sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Guerra Ao Vírus Da Loucura (The Crazies) 1973

Um avião cai próximo a Evan´s City, uma pequena cidade do Estado americano da Pennsylvania. Transportava uma carga perigosa, um tipo de arma bacteriológica, de um projeto secreto chamado Trixie. O vírus contagioso de uma vacina experimental criada em laboratório atinge a reserva de água local e chega até aos habitantes da cidade, que foram contaminados e passaram a demonstrar sinais de loucura, com comportamentos violentos. O exército interfere, invadindo a cidade para tentar conter a epidemia, instaurando um estado de quarentena. No meio da imensa confusão e caos que se abateu sobre a cidade dominada pelo exército, um grupo de habitantes tenta entender a situação e escapar ileso.
George A. Romero era um nome "semi-hot" na altura do lançamento deste filme. Se "There’s Always Vanilla" e "Season of the Witch" não tinham causado muito boa impressão, "Night of the Living Dead" tinha-se tornado num êxito das sessões da meia-noite. Depois de um distribuidor lhe ter perguntado se ele tinha mais alguma boa idéia, apareceu um argumento chamado "The Mad People", a partir do qual, depois de algumas alterações, surgiu este "The Crazies". Embora semelhante ao seu primeiro filme, Romero provou que mesmo a partir de um orçamento limitado se podiam fazer bons filmes. 
Olhando de forma directa, "The Crazies" não é mais do que um filme sobre pessoas que ficam loucas. Mas, feito à sombra dos escândalos de Watergate e do Vietname, tem abundância em alegoria: a invasão de uma força militar, o encobrimento e a duplicidade do governo,  a loucura, e o eventual genocídio. Tal como em "Night of the Living Dead", "The Crazies" não oferece nenhuma esperança, conforto, e, com toda a certeza, nenhum final feliz. 

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Season of the Witch (Hungry Wives) 1972

Joan Mitchell é uma dona de casa infeliz que vive nos subúrbios, que tem um marido empresário pouco comunicativo, e uma filha distante prestes a saír de casa. Pouco satisfeita com a vida que leva procura consolo na feitiçaria depois de visitar Marion Hamilton, uma leitora de tarot e líder de uma seita de artes obscuras chamadas que inspira Joan a seguir o seu caminho. Depois de se divertir um pouco com a feitiçaria, e de acreditar ter-se tornado numa bruxa a sério, mergulha num mundo de fantasia para aprofundar o seu novo estilo de vida, até que a linha entre a fantasia e a realidade se torna muito ténue, correndo o risco de acabar em tragédia.
Por vezes não é bom atingir o sucesso logo no primeiro filme, algo que George A. Romero aprendeu da forma mais dura, depois do enorme fracasso que foi "There’s Always Vanilla" (1971). Depois deste filme ter-se tornado um flop nas bilheteiras Romero voltou ao género de terror com "Season of the Witch", filmado com o título de "Jack’s Wife" mas lançado pelo distribuidor Jack Harris com o nome de "Hungry Wives". Tal como "Night of the Living Dead", "Season of the Witch" era uma parábola de horror que atingiu tumultuosamente a contra cultura da época. Para Romero o filme era apenas um thriller feminista onde o sobrenatural aparecia como uma metáfora da situação em que as mulheres se encontravam actualmente, com as promessas das segunda vaga de feminismo a dissolverem-se lentamente no narcisismo e nas emoções superficiais dos anos setenta. 
A chave do filme, é que Romero nunca deixa completamente claro se a entrada de Joan na feitiçaria tem efeitos sobrenaturais genuínos ou se tudo está na sua cabeça (um tema que seria de novo explorado em "Martin").  Mas o filme é profundamente intrigante, e ajudou a cimentar a tendência de Romero a misturar a ideologia com o horror, o que dá aos seus filmes uma enorme profundidade. 
O baixo orçamento do filme prejudica muito o resultado final, mas é interessante para os mais curiosos adeptos de Romero.

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terça-feira, 15 de agosto de 2017

There's Always Vanilla (There's Always Vanilla) 1971

Chris Bradley é um jovem que regressa à sua cidade natal de Pittsburgh depois de vários anos a viajar e trabalhar em empregos temporários depois de sair do Exército dos EUA. Rejeitando voltar a morar com o pai e não querendo voltar para o negócio da família da fabricação de comida para bébés, Chris conhece e envolve-se com Lynn, uma mulher mais velha que trabalha como modelo em comerciais na TV Local, e que o suporta financeira e emocionalmente, o que acaba por prejudicar a relação dos dois, principalmente quando ela descobre que está grávida e sente que Chris não seria um pai ou marido muito respeitável.
Depois do sucesso monumental de "Night of the Living Dead", seria de esperar que Romero voltasse ao cinema de terror, mas neste caso o terror foi involuntário, de tão mau que era o seu segundo filme. Não querendo ficar para sempre rotulado ao cinema de horror, Romero tentou a sua sorte a dirigir uma comédia romântica, o que acabou por se tornar um gigante erro. O problema deste filme é que parecia estar incompleto. Era como se Romero não tivesse fundos suficientes para terminar o argumento, e fosse obrigado a gravar rápidas sequências de narração para depois colá-las na montagem. 
Dizem que Romero não queria ter nada a ver com este filme depois de completo, e recusou-se a falar sobre ele até ao fim dos seus dias, e percebe-se porquê. Era considerado o "filme Perdido" de Romero, e esteve inacessível durante muitos anos. Rezam as crónicas que Romero embarcou neste projecto depois do seu amigo Rudolph Ricci ter abandonado o filme a meio. Ricci tinha ajudado Romero na criação do universo de "Night of the Living Dead", tendo ficado com um pequeno papel de zombie, e mais tarde faria o papel de líder dos motociclistas em "Dawn of the Dead", grupo do qual também fazia parte Tom Savini. 
Filme bastante raro. Não tem legendas.

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead) 1968

Uma alucinante estreia para o realizador e argumentista George A. Romero, aquele que seria para sempre conhecido como o pai de todos os filmes de zombies, "Night of the Living Dead" teve muita coisa contra ele na altura da sua estreia. Foi uma produção com um orçamento muito baixo (aproximadamente apenas $100,000) apresentando um conceito simplista, muito sangue e gore numa altura em que essas coisas não eram mostradas na tela, e a utilização de um elenco não profissional, que variava do mau ao muito mau. No entanto, Duane Jones, o improvável afro-americano protagonista do filme, consegue uma interpretação muito aceitável, tornando-se o catalisador de todos os eventos principais do filme.
Um alto conceito de enredo, como era o caso, envolvia o regresso à vida dos recém mortos, com apenas uma coisa em mente: a destruição e o consumo dos ainda vivos. A história começa na Pensilvânia rural, com o irmão Johnny (Streiner) e a irmã Barbara (O'Dea) a fazerem a visita anual ao túmulo dos pais, para serem atacados por um estranho homem que derruba Johnny e começa a perseguir Barbara. Durante a fuga Barbara consegue refugiar-se numa pequena quinta que parece desabitada, para descobrir que esta já está ocupada por um grupo de pessoas que se esconde pelas mesmas razões do que ela. A tensão é alta, à medida que estes homens e mulheres começam a disputar o caminho certo para a sobrevivência e a possível fuga, e o número de mortos-vivos começa a multiplicar-se assustadoramente lá fora. 
A maior parte do filme joga, tal como "The Birds" de Alfred Hitchcock realizado 5 anos antes, com entre grupo de mortos vivos a tentar entrar em portas e janelas, para matar e mutilar qualquer coisa que se mexa, sem razão aparente. Muitas análises políticas foram feitas, por causa da raça do protagonista Jones, já que era uma raridade para um afro-americano ser o herói de um filme com um elenco predominantemente branco, mas Romero simplesmente afirmou que o actor era a melhor pessoa disponível para o papel, nada mais. "Night of the Living Dead" causou um grande nervosismo nas audiências do final da década de sessenta, pela afirmação de que por vezes nada pode ser feito contra o mal, e isto numa altura em que líderes mundiais estavam a ser assassinados, e estava a acontecer a guerra do Vietname, deixavam a praça pública ainda mais abalada.
Segundo os padrões de hoje, o gore do filme está muito suavizado, mas para aquela época nunca tinha sido visto algo assim, como órgãos do corpo humano a serem consumidos canibalisticamente. Como Hitch tinha feito com "Psycho", a filmagem do sangue e das vísceras eram a preto e branco, por isso não era tão intensamente gráfico como poderia ser. Mas acabou por empurrar os limites para valores nunca antes vistos, gerando uma enorme controvérsia. 
Muitos consideram "Night of the Living Dead" como o melhor filme de terror de todos os tempos. Embora possa estar longe disso, não há como negar a sua influência sobre um género que foi evoluindo ano após ano. Mesmo visto através de um olhar moderno mantém-se relativamente bem, embora a sua reputação e história o tornem num filme muito melhor em termos de qualidade geral, do que visto através de uma perspectiva crítica.  

