quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Último Filme (The Last Movie) 1971

Um filme rodado no Perú corre extremamente mal quando um actor morre numa sequência de duplos, e um dos profissionais, Kansas (Dennis Hopper), decide desistir da produção e ficar numa aldeia, para se envolver com a prostituta Maria. Mas os seus sonhos de uma existência sem problemas são interrompidos quando o padre da aldeia lhe pede ajuda para fazer com que os habitantes da aldeia não se matem uns aos outros, ao tentar encenar as cenas do filme.
Depois do sucesso de "Easy Rider", em 1969, Dennis Hopper era o novo messias do cinema. Filme que era uma ode à contracultura, e que facturou 50 milhões de dólares, provocando uma reviravolta na indústria. Hopper ficou com carta livre para fazer o filme que quisesse, e assinou contracto com a Universal, para realizar este "The Last Movie". Era um projecto antigo do actor, que já vinha desde 1958, que só agora conseguia meter em produção. O argumento era escrito a meias com Stewart Stern, o argumentista de "Rebel Without a Cause", onde Hopper também colaborara.
Com um orçamento de mais de um milhão de dólares, mais do que o dobro de "Easy Rider", Hopper construiu cenários a mais de quatro mil metros de altitude, envolvendo alguns amigos, entre os quais Peter Fonda e Samuel Fuller, que também participaram nas rodagens. A montagem do filme demorou mais de um ano, para terminar com uma narrativa difícil, onírica, e fragmentada.
Apesar de ter ganho um prémio em Veneza, o filme foi massacrado pela crítica e pelo público, saíndo das salas de cinema em apenas duas semanas. Diz-se que Hopper até foi agredido na estreia, por uma estudante. Mesmo assim, ainda houve quem considerasse o filme visionário, muito à frente no seu tempo.

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Caçada Implacável (The Hunting Party) 1971

O rico e cruel rancheiro Brandt Ruger (Gene Hackman) mantém a sua bela e jovem esposa, Melissa (Candice Bergen), como se parte da sua propriedade fosse, subjugando-a à sua vontade. Um dia ela é raptada por um famoso fora-da-lei Frank Calder (Oliver Reed), para que o ensine a ler. Calder não se importa de quem ela é esposa, e trata bem dela, o que a leva a apaixonar-se por ele.Mas Ruger sente-se humilhado, cheio de ódio e parte numa caçada, para matá-lo, e a ela também, se for preciso. Com os seus homens leva a mais nova tecnologia em armas, e inicia uma batalha mortal contra Calder e o seu gang.
Há poucos filmes com uma reputação tão má como "The Hunting Party". É um filme cruel, e não tem medo de ofender o seu público, e essas são apenas as partes positivas... Enquanto a maioria dos críticos consideraram o filme nada mais como uma desculpa mesquinha para ganhar dinheiro com incentivos fiscais espanhois (o filme foi todo rodado em Espanha), e explorar a atitude permissiva à violência iniciada com "The Wild Bunch", dois anos antes, é na realidade uma representação tensa e e razoavelmente inteligente da obsessão e dos seus efeitos prejudiciais.
O veterano da TV Don Medford lida com as coisas mais competentemente do que a maioria dos seu contemporâneos no território dos filmes de baixo orçamento, como é este "The Hunting Party", fazendo a história progredir na velocidade correcta, e obtendo boas interpretações de um elenco multi-nacional.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Le Frisson des Vampires (Le Frisson des Vampires) 1971

Isle e Antoine chegam ao castelo ancestral dela, para descobrir que os seus primos estão mortos, e a casa está a ser cuidada por duas empregadas (Marie-Pierre Castel e Kuelan Herce) e ficam ainda mais assustados quando os primos aparecem para jantar. aos poucos descobrem que os primos de Isle eram assassinos de vampiros, que caíram sob a influência de Isolde, que agora tenta trazer Isle para o seu rebanho.
A estética visual de Jean Rollin torna esta fantasia/pesadelo sobrenatural com cores brilhantes, irreais, num filme bastante sombrio. A narrativa é reduzida a quase nada, com os recém-casados a chegarem ao castelo, a presenciarem estranhos acontecimentos, vagueando pelos corredores sujos, e pisando o soalho em decomposição. É uma narrativa perpetuamente suspensa, e tudo isto tem uma textura de um sonho, completo com a sua própria simbologia.
Era o quarto filme de Jean Rollin sobre vampiros.

