sexta-feira, 28 de junho de 2019

Animal (Elukka) 2004

"Animal" é uma curta metragem de cerca de 30 minutos que cruza três histórias: um pai solteiro que depois de ser atacado por um lobo se começa a transformar num lobisomem, o seu filho que depois de um estranho acidente com um carro troca de corpo com um cordeiro, e uma médica por quem o pai começa a ficar interessado. É sempre interessante ver animação em stop motion, e esta é especialmente boa. Aqui, pega-se no tema do mito do Lobisomem, com um pouco de Frankenstein à mistura. Por mais inocente que esta curta possa parecer no início, conseguem-se imagens muito perturbadoras, em  parte porque são muito explícitas e distorcidas, e também por causa dos materiais da animação, que tornam o filme ainda mais estranho.
É da Finlândia que nos chega esta obra, realizada por Tatu Pohjavirta, um realizador que contava já com um considerável número de curtas, nunca tendo realizado uma longa metragem até hoje. O filme não tem diálogos, nem precisa.

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Minotauromaquia (Minotauromaquia) 2004

Uma visão imaginária da mente criativa de Pablo Picasso e as suas criaturas e personagens pintadas. Entramos na sua cabeça onde ele tem um labirinto intrincado, que é a sua imaginação para encontrar as criaturas e as suas histórias quando ele pinta uma tela. A sua imaginação é apresentada como o mito do labirinto e do Minotauro, e algumas das personagens do labirinto estão, na realidade, nas pinturas de Picasso, desde a famosa pomba, o Minotauro, as Damas de Avignon, entre muitas outras.
Um filme sobre a criação artística, sobre e com Pablo Picasso, ou melhor, com a imagem animada do pintor e escultor mais polémico e, provavelmente, mais conhecido e desconhecido do panorama artístico ocidental.
O realizador, Juan Pablo Etcheverry, nasceu em Montevideu, no Uruguai, mas estudou Belas Artes na Universidade de Barcelona, trabalhando na área de multimédia como realizador, argumentista e editor. "Minotauromaquia" seria a sua terceira obra, e talvez a mais relevante até hoje. Apesar da sua curta seguinte ter a voz de José Saramago na narração.

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quinta-feira, 27 de junho de 2019

O Inventário Fantasma (L'inventaire Fantôme) 2004

O oficial de justiça Soms vai a casa de um velho cavalheiro condicionado a uma cadeira de rodas, colecionador de sua condição, para fazer um inventário. O colecionador explica ao oficial de justiça que ele coleciona "memórias que já ninguém quer", e este enquanto inspeciona a casa descobre uma porta que o leva a um lugar enorme, onde são armazenados milhões de objectos.
Também realizada em França, tal como a curta anterior, na Angoulême por Frank Dion, na sua primeira obra, , "l'inventaire Fantome" é uma mistura inteligente de stop-motion e design assistido por computadores. As marionetes, manuseadas com um cuidado especial que não ficaria a dever nada a um Ray Harryhausen, ganham vida em decorações feitas à mão, mas retocadas de forma digital a partir de então, para acentuar os efeitos das luzes e outros efeitos das texturas. 
Encontramos uma atmosfera surreal e fantasmagórica, com decorações enormes, objectos antigos (estátuas, espelho, livros antigos,  e um rádio que toca apenas tango…) trajes da época (a acção passa-se na reconstrução de uma Paris do século XIX), aparições fantasmagóricas, em suma, uma viagem ao passado, onde os pesadelos da juventude nunca estão longe. 
Legendas em inglês.

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O Calypso é Assim (Calypso Is Like So) 2003

Um célebre actor, Robert Mitchum, recorda a sua vida cinematográfica. Entretanto, uma visita inesperada vai descobrir a sua personalidade, sedutora e irrequieta. Um filme de animação pautado pelo LOVE e pelo HATE, palavras escritas nos dedos da personagem¿um piscar de olho para os mais cinéfilos.
A história é simples, e deriva do facto de que muitos filmes são uma questão de guerra entre um actor e um realizador. Eles têm vidas e missões completamente diferentes, e por vezes um actor encarna totalmente no seu papel. É o caso de Robert Mitchum, um actor enlouquecido por levar os seus papéis a sério. 
Curta que nos chega de França, com Bruno Collet num dos seus primeiros trabalhos atrás das camaras. 

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terça-feira, 25 de junho de 2019

Harvie Krumpet (Harvie Krumpet) 2003

A história de Harvie Krumpet, que tem o Síndrome de Tourette (transtorno neuropsiquiátrico hereditário que se manifesta durante a infância e é caracterizado por diversos tiques físicos e vocais). Harvie Krumpet é considerado uma criança bizarra, com uma infância triste e solitária. A má sorte persegue-o durante a fase adulta, quando é atingido por um raio e acaba por desenvolver uma doença muito séria. Mas no hospital, a vida proporciona-lhe uma surpresa.
Adam Elliot, realizador australiano que conhecemos por "Mary and Max", (um outro sucesso do stop-motion que veremos mais para a frente neste ciclo), realizou algumas curtas antes de passar para a sua primeira longa. "Harvie Krumpet" era já a sua quarta curta, e provavelmente a que lhe deu mais ânimo para dar o passo seguinte, pois foi com este filme que ganhou um Óscar de Melhor Curta de Animação. 
A mensagem parece ser: "a vida é aquilo que dela fizermos". O filme começa com o velho ditado sobre alguns nascerem grandes, outros alcançarem a grandeza, e outros terem a sorte da grandeza os encontrar, mas Elliot  está mais preocupado com as pequenas pessoas que atrapalham a sua existência, não alcançando nada demais. Apesar de nunca se encontrar a grandeza, é possível alcançar belos momentos de felicidade, e isto sem usar a técnica do sentimentalismo ou paternalismo fácil. 
A narração estava a cargo de Geoffrey Rush, actor australiano de créditos firmados, que nesta altura já tinha um Óscar e outras duas nomeações.
Legendado em português.