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George A. Romero - Para Sempre, Vivo

George A. Romero é o realizador que, nas palavras de Stephen King, tirou o terror para "fora da Transylvania". Antes de "Night of the Living Dead" (1968), o género estava preso num mundo de velhos condes, falsos morcegos, e portas rangendo. Os monstros de Romero não eram mutantes do espaço, ou aristocratas sugadores de sangue, mas sim pessoas normais, "vizinhos que tiveram pouca sorte", nas palavras do próprio realizador. A sua combinação tóxica de efeitos de gore, técnicas de documentário, e subtexto zeitgeist levaram o cinema de terror para novos extremos de realismo, e relevância contemporânea. 
Feito em 1968, o ano do Black Power e dos protestos estudantis, "Night of the Living Dead" era a imagem mais literal possível da américa, a devorar-se a si própria, de acordo com uma review contemporânea.
"Snapshots of the Time", era como Romero gostava de descrever a sua série subsequente de filmes políticos e cerebrais, também chamados de "splatter movies". "Dawn of the Dead" (1978), era uma sátira lacerante ao consumismo, e talvez o ponto mais alto da série. "Day of the Dead" (1985), levou as obsessões de Regan sobre a ciência, e atirou-as para uma história claustrofóbica envolvendo cientistas loucos e experiências sádicas. A guerra do terror de George W. Bush era o foco satírico em "Land of the Dead" (2005), escrito antes dos eventos do 11 de Setembro de 2001, novos diálogos foram adicionados ("we don´t negociate with terrorists"), para lhe dar uma maior importância.
Longe dos devoradores de carne, o trabalho de Romero era uma mistura de falhas e obras primas menores. O seu segundo trabalho, "There´s Always Vanilla" (1971), era uma má experiência no território da comédia romântica, tanto que o filme é quase desconhecido. Já "Hungry Wives" (1973), era uma tentativa de explorar o campo da bruxaria. Com "The Crazies" (1973), Romero estava de volta a terra firme, com um filme sobre um vírus que se está a espalhar pela américa. "Martin" (1977), considerado uma obra menor, mas é o seu melhor filme fora da sua série de zombies...
Romero faleceu no passado dia 16 de Julho, com 77 anos. Nas próximas três semanas vamos fazer aqui uma revisão completa da sua carreira. Recordaremos os seus filmes mais conhecidos, e também daremos espaço aos outros, num ciclo que será integral. Espero que gostem.


domingo, 13 de agosto de 2017

Livros Cyberpunk

Para terminar este ciclo Cyberpunk, que teve lugar por aqui nas últimas semanas, temos uma selecção de nove livros desta categoria. Selecção esta retirada do site Le Livros.
Não tentando ser um best of, nem nada que se pareça, inclui alguns dos títulos mais importantes, quase todos traduzidos para português, do Brasil.
Espero que tenha sido do vosso agrado, amanhã teremos novo ciclo que irá durar até ao final do mês.

Livros

Nirvana (Nirvana) 2008

Aborrecida e desiludida com a vida em Moscovo a enfermeira Alisa (Olga Sutulova) muda-se para São Petesburgo onde vai morar num apartamento com duas pessoas bem peculiares, Valera, que tem o apelido de “dead man” (Artur Smolyaninov) e Vel (Marya Shalaeva), também conhecida como “mermaid”. A coisa fica feia quando Alisa começa a ter um caso com “dead man”, namorado de “mermaid”. Mas outros acontecimentos fazem com que as duas acabem grandes amigas, apesar do conflito inicial, principalmente depois de experiências de vida e de morte.
A vida é difícil e confusa, e temos de ser duros se a queremos viver. Esta atitude em relação à vida em "Nirvana" não serve como quadro sociológico, mas como um desafio estético a ser cumprido. "Nirvana" é um drama de amor e dependência de drogas, um thriller de gangsters e um "buddy movie", tudo num só filme. Essencialmente é  uma história convencional sobre a dependência das drogas e o poder redentor da amizade feminina, este filme russo atraí a atenção pelo seu guarda-roupa e maquilhagem, da responsabilidade de Nadezhda Vasiliyeva e Anna Essmont respectivamente. O equivalente a dois milhões de dólares foram gastos não só neste território, mas também na construção dos cenários e decoração.
Filme de estreia de Igor Voloshin,vai buscar muita influência aos filmes cyberpunk dos anos noventa, mais pelo estilo do que propriamente pela temática. Sobre o filme Voloshin escreveu: "Os nossos personagens parecem genuinamente extravagantes. É o resultado do vazio espiritual".
Legendas em inglês.

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sábado, 12 de agosto de 2017

Appleseed (Appurushîdo) 2004

Em 2131, com grande parte da terra destruida e umas poucas cidades remanecentes, onde a humanidade vive junto com uma raça de humanos artificiais chamados "Bioroids" ("Biologic Androids", Androides biológicos), e também com muitas pessoas que devido à guerra, perderam partes do seus corpo que foram resconstituidos, e que com a ajuda da técnologia são agora cyborgs. Deunan Knute foi um soldado nos campos de batalha durante toda a sua vida. Quando a guerra mundial termina, ela é transportada para a cidade de Olympus para viver pacificamente, e descobre, num esforço para proteger a raça humana de futuras guerras, que os humanos criam novas armas.
Uma história complicada com ecos de "Blade Runner", de Ridley Scott, coloca o homem contra a máquina.  "Appleseed", na sua edição de Mangá, foi criado no final da década de oitenta por Masamune Shirow, que também criou "Ghost in the Shell", e foi um estrondoso sucesso no universo destas publicações. Foram precisos mais de dez anos para que alguém resolvesse pegar na história e passá-la para o cinema, e isso viria a acontecer finalmente por Shinji Aramaki, um nome que já era conhecido no campo da animação, mas que se lançava aqui no campo das longas metragens.
O filme utiliza uma tecnologia 3D muito semelhante a Cel Shading (conjunto de técnicas que levam o 3D a parecer 2D, muito usado em jogos de vídeo), e tudo isto impressiona só por observar a sua qualidade gráfica. No entanto, toda esta qualidade visual acaba por interferir no resultado final do argumento, um bocado confuso, distraindo para o objectivo de Aramaki. Ainda assim é um filme a descobrir. 

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Wonderful Days (Wonderful Days) 2003

Num futuro não muito distante, no qual o nosso planeta fora devastado e está coberto pela penumbra das nuvens negras (causadas pela poluição inimaginável do ar), a única cidade que sobreviveu fora Ecoban, e é esta cidade que mantém o planeta com índices de poluição altamente elevados, porque é da poluição que ela se mantém. Uma cidade altamente egocêntrica, que não mede esforços para separar os “puros” dos “impuros” (estes últimos, conhecidos como “Marrians”), e que tem no seu governante um homem imperialista, pouco escrupuloso, intolerante para com a vida humana. Ecoban é gerenciada por completo pelo avançado sistema Delos: é lá que se encontra tudo, absolutamente tudo, sobre a cidade imperialista. Ao redor da cidade de Ecoban existe uma comunidade conhecida como “Marr”. Os habitantes de Marr, conhecidos como Marrians, são utilizados como escravos por Ecoban, e têm como motivação, um dia, conseguirem libertar-se das mãos de Ecoban e, assim, acabar com a poluição no planeta, e têm em Shua a sua maior esperança de liberdade. 
Maravilhosamente distópico este filme sul coerano, rivaliza, por vezes, com o melhor do animé japonês. Realizado por Moon-saeng Kim, as suas paisagens urbanas vertiginosas e os terrestres mortais que a habitam são tratados com a maior atenção ao detalhe. Parte Blade Runner-esque, parte pós-apocalítico, parte história de amor, o filme funciona muito melhor nos seus silêncios. 
Sendo um filme de grande orçamento, o filme mais caro de sempre da animação da Coreia do Sul, era uma tentativa clara de rivalizar a animação do Japão, usando como plano de destaque os visuais impressionantes e uma mistura de 2D com 3D, com uma aparência muito elegante. 
Dois anos depois seria adaptado para o cinema ocidental, numa versão que recebeu o nome de "Sky Blue", mas esta versão aqui presente é a original. 

