segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

A Sangue Frio (In Cold Blood) 1967

Um próspero e respeitado fazendeiro do Kansas, a sua mulher e os seus dois filhos adolescentes são brutalmente massacrados de uma forma imoral. Os assassinos são dois ex-condenados desleixados: Perry Smith (Robert Blake) e Dick Hickock (Scott Wilson). Nenhum dos dois homens é são o suficiente para se arrepender do crime. A história penetra profundamente nas mentes dos criminosos enquanto seguem a viagem tortuosa pelo México e Estados Unidos para tentar fugir da lei. Após mais de um ano de fuga, os homens caçados são finalmente presos.
Em 1959 Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon Clutter foram brutalmente assassinados na sua quinta do Kansas. O escritor Truman Capote estava entre os jornalistas que se reuniram no local quando as buscas pelos assassinos começaram, mas ao contrário dos outros, ficou por ali durantes as buscas e tudo o que aconteceu depois. Em 1966 ele publicou "In Cold Blood", um dos mais influentes livros da história da américa, baseado nestes crimes. Este trabalho rapidamente começou a ser transformado em filme, que foi estreado no ano seguinte pelas mãos do  realizador Richard Brooks, com algumas cenas a serem filmadas no próprio local onde ocorreram os crimes. 
É um poderoso legado para qualquer filme. Richard Brooks fez um extraordinário trabalho na recriação do crime que se destaca por si só, num filme que agarra desde o começo com os seus visuais "noiristas", e um inconfundível sentido de ameaça. 
O verdadeiro destaque do filme é a interpretação de Robert Blake, um dos melhores vilões da história do cinema, que em conjunto com o livro de Capote seriam significativos em mudar as atitudes dos americanos para com a pena de morte. Seria irónico que Blake seria acusado de assassinar a sua própria esposa em 2002, mas acabaria por ser ilibado. 

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domingo, 30 de dezembro de 2018

O Génio do Mal (Compulsion) 1959

Chicago, 1924. Judd Steiner (Dean Stockwell) e Artie Straus (Bradford Dillman) são dois jovens homossexuais que pertencem a famílias ricas. Os dois acreditam ser superiores intelectualmete, além disto se consideram acima da moralidade convencional. Para provar que são superiores, eles assassinam Paulie Kessler sem qualquer razão. Depressa um pequeno detalhe faz o “crime perfeito” ser um falhanço. Para tentar alterar este quadro, as famílias de Judd e Steiner contratam Jonathan Wilk (Orson Welles), um famoso advogado que tem a fama de convencer os jurados.
"Compulsion" foi realizado em 1959, 35 anos depois de Nathan Leopold e Richard Loeb cometerem um assassínio na vida real no qual o filme (e o livro, que o precedeu em 3 anos, escrito por Meyer Levin em 1956) é baseado. É difícil imaginar um mundo onde os média levariam tanto tempo para capitalizar tais eventos terríveis, dado que a televisão moderna teria assunto para um drama no ar durante meses. O facto é que o advogado de Leoold e Loeb era o famoso Clarence Darrow, o que tornaria tudo mais complicado para a comunicação social. O filme "Rope"(1949) de Hitchcock, também teria ecos destas duas personagens, e também teve influências de um peça de 1929, muito mais oportuna. 
"Compulsion" está dividido em duas partes. A primeira é dedicada ao crime, mais especificamente à tentativa de Judd e Artie o esconderem, com duas grandes interpretações do par central, Dean Stockwell e Bradford Dillman. Judd é o cérebro, um jovem perdido que tenta esconder as suas emoções atrás de um elevado intelecto. Stockwell interpreta a sua personagem com uma tensa fragilidade, ansioso por agradar a Artie, que é muito mais visceral. A segunda parte do filme é dedicada aos eventos no tribunal, e é aqui que aparece Orson Welles, no papel do advogado dos dois jovens. 
Atrás das camaras estava Richard Fleischer, um homem mais dado a filmes de acção, que aqui consegue mergulhar no melodrama da melhor forma. De notar que os três actores principais, Stockwell, Dillman e Welles, ganharam em conjunto o prémio de melhor actor no Festival de Cannes.

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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Boas festas

Aconteceu-me um incidente com o computador e devo ficar sem postar uns dias, mas voltarei em breve.
De qualquer forma, boas festas.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Angst (Angst) 1983

Um homem é libertado da prisão depois de cumprir quatro anos pelo homicídio de uma mulher idosa. Rapidamente começa a sentir a compulsão para matar novamente. Depois de não conseguir matar uma motorista de táxi, foge e descobre uma casa rural isolada, onde vive uma jovem, com a mãe doente e um irmão retardado. Então, começa a descarregar os seus prazeres sádicos sobre eles, na tentativa de mantê-los como reféns, enquanto pensa na sua infância conturbada com a mãe abusiva e a avó ... 
Angst é sobre um assassino liberto da prisão para iniciar outra matança. Há aqui pouco comentário social sobre a reabilitação ou a dureza da sociedade para os ex-reclusos. Assim que ele sai dos portões da prisão, quer matar de novo - não há conflito interno dentro da sua personalidade, e parece satisfeito com o monstro que é. Este filme é um dos favoritos de Gaspar Noé (o realizador de Irreversível) e percebemos facilmente como inspirou a sua obra, tanto visualmente como no conteúdo. As duas coisas que instantaneamente nos atingem são a fotografia e o sound design. Zbigniew Rybczynski (que fez o video de John Lennon, Imagine) foi o responsável pelo aspecto visual do filme e usou algumas sequências estranhas para grande parte do filme. Ele dá ao público uma certa distância do protagonista, para que possamos gostar ou desprezar deste assassino, mas quando a acção começa colocando-nos tão perto quanto possível do assassino, que pára instantaneamente tornando-o uma figura patética e perturbadora. O design de som intenso também é excepcional. O som, que é anormalmente alto, tem um ritmo bastante acentuado, enquanto a banda sonora de "synth 80" evoca memórias de "Halloween". 
 Embora outros personagens apareçam em cena, é o desempenho de Erwin Leder como o assassino que consome o filme. Um pouco como o desempenho de Jackie Earle Haley em "Little Children", este personagem  é tão terrível como patético, o que é coisa muito rara de se ver no cinema. Nós vemos e ouvimos tudo desde a sua perspectiva distorcida, mas em nenhum momento conseguimos sentir simpatia por ele.

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sábado, 22 de dezembro de 2018

Uma Voz na Escuridão (Experiment in Terror) 1962

Kelly (Lee Remick) é atacada por um desconhecido, que exige que ela roube 100.000 dólares do banco onde trabalha. Caso recuse, a sua irmã será assassinada. O FBI consegue interceptar um telefonema do desconhecido através do agente John Ripley (Glenn Ford), mas as pistas não são suficientes para encontrá-lo.
Depois de se especializar em comédias ligeiras (Operation Petticoat, High Time), romance (Breakfast at Tiffany’s), e mini-aventuras na TV com o detective Peter Gunn, em 1962 Blake Edwards resolveu virar-se para dois géneros completamente novos para ele: o drama social em "Days of Wine and Roses", sobre a força destrutiva do alcoolismo, e o horripilante suspense psicológico, em "Experiment in Terror", onde uma investigação do FBI se transforma num jogo entre um gato e um rato, entre uma heroína e um assassino chantagista.
Ambos os filmes eram interpretados por Lee Remick, e enquanto em "Experiment in Terror" a actriz partilhava o papel de protagonista com o actor veterano Glenn Ford, a verdadeira estrela do filme é sem dúvida Ross Martin, que transformou um vilão genérico num dos mais brilhantes e cruéis vilões de Hollywood, sem derramar uma gota de sangue na tela, ou fazer um acto gráfico de violação sexual. 
Mesmo sem ser visto em corpo completo até perto do final do filme, apenas através da sua voz ofegante, dos maneirismos faciais capturados pela macro-cinematografia, e o zumbido do órgão de Henry Mancini, Martin transforma-se num monstro capaz de atormentar as suas vítimas da forma mais cruel. 
O filme combina muito bem um imaginário de pesadelo e um olhar fascinante sobre as várias culturas em redor de São Francisco, saltando com grande facilidade entre locais e classes sociais, para o grande final em Candlestick Park.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O Homem Que Queria Saber (Spoorloos) 1988

