terça-feira, 30 de abril de 2019

As Vinhas da Ira (The Gates of Wrath) 1940

Quando Tom Joad (Henry Fonda), regressa para a sua quinta no Oklahoma, depois de quatro anos na prisão, descobre que já nada é o que era. Estamos na década de 30, vive-se a depressão, e a sua família perdeu a casa e a quinta para o banco. Assim começa uma jornada incrível para Tom, ao ver a injustiça social à sua volta, ele muda de um pequeno criminoso para um sindicalista.
"As Vinhas da Ira" é um filme monumental feito por um realizador monumental, John Ford, baseado num livro brilhante de outra figura monumental, John Steinbeck. As verdades estabelecidas no livro e no filme, podem ser tão verdadeiras hoje como eram então. Tom leva a sua família em busca de trabalho e a promessa de uma vida melhor, na califórnia, mas tudo o que encontra são mentiras, corrupção policial, e exploração empresarial dos trabalhadores desesperados. Uma situação muito parecida com a dos trabalhadores migrantes provenientes do México e América Central, em busca do suposto sonho americano. Interessante, o argumento, adaptado por Nunnally Johnson, é, na realidade, muito mais optimista que o livro. O filme oferece alguns vislumbres de esperança ao clã Joad, e oferece alguma cor à escuridão que é o livro (assim como a algumas idéias políticas mais extremas). 
Há um toque de sentimentalismo em "As Vinhas da Ira". É apenas uma sugestão, e nunca é um factor detractor dentro do filme. Os actores nunca permitem que o argumento de Johnson se torne demasiado sentimental. Os olhos sondantes de Henry Fonda, a mágoa do sorriso de Jane Darwell, o olhar vago de Dorris Bowden, e o rosto de derrotado de Frank Darien estão sempre presentes para atirar qualquer sentimentalismo para o lado. Ou, pelo menos, para garantir que o sentimentalismo seja merecido. Se houver qualquer sentimentalismo é gerado pela dureza que os seus personagens enfrentam em cada frame. 
John Ford ganhou com este filme o seu segundo Óscar para melhor realizador, e, "As Vinhas da Ira, está certamente, entre as melhores obras do realizador.

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segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ouvem-se Tambores ao Longe (Drums Along the Mohawk) 1939

Henry Fonda é um camponês que durante a Guerra Revolucionária se casa com uma rapariga da cidade (Claudette Colbert), e tenta se estabelecer no Mohawk Valley. Infelizmente a guerra irá bater à sua porta, quando os ingleses conseguem convencer os índios a lutarem por eles. Os nossos dois personagens principais vão superar as dificuldades da agricultura, evitando ataques, depois reconstruindo, para serem atacados novamente.
O ano de 1939 foi um ano histórico para o cinema de Hollywood. Foram produzidos filmes tão importantes como "Gone with the Wind", "The Wizard of Oz", "Mr. Smith Goes to Washington", "Goodbye, Mr. Chips", "Wuthering Heights", "Ninotchka", "Of Mice and Men", "Love Affair", "Dark Victory", entre tantos outros, e também foi um ano histórico para John Ford, que viu ver a luz do dia 3 das suas maiores obras-primas. Depois de Stagecoach" (êxito instantâneo) e "Young Mr. Lincoln" (êxito tardio) chegava agora a vez de "Drums Along the Mohawk", o seu primeiro filme em Technicolor, onde apesar do Technicolor o realizador evitou um visual explosivamente colorido, talvez por querer ficar com as sombras e os tons cinza inerentes aos seus filmes a preto e branco.
"Drums Along the Mohawk" apesar de ser um filme de período tem o sentimento de um western, cobrindo o período imediatamente anterior e posterior à Guerra Revolucionária. É um filme digno de nota pelos seus detalhes realísticos e um nível de dificuldade e brutalidade que não era vulgar ser visto num filme de Hollywood, mas que expunha quão difícil e frágil era a vida dos primeiros colonizadores americanos.
O filme não romantizava a guerra pela independência, nem faz com que a eventual vitória dos americanos seja uma conclusão para as pessoas que retrata. Os colonos do Vale Mohawk estão com problemas desde o início, isolados, vagamente organizados e em menor número, e quando todos os combatentes qualificados são convocados para a guerra, são informados que quem não se apresentar para a guerra será enforcado.
Curioso que seria o segundo de uma série de três filmes de Ford interpretados por Henry Fonda. 

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sábado, 27 de abril de 2019

Brevemente: Cinema Português

 O cinema português que deve ser visto.

"Longe Daqui" (1993), de João Guerra

"Guerra Civil" (2010), de Pedro Caldas.

Este Verão, no My Two Thousand Movies.
O ciclo do Ford continua na próxima segunda-feira.

A Grande Esperança (Young Mr. Lincoln) 1939

Dez anos na vida de Abraham Lincoln, antes dele se tornar conhecido pela sua nação e pelo mundo. Muda-se de um gabinete em Kentucky para Springfield, Illinois, para começar a prática de advocacia. Defende dois homens acusados de assassinato numa luta política, sofre a morte da namorada Ann, corteja a sua futura esposa Mary Todd, e concorda entrar na política.
"Young Mr. Lincoln", hoje considerado uma das obras-primas de Ford - para muitos, mesmo, a sua obra-prima - foi um filme que, à época, passou quase completamente despercebido. Feito no mesmo ano de "Stagecoach" (a que se segue cronologicamente, o primeiro estreado em Março de 1939, o segundo em Julho) foi completamente eclipsado pelo sucesso do lendário western e, durante muitos anos, poucas referências lhe foram feitas. Só foi designado para os Óscares numa única categoria (melhor argumento original) e nem nessa ganhou: "Mr. Smith Goes to Washington" de Capra, venceu-o. Sucedeu, contudo, que por altura dos primeiros intercâmbios de filmes entre os Estados Unidos e a União Soviética, "Young Mr. Lincoln" se contou entre as poucas obras americanas distribuídas na U.R.S.S. Foi lá que Eisenstein o viu e escreveu sobre ele as frases que hoje se tonaram um lugar comum publicitário desta obra: "Há filmes mais sumptuosos e mais ricos. Há filmes mais divertidos e cativantes. Há mesmo filmes mais comoventes na obra de Ford (…) E, no entanto, de todos os filmes realizados era este que eu gostaria de ter feito (…). Se uma fada ociosa chegasse a minha casa e me dissesse: "Sergei Mikhailovich, neste momento não tenho nada para fazer. Queres que te mostre um numerozinho de magia? Queres transformar-te, com um pequeno gesto da minha varinha de condão, no autor de um dos muitos filmes americanos realizados até hoje? Eu indicaria imediatamente o filme que gostaria de ter feito: "Young Mr. Lincoln", realizado por John Ford""
Este texto só foi conhecido na Europa e na América nos anos 50 e a crítica, pasmada perante tão insólita valorização, começou então a rever "Young Mr. Lincoln". A crítica de esquerda, sobretudo, seguiu o "Papa" Eisenstein e há quatro décadas que não param os hiperbólicos elogios a esta obra-prima durante tanto tempo votada ao esquecimento."
Palavras de João Bénard da Costa, que exemplificam bem q beleza deste filme, que hoje é considerado um dos seus melhores. Mas nem sempre foi assim.

