domingo, 12 de maio de 2013
O Expresso de Berlim (Berlin Express) 1948
A RKO foi o primeiro estúdio de Hollywood a fazer um filme de ficção na Alemanha do pós-guerra, um filme de espionagem/whodunit passado num comboio com uma longa escala em Frankfurt para abrir o drama, é também uma peça intrigante de propaganda aliada que pretende provocar apoio para a reunificação de um ex-inimigo, a fim de frustrar um movimento de resistência alemão não identificado no submundo, definido em promover divisões e disputas entre americanos, britânicos, franceses e as forças de ocupação soviéticas.
A mensagem do argumento de Harold Medford (baseada numa história de Curt Siodmak) é bastante clara: não odei os alemães, existem bons que tentam estabelecer um Estado democrático, progressivo, com metas internacionais pacíficas.
É este pensamento progressista que finalmente convence quatro membros figurativos das potências aliadas - Robert Lindley (Robert Ryan), um cientista; Perrot (Charles Korvon), um viajante francês; o tenente soviético Maxim Kiroshilov (Roman Toporow), e um burocrata britânico chamado Sterling (Robert Coote) - para ajudar o Dr. Bernhardt (Paul Lukas) e a sua assistente francesa Lucienne (Merle Oberon) a escapar de tentativas de assassinato pelo movimento da resistência.
Claro que todos começam a sua viagem de comboio a não gostar uns dos outros, fazendo observações que não fazem justiça, bem como abrigarrem um ódio coletivo para com os alemães em geral, mas o assassinato repentino de um falso Dr. Bernhardt deixa o grupo preso em Frankfurt, onde eles são analisados por uma equipa americana antes de lhes ser cencebida premissão para viajar para Berlim. Antes do grupo poder entrar no comboio, no entanto, o bom médico é raptado, e os viajantes desconfiados relutantemente procuram-no juntos pela cidade, e, eventualmente, descobrem pistas sobre o esconderijo secreto da resistência.
A paragem em Frankfurt produz imagens surpreendentes, mostrando uma cidade bombardeada em ruínas, e a narração de Paul Stewart, uma característica regular ao longo do filme, ironicamente oferece detalhes de localizações e comentários editoriais sobre sobreviventes devastados pela guerra, ou se focam em cartazes de avisos sobre familiares desaparecidos durante a guerra. A narração de Stewart também fornece alguma ajuda geográfica, uma vez que descreve o caminho onde os personagens são levados de autocarro pelas ruas da cidade em ruínas, a passagem por um posto de controle militar dos EUA, e a aproximação do ex-IG Farben Building (agora o Edifício Poelzig), quartel-general do Supremo Comando Aliado depois da Segunda Guerra Mundial. É neste prédio enorme, onde os personagens são interrogados sobre a explosão de uma bomba no comboio, e os actores foram filmados dentro do complexo de escritórios.
Berlim só é vista no final, mas novamente a narração de Stewart aponta as localizações, como a estação de Wannsee - "Wannsee é o mais perto que se pode trazer o Expresso de Berlim hoje" -, bem como o irreconhecível Hotel Adlon, as ruínas do Reich Chancellery, Unter den Linden, e o Portão de Brandenburgo.
Realizado por Jacques Tourneur, o filme é ostensivamente uma mensagem de esperança, cristalizada na sequência final onde Lucienne e Bernhard caminham pelo Portão de Brandemburgo juntos, enquanto um soldado com uma só perna passa em frente deles, visto apenas como uma silhueta gritante avançando para a frente, e não para trás, num passado em ruínas.
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sábado, 11 de maio de 2013
Em Junho...
Um dos filmes que fará parte da selecção de luxo para Junho: "Muerte de un Ciclista", de Juan Antonio Bardem.
O Arrependido (Out of the Past) 1947
Jacques Tourneur dirigiu um dos maiores noirs de todos os tempos com Out of the Past, que também deu a Robert Mitchum um dos seus dois maiores papéis (o outro foi o de The Night of the Hunter).
Mitchum interpreta Jeff Bailey, um trabalhador de um posto de gasolina que namora com uma rapariga local, Ann (Rhonda Fleming), com quem está tentando fazer uma vida normal. Mas o seu passado persegue-o e ele é forçado a terminar uma história iniciada noutro ponto da vida. Trabalhar para um rico gangster (Kirk Douglas), é enviado para a América do Sul para encontrar a namorada errante do gangster, Kathie (Jane Greer). Mas em vez de trazê-la para casa, apaixona-se por ela e fogem juntos.Mas o gangster não vai desistir de procurá-los.