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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Avalon (Avalon) 2001

Numa sociedade futurista, a dura realidade da população é quebrada pela febre de um jogo de guerra ilegal e perigoso conhecido por Avalon que tanto pode transformar os melhores jogadores em ídolos como pode causar-lhes graves danos cerebrais. Dentro deste universo virtual disputado em rede, destaca-se a solitária Ash, que tenta avançar de nível e ao encontrar um jogador da sua antiga equipa descobre que o seu amigo Murphy permanece preso dentro do jogo, depois de perseguir uma menina fantasma que parece ser a chave para alcançar um nível secreto no mesmo. 
Quando a uma personagem do filme "Avalon" é perguntado se ele é real ou não, a sua resposta é: "isso importa?" Com os videojogos a tornarem-se cada vez mais realistas, os jogadores são capazes de interagir durante horas num mundo virtual, onde é cada vez mais difícil dizer qual é a diferença entre a realidade e realidade virtual. Quando tantas pessoas partilham uma experiência, seja real ou imaginada, ainda é, no entanto, uma experiência compartilhada. Se todos passarem a maior parte das suas vidas interagindo uns com os outros num mundo virtual, não seria o que acontece nesse mundo a primeira realidade?
"Avalon", do reconhecido realizador de anime Mamoru Oshii ("Ghost in the Shell", "Patlabor") é a sua primeira aventura no mundo da "live action", e marca a diferença ao trazer uma visão "do outro mundo", de uma forma que seria impossível de mostrar nas mãos de qualquer outro realizador. Por todas as teorias de alto conceito sobre o que é real e o que é simulação, "Avalon" faz mais pontos como uma experiência visual única do que uma história ricamente detalhada. A marca de Oshii é inerentemente visual, utilizando símbolos, ícones e atmosfera para permitir que o espectador junte tudo o que está a acontecer. 
"Avalon" provavelmente será mais apreciado pelos fãs da cultura "geek", porque tem muita tecnologia, elementos de "role playing" game, teorias abstractas e animé. Também deve despertar o interesse dos fanáticos da ficção científica, particularmente aqueles que gostam de filmes que fazem uma abordagem mais filosófica da acção do tipo realidade virtual, tipo "Tron" ou "The Matrix". 

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

eXistenZ (eXistenZ) 1999

Jennifer Jason Leigh é Allegra Geller, uma das mais famosas designers de jogos electrónicos do mundo, e está a testar a sua mais recente obra, Existenz, num grupo de utilizadores. A meio da sessão um fan fanático irrompe na sala para a matar, utilizando uma arma orgânica bizarra. O episódio faz parte do próprio jogo o o filme faz-se disso mesmo. De uma época em que os personagens dos jogos electrónicos são humanos que se conectam a terminais orgânicos, feitos de tecidos animais, e são transportados para outra dimensão.
David Cronenberg de volta ao seu estilo tradicional. Embora todos os seus filmes mais recentes - "Naked Lunch", "Dead Ringers", "M. Butterfly", "The Fly", "The Dead Zone" - contivessem um pouco dessa linguagem exclusivamente cronenbergiana, na qual o mundo emocional é trazido à vida em termos de lógica e detalhe visceral, "eXistenZ" é o primeiro filme desde "Videodrome" (1983) que é inteiramente escrito por si, sem recorrer a uma adaptação de um trabalho já existente anteriormente. Tal como "Videodrome", "eXistenZ" coloca o corpo humano como receptáculo e gerador de um mundo sombrio de fantasia e realidade alternativa. Tudo isto não são meras metáforas para Cronenberg. Sexo e horror, prazer e morte, estão intimamente ligados no mundo do realizador. 
Nas mãos de qualquer outra pessoa o filme não seria tão bem sucedido, e mesmo Cronenberg falha a explicar os seus motivos, preferindo dedicar-se a exercicíos surrealistas de lógica sonadora. Mas o seu estilo de horror minimalista evita os efeitos gerados por computador. Isto permite que ignoremos as galhas do filme, enquanto Geller e Pikul mergulham mais profundamente no jogo, ficando sem saber qual das realidades é a sua.

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Cidade Misteriosa (Dark City) 1998

Quando John Murdoch (Rufus Sewell) acorda num estranho quarto de hotel, ele descobre que é procurado por uma série de crimes brutais. O problema é que ele não se lembra de nada. Procurado pela polícia e caçado pelos Estranhos, misteriosos seres que têm a habilidade de parar o tempo e alterar a realidade, ele procura desvendar o enigma da sua identidade. Mas numa cidade onde a realidade é definitivamente uma ilusão, descobrir a verdade poderá ser fatal.
Como seres humanos, as memórias são uma das mais queridas posses. Então, que aconteceria se não pudéssemos confiar nelas como nossas? Não são as nossas memórias que mostram que somos reais? A memória não é a nossa identidade? O que aconteceria se o passado que armazenamos na nossa mente não fosse realmente nosso? Estas são as questões básicas subjacentes a este thriller de Alex Proyas. Parte film noir, parte ficção científica, parte fantasia, e parte cenário de sonhos psicóticos, "Dark City" assume a essência de um pesadelo visceral, onde as imagens inundam e se despejam umas nas outras, num mundo cheio de escuridão.
O filme ocorre numa cidade onde não há luz do dia, e ninguém é o que pensa que é. É o terreno perfeito para Proyas, um realizador nascido na Austrália, especialista em videoclipes, e que tinha impressionado o mundo quatro anos antes com a versão cinematográfica da BD "The Crow". Proyas tinha uma habilidade especial para transformar as vistas mais fantásticas da imaginação na realidade cinematográfica, que é exactamente o que ele faz aqui. "Dark City" assemelha-se a filmes de anime japoneses como "Akira", tanto em estilo como substância. E rapidamente se transformou num dos filmes de culto dos anos noventa.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

New Rose Hotel (New Rose Hotel) 1998

Num futuro próximo, um brilhante engenheiro de genética japonês, Hiroshi, é o prémio que disputam 2 mega empresas, uma japonesa e outra alemã. Os revolucionários descobrimentos do cientista têm o poder de transformar o mundo e gerar biliões de benefícios. Hosaka contrata uma equipa de espiões formado por X e Fox, para ganhar a confiança de Hiroshi em prejuízo de Maas. A estratégia destes mercenários consistirá em atrair Hiroshi utilizando os encantos de uma jovem e bela prostituta.
Uma adaptação sombria por Abel Ferrara de uma história curta de William Gibson, o autor de "Neuromancer" e "Johnny Mnemonic", onde o mundo do cyberpunk é acompanhado pela obsessão do realizador por homens de meia idade perdidos em busca da redenção através da cura sexual. "New Rose Hotel" é passado num mundo vagamente futurista cheio de escuridão, neon, espelhos e vidros. Os nossos heróis vão passando por vários bares e quartos de hotel que podem ser localizados em qualquer lugar, desde Nova Iorque a Tóquio. Mas o filme funciona, sobretudo, graças ao desempenho dos seus dois protagonistas: Christopher Walken e Willem Dafoe. Ferrara deixa estes dois gigantes improvisarem em grande parte do diálogo em conjunto, combinando perfeitamente. Asia Argento contracena com eles.
Tal como grande parte dos filmes de Ferrara, teve lançamento limitado, mas foi exibido no festival de Veneza de 1998, onde ganhou dois prémios, e concorreu para o Leão de Ouro.

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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Gattaca (Gattaca) 1997

Num futuro no qual os seres humanos são criados geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas "inválidas". Vincent Freeman (Ethan Hawke), um "inválido", consegue um lugar de destaque numa corporação, escondendo a sua verdadeira origem. Mas um misterioso caso de assassinato pode expôr seu passado.
Em "Gattaca" os ideais da alma de um homem foram deslocados pela ciência das células. Não interessa o que o homem quer ser, só pode ser aquilo que os cientistas decidirem que ela seja. De certa forma este filme pode ser visto como uma alegoria para os problemas actuais da descriminação racial e ética. No início do filme, Vincent diz-nos em narração off que a côr da pele não interessa mais, que a pele genética se tornou na última forma de descriminação. Como ele próprio diz, a sociedade tornou-se numa ciência, e essa é a idéia mais assustadora de todas.
Escrito e realizado pelo estreante Andrew Niccol, que no ano seguinte escreveria o argumento para "The Truman Show", "Gattaca" tem bastante suspense e ritmo para se safar como "thriller", mas, sobretudo, mais do que suficientes questões filosóficas e morais para o tornarem num filme intelectualmente estimulante. Tem uma componente visual única e memorável que desmente o seu limitado orçamento. Tem dois mestres europeus, o designer de produção Jan Roelfs (habitual colaborador de Peter Greenway), e o director de fotografia Slavomir Idziak (um colaborador frequente de Krzysztof Kieslowski), que juntos criam um retrato convincente de um futuro reconhecível, com uma quantidade limitada de efeitos especiais, e um uso criativo de edifícios já existentes. Em vez de rebocar a tela com a magia digital, o filme depende de uma mistura de arquitectura futurista gótica, filmada com filtros amarelos e azuis, para dar uma tonalidade do outro mundo. 

