quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Muro (Duvar) 1983

Último filme de Yılmaz Güney, feito em França durante o seu exílio, e em parte financiado pelo ministério da cultura francês. Baseado na revolta de 1974 numa prisão infantil em Ancara, que Güney testemunhou transformando mais tarde num livro chamado "Soba, Pencere Camı ve İki Ekmek İstiyoruz / We Want a Stove, a Window Glass and Two Loaves of Bread" foi filmado numa antiga abadia nos arredores de Paris. Com a excepção de Tuncel Kurtiz e Ayşe Emel Mesci todos os restantes actores eram amadores. A narrativa é passada inteiramente dentro da prisão, que é dividida em várias células, homens, mulheres, adolescentes e anarquistas. O significado de "prisão" tem um triplo significado nos filmes de Güney: representar a prisão em concreto que ele conheceu bem, a prisão da sociedade em massa, e a prisão das nossas mentes. Em Duvar" eles escolheu o o motivo da prisão particularmente, para expôr a situação política na Turquia depois da intervenção militar de 1980. 
De acordo com Güney o filme apresentava o ponto de vista de um outsider, ao narrar as esperanças desesperantes dos prisioneiros, com as crianças a rezarem para serem transferidas para uma prisão melhor, em vez de exigirem a sua liberdade. Para Güney esta mudança não podia acontecer, a não ser escapar da realidade em sonhos. A "boa prisão" não existia. Para um artista como Güney, que recebeu a sua energia do seu público, o exílio foi contraproducente. Ele tinha a liberdade mas não a munição para criar, e "Duvar" não podia competir com os filmes que ele tinha feito na Turquia. É um filme áspero e vingativo, que leva a amargura de um artista artista excepcionalmente talentoso condenado a passar os melhores anos da sua vida atrás das grades e a morrer no exílio.
O nome de Yılmaz Güney era proibido na Turquia. Onze dos seus filmes foram confiscados e supostamente queimados no seu país de origem, sendo até proibido escrever sobre ele. "Duvar" foi banido durante 17 anos. Apesar de todo o seu sucesso internacional, principalmente de "Yol" e este "Duvar", ele era sobretudo um realizador para o povo turco. Viria a falecer no ano seguinte, com apenas 47 anos, de cancro no estômago.  

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terça-feira, 27 de junho de 2017

The Horse (At) 1982

Seguimos um pai de nome Hüseyin, e o seu filho chamado Ferhat, enquanto eles se mudam da pequena cidade onde vivem, atingida pela pobreza, para Istambul. O pai está desesperado para conseguir dinheiro para a escola do filho, e o filho espera que o dinheiro possa ser usado para comprar um cavalo. Em Istambul Hüseyin compra um carro de vegetais para os dois venderem na rua, mas como não têm licença são constantemente procurados pela polícia.
Segunda longa metragem de Ali Özgentürk, discípulo de Yılmaz Güney, expõe a opressão, o desemprego, a corrupção, a burocracia e as desigualdades sociais na sequência da intervenção militar de 1980, adaptando o estilo do neorealismo italiano, evocando "Umberto D.", de Vittorio de Sica, e, particularmente, "Ladri di Biciclette" (1948). Está entre os filmes sobre a migração realizados na década de oitenta, com o foco na identidade da metrópole, não mais a utopia aos imigrantes anteriores, com a sua identidade histórica e cultural. A textura da cidade transformou-se, desfocando a diferença entre a "antiga Istambul" e os recém chegados, mas a invasão periférica não diminuiu a estigmatização do pobre camponês de Anatólia, ironicamente, por aqueles que estigmatizaram antes. Até as favelas são inacessíveis para os novos migrantes, que encontram abrigo em espaços transitórios, cafés, estradas, ou até mesmo obras. As aspirações dos migrantes também mudaram paralelamente ás mudanças socio-económicas da sociedade.
Existe um simbolismo profundo, envolvendo não só Ozgenturk, mas também os seus mentores, Yilmaz Guney e Serif Goren.As ruas de Istambul não parecem diferentes da aldeia destas personagens, que ilustra um tema que era muito comum nos filmes turcos da altura, que o "paraíso",quer fosse Istambul ou a Alemanha, não era muito diferente da aldeia de onde vinham. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

On Fertile Lands (Bereketli Topraklar Üzerinde) 1980

Bereketli Topraklar Üzerinde / On Fertile Lands (1979) é baseado numa obra de realismo social de Orhan Kemal, sobre a difícil situação dos camponeses pobres no final da década de 40, na Turquia do pós-Segunda Guerra Mundial, que não teve a sorte de passar pela revolução industrial nem pelas reformas agrárias. Apoiando o dialect0 Marxista, o filme concentra-se em Ali, Yusuf and Hasan (ecoando Tom, Jim e Muley de "Grapes of Wrath", 1940, de John Ford, que teve uma forte influência no realizador, Erden Kiral), três amigos que desejam melhorar o seu status social e económico trabalhando na cidade, mas enfrentando para isso muitas dificuldades.
As primeiras sequências, usando câmara ao ombro, mostram trabalhadores temporários desesperados, homens com poucos dentes e crianças empobrecidas, são pessoas invisíveis que olham directamente para a câmara evocando Walker Evans (1903–75), que expôs a pobreza rural no sul do Alabama durante a grande depressão (no filme "Agee and Evans", 1939). A câmara passa sobre as tendas esfarrapadas, mas discretamente fica afastada, enquanto o narrador nos informa que a terra de Çukurova é fértil, e as suas pessoas são pacientes. Mesmo que eles morram há sempre o outro mundo. Devemos sempre comparar-nos com os que estão por baixo, e não com os que estão acima, e ficar gratos, como disseram os profetas. Esta é a verdade nua, apresentada como uma verdade objectiva sem perder a complexidade literária e a beleza poética do livro de Kemal. Consciente da improbabilidade de narrar tanta pobreza com formas tradicionais e sentir a agonia do intruso, Kiral procura uma nova linguagem cinematográfica que levante a consciência, preservando a liberdade dos trabalhadores, negada pelo sistema. Os méritos artísticos de Kıral levam o filme para além do tratado político criando personagens tridimensionais e complexas com necessidades básicas, comida, sono, sexo, e até mesmo amor. A vida humana é reduzida à sobrevivência física. 
O filme manteve a sua contemporaneidade ao longo de décadas recebendo o prémio de melhor filmes no Antalya Golden Orange Film Festival, em 1981, mas o prémio foi-lhe retirado devido à pressão do governo militar e Kiral foi compensado com o prémio de melhor realizador, que ele recusou receber. O filme foi depois banido, e os negativos ficaram perdidos. Foram descobertos 28 anos depois num armazém na Suiça, e o filme foi restaurado pela  Groupama Film Foundation, em França, para voltar a ser mostrado no Istanbul International Film Festival, em 2008.
A versão que podem tirar aqui do blog tem uma qualidade péssima, mas é mesmo assim e a única disponível com legendas em inglês. Para vê-la com as legendas terão de usar o programa VCL. Existe uma versão no youtube com uma qualidade muito boa, mas não tem legendas. É o que se pode arranjar, o filme é muito raro.