Tendo-se formado na escola de cinema de Val Lewton, Tourneur era um mestre das sombras e da escuridão, e como tal era uma realizador mais adaptado ao noir, do que a qualquer outro género. O filme começa de um modo muito brilhante, mas no momento em que Jeff se afunda de volta para o submundo das sombras, a escuridão começa a invadir cada frame. Até os cantos das salas, portas e janelas, conspiram contra ele, fechando-o e impedindo-o de entrar em cena. Daniel Mainwaring adaptou a sua novela, "Build My Gallows High", sob o pseudónimo de Geoffrey Homes.
Explicar o enredo de "Out of the Past" seria uma tarefa difícil e, francamente, o argumento do filme não pretende ser claro. É como um sonho, um quebra-cabeças pelo qual Mitchum vai caminhando. É a viagem ao presente, passado e novamente ao presente seguindo um caminho até a um final fatalista, que é o que torna o filme tão interessante. A maior parte do filme nem sequer parece noir. A High Sierra sem núvens e o verão mexicano parecem brilhantes demais para um noir. Mas Out of the Past é sem dúvida um dos maiores e mais originais, com algumas das suas qualidades a serem produtos do seu tempo, ao passo que outros aspectos garantem, pelo contrário, a sua atemporalidade. O filme atravessa a linha entre estas duas identidades, equilibrando cada uma numa perfeita sincronia, sempre com fortes indícios de que um verdadeiro artesão está no comando. Ironicamente, o nome de Jacques Tourneur não é dos primeiros que vêm à mente quando se fala dos grandes realizadores da altura como John Huston, Billy Wilder, Nicolas Ray ou Stanley Kubrick, os quais dirigiram alguns dos melhores noirs. Mas isso nunca vai mudar o facto de que Tourneur saltou a cerca com Out of the Past.
O filme estreou em Inglaterra com o mesmo título do romance, mas os distribuidores americanos mudaram para o título mórbido e mais simples Out of the Past. Seria refeito em 1984 com o nome de Against All Odds, e com Jeff Bridges, Rachel Ward e James Woods nos principais papéis.
Amor Selvagem (Canyon Passage) 1946
Em 1856, um empresário do interior, Logan Stuart (Dana Andrews) acompanha Lucy Overmire (Susan Hayward), a noiva de um amigo, de volta para casa para a remota Jacksonville, no Oregon. No decurso da difícil viagem, Lucy sente-se atraída por Logan, cujo coração parece pertencer a outra. Assim que chegam a Jacksonville, uma confusão de subtramas envolvendo vilões, damas, triângulos românticos, febre do jogo, homicídio, e vigilantismo ... culminando com uma revolta indígena que ameaça todos os colonos.
"Canyon Passage" é um exercício maravilhosamente divertido no subgénero "western psicológico", rodado num glorioso Technicolor, e com algumas interpretações surpreendentemente pesadas pelo excelente elenco. O realizador Tourneur, no auge da sua forma (o filme seguinte a Canyon Passage seria o noir clássico, Out of the Past), manipula de uma forma incrível o argumento deste western (o seu primeiro western, assim como o seu primeiro filme colorido), trazendo um fio condutor, quase hipnotizante. Enquanto os principais elementos da trama são simples (o triângulo amoroso, a cidade civilizada emergente, o valentão da cidade), Tourneur mostra uma atenção quase perversa de intrigantes detalhes ao desenhar os personagens que irão preencher esta trama.Obviamente, Tourneur deu um maior destaque aos canalhas deste filme, deixando Brian Donlevy e Ward Bond criarem vilões memoráveis e complexos que inquietam desenhar a simpatia do espectador. O George de Donlevy, um ladrão que procura sempre o caminho mais fácil, é o suficiente preverso para escolher alguém tão bonita como Lucy para sua noiva, mesmo indo tão longe a ponto de ousar que o seu melhor amigo Logan a beije, para provar que é melhor. Tourneur, na sua busca por personagens mais complexas moralmente, recusa-se a deixar-nos saber, concreta e definitivamente, se George realmente matou o mineiro por causa do ouro, tornando ainda mais desconfortável o personagem George. O tratamento de Tourneur para com o valentão da cidade, Honey Bragg, é talvez o mais estranho neste filme. Bond, dando a Bragg uma inteligência pensativa e astuta ao seu personagem, sai quase como patético na sua luta com Logan (melhor sequência do filme). Espancado, mas não abatido, ele é o desprezo da multidão que instiga a luta. E quando Bragg foge dos índios que querem vingar a sua violação e assassinato de uma jovem india, Tourneur dá-lhe um momento final do simpatia do público, como um quadro do seu rosto aterrorizado preenchido entre as folhas vermelhas de um outono sangrento (o uso da cor por Tourneur não é nada menos do que brilhante neste filme).