Co-produção Franco-holandesa, de George Sluizer, "Spoorloos" é um exemplo de uma narrativa hábil. Um art-house hit em 1988 (re-feito nos EUA pelo mesmo realizador em 1993, com resultados previsivelmente lamentáveis​​), o filme é um reinterpretação arrepiante do enredo que Hitchcock usou em The Lady Vanishes (1938). Um casal holandês está de férias em França. As animadas brincadeiras indiciavam que a sua relação era um compromisso profundo, com o tipo de fraturas inevitáveis que ​​qualquer casal pode sofrer. Eles descansam na viagem, para que Saskia Wagter (Jahanna ter Steege) possa comprar algumas bebidas frias numa estação de serviço completamente normal. De repente, ela desaparece, e Rex Hofman (Gene Bervoets) é atingido pela tristeza, confusão e culpa. Como poderia ele não ter visto o que aconteceu? Quem queria prejudicar alguém sem motivo aparente? 
 Passam-se três anos, e Rex continua a procurar o amor perdido. Atormentado e propenso a crises de raiva e desespero, Rex colocou a vida em suspenso até que descubra o que aconteceu naquele dia fatídico. O interesse de Sluizer, no entanto, não reside na solução do enigma, pois ele já mostrou ao espectador quem cometeu o crime: um homem calvo de meia-idade, Raymond Lemorne (Bernard-Pierre Donnadieu), raptou Saskia na estação de serviço depois de subjuga-la com clorofórmio. Mas enquanto nos mostra isto, Sluizer retém-se no destino de Saskia. E uma vez que Rex descobre que Raymond está envolvido, torna-se claro que o realizador está preocupado com o jogo de gato e o rato entre os dois homens, e a explicação do sequestrador. 
O que se torna imediatamente evidente é que Raymond é um sociopata. Um exterior benigno que desmente uma obsessão em cometer um crime perfeito contra uma vítima aparentemente aleatória. O pouco que sabemos sobre a sua banal vida familiar retira-lhe qualquer possibilidade de homicídio, muito menos rapto e tortura. Por conseguinte, a tensão em "Spoorloos" não reside na antecipação da solução do destino de Saskia (e, eventualmente, Rex), mas na incompatibilidade entre a aparência benigna de Raymond e as suas tendências voláteis. Rex, de coração partido oferece-se ao assassino, a fim de descobrir o que aconteceu com a namorada. A descoberta desta informação e as suas consequências constituem o clímax do filme, e o elemento mais perturbador de uma narrativa consistentemente inquietante.

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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Psico (Psycho) 1960

"Um dos filmes de terror mais famosos de sempre e, muito possivelmente, o mais influente de toda a História, "Psico", de Alfred Hitchcock, trocou os seres sobrenaturais do passado do género - vampiros, lobisomens, zombies e companhia - por um monstro até demasiado humano. O filme fez de Norman Bates um nome conhecido por todos e garantiu de forma definitiva o estatuto do seu realizador como mestre do suspense.
Adaptado por Joseph Stefano, de um arrepiante, mas esquecido, romance de Robert Bloch, que baseou a personagem de Norman num assassino em série real do Wiscoin, Ed Gein, "Psico" conta a história de Marion Crane (Janet Leigh), uma bonita mulher que rouba 40.000 dólares do local de trabalho. Deixa então a cidade sem um plano, a não ser um vago desejo de passar a noite com o namorado, que é casado. Conduzindo a noite inteira à chuva, Marion pára finalmente num Motel, onde o gerente é um rapaz desajeitado mas suficientemente simpático chamado Norman (interpretado com perfeição subtil por Anthony Perkins). Numa reviravolta chocante que pôs o público literalmente a gritar na plateia, Marion é apunhalada até à morte, na mesma noite, quando tomava um duche, por o que parece ser uma velha com uma faca de trinchar de 30 cm. Nunca até ali, um personagem central fora assassinado tão brutalmente e a menos de metade do filme!. Depois do detective da companhia de seguros, incumbido do caso, Milton Arbogast (Martin Balsam), ser também abafado, Lila (Vera Miles) a irmã de Marion e o namorado Sam Loomis (John Gavin) seguem o rasto da desaparecida até à casa da família Bates, situada na mesma estrada do Motel.
Quando "Psico" estreou, recebeu críticas pouco entusiastas - embora de longe muito melhores do que o veneno que acolheu o sinistramente familiar, "Peeping Tom", também distribuido no mesmo ano. Contudo, a reacção do público ao filme foi assombrosa, com as pessoas a formarem fila à volta dos quarteirões para obter bilhetes. A gerar mais publicidade, estava a nova "política especial" de Hitch de não deixar ninguém entrar nas salas depois do genérico de abertura. Claramente, este cineasta nascido em Inglaterra encontrou um meio para tocar directamente na psique colectiva da América: ao tornar o Monstro tão normal, e ao unir sexo, loucura e assassinato numa fantasmagórica e sórdida crónica, Hitchcock antecipou efectivamente as primeiras páginas dos maiores casos criminais das próximas décadas"
Texto de SJS.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

I See a Darkness

A minha inspiração, óbvia, para este ciclo veio de uma canção original de 1999, interpretada por Bonnie "Prince" Billy, da qual Johnny Cash fez uma excelente cover alguns anos depois. Mas a temática do ciclo foge um pouco à temática da canção. Enquanto que a música original é sobre alguém que pede ajuda para sair da escuridão como isolamento, no ciclo programado pretende-se recriar algo muito diferente: o Mal.
A representação do "mal" sempre foi invulgar em todas as formas de arte. É um assunto tanto desagradável como fascinante, poder explicar o que é a maldade na natureza humana. Foi analisada através de crenças religiosas, padrões sociais ou vários estados psicológicos, com a origem do mal a variar de caso para caso, como um mistério intrigante.

Nos filmes que poderão ver nos próximos dias, até dia 5 de Janeiro, vão conhecer uma série de personagens completamente mergulhadas na maldade, e que usam tudo ao seu alcance para fazer mal aos outros, quer física quer psicologicamente. Quer sejam o Anthony Perkins de "Psycho", ou o assassino brutal de Robert Blake, em "In Cold Blood".
Serão cerca de 15 filmes, cada um com uma característica muito especial em relação à maldade. Fiquem por aí, e Feliz Natal, ho ho ho.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Longe (Longe) 2016

Em “Longe”, José Oliveira criou uma obra admirável na sua aparente simplicidade, sempre tão difícil de alcançar, e que deixa claro que a vontade do realizador para continuar a fazer cinema é imensa.
 O tempo avança, a geografia altera-se, novas tecnologias surgem, mas os temas essenciais da existência são quase sempre os mesmos desde que se começaram a narrar as primeiras histórias em todas as culturas do mundo. Uma boa história não é matéria suficiente para dar um bom filme, outros factores relacionados com o uso linguagem do cinema são mais decisivos, são esses que definem a importância de um filme.
Os primeiros planos de “Longe” definem de imediato a estrutura formal do filme: o rigor dos enquadramentos e os longos planos fixos. A acção desenrola-se dentro do plano e não é a câmara que procura a acção em piruetas ou outros efeitos de encher o olho, mas acompanhando à distância o périplo de um homem, de passado desconhecido, no regresso à grande cidade, a lugares, ao encontro de velhos amigos e de uma filha de quem só tinha conhecimento da existência por carta. 
Com uma fotografia e som exemplares, mas sem música decorativa a preencher os vazios, apenas o som da água, do vento, do burburinho da cidade, das vozes ao longe ou dos personagens nas poucas falas. Este regresso a um cinema de narrativa linear clássica, depurado e resistente, estabelece um paralelo com o regresso do protagonista, que não sabemos de onde vem, nem as causas da sua ausência, tal como alguns personagens de antigos filmes. 
José é o nome do homem que vem de longe. Dos canaviais junto às margens de um rio, apresenta-se de corpo inteiro, como um solitário fordiano que atravessa lentamente um território que já foi o seu em tempos idos.
* Texto escrito pelo Daniel Curval. Podem ler o resto aqui, mas aconselho a fazerem-no depois de verem o filme.
"Longe" foi produzida pela Optec, e foi das curtas metragens mais faladas de 2016, tendo sido exibida em festivais como Locarno, Caminhos do Cinema Português, Encontros de Cinema do Fundão e no BH International Film Festival.

