sábado, 18 de outubro de 2014

5x5: Nuno Fonseca x Rui Alves de Sousa

Os seguidores mais antigos dos "Thousand Movies" devem lembrar-se certamente da rubrica "5x5". No blog anterior esta rubrica consistia em convidar dois leitores que escolhessem cinco filmes, que por nunca tivessem por lá passado. O critério era livre, apenas se pedia que não escolhessem filmes demasiado recentes e mainstream. Durou alguns anos no "My One Thousand Movies", e teve mais de 40 participações de todos os cantos do Globo.
Resolvi reatar esta rubrica, no M2TM, que sempre nos trouxe óptimas listas de filmes, de toda a espécie e feitio. Já temos algumas listas para esta nova série, a ideia de fazer ressurgir estar rubrica veio do grupo My Two Thousand Movies, no facebook, onde se quiserem podem aderir, e discutir as escolhas dos nossos participantes.
Os dois participantes desta série vêm de Portugal, ambos bloggers. O Nuno Fonseca, autor do blog Espaço Cinzento, e o Rui Alves de Sousa, autor do blog Companhia das Amêndoas. Vou convidá-los para fazer uma pequena introdução das suas escolhas no final da semana, e entretanto ficaremos a conhecer as escolhas nos próximos dias, já a partir de amanhã. Um filme de cada lista por dia.

Quanto a novos participantes, se quiserem participar, mandem a vossa lista para myonethousandmovies@gmail.com. Deve conter 5 filmes que nunca tenham passado por ESTE blog, mais três suplentes. Só não podem escolher filmes mainstream, porque o blog corre o risco de ser apagado, mas de resto a lista fica ao vosso inteiro critério. Lembrem-se de que quando os filmes forem publicados estarão a ser observados e avaliados por personalidades altamente cinéfilas (estou a brincar).

Na próxima semana vamos ter um Especial Halloween, com filmes de terror bastante raros.

Até amanhã.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Paraíso Perdido (Paraíso Perdido) 1995



Degrada-se, dia a dia, o casamento de Cristóvão, 48 anos, docente universitário atormentado pelos fantasmas de uma pesada herança familiar - loucura e homicídio.
Quando Cristóvão encontra Cristina, 20 anos de espontaneidade e sem assomo de medos, mas com um passado lacunar, algures perdido entre Angola e Portugal, é absorvido pela idéia de a ajudar a encontrar as raízes da sua vida. À medida que o "puzzle" se vai compondo a paixão arrebata-os; ao que a impossibilidade dela gerar (Cristina não pode ter filhos porque pode morrer de parto) acrescenta um elemento redentor: como se não houvesse possibilidade de futuro e o presente fosse o único sentido. No desvelamento do passado de Cristina, Cristóvão, omitindo o seu passado, sente a esperança de o reinventar.
Há filmes malfadados. No berço, um encantamento perverso condenou-os a uma existência pária, "zombies" num universo de espectáculo de que eles são, por assim dizer, o avesso. Assim terá ocorrido com este "Paraíso Perdido", filme de Alberto Seixas Santos, longos anos vagueando no limbo dos mortos-vivos. Faz-se, não se faz, completa-se, não se completa, é visível, não é visível, estreia ou não estreia nunca? Estas - e outras - perguntas e um nunca acabar de rumores acompanharam a génese, o crescimento, o parto e a clausura da fita, numa sucessão de feitiços meléficos que pareceram ser fatais.
Tudo começou em 1977. No plano de produção para o IPC para esse ano consta uma atribuição de subsidio à Cooperativa Grupo Zero, para o filme "Rosa", de Alberto Seixas Santos, orçamentado em 3.041.684$00. Mais tarde, muda o projecto (passou a designar-se "Paraíso Perdido") muda o produtor (que passou a ser o Animatógrafo, de António da Cunha Telles) - e, em 1986, iniciam-se, enfim, as filmagens. Atribuladas, diga-se (a poucos dias de se iniciarem o actor protagonista teve de ser mudado, e foi apenas um dos episódios..). Finda-se estas, entra-se na fase de pós-produção. Interminável, o filme arrasta-se durante anos. Corre, por esses dias, em Lisboa, que "Paraíso Perdido" seria pavoroso, que nada ligava com coisa nenhuma, que Seixas Santos não completava o filme por pânico de dar a ver horrores de desfazer a mais sólida das reputações.
10 de Novembro de 1995 foi o momento de rasgar todos os véus. "Paraíso Perdido" - talvez o mais difícil parto do cinema português das últimas décadas - confronta-se com o público, com a crítica, com a luz do dia. Só que passou tantos anos na sombra que é de temer que a luz o ofusque - e, sobretudo, que o mundo em que foi pensado se tenha ido embora.
Que mundo é esse? Um mundo de fim-de-império, de gente que voltou das colónias, mas guarda uma espécie de mito guardado no fundo da alma. (os grandes espaços de África, um tempo idealizadamente feliz - por contraponto à pequenez deste "cochico" plantado no fundo da Europa). Um mundo onde os cinéfilos ainda tinham o Quarteto como catedral, um mundo que ainda não atravessara os anos laranja, que ainda não vira esta nossa gente armar-se em nova-rica, apinocar-se, jogar na bolsa, auto-estradar-se. O Portugal de Paraíso Perdido é pré-cavaquista, está desorientado, anda à procura de raízes, não é capaz de procriar por cobardia, tem muito medo - e quando encontra a verdade plantada do passado, não está lá coisa nenhuma a que seja possível uma pessoa arrimar-se, muito pelo contrário. A realidade é um desatino triste, uma loucura sem grandeza, um desacerto prolongado, um sarcasmo de demência visionária, apenas uma maluquice.
Por Jorge Leitão Ramos, em "Dicionário do Cinema Português 1989-2003".