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Noite na Alma (Experiment Perilous) 1944
Jacques Tourneur facilmente circula da série B para a série A, como está explícito neste "Experiment Perilous". O argumentista Warren Duff localiza este elegante melodrama de mistério no romance de Margaret Carpenter de 1943, mas aparentemente é mais inspirado nos thrillers psicológicos como Gaslight, Laura e Rebecca.
Uma mistura de emoções, psicologia e patologia. Em 1903, o doutor Huntington Bailey (George Brent) encontra uma senhora idosa e amigável no comboio. Ela diz-lhe que vai visitar o irmão (Paul Lukas) e a sua linda e jovem esposa (Hedy Lamarr). Em Nova York, Huntington ouve dizer que a sua companheira do comboio morreu repentinamente. Conhece o casal Lamarr-Lukas, e fica desconfiado do tratamento de Lukas para com a esposa, e sua tentativa de fazê-la passar por louca. Uma confusão nos sacos revela o diário da senhora falecida, que confirma as dúvidas de Brent. Ele tenta salvar Lamarr, por quem agora está apaixonado.
Lançado no mesmo ano que "Gaslight" de George Cukor (1944), este melodrama da era vitoriana realizado por Jacques Tourneur está igualmente preocupado com as ramificações mortais da desconfiança conjugal e a manipulação psicológica. A sua sequência de abertura, a ter lugar num comboio, é uma reminiscência de "The Lady Vanishes" (1938), de Hitchcock, como George Brent a encontrar e fazer amizade com uma misteriosa mulher mais velha (Olive Blakeney), que lhe oferece a sua "marca especial de chá". Blakeney está excelente na sua breve aparição, mas o seu personagem é morto, a fim de pôr em movimento a cadeia de eventos que acabará por levar a paixão de Brent com a linda cunhada de Blakeney, uma mulher igualmente misteriosa.
Foi nomeado para um Óscar, de "Best Art Direction-Interior Decoration, Black-and-White".
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Dias de Glória (Days of Glory) 1944
Primeiro filme grande de Jacques Tourneur para a RKO Radio Pictures depois de terminar a trilogia dos filmes de baixo orçamento para a unidade de terror do produtor Val Lewton, no início dos anos 1940, era uma peça de propaganda de guerra atmosférica, para o qual o realizador pode ser visto a aplicar o mesmo talento para visuais marcantes tingidos de noir, que era o tom de muitos outros filmes do género do mesmo período. O filme é uma elegia cinematográfica ousada, dedicada à bravura e abnegação do povo russo, que assumiu a adesão das unidades partidárias rebeldes organizadas por forças militares de Stalin, em 1941, para combater o sucesso inicial da Operação Barbarossa. A intenção: interromper ou, eventualmente, repelir a invasão de Hitler à Rússia Soviética.
A estratégia desenvolvida numa longa e brutal campanha de guerrilha, lutaram na frente oriental durante todo o resto da 2 ª Guerra Mundial, que apenas chegava ao fim quando o filme estava para ser lançado nos cinemas norte-americanos. Mesmo com o conflito ainda fresco nos corações e mentes, as complicações e ambiguidades morais da guerra são, no entanto explicitamente abordadas pela narrativa do filme - mesmo com um revestimento do glamour de Hollywood dos anos 40, e o sentimento romântico. Ao mesmo tempo, o Exército Vermelho é aqui retratado de forma inequívoca pela máquina de Hollywood como sendo constituido por lutadores da liberdade de coração valente para serem louvados como grandes heróis, e o pequeno grupo de aldeões rebeldes russos, que são o foco deste conto, fazem esta licitação de bom grado e entusiasticamente em defesa da sua pátria. Nos dias que correm, provavelmente estariamos mais inclinados para vê-los como vítimas comuns, fatalmente presos entre dois regimes totalitários igualmente brutais e opressivos, mas o oficial do Exército Vermelho encarregado de organizar o bando de guerrilheiros numa célula de combate underground eficaz, é aqui interpretado pelo belo actor de Hollywood Gregory Peck, no que foi também a sua estreia cinematográfica, e foi com a guerra ainda a decorrer que o filme entrou em produção em 1944, e a mensagem final era clara: só é um bom nazi, um nazi morto, e nenhum preço é demasiado alto para ser pago pela derrota de Hitler.
