quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Samuel Fuller

Num cameo no filme de Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou, Fuller famosamente descreve o cinema como: "Amor, ódio, acção, violência, morte. Numa palavra: emoção". Regalando a sua audiência com dramas de série B, de um realismo sombrio, um enorme instinto político e um cinema intensamente físico, Fuller não teve nos primeiros tempos grande apoio da crítica ou do público. Mais tarde, os críticos franceses vieram a considerar o seu inconsciente estilo como essencial para o cinema moderno.
Fuller começou no jornalismo, no New York Journal, como copyboy, e repórter do crime. Durante a Depressão ele andou à deriva pela América em comboios de carga, e foi ainda na década de 30 que começou a escrever ficção. Escrevia novelas pulp, cheias de acção, e o seu trabalho pressagiava já o seu trabalho posterior como argumentista e realizador: os seus filmes iriam expressar a luta e o conflito através do diálogo, e um trabalho de câmera vívido, e alguns dos seus filmes - Run of the Arrow, The Crimson Kimono, The Naked Kiss - não iriam parecer fora de lugar em capas de jornais vulgares.
Os seus primeiros argumentos tinham o selo frenético das vidas urbanas: Gangs of New York (1938), Bowery Boy (1940), The Power of the Press (1943), Shockproof (1948). Na Segunda Guerra Mundial Fuller serviu com a Divisão da Primeira Infantaria, desde o norte de de África até à Normandia, numa experiência como um vulgar soldado, que crucialmente mudou a sua visão das coisas. A sua primeira realização foi I Shoot Jesse James (1949), que estudava as consequências psicológicas do assassinato de um fora-da-lei, pelo seu assassino. Os filmes seguintes - The Steel Helmet (1950), Fixed Bayonets (1951), Park Row (1952), Pickup on South Street (1953), House of Bamboo (1955), Forty Guns (1957) - são miniaturas épicas da guerra, do jornalismo da grande cidade, da fricção da Guerra Fria, e do submundo.
Fuller escreveu e produziu muitos dos seus filmes, muitas vezes à revelia do sistema de Hollywood. Esta forma de trabalhar trazia-lhe muitos problemas, mas dava-lhe liberdade para acrescentar tópicos complicados aos seus filmes num período político complicado. Run of the Arrow (1957) viu Rod Steiger como um soldado confederado tão frustrado com a derrota do Sul, que se junta à nação Sioux. Previa as divisões raciais que se iriam sentir na década de 60. Focando-se na rivalidade entre um detetive japonês nascido em Los Angeles, e o seu colega caucasiano, em The Crimson Kimono (1959), mostrou a tragédia que era o racismo.  Em Underworld USA (1961) continuou o tema da guerra focando-se na mudança da proibição do gangsterismo para o roubo corporativo como uma guerra em curso vista do prisma da vingança de um homem. Merrill's Marauders (1962) explorava a moral e o sofrimento físico de uma patrulha na floresta da Burma, com uma câmara móvel a seguir o absurdo selvagem das batalhas. Shock Corridor (1963) é a mais completa declaração da loucura e da divisão do pós-guerra na America. Saído ao mesmo tempo que a resposta frenética à hipocrisia sexual de Billy Wilder, em "Kiss Me, Stupid", The Naked Kiss (1964) tinha uma grande interpretação de Constance Towers como uma ex-prostituta expondo os podres de uma pequena cidade.
Politicamente sempre independente, apesar de ter sido aclamado tanto pelo Direita como pela Esquerda, Fuller reiterou a humanidade numa idade de excessos. Dirigiu o seu opus em 1980, com The Big Red One, e permanece como um dos realizadores mais apaixonantes e de espírito mais problemático. 
Vamos começar este ciclo com um documentário para a série "The Men Who Made the Movies" (1973), que incluí uma entrevista a Samuel Fuller, e depois teremos os filmes, no decorrer das próximas duas semanas. Espero que gostem.

Link para o documentário


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