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Cópia Certificada (Copie Conforme) 2010

Ele (o barítono William Shimell) é um escritor inglês em busca de um significado para a vida. Ela (Juliette Binoche) é uma galerista francesa em busca de originalidade. Quando, depois de uma conferência dele, se conhecem, decidem passear por uma pequena cidade no sul da Toscana, onde embarcam num jogo: durante todo aquele dia vão fingir ser um casal. Contudo, a forma como inventam essa relação é de tal modo convincente que acabam por se tornar um, criando assim a sua própria história de amor.
Uma co-produção entre a França, a Itália e a Bélgica, é o primeiro filme do realizador Abbas Kiarostami fora do seu país natal.Como é típico no trabalho de Kiarostami, que o crítico Geoffrey Cheshire chamou correctamente de um "cinema de perguntas" num ensaio de 1996, o filme levanta mais questões do que resolve, recusando-se a esclarecer qualquer tipo de "verdade" profunda ou "significado" em favor de envolver a imaginação e a moralidade do espectador. Tal como Krzysztof Kieślowski, Ingmar Bergman, Terrence Malick, e Andrei Tarkovsky (entre outros), Kiarostami é mais um filósofo do que é um realizador, e os seus filmes funcionam de acordo com isso, colocando questões que ele sabe que não têm respostas simples.
Dado o subtexto do filme sobre originais e cópias e as suas bifurcações narrativas, Kiarostami encoraja-nos a ver o filme em termos de como as suas diferentes partes se relacionam umas com as outros, emocionalmente e filosoficamente, se não narrativamente. O caractér provisório da interacção inicial dos protagonistas como estranhos e a posterior irritação das suas tensões conjugais estão fundamentalmente ligadas, pois ambas reflectem a luta pela ligação e afirmação interpessoais. 
Filme escolhido pelo Paulo Fonseca. 

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Soleil Ô (Soleil Ô) 1970

Um nativo da Mauritânia fica encantado quando é escolhido para trabalhar em Paris. À espera de transformar a experiência numa vida melhor para si próprio prepara ansiosamente a partida da sua terra natal. Embora seja um homem educado teve bastantes dificuldades em encontrar trabalho e um apartamento. Ele vê a desigualdade racial como os negros a serem relegados para trabalho manual enquanto brancos menos qualificados têm preferência. Um jantar com um amigo branco liberal revela também uma atitude de colonização continua perante os países do terceiro mundo... 
"Soleil Ô" foi rodado ao longo de quatro anos com um orçamento muito reduzido, contando a história de um imigrante negro que se dirige para Paris à procura dos "seus ancestrais gauleses". Este manifesto filmico denuncia uma nova forma de escravidão, muito popular nos dias que correm, os imigrantes que procuram desesperadamente trabalho e um lugar para morar, mas só encontram a indiferença, a rejeição e a humilhação, antes de aceitarem o apelo final à insurreição. “Soleil Ô” é também o título de uma canção da Índia Ocidental, que fala da dor dos negros de Dahomey (agora Benin), que foram levados para o Caribe como escravos.
Um grito de revolta contra todas as formas de opressão, colonização e todas as suas sequelas políticas, económicas e sociais, e uma denuncia violenta dos fantoches instalados no poder, em muitos países africanos, pela burguesia francesa. Foi aclamado na Semana da crítica do Festival de Cannes de 1970, para depois ganhar o Leopardo de Ouro em Locarno do mesmo ano, ex aqueo com três outros filmes.
Legendas em Inglês.
Filme escolhido pelo Luis Bernardo.

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

C'était un Rendez-Vous (C'était un Rendez-Vous) 1976

É o início da manhã na Paris dos anos setenta. Um condutor dirige-se aos Champs Elysées no seu carro invisível a uma velocidade perigosa, prosseguindo a toda a pressa pelas ruas da cidade, abrandando o menos possível, não se importando com o nível de tráfico ou a geografia das ruas à frente, para não falar dos moradores da capital francesa que se levantam cedo como pedestres. Qual será o motivo de tanta pressa?
"C'était un Rendez-vous" é um filme que se tornou lenda durante muitos anos. Consistindo na vista da frente de um carro desportivo, o realizador Claude Lelouch aparentemente amarrou uma câmara na parte da frente de um carro e deixou-a a funcionar pelas ruas e vielas da cidade. Com menos de 10 minutos de duração, o filme parece ainda mais curto, tais são os momentos incríveis de acção, hipnotizando o espectador.
Não só o filme em si é lendário, como também as histórias que cresceram em volta dele. O vídeo do filme apareceu em diversos blogs, que contavam que se tratava de uma obra underground de 1978, onde um amigo do realizador, piloto profissional, dirigia um Mercedes a mais de 300km/h(!) pelas ruas de Paris. O boato também contava que o escândalo do lançamento rendeu cadeia ao realizador. Pra surpresa de muitos, é tudo mentira...
Numa entrevista publicada no livro “Claude Lelouch, mode d’emploi”, algumas informações foram finalmente esclarecidas: o filme foi feito em 1976 com o que sobrou da película de uma longa-metragem recém terminado, e que era suficiente para uma curta de 10 minutos. Claude Lelouch, que tinha uma obsessão para filmar um argumento sobre um suposto carro a circular atrasado pra um encontro, resolveu finalmente completar o projecto. O condutor foi o próprio realizador, que não passou dos 200km/h e não foi preso na estreia do filme, apesar de ter sido que sim.
Filme escolhido pelo Luís Kasprzykowski.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Até o Vento tem Medo (Hasta el Viento tiene Miedo) 1968

Num rigoroso colégio interno feminino, jovens são forçadas a passar as férias de verão nas dependências da escola como punição por terem entrado numa torre abandonada proibida aos alunos. Com o passar dos dias, elas começam a suspeitar que o edifício é habitado pelo fantasma de uma aluna que cometeu suicídio ao passar por um castigo similar no passado.
Produção de baixo orçamento realizada em 1968 (e que, portanto, comemora cinco décadas de lançamento este ano), Até o Vento Tem Medo é um exemplar típico do cinema de terror realizado no México, e que teve a sua fase áurea nas décadas de 60 e 70. O cinema de terror mexicano, embora goze de grande prestígio entre os fãs do género, é quase desconhecido no Brasil e em Portugal. 
O abandono e o amor perdido parecem ser os temas principais do filme, com apenas Kitty a encontrar o amor nos limites reestritos da escola. O próprio vento desempenha um papel importante e é ao mesmo tempo ameaçador e um mau presságio, funcionando como um aviso para as jovens não irem bisbilhotar à noite. Inclui cenas como "rostos contra as janelas", e vozes a chorar à noite, incluindo aqui ecos de filmes como "The Innocents" (61) e ‘The Uninvited’ (44), com acenos a "Les Diaboliques" (55), com a directora a mostrar traços idênticos ao dos directores dos filmes de terror clássico.
Filme escolhido pelo Fernando Fonseca.