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Greetings (1968) / Hi, Mom! (1970)



Depois da estreia de "Murder a la Mod", Brian de Palma começou a fazer filmes underground bastante baratos. Os dois filmes mais notáveis do seu inicio de carreira são "Greetings" (1968), e "Hi, Mom!" (1970), que mostravam De Palma como um talentoso realizador, com um enorme sentido de tempo e lugar, e como sendo um brincalhão espiritual. Estreado apenas oito meses depois de "Murder a la Mod", "Greetings" não parecia um filme para ir muito longe, feito com apenas $39,000, não estava particularmente interessado em seguir uma trama tradicional, e foi o primeiro filme a receber a polémica classificação "X". Mas enquanto não era um sucesso de público, conseguiu acumular um milhão de dólares no box-office, estabelecendo de Palma como um talento emergente.
A trama do filme seguia três amigos Paul (Jonathan Warden), um jovem obcecado por mulheres, Lloyd (Gerrit Graham), um jovem obcecado com o assassinato de Kennedy, e Jon Rubin (Robert De Niro), um realizador que deseja transformar uma espécie de arte, com voyeurismo e pornografia, em algo que chama de “Peep Art”. Os três perseguem jovens meninas, tentam fugir à guerra do Vietname, e não ser apanhados nas suas próprias obsessões.
De Palma não esconde as suas influências, nomeadamente a influência de Hitchcock, alguns jump cuts da Nouvelle Vague, a abordagem com um sentimento verité, referências constantes a "Blow-Up", de Michelangelo Antonioni, mas a sua relização é muito mais segura do que no filme anterior. Há sempre algo a acontecer, tanto no plano geral como em fundo, que dá a De Palma a hipótese de mostrar o que está a acontecer a várias personagens ao mesmo tempo.




A sequela de "Greetings" chamava-se "Hi, Mom", e era ainda melhor. Enquanto "Greetings" colocava de Palma e De Niro, no estatuto de pessoas a seguir, "Hi Mom" elevava-os ainda mais, e deu-lhes mais hipóteses de mostrarem os seus talentos. Deixamos de seguir as co-estrelas de De Niro no filme anterior, e concentramo-nos no seu Jon Rubin, que segue o sonho de "peep artist", apanhado no mundo underground da arte, e tornando-se numa figura revolucionária da América. A primeira parte do filme é um cruzamento entre o estilo irreverente de Godard, e uma comédia. Homenagem desprezível a "Janela Indiscreta" de Hitchcock com o personagem de De Niro a tentar filmar os prédios à sua volta, para captar imagens de "momentos privados", e de jovens a despirem-se. A segunda parte do filme satiriza o cinema verité, com jovens revolucionários em Nova Iorque.
A Nova Iorque de De Palma é ainda mais bem definida aqui. O cinema verité mostra o choque entre a burguesia da cidade e os radicais de esquerda de Greenwich Village/Panteras Negras. É um mundo completamento formado, e com um mestre a explorá-lo.
"Hi, Mom!" é ainda mais episódico do que "Greeting", mas também mais engraçado e cheio de momentos de bravura. A exploração do cruzamento entre a pornografia e a mais pretensiosa arte é grande: De Niro tem uma reunião com um produtor de pornografia, que se queixa que demasiados filmes para adultos têm actrizes a quem não foi dito que tipo de personagem iam interpretar, e assim não conseguem atingir toda a sua potencialidade. O filme também reconhece todo o seu voyeurismo e artificialidade de formas diferentes: shots longos de De Niro a espiar personagens, convidando o espectador a tornar-se ele próprio um espião.
Charles Durning é outro dos protagonistas, ele que viria a tornar-se um habitual dos filmes de De Palma.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Pixote – A Lei do Mais Fraco (Pixote – A Lei do Mais Fraco) 1981



 “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, além de ser o motor que foi na carreira do diretor argentino Hector Babenco, é também um dos maiores marcos do cinema nacional. A história gira em torno de Pixote (Fernando Ramos da Silva), um garoto que nunca conheceu os pais e vive nas ruas de São Paulo. Numa apreensão de menores infratores suspeitos pelo latrocínio de um homem importante, ele vai parar em um reformatório (a antiga FEBEM e suas paredes de sangue). Depois de um tempo, Pixote consegue fugir com Dito (Gilberto Moura) e Lilica (Jorge Julião), homossexual que estimula a fuga após seu companheiro ser assassinado em meio à corrupção policial existente ali. Fora da FEBEM, Pixote e seus amigos entram na criminalidade para conseguir sobreviver à deriva da sociedade. Trata-se de um filme pesado, às vezes claustrofóbico, cru em maior parte e que beira a melancolia solitária. Tudo isso foi calculado pelo próprio Hector Babenco, que se utilizou do neo-realismo italiano para adaptar o livro de José Louzeiro (“Pixote – A Infância dos Mortos”).
Para endossar ainda mais toda a naturalidade vista em cena, Babenco decidiu formar o elenco principal de garotos que vivenciavam a mesma realidade dos personagens. Para isso, escalou atores residentes de comunidades carentes de São Paulo. Fernando Ramos da Silva, o garoto que dá vida à Pixote, protagonizou também a informação mais trágica que norteia “Pixote – A Lei do Mais Fraco”. O ator, que também era oriundo de uma família carente, ganhou apoio para seguir a carreira. Chegou a conseguir papéis na Rede Globo e em outras produções, mas como era analfabeto, empacava na dificuldade em trabalhar com textos. Sua família nunca saiu da favela, e foi pra lá que voltou quando não teve mais perspectivas na arte. Envolveu-se com a criminalidade e, no ano de 1987, foi assassinado em uma batida policial, num crime que demorou a ser desvendado. Daqui

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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Em memória da Tânia

Hoje é um dia muito triste. Deixou-nos, na flor da idade, a Tânia Pereira, uma antiga seguidora ainda do My One Thousand Movies. Ela chegou, inclusivé a participar num 5x5, e por isso não podia deixar passar sem homenageá-la aqui.
Um minutos de silêncio em sua memória, e fiquem com imagens de um dos filmes escolhidos por ela: "Pierrot Le Fou".