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The Separation (The Separation) 2003

Como o próprio título indica, esta  é a história de uma separação. Mas não é uma separação qualquer, já que pode ser complicado separar-nos de alguém que esteve (literalmente) ligado a nós. Nesta história, a separação de dois irmãos siameses terá consequências inesperadas. 
Feito com a técnica do stop-motion, sem diálogos de qualquer tipo, e com uma banda sonora praticamente testemunhal, esta curta-metragem baseia-se tanto na mestria dos desenhos, que atraem e repelam ao mesmo tempo, dentro de um sentido fantasmagórico de realismo, como na profundidade psicológica, entrando pouco a pouco no mundo de ambas as personagens, e mantem-nos em tensão durante os quase 10 minutos de filme.
A realização está a cargo do britânico Robert Morgan, de quem já tínhamos visto neste ciclo "The Cat With Hands".

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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Ward 13 (Ward 13) 2003

Ben, o nosso personagem principal, acorda num hospital invulgar depois de aparentemente ter sido atirado para uma estrada de asfalto devido a um acidente de carro. Mais tarde, acorda com o som de um cachorro a latir e decide explorar o hospital. Depois de estudar o hospital, perceber todos os detalhes dos corredores e das ferramentas cirúrgicas percebe que não é um hospital normal. Depois de ouvir passos e encontrar um paciente a gemer numa das camas do hospital, decide que é altura de fugir…
Preparem-se para um quarto de hora selvagem e caos animado. Esta curta bizarra apresenta-nos cães com duas cabeças, caixas de "lodo" e um monte de outras coisas que lembram alguém a ter o seu maior pesadelo. Isto é, na verdade, o "hospital do inferno", onde governa um parente do Dr. Frankenstein que cria os seus próprios monstros hostis.  
O australiano Peter Cornwell estreia-se na realização com esta curta, que rodou por inúmeros festivais ganhando vários prémios. Mais um filme a descobrir.

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A Feather Stare at the Dark (A Feather Stare at the Dark) 2003

Uma história passada num mundo antes do nosso. Um mundo mergulhado no caos, onde as forças do bem e do mal lutam, e se misturam. Ao fazerem isso, criam a hipótese de dar à luz o novo mundo. Um casal de seres alados faz amor e foge. Eles carregam uma criança num ovo e, quando a criança abre os olhos, são imediatamente destruídos, um consumido pelo fogo e o outro consumido pela água.
Mítico, elementar e misterioso, o mundo criado por Naoyuki Tsuji é perigoso, ameaçador e cheio de sinais do apocalipse, mas, de alguma forma também, terno e compassivo. "A Feather Stare at the Dark" captura gestos simples e sentimentos primários, e amplifica-os, percebendo o não verbal e o não literal com notável graça.
Uma ocasião rara de verem um filme de Naoyuki Tsuji.

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domingo, 23 de junho de 2019

sábado, 22 de junho de 2019

Mécanix (Mécanix) 2003

Mécanix conta a história dos últimos seres humanos, que são forçados a ser escravos de estranhas criaturas que governam esse estranho mundo. Há apenas uma coisa que estas bestas temem: o embrião do universo, a origem de tudo. É a única esperança que os seres humanos têm, para se libertarem deste ambiente mecânico antes que todos morram.
"Mécanix" é o primeiro, e até agora único filme do canadiano Remy M. Larochelle. Combinando acção stop-motion expressionista com live-action, "Mécanix" é um mergulho num estranho mundo mecanizado onde os humanos são escravos de uma raça de criaturas hediondas e biomecânicas. A história simples no centro de "Mécanix" é facilmente perdida quando somos confrontados com os visuais verdadeiramente impressionantes deste filme.
Muito recomendado para fãs de Lynch, Švankmajer, Tsukamoto (facilmente o associamos ao já clássico "Tetsuo"), Jeunet, irmãos Quays e mesmo Jim Henson. 
Legendas em inglês.

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Days of Winter (Fuyu no hi) 2003

Filme animado e dirigido por Kihachiro Kawamoto. É baseado num dos renku (colaborações de poemas ligados), uma coleção de 1684 do mesmo nome, do século 17 do poeta japonês Basho.
A criação da animação seguiu a tradicional natureza colaborativa do material de origem – o visual para cada uma das 36 estrofes foram criado independentemente por 35 animadores diferentes. Assim como muitos animadores japoneses, Kawamoto chamou os principais nomes da animação de todo o mundo: Mark Baker, Jacques Drouin, Taku Furukawa, Co Hoedeman, Yuri Norstein, Raoul Servais, entre outros.
Cada animador foi convidado a contribuir com pelo menos 30 segundos para ilustrar a sua estrofe, e a maior parte das sequências são menos de um minuto. O filme tem a duração de 39 minutos.
Fuyu no Hi venceu o Grand Prize of the Japan Media Arts Festival em 2003. Fuyu no Hi é uma colaboração incrível, visualmente deslumbrante dos maiores mestres de animação do mundo, unindo forças para criar um renku visual, um estilo de poesia específica para o Japão em que compositores escrever um poema como um grupo, cada poeta cria um verso diferente.
Legendas em português.

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sexta-feira, 21 de junho de 2019

The Stone of Folly (The Stone of Folly) 2002

Inspirado por um quadro de Bosch chamado "A Cure for Folly" é passado num hospital medieval. Um doutor caminha pelos vastos corredores do hospital, entramos na sala dos raios x, onde vislumbramos o processo realizado 500 anos atrás. Continuamos no centro cirúrgico, onde o paciente é anestesiado e operado. O procedimento funciona, mas há algo de errado com a metodologia.
Os tons de negro desta curta metragem são surpreendentes. Depois de vermos a curta e estudarmos o quadro podemos observar como a moral é verdadeiramente transmitida neste filme. Os personagens da curta são derivados dos personagens do quadro, e é um prazer ver como tanta informação é derivada das expressões faciais dos fantoches. O cenário e os movimentos dos personagens também, e a cena de abertura dá o tem certo para o filme. 
Primeira obra do canadiano Jesse Rosensweet, foi mais um filme selecionado para o Festival de Cannes de 2002, tendo recebido o prémio do Júri para a melhor curta-metragem.

