo que esteve sempre mais ou menos presente na sua obra: uma atmosfera sensual, marcada pelo estigma do recalcamento sexual, e que acaba por se manifestar face à intrusão de um elemento estranho. A uma missão religiosa, formada por mulheres, na China sujeita aos horrores da guerra civil, chega um novo membro, uma médica cuja maneira de ser vai provocar uma crise (o jantar à mesa onde fuma por provocação), ao mesmo tempo que um "senhor da guerra" invade a missão.

Num texto anterior sobre o filme, Marías fala do “digno final da longa e gloriosa carreira de Ford, 7 Women é um desafio e um desmentido. Considerado de forma tão abusiva como um «realizador de homens» – esquecendo-se, não se percebe como, de Maureen O’Hara, Ava Gardner, Jane Darwell, Vera Miles, Joanne Dru, etc. –, como Cukor um «realizador de mulheres», Ford fecha-se num estúdio com nove (não sete) actrizes e quase prescinde dos homens para rodar, aos setenta e um anos, o seu filme mais combativo. E também o mais próximo da abstracção, o mais despojado, o menos sentimental. Não devia estar para brincadeiras e parece como se sentisse que lhe restava pouco tempo e menos metros de película: desta vez quase não há humor, nem canções, a paisagem desapareceu e a narração avança em todos os momentos, a um passo tão suave como vertiginoso, para o nó dramático de cada cena. Portanto não há pausas nem digressões, e os meandros cedem o seu lugar a sinuosidades rítmicas puras que nunca impedem que Ford e os seus actores vão sempre directos ao assunto. Sem contemplações nem concessões ao naturalismo, à beleza ou ao melodrama, a que o argumento tão facilmente se prestava, ambientado numa China imaginária de 1935: não há álibis nem possibilidades de procurar «chaves de leitura». 
“O protagonista, naturalmente, é uma mulher. Mais decidida que qualquer um dos seus irmãos – que John Wayne costumava interpretar –, a doutora Cartwright, tal como a encarna Anne Bancroft, é a personagem mais admirável de Ford e que o realizador mais gosta e respeita de todas as que criou. Para John Wayne sempre olhou mais com sardonismo, consciente do seu mau jeito de tímido grandalhão; para Anne Bancroft não: surpreendentemente, identifica-se plenamente com as suas posturas irreverentes e desencantadas, com a sua valentia suicida, com a sua atitude de desafio permanentemente. Por isso lhe dedicou as suas últimas e mais belas imagens, as mais intensamente líricas da sua imensa obra, que celebram a vitória final sem dar importância ao preço, com uma harmonia e uma fluidez que fazem pensar forçosamente nos cúmulos constantes de Mizoguchi. Ford provou a si próprio, e aos outros de passagem, que ainda era capaz de se aventurar por terrenos em desuso e guiar com pulso firme e seguro, sem uma vacilação, uma história despida de retórica e sensacionalismos, totalmente alheia às modas do momento e, ainda por cima, interpretada predominantemente por mulheres. Ao pôr um ponto final na sua obra estava a abrir novos caminhos, revelando aspectos até então ocultos ou velados da sua própria personalidade e projectando uma nova luz esclarecedora sobre os seus filmes anteriores. Depois de 7 Women não era preciso acrescentar mais.” 

Amanhã, a escolha de Rui Pelejão.

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sexta-feira, 3 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Stars in My Crown", de Jacques Tourneur

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My One Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O terceiro convidado é o realizador Pedro Costa, que disse simplesmente, “Stars in My Crown, como é óbvio.”


Sinopse: "Stars in My Crown" é, talvez, o mais perfeito e belo exemplo daquilo a que se chama a "americana" (evocação nostálgica do passado dos EUA) no cinema. É também o mais pessoal dos filmes do realizador, Jacques Tourneur, que para o dirigir aceitou um salário simbólico. Praticamente sem história, "Stars in My Crown" é uma colecção de vinhetas da vida numa pequena cidade no interior dos EUA, que retratam sentimentos e emoções, e tem como ponto de partida a vida de uma criança com o seu pai, pregador, na vila que os adoptou, onde o tranquilo deslizar do tempo é por vezes quebrado pelo drama (e o discurso de Joel McCrea na tentativa falhada de linchamento pelo Klu Klux Klan é um dos mais extraordinários momentos políticos de todo o cinema americano).