O filme conseguiu arrecadar uma nomeação para o Óscar de Melhores Efeitos Especiais, que acabaria por perder em detrimento de "Thirty Seconds Over Tokyo", outro filme sobre a Segunda Guerra Mundial.
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
Jacques Tourneur
Filho do realizador Maurice Tourneur, Jacques Tourneur tornou-se no mais ilustre dos graduados de Val Lewton na RKO, onde o produtor e a sua equipa desenvolveram um novo sub-género de terror psicológico nos anos 40. Uma névoa implacável paira sobre a trilogia que Tourneur filmou para Lewton: "Cat People", "I Walked With a Zombie", "The Leopard Man". Ao público é deixado a concluír se estes eventos sinistros são produtos de uma influência sobrenatural ou de uma imaginação fértil sobre o folclore e o mito - ou de uma espécie de combinação entre os dois.
O realizador parece ser fascinado por estranhos em terras estranhas, fugitivos e recém-chegados a tentarem adaptar-se a ambientes não familiares. Criando ambientes sombrios, em parte para disfarçar os pequenos orçamentos, Tourneur e o director de fotografia Nicholas Musuraca impregnavam aos seus filmes um pressentimento tanto de pura luz como de escuridão. Isto era mais memorável em "Cat People", na assustadora cena da piscina.
Tourneur e Musuraca voltaram a trabalhar juntos, desta vez sem Lewton, em "Out of the Past", com Robert Mitchum como o narrador fatalista. Um noir quintessencial que tem uma série de conivências e traições, nos quais, tal como nos filmes de terror do realizador, os personagens eram assombrados por fantasmas da sua própria concepção. "Out of the Past" é fascinante nas suas convoluções e na bizarra psicologia do anti-herói de Mitchum. Parece desejar a sua própria destruição.
Depois de "Out of the Past", Tourneur trabalhou em vários géneros, durante os anos 40 e 50, e os seus créditos de realizador incluem filmes como: um wetern em technicolor "Canyon Passage", um thriller do pós-guerra "Berlin Express", "Nightfall", uma revisão de "Out of the Past", e uma revisão do seu filme de terror, em "The Night of the Demon", entre muitos outros.
Nos próximos dias, vamos passar aqui em revista uma grande parte da carreira deste realizador. Vamos deixar de parte aqueles dois enormes, "I Walked With a Zombie", e "Cat People", que já tinham passado neste blog no ciclo de cinema de terror dos anos 40, e vamos retomar a sua carreira a partir de "Days of Glory", de 1944. Teremos por aqui, 13 dos seus mais importantes filmes.
A partir de amanhã, espero que seja do vosso agrado. Até já.
O realizador parece ser fascinado por estranhos em terras estranhas, fugitivos e recém-chegados a tentarem adaptar-se a ambientes não familiares. Criando ambientes sombrios, em parte para disfarçar os pequenos orçamentos, Tourneur e o director de fotografia Nicholas Musuraca impregnavam aos seus filmes um pressentimento tanto de pura luz como de escuridão. Isto era mais memorável em "Cat People", na assustadora cena da piscina.
Tourneur e Musuraca voltaram a trabalhar juntos, desta vez sem Lewton, em "Out of the Past", com Robert Mitchum como o narrador fatalista. Um noir quintessencial que tem uma série de conivências e traições, nos quais, tal como nos filmes de terror do realizador, os personagens eram assombrados por fantasmas da sua própria concepção. "Out of the Past" é fascinante nas suas convoluções e na bizarra psicologia do anti-herói de Mitchum. Parece desejar a sua própria destruição.
Depois de "Out of the Past", Tourneur trabalhou em vários géneros, durante os anos 40 e 50, e os seus créditos de realizador incluem filmes como: um wetern em technicolor "Canyon Passage", um thriller do pós-guerra "Berlin Express", "Nightfall", uma revisão de "Out of the Past", e uma revisão do seu filme de terror, em "The Night of the Demon", entre muitos outros.