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sábado, 8 de dezembro de 2018

Edição Especial (Broadcast News) 1987

Três ambiciosos "Workaholics" estão à solta na sala de imprensa de uma rede de TV onde as suas vidas profissionais e pessoais acabam irremediavelmente interligadas. Tom (William Hurt) é um âncora moderno, bonito, bem educado e um pouco burro. Jane (Holly Hunter) é a sua ambiciosa e brilhante produtora, que está decidida a transformar Tom num verdadeiro sucesso das notícias. E Aaron (Albert Brooks) é um competente repórter, mas totalmente desprovido de carisma para atrair o público, que não consegue tolerar o rápido sucesso de Tom frente às câmeras ou junto de Jane. Os elementos perfeitos para um explosivo e divertido triângulo amoroso.
Visto hoje, 31 anos depois da sua estreia no cinema, "Broadcast News", a segunda longa metragem de James L. Brooks e sucessor do hiper sucesso "Laços de Ternura", é uma excursão antropológica à era passada das notícias em rede, assim como uma comédia sintonizada com as relações no sucesso profissional. Dadas as massivas mudanças que se deram nos mídia desde os anos oitenta, há pouco sobre a representação do frenético pulso que há nas redações de hoje em dia, mas em 1987 o filme foi um retalho detalhado do que acontece por detrás de uma câmara de uma noticiário, em 2018 é um documento histórico de como as coisas costumavam ser (ou deviam ainda ser).
Ao contrário da maioria dos filmes de Hollywood, que tendem a concentrar num protagonista singular ou casal, Brooks divide "Broadcast News" em três personagens centrais, cujas várias interacções, antagonismos, acoplamentos e desacoplamentos, definem tanto o arco dramático da história, quanto as várias facetas do ambiente de trabalho. Somos apresentados a cada um desses personagens como crianças, que Brooks usa para definir com humor as suas características de carácter conflituante.
Foi nomeado para 7 Óscares, mas perdeu-os todos. Era o ano em que ganhava "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci.
Filme escolhido pelo André Sousa. 

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

The Wishing Tree (Natvris Khe) 1977

Poesia, imagens vívidas e alegoria, marcam as quase duas dúzias de episódios deste conto épico sobre a vida humana e os seus problemas, passados na localidade georgiana de Kachetien, perto da virada do século. Uma história continua diz respeito a uma jovem mulher, apaixonada por um homem, casado com outra pelos anciãos da aldeia. Quando ela é apanhada a encontrar-se com o seu verdadeiro amor, é denunciada na aldeia por abuso público e ridicularizada, sendo atiradas contra ela bolas de lama.
Muitos personagens excêntricos são retratados, desde o homem simples ao contador de histórias, e os seus sonhos revelam o que cada um consideraria felicidade nesta vida. O realizador bem conceitudado deste filme, Tengiz Abuladze, era conhecido pelas suas obras visualmente sofisticadas e simbolicamente ricas.  "The Wishing Tree" é o segundo filme numa trilogia georgiana de Abuladze: o primeiro, lançado em 1969, chamava-se "Encounter", sobre o primitivista Nikos Piosmani, o último, lançado em 1987, chamava-se "Repentance". "The Wishing Tree" baseava-se num conto contado por Georgi Leonidze, e ganhou vários prémios, incluindo o David Donatello Prize para melhor filme estrangeiro, prémio equivalente aos Óscares em Itália. 
Neste filme de Abuladze a poesia e o testemunho são partes da mesma corrente. A morte abre e fecha o filme, mas este é abundante em vida. 
Legendas em inglês.
Filme escolhido pelo Tiago de Cena.

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

As Lágrimas do Tigre Negro (Fah Talai Jone) 2000


Dum (Chartchai Ngamsan) era um brilhante estudante universitário com um futuro ainda mais brilhante pela frente. Depois do seu pai ser brutalmente assassinado resolve unir forças com o senhor do crime Fai (Sombat Metanee), trocando os estudos académicos por uma vida de criminoso. Agora é conhecido como Black Tiger, o criminoso mais conhecido do gang de Fai. Ainda assim está apaixonado pela sua namorada de infância Rumpoey (Stella Malucchi), e quer casar com ela, mas as coisas complicam-se quando ela se envolve com um polícia ambicioso (Arawat Ruangvuth) que quer acabar com o reino de terror de Fai.
Duas coisas sobressaem logo neste filme: as cores, numa mistura peculiar de rosas brilhantes e verdes opacos. A segunda é a música, numa mistura de sons ocidentais, clássicos familiares, e canções tradicionais tailandesas que remontam aos anos cinquenta. Estes dois factores dão o tom ao filme, e seguem até ao final dando uma sensação um tanto surrealista.
"Tears of the Black Tiger" marca o regresso do realizador/ argumentista Wisit Sasanatieng aos "anos heróicos do cinema de género tailandês". Um dos primeiros filmes deste país a ser aceite em Cannes, funciona tanto como uma homenagem como uma paródia, paródia de filmes heróicos que foram também eles, paródias inconscientes da época dourada de Hollywood. Humoristicamente mergulhando nos westerns kitsch dos anos 30 e 40, com umas colheradas de melodrama e romance, com um tempero dos filmes de gangsters, é um filme muito conseguido tecnicamente, e bastante equilibrado.
Muitas das imagens do filme de Sasanatieng são influenciadas por westerns, spaghetti e outros, mas as convulsões da sua narrativa talvez devam mais aos filmes chineses de artes marciais, que aos épicos de John Ford e Sérgio Leone. 
Legendas em Inglês.
Filme escolhido pelo Pedro Soares.

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Grande Mestre dos Lutadores (Zui Quan) 1978

O pai de Wong Fei-hong tem tentado ensinar-lhe a difícil arte do Kung-Fu, mas o filho é desobediente demais para ser ensinado, e o pai vê-se obrigado a enviá-lo para o seu tio, um mestre cruel e tortuoso dos 8-Drunken Genii kung-fu. Depois de muito sofrimento o filho volta para resgatar o pai de um cruel assassino.
"Drunken Master" é um filme lendário para o reino das artes marciais por três razões: primeiro porque marcaria o tom para quase todos os filmes de Jackie Chan. Os filmes que lhe seguiriam fundiam estilos como a comédia slapstick e as artes marciais, muito bem filmadas e coreografadas como uma forma de arte visual. A segunda razão é que seria dirigido pelo futuro mestre das artes marciais Yuen Woo-ping, talvez o maior coreógrafo de kung-fu de todos os tempos, embora tivesse estreado em segundo lugar. Por último, porque é um óptimo filme de entretenimento. 
Não há muita história, excepto para mostrar algumas aventuras dos primeiros tempos do herói folclórico chinês Wong Fei Hung, antes de se tornar numa figura histórica. Como descrito no filme, Wong é um jovem travesso sempre metido em sarilhos, e apesar das suas habilidades serem impressionantes continua a lutar com lutadores que o superam. Agora, sob a tutela de um velho mestre, aprende um novo estilo de luta que mais tarde irá empregar para salvar o seu pai.
Jackie Chan está maravilhoso, mostrando claramente que estava destinado a ser um herói de acção no futuro, embora se pergunte porque levou tanto tempo a ser uma estrela fora do seu país. Ao contrário dos seus pares, que também são impressionantes em termos de habilidades físicas, Chan trazia uma nova dimensão ás suas personagens que o diferenciavam dos demais. 
Filme escolhido pelo Sérgio Renato.