Os Selvagens da Noite (The Warriors) 1979



Cyrus, o líder do gang mais poderoso de Nova Iorque, os Gramercy Riffs, convoca todos os gangs de Nova Iorque, que são convidados a enviar 9 membros desarmados para uma reunião. É assassinado durante o discurso, e um gang chamado "The Warriors" é considerado culpado da morte de Cyrus. Agora eles têm de atravessar o território dos rivais para alcançar o seu próprio bairro. Lentamente eles atravessam bairros como os do Bronx ou Manhatthan, fugindo da polícia e dos outros gangs rivais que os querem capturar.
Durante o final dos anos 60 e a década de 70 o cinema popular ficou repleto de visões sombrias do futuro, e de uma raça humana cínica e auto-destrutiva. A visão do futuro incluía destinos tão cruéis como a humanidade ser conquistada por macacos muito evoluídos e bem preparados militarmente. O medo do futuro chegou ao auge entre 1978 e 1982, quando a era do "disco" abriu caminho para a década da ganância, com o ciclo pós-apocalíptico, e cinco filmes monumentais a serem lançados neste período. "Dawn of the Dead", "The Road Warrior" (ambos sequelas sobre a sobrevivência do lado mais negro da mente humana), "Blade Runner", "Escape from New York" (feitos com a premissa que um dia as maiores cidades americanas seriam tão perdidas com o crime e a corrupção que a humanidade estaria perdida para sempre). O quinto chamava-se "The Warriors", realizado por Walter Hill, e que era um misto destes dois temas.
Baseado numa banda-desenhada, antecipava, em muito, filmes como "Sin City" ou "300", e desenhava uma analogia entre os protagonistas e aquele grupo de valentes soldados na Grécia antiga, e relatava a história dos 300 como se fosse uma banda desenhada passada para o cinema. Superficialmente é um épico de acção corajosa, uma variação da fórmula Star Wars onde os heróis são os membros de um gang, e os vilões são caricaturados, paródias sangrentas tão variadas, desde jogadores de Baseball, a mímicos das ruas. É uma parábola inteligente sobre a união, com o fim de ultrapassar as adversidades para alcançar uma vida melhor.
Com um elenco de actores desconhecidos, tornou-se um enorme filme de culto durante os anos 80. 

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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Juventude sem Freio (Scum) 1979



"Scum" refere-se ao rótulo obtido pelo reformatório para jovens delinquentes, onde está detido o jovem interpretado por Ray Winstone, reformatórios estes chamados de "borstals" pelos britânicos. Quando Winstone não está a ser espancado pelos outros jovens, está a sê-lo pelo sistema. Ele rebela-se contra esta situação, e torna-se mais cruel do que qualquer um dos seus opressores. Scum foi originalmente filmado para televisão, mas foi rejeitado por causa da frieza da sua perspectiva.
"Scum" ainda se mantém como uma poderosa crítica ao sistema penal britânico. Apesar de não ser um filme especialmente brutal na sua violência - uma cena de violação, por exemplo, que é tratada de tal forma que evita o seu erotismo - e por isso não foi especialmente bem recebido pelos censores do seu tempo, tendo apenas estreado alguns anos mais tarde.
Furioso pela decisão da BBC de arquivar o filme, Alan Clarke conseguiu alguns fundos para gravar uma nova versão para estrear nos cinemas.O resultado desta segunda versão não foi tão efectivo como o original, mas tornou-se mais gráfico.O pretexto para Clarke e o argumentista Roy Minton nos trazerem os círculos progressistas dos reformatórios juvenis é a passagem de Carlin (Winstone), um delinquente com uma má reputação para o topo da hierarquia em qualquer grupo de duros onde o sistema o coloque.
É apenas superficialmente, no entanto, que Clarke e Minton se preocupam com a ascenção ao poder do carismático Carlin, o violento rebelde. O verdadeiro propósito da narrativa é dissecar todos os componentes do sistema da justiça juvenil, onde a aura corrosiva da violência e do medo, são o controle de todo o organismo, apesar da afirmação do director (Peter Howell) de que "não há violência aqui".
À medida que o filme ferve, e finalmente explode, o espectador fica com a sensação inevitável de que o sistema não fortalece o carácter nem instala respeito à autoridade, mas brutaliza e destrói, levando os jovens a quebrar regras, transformando-os em criminosos embrutecidos.

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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sementes de Violência (Blackboard Jungle) 1955



Richard Dadier (Glenn Ford) tem uma missão de ensino numa escola difícil, onde os alunos fazem as regras, e os professores aceitam humildemente o facto de terem perdido o controlo da situação. Quando Dadier tenta exercer a sua autoridade, recebe muita hostilidade por parte dos alunos e professores, com a sua esposa grávida a receber mensagens anónimas falsas dele estar romanticamente envolvido com uma professora na escola. Com raiva, Dadier lança uma acusação conta Gregory Miller, um negro muito temido por ele. Miller não nega a acusação, e pelo contrário ainda aumenta a tensão entre os dois, mas será que é realmente o culpado?
Hoje em dia, o principal motivo da fama de "Blackboard Jungle" é porque em 1955 incluía na sua banda sonora o tema de Bill Haley and the Comet's "Rock Around the Clock", a primeira vez que uma canção de rock n´roll era usada num filme, e era um factor importante garantir o sucesso da música como publicidade para este novo tipo de som. Lançado em 1955, o filme destacava uma obsessão da América, e também de alguns países ocidentais, pelos gangues juvenis, um assunto que ainda era muito virgem no cinema.
Escrito e realizado por Richard Brooks, que se baseou numa peça de Evan Hunter, "Blackboard Jungle" virtualmente inventava o sub-género delinquência juvenil no cinema. Foi uma óbvia influência para "Rebel Without a Cause", assim como outras imitações menores. O género floresceu por alguns anos, nos velhos estúdios como a MGM, que produziu o filme de Brooks, e ainda um famoso filme de William Morgan, "The Violent Years". Estreado poucos meses depois de "Blackboard Jungle", e com argumento de Edward Wood Jr, era a antítese do filme de Brooks.
Algumas caras conhecidas no elenco, em papéis menores, como Sidney Poitier, Vic Morrow, Paul Mazursky, e o filme acabaria por conseguir quatro nomeações ao Óscar, de argumento, fotografia, direcção de arte e montagem.   

