segunda-feira, 2 de março de 2026

Elvira Madigan (Elvira Madigan) 1967


No final do século XIX, um oficial do exército sueco foge com uma equilibrista. Depois de um breve período de felicidade, durante o qual o isolamento e o perigo da situação se tornam cada vez mais iminentes, fazem um pacto de suicídio. É a tragédia romântica por excelência, uma admissão de derrota e um gesto de desafio.
À primeira vista, o filme entrega-se aos clichés visuais de um romance novelesco – todo aquele sol, os piqueniques tranquilos em prados floridos, os olhares indulgentes daqueles que, sem ainda conhecerem a história completa, apenas veem o amor jovem em plena floração. A câmara detém-se no rosto de Elvira, com a sua luminosidade e abertura, o puro prazer de estar viva e sentir estas emoções calorosas, e em Sixten, tão encantado que abandonou tudo para ficar com ela.
Mas, gradualmente, começam a surgir fissuras sob esta superfície brilhante, e torna-se cada vez mais claro que o idílio emocional que partilham é insustentável, o que, na verdade, é uma ilusão que só pode levar à destruição mútua. É aqui que as preocupações anteriores de Widerberg voltam ao foco: este casal romântico, por mais forte que seja o seu laço emocional, não pode existir fora da sociedade; mesmo os amantes precisam de uma comunidade para viver. O romance não pode sobreviver num vácuo social. Isolados, sem dinheiro, procurando alimentos na floresta, o amor azeda e o ressentimento começa a instalar-se.
“Elvira Madigan” é um filme incrivelmente belo. Quase todos os fotogramas poderiam ser considerados pinturas, e, no entanto, o filme é vibrante e cinematográfico, não se limitando a fotografias de imagens bonitas.
Legendas em inglês.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Raven´s End (Kvarteret Korpen) 1963


Um aspirante a escritor (Thommy Berggren) enfrenta a vida numa pequena cidade sueca com o seu pai alcoólico (Keve Hjelm), a mãe trabalhadora (Emy Storm) e a sua namorada (Christina Framback), enquanto sonha com o sucesso na grande cidade.
Winterberg, depois de "The Baby Carriage", realizou outro filme sobre o quotidiano, Kvarteret Korpen (Raven’s End, 1963), estreado apenas nove meses depois do seu filme anterior, e que se passava na cidade natal do realizador, Malmo, durante os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, cujo progresso acompanhamos em transmissões radiofónicas ao longo do filme. Anders, o protagonista, é filho de uma família operária que vive num bloco de apartamentos com vista para um terreno baldio e desolado, o que confere ao prédio e aos outros bairros o ambiente de celas que rodeiam um pátio de uma prisão.
Widerberg cria uma sensação de comunidade com relações que variam entre calorosas, solidárias e espinhosas, como se vê na história de Anders, que aspira ser escritor. As escolhas pessoais de Anders são ofuscadas, e premeiam a sua narrativa, com forças históricas maiores do que a Grande Depressão, e a ascenção do Nazismo na Alemanha. Cada escolha individual existe dentro de um contexto de forças históricas, cada vida é uma luta para encontrar significado e propósito contra essas forças.
Foi nomeado ao Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, e tem legendas em inglês.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

The Baby´s Carriage (Barnvagnen) 1963


A longa metragem de estreia de Bo Widerberg transpira a frescura da juventude. Partido da sua critica cinematográfica que clamava por um cinema sueco socialmente relevante o critico que se tornou realizador oferece um retrato vivido de uma jovem operária (Inger Taube) que procura a sua independência ao lidar com uma gravidez inesperada, aprender duras lições com dois homens muito diferentes, e deixar para trás a única casa que alguma vez conheceu.

Embuído de um naturalismo documental o filme tem uma estrutura fluída, que evita pôr enfase dramática em momentos individuais, permitindo que eventos e personagens surjam e assumam importância como fariam no fluxo normal da vida. Com o apoio da fotografia monocromática, fria e bela, do também realizador Jan Troell, Widerberg dá um primeiro passo ousado na sua missão de criar um cinema envolvente. 