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Holding Your Breath (Holding Your Breath) 2002

Numa cidade industrial, uma jovem tem uma relação com o namorado, enquanto que um cão e um velho se encontram sempre próximos. O cão, inicialmente agressivo, torna-se amigável depois de ela ter caído ao rio para tentar salvá-lo.
À sua narrativa de traços modernos, elitpica e distante do sentimental, com ausência de banda sonora, junta-se um processo de animação com silhuetas bastante interessante, mesmo que a sua marcação seja extremamente convencional ao seguir os preceitos do cinema de acção ao vivo e a voz over que narra tudo, mesmo que distanciada (algo evocativo do processo efetivado por Malick em "Badlands").
Realizado pelo australiano Anthony Lucas, foi selecionado para o Festival de Cannes de 2002. Lucas era um nome importante no cinema de animação australiano, e viria a conseguir uma nomeação para os Óscares no seu próximo filme, que também veremos neste ciclo.
Sem legendas, falado em inglês.

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quinta-feira, 20 de junho de 2019

The Hunger Artist (The Hunger Artist) 2002

Curta-metragem baseada no relato homónimo de Franz Kafka, que conta a história de um magro e deteriorado artista, que decide instalar-se numa jaula de circo com o intuito de mostrar e encantar o público com arte autodestrutiva.
Um trabalho de extraordinário recorte expressionista, que interpreta totalmente o cosmos Kafkiano opressivo, povoado por indivíduos infelizes, marginalizados e vitimizados pela sociedade. Filme feito com o uso da técnica de stop.motion pelo americano Tom Gibbons, que trabalhou com Henry Selick em "James and the Giant Peach" e também foi membro do departamento de animação da série televisiva "Kablam", entre outros projectos mais comerciais. Gibbons também trabalhou na equipa de efeitos especiais de "Matrix Revolutions" e nas equipas de animação da trilogia "Twilight", provavelmente era melhor não referir esta última parte. 
Filme sem diálogos. 

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Hing Sees (Hing Sees) 2002

Numa noite gelada dois pequenos irmãos, um rapaz e uma rapariga, discutem uma questão assustadora: ela argumenta que, ao contrário da sua amada boneca Lisa, os soldados do seu irmão carecem de alma, pois nunca fecham os olhos quando morrem. Mas, afinal, o que significa ter alma?
Esta curta-metragem surreal, inspirada na história "Living Dolls" do escritor estoniano Anton Hansen Tammsaare, transporta-nos para a busca insana por uma resposta. A realização está a cargo de Riho Unt, um dos principais animadores da Estónia, com um currículo já de mais de 25 curtas-metragens, todas elas de grande valor entre o cinema de animação da Europa do Leste.
Legendas em inglês.

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terça-feira, 18 de junho de 2019

Fimfárum Jana Wericha (Fimfárum Jana Wericha) 2002


"Fimfárum Jana Wericha" está dividido em cinco histórias independentes, cada uma das quais é derivada de uma lenda Checa. A primeira delas, "Quando caem as folhas do carvalho", conta como um agricultor embriagado faz um pacto com o diabo, a quem posteriormente o homem engana. O segundo, "Fearless Frankie", relata como o pai de um jovem que tem medo de nada manda o seu filho para passar uma noite numa taverna onde os espíritos dos mortos se reúnem para jogar. O terceiro, "Mean Barbara," gira em torno dos esforços de várias pessoas de dispor do corpo de uma mulher velha avarenta. A quarta, "um sonho cumprido", é sobre um agricultor idoso que desperdiça o seu dinheiro a jogar na lotaria, e o último conto, "Fimfárum", centra-se num ferreiro com uma mulher infiel que é forçado a executar uma variedade de impossíveis tarefas.
Um maravilhoso filme animado de marionetas baseado em algumas histórias do actor e argumentista checo Jana Wericha e realizado pela dupla Vlasta Pospísilová e Aurel Klimt. Um filme que demonstra o domínio do povo checo no uso de marionetas, dando vida e expressão a inexpressivos pedaços de madeira. 
Uma narrativa tradicional com uma voz de narrador a dominar o filme, neste caso o próprio Wericha, as histórias são ligadas por imagens reais de Wericha e a sua grande barriga a comentar sobre elas. Os contos são como as antigas fábulas costumavam ser, com uma grande compreensão da natureza humana e os seus vícios sociais. 
Longa metragem legendada em português.

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domingo, 16 de junho de 2019

Em Julho - Ichikawa no M2TM



Vem aí mais um grande ciclo no My Two Thousand Movies: kon Ichikawa - O Essencial.
Um documentário e 20 a 25 filmes. A não perder em Julho, aqui no blog.

Hasta Los Huesos (Hasta los Huesos) 2001

Curta-metragem que retrata de forma perfeita a jornada de uma pessoa para o mundo dos mortos depois de morrer, um mundo de fiesta onde vivem as caveiras, que muitas vezes se baseiam em ilustrações de José Guadalupe Posada, bem como a Catrina, que quase sempre é a figura central deste mundo. Catrina é geralmente retratada como uma mulher elegante, capaz de cantar e com uma sedução única que pode hipnotizar qualquer pessoa. E é precisamente isso que vamos ver nesta curta.
Realizada por René Castillo, esta curta levou mais de três anos de produção, sendo metade do tempo só filmagens em stop motion. Foram criadas mais de 70 personagens em plasticina que tiveram mais de 15.000 movimentos. "Hasta los Huesos" é considerada a curta mais cara do México até hoje, com um orçamento total de 3 milhões de pesos, mas que já recebeu mais de 100 prémios internacionais.
Aguarda-se a estreia da primeira longa de René Castillo, chamada "Thingdom".

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Rocks (Das Rad) 2001

Produzido pela Film Academy of Baden-Württemberg, "Das Rad", lançado nos estado Unidos como "Rocks" combina stop-motion com CGI, para contar a história de duas pedras, Hew e Kew, dobradas por Rainer Basedow e Machael Habeck, que do seu poleiro do alto de uma montanha observam toda a história da humanidade se desdobrando diante dos seus olhos. No inicio impressionados com o que veem, a dupla é ameaçada pelo progresso da humanidade, que faz muito mais do que mudar a paisagem do vale abaixo.
Realizado por um trio de realizadores alemães, Chris Stenner, Arvid Uibel, e Heidi Wittling, com Uibel a falecer antes do filme ser terminado, o que lhe valeu uma dedicatória nos créditos. O filme andou largos meses a ser exibido em festivais e a ganhar prémios, até que alcançou uma nomeação para o Óscar de Melhor Curta de Animação, tendo perdido o prémio para "The Chubbchubbs". 
Uma curta de animação muito engraçada, onde além da animação se destaca a forma como lida a passagem do tempo.
Legendas em inglês.

