sexta-feira, 15 de maio de 2020

A Rapariga da Pistola (La Ragazza con la Pistola) 1968

Assunta (Monica Vitti) é uma jovem habitante da tradicional região da Sicília. Um dia, ela sucumbe ao charme de um homem conquistador, e perde a virgindade com ele. No dia seguinte, o rapaz abandona-a e parte para a Inglaterra. Furiosa, Assunta pega numa arma e segue em busca do rapaz, para forçá-lo a casar-se com ela, e manter assim a sua honra. 
O cinema italiano tem um talento especial para encontrar humor em assuntos sérios, e abordá-lo da forma mais ridícula. Em “A Rapariga da Pistola”, Mario Monicelli pega num assunto com muita virtude, e vira-o de cabeça para baixo. No centro deste filme está uma jovem cuja virtude é posta em causa, e a única forma de redimir-se aos olhos da família é ou casando ou matando o homem responsável. Embora seja este o assunto que coloca em andamento todo o filme, é no final, com a transformação de Assunta, que acaba por se revelar o mais potente. 
Uma produção bem vistosa em todos os aspectos, sobretudo com o aproveitamento de excelentes cenários. Mónica Vitti tem uma grande prestação à frente de um elenco com vários actores britânicos, como Stanley Baker, Corin Redgrave e Anthony Booth, e não esquecer que o filme seria nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. 

Link
Imdb

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O Capitão Brancaleone (L'armata Brancaleon) 1966

Os costumes da cavalaria medieval através da sátira, mostrando um jovem aristocrata chamado Brancaleone (Vittorio Gassman) que, educado no código de cavalaria da ética, deve reivindicar uma alegada herança que consiste num feudo. Por isso, Brancaleone recorre ao apoio de um punhado de bandidos mal armados e muito temerosos, que só procuram fugir das agruras do banditismo sem correr grandes riscos, e a quem o protagonista da fantasia chama seriamente de "meu exército" (chamado armata em italiano). A ingenuidade e a falta de coragem de Brancaleone e seu temido "exército" causam situações irónicas e humorísticas, enquanto o grupo de aventureiros mal equipados busca realizar a sua missão. 
Uma década antes de "Monty Phyton and the Holy Grail" , apareceu um, agora, filme obscuro, mas muito famoso na sua altura, antecipando o humor da famosa troupe de actores ingleses, e estabelecendo um novo sub-género, que poderíamos chamar de "sátira medieval". Um sucesso tão grande que, quatro anos mais tarde, viria a originar uma sequela.
Era um filme difícil de exportar para fora de Itália, porque a parte mais engraçada estava na linguagem usada, uma mistura de vários dialectos italianos com o latim da idade média, e era também mais um episódio da ascenção de Mario Monicelli como o grande poeta da comédia italiana. 

Link
Imdb

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Senhoras e Cavalheiros (Signore & Signori) 1966

Os costumes e a vida da região de Veneto, na Itália da década de 60, representados por três histórias distintas. A primeira envolve um homem que confidencia um segredo ao seu médico, que prontamente repassa a informação para alguns amigos que não conseguem ficar de boca calada; a segunda explora a vida de um bancário que acaba de perder a mulher e a amante; e a terceira é a história de um grupo de rapazes que se aproveita da ingenuidade de uma jovem, cujo pai fará de tudo para colocá-los na cadeia. 
O casamento italiano anda sob ataque constante de Pietro Germi, desde que o seu “divorcio à italiana” concluiu que o assassinato era mais fácil e mais conveniente do que o divórcio. Principalmente porque a Itália não permite o divórcio, mas se um marido matar a sua esposa enquanto ela estiver nos braços de um amante, o que pode um juiz fazer contra ele? 
Germi começa com opiniões partilhadas por todo o italiano que se preze, e depois, astuciosamente, leva-as ao resultado mais lógico. Foi assim em “Divórcio à Italiana”, e também em “Seduzida e Abandonada”, os dois filmes que com este “Senhoras e Cavalheiros” fazem parte da chamada trilogia provincial. “Senhoras e Cavalheiros goza com as atitudes dos italianos perante o casamento, o divorcio, a castidade, e também o amor. Germi destrói os tribunais, a polícia, a igreja, a família e o estado. Os filmes de Germi estão cheios de puro amor ao movimento e à acção, e poderiam ser descritos como “slapstick”, não fossem eles descritos com tanta força e direcionados tão directamente para alvos satíricos. 
Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano de 1966, ex-aqueo com “Um Homem e uma Mullher” de Claude Lelouch, algo inesperadamente, já que era raro comédias ganharem prémios tão importantes. Nessa edição do festival participavam filmes como: “A Religiosa” de Rivette, “Doutor Jivago” de David Lean, “Morgan” de Karel Reisz, “Passarinhos e Passarões” de Pasolini, ou “Seconds” de John Frankenheimer. Também foi nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Link
Imdb