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A Mulher do Padre (La Moglie del Prete) 1970

Ao descobrir que o seu namorado é casado, uma jovem mulher tenta suicidar-se, parando apenas para telefonar para uma linha de ajuda. Vai parar ao hospital, onde conhece o padre que lhe atendeu a chamada da linha de ajuda. Tenta seduzi-lo, e ele sucumbe aos seus encantos, mas logo se apercebem que o problema é o Santo Voto de Celibato dele...
Produzido por Carlo Ponti, e pela sua esposa, que também é a actriz principal, Sophia Loren, que tiveram uma grande batalha contra o Vaticano, e o governo Italiano por causa da falta de legislação do governo sobre o divórcio.
Dino Risi, com muito humor, faz uma crítica profunda ao celibato exigido aos sacerdotes da igreja católica. Para além de Sophia Loren, conta ainda com Marcello Mastroianni no principal papel.

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domingo, 2 de agosto de 2015

Viva a Morte (Viva la Muerte) 1971

No final da Guerra Civil espanhola, Fando, um rapaz de 10 anos de idade, tenta encontrar sentido na guerra e na prisão do pai. A mãe religiosa é solidária com os fascistas, e o pai é acusado de ser comunista. Fando descobre que a mãe pode ter culpas na prisão do pai. Vemos Fando a imaginar explicações para o que está a acontecer, outras vezes vemo-lo a brincar sozinho ou com a amiga Thérèse. Fantasias edipianas e a curiosidade de um rapaz sobre sexo e morte, em conjunto com a sua busca pela natureza da sua mãe e o destino do seu pai. Será que Fando irá sobreviver a esta busca?
Junto com o cineasta Alejandro Jodorowsky e o artista Roland Topor, Fernando Arrabal formava o surrealista "Panic Movement", 1962. Jodorowsky foi o primeiro a estrear-se na realização, com "Fando y Lis", vagamente adaptado do livro de Arrabal com o mesmo nome, um trabalho estranho de sequências visuais inesquecíveis. Rmbora ambos os realizadores tenham nos seus filmes diferentes pontos de vista distintos e enigmáticos, a versão de "Viva La Muerte", de Arrabal, é de longe muito mais linear e acessível do que a abordagem de Jodorowsky.
"Muerte" deriva dos esforços de Arrabal em compreender o destino do seu próprio pai, um anti-fascista que esteve preso durante a Guerra Civil espanhola, mas ao contrário da personagem deste filme, o pai de Arrabal conseguiu fugir em 1942, desaparecendo sem deixar vestígios. Estes acontecimentos deixaram marcas no futuro realizador, que o levou a criar este pequeno grande filme.

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O Sol Branco do Deserto (Beloe Solntse Pustyni) 1970

Um soldado do Exército Vermelho chamado Sukhov tem lutado na Guerra Civil Russia por muitos anos. Quando está quase a regressar para casa, para ir ter com a sua esposa, é-lhe incumbida a missão de proteger o harém de um líder guerrilheiro. Este é procurado pelo Exército Vermelho, fugiu e deixou para trás todas as suas mulheres. A missão que parecia fácil, torna-se mais difícil do que aparentava...
O estatuto de "O Sol Branco do Deserto" na Rússia, só pode ser comparado ao estatuto de filmes como "Star Wars", "The Godfather" ou "Gone With the Wind" no Ocidente. Vladimir Motyl disse que filmes como "Stagecoach" ou "High Noon" o influenciaram, e descreveu-o como sendo um "cocktail" de contos de aventuras russos com westerns. Inicialmente o filme foi oferecido a vários realizadores, que o recusaram, como Andrei Tarkovsky ou Andrei Konchalovsky. Este segundo, disse que apenas um actor americano poderia ser protagonista, e que o argumento era fraco. Até mesmo o próprio Motyl começou por recusar a oferta, mas depois acabou por aceitar porque não teve alternativas de trabalho. 
Acabou por se tornar um sucesso, ultrapassando os 34 milhões de espectadores no seu país de origem. Em 1988 recebeu um prémio do presidente Boris Yeltsin por ser culturalmente significante. Mesmo assim continua a ser pouco conhecido no Ocidente.