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sábado, 15 de junho de 2019

The Cat With Hands (The Cat With Hands) 2001

Diz a lenda que no fundo de um poço sujo de paredes de pedra reside um ser felino malvado, que em  vez de patas tem mãos humanas para roubar partes do corpo de transeuntes desavisados. Com isto em mente, um velho leva um estranho e enigmático jovem pelo meio de uma floresta rude e intocada, para testemunhar em primeira mão a criatura sobrenatural. Poderá este conto popular ser verdade?
"The Cat With Hands" revelava mais um nome de peso do cinema britânico de animação: Robert Morgan, um realizador que tinha um gostinho especial pelo perturbador e macabro, algo que continuaria a ser revelado nos seus filmes seguintes, por vezes misturando animação com live action, como foi o caso deste filme.
Morgan alegou que o conceito original deste filme teve origem em pesadelos recorrentes que a sua irmã tinha quando era mais nova. Parece que estamos a viver um pesadelo, com os personagens animados parecendo bizarros e assustadores nos seus movimentos e expressões. 
Depois de ver este filme decerto que olhará para o seu gato com outros olhos. Filme sem legendas.

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Dog (Dog) 2001

Um jovem e o seu pai vivem numa monótona e solitária casa, com a sombra do luto pairando sobre os dois. O jovem sente falta da mãe, mas não sente conforto vindo da parte do pai, de que ela alguma vez partiu pacificamente. A esta tragédia ainda se acrescenta o problema do cão da família, que está cada vez mais doente.
Com apenas três curtas metragens no seu currículo a britânica Suzie Templeton é já uma das figuras mais importantes do cinema de animação britânico, no campo da stop motion, e isto apesar de não lhe vermos um filme desde 2006, embora conste que esteja a terminar o seu quarto. "Dog" era o seu segundo projecto, e projecto de graduação, que lhe valeu o BAFTA de melhor filme de animação, o equivalente aos Óscares britânicos, Óscar que ganharia no seu terceiro projecto (e que também veremos neste ciclo).
"Dog", e o filme anterior de Templeton, chamado "Stanley", são a verdadeira antítese dos filmes maiores que a vida, geralmente associados à stop motion, uma partida necessária, principalmente nesta era do cinema feito por computadores. Filmes tão resolutos na sua interioridade, com a exploração de espaços confinados e personagens decididamente não espectaculares, Templeton parece deleitar-se em desvendar o mistério e a perversão do real.  

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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Cinema na Crew Hassan


A partir do próximo Domingo, e nas próximas 3 semanas, cinema português patrocinado pelo My Two Thousand Movies. 
Apareçam, que eu vou estar por lá. 
Evento do Facebook: aqui

A Fuga das Galinhas (Chicken Run) 2000

Na quinta de criação de galinhas do casal Tweedy, situada algures em Inglaterra, a corajosa e persistente galinha Ginger procura conduzir as restantes companheiras de cativeiro a uma fuga organizada. Todavia, as tentativas de evasão resultam sempre em fracasso, até surgir na quinta um galo americano e bem-falante chamado Rocky.
Peter Lord e Nick Park, o duo responsável pela criação das personagens Wallace and Gromit (mais para a frente neste ciclo) apresentam-se com a sua primeira longa metragem, e resultados muito bem  sucedidos. Funciona como "The Great Escape" interpretado por galinhas, e é tão bom como se possa imaginar. Nenhum trocadilho é deixado sem uso, e é tudo feito com um tal charme que facilmente nos deixamos conquistar por este mundo de barro.
Havia receio que este filme apoiado pela DreamWorks e produzido pela Aardman fosse um flop perante o público americano, e para se precaverem de tal medo foi usado Mel Gibson na voz de Rocky. Mas a verdadeira heroína do filme é Ginger, que lança tantas piadas antiamericanas, que são lançadas sem que se perca o glorioso bom humor do filme.
Legendado em português.

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Adazhio (Adazhio) 2000

"Adazhio" é um milagre da animação de 10 minutos, criado pelo mestre da animação russa Garri Bardin, que usou como técnica o dobramento de papel, também conhecido como técnica do origami, porque achava que o "Adágio" é a sua solução visual exigia o papel como material perfeito. Bardin e a sua equipa de animadores demoraram 9 meses para produzir esta curta-metragem, tentando mover manualmente estas estranhas criaturas de papel, meio homens, meio pássaros.
"Adazhio" é uma parábola filosófica que explora o conflito entre um herói e a multidão, e é vagamente inspirado num conto do popular escritor russo Maxim Gorky, sobre um jovem chamado Danko e o seu coração ardente. Na história Danko pertencia a uma tribo de homens fortes que eram forçados a recuar pelos seus inimigos para as profundezas de uma floresta escura e cheia de pântanos. Danko, jovem e corajoso, acreditava que havia uma saída da floresta hostil, e corajosamente guiou as pessoas da tribo. Mas depressa eles começaram a resmungar, alimentados pelo medo da escuridão, com a frustração e a raiva a começarem a crescer.
Nesta curta-metragem Bardin medita sobre vários assuntos: intolerância a diferentes opiniões e religiões, ignorância e falta de vontade de aprender as lições da história, suspeição que rapidamente se transforma em ódio para com alguém que se destaca. É mais fácil adorar um herói morto do que segui-lo quando ele está vivo. "Adazhio" é uma fabulosa obra de arte, produzida por um artista conhecido pelo seu sentido de material quase sobrenatural.
Filme sem diálogos.