Nos próximos dias, vamos passar aqui em revista uma grande parte da carreira deste realizador. Vamos deixar de parte aqueles dois enormes, "I Walked With a Zombie", e "Cat People", que já tinham passado neste blog no ciclo de cinema de terror dos anos 40, e vamos retomar a sua carreira a partir de "Days of Glory", de 1944. Teremos por aqui, 13 dos seus mais importantes filmes.
A partir de amanhã, espero que seja do vosso agrado. Até já.
A Hora do Lobo (Vargtimmen) 1968
Cheio de fantasmas e de shock-cuts, A Hora do Lobo (1968) é o mais próximo que Bergman alguma vez esteve de fazer um filme de terror.. Max Von Sydow interpreta um artista solitário que se refugia com a sua esposa (Liv Ullmann) numa uma ilha remota para trabalhar. "Vizinhos" abrasivos e assustadores começam a incomodá-lo, mas todos eles são apenas fantasmas - fantasmas da sua mente. Infelizmente, a esposa do artista começa a vê-los também. Algumas das imagens, como a de um menino a olhar para Von Sydow quando ele está a pescar, irá assombrá-lo muito tempo depois. O filme é contado a partir do ponto de vista de Ullmann, depois do artista estar morto. Ela fala diretamente para a câmera, com barulhos da equipa de filmagem a poderem ser ouvidos durante os créditos de abertura, lembrando-nos desde o início que tudo isto é só um filme.
Um primo mais escuro de "Persona", "A Hora do Lobo" mantém uma estrutura mais familiar - sequências estranhas contadas em flashback pela viúva do artista -, mas afastam-se das confissões emocionalmente vulneráveis da viúva, como a mentira, o segredo, do pintor a morrer emocionalmente, que perde a capacidade de discernir a realidade, mas é suficientemente cognitivo das suas ações para a observação clínica dos efeitos sobre a sua leal esposa.
Com as recordações de Ullman, um final chocante, e uma fotografia num preto e branco requintado, há uma semelhança especial com o chocante clássico de 1961, de Jack Clayton, "Os Inocentes." Como o pesadelo do funeral em "Morangos Silvestres", e a banda-sonora de Lars Johan Werle faz lembrar o vale de lama surreal de Alejandro Jodorowsky em "Fando e Lis" (em termos de sonoridade e texturas físicas há uma semelhança indireta).
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quinta-feira, 9 de maio de 2013
Viy (Viy) 1967
Viy narra a história de um jovem do clero num curto período de licença de férias do seminário. Junto com dois amigos, Khoma encontra abrigo numa quinta, onde mora uma velha. Naquela noite, a velha mulher que afinal era uma bruxa, leva Khoma para um passeio na sua vassoura. Khoma, de modo nenhum satisfeito com a bruxa, espanca-a e foge. Enquanto bate na velha bruxa esta transforma-se numa bela jovem. Depois de regressar ao seminário, Khoma é convocado para recitar as últimas orações a uma jovem mulher que o chamou especificamente a ele, antes de dar o seu último suspiro. Sim, adivinharam, a mesma jovem da noite anterior. Durante três noites Khoma está trancado num quarto com a jovem, e enquanto ele reza, coisas estranhas começam a acontecer. A cada noite, as coisas ficam cada vez piores, até que, finalmente, Viy é convocado.
Viy é uma história que foi escrita no século XVIII por Nikolay Gogol, e o conto é atemporal. É um conto de fadas, de pesadelo, e esta versão do filme é uma exploração de todo o ambiente inerte à sua história. O russo Alexander Ptushko é conhecido pelos seus efeitos especiais, que têm um charme adequadamente low-tech neste conto popular. As imagens parecem ilustrações de livros infantis de animação, e enquanto elas não são aqui particularmente inovadoras como cinema, funcionam muito bem. Ptushko compartilha os créditos do argumento com Konstantin Ershov e Giorgi Kropachyov, que também são os realizadores.
Ao contrário de Mario Bava, que, basicamente, usou o gancho em "Viy" no seu clássico trabalho gótico Black Sunday / La Maschera del demonio (1960), ao conto de Nikolai Gogol foi dada uma adaptação mais fiel nesta produção russa , com os realizadores praticamente a aderirem à história original e às suas personagens, com resultados muito diferentes.
Este foi o primeiro filme de terror russo feito até hoje, uma obra totalmente perdida no tempo, que merece ser recordada.