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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Estranhos Prazeres (Strange Days) 1995

"Um filme que dá novo significado à palavra "impacto", este "thriller" emocionante e violento de Kathryn Bigelow - interessante ainda que por vezes exagerado - passa-se em Los Angeles na noite de Ano Novo de 1999, e tem uma intriga que envolve cassetes de entretenimento que mostram pessoas a serem assassinadas, com várias alusões ao filme de Michael Powell, "A Vítima do Medo" (1960), violência racial e corrupção policial. Por vezes dá ideia de que estes temas foram introduzidos no argumento de James Cameron e Jay Cock mais como questões actuais, e menos como assuntos sobre os quais os cineastas têm muito a dizer, mas não há dúvida de que dão à obra parte do seu impacto. 
Ralph Fiennes faz o papel de Lenny Nero, um ex-polícia caído em desgraça, que entretanto vende cassetes de realidade virtual no mercado negro. É impossível entediar-se com este filme, e o carisma de Angela Bassett como heroína de filmes de acção é patente. Para além do relacionamento interracial refrescante entre Fiennes e Bassett, "Estranhos Prazeres" oferece-nos panorâmicas e sons de uma Los Angeles distópica, padecendo de uma acentuada agitação pré-milénio." 
Texto de JRos

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domingo, 30 de julho de 2017

12 Macacos (12 Monkeys) 1995

No ano de 2035, James Cole (Bruce Willis) aceita a missão de voltar ao passado para tentar decifrar um mistério envolvendo um vírus mortal que levou à morte da maior parte da humanidade. Tomado como louco, no passado, ele tenta provar a sua sanidade a uma médica (Madeleine Stowe), a sua única esperança de mudar o futuro.
Inspirado pela curta metragem que vimos no início deste ciclo, "La Jetée", de Chris Marker, o realizador Terry Gilliam continua a sua examinação do real vs surreal neste já clássico da ficção científica. Num estilo que já era muito próprio de Gilliam, o filme salta pelo tempo à sua vontade, criando com sucesso os seus vários mundos (cada qual com os seus próprios graus de sombras). 
Um dos maiores sucessos comerciais de Terry Gilliam, "Twelve Monkeys" contém a mesma fórmula de realismo mágico, paranoia, e visuais espectaculares que animaram todo o seu trabalho, embora de um forma mais discreta. Há aqui muitos paralelos com o seu filme anterior "Brazil", de 1985, por vezes dando a impressão que é um clone, cirurgicamente alterado para o mainstream. Para além da incerteza do que é real, há a confusão de um inocente com um criminoso, o amigo traiçoeiro, e aquele favorito obscurecimento contra-racional de Gilliam, o destino romântico revelado pelos sonhos.
Foi um dos filmes que revelou Brad Pitt, garantindo-lhe uma nomeação para o Óscar de Melhor Actor Secundário, no ano em que ele também entrou em "Sete Pecados Mortais", de David Fincher.

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sábado, 29 de julho de 2017

Ghost in the Shell: Cidade Assombrada (Kôkaku Kidôtai) 1995

Passado no ano de 2029, onde a existência humana está interligada com a tecnologia e o mundo se tornou numa grande rede, o hacking é o crime do momento. Section 9 é a agência designada para reprimir os hackers, que está ocupada a lutar contra o super-hacker do mundo, The Puppet Master. Para combater a tecnologia, usam a tecnologia, com uma força policial composta por cyborgs e humanos aumentados por partes cibernéticas para ajudá-los nas suas habilidades de investigação e combate contra criminosos que estão a usar a mesma tecnologia para com os seus dispositivos.
O nosso protagonista na Section 9 é um cyborg chamado The Major, Motoko Kusanagi, que descobre que o famoso Puppet Master é assim chamado por causa da sua habilidade em controlar as pessoas com a tecnologia implantada dentro delas, bem como a capacidade de implantar e mudar as suas memórias. A única coisa que separa a humanidade destas réplicas são os "ghosts", ou seja, a consciência ou alma que reside na humanidade.
"Ghost in the Shell" respira a nostalgia de experiências complexas de ficção cientifica, como "The Matrix". Se estiver a ser visionado pela primeira vez, é natural que o espectador não esteja em sintonia com tudo o que o filme tem para oferecer. Tal como nos outros filmes do cyberpunk, a acção é passada num futuro próximo, onde a Terra é dominada pela tecnologia, os computadores comandam tudo o que nos pode levar a algum lugar, e os cyborgs andam misturados com os humanos. Este é o ambiente para um filme de Cyberpunk perfeito, e "Ghost in the Shell" é, sem dúvida, um dos melhores. A complexidade deste filme de anime é enorme. Nada é o que parece. Quando pensamos que temos descoberto o Puppet Master, logo percebemos o quanto estamos enganados.Quanto mais mergulhamos na história, mais assustadoras as coisas se tornam. 
Realizado por Mamoru Oshii, tal como "Akira", teve grande influência sobre os filme de anime posteriores, e também sobre muitos filmes de origem cyberpunk, como "The Matrix" (1999).

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Até ao Fim do Mundo (Bis ans Ende der Welt) 1991

Num futuro próximo, em 1999, assaltantes de bancos fazem amizade com Claire (Dommartin) e pedem a sua ajuda para levantar uma quantia em dinheiro em Paris. No caminho ela cruza com Sam Farber (William Hurt), um fugitivo da CIA. Sam alega que as acusações contra ele são falsas e os policias querem apoderar-se de um aparelho que o seu pai inventou na tentativa de encontrar a cura para a cegueira da sua mulher.
 Com a máquina em questão, é possível captar as imagens do cérebro e gravar sonhos e visão para reproduzir as imagens em outros cérebros. Agora a fugir dos ladrões e da CIA, o casal passa por vários países e chega à Austrália, onde está o pai de Sam, com a esperança de recuperar as gravações que fez para sua mãe cega. A criação e a operação de tal máquina contrastam com a deterioração da situação do mundo, quando a existência da humanidade é ameaçada por um satélite nuclear que cai na direção a Terra. Uma odisseia para a era moderna que, assim como a Odisseia de Homero, procura restaurar a luz, numa reconciliação espiritual entre um pai obcecado e o seu filho abandonado. 
Wim Wenders cria uma épica meditação visual ressonantemente lírica sobre a ligação, comunicação, sobre as imagens e o significado da visão humana em "Until the End of the World". Desdobrado em três partes, interligadas por uma trilogia narrativa abrangente, o filme reflete a intertextualidade das imagens no processo criativo, desde a invocação de observações e experiências pessoais de Eugene, até aos rascunhos das suas novelas de ficção ao próprio subconsciente do realizador. É um orgulho deste filme ter sido filmado em quase todos os continentes, apenas África, América do Sul e a Antártica ficaram de fora, embora Wim Wenders bem tivesse tentado. A perseguição ao longo de todo o mundo tem um clima alegre e cativante, mantendo os seus segredos ao longo do caminho. 
Wenders foi obrigado a lançar uma primeira versão, bastante incompleta, com um pouco mais de duas horas e meia, que foi bastante mal recebida. Mas o realizador continuou a editar o filme, até que chegou a uma versão com mais de cinco horas, lançada em 2010, essa sim uma obra prima, sendo essa a que podem encontrar nos links em baixo. Lisboa foi uma das várias cidades por onde passam os nossos heróis.

Parte 1
Parte 2
Parte 3
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terça-feira, 25 de julho de 2017

Tetsuo - O Homem de Aço (Tetsuo) 1989

Tetsuo mostra a intersecção do homem e uma tecnologia pós-industrial acompanhada por um espectáculo por parte da banda-sonora e efeitos especiais. Realizado a preto e branco, o que ainda mais acentua o lado obscuro e alucinatório de toda a narrativa, a história começa com um punk a ser atropelado por um motorista que se põe em fuga. Gravemente ferido, o jovem punk reconstrói o seu corpo mutilado com pedaços de metal, tornando-se um bizarro robopunk. A partir daí o contágio metálico só tende a aumentar...
Shinya Tsukamoto era ainda um novato com 29 anos de idade, quando teve a ideia para a sua terceira obra, uma história de terror surreal onde um homem percebe que se está a transformar numa máquina. Com um orçamento muito reduzido, Tsukamoto fez praticamente tudo no filme, desde a produção, argumento, montagem, incluindo algumas sequências em stop motion, para a criação do homem de ferro. O resultado seria um clássico de culto do movimento cyberpunk, que nos levava numa viagem pelo mundo da fantasia, bem como ao lado mais sujo da sociedade japonesa. 
Tal como o seu irmão de sangue David Lynch, Tsukamoto manteve o seu rumo artístico, e recusou-se a fazer filmes mais convencionais, ou comercialmente viáveis. Quando Lynch tentou o mercado mais mainstream com obras como "The Elephant Man" ou "Dune", os resultados ainda foram diferentes de todos os outros, e o mesmo aconteceu com Tsukamoto, em filmes como "Hiruko, the Goblin" ou "Sôseiji". "Tetsuo" não era o primeiro filme do realizador, mas os dois primeiros, uma curta de 1986, "Futsu saizu no kaijin" (A Phantom of Regular Size) e uma média metragem de 1987 "Denchu Kozo no boken" (The Adventures Of Electric Rod Boy) foram filmados com uma câmara de  8 milímetros, e foram vistos por uma audiência muito reduzida". "Tetsuo" foi o primeiro filme a ser pensado para um público cinematográfico, e foi o que colocou o realizador no mapa do cinema de culto. 
 Legendas em inglês, embora o filme tenha muito poucos diálogos.