Io la Conoscevo Bene (Io la Conoscevo Bene) 1965

Adriana é uma jovem do interior, que é apanhada nas tentações tempestuosas da cidade grande. Está convencida de que tem o que é preciso para ser uma estrela de cinema, e só precisa de conhecer o produtor certo que reconhecerá o seu talento e iniciará a sua carreira. Mas, na Cidade Eterna, os homens que ela atrai apenas querem saber das curvas do seu corpo. Alguns são bandidos e traficantes, outros são camaleões ricos que vivem vidas duplas há anos. 
Embora Antonio Pietrangeli seja menos conhecido do que os seus contemporâneos, o seu envolvimento no cinema italiano entendeu-se desde o inicio do neo-realismo até ao aos anos 50 e 60, quando esse movimento evoluiu intelectualmente para a dissecação da recuperação económica do pós-guerra e as consequências sociais e políticas que resultaram da prosperidade e uma rejeição das normas sociais tradicionais. Como argumentista, Pietrangeli colaborou com Visconti (“Ossessione”, 1943, “La Terra Trema” 1948) e Rosselini (“Europa´51”, 1952, “Viaggio in Italia” 1954), entre outros. Como alguns destes filmes indicam, uma característica marcante do trabalho do realizador era o interesse e preocuupação pela experiência das mulheres nessas décadas de transição. 
Pietrangeli escreveu o argumento em conjunto com Ruggero Maccari e Ettore Scola, e apesar de ter os seus interludios cómicos é um filme que tingido por uma sensação de angústia numa sociedade que explora incansavelmente os vulneráveis. O ponto de comparação óbvio é “La Dolce Vita” (1960) de Fellini, e conta com uma grande presença da actriz Stefania Sandrelli, então com apenas 19 anos e já um punhado de filmes inportantes em carteira, além de um punhado de grandes actores como co-adjuvantes: Mario Adorf, Jean-Claude Brialy, Nino Manfredi, Ugo Tognazzi ou Franco Nero (tentem lá descobri-lo). 

Link
Imdb

terça-feira, 12 de maio de 2020

Casanova 70 (Casanova '70) 1965

Sejam elas mulheres fatais, ingénuas ou virtuosas que se fazem passar por mulheres perfeitas, nenhuma resiste a André, o belo oficial da NATO que salta de conquista em conquista, ao sabor das suas colocações. A par das suas fáceis conquistas, o sedutor complica o jogo acrescentando-lhe elementos de perigo. Mas o verdadeiro perigo é uma bela criatura dotada de todas as qualidades que ele virá a encontrar nas montanhas suíças. 
Uma farsa sexual extremamente datada, “Casanova 70 foi muito bem recebido na sua estreia, tendo conseguido uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original. Visto hoje, é difícil perceber porque é que o argumento foi tão elogiado, já que todo o filme se baseia numa piada – Marcello Mastroianni é impotente, a menos que haja perigo eminente em torno de qualquer escapadela sexual – e essa piada é repetida várias vezes. Mas há imaginação na forma como os argumentistas conseguem colocar Mastroianni em cada uma das situações perigosas para que ele consiga obter satisfação. 
O filme apresenta um Marcello Mastroianni numa grande interpretação, no auge da sua forma, o que ajuda bastante a manter o interesse dos espectadores, além da presença de óptimas actrizes como Virna Lisi ou Marissa Mell. Mario Monicelli está atrás das câmaras.

Imdb

Matrimónio à Italiana (Matrimonio all'Italiana) 1964

Durante a Segunda Grande Guerra, Domenico, um bem-sucedido homem de negócios e com uma grande queda pelas mulheres, encontra a jovem e linda Filumena num bordel. Depois da guerra, aluga um apartamento para ela e os dois tornam-se amantes durante 22 anos. O que Domenico não sabe, é que Filumena tem três filhos que são criados por babysitters, e ao mesmo tempo, ele inicia planos para se casar com uma jovem empregada.
Vittorio de Sica ganhou quatro Óscares de Melhor Filme em Língua estrangeira, e Matrimonio all'Italiana era a sua quinta nomeação, que pela primeira vez perdeu. Com uma dupla de peso como protagonista, Marcello Mastroianni e Sophia Loren, que também foi nomeada para Melhor Actriz, é um filme bastante satisfatório, apesar de estar bem longe em termos de qualidade das grandes obras do realizador, principalmente dos grandes clássicos do neorealismo. 
O filme é descrito como uma comédia, mas é na realidade um drama emocionante com Sophia Loren a atirar fogo pelos olhos. Uma força da natureza, forçada a envelhecer 20 anos durante o filme, e carregando totalmente esse peso. 
Baseado na peça "Filumena Marturano" de Eduardo De Filippo, que alcançou grande êxito em 1951, que o próprio interpretou ao lado da sua irmã. Curiosamente o público Napolitano (a história original passa-se em Nápoles) não ficou muito contente com o facto de Loren e Mastroianni terem sido os escolhidos para os papéis principais, apesar da dupla ter sido elogiada no resto de Itália e um pouco por todo o mundo. Grande parte da história é contada através de flashbacks, que contam o caso de amor entre a jovem Filumena e Domenico, um romance muito amargo.

Imdb

Viagem pela Commedia All'italiana

Espero que tenham gostado deste ciclo dedicado ao confinamento, com 40 convidados, e com a colaboração do Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos do Fundão, do Cineclube Lucky Star, e do projecto "A Comuna". O meu agradecimento a todas estas instituições pelo convite para participar neste ciclo, e ainda por cima com uma parte tão importante.
Amanhã voltaremos à programação habitual do M2TM, e iremos regressar ao ciclo "Viagem pela Commedia All'italiana" que tinha iniciado no dia 14 de Março, e tinha sido interrompido no final do mês. 
Fiquem por aí, os filmes seguem dentro de momentos. 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Os Melhores Anos das Nossas Vidas”, de William Wyler

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O último convidado é Filipa Gambino, que escolheu Os Melhores Anos das Nossas Vidas de William Wyler.