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O Passageiro da Chuva (Le Passager de la Pluie) 1970

Uma jovem e bonita mulher, no Sul de França, é perseguida, e de seguida violada por um misterioso assaltante mascarado. Ela mata-o logo depois, e atira o seu corpo para o mar. Mais tarde aparece um investigador americano (Charles Bronson), que para horror dela, parece saber tudo o que ela fez...
Uma vez Charles Bronson disse que fez alguns dos seus melhores filmes na Europa, mas que infelizmente poucos os viram na América. É o caso deste "Le Passager de la Pluie", realizado por René Clément, autor de grandes filmes como "Jeux Interdits", ou "Plein Soleil". Neste ponto, a carreira de Clément estava a entrar em declínio, mas ainda assim o filme conseguiu conquistar um Globo de Ouro para Melhor Filme em Língua Estrangeira.
Cada shot, e cada cena, tem um estilo evocativo, particularmente no inicio. A iluminação, o trabalho de câmara, a montagem e a banda sonora de Francis Lai, são todos de primeira. Há tons fortes reminiscentes de Hitchcock, mas tal como em Hitch os actores tornam-se meros peões para mostrar a visão do realizador sobre a história.
Diz-se que a música "Riders on the Storm" dos Doors foi inspirada por este filme.

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sábado, 1 de agosto de 2015

Onde Fica a Guerra? (Which Way to the Front?) 1970

Brendan Byers III (Jerry Lewis), um dos homens mais ricos da América, foi declarado inapto pelo serviço militar, e não pode servir o seu país na luta contra Hitler. No entanto, Byers é daquele tipo de pessoas que não aceita um não como resposta, e assim reúne um exército de outros recrutas declarados inaptos, para lutarem contra os Nazis.
Uma das duas realizações de Jerry Lewis em 1970. Foi retraçado pela crítica na altura que estreou, e, desta vez, nem os críticos franceses lhe valeram. Hoje em dia é considerado por muitos fãs como o pior filme de Lewis como realizador. A realização de Lewis era composta por duas câmaras diferentes, que filmavam a acção em ângulos diferentes, para de seguida serem editadas em conjunto. Este tipo de realização resultava na televisão, mas aqui é uma tentativa óbvia de enganar o público. Jerry Lewis é realizador e produtor, e coloca a acção a passar-se em 1943, só que não faz nenhuma tentativa dos actores vestirem roupas daquele tempo, ou de usar cenários de acordo com a época. São erros atrás de erros, que levou muita gente a considerá-lo das piores comédias de sempre.
A versão aqui presente é um TV Rip, já que o filme é difícil de se encontrar.

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El Condor (El Condor) 1970

Luke (Jim Brown), um fugitivo, e Jaroo (Lee Van Cleef), um prospector de ouro solitário, juntam-se a um grupo de índios Apaches, no México do Século XIX, para capturar uma grande fortaleza, fortemente armada para proteger os milhões (ou bilhões) de dólares em ouro, que lá dizem estar armazenado.
O western violento ganhava cada vez mais destaque, sobretudo depois do sucesso de "The Wild Bunch", de Sam Peckinpah. Realizado em 1970, no mesmo ano de "Soldier Blue", que levantou muitas ondas de choque pela violência tão gratuita, "El Condor" é um filme que deve muito ao western spaghetti. Tem uma das suas principais estrelas, Lee Van Cleef. Foi filmado na região de Almeria, local onde, como se sabe, foram rodados a maioria destes filmes. Mas ficou-se por aí.
Na realização tínhamos John Guillermin, um realizador tarefeiro normalmente encarregado de filmes de acção, veio mais tarde a realizar obras de destaque, como "The Towering Inferno" ou "King Kong". E o argumento é da autoria de Larry Cohen, que ainda não tinha 30 anos nesta altura, e que quatro anos depois iniciaria a saga "Its Alive". Este "El Condor" é um filme de interesse moderado.