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domingo, 23 de julho de 2017

Akira (Akira) 1988

"A obra-prima animada de Katsuhiro Ôtomo é o pináculo da ficção científica apocalíptica japonesa. O argumento é enganadoramente simples: no futuro caótico de neo-Tóquio (assim chamado por substituir o Tóquio original, destruído por um cataclismo misterioso no fim do século XX), Kaneda, um membro adolescente de um gang de motards, descobre que o seu antigo melhor amigo Tetsuo se transformou num telepata homicida com a vontade e poder de matar centenas de pessoas. Relutantemente Kaneda junta-se a um grupo de terroristas anti-governamentais à procura do misterioso Akira, um telepata ainda mais poderoso que Tetsuo.
O génio de Ôtomo consiste em relacionar o apocalipse com a raiva dos adolescentes desiludidos. No fim de contas, para um adolescente, cada emoção é apocalíptica. Portanto imagine-se que um adolescente tem poderes extra-sensoriais que aumentam exponencialmente as suas emoções, e imagine-se que esse adolescente era um dos mais revoltados e zangados de todos. Pense-se nisso e depois nas maiores cenas de devastação imagináveis, e eis "Akira". A energia de "Akira" como filme de acção é mais poderosa que a adrenalina de uma corrida a 250 km por hora. A obra fornece uma oportunidade para uma exploração séria das ideias e metáforas que assolam a psique japonesa, nomeadamente o colapso social, o mau-estar geral, e a perpétua ambivalência em relação ao poder militar. Não é uma coincidência que as principais forças da oposição na história sejam motards adolescentes, marginais aspirantes a revolucionários, e as forças armadas.
Acima de tudo, a história de Akira é alimentada pelo medo da sociedade em relação à sua juventude - selvagem, incontrolável, caótica. Tetsuo é um adolescente chateado até ao limite, mas com suficiente poder para provocar dúzias de mortes, e há uma razão para tanto o governo como os militares temerem o enigmático Akira, para sempre preso numa perpétua meninice. Estamos perante uma adolescência que causa destruição numa escala épica - trazendo de volta memórias das bombas lançadas sobre o Japão na II Guerra Mundial e os persistentes medos colectivos de aniquilação. A fascinação da cultura pop japonesa com o Apocalipse vai além da mera admiração, tornando-se frequentemente uma exaltação, o que não será muito saudável, mas dá azo, sem dúvida alguma, a excelentes histórias." 
* Texto de Adisakdi Tantimehd, "1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer".

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sábado, 22 de julho de 2017

Jogos de Guerra (Wargames) 1983

Um jovem especialista em computadores liga-se acidentalmente a um super-computador secreto que tem o controlo de todo o arsenal nuclear dos Estados Unidos. Desafia-o para um jogo entre a América e a Rússia, e inocentemente começa a contagem decrescente para a Terceira Guerra Mundial. Será que ele consegue convencer o computador que apenas queria fazer um jogo e não começar uma guerra verdadeira?
Embora "Jogos de Guerra" seja considerado principalmente uma aventura de ficção cientifica juvenil, na altura do seu lançamento foi levado muito a sério, graças ao medo predominante da guerra nuclear, adicionado ao facto de na altura a maioria das pessoas não saberem como os modems e os computadores funcionavam. A ponderação de algumas questões muito reais levou o filme a ser nomeado para três Óscares, incluindo o de melhor argumento, para Lawrence Lasker e Walter F. Parks, que alguns anos mais tarde revisitariam o tema "hacker", no filme "Sneakers" de Phil Alden Robinson. 
Alguns aspectos estão reconhecidamente datados, mas "Wargames" nos dias correntes ainda consegue ser um thriller fascinante e inteligente, com interpretações fantásticas de um elenco muito capacitado. Matthew Broderick faz um herói relutante perfeito, parecendo igual a qualquer um dos nossos vizinhos, o que favorece a opinião de que esta calamidade poderia acontecer um qualquer altura e qualquer canto do mundo. 
Para apreciar "WarGames" adequadamente têm de ser ignorados alguns buracos no argumento, saltos de lógica e algumas imprecisões. John Badham, um dos realizadores mais prolíficos dos anos oitenta, está atrás das câmaras.

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Experiência Alucinante (Videodrome) 1983

"Um filme que inaugura novos terrenos no movimento independente / comercial de Hollywood, nos anos 80.  A história de Cronenberg sobre as transformações horríveis criadas pela exposição à violência televisiva tematiza de modo inteligente os próprios problemas do realizador com os censores, distribuidores e grupos feministas, devido à sua exploração de imagens sexuais violentas nas suas obras anteriores. Max Renn (James Woods) é um operador de canal cabo, cuja cínica comercialização de sexo e violência se volta contra ele, quando o seu abdómen subitamente desenvolve uma abertura em forma de vagina na qual, entre outros objectos, podem ser inseridas cassetes audio. O filme, no qual fantasias sadomasoquistas e a mudança de sexo têm funções-chave, termina tragicamente com a auto-destruição de Max.
Em vários aspectos a encarnação formal mais ambiciosa dos temas característicos de Cronenberg, "Videodrome" começa como um thriller comercial bastante convencional, apenas para se transformar a meio numa fantasia subjectiva do tipo mais escandaloso e inusitado. Visualmente rico, "Videodrome" é também provocador a nível intelectual pela sua inquietante meditação sobre a perversidade polimórfica e interpenetração entre os domínios públicos e subjectivos da experiência. Cronenberg foi elogiado e condenado pelo seu tratamento flúido dos géneros sexuais (um sequência no final do filme em que duas mulheres adquirem pénis numa espécie de reposta à "vaginação" de Max foi cortada por ser muito pertubadora para o público comum). Mas mesmo na sua forma "censurada", "Videodrome" permanece como um dos mais estranos filmes de Hollywood, demasiado chocante e idissioncrático para ser apenas um falhanço comercial. "  * Texto de R. Barton Palmer

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Kamikaze ’89 (Kamikaze 1989) 1982

Num futuro próximo onde "a combinação" controla a televisão e as notícias, uma ameaça de bomba traz o super polícia Jansen para a sede desta coligação. Nada acontece, mas o seu chefe dá-lhe quatro dias para resolver esta questão. Coisas estranhas começam a acontecer: no primeiro dia há um assassinato na "combinação", vagas referências aos inimigos desta associação, e o sobrinho do chefe confessa ter feito a ameaça de bomba, embora não tenha feito. Jansen continua focado, entrevistando funcionários que receberam prémios especiais. Ele estará atrás de algo grande, ou a ameaça de bomba foi apenas uma brincadeira? O que é que estará escondido no 31º piso da sede desta estranha associação?
"Kamikaze ’89" trás-nos uma visão distópica de 1989, filmada em 1982, envolvendo fatos em pele de leopardo, assassínios, conspirações corporativas, estrelas porno, e uma fantástica banda sonora electrónica dos Tangerine Dream. O filme é dirigido por Wolf Gremm, um relizador alemão mais conhecido pelo seu trabalho na televisão, mas, teve muito mediatismo por ter sido a última aparição no cinema de Rainer Werner Fassbinder, que morreu apenas um mês antes da estreia nos cinemas. É também uma lembrança de como o futuro parecia ser no inicio dos anos oitenta, muito antes de sabermos como seria. 
"Kamikaze ’89" incorpora muitos dos truques visuais do proto-cyber-punk dos anos 80, mas de uma forma geral era um filme muito estranho e maravilhoso, e os fãs de Fassbinder estarão cientes de que ele dirigiu um filme de mistério futurista para a TV alemã, "World on a Wire" (1973) também ele passado num elegante edifício institucional. Embora não tenha dirigido este filme a sua presença domina com o estilo da sua aura. Trouxe consigo alguns dos actores que o costumavam acompanhar (Günther Kaufmann, Brigitte Mira, e também o próprio realizador, Wolf Gremm que vinha de "Querelle"), além do seu fotógrafo, Xaver Schwarzenberger e Juliane Lorenz, fazendo deste trabalho praticamente um filme seu. Franco Nero, que já havia trabalhado com ele em "Querelle", aparece aqui de novo.
Legendas em Inglês