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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Cavalgada Heróica (Stagecoach) 1939

Stagecoach foi o primeiro filme a reunir o realizador John Ford a três ícones do cinema, o western, o actor que viria a ser a sua estrela mais emblemática, John Wayne, e a personagem invisível presente numa série de filmes de Ford, o Monument Valley. Ford e Wayne já tinham feito Westerns antes
deste filme, é claro, mas a sua colaboração aqui despertou algo ousado e incomum que iria dar nova vida ao género e ajudar a moldá-lo para as próximas duas décadas, a Idade de Ouro do Western de Hollywood. Parece que algo novo e especial está a acontecer a partir do momento em que Ford introduz Wayne como o bandido preso injustamente, apelidado de Ringo Kid. Um shot interrompe o excesso de velocidade de uma diligência, e um zoom freneticamente de um shot longo de Wayne passa para um close do seu rosto apertado, o fantasma de uma dança sorrindo com os seus lábios, a aba do chapéu curva cinzelada. Parece que Ford sabia, desde o momento em que apresentou a sua estrela, o quão fortemente esta imagem iria ressoar: a entrada de Wayne no filme é electrizante, a chegada de ambos, o bandido infame e a próxima nova estrela.
Apesar de toda esta ênfase, Ringo Kid é apenas um dos nove passageiros que acaba de entrar a bordo da carruagem, todos indo na mesma direcção, enfrentando um território perigoso atormentado pela guerra dos Apaches, por razões muito diferentes. O xerife Curly (George Bancroft) pretende impedir Ringo de provocar um banho de sangue no final da viagem, onde ele enfrentará os três homens que mataram o pai e o irmão de Ringo, e que o estão esperando. A prostituta Dallas (Claire Trevor) o embriagado médico Boone (Thomas Mitchell) estão a ser perseguidos pelos cidadãos mais "respeitáveis​​" da cidade, alguns dos quais na verdade não são tão respeitáveis como gostariam que os outros pensassem. O jogador Hatfield (John Carradine) projecta uma imagem cavalheiresca, mas só poderia ser um assassino covarde, enquanto o pomposo Gatewood (Berton Churchill) foge da cidade com o dinheiro da folha de pagamento roubado. Há também a doente Lucy (Louise Platt), tentando alcançar o marido na cavalaria, o nervoso vendedor de whisky Peacock (Donald Meek), cuja carga é uma tentação para Doc Boone, e o cochista Buck (Andy Devine), que não consegue parar de reclamar sobre a sua esposa mexicana.
Este grupo heterogéneo é composto por vários tipos de personagens, e o subtexto sobre a classe social e a respeitabilidade são tão amplamente jogados como o humor: os outros passageiros são irritados pelas brigas de Peacock e Doc Boone, até que percebem que ambos têm muito a oferecer na sua generosidade e compaixão. Apenas Ringo, ele próprio um pária como um ex-presidiário e um bandido procurado, pouco se importa com esta casta, e insiste em se referir a Lucy e Dallas como "senhoras", o que, naturalmente, faz ganhar a gratidão de Dallas. Os cenários do filme e os personagens são standards, representações familiares do Velho Oeste, gravados na pedra dura da paisagem: as grandes extensões de terra dura empoeirada, as mesas e pilares rochosos salientes do Monument Valley. Ford desenha com traços largos, a elaboração de imagens icónicas da viagem da diligência pelo país aberto, levantando um rastro de poeira atrás dela. O filme tem um tratamento especial desta paisagem westerniana, que servem como um contraste com o interior mais claustrofóbico da diligência, onde as composições de Ford são necessariamente simples no espaço apertado. 
Ao longo do filme, a ameaça do ataques dos índios - e o confronto inevitável aguardando Ringo no fim da linha - paira sobre a jornada da diligência, mas é principalmente uma tensão de construção lenta até ao clímax. As coisas estão relativamente calmas na maior parte do passeio, pelo menos fora da carruagem. Os argumentos entre os passageiros, em grande parte motivados pela divisão de classes e vários deslizes percebidos, são quase tão interessantes como a beleza pictórica dos arredores. Há energia e poesia em alguns shots exteriores de Ford - uma imagem sombria da silhueta de um Ringo atrás de Dallas na escuridão, os incontáveis ​​shots do cocheiro acelerando através das planícies - mesmo quando nada mais está realmente a acontecer dentro da carruagem. E, claro, o final do filme é emocionante, com o ataque Apache a fornecer uma desculpa perfeita para alguns movimentos fantasiosos, como saltos de um cavalo para outro. Todo o filme trabalhava para este showcase de acção explosiva, e não se pode perder o entusiasmo de Ford, quando, no último minuto, os soldados da cavalaria chegam para salvar o dia: um tal cliché onde Ford investe com tal vitalidade e que é difícil resistir . A sequência toda é divertida e acelerada, e configura o tiroteio final, de Ringo com os três irmãos que mataram a sua família e o mandaram para a cadeia injustamente. 
Como um dos marcos definitivos do género, a influência e a importância de Stagecoach é difícil de igualar. Mas está longe de ser um filme sisudo, uma relíquia ultrapassada do seu tempo, apesar da sua linguagem e os dispositivos narrativos terem sido filtrados através da história do seu género, desde então.