Sinopse: Filme dramático norte-americano realizado em 1946 por William Wyler, The Best Years of Our Lives foi interpretado por Myrna Loy, Fredric March, Dana Andrews, Harold Russell, Teresa Wright e Virginia Mayo, entre outros. O argumento foi escrito por Robert E. Sherwood, baseando-se no livro Glory For Me, de MacKinlay Kantor. Tratando-se de um clássico sobre o regresso a casa, depois da guerra, e as dificuldades de adaptação à nova vida civil, o filme centra-se em três homens: Al Stephenson (Fredric March), Fred Derry (Dana Andrews) e Homer Parrish (Harold Russell). Os três regressam a casa juntos, atormentados pelas memórias recentes da guerra e com dúvidas acerca do seu futuro. Quando chegam, seguem diferentes caminhos. O marinheiro Homer regressa a casa sem mãos, Al regressa para a sua esposa Milly (Myrna Loy), filhos e o antigo emprego num banco, e Fred encontra uma mulher que praticamente o abandonou e não tem perspetivas de trabalho.

Em jeito de conclusão, escreve-nos que “o ecletismo deste ciclo (de uma maneira pouco premeditada já que a curadoria foi distribuída por tantas pessoas quantos os filmes que por aqui passaram) acabou, de certa forma, por reflectir os vários estágios pelos quais passámos durante esta quarentena. O terror do vírus desconhecido em Cassandra Crossing, ou da peste em A Máscara da Morte Vermelha, ou da cólera em 7 Mulheres; a estranheza da impossibilidade de sair do confinamento em O Anjo Exterminador, a necessidade de evasão em E.T. - O Extraterrestre ou Querido Diário, os dramas familiares como Spencer’s Mountain ou O Túmulo dos Pirilampos e tantos outros e tão bons onde pudemos encontrar paralelos com a situação em que nos encontramos. 
Escolhi Os Melhores Anos das Nossas Vidas porque descobri nele ecos para as perguntas que me invadem agora o pensamento, nesta fase de desconfinamento: vamos encontrar o mundo ainda como o deixámos? Haverá lugar nele para nós? Saberemos/poderemos ainda abraçar os que amamos? Terá o pior já passado? Tudo perguntas que atormentam estes 3 veteranos de guerra que Wyler acompanha no regresso a casa. 
Ao longo do filme o desconforto é palpável, o desajustamento destes homens às realidades às quais regressam quase que nos fere. No entanto, ou por isso mesmo, está cheio de vida e beleza. Particularmente marcantes os momentos em que Wyler recorre à profundidade de campo como forma de contar as histórias dos três homens ao mesmo tempo. Acontece no bar onde os três amigos se costumam encontrar mais que uma vez (Fred, no fundo, ao telefone com Peggy), acontece no magistral plano final: toda a força do poder redentor do amor numa única imagem. 
Esperemos que seja também esse poder redentor do amor a salvar-nos agora e que os melhores anos das nossas vidas estejam, afinal, ainda por viver.”

Link
Imdb

domingo, 10 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Adventure in Hapiness Street”, de Jacques Tourneur

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O quadragésimo convidado é o crítico e programador de cinema norte-americano Andy Rector, que escolheu Adventure in Happiness Street, episódio da série de televisão “The Barbara Stanwyck Show” realizado por Jacques Tourneur em 1961.

Sinopse: Josephine acha que consegue ajudar o Dr. Paul Harris a arranjar medicamentos para a sua clínica usando apenas os seus contactos comerciais.

Robert Culp, que aparece neste episódio, contou uma pequena história de rodagem à Television Academy Foundation, dizendo que fez “um programa de meia-hora, o “Barbara Stanwyck Theater” [nota: “The Barbara Stanwyck Show”] – e lembro-me, sabe, de ficar arrebatado com a ideia de trabalhar com Barbara Stanwyck. Fui para o plateau, logo, e esta mulher era famosa por saber os primeiros nomes de cada tipo, dos gajos lá de cima, de toda a gente atrás das câmaras, do tipo que limpava o chão, e chamava-os a todos pelo primeiro nome todas as manhãs. Toda a gente simplesmente adorava esta mulher. Bom, eu entrei em cena com ela pela primeira vez, para ensaiar, olhei para ela e ela devolveu-me o olhar. Nessa altura ela não estava casada. Eu estava muito casado. E aquela coisa aconteceu como se se estivesse de pé a abanar uma bandeira. E eu pensei, “Oh, meu Deus.” E não sei quão mais velha que eu ela era, não faço ideia, mas está a ver, isso é um momento que não se esquece, nunca, a vida toda.” 
Situando a sua escolha no ciclo e nos tempos que vivemos, Andy Rector disse-nos, “Olhem para este filme. É a armadilha em que estamos todos até hoje! E como na nossa era, não há solução que se encontre; temos de ser nós próprios a produzi-la, ou sair para morrer na rua. Este episódio de televisão chegou-nos numa cópia sem os últimos dois minutos, isto é, sem o monólogo final típico de cada episódio e dito pela anfitriã Barbara Stanwyck para reconciliar o que vimos.” 
O filme não tem legendas,

Amanhã, a escolha de Filipa Gambino.

Link
Imdb

sábado, 9 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Themroc", de Claude Faraldo

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo nono convidado é o músico Adolfo Luxúria Canibal, que escolheu Themroc de Claude Faraldo, dizendo-nos «o confinamento ou a libertação da vida.»

Sinopse: Retrata a revolta de um trabalhador contra o quotidiano de miséria a que se encontra submetido. O seu despertar leva-o à procura do fruir dos instintos mais primitivos reprimidos pela domesticação da sociedade industrial, e ao repelir das instituições causadoras dessa repressão. Sem linguagem conceptual durante todo o filme, uma obra prima de crítica à civilização.