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terça-feira, 18 de julho de 2017

Fahrenheit 451 - Grau de Destruição (Fahrenheit 451) 1966

Num futuro próximo os livros foram proibidos. Com cada casa equipada com ecrãs de televisão, não há necessidade para comunicação escrita. Embora os livros tenham sido proibidos, ainda há alguns desviados da sociedade que insistem em tê-los. É por isto que esquadras de implacáveis bombeiros patrulham a cidade, procurando livros para os queimarem sem piedade. Um desses bombeiros chama-se Montag, que adora o seu trabalho, e vive feliz com a sua esposa, Linda. Um dia ele espera vir a ser promovido para poder ter outro ecrã na sua casa. Um encontro fortuito com outra mulher vai mudar a sua vida para sempre, e a sua opinião em relação aos livros...
De todos os filmes que François Truffaut fez, "Fahrenheit 451" é o menos típico da sua carreira. A primeira de duas incursões no território da ficção científica, sendo a outra uma aparição como actor convidado em "Encontros Imediatos de Terceiro Grau", de Steven Spielberg. Os fãs mais sérios de Truffaut tendem a esquecer este filme, em parte porque é um filme de género, em parte porque é falado em inglês, e em parte porque as suas falhas foram muito publicitadas. A sua produção foi a mais prolongada de toda a carreira do realizador, e foi um fracasso na estreia, tanto de crítica como de público, e um passo atrás para o mais proeminente realizador da Nouvelle Vague. É um filme que é fácil de se criticar, mas teve as suas razões para ser o primeiro filme de Truffaut a cores.
A obsessão de Truffaut em fazer este filme data de 1960, quando o produtor Raoul Lévy lhe emprestou um exemplar do famoso livro de Ray Bradbury com o mesmo título. Apesar de Truffaut não ter grande interesse pela ficção cientifica, ficou fascinado e perturbado pela premissa central do livro, a ideia de que em algum ponto do futuro a escrita seria fora da lei, e os livros seriam queimados, como parte de uma estratégica maligna de obliterar a individualidade do ser humano. Para Truffaut, um rato das bibliotecas, era uma visão do Inferno, e viu ali imediatamente sumo para fazer uma metáfora muito interessante, evocando fortes memórias da ocupação Nazi e do Holocausto. Durante uma digressão em 1962 para promover "Jules e Jim" na América, Truffaut arranjou um tempo para se encontrar com Ray Bradbury em Nova Iorque. Bradbury tinha pouco interesse em adaptar este livro, e tentou, em vez disso, persuadi-lo a fazer uma versão das suas "Crónicas Marcianas". Truffaut declinou, e Bradbury concordou em vender-lhe os direitos de "Fahrenheit 451" sem ajudar no argumento. 
Quando viu o filme, o escritor escreveu uma carta a Truffaut a agradecer pelo filme, por ter feito uma adaptação tão fiel ao seu livro. Apesar dos resultados a nível de crítica e público não terem sido nada favoráveis, foi um filme que foi ganhando uma respeitável reputação com o passar dos anos. Hoje, é considerado um clássico menor da ficção científica, e, paradoxalmente, é o filme mais conhecido do realizador. 

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segunda-feira, 17 de julho de 2017

The Creation of the Humanoids (The Creation of the Humanoids) 1962

Depois de intensas guerras nucleares a humanidade vive restrita num mundo cheio de radiações e baixa taxa de natalidade. O auxílio das máquinas é essencial, mas o desenvolvimento de humanoides robots cada vez mais "humanos" causa conflitos entre parte da sociedade. Os andróides vão revoltar-se contra os seus mestres, e vão à guerra contra o resto da humanidade.
Filme independente da Genie Productions, é surpreendentemente profundo para um filme de baixo orçamento. Tem todas as marcas habituais num filme de série B: cenários simples, interpretações marginais, filmagens de stock, mas tem um argumento muito acima da média, muito mais pensativo do que os outros filmes de ficção cientifica da época. Sem grandes efeitos especiais, é passado num futuro pós-nuclear da Terra, e conta-nos uma história sobre a dependência da humanidade, e o medo dos robots que criaram.
"The Creation of the Humanoids" tem algumas boas idéias de ficção cientifica, que funcionam como uma parábola para o crescente movimento dos direitos civis dos Estados Unidos, bem como uma observação ainda mais ampla da tensão entre necessidade de bloqueio de segurança psicológica que se manifesta como sentimento reacionário na face das rápidas mudanças cientificas, e a sua viagem para um clímax que  contempla uma nova fronteira para a consciência e a humanidade.
O argumentista Jay Stills pediu emprestados elementos de duas histórias de robots anteriores. O nome veio do livro escrito em 1947 por Jack Williamson: "Humanoids". Da história de Williamson, Stills foi buscar uma população de servos robots mecânicos programados para fazer "o bem" para a humanidade. Da peça de Kavel Capek "R.U.R. (Rossum's Universal Robots)"  ele foi buscar alguns elementos básicos da história, incluindo um robot para criar uma nova criação.

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domingo, 16 de julho de 2017

La Jetée (La Jetée) 1962

Viagens no tempo, fotos estáticas, o passado, o presente, e o futuro, e as consequências da Terceira Guerra Mundial. A história de um homem, prisioneiro, enviado para o passado, para encontrar uma solução para o destino do mundo. Para repor o seu decrescente stock de alimentos, remédios e energias, e ao fazê-lo, o que resulta é uma memória permanente de uma mulher solitária, a vida, a morte, e acontecimentos passados que são retratados num aeroporto.
Em 1962, Chris Marker, um documentarista francês, escreveu, realizou e fotografou uma curta experimental, La Jetée, uma alegoria de ficção ciêntifica/viagens no tempo. É composta por uma série de imagens estáticas, a preto e branco (uma a cores já no final do filme), acompanhadas por uma escassa narração. O filme de Marker, mais tarde, serviria de base para "12 Monkeys", de Terry Gilliam (e, em menor medida, para Terminator, de James Cameron). Mais de 50 anos depois, "La Jetée" continua a ser um filme evocativo, profundo e convincente para o cinéfilo explorar questões mais amplas relacionadas com a natureza e a função do cinema, para estetas interessados na complexidade temática, e até mesmo para o casual espectador que irá identificar-se com o protagonista sem nome, na busca pela memória perdida.
"La Jetée" é passado num mundo reconhecível através de incontáveis histórias de ficção científica, um mundo devastado por uma guerra nuclear. Os últimos sobreviventes foram obrigados a viver na clandestinidade, a fim de evitar os efeitos da percipitação nuclear. Os sobreviventes estão divididos em dois grupos: os "vitoriosos", que controlam todos os escassos recursos existentes, e uma população aprisionada, totalmente dependente dos "vitoriosos" para ser alimentada. Mas a vitória, neste futuro, é insignificante, assim como os líderes desta sociedade underground parecem saber. A esperança não está na reconstrução de um mundo em ruínas, mas em viajar no tempo, para o futuro, onde os descendentes dos sobreviventes possam mandar material de primeiros socorros. Falhanço após falhanço os nossos viajantes acabam mortos ou loucos. Mas o nosso protagonista sem nome, irá ter sucesso onde os outros falharam, através da guerra e das suas desagradáveis consequências ele agarra-se a uma única memória, uma viagem de uma família ao Aeroporto de Paris, onde testemunham a morte de um estranho.