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quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pølse (Pølse) 2000

Um marido e a sua esposa vivem em condições de pobreza na floresta. Um dia eles têm condições de melhorar as suas vidas quando lhes são concebidos três desejos.
Filme norueguês baseado numa velha lenda do país, é uma das grandes pérolas deste ciclo. Realizado por Ivar Rødningen, na sua única aventura até hoje pelo cinema de animação como realizador.Rødningen trabalhou como ilustrador de esculturas, trabalhando principalmente para publicidade. O seu maior interesse era a animação, então acabou por se juntar a uma pequena produtora de animação em Oslo chamada Studio Magica. Esta acabaria por ser a sua oportunidade de se enveredar pelos seus próprios projectos de animação, e aprender o seu ofício mais profundamente.
Foi assim que surgiu "Pølse", projecto que Rødningen realizou, escreveu e criou o design, com o qual conseguiu alguma divulgação interna, que o levou a alguns festivais. Mais tarde Rødningen faria parte da equipa que faria o design e o conceito dos monstros em "Troll Hunter", esse sim um grande êxito do cinema norueguês.
Legendas em Inglês. 

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The Miracle Maker (The Miracle Maker) 2000

Ostensivamente uma recriação dramática dos eventos da vida adulta de Jesus, embora o filme seja surpreendentemente muito mais do que isso. É um triunfo da animação. Os eventos da Bíblia são recriados em 3D, usando marionetes de latex que são bastante reais. No entanto, para recriar o mundo das parábolas, como Jesus lhes conta, os animadores decidiram usar peças em 2D, onde o efeito não é tão soante, mas é suave e onírico.
Originalmente uma criação da BBC, o filme foi feito depois de uma colaboração entre uma empresa de marionetes Russa, Christmas Films, e uma companhia galesa, a Cartwyn Cymru, com um argumento muito interessante de Murray Watts, com um enorme sentido de lugar e um uso imaginativo de flashbacks, que numa técnica pictórica emulam a memória.
Mas o maior destaque do filme, provavelmente, é a qualidade das vozes das personagens, muitas delas produzidas por actores bastante conhecidas do grande público, como são os casos de Ralph Fiennes, Julie Christie, William Hurt, Ian Holm, Miranda Richardson, Ken Stott e Richard E Grant. A realização está a cargo de dois nomes, Derek W. Hayes e o russo Stanislav Sokolov.
Filme com legendas em Português.

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A Suspeita (A Suspeita) 2000

Um compartimento de combóio, quatro pessoas, um revisor, um canivete e um potencial assassino. Uma viagem de comboio e um mistério por desvendar. Um dos mais sólidos e originais filmes de animação produzidos em Portugal, um dos mais ambiciosos e, podemos dizer, um dos mais justamente premiados no plano nacional e internacional.
Entre outros, recebeu o Prémio RTP - Onda Curta no Fantasporto 2001 e o Cartoon D´Or do mesmo ano, ou seja, o máximo galardão europeu, sem qualquer dúvida, um dos mais importantes do mundo.
Um dos mais originais filmes de animação produzidos em Portugal, um dos mais ambiciosos e um dos mais justamente bafejados pela sorte dos prémios internacionais 

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terça-feira, 11 de junho de 2019

Festival Stop Motion

"Stop Motion em inglês ou quadro-a-quadro é uma técnica de animação muito usada com recursos de uma máquina fotográfica ou de um computador. Utilizam-se modelos reais em diversos materiais, sendo os mais comuns a madeira de árvore que tenha troncos e a massa de modelar modelos. No cinema o material utilizado tem de ser mais resistente e maleável visto que os modelos precisam durar meses, pois os eventos de moda para cada um tem um desgaste diferente. Nem toda animação em stop motion é composta apenas por objetos, atores humanos também podem ser utilizados. São necessários aproximadamente 24 quadros para criar um segundo de animação. Dependendo do processo, são tiradas até 600 fotos ou mais dos artistas. Os modelos são movimentados e fotografados quadro a quadro. Esses quadros são posteriormente montados em uma película cinematográfica, criando a impressão de movimento. Nessa fase, podem ser acrescentados efeitos sonoros, como fala ou música."

Esta é a definição de Stop Motion mais conhecida, e este será o tema do primeiro Festival do My Two Thousand Movies. Primeiro, porque de futuro haverá mais, com certeza.

Ao longo de 3 a 4 semanas, passarão por aqui cerca de 50 filmes de animação em Stop Motion, entre curtas e longas metragens, de todos os cantos do mundo, da Europa do Leste à Austrália, passando por Portugal.
Sempre que possível os filmes serão acompanhados de legendas em português, e esta selecção irá cobrir o período entre 2000 e 2009.

Espero que gostem. Até já.


Shoah (Shoah) 1985


Há dois filmes essenciais (ou absolutos) sobre o holocausto na história do cinema, um é o filme de Alain Resnais “Nuit et Brouillard” e outro é “Shoah”, a obra mais que absoluta sobre o holocausto, uma monstruosidade melancólica e desoladora que rompe “fronteiras” a todos os níveis, que emerge das cinzas hediondas que restaram do maior genocídio do século XX e nos apresenta/expõe a realidade dos campos de concentração nazis sem recorrer a qualquer filmagem histórica de época - e é aí, e não só, que reside o elemento capital para a grandiosidade deste filme de mais de 9 horas. Falar de “Shoah” não é fácil, nem será com toda a certeza suficiente o que quer que seja que se escreva sobre o filme, até porque já muito se disse e já quase tudo foi dito. 
Lanzmann demorou mais de uma década para recolher todo o material do qual resulta “Shoah”, o seu “trabalho” de uma vida que, de entre pesquisas, entrevistas e viagens, é um testemunho (ou vários) dos sobreviventes. No fundo do seu imo, “Shoah” é, como o próprio Lanzmann disse, um filme da memória no presente, uma exposição/apresentação (a que acarreta a negação da representação) do que foi o holocausto pela voz daqueles sobreviventes (testemunhas, vítimas e carrascos) e pela voz (e esta talvez a mais significativa e absoluta) do silêncio dos locais por onde passa (desde os campos de concentração de Chelmno, Treblinka e Auschwitz-Birkenau, até ao gueto de Varsóvia). 
Portanto, é no terreno das memórias pessoais de todos aqueles testemunhos que Lanzmann consegue “arranjar”, que “Shoah” se move e se transcende, é no silêncio daquelas imagens dos locais onde o horror viveu outrora que as sensações do indizível e do horror do extermínio são, de alguma forma, transmitidas (ainda que, como Lanzmann diz, o horror absoluto seja intransmissível). “Shoah” é O monumento sobre o holocausto, é A obra cinematográfica… é, mais palavras do próprio Lanzmann, a incarnação da verdade! Absoluto.
Texto de Álvaro Martins.