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sábado, 24 de junho de 2017

Suru - O Rebanho (Sürü) 1979

Por causa de um conflicto local, uma família de camponeses do leste da Turquia decide vender o seu rebanho de ovelhas, uma mercadoria muito preciosa, na distante cidade de Ancara. Durante a longa viagem de comboio subornos devem ser pagos a oficiais mesquinhos, ovelhas são roubadas ou morrem nos vagões embaladas, e a esposa de um dos filhos da família fica gravemente doente...
"Sürü" é um retrato realista de uma Turquia em transição para o capitalismo. O filme problematiza a desintegração de uma tribo curda e a sua estrutura patriarcal, com mudanças na estrutura económica do país. Está dividido, principalmente, em três partes, em todas as quais se destacam a natureza misteriosa deste povo: no acampamento, na viagem de comboio para Ancara, e, já na cidade. No acampamento, um abrigo temporário, a tribo continua o seu estilo de vida ao ar livre, com a vida nómada a ser documentada quase etnograficamente. A tranquilidade da atmosfera tem uma qualidade estranha. O conflito é confinado a espaços interiores claustrofóbicos, dentro das tendas ou perto delas, onde os mais fracos são humilhados. 
A mensagem política do filme está carregada de crítica social. O atraso e a ignorância de um estrato social ou étnico revertem-se pelo resto da sociedade. As mulheres são uma metáfora para os oprimidos. Colocadas em espaços liminares, as mulheres têm uma dupla vantagem par os homens, embora a opressão feudal destrua ambos. Quando a perda de identidade não é consciente (como no caso das minorias étnicas na Turquia), o poder é mais destrutivo. Pessoas afectadas por uma melancolia mais profunda perdem a voz. O silêncio de uma das personagens, Berivan, é uma metáfora para os povos oprimidos sem voz, os pobres, as mulheres, mas, principalmente os curdos, silenciados fisicamente e metaforicamente, não são capazes de falar o seu próprio idioma, embora esta mensagem seja muito subtil no filme, para conseguir contornar a censura estatal.
Escrito por Yılmaz Güney, enquanto estava na prisão, e realizado por  Zeki Ökten, esta trágica história da desintegração de uma família tribal (e os seus costumes e tradições) recebeu uma enorme aclamação internacional, incluindo o Leopardo de Ouro no festival de Locarno, e dois prémios importantes no festival de Berlim. A administração do festival Antalya Golden Orange Film recusou-se a aceitar "Sürü" na competição, porque a cidadania turca de Melike Demirağ tinha sido revogada pelo seu papel de esposa de Şivan, interpretado por Tarık Akan, que já estava na lista negra. Mas depois acabaria por premiar o filme com vários prémios.

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rapariga do Lenço Vermelho (Selvi Boylum Al Yazmalim) 1977

A história de um dilema entre o amor de uma mulher, e a sua lógica. Asya, uma jovem com uma mãe reservadora, conhece Ilyas um homem da cidade por quem depressa se apaixona. Superam as dificuldades e têm um casamento rápido e feliz. No entanto, a vida vai mudar quando ajuda um homem certa noite, deixa a mulher e o filho e sai de casa. Asya pega no filho e parte sem rumo, até que uma mão amiga a ajuda desinteressadamente.
Enquanto o livro original de Chingiz Aitmatov, de onde é adaptado este filme, nos mostra a história dos dois homens, o filme de Atif Yilmaz concentra-se na mulher. Começa com um close-up de Asya, e termina da mesma forma. Asya é apresentada como uma mulher independente, capaz de decidir o seu caminho. Decide fugir com o homem que ama em vez de casar com um homem que nem conhece. Toma a iniciativa de falar com o chefe de İlyas, e sai de casa quando não está feliz. Para preparar a audiência para a escolha de Asya no final, Yilmaz insere certos detalhes da vida de Asya com Cemşit. Apesar de ser legalmente casada, descartou as roupas de camponesa e trabalha agora numa cooperativa.
Os diálogos são reduzidos ao mínimo no filme, a narrativa flui através de monólogos/vozes interiores, os três principais actores exprimem-se através de sinais e mímica enquanto enfrentam o público, uma novidade para o cinema turco, e que era a forma de Atıf Yılmaz preservar o texto lírico, enquanto enfatizava a visualidade. 
 Atif Yilmaz era um dos realizadores turcos mais activos neste período do cinema turco, realizou mais de quarenta filmes durante a década de setenta, alguns deles bastante importantes.

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

O Autocarro (Otobüs) 1975

Este filme apresenta-nos o ponto de vista de nove imigrantes, que viajam num autocarro das áreas rurais da Turquia directamente para uma das mais modernas cidades, Estocolmo. São enganados por um contrabandista, que lhes ficou com o dinheiro e o passaporte com a promessa de lhes arranjar um emprego na Suécia. Quando chegam a Estocolmo, sendo eles completamente estranhos à cidade e cultura, sem ter onde ir e sem dinheiro para comprar comida, o único lugar onde encontram refúgio é o autocarro onde viajaram, estacionado num local muito central da cidade, durante um inverno bastante frio. O medo de serem apanhados pela polícia e recambiados para o seu país de origem obriga-os a esconderem-se dentro do autocarro durante o dia, e durante a noite fazem a dura luta pela sobrevivência. Durante estas excursões nocturnas observamos como estes camponeses vivem a vida nocturna na cidade. 
O filme mostra-nos como alguns dos aspectos considerados aceitáveis da vida quotidiana (como o consumo de álcool, a nudez, a sexualidade e a homossexualidade) são considerados perversões para as pessoas estrangeiras. E é por isso que quase todos os cidadões locais são retratados como hostis, pervertidos, racistas, arrogantes, cruéis e implacáveis. Por outro lado, todos os nove cidadãos turcos são vistos como ingénuos, e quase totalmente ininteligentes. Mesmo com o filme a tratar dum tema sempre quente como a emigração não lida com o tema de uma forma muito profunda, mesmo assim sendo considerado dos melhores filmes turcos dos anos 70.
Vencedor de vários prémios em festivais internacionais, ainda que menores, era o filme de estreia de Tunç Okan, um actor tornado realizador, que contava no seu repertório já com algumas interpretações importantes. 
Legendas em inglês.

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terça-feira, 20 de junho de 2017

My Prostitute Love (Vesikali Yarim) 1968

1968, numa taberna em Istambul. A bela e magnífica Sabiha está a cantar no palco. Halil não consegue tirar os olhos dela. Eles apaixonam-se, mas Halil é casado e um homem vulgar. Não procura nada de especial, mas o que está feito, está feito. No entanto, os rumores começam a circular...
A história de um dos mais sentimentais melodramas do cinema turco é muito dolorosa. Adaptado para o grande ecrã por Safa Önal, a partir de uma história de Sait Faik. Desde o início da história em que "toda a gente está certa", Halil e Sabiha estão cientes do que poderá ser o fim deles. É uma história de amor que começa com uma pergunta, e termina com o peso da pergunta que acaba por não ser perguntada: És casado? Começa com a solidão de um homem numa taberna, e acaba com a solidão de uma mulher deixada no meio da rua num bairro degradado. "My Prostitute Love" é o melodrama mais ingénuo do cinema turco.
É um filme realista que representa o sentimento da década de sessenta em Istambul, de forma autêntica. Escrito de forma poética, e cuidadosamente elaborado em termos de fotografia, justapõe a imagem realista dos interiores e das paisagens dos anos sessenta com os momentos místicos de amor entre duas personagens, que ganham vida com os impressionantes desempenhos dos actores Turkan Soray e Izzet Gunay, conseguindo criar uma ruptura na abordagem tradicional moralista.
Lütfi Akad é um dos realizadores mais importantes da Turquia. Deu ao cinema do seu país muitas coisas importantes, começando pela forma como movimentava a sua câmara. Andava de cenário em cenário, de rua em rua, mostrando ao seu público o mundo real, pessoas reais, sem grandes estrela de cinema. Os seus actores, em grande parte, não agiam em frente à câmara, eles viviam na câmara.
Legendas em Inglês.

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domingo, 18 de junho de 2017

Tempo de Amar (Sevmek Zamani) 1965

Halil é um pintor que se apaixona por um rosto num quadro, que pertence à filha dos donos de uma mansão. Certo dia, a rapariga chega à mansão no exacto momento que Halil está a olhar para o retrato, e é o inicio de uma estranha relação. 
O filme é contado em duas formas distintas. Primeiro, um realismo rigoroso na busca da identidade específica do povo turco. Ocidente ou Oriente, a eterna batalha caótica. Em segundo lugar, através desta separação de Ocidente e Oriente, o filme mostra-nos duas percepções diferentes do amor: uma cantora moderna, urbanizada (Sema Ozcan) a querer estar com um homem (Musfik Kenter), que por sua vez está apenas apaixonado pelo retrato da cantora. Por outro lado, o homem oriental a recusar o amor da cantora que está mais ligada ao Ocidente, e à perdição.
Um filme obscuro, um tesouro escondido para os amantes de cinema internacional, é considerado um dos melhores filmes da história do cinema turco, apesar de ainda permanecer desconhecido para muitos cinéfilos da nova geração. Elogiado pela sua fotografia a preto e branco, o filme segue a tradição estética de Antonioni, sendo uma mistura eclética de temas modernistas (a solidão individual), a metafísica (a luta do bem contra o mal, com o mal a ser representado pelas influências do ocidente), e as noções do marxismo, visíveis em outros filmes do realizador Metin Erksan, um dos primeiros realizadores turcos que viu o cinema como uma forma de arte, além de um meio de entretenimento das massas.