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Frankenstein's Bloody Terror (La Marca del Hombre-lobo) 1968
Procurando um tesouro numa certa noite, um casal cigano bêbado profana a cripta da família do castelo Wolfstein, em ruínas. Um cadáver que deveria estar completamente deteriorado, mas não está - o do notável Imre Wolfstein, a quem diz a lenda ter sido amaldiçoado - é encontrado com um crucifixo de prata valioso enterrado no seu peito. A arma é removida, e antes que consigamos dizer "Lycanthrope!" o homem morto ganha vida transformado num lobisomem e mata os ciganos, partindo depois para o campo.
Waldemar Daninsky (Paul Naschy) sabe alguma coisa sobre a história da família Wolfstein e as lendas obscuras que a rodeiam. Depois de ouvir falar de um ataque fatal sobre a população local, vai para a cripta Wolfstein, descobrindo os corpos dos ciganos e a arma santa que foi tolamente removida. Quando os homens da área organizam uma caça ao lobo para matar a fera, Daninsky traz o crucifixo-punhal com ele, além da sua espingarda. Mas só então percebem que o predador que eles procuram não é um lobo comum.
Em primeiro lugar, devem querer saber onde diabos o nome de Frankenstein se encaixa em tudo isto? A resposta é: em lado nenhum. Originalmente chamado La Marca Del Hombre Lobo ("Mark of the Wolf Man"), o título do filme foi mudado para "Frankenstein´s Bloddy Terror" pela The Independent Internacional de Sam Sherman para ser distribuido nos EUA - apenas porque Sherman já tinha prometido aos distribuidores um filme de Frankenstein, e de repente se viu incapaz de o entregar.
Frankenstein´s Bloddy Terror é um marco no cinema espanhol. Não só ajudou a iniciar a resurgente fase do horror gótico em Espanha, mas também lançou a carreira de um dos actores e cineastas mais prolíficos de Espanha: Jacinto Molina (Aka"Paul Naschy"). Molina interpreta o machista Conde Waldemar Daninsky num papel que iria voltar por onze vezes nos anos seguintes. Um grande fã dos filmes de monstros da Universal, Molina incorpora muitos elementos de enredos familiares e dispositivos estilísticos utilizados em filmes como The Wolf Man para moldar o seu próprio clássico gótico. Traz uma energia bruta e uma fúria bestial ao papel que fez dele um ícone internacional do cinema de terror. Considerando o orçamento minúsculo, Molina e o realizador Enrique López Eguiluz conseguem incluir uma série de surpreendentes cenários, assim como um clima terrível que assombra os corredores malditos do Castelo Wolfstein.
Legendado em Inglês.
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Drácula, O Príncipe das Trevas (Dracula: Prince of Darkness) 1966
A Hammer Films deu seguimento ao seu muito bem sucedido "Horror of Dracula" (1958) com "Brides of Dracula", em 1960. Embora Peter Cushing tenha aparecido novamente como o caçador de vampiros Professor Van Helsing no último filme (cujo vilão era o "Barão Meinster", não Dracula), Christopher Lee não regressaria como o morto-vivo da Transilvânia até este "Dracula - Prince of Darkness", em 1966. Descontente com o diálogo dado ao rei vampiro no argumento de John Sansom, Lee interpretava o papel - além dos rosnares habituais - completamente em silêncio.
Dez anos depois de Dracula ser espetacularmente morto por Van Helsing durante o clímax do filme de 58 (que é mostrado aqui como uma sequência pré-título), dois casais Ingleses estão de férias nos Cárpatos: os irmãos Kent, Alan (Charles Tingwell) e Charles (Francis Matthews), juntamente com as suas esposas Helen (Barbara Shelley) e Diana (Suzan Farmer). Numa pousada encontram o Padre Sandor (Andrew Keir), um corpulento abade. Ele aconselha-os a não desprezar algumas das superstições locais, incisivamente alertando-os para ficarem longe de um castelo nas proximidades. O conselho do monge só contribui para a sensação de mal-estar que tomou conta de Helen desde que chegou à região.
Naturalmente, este quarteto acaba por ir parar ao castelo que foram avisados . Abandonados pelo cocheiro supersticioso, são surpreendidos quando um coche sem condutor aparece na estrada - uma dádiva de Deus. Embarcam neste novo transporte mas rapidamente descobrem que os cavalos não irão responder ao seu controle. E rapidamente os cavalos levam-nos directamente para o pátio do castelo aparentemente deserto. A partír daqui este quarteto vai passar uma noite de horrores...