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sábado, 15 de julho de 2017

Cyberpunk

Cyberpunk é um subgénero da ficção cientifica altamente estilizado que combina tecnologia avançada e ciência, junto com uma sociedade tipicamente desintegrada no meio de uma ruptura radical de uma mudança na ordem social. Normalmente é passada num momento do futuro não muito distante, principalmente distópio e pós-industrial e foca-se nos aspectos indústrias “high tech, low life”.
O Cyberpunk pede emprestado muitas técnicas e características do film noir e do filme de detectives duros, e muitas vezes toma uma perspectiva pós-modernistas sobre as falhas de uma sociedade tecnológica. A visão do cyberpunk de um futuro distorcido e distópico contrasta com as visões geralmente utópicas do futuro popular nas décadas de 40 e 50.
O Cyberpunk começou como um movimento literário mas tornou-se um organismo da subcultura. A origem do termo em si vem do livro "Cyberpunk" de Bruce Bethke, lançado em 1983. Desde aí há uma série de autores que geralmente são aceites para fazer parte do corpo do Cyberpunk, entre os quais William Gibson (Gibson é considerado o fundador do Cyberpunk), Bruce Sterling, Pat Cadigan, Rudy Rucker, John Shirley e Lewis Shiner. Também há uma série de livros precursores com temas e imagens fortes que mais tarde foram associados ao género Cyberpunk: "The Demolished Man" (1953) e "The Stars My Destination" (1956) de Alfred Bester, "Do Androids Dream of Electric Sheep?" (1968) de Phillip K. Dick, "Dr. Adder" (Escrito em 1972, mas publicado em1984) de K.W. Jeter, "Gravity’s Rainbow" (1973) de Thomas Pynchon, "The Shockwave Rider" (1975) de John Brunner, e "True Names" (1981) de Vernor Vinge.
Este ciclo será longo, terá cerca de um mês, e mais de 20 filmes. Pretende visitar não apenas os filmes mas também alguns livros que marcaram este género, e que serão publicados em PDF. Iremos deixar de fora alguns filmes que não precisarão de muita exposição, como "The Matrix", mas outros já bem conhecidos serão inevitáveis, mas esta será, sobretudo, uma viagem pelo underground deste popular sub-género.
O mais importante filme do Cyberpunk é "Blade Runner", e já se encontra disponível no blog, aqui.
A nossa viagem pelos filmes do Cyberpunk vão começar um pouco atrás, aos anos 60, e vai acompanhar a evolução deste subgénero até aos dias actuais. Espero que gostem do ciclo. Até amanhã.


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mel (Bal) 2010

Yusuf (Bora Altas) é uma criança que mora com os pais numa isolada área montanhosa. Para ele, a região de floresta torna-se um verdadeiro mistério e aventura a partir do momento em que ele acompanha o pai em um dia de trabalho. O filme acompanha sua incrível jornada pela busca de algum sentido a sua vida.
"Semih Kaplanoglu demonstra uma capacidade imaculada para se colocar entre o olhar dos adultos e o do miúdo protagonista, neste pertinente retrato da Turquia profunda.
 Urso de Ouro no Festival de Berlim, "Mel" é o terceiro tomo da trilogia que fez de Semih Kaplanoglu o cineasta turco contemporâneo mais conhecido internacionalmente a seguir a Nuri Bilge Ceylan. Os nomes dos outros dois filmes da trilogia são tão nutritivos como o deste: "Ovo" (que ganhou um prémio na primeira edição do Estoril Film Festival) e "Leite".
Mas é com o "Mel" que ele chega às salas portuguesas, e se ao espectador recém-chegado ficará a escapar o desenho do conjunto dos três filmes, conhecê-lo não é indispensável à fruição deste filme. De certo modo, "Mel", no seu conflito essencial, ilumina, ou pelo menos resume, o que está em causa na trilogia: um olhar sobre a província turca, captado na bifurcação entre um modo de vida tradicional (as coisas que a terra dá, ainda que por intermédio dos animais: os ovos, o leite, o mel) e a perspectiva de uma outra coisa, muito mais difusa, a que se podia chamar a "modernidade". De uma maneira que o filme não resolve (e a não-resolução é o seu ponto), o miúdo protagonista simboliza esse impasse, no à-vontade da sua relação com a natureza (as abelhas do pai, a floresta) e na falta de à-vontade com as coisas da escola (a dificuldade em aprender a ler como uma "resistência", digamos, atávica).Imaginamos que este conflito, que o filme expõe sem retórica nenhuma e numa subtileza a toda a prova, é pertinente enquanto retrato da profunda Turquia contemporânea. O que serve, em todo o caso, como medida da inteligência de "Mel". Mas não é forçosamente aquilo que mais o distingue. Antes uma capacidade, imaculada, de se colocar entre o olhar dos adultos e o olhar do miúdo protagonista, para der a ver um mundo que é sempre, ao mesmo tempo, muito misterioso e muito familiar - características que marcam, em especial, toda a relação com a natureza (a terra e as árvores, mas também o céu e as nuvens), com os seus silêncios mas sobretudo com os seus ruídos (os seres humanos de "Mel" falam pouco, mas em compensação a natureza palra que se farta). E Kaplanoglu confirma-se como um adepto do plano-sequência expectante e desafectado: a cena em que dá o badagaio ao pai do miúdo é extraordinária."
* Por Luis Miguel Oliveira, daqui

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

My Only Sunshine (Hayat Var) 2008

Hayat tem 14 anos, já não é uma criança mas ainda não é uma mulher. Vive com o pai e o avô, que sofre de asma, em Istambul. O pai trabalha como pescador mas faz a maioria do seu dinheiro em transacções desonestas. Fornece os grandes navios que esperam a passagem do estreito com álcool, mulheres e outras mercadorias. Ainda mais corrosiva do que a pobreza desta família são a insensiblidade e a indiferença castradora que os protagonistas expõem a si mesmos e acima de todos a Hayat.
Um drama sobre a entrada na idade adulta que interroga a identidade numa cidade geopoliticamente extraordinária como Istambul, que atravessa o passado e o futuro, o Ocidente e o Oriente, a tradição e a modernidade. Crescer nem sempre é fácil. Vivendo numa casa velha, rodeada de pobreza, e enfrentando bullying na escola, Hayat tem montes de problemas, todos agravados pelo baixo status das mulheres na sociedade turca tradicional. No papel central, Elit Iscan transmite uma confiança que desmente a sua idade. Ela não é dem
onstrativa mas silenciosamente resiliente interpretando a retirada comum ás crianças em tais circunstâncias. 
Quinto filme de Reha Erdem, de quem já tinhamos visto neste ciclo a sua obra de estreia "A Ay". Ganhou o Prémio do Júri "Tagesspiegel" no festival de Berlim.

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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Outono (Sonbahar) 2008

Condenado à prisão, em 1997, como um estudante universitário de 22 anos, Yusuf é libertado por razões de saúde dez anos depois. Volta para a sua aldeia no leste da região do Mar Negro, onde é recebido apenas pela mãe doente e idosa. Acontece que o pai morreu quando ele estava na prisão e a irmã casou-se e mudou para a cidade. Os factores económicos fazem com que exclusivamente pessoas de idade morem nas aldeias das montanhas, e a única pessoa que vê é Mikail, um seu amigo de infância. Quando o outono lentamente cede lugar ao inverno, Yusuf vai com Mikail a uma taverna, onde conhece Eka, uma bela e jovem prostituta georgiana. Nem a época nem as circunstâncias são apropriadas para estas duas pessoas de mundos diferentes se apaixonarem. 
Um filme sobre a memória colectiva, e as cicatrizes irremediáveis da história política recente, gerações, ideais e tradições perdidas. A primeira longa metragem de Ozcan Alper é filmada em grande parte na linguagem Hemshin ou Hemshinli (descendentes dos arménios de Hemshin, que se converteram ao islão no século 17), através de vozes e canções da terra, e as marés, de marés calmas a ondulações turbulentas, enquanto o Outono se deixa envolver calmamente pelo Inverno. A cultura Hemshin é documentada com detalhes antropológicos. O cruzamento do filme com a literatura, particularmente com Chekhov, está relacionada com a influência dos autores russos em Alper, mas também vem da proximidade de Hopa, local onde se passa parte da acção, com a antiga União Soviética (a actual Geórgia fica a 18km). 
Ganhou uma série de prémios por esse mundo fora.

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domingo, 9 de julho de 2017

Destino (Yazgi) 2001

Musa, um contador que trabalha com a alfândega, acredita no vazio e no absurdo da existência. Ele não luta para mudar a vida, deixa-se levar, juntamente com os acontecimentos porque acha que tudo segue para o mesmo fim. A morte da sua mãe não o afecta. Embora ele a ame, a sua morte não o deixa triste. E este facto vai ter consequências pesadas no seu futuro.
O primeiro filme da trilogia de Zeki Demirkubuz "Tales About Darkness" é vagamente baseado numa obra de Albert Camus de 1942, "L’Étranger", com a história a ser bastante alterada, embora a intertextualidade com Dostoyevsky seja um elemento comum em ambas as obras. A noção de liberdade e a consciência de liberdade com fontes de sofrimento que podem cessar o custo do sofrimento humano são parte integrante deste trabalho de Camus. 
Demirkubuz cria o seu filme dentro da realidade sócio-política da Turquia. Musa é o arquetipo do cidadão comum, apolitizado no rescaldo de várias intervenções militares. Vive entre a casa e o trabalho, sem questionar a razão que está por trás das coisas. Quando o seu vizinho lhe pede para escrever uma carta para atraír a namorada com o fim de lhe "ensinar uma lição" ele concorda em evitar o confronto sem reflectir sobre as consequências da acção sobre a mulher. Preso pelo crime de outra pessoa, Musa não se defende. Porquê lutar por uma injustiça quando não se tem confiança no sistema de justiça? A violência e a miséria tornam-se a rotina com a invasão do espaço privado pelos ecrãs de televisão. Enquanto Musa observa o ecrã da televisão sem emoções, a câmera de Demirkubuz vira-se para janela e os pobres a procurarem por comida no lixo aparecem como uma imagem borrada, que não é notada por Musa.
O filme é rodado num estilo minimalista, com muito poucos movimentos de câmera. Começa com Musa a abrir a porta do seu apartamento e a luz a acender-se, e termina com a luz a apagar-se. A porta é algo essencial nos filmes de Demirkubuz, assim como nos de Nuri Bilge Ceylan. Aparece como um objecto que faz conexão com o que está fora e o que está dentro. Pode proibir a rua, ou pode proibir a sala num sistema de tradições e proibições.