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sábado, 17 de junho de 2017

Verão Seco (Susuz Yaz) 1963

Uma história de luta de classes que se passa durante um verão seco na zona rural da Turquia. Como consequência das condições climáticas quentes e secas os agricultores que vivem na aldeia não podem regar os seus campos. O proprietário da única terra com nascente de água não deixa os outros proprietários usarem a sua água, construindo um dique, e ambos os lados entram em conflito a propósito do uso deste recurso natural. 
Desta forma, este conflito transforma-se numa disputa de propriedade, que é um dos assuntos preferidos do realizador Metin Erksan. Além disso, o realizador usa a obsessão do proprietário para seduzir a jovem e encantadora esposa do irmão, que acaba por tomar partido dos outros agricultores para fortalecer esta questão de propriedade. 
A beleza deste filme vem da sua simplicidade visual. Faz lembrar muito os grandes clássicos do neorealismo italiano, mas tem um espírito mais livre, que lhe confere uma identidade verdadeiramente única. O foco da atenção é a moralidade flexível dos principais protagonistas. Ao longo do filme, aos três personagens principais (os dois irmãos e a esposa e de um deles) são apresentados dilemas difíceis, que os obrigam a tomar decisões difíceis, decisões que indirectamente desafiam e expõem as falhas dos entendimentos tradicionais turcos sobre responsabilidade e respeito. Impressionante também é o tom erótico do filme, com algumas imagens da actriz Hülya Koçyigit a ultrapassarem surpreendentemente os censores turcos da altura.
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Berlim de 1964, e da Biennale do Festival de Veneza desse mesmo ano, foi o primeiro sucesso internacional do cinema turco. Contudo, as coisas não foram muito fáceis interinamente. Foi retirado da circulação pelas autoridades turcas pouco tempo depois da estreia. 

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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Da Trácia à Capadócia, uma viagem pelo cinema turco

Quando em 1982 "Yol" de Yilmaz Güney conquistou a Palma de Ouro no festival de Cannes o cinema turco entrou para a vanguarda internacional. Este reconhecimento, e a classificação de "Yol" como um filme "turco" (feito por um cineasta turco e curdo) sublinham o desafio primordial de definir e categorizar um cinema nacional. Investigadores, estudantes, e as suas pesquisas reflectiram essas interrogações. Estudos contemporâneos abordaram a evolução do cinema turco a partir da representação do desejo do estado de unificar uma república recem-formada (1923) através da idade de Ouro do cinema de entretenimento (Yesilçam), e continuando com o contemporâneo Novo Cinema Turco, reflectindo sobre  o traumático passado social, político e cultural de uma nação.
Através deste recente movimento de filmes e o seu reconhecimento global surgiu uma nova geração de estudiosos do cinema turco. É uma geração com rigor académico, coragem e compromisso de reexaminar a relação do cinema turco com o passado de uma nação e a relação do "novo cinema" com a evolução actual das perspectivas políticas e sociais da sociedade turca contra o poder do estado.
Este ciclo que hoje se inicia, não pretende ser um "o melhor de " do cinema turco. Pretende, tal como o título indica, que seja feita uma viagem, sem preconceitos nem obrigações, pelo passado e pelo presente do cinema daquele país, numa tentativa, tal como o fizeram os estudiosos que referi anteriormente, de recuperar e divulgar o cinema daquele país, principalmente pelos lugares mais escondidos e com menos visibilidade. Viagem esta que começará nos anos sessenta, com um filme premiado, e acabará já no século 21, com outro filme premiado.


 Este ciclo tem um programador muito especial, especialista em cinema turco. Nuno Simões, fotógrafo de paixão, seguidor do My One/Two Thousand Movies já há alguns anos. Podem seguir o seu trabalho, aqui.
No sábado será publicado o primeiro filme, com o ciclo a ter um total de 20. 

Criadores de Stop-Motion: O Mundo Surreal dos Irmãos Quay

Os irmãos Quay estão entre os artistas de animação mais bem sucedidos dos últimos anos. Os fantásticos cenários e os seus fantoches kafkianos e os ocasionais closeups combinam numa alquimia engenhosa de visão inconsciente e metafórica. Ver qualquer filme de animação desta dupla significa entrar num mundo de sonhos de metáfora e poesia visual. Nas suas próprias palavras: "Os filmes de marionetes pela sua própria natureza são construções extremamente artificiais, ainda mais dependentes de que nível de "encantamento" se deseja para eles em relação ao tema, e, acima de tudo, a mise-en-scène conceptual aplicada". O "encantamento" dos seus filmes fê-los conquistar audiências pelo mundo fora, e as suas inovações introduziram uma nova qualidade de poesia para o filme animado. Hoje trago-vos aqui uma série de curtas desta dupla, e uma longa. 

Nocturna Artificialia (1979)
Uma história enigmática contada em sete capítulos, cada um introduzido por uma frase elíptica num título. Um homem no seu apartamento. Ele sai para a rua onde um eléctrico vermelho passa ao lado de uma catedral. Curta de estreia dos realizadores. Com valores de produção bastante baixos, é quase o filme mais negro dos Quay, além de ser o mais sombrio. Um jogo de sombras bastante apurado que faz com que nunca tenhamos a certeza do que estamos a ver. Os realizadores não gostam muito de misturá-lo com os seus filmes posteriores. 
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The Cabinet of Jan Svankmajer (1984)
Em Praga, um marioneta professora, com pinças metálicas nos lugares das mãos e um livro aberto como chapéu, toma um jovem rapaz como pupilo. Primeiro a professora esvazia a cabeça do rapaz de todos os brinquedos, deixando-o sem o topo a maioria do filme. Depois ensina o rapaz sobre ilusões e perspectivas, a busca de um objecto através da exploração de um banco de gavetas, adivinhando um objecto e a migração das formas. A animação em stop Motion dos Quay é obviamente influenciada por Jan Svankmajer, e este é o seu tributo ao realizador Checo. 
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Street of Crocodiles (1986)
Um acompanhamento musical electrónico orquestrado por Karlheinz Stockhausen acompanha adequadamente o filme. É talvez o trabalho dos Quay mais bem sucedido dos realizadores, inteiramente animado por marionetes e o fantástico microcosmos do seu universo. Foi um filme altamente premiado. Não ganhou em Cannes, mas ganhou prémios nos festivais de Sitgés e Fantasporto. 
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Rehearsal for Extinct Anatomies (1988)
Na frágil imobilidade de uma sala, um casal espera. Enquanto o crepúsculo avança, alternadamente inconsciente e ansioso por pressentimentos de destruição brutal. Livremente inspirado numa gravura do pintor francês Jean Honoré Fragonard. O ponto de partida era uma música que Leszek Jankowski escreveu para um projecto com temas de Kafka. Assim é criado um plano coreográfico envolvendo certos movimentos de câmara precisamente calibrados, criando um cenário com isto em mente. 
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The Comb (1991)
O filme abre no quarto sombrio de uma bela adormecida, e parece entrar na sua mente e mergulhar nos seus sonhos. Com base num fragmento de um texto do escritor austríaco Robert Walser, "The Comb" é uma exploração do subconsciente, visualizada como uma casa de teatro labiríntica assombrada por um explorador de bonecas. Uma mistura impressionante de live action com animação, "The Comb" é semelhante a uma nota sensual de violinos, guitarras e gritos e sussurros vindos de um sótão, todos banhados num magnífico brilho dourado.  
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Instituto Benjamenta (1995)
Jakob Von Gunten acaba de entrar para o estranho Instituto Benjamenta, especializado em preparar e educar criados. Pouco a pouco vai conhecendo os seus inusitados colegas e apredendo técnicas de serventia a cargo dos irmãos Johannes e Lisa Benjamenta, responsáveis pelo Instituto. Estranho é a norma para esta primeira longa metragem em live action dos imãos gémeos Quay, que por esta altura já tinham atingido o estatuto de culto pelas suas curtas metragens. Aqui, as influências são o expressionismo alemão de "O Gabinete do Dr. Caligari", e é marcado por um tom de pesadelo. É vagamente baseado na novela "Jakob Von Gunten", do autor suiço Robert Walser. Filme premiado em festivais como Fantasporto, Sitgés e Locarno. Tem legendas em português. 
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terça-feira, 13 de junho de 2017

Alex Cox - Extras

Alex Cox era um grande fã de spaghetti western. Na altura que completou o seu curso na UCLA, escreveu uma tese sobre este sub-género cinematográfico. O resultado desta tese originou o excelente livro "10,000 Ways To Die", que hoje publicamos aqui.