Numa entrevista de 2005 ao jornal L'Humanité, e quando lhe perguntaram qual achava ser o seu lugar no cinema francês, Faraldo disse que “em lado nenhum. Eu não conhecia o cinema. Não era cineasta nem sequer cinéfilo. Tinha visto alguns filmes, e é tudo. Nunca me tinha aproximado de uma câmara e nem sequer sabia que se podiam mudar as ópticas. Era uma época diferente da sociedade e talvez do cinema. Era apenas motorista de entregas, o que é contado em Bof, filme que podia mentir mas não mente. 
“Bof foi tirado dos cinemas e Langlois passou-o na Cinemateca. Descobri esse senhor gordo que parecia conhecer e amar o cinema. Apresentou-me a umas pessoas. É preciso dizer que eu era contra o parisianismo. Em minha casa, éramos comunistas, adorávamos Montand e Aragon. Os outros todos eram intelectuais que falavam. O cinema não era razoável. Com Themroc, quis fazer um filme que valesse e por si só e não trouxesse analogia nenhuma, é por isso que não há lá linguagem nenhuma. Nunca senti que tivesse um lugar no cinema.”

Amanhã, a escolha de Andy Rector.

Link
Imdb

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Programação para os próximos tempos

Estes são os ciclos que poderão ver por aqui, nos próximos tempos:

12 Maio:
- Commedia All'italiana (2ª parte)

6 Junho:
- O Cinema Espanhol no Tempo de Franco

Julho: 
Programação de um Convidado Especial

Agosto:
Koji Wakamatsu

Sempre o melhor Cinema, aqui.







40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Céline et Julie vont en Bateau", de Jacques Rivette

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo oitavo convidado é a cineasta Sílvia das Fadas, que escolheu Céline et Julie vont en Bateau do misterioso cineasta francês Jacques Rivette, comentando simplesmente: «Para uma explosão de alegria incandescente.»

Sinopse: Viagem ao "outro lado do espelho" em que Julie é o Coelho Branco que leva Céline (Alice) para o seu mundo fantástico de magia e histórias rocambolescas. A frescura, a irreverência e o sonho (e a memória dos grandes "serials" americanos) no mais acessível e divertido filme de Rivette.

Em Sexual Politics and Narrative Film, Robin Wood disserta sobre esta obra de Rivette, escrevendo que “os créditos atribuem o argumento a Juliet Berto (Céline), Dominique Labourier (Julie), Bulle Ogier, Marie-France Pisier e, finalmente, Rivette, "em diálogo com" Eduardo di Gregorio; as mulheres trabalharam os seus próprios papéis e determinaram todo o progresso do filme, com Rivette a fornecer apenas um ponto de partida sugerido. Com Berto e Labourier em particular, a distinção entre actor e personagem é continuamente ofuscada: temos muitas vezes a impressão que Céline e Julie estão a construir o filme das suas imaginações, enquanto avança. Em lugar do tradicional progresso de leitura através do qual se decifra um trabalho previamente construído para se poder chegar e partilhar da posição privilegiada de conhecimento do autor, aqui partilha-se, a um grau invulgar, do processo de construção, tornando-se a divisão entre isso e o processo de leitura mais estreita do que em qualquer filme de ficção anterior em que consiga pensar. Ao mesmo tempo, o processo de leitura tradicional é levado a primeiro plano com as tentativas de Celine e Julie em decifrar a história dentro da "Casa de Ficção," vivenciadas inicialmente em fragmentos tentadores: elas tornam-se as leitoras de um romance, espectadoras numa peça, o público numa sala de cinema (debatendo, a dada altura, se deveria ou não haver um intervalo, e decidindo contra)—mas os leitores/espectadores que recebem miraculosamente o poder de entrar na ficção, intervêm na acção, e mudam o desenlace predeterminado.” 

Amanhã, a escolha de Adolfo Luxúria Canibal.

Link
Imdb

quinta-feira, 7 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Os Passaros", de Alfred Hitchcock

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo sétimo convidado é o programador Francisco Rocha, autor do blog My Two Thousand Movies, que justifica abaixo a escolha de uma das máximas obras-primas do mestre Hitchcock:

Sinopse: Um dos maiores êxitos públicos de Hitchcock e uma das suas obras mais perfeitas. Adaptado de um conto de Daphne du Maurier, THE BIRDS segue a personagem de Tippi Hedren na ida à cidade costeira de Bodega Bay e ao encontro de uma estranha revolta de aves que começam a atacar as pessoas. Como estrelas dos efeitos especiais deste filme, elaboradas miniaturas de pássaros, que foram combinadas com pinturas e uso de retroprojeção.

Francisco Rocha: «O homem luta entre si praticamente desde que existe, com a sobrevivência da humanidade a ser muitas vezes posta à prova no meio dessas guerras. Nunca levou muito a sério o seu inimigo mais natural, a natureza. Temos o exemplo da pandemia que estamos a atravessar, e também foi assim no filme de Alfred Hitchcock, “Os Pássaros”, de 1963, onde várias espécies de pássaros de uma pequena comunidade começam a atacar os humanos sem razão aparente. 
Revi “The Birds” algures a meio de Abril, quando a pandemia já ia bem desenvolvida. Na altura, já era uma forte ameaça e uma verdadeira incógnita sem resolução à vista. O inimigo invisível avançava a uma velocidade avassaladora e ameaçava chegar à nossa porta rapidamente. No filme de Hitchcock o inimigo não é invisível, mas é uma força que não temos capacidade de compreender, nem de destruir, e chegamos ao fim sem saber o que realmente transformou os pássaros em criaturas assassinas. Provavelmente vai acontecer o mesmo com este vírus, apareceu e vai desaparecer, deixando muitas questões sem resposta. 
Apesar de mais de 50 anos separarem o filme da realidade que vivemos, temos vários pontos em comum. Um deles é, por exemplo, a personagem interpretada por Tippi Hedren, uma socialite rica que viaja até à pequena comunidade de Bodega Bay, na tentativa de pregar uma partida ao homem que a insultou. A certa altura, depois dos pássaros darem início aos ataques de forma organizada, os habitantes desta comunidade começam a duvidar desta personagem, como se ela pudesse estar no centro de todos os acontecimentos (tudo começou com ela e ela está sempre presente). Na actualidade existe uma situação parecida. Ninguém sabe nada sobre as raízes do vírus, por enquanto não passam de suposições, mas no entanto já meio mundo aponta o dedo para a China, que é a Tippi Hedren desta realidade. Hitchcock também deixa a dúvida a pairar no ar, se Hedren tem alguma coisa ou não a ver com os ataques. 
“The Birds” é um filme muito actual, mesmo que já o tenham visto, está na altura ideal para o reverem e, por certo, irão encontrar mais pontos em comum com o nosso mundo de 2020.»