Parte 1
Parte 2
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segunda-feira, 10 de junho de 2019

Plataforma (Zhantai) 2000

Zhantai (Plataforma) é talvez, a meu ver e daquilo que até hoje vi de Jia Zhang-ke, o seu melhor filme. A palavra que me parece melhor para descrever Zhantai é melancolia, coisa que irrompe e abraça todos aqueles jovens que testemunham e protagonizam uma mudança cultural e socioeconómica da China dos finais dos anos 70 e inícios de 80. É indiscutível o teor político do filme, a principal preocupação do cineasta chinês é retractar essa mudança – e o que vemos é um pouco como Ozu fazia, detalhando a oposição do “velho” face ao “novo”. As mudanças chegam, a ocidentalização e o consumismo começam a “invadir” aquela China Maoista que, no começo do filme, ainda nos é perceptível. A pouco e pouco o individuo substitui o colectivo. 
A história de Zhantai traz-nos um grupo de jovens, todos eles a atravessar essa transformação social e individual, pertencentes a um grupo de teatro que com o tempo – e o tempo e a sua passagem são também muito importantes neste filme – se vai desmembrando e transformando (e deve-se à privatização e à iminente chegada do capitalismo) numa liberalização individual na procura dos novos ideais. Jia Zhang-ke, e voltando à melancolia, filma aqueles jovens imersos nessa mudança social e cultural (a chegada da música pop e rock, as calças à boca de sino, os filmes americanos, os penteados ocidentais, os contraceptivos, as raparigas começam a fumar, a vida privada começa a ser realmente privada…), mas envoltos na melancolia e numa certa nostalgia que caminha lado a lado com a passagem do tempo e com as transformações políticas e sociais que trazem àquela juventude uma indefinição pessoal (como a certa altura se pergunta a um deles o que daqui a 20 anos seria). 
Zhantai é um poderoso e monumental “documento” sobre a revolução (ou a nova revolução) da China actual, os primeiros “passos” daquilo que viria a ser hoje, a China capitalista, consumista e individual que substituiu a China colectiva de Mao.
Legendas em Inglês.
Texto de Álvaro Martins. Daqui

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domingo, 9 de junho de 2019

Corredor (Koridorius) 1995

Sharunas Bartas é o cineasta mais peculiar que conheço. O seu cinema é estranho, difícil, rude, estático. Se Lynch não se preocupa em explicar o porquê das coisas, Bartas procura complicar ainda mais uma suposta elucidação. “The Corridor” não tem explicação, o filme é uma sucessão de imagens de um quotidiano bizarro naquilo que parece ser o que outrora foi uma fábrica e que devido a uma crise financeira e social está ocupada por várias pessoas que à partida não fazem nada. A ideia que o filme me transmite é que Bartas faz uma crítica sociocultural de uma Lituânia pós-soviética em que mergulhou numa fragilidade e depressão económica e social. “The Corridor” parece-me ser uma metáfora dessa desolação, dessa ideologia, dessa falta de identidade que o fim da URSS deixou. A semelhança com Tarr é irrefutável, embora o cinema de Bartas seja mais estático e onde abundam mais tempos mortos. Bartas filma uma “festa” numa cozinha onde os personagens se embebedam e dançam lembrando a cena de Tarr no seu “Sátántangó”. E tanto no filme de Tarr como no de Bartas penso que se define como o delírio duma sociedade perdida, desolada, depressiva e fragilizada. Diálogos, não há. Imagem é a preto e branco. Argumento está escondido nas expressões dos personagens. Nomes, não são precisos. Ou seja, simples e sem muitos artefactos, “The Corridor” é um filme em que são necessárias várias visualizações para o compreender. E mesmo assim…!
Texto de Álvaro Martins, daqui

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sexta-feira, 7 de junho de 2019

Julho no My Two Thousand Movies


Kon Ichikawa: o Essencial

Few of Us ( Few of Us) 1996

Entramos no mundo intrigante de Sharunas Bartas, no cinema estático dum cineasta que não se preocupa com diálogos, que os evita, que procura fazer transparecer emoções pela imagem, pelo som, pela linguagem corporal. Num cinema cru, rude, estático e introspectivo, Bartas filma uma árida zona fronteiriça da Sibéria onde Yekaterina Golubeva, actriz fetiche de Bartas, é largada por um helicóptero e colhida por um tanque. A partir daqui tudo se mistura, nada se distingue. Bartas faz um filme completamente enigmático, abstracto. “Few of Us” vive desse enigma, dessa forma peculiar de Bartas fazer cinema, da lucidez com que Yekaterina vagueia por uma região que aparenta viver num primitivismo extremo, isolada numa cultura que não é a sua, colmatada com um acto de violência que a faz fugir daquela região ou aldeia e continuar a vaguear. De facto, não há explicações no cinema de Bartas, na forma como conduz a obra. O lituano procura sobretudo exprimir as emoções do actor/personagem. Ele não se mostra interessado em fazer uma história linear, em contar uma história com princípio, meio e fim. Não, Bartas quer espremer sensações, pensamentos e emoções escondidos nos olhares, nas acções, no ambiente, nos ruídos, na natureza. Ele não se preocupa nem nos pretende explicar o porquê dela vaguear por ali, não há razão para tal, simplesmente vagueia. Somos confrontados com o seu percurso e é isso que nos interessa, a sua jornada naquela aldeia, naquela cultura primitiva e agressiva que a faz vaguear ainda mais. Não precisamos saber mais. E é isso que Sharunas Bartas nos mostra, esse percurso que retracta uma ambiguidade moral e uma desolação humana numa terra de ninguém sempre de forma estática, rude e peculiar que só ele alcança.
Texto do Álvaro Martins. Daqui 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Liverpool (Liverpool) 2008