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Clouds of May (Mayis Sikintisi) 1999

O mês de maio numa pequena cidade parece ser mais quente e sombrio do que os anos anteriores. Ainda assim, todos parecem felizes, apesar das suas pequenas preocupações. No entanto, esta felicidade é um pouco perturbada pela chegada de Muzaffer, que quer fazer um filme na cidade onde passou a sua infância.
O segundo filme do que Nuri Bilge Ceylan considera uma tetralogia, e que inclui também "Kasaba " (1997), "Uzak" (2002) e "İklimler" (2006) que pode ser chamada de "retrato de um artista da província como um intelectual urbano". Filmado na mesma pequena cidade de Yenice que também fora usada em "Kasaba", onde Ceylan passou a sua infância, ressaltando os sentimentos de obrigação e culpa ao filmar com actores não profissionais em situações do quotidiano, principalmente se eles são membros da sua família. Muzaffer (Muzaffer Özdemir) é um realizador independente (o alter-ego de Ceylan) que trabalha em projectos comercialmente inviáveis, para o desânimo dos seus pais. O seu regresso a casa para usar a familia no seu projecto "Kasaba", e principalmente o seu comportamento egoísta pouco sincero, perturba a sua tranquilidade. O pai, que é representado pelo próprio pai do realizador, está prestes a perder a terra. O primo Saffet (Mehmet Emin Toprak) está a sufocar nesta atmosfera claustrofóbica tendo novamente falhado os exames de admissão à universidade. 
Uma série de marcas utilizadas por Kiarostami são aqui evidentes, incluindo um quadro da paisagem rural, um interesse não sentimental em crianças, e uma curiosidade discreta da forma como a realidade do filme é paralela e cruza com a vida comum. Não há grandes momentos, apenas eventos comuns do dia a dia que interessam apenas aos protagonistas. O formato "filme dentro do filme" procura capturar a essência da vida numa pequena cidade. Faz isso de uma forma tão gentil, perceptiva graças ás interpretações naturais dos membros do elenco não profissionais. 

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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Inocência (Masumiyet) 1997

Entre as paredes em ruínas de hotéis degradados, bares sórdidos e cidades esquecidas, três párias, prisioneiros do seu amor, vivem uma roda-viva. Um deles é uma prostituta, o segundo o seu chulo/guarda-costas e outro um jovem ingénuo, recém saído da prisão, mas que está preso num círculo de fogo. A miséria das suas vidas só é mais intensa à medida em que se apegam a coisas que nunca tiveram. A sociedade tem voltado as costas para os três, Bekir, Ugur e Yusuf, mas eles continuam procurando o amor nos lugares mais improváveis.
Do título do filme à narrativa, o realizador
Zeki Demirkubuz, no seu filme revelação, questiona os valores morais de uma sociedade masculinizada, ressalvando a sua variabilidade. Ironicamente a "honra" da dona de casa oprimida é a a sua maldição, enquanto que o seu trabalho "sexual" é a sua libertação. O encontro de Yusuf com a família é crucial na sua transformação de um homem que mata pela honra da família a um homem disposto a se tornar proxeneta de uma prostituta e a recompor a família, se ela aceitar. Embora os julgamentos morais permaneçam constantes, ele adquiriu compaixão. 
Evocando a intensidade emocional de um filme de Ingmar Bergman com a combinação idiossincrática de humor discreto e melodrama, "Inocência" é elegante, incrivelmente complexo e um estudo minucioso de obsessões. Mas, para além da obsessão psicológica que define a interminável jornada de Bekir e Ugur para lugar nenhum, o enquadramento da sua relação através da sua perspectiva da inocência, primeiro através da criança muda de Ugur, e depois através do bem intencionado Yusuf, Demirkubuz apresenta um retrato intrigante, não só de uma personalidade flexível, mas também da hipocrisia inerente aos relacionamentos abusivos, onde a crueldade é racionalizada por uma sensação de vitimização indefesa.

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Somersault in a Coffin (Tabutta Rövasata) 1996

 Mahsun está desempregado. vive em Rumelihisari, um dos mais antigos e pitorescos bairros de Istambul, e tenta manter-se vivo com a ajuda dos pescadores locais. Mahsun adora carros, rouba-os de noite para de manhã os limpar e devolvê-los aos seus donos.
Um marco no início do Novo Cinema Turco. Derviş Zaim filmou a sua primeira obra em apenas 24 dias, no entanto, o projecto existia há 8 anos. O orçamento era mínimo, os actores, à excepção de dois, eram não profissionais. No entanto, o filme ganhou vários prémios, nacionais e internacionais, e o filme teve bons resultados nas bilheteiras. A sua originalidade reside na forma como alterna neo-realismo e fantasia. A história, os cenários, os diálogos, as interpetações, é tudo muito simples, e a música de fundo cria um grande ambiente com eficácia, com a sua abordagem minimalista a ser uma partida importante do cinema tradicional turco.
Tentar fazer um filme "no budget" não foi uma tarefa fácil, de acordo com  Derviş Zaim, que começou a pensar neste projecto underground quando ainda estudava em Londres. Ele queria contar a história de um vagabundo que antes conhecera, um ladrão que roubava e lavava carros para depois os devolver. Ahmet Uğurlu, um actor reconhecido oferecera-se para o papel principal. Tuncel Kurtiz, outro actor reconhecido internacionalmente aceitou ficar com um papel secundário, com grande parte do restante elenco a ser preenchido por pescadores ao longo do Bósforo. 
O título original do filme utiliza uma expressão futebolística, "rövaşat", que significa pontapé de bicicleta, que em inglês foi traduzido para "sommersault ", salto mortal. São duas coisas que não são prováveis em sitios apertados, e o filme tenta empurrar fronteiras. Mahsun e os outros à sua volta tentam trazer equilíbrio ás suas vidas - uma casa, um abrigo, alhguém para amar - em condições impossíveis, mas também rejeitar esse equilíbrio que os torna pessoas tão dramáticas. "Tabutta Rövaşata" apresenta uma maturidade incrível para um filme de estreia, e merece ser visto.

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terça-feira, 4 de julho de 2017

O Bandido (Eskiya) 1996

A épica aventura do lendário bandido Baran, depois da sua libertação da cadeia. Após ter ficado preso durante 35 anos não seria de estranhar que fosse encontras as coisas bem diferentes, porque o mundo mudou drasticamente. Ainda assim, Baran fica chocado quando descobre que a sua aldeia natal está agora debaixo de água, por causa da constução de uma barragem. Parte então para Istambul, para se vingar do seu ex-melhor amigo que o denunciou e ficou com a sua amante. Pelo caminho faz amizade com Cumali, um punk durão que simpatiza consigo. 
Desde o final da década de oitenta que o cinema turco tinha embarcado numa crise criativa e também financeira, com os seus filmes a terem poucas hipóteses de combater contra os ocidentais. "O Bandido", exibido no Féstroia em 1998, foi um dos poucos que conseguiu inverter essa tendência, sendo visto no seu país de origem por 2,5 milhões de espectadores, e conquistando prémios valiosos como o Bogey Award na Alemanha. e  o Golfinho de Ouro no Féstroia. A grande fatia da audiência era feminina, sobretudo donas de casa, que durante anos se tinham mantido afastadas do cinema. 
Algumas criticas da época mostravam uma tendência para classificar o filme, não como uma obra de ficção, mas como um espelho, que reflectia a vida dura vivida no país. Isto era sintomático no sentido que os países ocidentais queriam filmes realistas, que demonstrassem as dificuldades vividas pelos países orientais. Stephen Snitzer, que viveu alguns anos na Turquia, escreveu no New York Times que "The Bandit" causou um enorme escândalo na Turquia que intimidou um enorme número de políticos que trabalhavam naquele país. 
O realizador era Yavuz Turgul, que começou a sua carreira a escrever argumentos para Ertem Egilmez, que contribuíu para a formação do Yesilçam, o popular cinema dos anos 60 e 70, semelhante ao que se fazia em Hollywood. Já aqui vimos um trabalho de Turgul como argumentista, "Zügürt Aga", de Nesli Colgecen.

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