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domingo, 5 de outubro de 2014

Os Esquecidos (Los Olvidados) 1950



Um grupo de crianças brinca num terreno baldio, subindo escombros e tentando arranjar algo para passar o tempo. Já aqui sentimos a falta de direcção que a vida destes jovens está a ter, mas eis que chega Jaibo, um jovem recentemente fugido da cadeia, e por isso mesmo visto como um herói pelas outra crianças. Ele anda a recrutar jovens para outro gang, e é aqui que o impressionável Pedro vai iniciar a sua descida em direcção ao Inferno deixando de roubar por necessidade e passando a fazê-lo por prazer, tornando-se num cruel criminoso.
Luis Buñuel mostra-nos a descida de Pedro, primeiro com a sua aceitação do comportamento desnecessariamente cruel perante um velho e cego artista de rua. Testemunhamos a sua relação difícil com a mãe, e os seus sonhos surreais de sexo e morte, bom como algumas das imagens mais chocantes e desesperantes do filme, com um jovem a ser abandonado numa esquina pelo pai. Jaibo eventualmente envolve-se com a mãe de Pedro, completando o trágico círculo da sua existência disfuncional.
Estas imagens de sofrimento teriam sido lugar comum para criar algumas convenções de heróis e vilões de Hollywood, vitórias e derrotas. Mas neste filme ninguém ganha, e não existem soluções, apenas um retrato sombrio da humanidade, e a profundidade de quanto fundo pode ir o futuro destas crianças.
O ponto de vista do realizador Luis Buñuel é único e visionário. Ele foi capaz de projectar os seus ideais de vanguarda mesmo dentro de um "studio system". Apesar de "Los Olvidados" ter sido rejeitado comercialmente dentro do seu país (México), quando da sua estreia, ganhou aclamação da crítica seis meses depois, quando foi exibido em Cannes, ganhando o prémio de Melhor Realizador no festival, e assinalando o seu regresso ao topo do cinema mundial, depois dos gloriosos anos 30.

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sábado, 4 de outubro de 2014

Rebeldes Sem Causa

A partir da década de 50 houve um medo generalizado da delinquência juvenil, focando-se em queixas de que a geração pós segunda guerra mundial era preguiçosa, mimada, irresponsável, com falta de disciplina, desrespeitosa da autoridade, e violenta. Teenagers deste período eram logo à partida condenados pelo desemprego e a falta de estudos.
Tais acusações continuaram a ser feitas por várias dezenas de anos. O que parecia dar força a esta situação foi que na América do pós-guerra as denúncias foram feitas por "especialistas" - psicólogos, profissionais do "comportamento infantil", pesquisadores de universidades, e o grupo maior de professores, que sofreram o comportamento dos adolescentes em sala de aula. O maior exemplo do testemunho de um "expert" foi Fredric Wertham, cujo livro "Seduction of the Innocent", que alegava que a mídia popular, principalmente nos livros aos quadradinhos, corrompia as mentes jovens e causava a delinquência, crime, violação etc.
Assim, o problema da delinquência juvenil estava muitas vezes concentrada nas escolas, principalmente nas classes sociais mais desfavorecidas nas periferias das grandes cidades. Não foram só os adolescentes que foram responsabilizados, também os pais ou os professores foram culpabilizados deste problema, por serem preguiçosos ou terem medo de impor a sua autoridade.
Uma das primeiras vezes que um filme se debruçou directamente sobre este problema foi um 1955, pelas mãos de Richard Brooks, no filme "Blackboard Jungle". Já antes tinhamos visto um jovem Marlon Brando na pele de um rebelde em "The Wild One", ou o próprio Luis Buñuel tinha dado o seu próprio ponto de vista em "Los Olvidados".
Daqui para a frente, foram muitas as vezes que o cinema se debruçou sobre este problema. Talvez os mais conhecidos sejam a dupla de filmes que Coppola realizou, revelando a geração da Brat Pack: "Rumble Fish" e "The Outsiders", filmes esses que já passaram aqui pelo M2TM. Neste ciclo vamos ver cinco pontes de vista, de épocas diferentes, e de países diferentes. Espero que gostem.

Domingo: Los Olvidados (1950), de Luis Buñuel

Terça: Blackboard Jungle (1955), de Richard Brooks

Quarta: Scum (1977), de Alan Clarke

Quinta: The Warriors (1979), de Walter Hill

Sexta: Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Mundo É Um Manicómio (Arsenic and Old Lace) 1944