Amanhã, a escolha de Silvia das Fadas

Link
Imdb

quarta-feira, 6 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Uma Vida Inteira”, de john Ford

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo sexto convidado é o historiador de cinema Tag Gallagher, autor do monumental volume sobre John Ford intitulado John Ford: The Man and His Films, e que escolheu The Long Gray Line, pois, como começou por dizer: «Bem, nunca pode haver Ford demais, por isso escolho “The Long Gray Line”»

Sinopse: Homenagem de John Ford ao Exército, evocando a mais célebre instituição para a formação de oficiais, a Academia de West Point. Centra-se na história de “Marty” Maher, treinador na Academia e da sua relação com cadetes que se tornarão famosos, como Eisenhower (interpretado por Harry Carey Jr). Um dos melhores trabalhos de Tyrone Power e Maureen O’Hara em estado de graça.

O crítico e argumentista Frank S. Nugent escreveu no livro colectivo John Ford Made Westerns que “John Ford é um homem grande e bamboleante com um rosto enrugado, cabelo ruivo que enfraqueceu com os anos, um feitio que não enfraqueceu, e um dom para fazer filmes que lembra de forma desconfortável a Hollywood que os filmes não são apenas uma indústria, mas uma arte. Entre os conhecedores de cinema, é considerado um dos maiores realizadores que já viveram; alguns chamam-no o maior. Ganhou três Óscares da Academia pessoalmente endereçados—entre os realizadores, só Frank Capra tem tantos como ele—e é o vencedor inigualável por quatro vezes dos prémios anuais da Associação de Críticos de Nova Iorque para realização. Ford tem orgulho dos seus troféus, mesmo sem nunca ter aparecido nos jantares da Academia ou nas transmissões dos críticos para os aceitar. Odeia publicidade.” 
Em entrevista a Jean Mitry para a revista Cinémonde, em 1955, e quando o francês lhe pergunta quais são os filmes preferidos entre os que fez, John Ford contra-ataca com a sua humildade mordaz, dizendo “os meus filmes preferidos? Bah! Não sei. Diz que fiz bons filmes, acredito em si. Não sabia que as pessoas estavam tão interessadas no meu trabalho, em França. Fico encantado, mesmo assim. Bom! Digamos The Long Voyage Home, Stagecoach, The Informer. The Sun Shines Bright também e o meu último, The Long Gray Line. Acho que é um dos melhores. Vai ver.” 

Amanhã, a escolha de Francisco Rocha.

Link
Imdb

terça-feira, 5 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Três na Rua Mechtchanskaya", de Abram Room

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo quinto convidado é a realizadora Rita Azevedo Gomes, que escolheu Três na Rua Meshchsanskaya de Abram Room.

Sinopse: Esta atrevida farsa russa é uma fascinante curiosidade, atípica em relação ao cinema de propaganda da altura, e bem à frente do seu tempo no tratamento a sexo e género. Os três intérpretes principais têm grandes interpretações, com destaque para Lyudmila Semyonova num papel feminino altamente progressista para a altura. O filme também beneficia de um trabalho de câmara inventivo, produzindo uma visão realista da década de 20 em Moscovo e dos seus habitantes.
Era o quarto filme de Abram Room, e ganhou fama por ter sido banido (e elogiado) nos dois continentes. Tal como outros dos primeiros realizadores do cinema soviético, chegou a esta área depois de um caminho sinuoso. Era um médico especializado em psiquiatria e neurologia, que serviu como oficial do Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa, que se deu depois das revoluções de 1917. Originalmente da Lituânia, Room decidiu ficar em Moscovo depois da desmobilização e começou a trabalhar no Teatro da Revolução.

Num capítulo de Kino and the Woman Question, Judith Alley escreve que “Três na Rua Meshchanskaya é diferente da maior parte dos filmes considerados “clássicos” do cinema mudo soviético tanto pelo seu tema como pelo seu estilo. Um crítico da Close-Up descreveu o filme como caracterizado por “cortes descuidados, continuidade não relacionada, por todos os erros que o amador pode cometer.” O crítico continua: “E no entanto aqui estava um filme que nos prendia e tinha génio. A própria irregularidade concedia-lhe um poder acrescentado; quase se podia dizer que criou uma nova técnica.” 
“O filme conta a história de uma mulher, Liudmilla, cuja vida é definida pelo pequeno apartamento de um quarto em que passa os dias. O marido dela, Kolia, um supervisor de construção, convida um velho amigo, um estampador, a partilhar o apartamento deles. O amigo, Volodia, chegou recentemente a Moscovo e não consegue encontrar um quarto devido à crise de habitação.”
 Justificando a sua escolha, Rita Azevedo Gomes disse-nos que é «uma recentíssima descoberta, este filme, Três na Rua Meshchanskaya, fascinou-me não tanto pela urgência em abordar, no contexto social da União Soviética dos anos 20, temas como o amor, o casamento, a moralidade sexual, mas pela maneira como tudo se condensa e encerra num pequeno espaço, uma cave nos subúrbios de Moscovo. Sublime a economia estética da imagem; cada plano, detalhe, olhar, cada reflexo, aproxima-nos com enorme delicadeza da densidade interior dos três personagens e da sua fragilidade, sustentada pelo espantoso trabalho dos actores.» 