Christopher Lee, como um Drácula silencioso, usa a sua altura, fisicalidade escura para um grande efeito no filme, continuando a sua história do Conde Drácula de um modo realista, e cruel, composto ainda por selvagens explosões de violência. Esta é uma produção de primeira linha, muito bem interpretada por todo o elenco - Barbara Shelley é o verdadeiro destaque - e enquanto se pode lamentar a ausência de Peter Cushing (que trouxe tal dinamismo a "Brides of Dracula"), mas o substituto do professor Van Helsing, o padre Sandor, é um personagem memorável, imposto por Keir. O filme é habilmente dirigido por Terence Fisher, o homem por trás de muitos dos melhores e mais amados filmes do estúdio, um mestre da atmosfera gótica e um realizador muito hábil em obter o máximo de quilometragem de um orçamento limitado.
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quarta-feira, 8 de maio de 2013
Repulsa (Repulsion) 1965
Na história do cinema de terror, "Repulsa" é um marco, um filme que ajudou a restabelecer o poder primordial do género e as suas complexidades temáticas e emocionais. Depois de na década de 50 o terror ter-se tornado numa espécie de piada via os "teen-cheapie drive-in movies" como as comédias de Abbott e Costello, a década de 60 foi uma década de reinvenção, começando por "Psycho" e terminando em "A Noite dos Mortos Vivos" (1968), de George A. Romero, explorações psicologicamente densas, visualmente inventivas, e tematicamente ricas do que nos assusta mais, que sempre corresponde a uma queda drástica do que oque consideramos "normal".
"Repulsa" é, em muitos aspectos, o mais complexo e exigente dos filmes de terror desta década, principalmente na forma como nega qualquer tipo de explicação para o que acontece durante os tensos 105 minutos. Em vez disso, Polanski e o seu antigo co-argumentista Gerard Brach deixa-nos no início de um colapso psicológico, que depois seguem inexoravelmente, recusando-se a permitir ao público um momento de tréguas a partir da perspectiva da heroína mentalmente em ruínas, uma franco-belga que mora em Londres chamada Carole Ledoux. Carole é interpretada por Catherine Deneuve, que na altura era uma estrela em ascensão na sua França natal, mas era geralmente desconhecida no cinema em lingua inglesa, o que lhe dava um tipo de beleza anónima que fazia o eventual colapso ser ainda mais chocante e desconcertante . Carole, que é quase patologicamente tímida e reservada (para não dizer sexualmente reprimida), vive num apartamento com a irmã mais velha Hélène (Yvonne Furneaux), uma morena sensual e extrovertida, que está envolvida num caso com um homem casado (Ian Hendry) . Quando ela e o namorado vão de férias para Itália durante uma semana, Carole é deixada sozinha, e o seu estado mental começa a deteriorar-se rapidamente, o que Polanski retrata com uma intensidade fascinante, levando-nos profundamente dentro da sua experiência de alucinações, paranoia e medo.
Fotografado num preto e branco austero por Gilbert Taylor, um veterano da indústria que recentemente tinha feito a fotografia de Dr. Strangelove (1964) e A Hard Day's Night (1964) e iria fazer a de Frenzy de Hitchcock (1972), bem como a de Star Wars (1977), "Repulsion" é antes de mais um filme intensamente experimental, trazendo fisicalidade literal de fissuras mentais e emocionais. Polanski atrai-nos com uma cascata crescente de sons e imagens, começando com pequenos ruídos estranhos e a aparência ímpar de rachas nas paredes. Conforme o tempo avança, marcado tanto pelo crescimento como pela decadência, as rachas começam a ficar maiores, e os sons estranhos a transformarem-se numa cacofonia de sons que gritam como uma voz distorcida. Quando estranhos tentam entrar no apartamento, incluindo um senhorio lascivo (Patrick Wymark) e um rapaz (John Fraser), que teve uma tentativa frustrada de sair com Carole, a sua paranoia torna-se homicida.
No entanto, ao longo do filme Polanski recusa-se a transformar Carole num simples monstro, razão pela qual Repulsa é como um filme de terror progressivo, que corta as simples e reconfortantes categorias do bem e do mal. O filme é assustador precisamente porque somos atirados directamente ao mindscape de Carole, e vemos praticamente tudo através dos seus olhos. Assim, os temores de Carole são os nossos medos, nós saltar como ela faz quando as rachas, cada vez mais maciças, de repente aparecem nas paredes, e sentimos-nos desorientados quando a sala é inexplicavelmente maior do que era, e sentimos os horrores da asfixia quando ela é atacada na sua cama. Polanski tinha apenas 32 na altura em que ele fez Repulsa.