"Arsenic and Old Lace" conta-nos a mirabolante história de Mortimer (Cary Grant) que apesar de ser um grande crítico ao casamento, resolve casar no dia das bruxas. De visita à família para celebrar o matrimónio, Mortimer vai descobrir que as suas duas tias têm o estranho hábito de matar idosos... por caridade.
Uma mistura pouco convencional de comédia de humor negro com splastick, esta adaptação de uma peça muito famosa da Broadway é muito diferente da marca habitual dos restantes filmes do seu realizador: Frank Capra. Desde o inicio até ao fim o diálogo reflete perfeitamente a loucura, ainda que o tom seja macabro, e o desenvolvimento seja tudo menos previsível. Cary Grant mais tarde expressou a sua insatisfação sobre o seu papel muito expositivo, mas ele tem uma interpretação brilhante (apesar de ofuscado por alguns actores do magnifico elenco de apoio: Priscilla Lane, Raymond Massey, Jack Carson, Edward Everett Horton, Peter Lorre, James Gleason, Josephine Hull), mas de facto seria difícil de imaginar a escolha original para o papel principal (Ronald Reagan), ter a mesma presença que Grant.
Embora a maior parte do filme seja passada num cenário em particular, a sala de estar dos Brewster, o ritmo dos diálogos e a acção, é dificil manter tudo a direito. O cenário único ajuda a manter os personagens frente a frente, e a histeria a não ficar fora de controlo. Josephine Hull e Jean Adair são brilhantes como as tias loucas, a inocência dos seus olhos arregalados afasta qualquer indício de irregularidade. Elas fazem-nos acreditar que os seus crimes são, na verdade, um serviço de misericórdia, e não crimes a sangue frio.
Filmado em 1941, mas estreado em 1944, ficou fora de qualquer tipo de prémios, ao contrário de outros filmes de Capra, mas tornou-se numa obra muito respeitada com o passar dos anos.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Casamento Escandaloso (The Philadelphia Story) 1940



Tracy Lord (Katharine Hepburn) é uma socialite rica que se divorciou recentemente do playboy C.K. Dexter Haven (Cary Grant). Na véspera do seu novo casamento Haven aparece com um repórter chamado  Macaulay “Mike” Connor (James Stewart), com a intenção de tirar fotos para publicar nos tablóides. Como Tracy tem dúvidas sobre o seu casamento eminente começa a apaixonar-se por Mike, e ao mesmo tempo se deve dar uma nova hipótese a Dexter.
"The Philadelphia Story" é normalmente considerado como um veículo para Katherine Hepburn, o que faz todo o sentido, já que foi ela que organizou a produção do filme. Naquela altura Hepburn era considerada "veneno" nas bilheteiras, e foi este filme que revitalizou a sua carreira. Superficialmente é uma screwball comedy brilhante, mais uma vez sobre o mundo dos ricos, mas na realidade é muito mais do que isso.
O interesse do realizador George Cukor nas classes é complexo, e não é de todo redigido nos termos simplistas habituais. A família de Lord é sem dúvida da classe alta, e aceitam este privilégio com a maior naturalidade, enquanto Connor é quase um mendigo, um escritor muito talentoso a trabalhar abaixo das suas possibilidades apenas para pagar as contas. Connor está compreensivelmente ressentido dos ricos à sua volta, e da casa de Lord, mas o ressentimento diminui à medida que vai conhecendo Lord, embora as discussões entre os dois ainda tenham o toque de guerra de classes.
Ganhou dois Óscares da Academia. Um para James Stewart no papel principal, o único na sua carreira, e outro para o argumento de Donald Ogden Stewart, também o único Óscar de uma brilhante carreira, a trabalhar sobretudo com Cukor.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner) 1940



A acção tem lugar numa loja húngara durante o Natal. Os tempos estão difíceis, e os empregados sentem-se intimidados pelo seu patrão Mr. Matuschek (Frank Morgan). Quando dois empregados da loja, Alfred Kralik (Jimmy Stewart) e Klara Novak (Margaret Sullavan) se tornam "pen-pals" secretamente, sem conhecimento um do outro, têm de lidar com vários obstáculos para encontrar o verdadeiro amor. Um deles, é que se odeiam na loja.
O sub-plot envolvendo a descoberta da infidelidade da esposa de Morgan desempenha um papel importante no enredo em geral, mas no coração do filme está a relação amor/ódio desenvolvida entre Stewart e Sullavan. Sabemos desde início que eles são amantes secretos, mesmo sem saberem, e Stewart descobre a meio do filme, de modo que o ponto crucial da tensão narrativa gira em torno de como, e quando, ele vai decidir revelar o que descobriu.
O que há de mais especial neste filme é o sentimento de tristeza que o atravessa. Há um enorme sentimento de solidão nas personagens de Kralik e Karla, que pensam ter encontrado o amor na forma de alguém que nunca conheceram cara a cara (a internet de hoje em dia), alguém com quem apenas correspondem por cartas. Há mais do que uma ponta de desespero em ambas as personagens, elas investem tanto neste romance irreal que parece que é a última oportunidade que têm de ser felizes. No fim, descobrem que o objecto do seu amor estava mais próximo do que pensava.
Aparte de ser construído em torno de um conceito inteligente e engraçado, também é uma grande montra para o famoso "toque de Lubitsch", misturando inteligência e algumas observações sobre as pessoas nas suas vidas pessoais e profissionais, com comédia docemente romântica. Tudo é mantido por uma excelente perfomance cómica de James Stewart, um actor capaz de dominar uma comédia Lubitschiniana, como viria a fazer mais tarde aos psico-dramas de Hitchcock.
Foi alvo de dois remakes; In the Good Old Summertime (1949), com Judy Garland e Van Johnson, e, mais tarde You've Got Mail (1993), com Tom Hanks e Meg Ryan.