Stars in My Crown é do realizador francês Jacques Tourneur, que trabalhou sobretudo na América e contou em 1964 que “nessa altura (1949) estava livre, e não tinha contrato com qualquer firma. Tinha ganho bastante dinheiro com os filmes Berlin Express (1948) e Easy Living (1949). Tinha um grande amigo na MGM, William Wright, que preparava um filmezinho. Pedi-lhe para ler o argumento e ele emprestou-mo. Entusiasmei-me logo. Telefonei a Wright e disse-lhe que queria, custasse o que custasse, filmar esse argumento. Respondeu-me: 'Mas Jacques, é um filme sem importância, com um orçamento reduzidíssimo, que tem que ser feito em doze dias, e a nossa ideia é contratar um realizador pago à semana' Continuei a insistir e ele disse-me 'Jacques, percebe-me, não te podemos pagar'. Respondi-lhe: 'Ouve, não há problemas, faço o filme de graça'. Esta resposta estarreceu-o e, no dia seguinte, mandou-me dizer que me pagaria o que estavam dispostos a pagar ao realizador contratado à semana. O que, de resto, acabou por se virar contra mim, porque, quando acabei o filme, e me propuseram outros, todos os estúdios iam logo perguntar à MGM quanto é que me tinham pago e foi assim que o meu ordenado foi reduzido em dois terços. Foi o preço que paguei pela minha vontade de rodar este filme. O autor do romance, Joe David Brown, escreveu-me uma carta que guardei, em que me dizia que tinha ficado comovidíssimo ao ver o filme, que o achava bem melhor que o romance. E ainda hoje quando o encontro, Joel McCrea diz-me sempre 'Jacques, a maior alegria de toda a minha carreira foi ter trabalhado em Stars in My Crown'.” 
Em conversa com o crítico Chris Fujiwara, precisamente sobre Tourneur, em 2010, Pedro Costa confessou que “eu tenho um carinho pelo Stars in My Crown porque foi mesmo o primeiro que vi de forma consciente, e foi num grande ecrã, e é uma coisa rural, de mundo pequeno, tenho um carinho por coisas dessas. Provavelmente tem algo que ver com o realismo ou assim; realismo não, mas qualquer coisa ali que-- Bom, é a América, uma vila pequena; os outros filmes todos do Tourneur, não estão ancorados em lado nenhum, mesmo, ou é sempre uma espécie de-- podia ser um sítio imaginário, as ilhas, as ruínas, acho que todos eles. Não sei (...) Mesmo Londres [em Night of the Demon]. É demasiado poético, demasiado vago, não, vago não, demasiado brumoso. O Stars in My Crown provavelmente é uma coisa sentimental, e uma coisa visual; talvez se tivesse importado mais um bocadinho com o detalhe, ou tenha tido mais tempo. Consegue-se sentir isso. A sequência com o feno e os rapazes, por exemplo, acho que não se consegue pensar naquilo em casa. Talvez, mas… não sei como é que ele trabalhava, se tinham um storyboard, ou… (…) Não sei, ele provavelmente teve dois ou três dias para fazer aquilo; pôde tentar umas coisas, pôr os rapazes a mexer-se um bocadinho… Mesmo a coisa da câmara, é difícil, tecnicamente é pouco comum, há tipo sete ou oito planos… Não parece uma coisa pré-concebida de storyboard.” 

Amanhã, a escolha de Miguel Marías.

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quinta-feira, 2 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Viagem Fantástica” de Richard Fleischer

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My One Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O segundo convidado é o programador e realizador Mário Fernandes, que escolheu Viagem Fantástica de Richard Fleischer e comentou, “que delírio faltar o oxigénio na travessia pulmonar!”

Sinopse: Durante os anos da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética também se enfrentaram no campo científico. Jan Benes (Jean Del Val), um importante pesquisador, descobre uma fórmula científica que pode miniaturizar qualquer coisa. No entanto, ele sofre um atentado e acaba em coma. Para salvá-lo, um grupo de cientistas americanos usa a fórmula num submarino para transformar o veículo numa miniatura pequena o suficiente para inspeccionar o corpo de Benes por dentro, via corrente sanguínea.