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domingo, 2 de dezembro de 2018

Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York) 2008

Caden Cotard, encenador de teatro, está a trabalhar numa nova peça - mas tudo parece retirar-lhe a atenção. A mulher deixou-o e foi viver para Berlim, onde continua a pintar, e levou com ela a filha de ambos. Madeleine, a sua psiquiatra, está mais preocupada com a promoção do seu novo livro do que ouvi-lo. E a relação que tem com a jovem Hazel também não vai de vento em popa. E, para piorar tudo, sente-se doente com uma misteriosa doença que ataca o seu sistema nervoso. Aterrorizado perante a ideia da sua própria morte, Caden decide deitar tudo para trás das costas e, aspirando criar uma obra de uma integridade absoluta, reúne um grupo de actores em Nova Iorque...
Quando se trata de correr riscos, Charlie Kaufman é um mestre. No seu filme de estreia como realizador, explora a jornada que leva à morte, de certa forma comicamente, juntando alguns pedaços de obscuridade, bizarro, e alguns flashes de brilhantismo. Kaufman cria uma realidade alternativa, uma realidade tão elaborada e intencional como qualquer bom filme de fantasia, ainda que fundamentada, detalhada e reconhecível como a vida como a conhecemos. As fantasias cinematográficas de Kaufman não são convencionalmente povoadas por extraterrestes, hobbits, criaturas pré-históricas ou coisas semelhantes, mas sim, vêm de dentro do cérebro e geram personagens que se parecem como nós.Eles são doppelgängers assombrados, ou as visões que por vezes captamos nos cantos dos nossos espelhos, imagens das pessoas que poderíamos ser, e não de quem somos. Em comparação com os seus outros trabalhos, podemos dizer que é o filme mais onírico em que Kaufman já se viu envolvido. Os outros são contos de ocorrências extraordinárias em mundos realistas. 
"Synecdoche, New York" destaca-se também pela interpretação de Philip Seymour Hofffman, na frente de um grande elenco.
Filme escolhido pelo Bruno Costa.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O Despertar da Mente (Eternal Sunshine of the Spotless Mind) 2004

Joel (Jim Carrey) descobre que a namorada Clementine (Kate Winslet) o apagou da memória, a ele e à relação tumultuosa de ambos. Joel contacta então o inventor do processo, o Dr. Howard Mierzwiak, para também ele remover Clementine da sua mente. Mas à medida que as suas memórias vão sendo apagadas, Joel redescobre o seu amor por Clementine e torna-se óbvio que ele não a vai conseguir tirar da cabeça.
Nos seus argumentos anteriores, particularmente "Being John Malkovich" (1999) e "Adaptation" (2002), Charlie Kaufman brincou com as nossas cabeças, o que faz novamente em "Eternal Sunshine of the Spotless Mind", só que desta vez brincou também como os nossos corações, fazendo novamente equipa com o realizador Michel Gondry que tinha feito a sua estreia na realização com outro argumento de Kaufman, "Human Nature" (2001), e o resultado seria uma ode aos altos e baixos do amor romântico. 
Embora Kaufman tenha escrito o argumento, a história original foi inventada por  Pierre Bismuth, um francês amigo de Gondry. O cenário básico lembra-nos o grupo da extrema esquerda da Nouvelle Vague (Agnes Varda, Alain Resnais, e principalmente Chris Marker) e a sua obsessão com a memória, a identidade e a impossibilidade de diferenciar o real do imaginário. A memória torna-se a chave para a identidade, o que é destacado por uma subtrama envolvendo uma secretária de Lacuna chamada Mary (Kirsten Dunst) que enfatiza como o apagamento selectivo da memória pode alterar para sempre a percepção da pessoa que somos. 
Apesar de todas as voltas e reviravoltas o filme é basicamente uma história de amor e centra-se na natureza da dupla atracção. Joel e Clementine são atraídos porque ele é introvertido e ela é selvagem, mas ao longo do tempo essas qualidades perdem o seu charme o que os torna aborrecidos. No final faz-se a pergunta: será que os bons tempos valem a amargura?
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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terça-feira, 27 de novembro de 2018

La Champignonne (La Champignonne) 1974

Uma mulher é apanhada por um "olhar" anónimo enquanto toma banho num rio, seguido por uma perseguição gigantesca, com uma banda sonora adequada, que bem poderia vir de um filme de Argento.
O filme foi feito com apenas um plano-sequência filmado como um gigante traveling usando uma grua Louma. Em 1970 Jean-Marie Laalou e Alain Masseron precisaram de filmar dentro de um submarino. Queriam fazer uma sequência em todo o comprimento do navio, com a camera a passar por entre os membros da tripulação e os equipamentos. Quando finalmente conseguiram, criaram uma nova versão de câmara, o conceito de guindaste com câmara guiado remotamente. Roman Polanski usou este conceito brilhantemente na sequência inicial de "Le Locataire" (1976), mas foi Pascal Aubier (um velho amigo de Jean-Marie Laalou), o realizador deste filme, o primeiro a usar esta câmara no cinema: primeiro em "Le Dormeur" (1973), depois em "La Champignonne"(1974).
Nascido em 1943, Pascal Aubier estudou russo, chinês, mongol, georgiano e wahilu na Ecole de Langues Orientales em Paris. Foi assistente de Godard em inúmeros filmes, "Bande à Part", "Le Mépris", "Pierrot le Fou", "Masculin Féminin", "Weekend", e realizou a sua primeira longa-metragem, "Valparaiso, Valparaiso" em 1970. Desde então realizou cerca de 40 curtas metragens, e mais três longas metragens.A certa altura Andrei Tarkovsky considerou-o a grande esperança do cinema francês.
Filme escolhido pelo Carlos Fernandes.

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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Barry Lyndon (Barry Lyndon) 1975

Redmod Barry é um jovem de uma família sem fortuna na Irlanda do Sec. XVIII. A sua primeira paixão é Nora, a sua prima. Mas Nora tem outros planos. Prefere o capitão Quinn, um oficial inglês de boa situação financeira. Um melhor partido do que o rapazola Redmond. Mas Redmond não se resigna. Imaturo e precipitado, desafia e vence Quinn num duelo de pistola. Com o casamento desfeito, e com o ónus de ter morto um homem, a família de Nora persuade Redmond a fugir da aldeia onde vive. Começa aqui um caminho errante, uma sucessão de fugas para a frente, de mentiras e enganos, em que o jovem Redmond vai perdendo a inocência e se tornará num arrivista, um homem que quer a todo o custo subir na escala social, e que mais tarde se tornará Barry Lyndon, fruto do seu casamento com Lady Lyndon.
Stanley Kubrick tinha uma solidíssima reputação quando começou a trabalhar em “Barry Lyndon” . Tinha atrás de si dois grandes clássicos, “2001 - Odisseia no Espaço” e “Laranja Mecânica”, precedidos de excelentes filmes como “Lolita” ou “Dr. Estranhoamor”. Havia, no entanto, uma grande lacuna: Napoleão. Logo após “2001”, ainda em 1968, Kubrick tinha um guião para um filme sobre Napoleão para propôr à MGM. Mas a MGM estava reticente com os custos desse eventual filme, e retirou o seu apoio. Kubrick aplicou todo o seu saber para que Barry Lyndon fosse, em parte, o filme de época que Napoleão não foi.
Barry Lyndon é uma adaptação de um romance de William Makepace Thackeray, “The Luck of Barry Lyndon”. Kubrick estudou cuidadosamente as pinturas de artistas ingleses do Sec. XVIII do tempo do Rei Jorge III. Queria replicar no cinema a atmosfera, a luz dos quadros no período anterior à luz eléctrica. Num tempo em que durante o dia única fonte de luz é a que entra pelas janelas, e durante a noite é a das velas durante a noite, Kubrick filmou assim. Com luz que entrar pelas janelas, e com os famosos planos à luz das velas. É bem conhecido como Kubrick conseguiu filmar à luz de velas: Teve acesso a lentes Carl Zeiss de grande abertura inicialmente desenvolvidas para a NASA e conseguiu adaptá-las às câmaras de cinema.
 O trabalho em conjunto com o director de fotografia John Alcott, que já trabalhara com Kubrick em “Laranja Mecânica” e voltaria a trabalhar em “The Shinning” é absolutamente brilhante e em grande medida insuperado. Cada plano é um quadro, uma pintura. Durante o dia a luz entra pelas janelas com a suavidade difusa que Kubrick vira nas pinturas com que se inspirou. À noite, as velas, e só as velas, iluminam rostos e feições.
O guarda-roupa, de Ulla-Britt Söderlund e Milena Canonero é também ele brilhante. Um guarda-roupa que atravessa todas as classes sociais ao longo do percurso arrivista de Barry Lyndon, as roupas modestas dos camponeses, as fardas militares, os luxuosos vestidos das senhoras da alta sociedade. 
Os cenários, de Ken Adam, com quem já trabalhara em Dr. Estranhoamor, são extraordinários. Castelos e palácios dão vida a esta obra. Alguns destes palácios eram museus abertos ao público durante a rodagem do filme, de tal modo que entre takes, a equipa de rodagem tinha que esperar que os visitantes percorressem as salas que serviam de cenários até retomarem as filmagens. 
Uma banda sonora faustosa com Schubert, Bach, Haendel, The Chieftains, entre outros complementa brilhantemente a fotografia, o guarda-roupa, e os cenários. 
Não se pense que Barry Lyndon é um filme “técnico” suportado simplesmente na fotografia, guarda-roupa, banda sonora, etc. Estes elementos são de facto brilhantes mas não são um fim em si.
 Vale a pena recordar a entrevista de Kubrick à revista Playboy em 1968 a propósito de “2001 - Odisseia no Espaço”. À resposta à pergunta sobre qual a mensagem metafísica de “2001" Kubrick afirma que não é uma mensagem que tivesse a intenção de ser transmitida verbalmente, e que “2001” é uma experiência visual, e a mensagem é o meio (invertendo assim a famosa tese de Marshall McLuhan). Também em Barry Lyndon o meio, sustentado na imagem, no som, na montagem, é uma parte importante da mensagem, uma mensagem que no essencial é a história sobre um homem e o seu destino. E esta temática, a história do homem e o seu destino, produziu com outros realizadores, e noutras correntes estéticas, filmes tão diversos e intemporais como “Andrey Rublev”, “Lawrence da Arábia”, ou “Touro Enraivecido”.
O elenco é uma interessante mistura de actores mais e menos conhecidos: Ryan O’Neal e Marisa Berenson nos papéis principais, actores muito populares na altura depois de “Love Story” e “Cabaret” respectivamente. Em papéis secundários destacam-se Mary Keane uma extraordinária actriz irlandesa que trabalhou sobretudo em teatro, e Murray Melvin no papel do inquietante Reverendo Ludd. O elenco é complementado com a excelente narração de Michael Holdern.
O filme teve várias nomeações para os Óscars e ganhou os prémios nas disciplinas atrás mencionadas: Fotografia, guarda-roupa, cenários, banda sonora adaptada. Kubrick puxou pela sua equipa, e a sua equipa foi premiada com os Óscares. O próprio Kubrick, nomeado pela quarta vez como melhor realizador, não ganhou o prémio, nem Barry Lyndon ganhou o prémio de melhor filme.
O maior teste a um filme é o tempo. E no teste do tempo “Barry Lyndon” passa com a mais alta distinção. Mais de quarenta anos após o seu lançamento, não há dúvidas sobre o lugar de “Barry Lyndon” no cinema. Há quem considere, como Scorcese, ser este o melhor trabalho de Kubrick.
Uma história trágica contada com uma beleza plástica absolutamente extraordinária.
*Escolha e texto da autoria do João Lopes.