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terça-feira, 30 de setembro de 2014

As Duas Feras (Bringing Up Baby) 1938



David Huxle (Cary Grant), arqueólogo, espera por um osso de que precisa para a sua colecção no museu. Para seu azar conhece Susan Vance (Katharine Hepburn) e acaba por se envolver numa série de contratempos com ela e um leopardo, Baby. A herdeira algo desmiolada apaixona-se pelo distraído professor e tudo faz para lhe chamar a atenção.
Cary Grant e Catherine Hepburn juntos pela segunda vez no cinema, agora pelas mãos de Howard Hawks, na screwball comedy "Bringing Up Baby", depois de Sylvia Scarlett (1935). Apesar deste filme contar com um elenco maravilhoso, e a realização de um grande especialista em comédia, como era Hawks, esteve longe de ser um êxito de bilheteira. Com a guerra a aproximar-se na Europa, e a Depressão longe de estar ultrapassada nos Estados Unidos, o público da altura precisava de ver filmes que lhe oferecesse algum escapismo. Não era o caso de "Bringing Up Baby", que apesar de uma história totalmente absurda, os personagens eram intelectuais, e os diálogos foram considerados demasiado fantasiosos para o público mainstream da época.
Insucessos à parte, ao lado de "It Happened One Night" (1934), "Bringing Up Baby" é talvez a screwball comedy mais memorável de todas. Tal como os outros filmes do género, era uma obra distintamente americana, e distintamente sobre a classe alta. Tem lugar num mundo suburbano de campos de golfe, hotéis caros, museus e grandes casas com lotes de terra. O "slapstick" enquadrado nestes cenários assume um significado completamente diferente, do que se tivesse sido enquandrado num ambiente mais hostil e pobre, que caracterizava a depressão mundial da época. Em vez de uma crítica social, como eram o caso dos filmes de Chaplin, as screwball comedies eram filmes de puro escapismo. Pessoas com problemas monetários procuravam os cinemas para se alhear dos problemas da sociedade, e o que é que dava mais vontade de rir do que rir das pessoas com melhores condições de vida?
Grande parte da diversão do filme está em ouvir os diálogos, graças ao excelente argumento de Dudley Nichols e Hagar Wilde. O tom e o ritmo das brigas dos dois protagonistas, com um Grant bronco e uma Hepburn a entender tudo mal o que ele diz, é uma própria forma de arte, e a comédia física é apenas a cereja no topo do bolo.
 
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Com a Verdade Me Enganas (The Awful Truth) 1937



Antes do seu divórcio se tornar definitivo, Jerry e Lucy Warriner fazem o melhor possível para arruinar os planos do seu ex-par para se voltarem a casar, Jerry com a socialité Barbara Vance, Lucy com o magnata do petróleo Daniel Leeson. Durante os 90 dias antes do divórcio ficar consumado os dois passam o tempo a criar pretextos para se encontrarem, e ao mesmo tempo fazendo o possível para prejudicar os planos do outro em relação a novos pretendentes.
The Awful Truth é um filme sobre portas abertas, mas também sobre portas fechadas. Isto parece algo estranho de se dizer sobre uma comédia dos anos 30, cuja premissa é o divórcio pendente de um casal que suspeita da infidelidade um do outro, mas também é uma metáfora maravilhosa para o foco do filme, sobre as trocas de relações e opções de desenvolvimento que se fecham.
Esta elegante comédia do realizador/produtor Leo McCarey é um campo de batalha espiritual de desventuras conjugais, falta de correspondência e diálogo ágil, com sequências físicas de slapstick, representação improvisada, e antagonismo na representação hilariante entre as suas duas estrelas - Cary Grant and Irene Dunne. Foi o primeiro filme que reuniu estas duas estrelas juntas - Grant e Dunne Voltaram a reunir-se na screwball My Favorite Wife (1940) (também produzida por McCarey), e logo depois em  Penny Serenade (1941).  O filme também contava com um cão, fox terrier, chamado Mr. Smith, conhecido como Asta na série "The Thin Man", e que viria a aparecer depois em "Bringing Up Baby" para aproveitar a combinação de sucesso marido-esposa e cão.
O argumento foi baseado numa comédia da Broadway da autoria de Arthur Richman (1921), do mesmo nome, sobre o casamento e o divórcio. Foi filmada duas vezes para o cinema, em 1925 como filme mudo, e com Agnes Ayres e Warner Baxter, e depois em 1929 já como sonoro, com Ina Claire e Henry Daniel. Foi nomeado para seis Óscares, tendo ganho o de melhor realizador para Leo McCarey.

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domingo, 28 de setembro de 2014

Screwball Comedies

"There’s a pitch in baseball called a screwball, which was perfected by a pitcher named Carl Hubbell back in the 1930s. It’s a pitch with a particular spin that sort of flutters and drops, goes in different directions, and behaves in very unexpected ways… Screwball comedy was unconventional, went in different directions, and behaved in unexpected ways… ”
Andrew Bergman,“We're in the Money: Depression America and Its Films”

O crítico de cinema James Agee descreveu a essência da comédia de Laurel e Hardy como algo onde duas pessoas estão a carregar uma piano sobre uma ponte suspensa e estreita nos Alpes, e a meio caminho encontram um Gorila. Isto pode ser mais do que a essência de Laurel e Hardy. Pode ser a essência de toda a comédia americana. É louca, sem lógica, impossível, e hilariante. Também é bastante abundante, com variações infinitas nos quadradinhos, abertas a situações inesperadas, e fundamentadas principalmente no perigo.
Screwball (desequilibrada, irregular, irracional, não-convencional) foi uma palavra que se tornou popular na década de 30. Era aplicada a filmes onde tudo era uma justaposição: educados e mal-educados, ricos e pobres, inteligentes e estúpidos, honestos e desonestos, e acima de tudo, masculinos e femininos. Quando duas pessoas se apaixonam, eles simplesmente não se rendem aos sentimentos, batalham contra eles. Mentem um ao outro, muitas vezes assumindo personagens diferentes, utilizando truques contra o outro, até finalmente, depois de não terem mais argumentos, caírem nos braços um do outro. Era uma comédia fossilizada, física, e muitas vezes dolorosa, mas utilizando o mais alto nível de inteligência e sofisticação, confiando inteiramente em argumentos elegantes e inventivos.

Nascida no início dos anos 30, durante os anos mais negros da depressão, a screwball tornou-se uma variação muito popular da comédia romântica. Embora os personagens principais geralmente estivessem reconciliados com os valores básicos da sociedade, no final, a maioria destes filmes,  eram irreverentes contra os ricos, a vida na cidade pequena, o governo, ou a instituição que era o casamento. Entre as idéias que esses filmes foram passando, estavam a que o casamento pode ser divertido, que os homens e as mulheres tinham os mesmos direitos, e que, ser brilhante não era uma desvantagem para a mulher.
Entre o início dos anos 30, e meados dos anos 40, foram feitas bem mais de 200 screwball comedies, quase todas dedicadas à celebração do  excêntrico, comportamentos e atitudes não convencionais, e que a vida podia ser divertida, apesar da guerra e de uma economia suja.