Alex Cox foi também apresentador de uma série da BBC2 chamada Moviedrome, onde cada filme era apresentado antes de ser mostrado na TV, com as escolhas a caírem, sobretudo, em filmes de culto. Cox foi o apresentador desta série, desde 1988 até 1994. Nesta pesquisa podem ver algumas das apresentações de Cox.

É tudo quanto ao ciclo "Alex Cox - O Último Maverick". Espero que tenham gostado.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Bill the Galactic Hero (Bill the Galactic Hero) 2014

Billy é um entregador de pizzas num planeta distante que tropeça numa unidade de recrutamento para as tropas espaciais, e é enganado a se inscrever com o uso de drogas. A bordo de uma nave estelar vai envolver-se numa guerra contra seres com a aparência de lagartos. 
"Billy the Galactic Hero" é baseado num livro satírico de ficção científica escrito em 1965 por Harry Harrison, que foi escrito como contrapeso para um outro livro neo-fascista de 1960 chamado "Starship Troopers" de Robert A Heinlein, também ele passado para o cinema em 1997, pelas mãos do holandês Paul Verhoeven, filme esse que também satirizou bastante a sua fonte e as suas tendências militaristas. É uma comédia de ficção científica passada nos confins da nossa galáxia, com os humanos a travarem uma guerra contra uma espécie alienígena reptiliana conhecida como Chingers. Cox revelou que estava a trabalhar com o autor do livro na organização do filme, quando este morreu.
Cox já vinha a planear fazer uma versão deste livro desde há muitos anos, meados dos anos oitenta, quando ainda era uma grande esperança de Hollywood graças ao sucesso de "Repo Man", embora não tivesse conseguido obter financiamento na altura. A partir de 2012 aceitou um trabalho a dar aulas na Universidade do Colorado, em Boulder, e foi este o meio improvável que conseguiu para fazer "Bill the Galactic Hero". Através de crowdfunding on Kickstarter conseguiu um orçamento de 114 mil dólares, e junto com os estudantes da universidade onde leccionava começaram a produzir o filme, com alguns deles a receberem honras de co-realização. Desta forma "Bill The Galactic Hero" foi considerado o maior filme de estudantes jamais feito, graças ao orçamento conseguido. 
É difícil falar desta adaptação de "Bill The Galactic Hero" sem nos sentirmos na obrigação de preparar os espectadores para o que aí vem. É essencialmente uma longa metragem sem grande escala ou ambição, um projecto sem fins lucrativos construido para ser colocado online gratuitamente. E qual seria o aluno de cinema que não gostaria de fazer um filme com Alex Cox?
Filme sem legendas.

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domingo, 11 de junho de 2017

Repo Chick (Repo Chick) 2009

Num futuro indeterminado Pixxi (Jaclyn Jonet, de "Searchers 2.0") é uma jovem rica e mimada, que é deserdada pela família e se vê obrigada a trabalhar como "repo woman", para sobreviver, a recuperar carros dos que não pagam as prestações, tal como Emilio Estevez fazia em "Repo Man". Para onde quer que vá é seguida por um grupo de amigos chatos, e por uma câmara que regista o seu dia para um programa de TV. 
"Repo Chick", realizado por Alex Cox, está a meio caminho entre um remake/sequela de "Repo Man", o seu filme de culto de 1984, não sendo nem uma coisa nem outra. Existe alguma semelhança entre os dois filmes, como o humor subversivo, mas a principal diferença está na forma como são tratados os temas destas duas obras: "Repo Man" era um filme sobre a alienação, e "Repo Chick" é um filme que está enraizado no anticapitalismo. A primeira parte de "Repo Chick" gira mais em torno das suas personagens coloridas, é a mais interessante, enquanto que a segunda parte é mais mecânica, e aí Cox espalha-se um pouco.
Alex Cox é um realizador que nunca joga pelas regras, e por isso já há alguns anos que estava preso a micro-orçamentos surreais, que por serem mais limitados, obrigavam-no a ser mais inventivo nos seus trabalhos, mas, tal como em "Searchers 2.0", a recepção da crítica também não foi muito boa. O elenco é sempre um atractivo nos filmes de Cox, e se os actores principais são alguns dos colaboradores habituais do realizador, conta também com algumas estrelas convidadas: Chloe Webb, Rosanna Arquette, Karen Black, entre outros.
Teve honras de estreia no Festival de Veneza, obviamente fora de competição.
Legendas em inglês.

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sábado, 10 de junho de 2017

Searchers 2.0 (Searchers 2.0) 2007

Dois actores, Mel Torres (Del Zamora) e Fred Fletcher (Ed Pansullo), descobrem que quando eram crianças participaram juntos num velho western, onde foram fisicamente atormentados pelo argumentista Fritz Frobisher. Descobrem que Frobisher irá fazer uma rara aparição em público, num evento no Monument Valley, o local preferido de John Ford. Decidem partir para lá no camião da filha de Mel, que também os acompanha, para ajustarem contas com o argumentista. A viagem é a parte mais cinéfila do filme, pois ambos sabem muito sobre westerns, e será o assunto da conversa ao longo da viagem.
Tal como as últimas obras de Alex Cox, "Searchers 2.0" é um filme minimalista. Produzido com um orçamento de $180,000 e rodado em apenas duas semanas em video digital, que funciona maravilhosamente em alguns momentos, principalmente na capturas das mesas do sudoeste americano. Por outras vezes, dentro dos edificios e dentro do carro, a imagem parece granulada e lamacenta. A viagem na estrada é gasta, sobretudo, com brigas e discussões, mas quando os nossos heróis chegam ao Monument Valley e há um objectivo claro entre mãos o filme transforma-se em algo magnífico. Até ali o filme era interessante como um objecto de guerrilha, mas não muito divertido de se ver.
O final é verdadeiramente inspirador, terminando tri-duelo a homenagear "O Bom, o Mau, e o Vilão", de Sérgio Leone, com cada um dos participantes a desafiar o outro a dizer nomes de duplos do filme de Leone ainda vivos. 
A produção desde filme, muito discreta, é de Roger Corman.
Filme sem legendas.

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Revengers Tragedy (Revengers Tragedy) 2002

Esta é a história de um homem cuja amada foi assassinada no dia de casamento, e o seu desejo de vingança. Numa Liverpool pós-apocaliptica do futuro, Vindici (Christopher Eccleston) regressa de um exílio auto-imposto, para derrubar os responsáveis pelo assassinato da sua esposa. Enquanto que a sua família se encontra a viver tempos difíceis, o assassino, conhecido como The Duke (Derek Jacobi), tornou-se num homem poderoso.
Verdadeiramente subversivo e rebelde, Alex Cox fez um filme semelhante a "Romeo & Juliet" de Baz Luhrmann e "Titus" de Julie Taymor, mas não adaptou uma peça de Shakespeare. Em vez disso escolheu uma peça do século 17 de Thomas Middleton, que, segundo o realizador, era o trabalho mais vil jamais feito em língua inglesa, e o produto de uma mente doente. Adaptar Shakespeare seria vulgar demais para Cox, e seria muito previsível, então, vamos lá adaptar uma obra de Thomas Middleton.
Cox actualiza a acção num futuro próximo, onde todos se vestem como punks, e onde tatuagens, piecings, caras pintadas eram a norma. A fotografia está cheia de cores deslumbrantes, e a excelente banda sonora da banda Chumbawumba dão ao filme um pouco de ar para se respirar. Por vezes o filme é dificil de se seguir, mas não nos podemos esquecer de que é um filme de Alex Cox.  Era a segunda colaboração entre Cox e o actor Christopher Eccleston.
Legendas em Inglês. 

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Kurosawa: The Last Emperor (Kurosawa: The Last Emperor) 1999

Feito para ser exibido na televisão por Alex Cox, o documentário "Kurosawa: The Last Emperor" é uma crónica histórica bastante completa sobre a vida e a obra de Akira Kurosawa. Cox dá ao lendário realizador japonês um perfil bastante extensivo utilizando os detalhes e histórias de entrevistas com familiares, actores que com ele trabalharam, membros de equipas de produção, amigos e outros realizadores. Tudo isto incorporado com uma riqueza de imagens de muitos filmes de Kurosawa, e o resultado é um retrato informativo de não ficção, que fornece apenas uma perspectiva do legado de uma das figuras mais lendárias do cinema. 
Apesar de ter menos de uma hora, é um documentário que cobre muitos territórios. Começa com a infância do realizador, e através das entrevistas pinta um retrato muito pessoal da vida e do trabalho do homem até à sua morte. Psicanalisa a vida do realizador, sugerindo que certos eventos seminais (como o suicídio do seu irmão) moldaram em grande parte o seu trabalho, tematicamente. As informações fornecidas podem não ser muito interessantes para o espectador casual, mas para os fãs de Kurosawa ou os estudantes de cinema a sério, vai fazer querer ver todos os filmes do realizador novamente.
Documentário com legendas em inglês apenas nos diálogos em japonês.