Voltamos a recorrer às folhas de João Bénard da Costa, que escreveu que ”Fantastic Voyage (desde o título) joga permanente e habilmente no equívoco. “Fantastic Voyages” são coisas normalmente do espaço e quem nada saiba do filme, facilmente será levado a acreditar que é isso que vai ver. Não é. Mas a viagem no interior do corpo humano é sempre análoga à viagem espacial e há múltiplas referências (visuais e de diálogo) no filme que impõem permanentemente tal analogia. Estamos dentro, mas também estamos fora, perdida, desde que a viagem começa, a proporção que nos podia remeter para uma maior alucinação. 
“É certo que o filme é pontuado por chamadas ao exterior (os médicos, a sala de operações, a presença visível do corpo anestesiado do cientista, dentro do qual tais coisas se passam). Mas também o que é que essa montagem paralela só funciona por razões de “suspense” e que progressivamente a questão deixa de ser a de salvar ou não o sábio, mas a de se salvarem ou não os exploradores do seu corpo. Com um acréscimo originado pela luta entre o “bem” e o “mal” que, no interior do grupo, no interior do corpo, se trava. Nem falta um “falso culpado” e uma intriga policial, só desvendada no fim.” 

Amanhã, a escolha de Pedro Costa.

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quarta-feira, 1 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “O Anjo Exterminador” de Luis Buñuel

O “Jornal do Fundão“, os “Encontros Cinematográficos”, o “Lucky Star – Cineclube de Braga“, o “My Two Thousand Movies” e “A Comuna” associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blogue “My Two Thousand Movies”. O primeiro convidado é o escritor Manuel da Silva Ramos, que escolheu El Ángel Exterminador de Luís Buñuel e justificou a sua escolha com um “porque ninguém CONSEGUE sair de casa.”

Sinopse: “A melhor explicação para El Angel Exterminador é que, racionalmente, não tem nenhuma”. Assim “explica” Luis Buñuel a sua obra-prima e o penúltimo filme que dirigiu no México, fábula feroz sobre a burguesia presa dos seus conceitos, preconceitos e ideias feitas, onde um grupo de pessoas é misteriosamente impedido de sair de uma festa.

Como escreveu João Bénard da Costa na sua Folha da Cinemateca sobre o filme, “interpretar El Ángel Exterminador é tarefa impossível. As pistas são tantas, os despistes também, que qualquer tentativa de racionalizar o irracional está à partida condenada ao fracasso. O prodigioso é observar as pequenas mudanças, a lenta introdução do insólito, que começa em torno do caviar, das discussões dos criados e da precipitada saída de alguns deles e vai introduzir-se, pouco a pouco, na festa. Ao princípio tudo parece uma sucessão de diálogos irrisórios, paródia à burguesia ali reunida, como Buñuel já havia feito em muitos filmes anteriores (recorde-se, por exemplo, a boda de Ensayo de un Crimen). Uma convidada pergunta a um Coronel como se sente na pele de herói. Este responde que tem horror aos canhões e que a pátria não é mais do que um conjunto de rios que vão dar ao mar. “Ao mar que é a morte” continua a exaltada senhora. “É isso. Morrer pela pátria” continua o Coronel. E é só o princípio.”

Amanhã, a escolha de Mário Fernandes.

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segunda-feira, 30 de março de 2020

A partir do dia 1 Abril


Espero que estejam todos bem desse lado. Porque vivemos num tempo de incerteza, e de medo, o My Two Thousand Movies associou-se a várias organizações para participar neste mega ciclo a partir da próxima quarta-feira. Vejam os melhores filmes, em casa.


“40 dias – 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera” é o nome do ciclo de cinema que o “Jornal do Fundão” vai promover online, em colaboração e camaradagem com os “Encontros Cinematográficos do Fundão”, “Lucky Star – Cineclube de Braga” , o blogue “My Two Thousand Movies” e “A Comuna”.

Os filmes exibidos são produto da escolha de 40 personalidades convidadas, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos, que responderam ao desafio lançado de escolher uma obra da cinematografia mundial para estes tempos de “cólera” que vivemos. O cinema é também uma forma de reflexão sobre a estranha condição humana e de evasão dos dias surreais que vivemos.