Escolhi para esta semana cinco das melhores scewball comedies (não necessariamente as melhores), embora tendo deixado de fora os filmes dos irmãos Marx, que vão ter um ciclo em nome próprio, brevemente. Espero que gostem.

Segunda: The Awful Truth (1937), de Leo McCarey

Terça: Bringing Up Baby (1938), de Howard Hawks

Quarta: The Shop Around the Corner (1940), de Ernst Lubitsch

Quinta: The Philadelphia Story (1940), George Cukor

Sexta: Arsenic and Old Lace (1944), de Frank Capra


sábado, 27 de setembro de 2014

A Eternidade e Um Dia (Mia Aioniotita Kai Mia Mera) 1998



Alexandre vai dar entrada no hospital: "Quando as dores se tornarem insuportáveis", tinha-lhe dito o médico. Entretanto arruma a casa. Prepara-se para deixar a velha casa à beira-mar onde sempre viveu. Encontra as cartas de Anna, a sua mulher, morta há muito, e apercebe-se do quanto ela o amava. Um amor que na altura ele tinha como garantido. As recordações começam a voltar como a maré-cheia.
Poucos realizadores polarizam uma opinião tão continental, como o autor grego Theo Angelopoulos, um mestre reconhecido na Europa, mas cujo trabalho é de alguma forma diminuído quando se atravessa o Atlântico, onde os críticos tendem a ofender o seu ritmo lento, embora portentoso. "Eternity And A Day" ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano de 1998, e logo por unanimidade, depois de vários anos a rondar este tão desejado prémio, mas uma vez mais a sua recepção na américa foi morna, onde os críticos usaram levianamente o nome do filme, de forma depreciativa. 
Num papel primeiramente imaginado para Marcello Mastroianni, Bruno Ganz interpreta o substituto do realizador, um autor referenciado que descobre que tem uma doença terminal, e passa os seus últimos dias vagueando pelo interior da Grécia, observando o mundo com uma visão poética, que lembra o anjo de Ganz em "Wings of Desire". Desejando resolver os seus sentimentos sobre a sua vida pessoal e história nacional, ele revisita uma tarde à beira-mar amarga, com a sua já falecida esposa (Isabelle Renauld), e encontra um poeta do século XVIII, cuja obra inacabada ele pretende completar. Esta viagem metafísica, que é inequivocamente semelhante à de  Victor Sjöström em "Morangos Silvestres", é interrompida por um jovem refugiado albânes (Achileas Skevis), que ele resgata do mercado negro.
Theo Angelopoulos cria uma atmosfera incrivelmente assombrosa, uma fusão de realidade, nostalgia e sonho. Cria uma metáfora visual para o isolamento da alma. Além disso, as imagens recorrentes de edifícios abandonados, fugas repetidas de albaneses através da fronteira, e o poema inacabado, refletem o arrependimento de Alexandre sobre as suas próprias acções. Figurativamente Alexandre também está no exílio - desejando recriar um passado irrecuperável - incapaz de voltar para casa.

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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Olhar de Ulisses (To Vlemma Tou Odyssea) 1995



Theo Angelopoulos tem um estilo visual muito sedutor, que consiste em takes longos e muito poucos diálogos, não muito diferente de Bela Tarr, mas onde Tarr usa lama, chuva, e pequenos episódios apresentados em takes longos, os filmes de Angelopoulos têm um estilo visual muito mais limpo, menos episódico, e os takes longos são em muito menor número, e mais espalhados pelo filme.
Quando um filme não é episódico, por outras palavras, quando existe um macro-plot em vez de muitos mini-plots, a narrativa global vale melhor o tempo do espectador. No caso de "O Olhar de Ulisses", um realizador sem nome (que na realidade se chama A.), viaja através das Balcãs para localizar as bobines de três filmes dos primeiros realizadores daquela zona, os irmãos Manakis. Os irmãos Manakis trabalhavam no início do século vinte, e os seus primeiros trabalhos, e de acordo com este filme que reescreve a história por causa do drama, tal como alguns bons filmes também o fizeram, estão algures nas Balcãs, esperando ser descobertos. Porque não foram objecto de maior interesse pelos diferentes arquivos filmicos das Balcãs? O filme não explica.
A., interpretado por Harvey Keitel, é o realizador que cresceu nas Balcãs, que fala grego, mas que passou a maior parte da sua vida nos Estados Unidos, produzindo filmes que muitos gregos, por alguma razão, abominam. Ele ouve falar das bobines perdidas, e decide partir em viagem para descobrir o rasto da origem do cinema nas Balcãs.
No processo, viaja através da Grécia, Albânia, Bulgária, Sérvia, e Bósnia Herzegovina. O título do filme sugere uma dimensão "Odisseia" para a viagem, mas isso é uma ilusão. A certa altura ele transporta uma mulher vestida de preto para o outro lado do rio, onde encontram os primeiros sinais de destruição na antiga Jugoslávia, numa cena que evoca o episódio de Hades, mas a metáfora é ténue, e um pouco confusa.
O filme é muito interessante a identificar as Balcãs, e há muitas cenas em que o passado se confunde com o presente, com os personagens a mudarem e a parecerem figuras do passado. O filme caminha para uma espécie de realismo mágico, contendo cenas filmadas de um modo que mal são notadas, incluindo um take no inicio do filme onde uma audiência assiste ao último filme de A., cativada, em pé e à chuva.
Concorrendo em Cannes no ano de 1995, acabou por perder a Palma de Ouro para "Underground", de Kusturica. Desapontado pela derrota acabou por chocar uma plateia em silêncio, com as palavras: "Se é isto que têm para mim, eu não tenho nada a dizer". Mas o filme ainda ganharia o FIPRESCI Prize, e o Grande Prémio do Júri, que é uma espécie de segundo lugar.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Passo Suspenso da Cegonha (To Meteoro Vima Tou Pelargou) 1991