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terça-feira, 6 de junho de 2017

Three Businessmen (Three Businessmen) 1998

Dois comerciantes de arte, um americano (Miguel Sandoval) e um britânico (Alex Cox), encontram-se no restaurante do hotel onde estão hospedados, em Liverpool. Os dois decidem procurar uma refeição nocturna, o que se torna problemático quando o inglês revela que é vegetariano. Enquanto seguem a busca por uma refeição minimamente aceitável para os dois, o ponto principal do filme é a discussão entre os dois para encontrarem um restaurante ideal.
Alex Cox no território da solidão e da alienação da paisagem urbana moderna. Bennie e Frank são os tipos de homens bem sucedidos nascidos para se adequarem ao mundo moderno, mas, na realidade, são figuras tristes, pouco realizadas, não estabelecendo muitas ligações entre si, e sem ligação aparente mais profunda do que têm com os jornais, telemóveis, ou computadores...
"Three Businessmen" é uma comédia absurda de Alex Cox, onde grande parte do orçamento foi gasto a comprar bilhetes de avião para a equipa de produção. Cox, como é evidente, tem um carinho especial pelas suas personagens perdidas, assim como pela cidades que ele escolheu para o filme. O argumento é escrito por Tod Davies, colaboradora ocasional de Cox, que nesse mesmo ano trabalharam em conjunto no argumento de "Fear and Loathing in Las Vegas", de Terry Gilliam.  
A influência de Cox neste filme é de Luis Buñuel, com o seu "O Discreto Charme da Burguesia", que também era sobre um grupo de pessoas que tentavam jantar, mas são constantemente desviados por eventos surrealistas. 
Legendas em inglês.

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domingo, 4 de junho de 2017

The Winner (The Winner) 1996

"The Winner" conta-nos a história de um homem comum, chamado Philip (Vincent D’Onofrio) que de repente tem uma mudança de sorte. Antes de tentar suicidar-se, num Domingo, vai até um casino de segunda categoria para derreter o que resta do seu dinheiro, só que desta vez ganha de cada vez que joga, e continua a ganhar (desde que seja aos Domingos). Esta onda vencedora atrai varias pessoas desonestas que pretendem tirar proveito da sorte de Philip, incluindo um trio de vigaristas com pouca habilidade para roubar, um irmão sociopata procurado pela lei,  e uma cantora de bares chamada Louise (Rebecca De Mornay), que também já apanhou o coração de Philip. Ela trabalha para o dono do Casino, a quem deve dinheiro.
Em 1995 Alex Cox estava em Cannes, a ajudar a promover "La Reina de la Noche" (1994), de Arturo Ripstein, filme no qual tinha participado como actor. Tinha aceite o papel para conseguir dinheiro para completar a versão cinematográfica de "Death and the Compass", e em Cannes foi abordado por produtores que queriam fazer uma versão cinematográfica de "A Darker Purpose", uma obra escrita por Wendy Riss. Cox leu o argumento e assinou, na esperança que o dinheiro chegasse para completar "Death and the Compass".
As coisas não correram bem entre Cox e os produtores, com o realizador a querer tirar o nome dos créditos do filme, embora o seu nome tivesse permanecido. A versão final que Cox tinha terminado foi rejeitada pelos produtores, que acabaram por lançar uma versão muito diferente. Ele tinha preparado uma banda sonora que dava ênfase ao lado mais irónico do filme, mas a banda sonora que foi incluída era muito diferente da pretendida pelo realizador. 
 Mesmo assim o filme vale a pena, por várias razões: a fotografia, com alguns takes longos que já eram habituais na filmografia do realizador, e o magnífico elenco: Vincent D’Onofrio, Rebecca De Mornay, Delroy Lindo, Michael Madsen, Billy Bob Thornton, Frank Whaley, entre outros.
Filme sem legendas. 

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sábado, 3 de junho de 2017

Death and the Compass (Death and the Compass) 1992

O detective Erik Lonnrot (brilhantemente interpretado por Peter Boyle), investiga uma série de bizarros assassinatos numa cidade futurista, sombria e caótica, administrada por um governo totalitário. Enquanto vai chegando perto da verdade, Lonnrot descobre uma complexa conspiração oculta, que o coloca em perigo de vida.
"Death and the Compass" oferecia a Alex Cox a oportunidade de adaptar uma obra literária pela primeira vez. Baseado numa história curta (originalmente intitulada de “La Muerte y la brújula”) de Jorge Luis Borges, publicada pela primeira vez em 1942, mas apenas traduzida para inglês em 1954. Era a peça central de uma trilogia de detectives que Borges escreveu, e foi publicada precisamente 100 anos depois de “The Mystery of Marie Roget”, também a história do meio de uma trilogia de Auguste Dupin, escrito por Edgar Allen Poe. A história de Poe influenciou a obra de Borges, mas a sensação de enclausuramento sentida na obra vem de Franz Kafka. 
Cox teve oportunidade de fazer este filme através da BBC, que lhe perguntou se estava interessado em fazer uma versão de “La Muerte y la brújula”, como uma colaboração para uma série de adaptações televisivas da obra de Borges, série essa que teve 6 episódios, cada um realizado por um realizador diferente. Um desses episódios era realizado por Carlos Saura, "El Sur". Esta série tinha como objectivo assinalar o 500 aniversário da invasão espanhola ao novo mundo. O filme que temos aqui hoje disponível ficou completo em duas fases: a primeira fase foi filmada em 1992 e acabou numa versão de 55 minutos, que foi exibida na televisão espanhola e na BBC. Um ano mais tarde foi filmado material adicional, para montar uma versão cinematográfica, mas a falta de recursos para a prós-produção e uma confusão sobre os direitos cinematográficos deixaram esta nova versão em espera.
A questão dos direitos acabou por ser um labirinto, como o próprio filme. Os direitos da propriedade da história estavam num produtor em Espanha, e problemas com os direitos no México e no Japão precisavam de ser resolvidos, antes do film
e saír cá para fora. Quando tudo ficou concluído o filme foi finalmente exibido, no Outono de 1996. 
Legendas em espanhol.

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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Highway Patrolman (El Patrullero) 1991

Este "El Patrullero" não é nenhum Robocop, nem nenhum Mad Max. Na realidade, o filme leva todo o drama de acção policial como uma forma. No México, Pedro Rojas (Sosa) é o patrulheiro da estrada, que vai das suas noções idealistas de aplicação da lei, a uma desilusão amarga com a corrupção que encontra. Dirigido em espanhol pelo renegado realizador inglês Alex Cox, o filme é um estudo de personagem de um homem cuja honestidade inerente o leva a não ser bom. Primeiro conhecemos Pedro (o actor Roberto Sosa aparece em quase todas as cenas) nas suas aulas de patrulhamento fascista. Pedro termina o curso, mas está decepcionado porque o pai não apareceu na cerimónia de graduação, queria que ele fosse médico, e ele acaba por ficar colocado na zona do desolado deserto de Durango. Pouco a pouco ele é vítima do tradicional sistema de subornos, tentando descobrir como não fazer parte de um sistema, ele próprio corrupto. 
1991. A tentar recuperar do fracasso crítico e comercial de "Walker", Alex Cox lançou um pequeno filme de baixo orçamento. Cox vinha a resistir a fazer um policial porque não confiava nessa profissão, mas ficou interessado depois de conversar com um homem que tinha sido policia no México. O que o interessava era o tema da decência a ser corrompida, ou, como diz Cox, "uma história idealista onde o desejo de ser polícia é uma desilusão". 
Como em muitos filmes de Cox, "El Patrullero" está cheio de cameos interessantes, neste caso por actores mexicanos (o caso de Pedro Armendáriz Jr. é o mais conhecido). Com planos longos, e quase sem cortes, Cox segue o patrullero do título, enquanto ele se confronta com a corrupção dos narcotraficantes mexicanos e dos pequenos burocratas. Enquanto a sua sorte vai de mal a pior, o patrullero parece enquadrar-se com a noção de Cox sobre a impossibilidade de qualquer comportamento correcto possa levar a alcançar objectivos dignos. Mas, mesmo neste contexto, Cox faz um apelo humanista para a decência, mesmo quando as circunstâncias o desencorajam.
A circunstância mais saliente nesta história é a relação do México com os Estados Unidos. Os mexicanos exibem uma decência especial, mesmo que sejam abusados pelos vizinhos do norte. Tranquilamente, "El Patrullero" consegue fazer a crítica social que falhara em "Walker". Cox indaga que a violência nascia da ganância capitalista e um império americano delirante, bem como os seus efeitos corrosivos sobre o indivíduo. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Os Imortais (Walker) 1987