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Ned Kelly (Ned Kelly) 1970

Baseado numa história verdadeira, Ned Kelly é incapaz de sustentar a sua família, no interior australiano, e vira-se para o roubo de cavalos, a fim de ganhar algum dinheiro. À medida que vai roubando cavalos, vai ficando cada vez mais atraído pela vida de fora da lei, até que se vê envolvido em assassinatos.
Dois factos importantes saltam à vista neste filme, que apesar de ter sido todo rodado na Austrália, é uma produção britânica. Primeiro é a realização de Tony Richardson, um realizador que estava intimamente ligado ao movimento da Nova Vaga do Cinema Britânico, sobre o qual tinha realizado alguns dos melhores filmes, como "Tom Jones", "The Entertainer" ou "The Loneliness of the Long Distance Runner". "Ned Kelly" acabaria por ser o seu pior filme, até esta altura. Depois, seria a estreia de Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, no mundo do cinema. 1970 seria um ano chave para a sua carreira, já que também protagonizou o excelente "Perfomance", de Nicolas Roeg, mas Jagger só voltaria às longas metragens, 16 anos mais tarde.
De resto, não há muito mais a dizer, a não ser que é um western disfarçado de biopic, baseado na famosa história de um fora da lei australiano que viveu no século XIX. Uma curiosidade.

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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Cérebro de Aço (Colossus: The Forbin Project) 1970

Colossus é um computador incrivelmente sofisticado que irá controlar todas as defesas nucleares americanas. Pouco depois de ser ligado, detecta a existência de Guardian, a contraparte soviética, anteriormente desconhecido para os designers de Forbid. Ambos os computadores insistem que devem estar ligados entre si, e depois de tomar salvaguardas para preservar material confidencial, ambos os lados satisfazem as vontades dos computadores. Assim que a ligação é estabelecida, os dois tornam-se um novo super-computador, e ameaçam o mundo com o lançamento imediato de bombas nucleares.
Apenas dois anos depois de "2001", de Kubrick, e quatorze antes de "Terminator", havia outro, menos conhecido, conto sobre as máquinas a tomarem controlo da humanidade, e tentar erradicá-la. Medos e incertezas sobre o progresso da tecnologia, e o papel da ciência na modernidade, eram uma preocupação nas narrativas dos filmes de terror, e ficção científica, e foi sobre este domínio que nascia este pequeno filme de Joseph Sargent, com argumento de James Bridges.
O tempo acabaria por dar-lhe um estatuto de culto, e é um dos melhores filmes sobre computadores malvados.

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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crimes do Futuro (Crimes of the Future) 1970

Um jornalista, curiosamente chamado de Adrian Tripod, investiga a morte de quase todas as mulheres adultas na terra. Descobre que as mortes podem ter sido causadas por cosméticos venenosos, fabricados por uma empresa que também está envolvida na gestão de uma rede internacional de prostituição juvenil.
Realizado por David Cronenberg com um orçamento quase mínimo, é a segunda aventura do realizador no campo da realização, depois de "Stereo". Filmado a cores e a 16 milímetros, usando a arquitetura moderna de Toronto, e, no fundo, é um pseudo-documentário mudo com uma voiceover como narração, numa voz com pouca emoção. É um filme de sci fi surreal, apresentado como uma farsa de humor negro.
Cronenberg neste filme escolar imaturo explora um mundo de mutações genéticas, e apresenta temas que no futuro serão parte importante da sua obra, como a incapacidade do homem moderno de tratar de doenças que ele próprio causou, corpos monstruosos, e problemas de cariz sexual. É, sobretudo, um filme para os fãs mais antigos do realizador, que provavelmente não conhecem esta obra.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Umut (Umut) 1970

"Umut" é a história de um homem analfabeto, e da sua família, cuja existência depende do seu salário como taxista de charretes. Quando um dos seus cavalos é morto por um carro, e quando fica claro que nem a justiça nem a caridade o irão ajudar, o homem, interpretado por um dos realizadores, Yilmaz Güney, começa uma lenta queda para o desespero. Seguindo o conselho de um homem santo local, e alimentado por um optimista incansável, ele parte para o deserto em busca de um tesouro mítico perdido.
Parte realismo social na sua descrição da situação dos mais desfavorecidos contra a economia transformada de uma Turquia cada vez mais modernizada, e parte existencialismo poético no retrato psicológico de um homem desesperado prestes a sucumbir à fé ilusória, "Umut" de Yilmaz Güney e Serif Gören capta o ambiente precário de uma nação numa encruzilhada política e económica.
Nunca estreou em Portugal ou no Brasil, e esta dupla de realizadores só conseguiu fama internacional quando venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1982, com "Yol". Ainda estávamos a 10 anos de distância, e nesta altura era difícil a filmes turcos de serem exibidos fora do país.
Uma nota de interesse, a casa do personagem principal é também a casa onde Yilmaz Güney cresceu. 