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terça-feira, 23 de abril de 2019

O Juramento dos Quatro (Four Men and a Prayer) 1938


Na Índia, o coronel Loring Leigh (C. Aubrey Smith) é acusado de emitir uma ordem que levou um esquadrão de homens à morte. É considerado culpado e demitido. Já em Inglaterra reúne os seus quatro filhos em volta dele para iniciar uma investigação para provar a sua inocência. Antes que possam iniciar a investigação Leigh é misteriosamente baleado e todos os seus documentos roubados, e embora o médico legista tenha considerado um suicídio os quatro filhos espalham-se pelos quatro cantos do mundo para apanharem o culpado. 
John Ford dirige este pequeno thriller de mistério atípico adaptado do romance de David Garth, com um argumento escrito por Richard Sherman, Sonya Levien e Walter Ferris. A história é melhor apresentada do que o filme merecia por um elenco encantador, onde se destacam já alguns nomes de peso. Os quatro irmãos são Richard Greene, George Sanders, David Niven, e William Henry, coadjuvados por Loretta Young, como namorada de Richard Greene. Não faltam ainda nomes de peso nos secundários, como C. Aubrey Smith, Alan Hale, e John Carradine. Carradine era já uma presença habitual nos filmes de Ford, participando aqui pela quarta vez num filme seu. Era habitual vê-lo em papéis de índole duvidosa, e a colaboração entre os dois estender-se-ía por mais uma série de filmes até Ford partir para a guerra.
Ford não estava particularmente intertessado em fazer este tipo de filme político, mas tinha um contrato com a Fox que o obrigava, mas mesmo assim conseguiu dar o melhor de si num conjunto de cenas que lhe eram queridas, como a calorosa reunião entre o pai e os quatro filhos. O filme, ao braquear o imperialismo britânico e as atrocidades cometidas pelo comercio mundial de armas, inclui uma declaração política muito questionável.

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segunda-feira, 22 de abril de 2019

O Furacão (The Hurricane) 1937

O filme conta a história de uma casal de jovens nativos, Marama (Dorothy Lamour) e Terangi (Jon Hall), que vivem numa bonita ilha. Um dia, Terangi vai trabalhar num veleiro, apesar dos protestos de Marama. No Tahiti, envolve-se numa briga num bar, e por causa disso é sentenciado a 6 meses de cadeia. Tenta fugir, é apanhado, e a sentença é aumentada, e antes que dê por isso está a cumprir uma pena de 16 anos. Várias boas almas tentam convencer o governador Eugene De Laage (Raymond Massey) a libertar Terangi, mas apesar de saber que essa é a coisa certa a fazer, o governador recusa. Até que surge o furacão do título, que vai alterar o rumo da história..
O auge dos filmes catástrofe, com elencos fabulosos de estrelas, é conhecido como a década de 70. Muitos anos antes, na década de 30, tivemos uma vaga como exemplo, que hoje é pouco falada. Houve terramotos, em "San Francisco" (1936, de Van Dyke), incêndios, em "In Old Chicago" (1938, de Henry King), inundações em "The Good Earth" (1937, de Sidney Franklin), e também furacões e ciclones, em "Suez" (1938, de Allan Dwan), e também neste "The Hurricane" (1937, de John Ford). Ford era regularmente convidado para trabalhar em superproduções, que ía alternando com os seus filmes mais pessoais, conseguindo quase sempre deixar a sua marca pessoal. Neste filme contava com um elenco de luxo, com alguns actores a fazerem já parte dos seus já habituais colaboradores: Dorothy Lamour, Mary Astor,  C. Aubrey Smith, Thomas Mitchell, Raymond Massey, John Carradine, entre outros.
Uma palavrinha aqui para Thomas Mitchell. Na sua primeira colaboração com Ford conseguiu uma nomeação para o Óscar de melhor actor secundário. Perdeu-o, mas viria a ganhá-lo dois anos mais tarde por "Stagecoach", com toda a justiça. Os dois voltariam-se a encontrar no ano seguinte, em "The Long Voyage Home".
Embora um pouco datado para os tempos correntes, este filme de John Ford ainda merece alguns destaques. Um deles é a sequência do título, a do furacão. O tal que não sabemos quando, mas sabemos que ele vai parecer. Embora o filme esteja creditado como realizado por John Ford, esta sequência que rouba o filme, foi na verdade realizada por Stuart Heisler, com a ajuda dos magos dos efeitos especiais James Basevi e R.O. Binger. A capacidade de Heisler de simular um feroz furação foi fenomenal, e representa uma verdadeira obra-prima dos primeiros efeitos especiais. Toda a narrativa converge para este momento, e isso faz deste filme obrigatório para os fãs do género.

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sábado, 20 de abril de 2019

Shirley, Soldado da Índia (Wee Willie Winkie) 1937

Priscilla Williams (Shirley Temple) e a sua mãe Joyce (June Lang) viajam para a Índia, para conhecerem o avô britânico de Priscilla, e o sogro de Joyce. O avô Williams é um coronel do exército britânico e está encarregado de comandar a ocupação britânica (e civilização) de um território sikh. Nenhum deles conheceu o outro, por isso a reunião é antecipada com entusiasmo e curiosidade, principalmente para Priscilla, que é uma criança, por isso ingénua para os confrontos entre as culturas britânicas e indiana, mas, por acidente, faz amizade com o líder da resistência indiana.
Um dos filmes menos conhecidos de John Ford, e ao mesmo tempo um dos melhores filmes de Shirley Temple, baseado na história de Rudyard Kipling sobre uma jovem que viaja à India para conhecer o avô, e acaba por se tornar intrínseca à paz entre os indianos rebeldes e os militares imperialistas britânicos. É um filme surpreendentemente envolvente, que vai muito para lá do estigma de um "filme de Shirley Temple". E destaca-se como um dos filmes mais subestimados de Ford. 
John Ford e Shirley Temple são uma combinação perfeita. As míticas sensibilidades emocionais do estilo de Ford funcionam bem com a ingenuidade dos filmes de Shirley Temple. Priscilla não sabe de política, mas sabe o suficiente para perceber que Kahn não quer magoar ninguém, e o Coronel Williams também não quer. Então porque lutam?
Victor McLaglen rouba o filme como o amável sargento MacDuff, que chora quando Priscilla admira um retrato dele em criança. A química entre os dois era tão grande, dentro e fora da tela, que Ford voltaria a reuni-los 11 anos mais tarde, em "Fort Apache". 