As exibições online não substituem obviamente a dimensão de ver um filme projetado numa sala de cinema, como acontece habitualmente nos Encontros Cinematográficos do Fundão, que este ano tiveram de ser adiados por causa da crise do Coronavírus. Por isso este ciclo serve apenas para promover a cultura cinéfila e estimular todas as pessoas a estarem presentes nos Encontros Cinematográficos do Fundão, no final deste ano. 

Por agora resta-nos a partilha em segurança nos ecrãs dos computadores de vossas casas através do link disponibilizado diariamente pelo blogue “My Two Thousand Movies” e pelo evento criado pelo “Jornal do Fundão” no seu facebook – clicar

A partir do dia 1 de abril até ao dia 10 de maio, serão 40 filmes a ser exibidos todos os dias pelas 22.00 horas, com a “folha de sala” contendo a escolha dos convidados e a sinopse dos filmes a ser publicada diariamente no site do “Jornal do Fundão”, deixando em suspense hitchcockiano a escolha do convidado do dia seguinte. Acompanhe este ciclo de cinema e fique em casa.

Seduzida e Abandonada (Sedotta e Abbandonata) 1964

Agnese, uma adolescente siciliana, é seduzida por Peppino, noivo da sua irmã, e fica grávida. Quando seu pai Vincenzo descobre tudo, obriga o futuro genro a casar com Agnese, mas ele foge. Vincenzo então ordena que seu filho Antonio mate Peppino.
O filme anterior de Pietro Germi, "Divórcio à Italiana", tinha sido um importante sucesso comercial entre 1961 e 1962, tendo ganho um Óscar pelo seu argumento. O único lugar onde fracassou foi no Sul de Itália, porque o público não apreciou a ironia amarga de Germi em assuntos tão sérios como o chamado "delito d'onore" (crime de honra), que era tão praticado naquelas paragens. 
Três anos depois, em 1964, Germi voltaria com um tema similar, no segundo filme da que mais tarde seria chamada da trilogia da Itália Provincial (também veremos o terceiro filme neste ciclo, na segunda parte). "Seduzida e abandonada", uma locução muito popular na sociedade italiana da década de sessenta, e que na vida real selava o destino de tantas jovens, e permitia que os seus pais e irmãos "salvassem" a honra da família vingando-se das seduzidas, enquanto que o sedutor podia safar-se casando-se com as jovens raparigas. Numa entrevista, Germi disse que fez o filme para explorar as razões porque as jovens (que normalmente eram as vítimas) se viam obrigadas a casar com os seus agressores. Queria entender porque razão a reputação era tão importante para as famílias e queria mostrar que essa era uma regra tão básica e sem mérito.
Germi sempre disse que preferia, de longe, os seus filmes dramáticos antes de "Divórcio à Italiana", alguns deles compreendidos no movimento neorrealista. Mas o sucesso mundial de "Divórcio à Italiana" fê-lo continuar no mesmo registo, com este filme a conseguir novamente grande sucesso. Saro Urzi, no papel do pai ofendido era a grande alma desta película, tendo vencido o prémio de Melhor Actor em Cannes, mas "Seduzida e Abandonada" também destacava a jovem Stefania Sandrelli, então com 18 anos, e que já se havia destacado no filme anterior de Germi. 

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domingo, 29 de março de 2020

Negócio à Italiana (Il Boom) 1963

Passado durante o milagre económico italiano, período logo depois da Segunda Guerra Mundial e que ficou conhecido como “il boom”, encontramos Giovanni Alberti (Alberto Sordi), um executivo medíocre, que se vê endividado para manter o padrão de vida da sua rica esposa Silvia (Gianna Maria Canale). Quando surge uma oportunidade de negócio que acabaria com todas as dívidas, Giovanni enfrenta o seu maior dilema.
Mais um filme de Vittorio de Sica realizado em 1963, mas este com um resultado completamente diferente de "Ontem, Hoje e Amanhã". "Il Boom" foi um fracasso na altura que estreou, tanto a nível de público como a nível de crítica, e por isso manteve-se longe dos olhos do público durante muitos anos. 
Escrito por Cesare Zavattini, o habitual colaborador de De Sica que também escreveu a trilogia do neorrealismo do realizador, alguns anos antes, tinha a acção passada no mesmo ambiente desesperado da classe trabalhadora que tinham os filmes anteriores. O conceito ainda funciona num cenário burguês, porque De Sica e Zavattini definem como o dinheiro e o poder infectam quase todas as relações humanas, pintam o retrato de uma sociedade onde tudo é transacionável.  Acontece que isto não acontece apenas em sociedades devastadas pela guerra, à beira de um colapso. Mesmo num momento de prosperidade cada um está por si próprio. 
Legendas em inglês.