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sábado, 24 de novembro de 2018

O Tempo Que Resta (Le Temps Qui Reste) 2005

Romain é um jovem fotógrafo de moda. Com um apartamento moderno, uma relação estável e uma carreira em ascenção, nada parece faltar-lhe. Até que, durante uma sessão de fotografia, desmaia subitamente. Os receios de ter contraído a SIDA são assombrados por um diagnóstico ainda mais brutal: um cancro, em fase avançada e terminal. Com três meses de vida estimados, Romain terá que se confrontar com a sua vida... e com a sua morte. Conseguirá Romain encontrar paz interior no derradeiro momento...? Ou acabará por sucumbir a uma espiral de negação e auto-destruição?
Escrito e realizado por François Ozon, " Le Temps qui Reste" é a história de um fotógrafo da moda, de sucesso, que está prestes a morrer de um tumor no cérebro. Alienando todos na sua vida, incluindo o namorado, volta-se para a sua avó e uma empregada de mesa para reflectir sobre a vida. O que temos depois é uma reflexão sobre o mundo da morte, quando jovens enfrentam o que é inevitável.
 Francois Ozon estuda o mundo da morte do ponto de vista de um jovem de 31 anos, e em vez de criar uma história melodramática procura um estudo cínico e realista de um jovem que lida e aceita o seu destino. Ozon poderia transformá-lo numa personagem trágica, mas, em vez disso, prefere mantê-lo como uma personagem comum. Um personagem que é defeituoso como todos os outros que entram numa jornada emocional e existencial. 
Ajudando-o na parte visual está a directora de fotografia Jeanne Lapoirie, que já anteriormente tinha colaborado com o realizador e um elenco bastante trabalhador. Um destaque especial para Melvin Poupaud no papel principal e Jeanne Moreau no papel da avó, numa das suas últimas participações em longas metragens. 
Filme escolhido pela Lília Lopes.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Agente Infiltrada (Demonlover) 2002

"Demonlover", de Olivier Assayas é uma representação sombria e cativante de um mundo corporativizado sem alma. É um pesadelo de David Lynch para a era da Internet, pegando na paranoia de Lost Highway e Mulholland Dr., e misturando essa atmosfera com uma cultura que se diz ser digitalizada, despojada da sua humanidade, feita para jogos de vídeo, pornografia, entretenimento e as interseções horríveis entre estes. É um filme angustiante e muito mal compreendido que só gradualmente revela a alma verdadeiramente escura à espreita dentro das altas apostas e negócios internacionais.
Na verdade, o filme abre como um convencional thriller de espionagem corporativa, envolvendo um negócio francês/japonês/americano prospectivo para distribuir pornografia animada japonesa na Internet. Diane (Connie Nielsen) é uma espia, uma agente dupla fingindo trabalhar para Volf (Jean -Baptiste Malarte), enquanto, trabalha para o seu concorrente, planeando sabotar o negócio de qualquer maneira que possa. Diane elimina uma rival, drogando-a e preparando-a para ser atacada, e então tomar o seu lugar, para que possa pessoalmente supervisionar o negócio e estar na melhor posição para executar o seu plano, quando chegar a altura. Assayas compara esta cultura corporativa implacável com imagens de pornografia japonesa em que mulheres elegantes com grandes seios, lutam usando "magia sexual" . Este é um filme sobre a crescente desumanidade da nossa cultura global: os animadores japoneses demonstram um novo estilo 3D em que as mulheres de alguma forma parecem ser ainda mais plásticas e falsas do que na animação tradicional, estranhamente de aparência humana, mas despojadas de personalidade, e um olhar vazio.
 A implicação desta cultura global é que está a ser substituida por um entretenimento que remove a humanidade dos desempenhos, do negócio e, principalmente, do sexo. Tudo é fetichista, distante da experiência humana, e muitas vezes degradante, com foco na repetição mecânica e uma atitude violenta, misógina para as mulheres, que são tratadas como objectos submissos. 
Este é um filme assustador, uma obra de uma inquietante sci-fi que mal se sente como tal, porque o mundo futuro que retrata está apenas alguns passos à frente do nosso. Por vezes, nem parece exagerado. Assayas sugere que essa ética corporativa implacável esteja na raiz da cultura desumana em exposição neste filme. E os participantes tratam-na como um jogo, destruindo-se uns aos outros para chegar ao topo, onde realmente serão apenas o próximo alvo para aqueles que vierem a seguir. O filme é uma sátira inesquecível de uma cultura globalizada que parece determinada a transformar as pessoas em personagens de jogos de video ou manequins de borracha, apenas mais combustível para a máquina da cultura pop.
Filme escolhido pelo Paulo Renato. 