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A Primeira Batalha (The Plough and the Stars) 1936

Nora Clitheroe (Barbara Stanwick) dirige uma casa de alojamento em Dublin e tenta ficar longe da turbulência política que se faz sentir no país, então fica muito preocupada quando o seu marido Jack (Preston Foster) se junta a uma milícia de rebeldes irlandeses que luta contra os ingleses. Nora teme pela segurança de Jack e pede-lhe para ficar longe das forças rebeldes, mas ele não só faz o contrário como ainda se torna um dos comandantes dos rebeldes.
John Ford, cujo orgulho feroz da sua herança irlandesa muitas vezes se manifestava no seu trabalho, dirigiu este drama histórico que usa como pano de fundo as rebeliões irlandesas da Páscoa de 1916 contra as forças inglesas que governavam na altura. Terminava aqui uma trilogia que depois seria chamada de trilogia céltica, da qual fazem ainda parte "The Informer" e "Mary of Scotland", e que era marcada pelas fortes convicções do realizador. Convicções essas que lhe deram problemas com os próprios irlandês, e com o estúdio produtor, a RKO.
Ford teve várias discussões com os estúdios da RKO Pictures enquanto produzia o "The Plough and the Stars", principalmente depois do estúdio ter re-filmado algumas cenas com outro realizador para aliviar um pouco a inclinação política que Ford queria dar a esta obra, e isso levaria a que o realizador nunca mais quisesse filmar para a RKO. O filme teria assim duas versões, mas seria a do realizador que seria exibida na Irlanda e em toda a Europa. 
Mesmo com todos os seus problemas, continua a ser um bom filme. 

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Mary Stuart, Raínha da Escócia (Mary of Scotland) 1936


Mary Stuart regressa à escócia para governar como rainha, para o desgosto de Elizabeth I de Inglaterra, que considera uma rival perigosa. Há muita confusão sobre com quem Mary se casará, e para seu arrependimento posterior ela escolhe o Lord Barnley sobre o forte mas pouco popular Earl of Bothwell. Um golpe palaciano leva à guerra civil e prisão domiciliária de Mary, mas ela escapa e foge para Inglaterra, onde um destino pior a espera…
O que poderia ser um poderoso e agitado drama histórico, "Mary of Scotland" acaba por ser um filme bastante tépido, porque não foi feito da melhor forma. Muito se falou sobre a actriz Ginger Rodgers ter querido o papel de Elizabeth no filme, mas não foi permitida, e por certo que faria melhor que a actriz escolhida, Florence Eldridge. Grande parte do insucesso do filme deveu-se ao casting da actriz principal, Katherine Hepburn, num papel que não lhe servia. Ao contrário da histórica Mary, a heroína do filme é demasiado macia e demasiado vitima. Se lhe tivessem dado o fogo, a paixão que a verdadeira Mary tinha, talvez Hepburn tivesse dado uma outra força à personagem. 
Grande parte do diálogo de Maxwell Anderson, o autor da obra original, foi perdido quando adaptado para o cinema, por Dudley Nicholas, e isso funcionou tanto a favor como contra o filme. John Ford também não parece muito confortável neste território do drama histórico, mas ele e o director de fotografia Joseph H. August dão ao filme um visual marcante, principalmente nas formas diferentes como filmam Mary e Elizabeth. Se Mary é uma personagem aborrecida, pelo menos tem um bom apelo visual.
Legendas em espanhol.

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quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (The Prisioner of Shark Island) 1936

Depois do presidente Abraham Lincoln ser assassinado por John Wilkes Booth no Teatro Ford em 1865, Booth foi perseguido por soldados da União, e morto 12 dias depois. Oito pessoas foram posteriormente acusadas de conspirar ou ajudar Booth. Foram considerados culpados por um tribunal militar, quatro foram enforcados, um recebeu uma sentença de 6 anos de cadeia, e outros três levaram com prisão perpétua. Entre este último grupo estava um médico de Maryland, Dr. Samuel Mudd, que tinha tratado a perna que Booth partiu quando saltou do camarote de Lincoln para o palco depois de disparar contra o presidente. "The Prisioner of Shark Island" é a história de Mudd contada por John Ford, baseada num argumento original de Nunnally Johnson, que viria a escrever mais tarde alguns dos seus filmes mais importantes, embora aqui trabalhassem pela primeira vez.
No filme, Mudd (Warner Baxter) é retratado como uma vítima inocente das circunstâncias, injustamente acusado, e vítima de uma condenação apressada. Quando o conhecemos pela primeira vez, ele é um médico feliz que vive numa quinta em Maryland, com a sua esposa (Gloria Stuart), uma filha jovem, e um sogro briguento. Quando ele trata de Booth não faz a mínima idéia de quem Booth é, ou que Lincoln está morto, mas depois dos soldados perseguirem o assassino, descobrem que Mudd o tratou, prendem-no como conspirador, e levam-no para Washington para ser julgado. Desde o início que é maltratado, e a sua família desinformada sobre o que lhe está a acontecer. O tribunal é descrito como um tribunal que ignora os princípios básicos da justiça criminal. 
Em 1935, pouco depois do seu grande sucesso crítico de "The Informer", John Ford foi para a 20th Century Fox para fazer "The Prisioner of Shark Island", o primeiro de um contrato não exclusivo com o chefe de produção Darryl F. Zannuck. Acabaram por fazer juntos 12 filmes, entre os quais obras primas como "How Green Was My Valley", "The Grapes of Wrath" ou "My Darling Clementine". A parte fascinante é que Zannuck era um tirano, e foi incrível como ele se conseguiu dar bem com um iconoclasta como Ford. Os dois já se tinham cruzado em "Steamboat Round the Bend", e Ford tinha afirmado que os dois tinham o relacionamento ideal. Mesmo permitindo o exagero sentimental da idade, a disciplina exercida por Zannuck provocou algo de criativo em Ford, e a colaboração entre os dois tornou-se muito produtiva.