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A Vontade de Um General (Uomini Contro) 1970

Norte da Itália, a Primeira Guerra Mundial atravessa um impasse sangrento. Atolados nas suas trincheiras, é dado um objectivo a uma divisão de infantaria italiana: retomar um alto posto de comando que está nas mãos do inimigo. Infelizmente, a ingenuidade táctica do General Leone, o pouco popular comandante da divisão, consiste em atacar o inimigo com ataques frontais contra poderosas metralhadoras. As tropas estão desmoralizadas, o número de vítimas aumenta, e a indignação espalha-se entre as fileiras. Perturbado pela decisão dos seus superiores, o tenente Sassu é progressivamente levado a questionar-se sobre o propósito da guerra...
Realizado por Francesco Rossi, "Uomino Contro" está provavelmente, para sempre destinado a ser comparado com "Paths of Glory" de Stanley Kubrick, e as similaridades não são apenas superficiais. Em primeiro lugar sublinham a desumanidade pura e absurda do que era lutar nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, através de uma variedade de técnicas formais cuidadosamente afinadas, para chegarem a uma condenação apaixonada, e persuasiva da guerra. Mas o filme de Kubrick nunca atinge os níveis de raiva ostensiva que o de Rosi atinge. A fúria da guerra é visceralmente sentida cena após cena, num movimento pulsante, e numa explosão sonora.
Sendo um filme de Francesco Rossi, tem contornos políticos, e a presença habitual de Gian Maria Volonté num dos principais papéis.

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A Orelha (Ucho) 1970

Uma breve noite paranóica na vida de  Ludvík (Radoslav Brzobohatý) e Anna (Jiřina Bohdalová), um casal cáustico. Ludvík é um oficial do ministério que se encontra sob suspeita quando o seu superior e outros colegas são presos e detidos para interrogatório. Ao chegar a casa, depois de cumprir funções no partido, ele e Anna encontram a energia e o telefone desligados. Também há carros estacionados perto, e homens rondando o jardim. O pânico instala-se dentro da casa escura e desarrumada, e o casal teme que a "orelha" ouça tudo o que eles dizem e fazem.
Realizado pelo checo Karel Kachyna, "Ucho" teve de esperar 30 anos para finalmente ser visto, no festival de Cannes de 1990. Kachyna escreveu, dirigiu e produziu um filme que audaciosamente questionava os métodos do Partido comunista. Filmado a preto e branco, este estudo sobre a paranoia e o desespero foi compreensivelmente proibido pelo Pacto de Varsóvia pouco tempo depois de estar terminado. 
Um belo exemplo do cinema político que se fazia na Europa do leste nesta altura. 

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Anos Setenta, Esses Esquecidos...



A década de setenta abria com Hollywood a passar por uma depressão financeira e artística, mas acabou por se tornar um ponto alto criativo na produção cinematográfica. Restrições à linguagem, conteúdo adulto, sexualidade, violência, soltaram-se e tornaram-se mais difundidos. O movimento hippie, o movimento dos direitos civis, o amor livre, o crescimento do rock and roll, a mudança de sexo, e o uso de drogas tiveram um grande impacto nas mentalidades, e no cinema em si. Hollywood e o cinema renasceram com o colapso anterior do cinema de estúdio e as obras de muitos jovens e experimentais cineastas tornaram-se mais difundidas.
A contra-cultura da época ensinou o cinema a ser mais livre, a assumir mais riscos, e a experimentar novas alternativas. Muitas das audiências do final dos anos 60, já tiveram um vislumbre de novas possibilidades, novas técnicas de contar histórias e opções artísticas mais significativas, pelas influências dos movimentos das "novas vagas" europeias, e obras originais de cineastas de outras línguas.


No mês de Agosto o "My One/Two Thousand Movies" completa 7 anos a distribuir filmes pelas gentes da língua portuguesa, e para comemorar o facto convida os seus leitores a uma viagem pelos anos da década de 70, mas uma viagem ao contrário. Vamos deixar de lado todos esses grandes sucessos, quer de crítica como de público, os premiados e Óscarizados, e vamos ver os menos conhecidos. Primeiras obras ignoradas de futuros grandes realizadores, últimas obras de realizadores esquecidos, obras intermédias que foram um fiasco, ou filmes simplesmente esquecidos. Vai ser uma longa viagem pela contra-contra cultura dos anos 70, onde visitaremos os quatro cantos do mundo.