Amanhã, a escolha de Tag Gallagher.

Link
Imdb

segunda-feira, 4 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Mãe!”, de Darren Aronofsky

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo quarto convidado é o artista Zina Caramelo, que escolheu Mãe! de Darren Aronofsky.

Sinopse: Um casal vive numa casa isolada onde ele, um poeta em crise de inspiração, viveu toda a sua infância. Ela, decidida a transformar aquele lugar num lar, remodela cada espaço com amor e dedicação. Certa noite, são visitados por um estranho que diz ser médico. O marido decide acolhê-lo. Depois chega a mulher do médico e, mais tarde, os dois filhos de ambos. A presença daqueles estranhos hóspedes depressa começa a tomar conta de toda a casa, possuindo-a e deixando a proprietária com uma sensação de terror que parece ir tomando, a cada dia, proporções cada vez maiores….

No seguimento da má recepção deste filme de Darren Aronofsky, Martin Scorsese veio em sua defesa e escreveu que “antes de chegar a ver Mãe!, estava extremamente perturbado com todos os julgamentos severos que lhe fizeram. Muitas pessoas pareciam querer definir o filme, catalogá-lo, achá-lo imperfeito e condená-lo. E muitos pareciam ficar contentes com o facto de ter recebido uma classificação de “F” do Cinemascore. Isto tornou-se mesmo uma notícia — Mãe! tinha sido "esbofeteado" com a "temida" classificação de “F” do Cinemascore, uma distinção terrível que partilha com filmes realizados por Robert Altman, Jane Campion, William Friedkin e Steven Soderbergh. 
“Depois de ter a oportunidade de ver Mãe!, ainda fiquei mais perturbado com esta pressa para julgar, e foi por isso que quis partilhar as minhas reflexões. As pessoas pareciam querer sangue, só porque o filme não podia ser facilmente definido ou interpretado ou reduzido a uma descrição de duas palavras. É um filme de terror, ou uma comédia negra, ou uma alegoria bíblica, ou uma fábula admonitória sobre a devastação moral e ambiental? Talvez um pouco de tudo o que se referiu anteriormente, mas certamente não apenas uma dessas categorias arrumadas.” 

Amanhã, a escolha de Rita Azevedo Gomes. 

Link
Imdb

domingo, 3 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "O Deserto dos Tártaros", de Valerio Zurlini

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo terceiro convidado é o grande cineasta português, verdadeiramente português, Manuel Mozos, que escolheu O Deserto dos Tártaros de Valerio Zurlini.

Sinopse: No meio do deserto, dentro de um forte, um grupo de soldados espera por um inimigo que tarda em chegar. Soldados e oficiais sobrevivem de forma honrada, tentando respeitar as regras. Mas os dias, os meses, os anos passam e absolutamente nada acontece. Sentindo-se espiritualmente encarcerado, o jovem tenente Drogo (Jacques Perrin) tenta obter um atestado médico que o isente da sua nova posição. Mas o seu pedido é recusado e Drogo não tem outro remédio senão adaptar-se a uma vida solitária e, a seu ver, claustrofóbica e inútil. Baseado no romance homónimo de Dino Buzzati, "O Deserto dos Tártaros" foi considerado o melhor filme do ano nos Prémios David di Donatello e valeu a Valerio Zurlini o Prémio David para melhor realizador. Com música de Ennio Morricone, autor das bandas sonoras de títulos como "Era Uma Vez na América" (1984), "Os Intocáveis" (1987), "Cinema Paraíso" (1989), "Lobo" (1994) e "A Lenda de 1900" (1998).

Sobre o deserto, Zurlini escreveu a páginas tantas de Pagine di un diario veneziano que “houve um hábito antigo e apaixonado de outras viagens para outras terras que me ligou com uma atracção invencível ao deserto como a um espaço de liberdade incontaminada que me era secretamente agradável e no qual nunca me conseguia sentir sozinho. […] É lindo imergir na sua solidão não ameaçadora que não nos acolhe mas também não nos rejeita, perdermo-nos na sua imensidão indiferente até ao cair da primeira escuridão, descobrir a fantasia de uma vegetação petrificada milenar, encontrar esqueletos alisados pelo sol ou os poucos animais antediluvianos que o habitam sem o pesadelo da sede: cancelar as dimensões do tempo numa calma profundíssima que acalma suavemente todas as inquietudes no coração.” 
Falando-nos sobre a sua escolha, Manuel Mozos disse que «este é o último filme de Valerio Zurlini, um cineasta de que gosto particularmente, muitas vezes ignorado ou posto de lado. Não existe acção neste filme, apenas um grupo de soldados perdidos num deserto, num sítio que nem sequer é claro, à espera que aconteça algo que mude as suas vidas. O filme é só essa espera. E é isso que eu acho fantástico.» 

Amanhã, a escolha de Zina Caramelo. 

Link
Imdb

sábado, 2 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “A Morte Espera no 322”, de Richard Quine

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo segundo convidado é a escritora e cinéfila Ana Teresa Pereira, que confessou a paixão por Kim Novak e as relações com Hitchcock, oferecendo-nos o texto abaixo.