Alexandre, um repórter, é destacado para fazer a cobertura televisiva da situação dos refugiados albaneses, turcos e curdos numa cidade fronteiriça. De entre estes, o repórter repara num velho homem que julga ser um importante político grego desaparecido misteriosamente há alguns anos atrás. De volta a Atenas, Alexandre pede á viúva do político que o acompanhe no regresso á cidade para o ajudar na identificação do homem. A partir daqui, dá-se início a uma seca e lenta reflexão sobre a desumanidade das fronteiras…
"Angelopoulos filma aqui uma espécie de desespero radical, de quem perdeu todas as ilusões diante de um final de século em que o mundo aparenta optimismo mas, na realidade, se encontra privado de todas as esperanças. A euforia demoliberal que atravessa o Ocidente, com o fim dos regimes ditatoriais da América Latina e África (mas outros nascem...), com o fim da divisão da Europa em dois blocos antagónicos, com a aparente «conversão» universal às virtudes de um único sistema económico e político, é orquestrada com fanfarras de unanimismo, como se o livre comércio e o parlamentarismo burguês fossem um ideal planetário e avançássemos para o melhor dos mundos possíveis. Mas não é assim, porque a História não pára, nem as contradições sociais e étnicas, nem os movimentos da Terra. E descobrimos, perplexos (?!), novas dobras de dor e sofrimento, pulsões que se julgavam erradicadas, intrincados nós no caminho da espécie humana. Com uma angústia porventura mais densa do que antes: é que as utopias morreram - e morreram a sangrar de vergonha...
O Passo Suspenso da Cegonha é um filme que respira essa angústia, esse vazio desesperado de horizontes, possíveis ou miríficos. Na sua imediata aparência fala de uma questão pontual, o problema dos refugiados à beira das fronteiras inultrapassáveis, divididos pelo absurdo de uma linha no solo, um risco na paisagem. Mas nas suas entranhas é algo muito mais vasto que palpita. É a suspensão da acção, a impotência de mudar, a resignação ao cinzento. É a descrença na política como fonte de alteração das coisas, é o alheamento. Se o personagem central de O Passo Suspenso da Cegonha abandonou tudo é porque só pode acreditar numa coisa pequena, palpável, directa: a partilha franciscana do sofrimento com os deserdados. Tudo o mais colapsou.
Muito bonito é que o desespero tenha notações que remetem também para a memória do cinema. Que outra leitura para a presença de Marcello Mastroianni e de Jeanne Moreau, num casal estraçalhado pelo vazio, senão uma reminiscência que poderá conduzir - em fim de caminho - a A Noite de Antonioni? Reminiscência que passa pelo que esses dois actores foram neste século em que os vimos envelhecendo connosco, à medida que o cinema europeu perdia a fé em si mesmo e perdia a cumplicidade do público. Não são eles, também, náufragos de qualquer coisa que o andar dos dias afundou?
Angelopoulos é o primeiro cineasta a captar algo que anda por aí a corroer-nos. Fá-lo no seu jeito calmo, um pouco formal, hierático, varrendo a paisagem a voos de plano-sequência, mais os silêncios que as falas, mais o tempo que a acção. Estaremos dispostos a deixarmo-nos possuir por este ritmo contrário ao frenesim com que o cinema costuma, hoje, agitar-nos? Estaremos disponíveis para um discurso que é tudo menos exaltante? Se o estivermos - mas O Passo Suspenso da Cegonha caminha contra-a-corrente - por certo que não receberemos «entertainment» e fogo de artifício, evasão e divertimento. Só seremos confrontados com o que não queremos ver. Mas desde quando o cinema serve apenas para fugir de casa, do quotidiano e dos calados medos?"
Jorge Leitão Ramos, Expresso, 17/4/92

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Paisagem na Neblina (Topio Stin Omichli) 1988



Road Movie sobre duas crianças, Voula e Alexandre, à procura do pai, que é suposto viver na Alemanha. Uma obsessão pela figura materna do pai vai levá-los a cruzar as fronteiras entre a infância e a adolescência.
"Landscape in the Mist" é uma fábula comovente, lírica e alegórica da luta humana pela identidade. Ao visitar a família itinerante de actores de "O Thiasos", Theo Angelopoulos expõe no intransigente, mas cíclico processo da vida como a ponte comum, e universal da experiência humana: a imagem de um cavalo a morrer na neve (que lembra Robert Bresson em "Au Hasard Balthazar") justaposta com uma festa de casamento, a partida de Orestis do seio familiar para se juntar ao exército, a estranha imagem de uma mão gigante em estátua que emerge do mar que metaforicamente relaciona o legado cultural da civilização grega antiga com a Grécia contemporânea. Tal como a mão esculpida, simbólica, as crianças também estão incompletas - separadas do seu lar, sendo-lhes negada uma relação com o seu pai. E tal como os artistas viajantes, as crianças embarcam numa viagem sem fim para a qual não há regresso. No entanto, na sua luta para ultrapassar as barreiras criadas artificialmente (um tema também explorado por Andrei Tarkovsky), que as separa do seu indescritível pai alemão, as crianças encontram o seu próprio caminho para a reconciliação pessoal.
Na assombrosa e surreal cena final, as crianças abraçam uma ligação substituta à sua história ancestral - um ícone universal que une toda a humanidade em direcção a um objectivo comum de sobrevivência e continuidade - um símbolo duradouro da natureza e da vida.
Ganhou vários prémios no festival de Veneza de 1988.  

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