Aparentemente, “Liverpool” é um filme sobre o regresso a casa. O regresso de Farrel (Juan Fernandez), um marinheiro que dada a oportunidade retorna à terra que abandonou há muitos anos. Mas o filme é isto, é o quotidiano, o seu regresso à terra para ver a mãe e a filha que abandonou e por fim a volta ao navio. Ou seja, aparentemente o filme é nada.
Mas erra quem assim pense, ou quem não consiga vislumbrar o que está por detrás desse nada, desse vazio. “Liverpool” é muito mais que isso, é um filme sobre a dor, sobre o arrependimento, sobre os remorsos que visitam o homem. Mas essencialmente, “Liverpool” é a viagem de Farrel, os seus passos, as suas acções, os lugares por onde passa. Aqui não há uma narrativa lógica, não há uma história trágica ou feliz, não há romance, não há nada desses convencionalismos que vemos no cinema. Não, “Liverpool” é Farrel e Farrel é “Liverpool”. Ou seja, Alonso quer filmar uma visita, um último adeus, um respirar mais uma vez na terrinha, um conhecimento do que ficou, do que deixou para trás, ele quer filmar um homem e acompanhá-lo no seu trajecto. 
E Lisandro Alonso desenvolve o filme lentamente e opta por um distanciamento da câmara que carrega toda uma vertente naturalista. E as expressões corporais, as pequenas acções do quotidiano ganham aqui relevo importantíssimo para dar ao filme esse aspecto realista. E o mais importante de tudo isto é ver que Alonso nem sequer envereda pela veia moralista, pela tentação de condenar Farrel pelo abandono, pelas suas escolhas. Não, Alonso quer filmar o homem e mais nada. 
Isto sim é cinema. 
Texto de Álvaro Martins. Daqui

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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Damnation (Kárhozat) 1988

Vazio, o nada, corpos deambulando por uma Hungria decadente, apocalíptica e uma obsessão por uma mulher casada. Música, danças e mais danças, um preto e branco que mostra uma história sem esperança alguma, um homem que procura essa esperança e uma mulher que foge dela. O caos, a chuva, a arte de filmar de Béla Tarr, o fascínio de uma obra negra e incontrolável. “Kárhozat” data de 1988 e é cinema que explode nos nossos olhos, são planos correntes de corpos vazios numa normalidade incompreendida e de uma procura interior que nunca chega. O silêncio. O cinema na sua realidade.
“Kárhozat” marca o início do “preto e branco” estilizado no cinema do cineasta húngaro, assim como assegura o fim dum certo realismo social presente nos seus primeiros filmes (“Családi tüzfészek” de 77, “Szabadgyalog” de 81 e “Panelkapcsolat” de 82) e que já havia sido depurado no anterior “Öszi Almanach” de 85. E, tal como esse portento delírio de cores abrasadoras e saturantes e de planos e ângulos magistrais que é “Öszi Almanach”, “Kárhozat” é filme sem esperança alguma, o que reina ali é o caos, a decadência e a desolação do mundo inteiro naquelas almas errantes e vazias. Na verdade, “Kárhozat” esconde no seu interior um delírio social, como a tudo o resto que víria depois (os filmes seguintes) vemos associada essa alucinação social, coisa obscura e desoladora oriunda dum conflito interior onde a natureza humana prevalece (e Tarr é talvez dos mais pessimistas cineastas que conheço!), natureza negra como a noite mais escura e mais terrífica de todas… não há redenção possível, no final aquele “duelo” com o cão é a simbologia das simbologias sobre isso - o primitivismo ou o “animalesco” prevalece e molda o ser humano, ou seja, o amor não tem força nem consegue sobreviver neste mundo. No final fica a desolação e a rendição ao caos que a dor interior acarreta. 
Texto do Álvaro Martins

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terça-feira, 4 de junho de 2019

Brevemente: Festival de Stop-Motion


Mais de 50 longas e Curtas
A partir de 14 de Junho
No My Two Thousand Movies

Primavera Precoce (Shôshun) 1956

Ozu, o cineasta do quotidiano, da beleza da simplicidade, dos pequenos gestos e das suas compreensões, dos erros e da aprendizagem da vida. Ozu, o cineasta da sinceridade, porque o seu cinema é o mais sincero de todos, o mais leal à vida, à semântica da vida (o que quer que seja que isso signifique), coisa mundana, coisa que irrompe da realidade e das pequenas (grandes) questões da vida.
Ozu, o cineasta da serenidade, nada no cinema se compara a esta serenidade, ainda que toda ela se veja envolta pela azáfama da vida, pelos problemas da realidade, do dia-a-dia, ainda que em todos eles (os seus filmes) brote ou a tragédia ou a traição ou a velhice ou o desemprego ou qualquer outra coisa que advém do realismo e das suas contrariedades. Ozu, o cineasta do optimismo, da transcendência da vida e do seu valor, do humano, da dádiva que é uma vida. Ozu, o mestre japonês. 
Sôshun, filme do recomeço, dos erros e do perdão. Monumental. O filme em que Ozu faz dois movimentos de câmara, naquele corredor da empresa, sempre com destino à porta do escritório de Shoji, o filme em que mais do que nunca Ozu faz uma crítica social, em que o modo de vida do pós-guerra é posto em causa, o filme em que mais do que nunca Ozu se preocupa com as relações conjugais, aqui as dos funcionários, em como tudo isso traz o tédio, a insatisfação e a alienação dessas relações. Sôshun é o filme em que Ozu tira os jovens de casa, dá-lhes emprego e uma vida familiar autónoma, longe dos pais, o começo da sua família, é o filme em que a melancolia da separação dá lugar à melancolia social e laboral que afecta a conjugal/familiar, os erros daqueles jovens inexperientes que restaram da guerra, o recomeço e a remissão. A vida, nada mais que a vida. 
Texto de Álvaro Martins. Daqui