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terça-feira, 16 de abril de 2019

Steamboat Round the Bend (Steamboat Round the Bend) 1935

John Pearly é um vigarista afável na viragem do século que vende um remédio patenteado cujo ingrediente principal é whiskey. Ressuscita um barco a vapor destruído com uma tripulação improvisada e desafia o respeitável mas arrogante Capitão Eli para uma corrida pelo rio. Pearly espera que o seu sobrinho Duke seja o piloto, mas o jovem é acusado de assassinar um "rato do pântano" que ameaçou a honra da sua namorada.
Último filme de Will Rogers (o tal actor mais famoso do mundo em 1935), estreado já depois da sua morte num trágico acidente de avião, é similar em muitos aspectos às colaborações anteriores com o realizador John Ford: mais uma vez Rogers interpreta um tipo descontraído e mais do que disposto a ir contra as normas sociais para fazer o que é "certo". O seu personagem não é tão nobre desta vez, ao contrário de um médico, como é "Doctor Bull", ou um juiz, em"Judge Priest", ele é inicialmente um vendedor de óleo de cobra, um "falso médico", que espera gerir um barco a vapor.
Tal como o barco a vapor onde grande parte da história se passa, o filme avança num ritmo estável, nunca criando uma sensação de urgência, nem quando Pearly e Belle vagueiam pelo Mississipi em busca de New Moses, o único homem capaz de salvar Duke da forca.
Mesmo assim está longe de ser um bom filme, pelo menos que esteja ao nível da maioria dos filmes de Ford e Will Rogers.

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

O Denunciante (The Informer) 1935

Dublin, 1920. Gypo Nolan é um homem forte mas não muito brilhante que é expulso de uma organização rebelde. Quando descobre que a sua igualmente destituída namorada Katie é obrigada a dedicar-se à prostituição ele sucumbe à tentação e trai o seu ex-camarada Frankie às autoridades britânicas por uma recompensa de 20 libras. No decorrer de uma noite sombria e nebulada a culpa e a retribuição aproximam-se…
"The Informer", livro escrito por Liam O´Flaherty no inicio dos anos 20, foi pela primeira vez levado ao cinema em 1929 com Cyril McLaglen como protagonista. Quando John Ford refez o filme em 1935 o papel do trágico protagonista foi parar ao irmão de Cyril, Victor McLaglen. Victor acabaria por ganhar um Óscar por este papel, muito merecidamente, assim como diversas outras nomeações. John Ford também ganhou o seu primeiro Óscar de melhor realizador, e o seu habitual argumentista, Dudley Nichols o seu primeiro e único Óscar de Melhor Argumento, apesar de o ter recusado por causa do antagonismo entre várias corporações da indústria e questões sindicais (foi a primeira vez que a estatueta foi rejeitada). Apesar do filme ter sido um sucesso crítico e de prémios, acabou por conseguir maus resultados na bilheteira.
É fácil perceber porque o filme é tão importante na filmografia de Ford. Cada cena parece ter sido trabalhada e esculpida para que tudo parecesse perfeito. O uso dominante de luz e sombra contra uma Dublin fortemente enevoada é visualmente impressionante.  É também uma história muito católica, que faz um forte uso da iconografia da igreja. Os "problemas" da Irlanda rebelde de 1922 são apresentados como uma mistura de pesar religioso e político, com a história a ser um paralelo óbvio da traição de Cristo. 
Este filme veio também trazer uma grande revigoração para a carreira de Ford. A partir daqui ele passava a ser um realizador oscarizado, e tudo passaria a ser diferente. Não levaria  muito tempo até conseguir o seu segundo prémio.

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sábado, 13 de abril de 2019

Não se Fala Noutra Coisa (The Whole Town´s Talking) 1935

Arthur Ferguson Jones é um homem normal que leva uma vida muito simples. Nunca chega atrasado ao trabalho, e nada de interessante acontece na sua vida. Um dia tudo muda na sua vida, adormece e é despedido como exemplo. Logo depois é confundido com um criminoso chamado Mannion e é preso. As semelhanças são tão impressionantes que a polícia lhe dá um livre-trânsito para evitar um erro similar. O verdadeiro Mannion vê uma oportunidade para andar à vontade, se roubar o livre-trânsito a Jones.
Este foi o filme que revitalizou a carreira de Edward G. Robinson depois de uma série de flops, que junto com "A Slight Case of Murder" (1938) foi das muito poucas comédias com o seu nome nos créditos. Esta comédia de gangsters, realizada por John Ford, foi invulgar na composição dos seus argumentistas, que contava com nomes como Robert Riskin e Jo Swerling, habituais colaboradores de Capra, a partir de uma história de W. R. Burnett, um argumentista habituado a histórias de gangsters e durões que escreveu, por exemplo, "Little Caeser" (1931) e "High Sierra" (1941). A parte mais estranha era mesmo o facto de ser Ford a realizar uma comédia de gangsters, mas ele já tinha feito algo próximo em "Up the River"
Robinson é surpreendentemente convincente numa personagem que é essencialmente a antítese da sua personalidade durona, embora como Mannion tenha um desempenho sinistro e assustador, como seria de esperar. É ele quem desempenha as duas personagens, com extrema mestria. E depois temos Jean Arthur, que garante a maior parte das risadas como a colega de trabalho atrevida de Jones, por quem ele tem uma queda, enquanto John Ford infunde ao filme um clima bastante familiar. 