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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Má Raça (Mauvais Sang) 1986

Depois da passagem do cometa Halley pela Terra, os cidadãos parisienses sofrem as consequências: além do forte calor, eles devem conviver com um vírus que se alastra pelo país, matando todas as pessoas que fazem sexo sem amor. Dois grupos rivais lutam para conseguir isolar o vírus e preparar uma vacina contra esta nova doença. É a partir daí que entram os personagens Anna, Alex e Lise (Juliette Binoche, Denis Lavant e Julie Delpy).
O segundo filme de Leos Carax, "Mauvais Sang" tem muitas similaridades com o seu filme de estreia, "Boy Meets Girl". Ambos apresentam Denis Lavant como um jovem chamado Alex, que está no fim de uma relação e se fixa numa mulher fora do seu alcance; estilisticamente ambos devem muito à Nouvelle Vague (Godard em particular); ambos acontecem no calor do verão e têm longas conversas sobre o amor e as relações; e ambos fazem um uso exuberante de uma música de David Bowie. 
Além disso, faz também parte da chamada "trilogia Alex", porque na obra seguinte de Carax, Lavant volta a chamar-se de Alex, em "Les Amants du Pont-Neuf"."Mauvais Sang" é um filme que está coberto do excesso vertiginoso e do romantismo sem esperança, não pedindo desculpas por privilegiar o sentimento em detrimento do bom senso. O improvável argumento de ficção cientifica é apenas pulp superficial, e serve de pretexto para uma realização estimulante de Carax, e um dos grandes filmes do cinema francês dos anos oitenta. 
Ganhou dois prémios de destaque no Festival de Berlim de 1997.
Filme escolhido pela Manuela Cristina Granja.

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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Beau Travail (Beau Travail) 1999

A história de um ex-oficial da Legião Estrangeira, Galoup, a recordar a sua vida outrora gloriosa, liderando tropas no Golfo do Djibouti. A sua existência ali era feliz e rigorosa, mas a chegada de um jovem recruta promissor, Sentain, vai plantar a semente do ciúme na mente de Galoup. Sente-se compelido a impedi-lo de chamar a atenção do comandante que ele admira, mas que o ignora. O ciúme irá levar à destruição dos dois.
Os filmes de Claire Denis são frequentemente descritos como sensuais, até mesmo surrealistas, na sua falta de conformidade com as estruturas narrativas e cognitivas do cinema clássico. "Beau travail" é um exemplo de cinema que converte a narrativa clássica num evento perfomativo, encenando o seu objecto mais querido, a franca sedução do espectador sem o auxílio das personagens como agentes intermediários.
Nas mãos desta realizadora, a história torna-se o equivalente a um sonho forte e colorido, ajudado apenas pela intromissão de ocasional de diálogos e pelo facto do enredo ser a menor das preocupações, com o filme a ganhar peso num sólido núcleo emocional.
Denis Lavant, o habitual protagonista dos filmes de Leos Carax, interpreta um homem magnético que se encaixa nas suas próprias emoções, e a sua paixão é muitas vezes colocada em conflito com a secura dos rituais dos soldados. A escolha de Claire Denis de imagens dramáticas, mas nunca vazias, com uma música de apoio muito forte completam este filme invulgar.
Filme escolhido pelo Flávio Gonçalves.

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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Rebecca (Rebecca) 1940

É surpreendente que, apesar da sua longa e frutífera carreira e das várias nomeações recebidas, Hitchcock só tenha ganho o Óscar de Melhor Filme com a sua primeira película americana: "Rebecca". Talvez este facto seja indicativo do poder e influência do produtor David O. Selznick que, acabado de sair do sucesso de "E Tudo o Vento Levou" (1939), não deixou de passar a oportunidade de trabalhar com o realizador britânico nesta história gótica de fantasmas da autoria de Daphne Du Maurier.
Graças a um orçamento generoso, Hitchcock pôde transformar a mansão de Manderley numa personagem da película, gesto que mais tarde inspiraria Welles na sua concepção de Xanadu, em "O Mundo a Seus Pés". O palacete à beira-mar é o cenário nebuloso ideal para os amores atormentados de Joan Fontaine e Laurence Olivier. Este dá vida a um viúvo rico que corteja a inocente Fontaine e com ela casa após um romance meteórico. A protagonista nunca acredita na sorte que teve ao encontrar um homem tão atencioso, mas, à medida que a sua relação amorosa se aprofunda, vê-se assombrada pelo fantasma de Rebecca, a antiga e falecida esposa de Olivier. Serão as assombrações fruto de uma imaginação fértil e paranóia ou obra de uma força nefanda? E que relação existe entre estes acontecimentos estranhos e a senhora Danvers (Judith Anderson), a governanta sinistra que parece não dar paz a uma Fontaine à beira de um ataque de nervos?
"Rebecca" marcou a chegada auspiciosa de Hitchcock aos Estados Unidos e, na cerimónia dos Óscares de 1940, conseguiu mesmo derrotar a última obra britânica do realizador: Correspondente de Guerra. Quase todos os traços artísticos do cineasta estão presentes em "Rebecca" no seu esplendor: a omnipresença de um passado obscuro e misterioso que constantemente se intromete no romance malfadado dos protagonistas, as suspeitas à flor da pele e, como seria de esperar, a presença espectral e ameaçadora da desonestidade e traição. Faltam a "Rebecca" os gracejos espirituosos e o humor caracteristicos de Hitchcock. Todavia, esta ausência de leveza deve-se à natureza melancólica e gótica do romance de Du Maurier. Os segredos de Manderley empurram a ingénua Fontaine para o abismo da demência e Hitchcock diverte-se, intensificando gradualmente a tensão da película até à sua conclusão assombrosa."
 * Texto de Joshua Klein
Filme escolhido pelo Pedro Afonso. 

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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Une Simple Histoire (Une Simple Histoire) 1959

Uma mulher mais velha olha por uma janela e vê uma mulher mais nova a dormir num campo próximo com a sua filha pequena. A mulher mais velha convida as duas para o seu apartamento, e a mãe pensa nos últimos dias da sua vida, ouvimos a sua narração enquanto vemos o filme, e por vezes assistimos aos eventos que ela descreve. Nada particularmente terrível aconteceu, a sua história ainda tem um ou dois bons samaritanos, incluindo a mulher que tomou conta dela. Mais do que o tédio no dia a dia, que compõe a narrativa, tem uma melancolia inesquecível. Como o título indica, o filme é um conto simples, e é precisamente isso que o torna tão poderoso, e tão impossível de destilar as suas causas específicas da situação da mulher.
Em voz off uma história muito simples e comovente é contada. Aproximando-se do realismo poético da Nouvelle Vague no que diz respeito a estética, esta pequena obra-prima em 16 mm, com baixo contraste para acentuar o lado negro da "cidade da luz", contando uma história muito triste. É gratificante andar pelas ruas de Paris daquela época, logicamente com luz natural, e quase sem dinheiro para fazer o filme. Abordando Bresson em termos das posturas filosóficas do cinema, e com música de Bach como fundo, música linda em tom menor, uma raridade filmica e pura poesia.
Nascido na Tunísia, Marcel Hanoun produziu um corpo de trabalho totalmente individual, em grande parte financiado fora de qualquer rede de produção convencional. O seu trabalho foi ocasionalmente elogiado na língua inglesa. Em 1970 Jonas Mekas escreveu: "Não duvido que Marcel Hanoun seja o cineasta francês mais importante desde Bresson". O filme que ele tinha acabado de ver tinha sido este "Une simple histoire".
Filme escolhido pelo Daniel Ramos.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Animal Farm (Animal Farm) 1954

Os animais moradores da Granja do Solar, cansados dos maus tratos diários, rebelam-se contra o dono do local, o bêbado Sr. Jones. Depois de o expulsarem, os bichos organizam-se e instauram novas regras, formando uma comunidade democrática, livre do domínio dos humanos. Os inteligentes porcos, no entanto, depressa tratam de impor as suas ideias e um novo reinado do terror começa a ganhar forma.
Filme de animação dirigido por Joy Batchelor e John Halas para o livro Animal Farm do brilhante escritor George Orwell nos conta mais sobre a nossa sociedade do que sobre nossos animais. 
O nosso convidado que escolheu o filme, escreveu o seguinte texto sobre esta obra: "A acção situa-se numa realidade distópica, longe dos antropomorfismos maniqueístas característicos de alguns filmes de animação. É a primeira adaptação da obra de George Orwell e caracteriza-se por uma visão cruel, trágica, onde a morte e o horror estão presentes. Só a consciência do poder totalitarista e da união poderá libertar os oprimidos e conduzi-los a um futuro mais esperançoso".
Filme escolhido pelo Alexandre Batista. 