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domingo, 2 de junho de 2019

Paris, Texas (Paris, Texas) 1984

Acabamos de (re)ver “Paris, Texas”, filme “maior” de Wenders (na minha humilde opinião, o
aclamado “Der Himmel über Berlin” está longe da magistralidade deste), e a redenção alcançada de Travis dá um sentido ao imenso “cosmos” desértico que perpetua aquelas almas “perdidas” ou alienadas ao longo da monstruosidade que é este colorido road movie imerso na melancolia e na desolação daquelas almas solitárias e, aparentemente, “vazias” (e não sei porquê - talvez pelo título - mas lembro-me sempre da Desolation row do Dylan). É, portanto, uma viagem interior impregnada na desolação duma alma errante e solitária que anseia a redenção numa procura de paz interior.
Wenders, o tal da nova vaga alemã que ficou imortalizado ao lado de nomes como Fassbinder, Herzog, Schroeter, Schlöndorff ou Syberberg, sempre mostrou o seu fascínio pela cultura americana e pelo mito americano… “Paris, Texas” não é imune a isso, está lá tudo, inclusive o falhanço do sonho americano, o american way of life! É, talvez por aí, que “Paris, Texas” encontra o seu propósito, desde a imutabilidade do género (à qual falsamente alude e primícia visualmente como um western para logo a seguir se permutar e imutar no road movie que é), à alusão da perfeição perdida (ou nunca alcançada) na simbologia que o deserto Mojave, com que inicia o filme e no qual aquele Travis errático e solitário se “perdeu”, assume… simbologia “estendida” e “descortinada” mais à frente quando percebemos que a Paris do título é no Texas e não na França, contraste assumido que percorre todo este road movie tão seco quanto o Mojave, até ao lamento que no fundo do mais fundo deste filme o é, perpetuado no tempo (os tais 4 anos de errância pelo deserto) e que culmina naquele peep show onde se confessam as duas almas errantes e angustiantes deste filme.
Por isso “Paris, Texas” é um filme-lamento, onde não só a melancolia ou a desolação reinam como a tristeza é absoluta (como absolutas são as interpretações de Stanton e de Kinski)… a recusa de Travis em falar no início do filme (silêncio quebrado apenas já quase no final da viagem de regresso a casa do irmão), assim como a obstinação inicial em caminhar, apenas caminhar, sem rumo aparente ou em direcção ao vazio, numa alienação incógnita, coisas que irão ser “confessadas” (e que genialidade a de Wenders na “criação” daquele peep show como alusão a um confessionário) mais tarde, lá perto do final… o rumo à redenção num caminho que é de redescoberta interior - a relação “resgatada” com o filho a isso possibilitou -, a solidão que Travis “chama” para si… tudo isso é um lamento e uma resignação pelo passado (que só no final e naquele tal “confessionário” emerge) e pela culpa que Travis carrega em si. 
É, portanto, no lamento que reside a vitalidade de “Paris, Texas”, no lamento da solidão e do amor que apenas de longe poderá existir, e Travis sabe-o bem e por isso a redenção final. O amor continua lá, o filho viu-o no olhar do pai enquanto via aquela super 8 e aqueles momentos nostálgicos que o fazem “lembrar” e “redescobrir-se”… foi tudo por amor, inclusivamente a fuga e o abandono… e além do lamento é o amor a força motriz deste filme, é por amor que a redenção se procura e se dá!... 
Nunca mais Wenders atingiria esta magistralidade e esta grandiosidade. Absoluto!
Texto de Álvaro Martins.

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Dealer (Dealer) 2004

"É o segundo filme de Fliegauf que vejo e confesso que estava bastante curioso em vê-lo. Isto, porque depois de ter visto “Tejút” (completamente diferente deste e que é posterior a este – mais propriamente de 2007), fiquei com vontade de ver mais trabalhos deste cineasta húngaro que neste “Dealer” se revela brilhante. Como o título indica, o filme é sobre um dealer, mais propriamente sobre os seus últimos dias.
E o que é que o filme tem de especial? Tudo. Desde o argumento à destreza da câmara, desde os actores à imagem, desde a luz ao som. De facto, nunca vi um filme sobre droga tão brilhante. “Dealer” é, e digo-o com toda a certeza, uma obra-prima.
Mais importante que todo o trabalho que Benedek Fliegauf desenvolveu aqui, é a influência de Tarr em todo o filme. Do pouco que vou conhecendo deste novo cinema húngaro, Kornél Mundruczó incluído, a influência da mise-en-scène de Béla Tarr está sempre presente. Portanto, o grande trunfo de “Dealer” é esse, os travellings que Fliegauf assume em quase todo o filme como se de um filme de Tarr se tratasse. A calma com que a câmara desliza, o som de fundo que assola quase todos os momentos do filme. Para dizer a verdade, e voltando a Tarr, se o filme fosse a preto e branco e desconhecendo o seu autor, diria com toda a certeza que se tratava de um filme de Béla Tarr. Mas não, tratasse de uma obra de Fliegauf e com todo o mérito para o senhor. Porque o filme não é só brilhante devido à sua mise-en-scène. “Dealer” é completamente diferente do que estamos habituados. É um filme sobre droga mas não sobre os drogados. Mas mais que isso, é um filme completamente impressionante. Fliegauf filma o dia deste dealer num ambiente claustrofóbico, negro e realista. Ele filma aquela cidade como se de uma cidade deserta (ou quase) se tratasse. Ele consegue dar a ideia de um mundo alienado, um mundo à parte, embora real. Um mundo onde a droga comanda. Na verdade, o ambiente criado pelo húngaro desde o início do filme é uma atmosfera depressiva, onde a dor abunda. Desde o amigo que está numa cama de um hospital com o corpo todo queimado e que implora por um último chuto, passando pela ex-companheira que tem uma filha supostamente sua e o chama para lhe dar heroína até um cliente que diz querer largar a droga mas que se contradiz pedindo-lhe mais, todo o ambiente de “Dealer” respira depressão, dor e miséria. Mas ele recusa moralismos, o próprio dealer alheia-se às responsabilidades, à realidade, até à última cena onde tudo fica mais claro, onde a moralidade vem ao de cima. 
E Fliegauf faz um filme minimalista onde se preocupa com cada detalhe do filme, com o som, a fotografia, a câmara, os diálogos. Fabuloso. "
Texto de Álvaro Martins, daqui
Legendas em inglês. 

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