Ao todo serão setenta filmes, que serão postados aqui a um ritmo muito maior do que é normal, e por isso com textos mais curtos, mas sobretudo, esperemos que seja uma viagem divertida. Obrigado a todos por seguirem o blog, e o ciclo começa já amanhã, até ao fim de Agosto. Espero que gostem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Tirania (Goyokin) 1969

Tatsuya Nakadai interpreta um samurai perseguido pela culpa pela sua parte inconsciente no massacre de uma pequena aldeia. Agora é um ronin, e fica a saber que o seu antigo clan pretende fazer outro massacre a outra aldeia. Determinado a detê-los, ele irá passar por grandes dificuldades, na tentativa de se redimir do erro do passado.
"Goyokin", de Hideo Gosha, é um filme absorvente, incrível visualmente, embora pouco visto, de entre os filmes de samurais, que consideras temas como a honra, o dever e a lealdade, mas fá-lo com um toque dinâmico, e uma sensação não muito subtil de indignação com o derramamento de sangue, para ganho pessoal ou político. 
Ao longo do filme, Gosha encontra maneiras criativas de ensaiar a acção (uma sequência envolvendo um Nakadai capturado é extremamente inteligente), com confiança,  que demora o seu tempo para que o público compreenda os pormenores do que está a acontecer, e usando o mesmo método de Kurosawa, que coreografava as suas cenas de modo a que o espectador pudesse perceber o local geográfico onde estavam situados, e a relação entre os personagens que estavam de cada lado.Outros aspectos da produção eram impecáveis, como a fotografia deslumbrante de Kozo Okazaki, ou a superba banda sonora de Masaru Sato.
O filme parece ter sido uma colisão feliz de talentos de fontes diferentes. Era uma co-produção entre a Tokyo Eiga (uma divisão da Toho) e a Fuji Television, com quem Gosha tinha contrato. A maior parte dos actores eram free-lancers, embora Ruriko Asaoka há anos que tinha contrato com a Nikkatsu, e Natsuyagi  fosse emprestado pela Toei. O sucesso desta e de outras grandes produções do final dos anos sessenta levaria a mais do mesmo em 1970-71, muitas vezes com combinações entre Nakamura, Asaoka, Toshiro Mifune, Shintaro Katsu, e Shintaro Ishihara, mas nenhum deles iria atingir a grandeza de "Goyokin".
 

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domingo, 26 de julho de 2015

Kill! (Kiru) 1968

Dois Ronins Genta (Nakadai) e Hanjiro (Takahashi) viajam até uma cidade empoeirada atraídos pelo facto de saberem que um chefe local procura espadachins. Uma vez lá ficam a saber que este chefe é um bandido, e cruza com sete jovens samurais, que pretendem assassinar o chefe.Genta avisa os sete jovens sobre o mal que eles estão a fazer, e é ignorado. Os dois ronins vão dar consigo em diferentes lados da barricada, quando Hanjiro se junta ao lider local Ayuzawa (Koyama), e Genta fica com os jovens samurais. Ayuzawa ordena aos seus homens para localizarem os samurais, e contrata um grupo de ronins para os matarem.
Realizado por Kihachi Okamoto, é um filme reminiscente do spaghetti western, salpicando a sua história de sete aprendizes de samurais em luta contra um corrupto poderoso, com uma banda-sonora muito peculiar de Masuru Sato, claramente influenciada por Morricone, e onde não faltam as cidades empoeiradas dos spaghetti westerns. De facto, pode ser visto como próximo da sequela de "Yokimbo", "Sanjuro", já que ambos os filmes partilham a mesma fonte. No entanto, enquanto "Sanjuro" girava em torno da personagem de Mifune, falta ao filme de Okamoto o foco numa personagem idêntica, e é fácil para o espectador se perder no meio das duplas e triplas traições que ocorrem ao longo do enredo. Mas, para um filme desta envergadura, o enredo acaba por ser o menos importante, já que a acção é para onde deve estar virada a nossa atenção.
Em vez de defender a lealdade e o serviço como a maioria dos filmes de samurais fazia, termina com os samurais a deixarem o seu mestre, e as prostitutas e as prostitutas libertadas das suas obrigações. Em 1968, um filme com esta mensagem, tinha muito mais a ver com os ideais de JFK ou Martin Luther King. Com todo este material intelectual, as lutas também acabam por ser muito bem feitas, e o humor funciona como o de muitos filmes cómicos americanos. E depois, também temos o prazer de ver um Tatsuya Nakadai em forma, que é sempre um filme dentro de outro filme.