Legendas em inglês


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bo Widerberg e a Nova Vaga do Cinema Sueco

 No inicio da década de 60 Ingmar Bergman era sinónimo de cinema sueco. Sombrio, mergulhado numa aparente crise interminável de fé e dúvida, os filmes dele afastavam o mundo real da politica, da economia e da rotina diária, em busca de um Deus que teimosamente permanecia oculto das personagens que procuravam desesperadamente a confirmação que ele de facto existia.

Para o escritor e critico Bo Widerberg, isto era revoltante, e em 1962 publicou um manifesto intitulado "Vision in Swedish Cinema", no qual ele criticou duramente Bergman, no meio de uma critica mais geral à própria industria cinematográfica sueca. As suas ideias tinham uma semelhança evidente com a Nouvelle Vague francesa, assim como outras novas vagas que se encontravam propagação em várias cinematografias mundiais. Widerberg iniciava assim um movimento determinado a derrubar tradições que considerava desligadas das complexas realidades da vida e da politica contemporâneas. 

Ao contrário dos franceses, Widerberg citou também os dramas realistas do novo movimento cinematográfico britânico, que surgiu no final da década de 50, filmes que, pela primeira vez, ofereciam uma critica incisiva a um sistema de classes decadente e trataram a vida da classe trabalhadora como um tema digno de reflexão. 

Pouco depois de publicar a sua critica, o passo lógico era começar a fazer filmes. Serão esses filmes de Bo Widerberg que iremos ver este mês por aqui. Por isso, fiquem atentos.



domingo, 25 de janeiro de 2026

Born to Kill (Born to Kill) 1947

 


Helen (Clair Trevor) acaba de se divorciar  em Reno, e regressa à pensão onde está hospedada para acertar contas. A dona da pensão conversa animadamente com uma das inquilinas, Laury, que lhe fala do seu novo namorado. O segundo, já agora...Nessa noite, Helen vai a um casino onde um dos apostadores lhe chama a atenção. Ela não sabe que ele é Sam Wilde (Lawrence Tierney), o outro namorado de Laury, que num ataque de ciúmes a assassina e ao outro homem, e é Helen quem encontra os corpos. No entanto, ela não chama a polícia...

Muito antes de "Reservoir Dogs" (1992) ou interpretar o pai de Elaine em "Seinfeld", Lawrence Tiernay era um dos mais duros do cinema noir, e nunca foi tão duro ou cruel como neste "Born to Kill". A sua interpretação no papel principal de "Dillinger" (1945) tornaram-no na primeira escolha para papéis que precisavam de uma brutalidade implacável. Com uma voz rouca e traços marcantes, era uma boa escolha para o lado mais sombrio do Noir, e poucos conseguem ser tão sombrios como este "Born to Kill". 

O filme é baseado em "Deadlier than the Male" o primeiro livro de James Edward Gunn, escrito no âmbito de uma aula de literatura, e aproveitaria o seu sucesso para seguir uma carreira como argumentista, em obras como "The Young Philadelphians" (1959). A realização é de Robert Wise.

Legendas em inglês.


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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A Escada de Caracol (The Spiral Staircase) 1946


 Uma pequena cidade de New England é assolada por uma série de assassinatos cujas vitimas apresentam alguma deficiência física, e tudo indica que uma criada surda-muda (Dorothy McGuire) seja a próxima vitima do assassino.

Robert Siodmak, acabado de saír do seu trabalho na Universal, infunde no filme a elegância sinistra do Expressionismo Alemão. A sua câmara desliza pela casa dos Warren, provocando-nos vislumbres de vistas através de espelhos e corrimões, como se fossemos um observador invisível. O frame mais icónico do filme é, sem dúvida, o seu grande plano do olho do assassino e o seu reflexo na escadaria que dá nome ao filme.