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O Mundo em Marcha (The World Moves On) 1934

1825, Nova Orleães. O testamento de Girard, o rei do algodão, determina que os filhos se dispersem pela França, Prússia e Inglaterra, para estabelecerem os negócios da família. Por isso, Richard refreia a sua paixão pela Sra. Wardburton, casada com Gabriel, que está à frente do ramo inglês. Em 1914 a família volta a reunir-se. Mary, filha da Sra. Warburton, encontra aí o filho de Richard, e apaixona-se.
Na tradição de "Cavalcade", filme vencedor dos Óscares pela Fox, "The World Moves On"cobre 100 anos na vida de duas famílias do Louisiana: os Girards, de origem francesa, e os Wardburtons, originários de Manchester. Formando uma aliança pelo casamento em 1825, as duas famílias rapidamente tomam conta do negócio do algodão no Sul.
Ford já tinha começado a trabalhar com a RKO no filme anterior, "The Lost Patrol", mas seria obrigado a voltar para a Fox para cumprir contrato, e este "The World Moves On" foi mesmo feito por obrigação. Não gostava do argumento, achava-o demasiado palavroso e pretensioso, e os actores também não lhe diziam grande coisa, como eram os casos dos protagonistas Madeleine Carroll e Franchot Tone. Palavras do próprio Ford para Peter Bogdanovich: "Gostaria de esquecer isso. Lutei como um danado para não o fazer. ...Odiei aquela coisa. Era uma fita reles - não dizia coisa nenhuma - e não havia hipótese de fazer um pouco de comédia."
Mas o filme também tem muitos pontos positivos, e perto do final torna-se inesquecível porque prevê perfeitamente a Segunda Guerra Mundial. Se a Segunda Guerra Mundial não tivesse acontecido este filme seria muito mais banal do que realmente é, mas o que é certo é que as imagens estão lá.
Legendas em inglês. 

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quinta-feira, 11 de abril de 2019

A Patrulha Perdida (The Lost Patrol) 1934

Durante a campanha no deserto da Mesopotâmia durante a Primeira Guerra Mundial, um comandante de um regimento britânico é morto. Não tendo retransmitido ou registrado as suas ordens recentes, a patrulha de 12 homens não sabe onde está, nem onde se encontram os restantes soldados. Agora, liderados por um sargento corajoso, decidem descansar num forte abandonado onde esperam reforços para lutarem contra os árabes. Mas estes atacam silenciosos durante a noite, e vão matando os homens da patrulha um a um…
"The Lost Patrol" é um filme de John Ford bastante conceituado, baseado no livro de Philip MacDonald chamado "Patrol", que por sua vez já tinha tido uma adaptação para o cinema poucos anos antes, e emprega o conceito de "And Then There Were None", que é utilizado com muito suspense. Contando com Victor McLaglen como protagonista, um actor que viria a participar em inúmeros dos seus filmes, principalmente westerns, e com quem ganharia um Óscar no ano seguinte, em "O Denunciante": McLaglen o de Melhor Actor, Ford o de Melhor Realizador, mas lá já chegaremos. McLaglen tem uma grande interpretação, assim como todo o elenco de apoio, que incluía Boris Karloff, no papel de um fanático religioso que rapidamente perde a cabeça.  
Foi um dos grandes êxitos do realizador desta sua fase inicial do cinema falado, e apesar de hoje em dia estar um pouco datado, talvez por causa da sua história ter sido repetida inúmeras vezes, seria uma obra muito importante na carreira do realizador, que revisitaria continuamente temas semelhantes como o da coragem e covardia em muitos dos seus filmes posteriores.

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terça-feira, 9 de abril de 2019

O Juiz Priest (Judge Priest) 1934

O juiz William "Billy" Priest vive numa cidade do sul muito patriótica (confederada), no Kentucky, onde se instalou há 25 anos atrás, depois da guerra civil terminar. Viúvo desde há algum tempo, está feliz por receber o seu sobrinho, Jerome "Rome" Priest, filho da sua irmã da alta sociedade Caroline, e saído da escola de direito com o diploma nas mãos, pronto a receber o seu primeiro cliente. O juiz encorajou o interesse do sobrinho na sua vizinha do lado, e será a partir daqui que surgirá o seu  primeiro caso...

"Judge Priest", a segunda das três colaborações de John Ford com Will Rogers, é considerada por muitos como a melhor colaboração da trilogia. Como juiz de longa data de uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, o juiz Priest, tal como o Doctor Bull, o protagonista do primeiro filme desta dupla, é talvez um pouco complacente para a sua condição, assumindo que a sua natureza bem intencionada evitará os dissidentes de reclamarem sobre as suas decisões ou do seu comportamento descontraído. Desde o início do filme que ficamos a saber que o juíz prefere ler um jornal do que ouvir os advogados pomposos no tribunal, e não sente remorsos em ir pescar com um homem acusado de ser ladrão.
É de notar que os papéis de Stepin Fetchit e Hattie McDaniel, como africo-americanos felizes, caem em território estereotipicamente ofensivo, com a relação de Rogers com as personagens interpretadas por estes actores a permitirem uma representação ligeiramente mais subtil das relações sociais do que era habitual na época. A amizade descontraída entre eles implica que o juiz esteja mais preocupado em curtir a vida do que manter a ilusão da superioridade moral. 
Ford refez o filme anos mais tarde, em "The Sun Shines Bright".

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Peregrinação (Pilgrimage) 1933

Numa quinta do Arkansas, vivem Hanna Jessop e o seu filho Jim. Hanna é extremamente possessiva e opõe-se ferozmente ao namoro de Jim com uma rapariga da vizinhança, Mary. Um dia, Jim participa à mãe a sua vontade de casar. Hanna dirige-se à comissão de recrutamento da aldeia e comunica a sua vontade de que o filho seja incorporado para os contingentes que partem para a frente de batalha em França (corre a Primeira Guerra Mundial). Ao partir, Jim sabe que deixou Mary grávida.
Este filmes dos Estúdios Fox, pelo sempre prolífico John Ford, é notável por apresentar dois factos opostos. Primeiro por mostrar as Gold Star Mothers, um organização que se reuniu pela primeira vez em 1928, e que tinha como objectivo apoiar as mães dos soldados mortos durante a Primeira Guerra Mundial. Depois por apresentar uma mãe terrivelmente má, mas que no final irá sofrer uma enorme transformação graças a uma série de eventos notavelmente coincidentes. 
Ford dirige com uma mão segura uma Henrietta Crosman, uma actriz  veterana do teatro que entrava aqui apenas no seu segundo filme com som. A sua culpa supera a dor, e no entanto isso torna-a mais malvada do que nunca. Só quando vai para França numa peregrinação com outras Gold Star Mothers é que ela consegue lidar com a sua perda. 
Um filme difícil de ser visto, e um dos menos conhecidos deste período da carreira de John Ford.

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Em Maio no M2TM

"Jol" (2001), de Darežen Omirbajev
Ciclo Ásia Central: Século XXI


"Liverpool" (2008), de Lisandro Alonso
Ciclo Quem Programa Sou Eu: ???