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sábado, 28 de março de 2020

Ontem, Hoje e Amanhã (Ieri Oggi Domani) 1963

Três histórias sobre três mulheres diferentes e o homem que elas amam. Em Nápoles, Adelina (Sophia Loren) que é casada com Carmine (Marcello Mastroianni) um vagabundo, foi presa por contrabandear cigarros. Só que ela descobre que não pode ir para a cadeia enquanto estiver grávida. E agora, anos depois e sete filhos depois, Carmine está "ligeiramente impotente" e a cadeia parece inevitável para Adelina que tenta "incentivá-lo" de todas as maneiras. Em Milão, Anna (Sophia Loren) dirige um Rolls Royce e está aborrecida ao lado do seu amante (Marcello Mastroianni). O casal discute e troca palavras hilariantes passando por uma série de contratempos engraçados. Mara (Sophia Loren) é uma rapariga de programa cujo encontro com o "ansioso" Augusto (Marcello Mastroianni) a todos os momentos é "interrompido" pelo vizinho, um seminarista cujo compromisso com a castidade está estremecido desde o momento em que a conheceu.
Comédia satírica que revela muito sobre os escalões superiores e inferiores da sociedade italiana da década de sessenta. Ao longo de 3 partes, que são como anedotas animadas, sexys e engraçadas, Vittorio de Sica aborda questões como o absurdo sistema judicial (prisões lotadas de mulheres presas por ofensas que agora criam filhos atrás das grades), hipocrisia burguesa, culpa católica e camaradagem da classe trabalhadora perante o rosto da diferença burocrática.
Para Vittorio de Sica fazer um filme com este tom, era como uma traição aos princípios do neorrealismo italiano, no entanto acabou por ser bem recebido pelo público de todo mundo, acabando por ser um sucesso comercial um pouco por todo o lado, e ganhando o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 1965, algo que muitos criticaram por não ter qualidade para tal. Mas De Sica era um realizador bem visto em Hollywood, e os seus filmes já tinham valido, por exemplo, o primeiro Óscar de Melhor Actriz num filme em língua estrangeira (Sophia Loren em "La Ciociara"), e nomeações para Melhores Argumentos em filmes como "Humberto D.", "Ladrões de Biciletas" e "Sciuscià", sempre com Cesare Zavattini envolvido, que também escreveu este argumento. 
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 27 de março de 2020

Os Monstros (I Mostri) 1963

"Os Monstros" é uma compilação de 20 histórias, nas quais alternam Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi para satirizar os mitos e as contradições tipicas do ser humano e em parte representativa da sociedade italiana dos anos 60.
"Os Monstros" confirmava o valor transcendental de muitos trabalhos rotulados genericamente de "commedia all’italiana", mas, na verdade, apropriava-se dos instrumentos mais sofisticados para dar outro ponto de vista, mais desencantado. É uma comédia de derrota e sobrevivência, juntando as espirais existenciais à surpresa dos índices económicos. Dino Risi transforma a matéria-prima da comédia social numa jornada transcendental de individualização nacional, criando sem esforço um mundo coeso e "monstruoso" da Itália emergente.
Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi, a dupla de "La Marcia Su Roma" volta a funcionar muito bem, e um argumento onde trabalharam várias caras conhecidas, ou futuramente conhecidas, como era o caso de Elio Petri, em inicio de carreira, Ettore Scola, na quarta colaboração com Risi como argumentista, e o habitual Ruggero Maccari.