William Walker e os seus mercenários entram na Nicarágua em meados do Século XIX para instalar um novo governo através de um golpe de estado. Tudo está a ser financiado por um multimilionário americano que tem os seus próprios interesses no país.
Recusando a esconder-se confortavelmente no passado, Alex Cox faz da sua sátira política uma crítica feroz sobre a intromissão dos Estados Unidos na América Central. Feito durante o apoio de Ronald Reagan aos Contras, este biopic histórico é uma acusção tão reveladora do direito dos Deuses dos Estados Unidos de espalhar democracias falsas que são, na verdade, ditaduras de exploração que apenas beneficiam as empresas americanas. Os ricos e famosos são implacavelmente ridicularizados como idiotas vulgares e cruéis cujo privilégio lhes permite fazer qualquer coisa. Dito isto, Walker é ao mesmo tempo, um herói e um representante desprezível de tudo o que é perigoso, niilista e sombrio sobre todos os poderosos. 
Este filme acabaria por torná-lo persona non grata em Hollywood, e, talvez, defina mais claramente a diferença entre dois pontos diferentes: um que é Cox e a política revolucionária através de Hollywood; no outro é Cox e a sua relação com a máquina de Hollywood. Provavelmente a máquina de Hollywood pode tolerar a política, mas apenas se não ameaçar o sistema. "Walker" ultrapassou claramente esse limite. Se a estética do filme é bem sucedida ou não é um assunto de discussão, mas o fracasso do filme como espectáculo político é fundamental para entender a diferença entre uma atitude punk como uma perspectiva crítica, e o mesmo como uma estratégica de marketing. 
Com brilhantes interpretações de Ed Harris e Peter Boyle, "Walker" também tem o seu mérito como um western, próximo da homenagem ao spaghetti que tinha sido o seu filme anterior, "Straight to Hell". Aqui, o modelo é Sam Peckinpah, o que faz sentido, porque o argumentista Rudy Wurlitzer também escreveu o argumento para "Pat Garret & Billy the Kid", um dos melhores filmes de Peckinpah. A banda sonora de Joe Strummer, amigo pessoal de Cox e fundador da banda The Clash, inspirou-se no trabalho de Bob Dylan no filme acima mencionado, mas também combina vários estilos. 

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segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Caminho do Inferno (Straight to Hell) 1986

Um bando de assaltantes de bancos, com uma mala cheia de dinheiro, foge para o deserto para se esconder. Depois de enterrarem o produto do assalto, chegam a uma cidade completamente surreal, onde os habitantes são cowboys viciados em café. No inicio os habitantes da cidade são hostis para os visitantes, mas acabam por aceitá-los depois deles matarem algumas pessoas. A cidade é governada por uma família numerosa, os McMahon, que não ficarão muito satisfeitos com a chegada dos visitantes.
Escrito em três dias e filmado em três semanas, "Straight to Hell" é mais parecido com uma experiência de visualização do que qualquer outra coisa. Parece ter sido um veículo para filmar com uma série de ícones culturais, como Joe Strummer (fundador dos The Clash), Elvis Costello, Jim Jarmusch, Courtney Love, e não esquecer os músicos dos The Pogues. Filmado em Espanha, o filme tenta ser um spaghetti western de avant garde (Alex Cox era um grande fã de spaghetti westerns), com dois gangs rivais a enfrentaram-se um ao outro. "Straight to Hell" poderia ter sido uma excelente oportunidade para homenagear este género. O timing estava certo, e Cox estava anos à frente de Robert Rodriguez, Quentin Tarantino e outros realizadores que se tornaram ironicamente retros na década seguinte. Infelizmente, a parte satírica está demasiado forçada, e apesar de uma belíssima fotografia e alguns momentos inteligentes de homenagem, "Straight to Hell" acabou, como diz o seu próprio nome, por ir ter directamente ao inferno. 
Tal como na maioria dos seus filmes, "Straight to Hell" contém muito mais política do que aparenta. No entanto é diferente dos seus melhores filmes: com cenários numa Espanha empoeirada, que antes pertenceram a um filme de série B de Charles Bronson, Cox criou uma alegoria incoerente, vítima de demasiada espontaneidade na produção, e muito pouca consideração como sustentar uma crítica ideológica.
Apesar de alguns elementos cómicos, "Straight to Hell" era um prelúdio para "Walker", um filme mais sério que Cox realizou pouco depois. Segundo o próprio realizador, o filme teve origem numa tournée que ele organizava com os The Pogues, Joe Strummer, e alguns outros músicos, que viajariam até à Nicarágua para mostrar a sua solidariedade com os Sandinistas. Não conseguiram arranjar dinheiro para os concertos, então, como alternativa resolveram fazer este filme em Espanha, à última da hora, para aproveitar o pouco dinheiro que tinham, e as estrelas do mundo da música. Segundo Cox, é por isso que o filme está cheio de estrelas musicais O título, "Straight to Hell", vem de uma canção dos The Clash, e era suposto ser uma visão punk do spaghetti Western. 

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domingo, 28 de maio de 2017

Sid & Nancy (Sid and Nancy) 1986

“Sid e Nancy” conta a história verídica de um relacionamento muito estranho, pateticamente infeliz e terrivelmente desastroso de dois indivíduos terrivelmente auto-destrutivos. Vagamente baseado no caso de amor volátil do baixista dos The Sex Pistols, Sid Vicious e a sua groupie americana, Nancy Spungen, o filme começa como qualquer outro romance de conto de fadas – o rapaz conhece a rapariga, as diferenças mantêm-nos separados, mas depressa eles se unem para viver felizes para sempre. Só que esta história começa com uma nota sombria e ficando progressivamente pior. A felicidade para sempre é pura fantasia, algo que em última análise só existe nas suas mentes. Mas, apesar de tudo isto, o amor e o compromisso com o outro é chocantemente genuíno e mais honesto do que o visto na maioria dos filmes de Hollywood.
Alex Cox alcançou o seu sucesso comercial com o seu segundo filme, "Sid & Nancy", e fê-lo sem qualquer compromisso político ou artístico.  Longe de ser um realizador comercial, Cox manteve o seu surrealismo punk na assinatura, enquanto trabalhava no mainstream mais em termos de estrutura narrativa e caracterização. "Sid & Nancy" é a história de um viciado que é saudado como um avatar de autenticidade (no filme representa a rebelião, enquanto as estrelas mais velhas representam decadência e compromisso).
O argumento, escrito pelo próprio Alex Cox e Abbe Wool, está cheio de imprecisões e feito principalmente a partir de conjecturas, mas isto faz parte da intenção de Cox, onde o foco deliberado é apenas sobre os personagens do título, e não sobre a história dos Sex Pistols, o vocalista Johnny Rotten ou o seu empresário Malcolm McLaren. Cox faz um óptimo trabalho ao manter Sid e Nancy como ponto focal em toda a história, enquanto que a música apenas parece surgir em torno deles, como a entrevista de Bill Grundy na TV e a performance da banda no rio Tamisa.
Gary Oldman e Chloe Webb, ambos em inicio de carreira, interpretam os dois protagonistas, e a cantora Courtney Love tem uma pequena participação. 