Sinopse: O polícia honesto Paul Sheridan é incumbido de recuperar 200 mil dólares roubados de um banco. Ele e os seus outros colegas mantêm vigilância de 24 horas sobre Lona McLane, namorada de um dos assaltantes. Sheridan acaba por se apaixonar por Lona, que, quando descobre que ele é um polícia, tenta persuadi-lo a matar Harry Wheeler, de forma que os dois possam ficar com o dinheiro. No início, ele resiste, mas com o tempo concorda. Após o assassinato, Sheridan percebe que também tem de trair seu colega detective Paddy Dolan e enganar seu parceiro Rick McAllister e seu chefe Tenente Eckstrom e não deixar pistas. Quase toda a acção se passa à noite no apartamento em forma de U, onde Lona e uma testemunha chave, a vizinha Ann Stewart, vivem.


THE LITTLE BLACK DRESS 
ANA TERESA PEREIRA 


«Would it make any sense if I told you it’s never happened before?» 
«Maybe.» 
(“Pushover”) 

«Will you tell me something? Has this ever happened to you before?» 
«What?» 
«Falling… into San Francisco Bay.» 
(“Vertigo”) 


A rapariga é a mesma: Kim Novak. Os homens são Fred MacMurray e James Stewart. Para quem conhece “Vertigo”, ver “Pushover” pela primeira vez pode ser inquietante. Há elementos familiares: partes do diálogo, movimentos de câmara, cenas inteiras (Kim Novak a conduzir o automóvel e a parar junto à casa do homem que a persegue); o vestido preto que Scottie força Judy a usar quando tenta transformá-la em Madeleine (e que supostamente Hitchcock imaginara para Vera Miles), é o vestido preto de Lona em “Pushover”. Nas suas entrevistas com Truffaut, Hitch menciona o facto de Judy não usar soutien quando Scottie a encontra. No primeiro encontro de Lona e Paul, Quine filma-a de modo a tornar isso evidente.
“Pushover” foi o primeiro filme de Kim Novak. Foi também o princípio da sua história de amor com Richard Quine. Fizeram vários filmes juntos; o último e talvez o mais belo é “Strangers When We Meet” (a casa que, no filme, Kirk Douglas está a construir, era a casa que Quine ia oferecer a Kim). Quase nada no romance de Bill S. Ballinger, que inspirou o argumento de Roy Huggins, sugere a personagem de Lona no filme. Lona não é uma “femme fatale”; ela precisa de dinheiro (as pessoas são sujas, o dinheiro não) porque precisa de segurança. A forma como Quine a filma torna-a enternecedora, quase pura: uma rapariga apaixonada.
Hitchcock detestava Kim Novak. Mas a irrealidade de Madeleine, a presença carnal de Judy, não revelam isso. A câmara segue a actriz apaixonadamente, como a seguira três anos antes em “Pushover”. Esse foi um dos golpes de génio de Hitchcock. Filmar a actriz como um homem que a amava.

Amanhã a escolha de Manuel Mozos

Link
Imdb

Em Junho


"VAMPIR - CUADECUC" de Pere Portabella 

Muito mais a partir de Junho: 

"O Cinema espanhol no tempo de Franco"

sexta-feira, 1 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "Stromboli", de Roberto Rossellini

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo primeiro convidado é a realizadora e programadora Inês Sapeta Dias, que propôs Stromboli, o famoso filme de Rossellini, o que a levou a dispensar apresentações.

Sinopse: O primeiro filme de Rossellini com Ingrid Bergman (que “partiu de UNDER CAPRICORN para STROMBOLI”) marcou uma viragem importante no percurso do realizador e no da atriz. À época, Eric Rohmer comentou assim o filme: “STROMBOLI, grande filme cristão, é a história de uma pecadora tocada pela graça. (…) O autor de STROMBOLI bem sabe a importância que a sua arte pode dar aos objetos, ao lugar, aos elementos naturais do cenário. Dominando o poder que lhes confere, Rossellini faz deles os instrumentos da sua expressão, o molde de onde sairão os gestos e mesmo os impulsos dos atores”. Por muitas razões, uma das mais extraordinárias experiências em toda a história do cinema. “Este filme, duma beleza alucinante, é um filme sobre o cosmos. […] STROMBOLI é o poema da criação” (João Bénard da Costa).