Maio vai ser mais um grande mês no My Two Thousand Movies. O ciclo "Ásia Central: Século XXI" ainda não se sabe se terá duas ou três semanas, mas iniciará logo no início do mês, depois do ciclo do Ford. 
Depois teremos mais um programador convidado, que irá escolher 10 filmes, filmes esses sobre um tema específico, por isso esse será esse o tema do ciclo, Ainda não vou dizer quem é, mas garanto que é um nome bem conhecido da cinefilia portuguesa. Por isso aguardem, e até já.

domingo, 7 de abril de 2019

Doctor Bull (Doctor Bull) 1933

Dr. Bull é um médico rural antiquado cujo caso com a viúva Janet Cardmaker está a criar umas certas ondas na pequena cidade onde ele pratica medicina. Quando aparece um misterioso surto de febre tifoide, no qual o médico demora a reagir, tudo chega ao limite. As pessoas da cidade fazem uma reunião de emergência, e resolvem demitir o médico e trazer um novo médico para a cidade. O Dr. Bull precisa assim de encontrar uma forma de salvar o seu emprego, a sua reputação, e a vida de um jovem a quem todos os outros médicos consideram permanentemente inválido.
Esta seria a primeira de três colaborações entre John Ford e o famoso "showman" e jornalista Will Rogers, o actor mais famoso do mundo em 1934, que aqui personifica a pessoa tão amada pelos seus fãs: Um homem que teve uma vida realista rápida, indivíduo perspicaz que lutava silenciosamente, mas insistentemente contra o provincianismo. O seu Dr. Bull é um homem bem intencionado e descontraído, que recusa ceder aos caprichos dos seus frágeis patrões, acabando por colocar a carreira em risco. Até chegar o momento em que ele "salva o dia" (no estilo clássico de Hollywood) nunca é retratado como algo diferente de um ser humano imperfeito.
Longe de ser heróico, o Dr. Bull é na verdade um pouco infantil e imaturo, ainda vive com a sua tia idosa, incapaz de levar a sério a sua amante de longa data, e gosta de aprimorar a sensibilidade das suas vizinhas. "Dr. Bull" é, na verdade, o menor dos três filmes que Rogers fez com Ford, mas será de particular interesse para os fãs deste ícone americano dos anos 30.
Legendas em inglês.

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sábado, 6 de abril de 2019

Seas Beneath (Seas Beneath) 1931


Nos últimos dias da Primeira Guerra Mundial um navio misterioso dos Estados Unidos zarpa na costa espanhola, rebocando um submarino. O seu objectivo é encontrar e afundar um submarino alemão que tem sido muito eficiente a afundar navios aliados. Este navio misterioso parece inofensivo, mas na verdade está equipado com uma arma formidável capaz de afundar um submarino. Parando nas ilhas Canárias para reabastecer, a tripulação interage com os moradores locais envolvidos com os alemães, e com os próprios alemães, inclusive com a irmã do comandante do submarino que pretendem afundar, que aguarda no mar alto pela grande batalha. 
Um ano depois de "Men Without Women", John Ford regressa ao mar, e ao mundo dos submarinos, com este "Seas Beneath", que fica uns tiros abaixo do filme anterior. "Seas Beneath" é uma aventura marítima que tem lugar nos dias finais da Primeira Guerra Mundial, e apraz dizer aqui que neste período da história do cinema americano eram raras as aventuras marítimas do cinema de Hollywood, mas este, mesmo assim, é um filme de guerra bastante sólido.
Metade do filme é passado numa cidade portuária espanhola, com espiões a circularem por entre a população e pelos próprios soldados norte-americanos. Estas sequências sofrem de um problema dictado pelas restrições técnicas do inicio da era do som, mas Ford consegue ultrapassa-las acrescentando um pouco de mistério à história.
Onde o filme realmente ganha vida, é quando o Capitão Kingsley e a sua tripulação deixam o porto espanhol e embarcam num jogo de gato e o rato com o submarino alemão. Com a ajuda de um maravilhoso trabalho de câmara (assim como a assistência da Marinha Americana) Ford coloca o espectador no centro da acção, criando um sentido de autenticidade que faz destas cenas mais dramáticas, levando-nos a uma deslumbrante batalha naval final.  As batalhas navais são de facto o ponto alto do filme, 

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Arrowsmith (Arrowsmith) 1931

Interpretado por Ronald Colman e Helen Hayes, "Arrowsmith" conta a história de um homem que dedica a sua vida à medicina, muitas vezes sacrificando a sua própria felicidade pelo bem da causa. O filme é baseado num romance de Sinclair Lewis, e não há como negar que grandes partes do livro foram omitidas.
Como resultado, algumas partes do filme esticam seriamente os limites da credibilidade, particularmente como uma sequência em que o Dr. Arrowsmith (Colman) deixa frascos abertos da praga em volta da sua casa, ainda assim, a estrutura episódica do filme garante que este raramente se torne aborrecido, embora a história perca algum fulgor no final. 
"Arrowsmith" é mais uma curiosidade hoje em dia do que um bom filme, e uma entrada inicial no subgénero do "desastre viral", com o argumentista Sidney Howard a reduzir nos conflitos intelectuais do livro, concentrando-se na rápida ascensão profissional do médico, de estudante de medicina para médico de cruzada, e as suas relações com o establishment médico, a sua devotada esposa, interpretada por uma incrivelmente jovem Helen Hayes, e um encontro com a sedutora Myrna Loy. Quando o filme foi reeditado depois da implementação do moralista Production Code praticamente todas as sequências de Myrna Loy foram removidas, reduzindo assim a sua já magra personagem a uma amiga levemente atraente, mas solidária. 
Produzido por Samuel Goldwyn e realizado por John Ford, conseguiu quatro nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme, Argumento, Fotografia e Direcção de Arte. Num ano tão glorioso em que foram nomeados filmes como "Grand Hotel", de Edmund Goulding, "The Champ", de King Vidor, "Shangai Express" de Josef Von Sternberg, "One Hour with You" de Ernst Lubitsch, Arrowsmith" foi talvez o mais fraco a ser nomeado a melhor filme, mas Ford ainda não tinha atingido o nível de qualidade de que sabemos. Estará para breve.