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sábado, 27 de maio de 2017

O Clandestino (Repo Man) 1984

Um punk rocker frustrado abandona o seu trabalho num supermercado depois de agredir um colega de trabalho e, mais tarde, é abandonado pela namorada numa festa. Vagueando pelas ruas é recrutado por um "repo man" (agente de cobranças) para recuperar um carro. Depois de saber que os seus pais doaram o seu fundo da universidade, decide juntar-se a uma agência de repo men  (Helping Hand Acceptance Corporation), como aprendiz. Durante o treino é introduzido ao mundo mercenário e paranoico dos motoristas, fica amigo de um teórico de conspirações de extraterrestres, é confrontado por outros agentes rivais, e descobre que alguns dos seus amigos de infância passaram para o mundo do crime.
"Repo Man" é talvez mais conhecido pela extravagancia da banda sonora, que inclui uma série de nomes do punk e hardcore dos anos oitenta, liderada por nomes como Iggy Pop e The Circle Jerks, que fazem um pequeno cameo como uma banda acústica num bar. No entanto, por muito que este seja considerado um "filme punk", a mensagem mais importante que fica, é a crítica ao capitalismo da era-Reagan.Ostensivamente, o repo man, com todas as conotações negativas que o seu trabalho pode trazer, está a fazer o trabalho que deve ser feito. Se alguém não pagar algo, tem de sofrer as consequências do seu acto, mesmo que não seja o culpado, ou não tenha forma de o fazer. Mas, como diz uma personagem, o Repo Man só come o que os tubarões do capitalismo não querem. 
"Repo Man"acaba por não ser um filme sobre cobranças, nem sobre carros. É sobre a luta da liberdade contra o consumismo e a religião, que é apenas outra forma de consumismo segundo o realizador e argumentista Alex Cox. Era a primeira longa metragem de fundo do realizador, que se estreava na realização aos 30 anos. Passado no deserto que era então o centro de Los Angeles, na era do Punk, este filme é, de certa forma uma visão de um outsider sobre a cultura americana, já que o realizador era um inglês que tinha aterrado naquele país uns anos antes.
O sucesso foi tal que, a partir deste momento, Cox começou a ser considerado uma das grandes esperanças do cinema americano independente. Destaque ainda para o elenco, que incluía Emilio Estevez, acabado de saír de "The Outsiders" de Francis Ford Coppola, e Harry Dean Stanton.

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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Alex Cox - O Último Maverick

Nasceu em Liverpool e estudou em Oxford, antes de se mudar para Los Angeles no final dos anos setenta, para frequentar a escola de cinema na UCLA. A carreira de Alex Cox desenrola-se em paralelo com a do cinema independente americano dos últimos 30 anos. Durante este tempo Cox fez a transição de wonderkid dos estúdios financiados, para um realizador indie transnacional, trabalhando no que ele chama de "microcinemema", filmes feitos com muito pouco dinheiro, filmados digitalmente, e distribuídos por distribuidoras pequenas e aventureiras. Esta trajectória coloca-o em rota com muitos dos realizadores que o inspiraram, como Samuel Fuller ou Monte Hellman.
De certa forma, o cinema de Cox representava o último suspiro do que sobrava do "studio system" dos anos 70. "Repo Man" foi produzido pela Universal, assim como "Walker". Este último era filmado na Nicarágua, e criticava a política externa dos Estados Unidos em relação ao governo Sandinista liderado por esse país, marcando assim a última vez que Cox trabalhava para Hollywood. Desde então, Cox foi construindo uma carreira minimalista, procurando ele mesmo os cenários para os seus filmes, e financiamento em países como México, Grã-Bretanha, Holanda e Japão. Uma das suas maiores descobertas foi o Oeste, do México e dos Estados Unidos, local onde passaria mais tempo, vindo posteriormente a dar aulas na Faculdade do Colorado, Boulder, e cenário de numerosos filmes, de "Straight to Hell", a "Searchers 2.0".
O seu trabalho posterior a "Walker", do ultra realista "El Patrullero" aos prazeres surreais de "Revengers Tragedy", todos contêm o mesmo entusiasmo pela anarquia descontrolada que os filmes anteriores, só que o fazem de forma mais moderada e calculada. Ao contrário de "Walker", estes elementos não parecem querer voltar-se contra si próprio, enquanto que Cox em "Walker" parecia deleitar-se com a sua auto-destruição.
O amor de Cox pelo cinema é evidente em numerosos artigos e livros, assim como a sua passagem pelo programa da BBC "Moviedrome",  centrado-se principalmente nos cineastas que revigoraram o seu trabalho com a vitalidade e o impulso do cinema de género, tais como Ford, Kurosawa, Leone, Peckinpah e Roeg. Inspiração e homenagem a estes autores ocorrem frequentemente nos filmes de Cox, mas ele está longe de ser um Tarantino "à letra", evita o pastiche cínico por causa de uma crença apaixonada no cinema como crítica - do consumismo, da guerra como política externa, da fúsão e da política dos mídia - e como uma forma de arte.
Durante este ciclo vamos fazer uma análise profunda à sua carreira. Para além dos filmes, este será um ciclo quase integral (contém algumas grandes raridades, que por isso terão de ser publicadas sem legendas, mas faladas em inglês), também terá livros, ensaios, e pedaços de introduções de filmes, dos seus tempos do Moviedrome. Também podem passar pelo seu site, onde tem muitos artigos sobre os seus filmes.
Os filmes começam amanhã. Bom ciclo. 


domingo, 21 de maio de 2017

Why Don't You Play in Hell? (Jigoku de Naze Warui) 2013

Hirata é um jovem ambicioso que sonha se tornar num grande cineasta. Enquanto ele prepara a realização do seu primeiro filme, uma violenta disputa entre dois clãs da Yakuza começa a escalar mas redondezas: a esposa do grande chefe Muto massacra o gang do rival Ikegami e é presa, sacrificando a carreira da filha Michiko, que sonha em ser uma actriz famosa. Dez anos depois, Muto resolve provar para a esposa, prestes a sair da cadeia, que Michiko se tornou numa estrela. É então que os caminhos de Hirata e da Yakuza se cruzam numa verdadeira orgia de cinema e sangue.
O título do filme, o alto volume de carnificina sangrenta, e parte do argumento ser sobre a vingança, sugerem uma brutalidade chocante, mas Sion Sono faz uma aproximação a este material de uma forma totalmente diferente. O Sarcasmo e a sátira ganham em relação ao sangue, e isso é uma coisa boa de se ver. O cenário é tão cómico como sangrento, e há um piscar de olhos para a indústria cinematográfica.
Eventualmente, há uma sequência de acção interminável e infinitamente inventiva na qual todas as tramas do filme são resolvidas, embora com uma enorme determinação sangrenta. É como se Sion Sono tivesse visto o final de "Kill Bill Vol. 1" e decidisse superá-lo. 
O filme teve honras de estreia no Festival de Veneza, em 2013, e passou por alguns dos Festivais mais importantes: Toronto, Austin, Sitges, e Fantasporto, onde ganhou a secção Orient Express. 

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sábado, 20 de maio de 2017

The Land of Hope (Kibô no Kuni) 2012

Inspirado nos acontecimentos de Fukushima, o filme mostra o terremoto no Japão que provoca um tsunami e a explosão de uma usina nuclear. Os habitantes das cidades da região têm de abandonar as suas casas, no entanto, Yasuhiko insiste em continuar a viver no mesmo lugar com a sua esposa Chieko, a despeito dos riscos da radiação, contrariando as autoridades locais e o próprio filho.
"Não deixa de ser irónico como um evento real, infelizmente trágico e alarmante, conseguiu melhorar a concepção dramática das sinuosas e histriónicas ficções de Sono, ficções essas que vinham ultimamente sendo praticadas em piloto automático, com súbitas mudanças de ritmo e cadência psicológica num mundo impregnado de personagens psicopatas, cruéis e instáveis. Pois bem, aqui encena-se um desastre radioactivo em tudo semelhante ao de Fukushima, mas acontecendo logo depois deste. Se bem que algumas referências (sobretudo espaciais) tinham sido já feitas no seu filme passado, Himizu, a verdade é que neste Land of Hope o foco está totalmente virado para as coreografias de abandono da terra em virtude de uma pseudo-segurança, lá onde não existe radioactividade. Nesse sentido, por se aproveitar de uma situação exterior, imposta, com um grau de realidade próxima de nós e em tudo estranha e neurótica (qual o conhecimento que nos assegura não estarmos infectados?), a radicalidade nas acções e a depressão emocional dos seus típicos personagens é-nos muito mais perceptível e nela nos fiamos. Também o chefe de família (bom papel de Isao Natsuyagi), acompanhado pela sua mulher senil, tem um desafio pela frente: sair implica morrer, o êxodo significa não voltar mais. É sobretudo por causa dessas cenas finais (um fechar do círculo perfeito para um resto, às vezes, redundante, televisivo, e facilitista em termos de imagem) que se pode dizer que Sono, passando a mesma mensagem de duas formas distintamente diferentes, a de que o amor torna possível a redenção, torna significativo o que quer transmitir, principalmente para os seus contemporâneos japoneses, que, de alguma forma, necessitam de ver o seu esforço recompensado em celulóide. Mesmo o compositor que tinha chacinado em Guilty of Romance, Mahler, aparece aqui com o seu peso devido e real, próximo de uma tragédia convincente e não um exercício de sadismo auto-indulgente pelo acto de criar e pelos seus personagens. Falta, porém, algum sintetismo."
Texto de Miguel Patricio, daqui.  