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quinta-feira, 26 de março de 2020

Os Anos Felizes (Gli Anni Ruggenti) 1962

1937, XV ano fascista. Salvatore Acquamano (Gino Cervi) é o presidente de uma pequena cidade a poucos kms de Alberobello. Um primo empregado no ministério adverte-o da chegada eminente de uma hierarquia anónima encarregue de fazer uma inspecção ao território. Convocado todo o conselho da cidade, o pânico espalha-se rapidamente, dadas as inúmeras falhas que correm o risco de ser expostas. O temido inspector é identificado na figura de um jovem estrangeiro que acaba de chegar de Roma, Omero Battifiori (Nino Manfredi), que trabalha para uma seguradora a procurar novos clientes. Começa aqui o jogo de mal entendidos que já se esperava.
Luigi Zampa, realizou este filmes em 1962, um belo exemplo de uma tragicomédia italiana, cheio de ironia e divertido, sobre um período histórico muito particular, e cujos ecos e lembranças ainda se faziam sentir naquela altura - o fascismo. 
Argumento escrito a seis mãos, em que Zampa faz uso da colaboração inestimável de Ruggero Maccari, e, principalmente, de Ettore Scola. Scola nesta altura tinha 31 anos, e ainda estava dedicado apenas a escrever argumentos, contando já com alguns trabalhos notáveis, principalmente com Dino Risi. É Scola quem impõe ao filme uma enorme carga irónica /satírica que viria a ser típica do seu cinema, poucos anos depois. 
O filme não é apenas uma comédia de que rimos graças à sucessão de situações ridículas e divertidas, tornadas ainda mais emocionantes por actores excepcionais, como é o caso de Nino Manfredi, mas é, acima de tudo, um filme que se propõe lidar com questões e problemas relativos aos 20 anos de fascismo que tinham acabado. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 25 de março de 2020

Marcha Sobre Roma (La Marcia su Roma) 1962

Depois da Primeira Guerra Mundial, Domenico Rocchetti é um jovem que, em Milão, usa diferentes e engenhosos truques para extorquir dinheiro das pessoas. É obrigado a portar-se como um vagabundo, pois não tem dinheiro suficiente para comer. É neste momento que, por pura sorte, conhece Capitano Paolinelli, que recrutava membros para o partido fascista. Junto com Umberto Gavazza vai juntar-te ao partido fascista, onde ambos terão comida, mas também vão ter de matar. Esta situação irá causar uma série de momentos tragicómicos.
O fascismo foi perigoso não só para Itália, mas para toda a Europa. "La Marcia Su Roma" foi realizado em 1962, altura em que o cinema era uma parte bastante importante na cultura dos países, e o cinema italiano vivia de enorme popularidade, tanto a nível crítico como comercial. Dino Risi era já um expoente na comédia, e a escolha de um filme sobre o "fascismo" acabou por surpreender muitos espectadores. Mas o filme mostrava o que tinha acontecido 40 anos antes, quando os fascistas faziam planos elaborados para obter controle político através da persuasão e de meios violentos.
Para quem não sabe, a Marcha Sobre Roma foi uma grande manifestação fascista com características de golpe de estado, realizada a 29 de Outubro de 1922.  O evento representou a chegada ao poder do Partido Nacional Fascista (PNF) e o fim da democracia liberal. Mas de forma nenhuma o filme apoia este evento, apenas se serve da situação para contar uma história com humor.
Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi brilham nos principais papéis.

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segunda-feira, 23 de março de 2020

Boccaccio 70 (Boccaccio '70) 1962

Quatro adaptações modernas de contos para adultos de Giovanni Boccaccio com 4 realizadores de luxo.
1-Renzo e Luciana. Luciana, a secretária, e Renzo, o jovem paquete, amam-se; mas as regras da sociedade na qual trabalham proíbem-nos de se casarem e terem filhos.
2-A Tentação do dr. António. Um puritano lança-se numa cruzada contra um cartaz publicitário, onde uma sensual mulher faz publicidade ao leite.
3-O Emprego. Um aristocrata é protagonista de um escândalo e a sua mulher vinga-se obrigando-o a pagar-lhe os seus deveres conjugais.
4-As Rifas. Uma bela mulher sujeita-se a um sorteio de rifas numa feira, mas recusa-se a acompanhar o vencedor, um sacristão, pelo facto de estar apaixonada por outro homem. 
´Boccaccio 70´ é um dos mais marcantes exemplos dos filmes em sketches, um tipo de cinema que floresceu na Europa, sobretudo em França e Itália, nas décadas de 60 e 70. A fórmula consistia em reunir um punhado de importantes realizadores, um grande elenco e um tema recorrente que cada segmento trataria segundo o estilo e a sensibilidade de cada cineasta. Aqui, sob o espírito e a livre evocação de Boccaccio, embora nenhum dos episódios seja adaptado de qualquer das suas obras, 4 grandes cineastas italianos, Fellini, De Sica, Monicelli e Visconti, abordam situações de pura ironia acerca do sexo, do desejo e das fantasias eróticas. Fellini é exuberante e fantasioso no sketch com Anita Ekberg a publicitar leite e a incendiar a libido de um puritano. Visconti adopta um realismo amargo na história da condessa que obriga o marido a tratá-la como se fosse uma prostituta. De Sica constrói um quadro de sabor revisteiro e colorido sobre a rapariga das rifas que recusa os clientes. Monicelli fala do amor proibido entre uma secretária e um paquete. 
São 4 estilos, 4 cineastas e 4 abordagens distintas do tema do sexo e das suas implicações, num filme que conta com um admirável elenco, dominado pela presença de três grandes actrizes: Anita Ekberg, Romy Schneider e Sophia Loren. 
* Texto RTP