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quinta-feira, 4 de abril de 2019

Up the River (Up the River) 1930

Quando o ex-presidiário Steve Jordan (Bogart) tenta começar uma nova vida, os ex-companheiros do crime Saint Louis (Tracy) e Dannemora Dan (Warren Hymer) saem da prisão para impedir que o seu passado seja revelado e impedem que ele seja chantageado para voltar a uma vida de crime. Claire Luce é Judy Fields, a ex-prisioneira por quem Steve se apaixona. A menos que os dois homens façam alguma coisa, o passado de Steve será exposto pelo mesmo homem que denunciou Judy e a colocou na prisão, a não ser que Steve concorde em praticar outro crime…
A história de "Up the River" pode não parecer muito prometedora, mas este filme de 1930 é historicamente muito importante por várias razões. Em primeiro lugar, seria o único filme em que Humphrey Bogart e Spencer Tracy apareciam juntos. Foi a estreia no cinema de Tracy, e apenas o segundo filme de Bogart. John Ford só voltaria a trabalhar com Tracy 28 anos depois, em "The Last Hurrah".
Inicialmente "Up the River" era para ser um drama prisional sério e Ford estava convencido que tinha encontrado o actor certo quando assistiu a uma representação da peça "The Last Mile", em Nova Iorque. A Fox deu a Ford bilhetes para cinco peças diferentes, mas o realizador ficou tão impressionado com a interpretação de Tracy em "The Last Mile", que acabou por ir ver a mesma peça mais 4 vezes. Aconteceu o mesmo com Humphrey Bogart, que viu numa matiné naquela semana, e contratou-o logo para o segundo papel do filme.
Quando Tracy chegou a Hollywood, descobriu que tinha havido uma mudança de planos por causa da recente estreia de "The Big House". Ford disse-lhe para ele não se preocupar, que iam transformar o drama de prisão numa comédia. Com o argumento já feito por Maurine Dallas Atkins, seria contratado um novo argumentista, Bill Collier para escrever um novo guião.
O filme foi popular entre o público durante a era da depressão, apesar de não ter grandes críticas. O New York Times escreveu: "Seja qual for a opinião de retratar a leviandade de uma penitenciária, estre filme provou ser violentamente engraçado para os que ocuparam os assentos no grande teatro ontem à tarde. Tem uma série de incidentes e linhas inteligentes, mas de vez em quando é lento demais.
Tinha anunciado que este filme teria legendas em espanhol, mas afinal tem em português.

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Submarino S. 13 (Men Without Women) 1930

Num bar em Xangai, Weymouth julga ver um homem que supunha morto entre a tripulação do submarino S 13. Dá pelo nome de Burke, mas chamava-se Quartermaine quando Weymouth investigou o afundamento do seu barco, concluindo que fora ele quem passara a informação aos
alemães, assim ilibando a sua noiva, Lady Patrícia. Já a bordo do S 13, o submarino colide no alto mar com outro barco, imobilizando-se no fundo. Price toma o comando com o apoio da experiência de Burke. Há que salvar os homens do fundo do mar.
Filmado sob a direcção de John Ford, com um olhar atento ao realismo, com a narrativa a ser assinada por Ford e James K. McGuinness, e diálogos de Dudley Nicholas. Trata-se de um estudo pictórico no qual alguns momentos de comédia vem em socorro de interlúdios dramáticos e incisivos. É evidente que ao longo do filme Ford teve assistência naval para filmar as suas cenas, que são muito bem conseguidas a nível técnico. Ao mostrar o conflito da guerra na superfície dos Mares da China, à procura de um submarino afundado que tenha sido assaltado por um navio a vapor, Ford consegue tomar proveito do mar revolto e da contra iluminação. Os personagens são maravilhosamente reais, sejam eles homens nervosos ou sombrios, ou aqueles que pensam tanto nos outros como em si mesmo.
A versão sonora deste filme, perdeu-se. O que sobrou foi a International Sound Version, o que quer dizer que a maior parte do diálogo é transmitida através de legendas, mas a partitura musical, as músicas, e os efeitos sonoros da versão sonora permanecem. Por isso, o que vão ver, é uma espécie de filme mudo, com som. 
Fiquem atentos para ver se descobrem John Wayne, numa interpretação não creditada onde ele interpreta um operador de rádio num dos navios de resgate.

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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Born Reckless (Born Reckless) 1930

Um gangster chamado Louis Beretti (Edmund Lowe) é envolvido num roubo de joias e levado perante o juiz. A guerra tinha começado, e esperando ser reeleito o juiz oferece a Louis e aos seus dois comparsas a alternativa de, ou irem para a cadeia, ou irem lutar para a guerra. Se eles provarem que são dignos, o juiz irá libertá-los. Louis vai regressar como um herói da guerra…mas há grandes hipóteses de voltar ao mundo do crime.
Começamos este ciclo com aquilo que podemos chamar "o pior". "Born Reckless" é considerado quase unanimemente como um dos piores filmes de Ford. O próprio realizador concordava com isso, pois realizador disse o seguinte numa entrevista a Peter Bogdanovich: "Não era boa história - uma coisa sobre gangsters - e no meio da fita, eles partiam para a guerra; por isso metemos um cómico jogo de baseball em França. Eu estava interessado nisso. Naqueles tempos, quando os scripts eram obtusos,  melhor que podíamos tentar fazer era meter um pouco de comédia".
O resultado seria uma grande salada russa, e o filme aproxima-se da comédia, do filme de gangsters, e do drama, mas no fim não é nada dessas coisas. Há alguns momentos agradáveis de camaradagem entre os soldados, mas uma fez que o filme regressa para as selvas de Nova Iorque torna-se em algo bastante rígido.
O cinema falado estava a chegar, e com ele muitas modificações no cinema de Hollywood. Seria neste ano que se estrearia Dudley Nicholas, que entre as décadas de 30 e 50 se transformaria num dos argumentistas mais influentes, trabalhando com Ford em filmes como "The Informer" ou "Stagecoach". Nichols será o argumentista de doze dos filmes que veremos neste ciclo, sendo o principal colaborador de Ford nesta fase da sua carreira.
Legendas em espanhol.

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