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terça-feira, 7 de maio de 2013
O Manuscrito de Saragoça (Rekopis Znaleziony w Saragossie) 1965
A reputação deste filme polaco, épico surrealista, precede-o e Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Jerry Garcia (dos Grateful Dead), Luis Buñuel e David Lynch são todos fãs, e o filme é muito interessante com estudo de um fluxo narrativo. Começa durante as Guerras Napoleónicas com soldados rivais a descobrirem o manuscrito do título. A "história", de seguida, salta para Alfonso van Worden (Zbigniew Cybulski), que aparentemente casa-se com duas princesas que só pode ver em sonhos. Seguimos Alfonso em viagem por algum tempo, mas ele acaba por se tornar uma personagem secundária com os outros a assumirem mais relevância, a contarem as suas próprias histórias.
Personagens dentro de flashbacks a contarem histórias, que levam a outros flashbacks. A certa altura, há quatro ou cinco flashbacks dentro uns dos outros. É um filme digno de Walter Benjamin ou Jorge Luis Borges, mas é bastante surpreendente de descobrir esta pequena obra.
É fácil de perceber porque Buñuel era fã, o filme apresenta o seu tipo de humor e erotismo. Uma equipa de fãs do filme reuniram-se em 1990 para restaurar a longa-metragem aos seus 182 minutos.
O tempo comporta-se de maneira imprevisível, as noções de realidade e fantasia, e histórias pessoais e nacionais dolorosas são examinadas em dois filmes do realizador polaco Jerzy Wojciech Has, "The Hourglass Sanatorium (1973) e The Saragossa Manuscript (1964). Ambos são baseados em obras da literatura, o último do romance histórico de Jan Potocki, "The Manuscript Found in Saragossa" e o outro elaborado a partir de várias coleções de contos de Bruno Schulz, principalmente "Sanatorium Under the Sign of the Hourglass".
Embora não fosse um filme plenamente de terror, é uma obra que curcula por entre o territário do fantástico.
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A Máscara da Morte Vermelha (The Masque of the Red Death) 1964
O principe Prospero regularmente organiza grandes bailes de máscaras no seu castelo, com convidados selecionados que têm permissão para lá ficar e manterem-se a salvo da praga chamada "Morte Vermelha", que está a assombrar o país. Prospero é também um satânico para estas festividades, que têm um grande número de abusos, humilhações e actos sexuais sádicos.
Ocasionalmente viaja para fora do castelo para convidar novas pessoas para a sua sociedade demente. Numa pequena aldeia ele depara-se com Gino, que leva para o castelo, com a sua adorável namorada Francesca e o pai Ludovico para sua própria diversão e tentar colocar Gino e Ludovico um contra o outro numa luta pela sobrevivência. No entanto, a morte rasteja por todo o lado, e os planos de Próspero podem não resultar tão bem como ele planeava...
"The Masque of the Red Death! é baseado em duas histórias de Edgar Allan Poe, a primeira tem o mesmo título do filme, e a segundo chama-se Hop-Frog. É a sétima de oito adaptações de Poe por Roger Corman, e é muitas vezes considerarado um dos melhores filmes do realizador.
Roger Corman rodeou-se de pessoas talentosas para esta produção, incluindo Nicolas Roeg (Don't Look Now, The Witches), que foi contratado como diretor de fotografia. Juntos, criaram um filme bonito e elegante, cheia de cores como uma história aos quadradinhos. Fizeram um excelente trabalho na criação de um clima festivo dentro do castelo, enquanto mostram o medo e a escuridão fora dele. A história com cores desempenha um papel muito importante, tanto no humor como também na própria história.
A premissa é muito bem definina para arrancar um bom desempenho para Vincent Price, como o príncipe Prospero. Prospero é um homem rico e poderoso, arrogante, sem respeito pela vida de ninguém. É tão sinistro neste papel que até parece que se está a divertir.
The Masque of the Red Death exibe todo o talento que Roger Corman realmente tinha. Muito foi feito com um orçamento pequeno, e foi uma co-produção entre os Estados Unidos e a Grâ-Bertanha.
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