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domingo, 22 de março de 2020

A Ultrapassagem (Il Sorpasso) 1962

Roberto, um tímido estudante de Direito em Roma, conhece Bruno, um exuberante e caprichoso homem de quarenta anos de idade, que o leva para um passeio pelas terras romanas e da Toscânia, no verão de 1962. Eles vão passar dois dias juntos, conhecer tanto a família de Roberto como a de Bruno. O tempo que Roberto passa com Bruno é hilariante, mas por vezes torna-se num emocional e impiedoso processo de maturização. 
Il sorpasso (1962) soa como qualquer velha buddy comedy, mas o talentoso elenco e realização fazem dele mais do que isso. Roberto é interpretado por Jean Louis Trintignant no seu mais romanticamente reprimido papel. Vittorio Gassman brilha com um lampejo de desespero no papel cheio de fanfarronice de Bruno, com um grande sorriso na cara. E o realizador é Dino Risi, que preparava a familiarizada Commedia all'italiana, onde ele foi um dos principais artesãs. 
"Il Sorpasso" é a definitiva combinação de comédia e road movie. Ao longo de toda a viagem (digo novamente que é um road movie, e é para ser classificado entre os melhores do género), os dois personagens mudam e temos a estranha sensação de que quanto mais os vemos menos os conhecemos. Roberto é uma jovem muito tímido, ao contrário do desconcertante Bruno, que serve como contraponto com outra personalidade. A personalidade de Bruno é especial, é um veterano que falhou em tudo, e passa todo o tempo a viajar no seu carro desportivo. Todo o argumento desenvolve um humor suave, mas constante, o que nos faz manter o sorriso durante todo o filme, enquanto mostra o retrato de uma maravilhosa Itália dos anos 60, que inclui a banda sonora sensacional de Riz Ortolani. Além disso, temos a fotografia num branco e preto evocativo de Alfio Contini. 

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O Último Julgamento (Il giudizio universale) 1961

Uma voz poderosa e misteriosa ecoa nos céus de Nápoles: anuncia o dia do julgamento final, às seis da tarde. Então, uma multidão de pessoas empolgadas move-se sob a influência daquela voz implacável. Depois do início do grande julgamento, o qual todos podem sentir presente através da televisão, o Juízo Final é abruptamente interrompido por uma chuva torrencial. Será que a tempestade dramática e definitivamente o juízo, apagando a Terra e todos os seus males?
Bem fresco do sucesso internacional de "La Ciociara" (1960), a dupla Vittorio de Sica e Cesare Zavattini, realizador e argumentista do filme anterior, receberam carta branca de De Laurentiis para fazerem o que quisessem, com um elenco internacional de estrelas na folha de pagamento, saindo um filme sobre o fim do mundo, no qual a sua forma episódica é levada ao extremo, dividido em 40 sketches, instantâneos ou mais elaborados. Surrealismo, fantasia, sátira, são alguns dos componentes, também com um certo moralismo à mistura.
Hoje em dia é um filme muito esquecido, mesmo na carreira de De Sica, mas vale a pena referir aqui uma parte do elenco de estrelas: Fernandel, Anouk Aimee, Melina Mercouri, Nino Manfredi, Vittorio Gassman, Silvana Mangano, Jack Palance, Eleanora Brown, Lino Ventura, Alberto Sordi, Ernest Borgnine, Akim Tamiroff, Jimmy Durante, e o próprio De Sica.

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