No entanto, e continuando a sinopse, ficam mais algumas palavras de João Bénard da Costa: «Para se perceber os hasards deste filme tem que se começar pelo primeiro: Ingrid Bergman. A história é muito conhecida, Ingrid contou-a em pormenor nas suas célebres memórias (“My Life”), Rossellini também, e por isso a vou resumir. Foi por acaso – segundo ela jurou – que Ingrid Bergman, em 1948 a mais famosa e bem paga vedeta do mundo (é célebre a anedota hollywoodiana que refere como lugar-comum das conversas dos anos 40 “hoje vi um filme sem Ingrid Bergman”) entrou numa sala de cinema, para ver um filme de que nunca tinha ouvido falar: Roma, Città Aperta. O que viu maravilhou-a, pois que – Ingrid dixit – “nunca na minha vida tinha visto um filme assim, nem imaginava que os pudesse haver”. Voltou e voltou ao cineminha de bairro que projectava o filme de Rossellini, já “velho” de três anos. E amadureceu a decisão: escrever uma carta a Roberto Rossellini – Cinecittá – Roma – Itália, oferecendo-se para trabalhar com ele, fossem quais fossem as condições.
Este simples acontecimento marca uma revolução na história do cinema e na história de Hollywood. A mais célebre das stars – em percurso inverso ao de Greta Garbo, Marlene Dietrich, Vivien Leigh ou tantas outras – estava disposta a trocar a capital do cinema pela Europa e – mais do que isso – achava que se faziam melhores filmes na Europa do que em Hollywood. Vinte anos antes, Louise Brooks achara o mesmo e trocara Hollywood pela Lulu de Pabst. Mas este teve que insistir e Louise era um “bicho” muito raro e muito rebelde (aliás, pagou com a carreira essa rebeldia). Além disso, o cinema alemão de 28 tinha reputação comparável ao americano que, por isso mesmo, lhe roubou, um a um, todos os grandes (Lubitsch, Murnau, Leni, Jannings, Marlene e dezenas de outros). Ingrid Bergman era tudo menos rebelde (ou não tinha imagem de o ser), estava instalada em pleno star system (no alto do firmamento) e a crítica americana tratava sobranceiramente o incipiente cinema italiano dito “neo-realista”. Que o símbolo de Hollywood caísse aos pés do símbolo do neo-realismo (Roma, não Rossellini) é que era a revolução de que falei.
A carta de Ingrid chegou às mãos de Rossellini a 8 de Maio de 1948, dia em que o realizador festejava o seu 42º aniversário. Apesar do prestígio de Rossellini na Europa, apesar do êxito de filmes como Roma ou Paisà, o cineasta não acreditou no que lia. E julgou tratar-se de uma brincadeira de alguém decidido a ver até onde chegava a mania das grandezas dele. Nem respondeu.
Mas Ingrid insistiu e Rossellini acreditou mesmo. Foi até à América. Quando os estúdios perceberam o que se podia passar, usaram o velho ditado que manda juntarmo-nos aos que não podem ser vencidos. Roberto podia dirigir Ingrid mas em Hollywood, num filme aprovado por Hollywood. Isso era exactamente o que nem um nem outro queriam. E, em 49, sem dizer água vai (ou disse-o de outra maneira) Ingrid Bergman voou de Londres, onde filmara sob a direcção de Hitchcock Under Capricorn (que detestou) para aterrar em Roma e daí partir para a Ilha de Stromboli para filmar em décors naturais (o que jamais lhe havia sucedido) uma história escrita por muitos e mais ou menos em borrão.
O resto é conhecido. Ingrid apaixonou-se também por Rossellini e começou a viver com ele, ainda formalmente casada com o médico sueco que fora o seu primeiro marido. A escandaleira que isso deu só em parte foi ditada pelo romance heterodoxo (muitos houve antes, que os estúdios calavam, como tantos outros). A grande razão é que Hollywood não perdoou essa fuga e resolveu ter muito menos fair play do que teve – ao que parece – o marido “enganado”. Era preciso que Ingrid fosse esmagada e que o filme fosse um fiasco.
Quando Stromboli se estreou (distribuído pela RKO) e amputado e remontado, houve o fiasco. “When things get dull, they throw in a little sex” escreveu um reputado crítico americano da época. A frase valia mais para o que Hollywood fizera do que para o filme (com muito pouco sexo) e que não era o “20 minute travelogue of Stromboli in an 89 minute film”, como também se escreveu. E Bosley Crowther no “New York Times” advertia os leitores que “the much discussed Stromboli is neither good Bergman, good Rossellini, nor good anything”. E muitos anos passaram até que alguns happy few descobrissem a beleza desta obra, muitos anos avançada em relação à sua época, e que, ainda por cima, nada tinha de “neo-realista” no sentido usual do termo.
Mas um dos aspectos mais curiosos deste filme – para mim – é ver como Ingrid Bergman – menos “maquilhada” do que nunca, e jamais o fora muito – sem actores a seu lado capazes de lhe darem réplica (Mario Vitale ou Renzo Cesana, eram actores de secundaríssimo plano) e rodeada de povo, povo (não actores) manteve uma imagem que, para mim, é já a dos seus filmes de Hollywood. Sempre ela me pareceu como tanto escrevi (e pensem em Intermezzo, em Gaslight, em Spellbound, em Notorious ou em Under Capricorn) a permanente estrangeira que misturava à sua doçura a capacidade de ser a misteriosa detonadora das forças do mal. Parecia atrair masoquisticamente esse mal que chegava mais para desgraça dela do que dos outros. Ora, Stromboli, aparte muitas outras coisas e já lá vou, é isso mesmo: a mulher que vem doutro mundo (o campo de raparigas, a Checoslováquia) e, ao casar com Antonio e entrar em Stromboli, desencadeia não só a hostilidade popular (compreensível face à estrangeira) mas o oculto movimento das forças subterrâneas – acompanhando, imperceptivelmente o que se passa nos subterrâneos dela – até à explosão final, em todos os sentidos da palavra. Paradoxalmente, quando Rossellini julgou revelar ao mundo uma nova Ingrid Bergman, surgiu quanto a mim, o paradigma de tudo quanto Hollywood antes, nela, deixara entrever. E Stromboli é um filme sobre a progressão da auto-destruição de Karin-Ingrid, um filme em que, ao contrário do “nada se passa” que a crítica da época acentuava, tudo se passa no interior de Karin, num processo ditado não por acontecimentos mas por actos, que sinalizam tanto o conflito que opõe Karin ao espaço envolvente, como a metamorfose interior, jamais explicitada, da personagem. Estamos em pleno universo rosselliniano: “universo de actos puros, insignificantes por si próprios, mas preparando, mesmo a despeito de Deus, a súbita e maravilhosa revelação do seu sentido” (Bazin). » 

Amanhã a escolha de Ana Teresa Pereira.

Link
Imdb