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Samurai Rebellion (Jôi-Uchi: Hairyô Tsuma Shimatsu) 1967

No Japão, em 1725, durante um tempo de paz, Isaburo um samurai veterano pertence a um clã local, leva uma vida tranquila com o filho e a esposa. Mas um dia, a sua honra e os seus princípios morais entram em conflito aberto com os do seu clã. O confronto é inevitável e vai ter consequências inesperadas.
Masaki Kobayashi apresenta-nos um exame sublime e assombroso da desumanidade, conformidade e abuso do poder, em Samurai Rebellion. Através de composições altamente formalizadas e meticulosas, Kobayashi reflecte o rígido código de conduta, o comportamento estruturado e a supressão da vontade individual que definem a existência diária sob o domínio de Tokugawa. As sequências panorâmicas em exteriores contrastam com o isolamento do interior do país, que servem também para reforçar um sentimento de aprisionamento e inevitabilidade da classe social, a intrasigência de Takahashi em aceitar a recusa da oferta a  Isaburo.
Em "Samurai Rebellion", tal como no mais famoso filme de Kobayashi, "Harakiri", todo o sistema político do Japão feudal, e o código samurai de fidelidade (Bushido),são colocados em conflito directo com as bases sociais mais íntimas do casamento e da família. Desta forma, Kobayashi expõe a falência moral e a falta de compaixão de um código que não valoriza o ser humano individual. Ichi é a catalisadora desta revelação. A sua união sexual com Matsudaira é falsa porque não é construída sobre o amor e respeito mútuo. O bushido falha como sistema para governar as suas vidas de verdadeiros seres humanos, quando se exige que deixe um verdadeiro relacionamento a fim de proteger a honra.
Ganhou o FIPRESCI Prize no festival de Veneza de 1967.

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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Harakiri (Seppuku) 1962

No Japão feudal do século 17, Hanshiro Tsugumo (Tatsuya Nakadai), um velho samurai desempregado, bate à porta de um poderoso senhor. Recebido por Kageyu Saitô (Rentarô Mikuni), o líder do clã, Tsugumo pede-lhe permissão para cometer suicídio por harakiri na sua residência. Mas quando o velho samurai indaga sobre um samurai mais jovem que cometeu suicídio, um pouco antes da sua chegada, as coisas tomam um rumo inesperado.
"Seppuku" é uma história de tradições injustificadas que levam a actos vergonhosos e mortes. É uma crítica à sociedade japonesa dos anos sessenta, que uma uma história de samurais como objecto, mas cujos principais pontos são mais comuns tanto ao ocidente como ao oriente dos dias actuais, assim como a idéia de trabalhar uma vida inteira para uma empresa, já não existe. O filme explora muitas questões, incluindo obrigações conflitantes, a adesão ao ritual e à tradição, honra virtual vs. honra verdadeira, corrupção política, a lealdade para com a profissão vs lealdade para com a família.
Masaki Kobayashi não se opõe ao gosto pelos filmes violentos, por isso ele não vê qualquer necessidade de destruir o envolvimento do público ou tornas as sequências de batalha extremamente desagradáveis com excesso de gore, ou abuso de efeitos especiais. As lutas são espectáculos deslumbrantes e absolutamente emocionantes de se ver, principalmente graças ás horas de montagem que levaram o filme a ser concluído.
"Harakiri" é uma pequena obra-prima com uma tensão em crescendo, revelando os factos progressivamente, e com contenção cinemática, cujo drama é potentemente infundido com conotações político-sociais, nada paradas no tempo e no lugar.
Kobayashi dois anos mais tarde viria a realizar outro dos grandes filmes japoneses dos anos sessenta, "Kwaidan", e aqui ganhou o grande prémio do Jurí no Festival de Cannes, de 1963.

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