Adaptado do romance "Some Must Watch" de Ethel Lina White, é uma das joias da coroa da tradição das "old dark house". Além de Dorothy McGuire conta com um elenco interessante, com George Brent, Ethel Barrymore, Rhonda Fleming, e Elsa Lanchester.

Legendas em inglês.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Noite na Alma (Experiment Perilous) 1944


Jacques Tourneur facilmente circula da série B para a série A, como está explícito neste "Experiment Perilous". O argumentista Warren Duff localiza este elegante melodrama de mistério no romance de Margaret Carpenter de 1943, mas aparentemente é mais inspirado nos thrillers psicológicos como Gaslight, Laura e Rebecca. 

Uma mistura de emoções, psicologia e patologia. Em 1903, o doutor Huntington Bailey (George Brent) encontra uma senhora idosa e amigável no comboio. Ela diz-lhe que vai visitar o irmão (Paul Lukas) e a sua linda e jovem esposa (Hedy Lamarr). Em Nova York, Huntington ouve dizer que a sua companheira do comboio morreu repentinamente. Conhece o casal Lamarr-Lukas, e fica desconfiado do tratamento de Lukas para com a esposa, e sua tentativa de fazê-la passar por louca. Uma confusão nos sacos revela o diário da senhora falecida, que confirma as dúvidas de Brent. Ele tenta salvar Lamarr, por quem agora está apaixonado. 
Lançado no mesmo ano que "Gaslight" de George Cukor (1944), este melodrama da era vitoriana realizado por Jacques Tourneur está igualmente preocupado com as ramificações mortais da desconfiança conjugal e a manipulação psicológica. A sua sequência de abertura, a ter lugar num comboio, é uma reminiscência de "The Lady Vanishes" (1938), de Hitchcock, como George Brent a encontrar e fazer amizade com uma misteriosa mulher mais velha (Olive Blakeney), que lhe oferece a sua "marca especial de chá". Blakeney está excelente na sua breve aparição, mas o seu personagem é morto, a fim de pôr em movimento a cadeia de eventos que acabará por levar a paixão de Brent com a linda cunhada de Blakeney, uma mulher igualmente misteriosa. 
Foi nomeado para um Óscar, de "Best Art Direction-Interior Decoration, Black-and-White".

sábado, 3 de janeiro de 2026

Não Matei (Stranger on the Third Floor) 1940


Mike Ward (John McGuire) é um repórter que testemunha os momentos finais de um assassinato e decide testemunhar contra o homem que ele acredita ser o assassino. Logo depois depara-se com um estranho e sinistro (Peter Lorre) a rondar o seu prédio, e começa a questionar: será que de certeza que o homem que ele indicou era realmente o assassino? De seguida, um segundo homem aparece morto. Mike está agora convencido que ajudou na condenação do homem errado.

Muitos historiadores do film Noir fazem remontar as suas origens  à era do cinema mudo, e ao seu florescimento durante a guerra, mas a maioria concorda que o primeiro verdadeiro "film noir" americano surgiu na modesta produção de um ambicioso thriller de baixo orçamento, de 1940. Antes do mundo implacável dos detetives privados suspeitos, das mulheres triçoeiras, e da selva urbana noturna onde acordos e traições eram orquestrados com consequências normalmente fatais, havia este "Não Matei",um thriller que apesar das suas limitações orçamentais leva o espectador numa espiral de paranoia justificada. 

Realizado por Boris Ingster, um realizador da Letónia que se estreia atrás das camaras e que ao mesmo tempo era um dos primeiros expatriados da Europa causado pelo inicio da Segunda Guerra Mundial. O antagonista é Peter Lorre, que já tínhamos visto muito bem como assassino em "M" de Fritz Lang, e que aqui também fazia uma das suas primeiras participações no cinema americano.

Legendas em inglês


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