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My Two Thousand Movies no Instagram

A partir de agora já podem seguir o My Two Thousand Movies no Instagram, através da página M2TM. (https://www.instagram.com/mytwothousandmovies/)
Esta conta serve para partilhar prints de filmes que serão publicados em breve no blog, outros que já foram publicados anteriormente, e anunciar futuros ciclos. Muito cinema, portanto. Sigam.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Himizu (Himizu) 2011

Sumida e a sua colega Keiko são dois jovens de 14 anos que vivem que têm uma existência distópica, onde cada um dos seus pais tem esperança e os encoraja e morrer. Situado nas zonas afectadas pelo tsunami em Maio de 2011, no Japão, cujo cenário é usado como pano de fundo, a história segue a do manga do mesmo nome, em que Sumida luta frequentemente com o seu pai, é abandonado pela mãe, e rejeita qualquer tentativa de aproximação amigável. Eventualmente, mata o seu pai, e de seguida, assumindo que a sua vida está arruinada, tentando melhorar a sociedade matando "pessoas más".  
Originalmente concebido como uma versão bem próxima da fonte original, uma manga de Minoru Furuya, Sion Sono reescreveu o argumento depois do desastre, não só para incluir cenas de destruição, mas também para se apoiar nele para os temas centrais do filme. Talvez tenha sido um pouco oportunista, mas o timing é tudo na vida. Tal como acontece no filme de Spike Lee pós 11/9, "25th Hour", onde a história se passa com um pano de fundo de um evento catastrófico, o resultado aqui é igualmente emocionantemente poderoso. 
Os dois jovens protagonistas têm interpretações notáveis, e o filme não poderia ter funcionado tão bem sem eles. Shôta Sometani lida com o complexo do seu personagem com uma intensidade enorme, combinando os níveis necessários para acompanhar o tom do filme. Apesar do tom sombrio e pesado de desespero e agressão, Sono também consegue imbuir no filme uma mensagem de esperança e inspiração. É um trabalho ousado de puro brilho absolutamente perturbador mas profundamente edificante ao mesmo tempo. É tudo menos directo ou coerente, mas isso nem importa. 

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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Guilty of Romance (Koi no Tsumi) 2011

"Nesse filme de 2011 , "Guity of romance", ele investe em uma história real, sobre o assassinato de uma Economista de uma grande empresa em Shibuya, Tokyo, e que de noite se prostituia por prazer. O crime ocorreu em 97 e chocou a mídia. Sono pega essa história e cria uma ficção livremente inspirada nesse crime. No filme, acompanhamos 3 histórias: uma, de um crime, onde partes do corpo de uma mulher foram encontrados. Logo depois, em flashback, acompanhamos a historia de 2 mulheres: Izumi e Mitsuko. Izumi é a esposa de um famoso novelista erótico. Ela é frígida, e serve a seu marido como uma escrava, dominada pela sua rotina sem sal. Um dia, ela é convidada a posar nua, e a partir daí, ela descobre a sua sexualidade e vai enlouquecendo aos poucos, sem limites paa extravazar sua libido. Mitsuko é uma professora em uma Faculdade, e de noite se deixa levar pelos instintos mais selvagens da prostituição. O filme obviamente remete a "À procura de Mr Goodbar" e "A bela da tarde", dois clássicos sobre o tema da prostituição. Mas o cineasta Sion Sono sempre foi um mestre de provocar repulsa e constrangimento ao espectador, e jamais poupou seus filmes de mostrar cenas extremamente violentas, ou até fetiches sexuais humilhantes. Sono sabe o público que tem. Seus filmes são perturbadores, e em "Guilty of romance" ele não deixa por menos. Exibido em Cannes 2011, na Mostra Quinzena dos realizadores, causou furor pela sua crueza. O filme foi lançado em duas versões: 144 e 112 minutos. Logo depois desse filme, Sono viria com dois dramas pesados sobre sobreviventes de Fukushima, : "Himizu" e "A terra da esperança". Um cineasta autoral que vale super a pena conhecer. Ousado, está na mesma linha de Takashi Miike e Takashi Kitano, outros estetas da violência que trazem o drama do ser humano em seus momentos mais sórdidos. Excelente trabalho das atrizes que interpretam Izumi e Mitsuko."
Texto retirado daqui.

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terça-feira, 16 de maio de 2017

Cold Fish (Tsumetai Nettaigyo) 2010

Quando o gerente de uma loja apanha a filha de Syamoto a roubar, um generoso homem de meia-idade ajuda-os a resolver a situação. O homem e a sua mulher oferecem-se para que a filha rebelde passe a trabalhar na loja de peixe deles. Mas não demora muito para que Syamoto descubra a verdade por trás da perfeição aparente do casal.
Promovido como sendo baseado numa história verdadeira, foi provavelmente revelado como tal por causa do factor choque. Está claro desde o inicio que algo não está totalmente bem com Murata, um homem abertamente amigável que se oferece para contratar a filha de Syamoto, explicando que o trabalho lhe ensinará a responsabilidade e curá-la-à do seu modo de vida. A partir daqui Sion Sono muda o ponto de vista, e seguimos os negócios de Murata como se estivéssemos escondidos dentro do armário. Murata e a sua esposa são dois abutres viciosos que matam sempre que lhes convém, e quando Syamoto se envolve num plano que termina no assassinato e desmembramento de um parceiro de negócios, nos últimos 30 minutos desenrola-se uma série de eventos que ficam mais estranhos e mais sangrentos a cada minuto que passa. 
"Cold Fish" é um thriller psicológico de horror que fica algures entres as profundezas humanas mais escuras, a violência desesperada, e o grindhouse gore de um filme de Takashi Miike, mas não pertence a nenhuma destas categorias. O que Sono pretende mostrar aqui é que a violência pode ser (e neste caso, é) catalisadora para revigorar a vida de alguém, o que é preocupente, mas também é uma observação atenta sobre a nossa cultura, onde a violência é um mal comum e aparece-mos diariamente nas notícias e na nossa vida. Na sequência final Sono faz algumas comparações interessantes entre a juventude e o poder, que pode ser lido como um aviso de deixar uma geração jovem assumir o controle, antes de estarem prontos ou compreenderem plenamente as repercussões dos seus caminhos selvagens.

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domingo, 14 de maio de 2017

Be Sure to Share (Chanto Tsutaeru) 2009

Shiro tem 27 anos de idade, e é atormentado pelo diagnóstico de cancro terminal ao seu pai. Vemos a relação entre pai e filho, como tomou forma e evoluiu, as dificuldades, e a forma como o pai age como treinador do filho e instrutor. 
Sion Sono é mais conhecido como um provocador, que conseguiu chamar as atenções do Ocidente quando atirou 54 estudantes para o suicídio em "Suicide Club". Desde então foi mantendo a sua reputação com filmes como "Exte", sobre extensões de cabelos assassinas, ou "Love Exposure", sobre Deus, a religião, a Virgem Maria, sexo e pornografia. O que não sabíamos é que Sono também era conhecido como um poeta no seu país de origem, e o lado mais suave da sua personalidade fica bem exposto neste "Be Sure to Share".
Protagonizado pela estrela pop Akira, da banda Exile, numa das suas primeiras representações, pensava-se que seria um desses filmes descartáveis para os fãs da banda, mas Sono transforma este filme numa meditação silenciosa sobre a morte e a relação entre pais e filhos. O pai é interpretado pelo realizador e actor Eiji Okuda. Agora diagnosticado com cancro está preso no hospital, e a sua esposa e filho (Akira), passam os dias a visitá-lo tentando animá-lo. 
Saltando para trás e para a frente no tempo, "Be Sure to Share" não é um melodrama fácil de ser visto, sobre pais e filhos. Sono faz do filme uma espécie de ensaio, colorindo-o com dor, sobre como passamos o tempo a correr uns atrás dos outros sem nunca os alcançarmos. Sobre as pequenas coisas que fazemos todos os dias sem pensar que estes momentos insignificantes compõem as nossas vidas. Talvez este filme parta o coração do espectador, mas Sono recusa-se a objectar um sentimento tão fácil. Quando o filme terminar, vão sentir como se o vosso pescoço tivesse sido partido em dois. 

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