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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Adivinha Quem Vem Jantar (Guess Who's Coming to Dinner) 1967

Joanna (Katherine Houghton), a bela filha de um editor liberal, Matthew Drayton (Spencer Tracy) , e a sua esposa aristocrata (Katherine Hepburn), regressa a casa com o novo namorado Joh Prentice (Sidney Poitier), um ilustre médico negro. Cristina aceita a decisão da filha de se casar com John, mas o pai está chocado com esta união inter-racial; bem como os pais do médico. Para acertar as coisas, ambas as famílias devem sentar-se frente a frente e examinar os seus níveis de intolerância.
Apesar de muitos considerarem "Guess Who's Coming to Dinner?" como um filme datado, penso que é injusto ser considerado como tal. Talvez tivesse mais peso na altura em que estreou do que agora, mas o fanatismo era muito mais alarmante naquela altura do que agora, e ele ainda existe. Além disso há outros tipos de relações que são tão tabus hoje como as interaciais de então, então os temas podem ser facilmente traduzidos desta forma: se duas pessoas se apaixonam e estão dispostas a sacrificar tudo, o que as mantém separadas?
"Guess Who's Coming to Dinner?" conseguiu 10 nomeações para os Óscares, conquistando dois (Hepburn e o argumento), mas não foi considerado uma obra de arte na altura da estreia, tendo sido reavaliado mais tarde quando Hollywood começou finalmente a abordas as questões interaciais de uma forma mais significativa. Ironicamente Poitier foi esquecido nas nomeações, neste filme, talvez porque os nomeadores estavam divididos entre considerá-lo um actor principal ou secundário, e em vez disso nomearam Spencer Tracy para melhor actor, numa nomeação póstuma, já que Tracy tinha falecido no mês de Junho anterior.
É um filme bastante sólido, onde as interpretações são a peça central do filme, transformando o que poderia ter sido um filme obscuro em algo com maior substância. Ao principio pode parecer como uma peça filmada, mas com um elenco tão favorável acaba por ser um filme bastante acima da média, e um óptimo trabalho de realização de Stanley Kramer.
Filme escolhido pelo Peter Gunn. 

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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Senhora Parker e o Círculo do Vício (Mrs. Parker and the Vicious Circle) 1994

Em 1937, a viver em Hollywood, Dorothy Parker (Jennifer Jason Leigh) relembra os tempos em que pertencia ao grupo Algonquin Round Table, formado por amigos escritores na Nova York dos anos 20. Entre festas, romances e amizades com os escritores, Dorothy passa pelo alcoolismo, comportamento auto-destrutivo e tentativa de suicídio. 
Entre um elenco de luxo, que inclui estrelas como Campbell Scott, Mathew Brotherick, Peter Gallagher, Jennifer Beals, Martha Plimpton, Lili Taylor, Gwyneth Paltrow, entre tantos outros, destaca-se uma Jennifer Jason Leigh, perfeita como Parker, desde os seus padrões de discurso nasal até há sua capacidade física e mental para a crueldade, Leigh capta todas as falhas e fraquezas de uma personagem cínica, espirituosa, e apesar do seu brilho, antipática. Alan Rudolph dirige com o seu habitual talento improvisatório  e uma tendência ao elipticismo. Robert Altman, principal fonte de inspiração do realizador, é o produtor, recusando-se a apressar-se para produzir um filme biográfico literário, bem diferente do que qualquer outro.
Como sempre, é uma peça brilhantemente recriada por Rudolph, com a criação de um período passado maravilhosamente evocado pelo design sensual de produção de  Francois Seguin, com a banda sonora de Mark Isham a ser uma das suas melhores, e uma fotografia ressonante de Jan Kiesser que realmente atrai os espectadores de volta para os anos 20 e 30.
Legendas em Inglês.
Filme escolhido pelo Robson Seixas.

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domingo, 11 de novembro de 2018

Eles Não Usam Black-Tie (Eles Não Usam Black-Tie) 1981

Em plena ditadura militar, Tião (Carlos Alberto Riccelli) descobre que sua namorada, Maria (Bete Mendes), está esperando um filho e decide se casar com ela. Ambos trabalhavam na mesma fábrica, juntamente com o seu pai Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), um militante sindical, outrora foi preso pela ditadura militar, pois lutava pela melhoria dos direitos trabalhistas para a classe.
Porém, todos os trabalhadores sindicais entram em greve no país. Com medo de perder o emprego e não poder sustentar a mulher e o filho, ele fura a greve, contrariando seu pai e sua namorada, que ficam furiosos com a sua decisão.
Gianfrancesco escreveu Eles não usam Black-tie para o Teatro de Arena em 1958, quando tinha apenas 21 anos de idade. Vinte e três anos depois, Hiszman adaptou o roteiro para o cinema, arrebanhando importantes prêmios nacionais e internacionais, inclusive o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1981.
O filme foi um marco no cinema político neo-realista nacional. Hiszman gostava de abordar temas relativos à pobreza, que retratavam a realidade do Brasil. O elenco monstruoso é composto por Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, o próprio Gianfrancesco Guarnieri, a grande Fernanda Montenegro, que é destaque no filme da primeira cena em que aparece até a última, Milton Gonçalves, Francisco Milani, dentre outros. 
O filme não se refere apenas à realidade do país na época. Fala do posicionamento de cada um referente às dificuldades da vida. Há aqueles que cruzam os braços e se conformam com as dificuldades impostas pelos mais altos da cadeia e aqueles que lutam pelos seus direitos de melhoria, pela sua liberdade. 
As cenas do filme, como as últimas em que Fernanda Montenegro e Gianfrancesco estão na cozinha catando feijão e a que os trabalhadores caminham pelas ruas com o corpo de Milton Gonçalves em um caixão, são tão marcantes e talvez eu não tenha visto cenas mais poderosas que essas em nada ao que se diz cinema nacional. * Texto de Fernanda Kalaoun.
Filme escolhido pelo Marc NT

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sábado, 10 de novembro de 2018

Brevemente...

Todos sabemos que no Natal se esperam coisas que tenham a ver com o espírito natalício...
Mas também sabemos que o My Two Thousand Movies não é um sitio como os outros...


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Cronicamente Inviável (Cronicamente Inviável) 2000

"Um Brasil caótico e hipócrita é o retrato pintado por Sérgio Bianchi em “Cronicamente inviável”. Um Brasil nojento em que ninguém se salva de sua culpa, onde as relações de opressor e oprimido estão expostas a toda prova tendo como ponto de interseção o restaurante de Luiz (Cecil Thiré). 
 Seis personagens centralizam o filme. Luiz é um homem refinado que acredita na civilidade e nas boas maneiras como forma de se resolverem os problemas. Amanda (Dira Paes) é a gerente de seu restaurante, uma mulher de origem pobre que incorpora a ética e os costumes burgueses. Adam (Dan Stulbach) é um sulista descendente de poloneses que vai trabalhar como garçom no restaurante. Maria Alice (Betty Goffman) é uma mulher de classe média alta que se compadece com as injustiças sociais. Seu marido Carlos (Daniel Dantas) é um economista que acredita na racionalidade e no pragmatismo do capitalismo. Por fim, Alfredo (Umberto Magnani) é um pesquisador que viaja pelo Brasil procurando compreender e refletir as relações de dominação e opressão. 
 O que mais gostaria de chamar a atenção com relação ao filme são as reflexões em off dos personagens recheado de diversas frases e idéias mais facilmente encontradas em livros do que ditas em cinema. “A felicidade é uma perfeita forma de dominação autoritária” reflete Alfredo ao analisar o torpor da população baiana que, mesmo se submetendo à intensa exploração de sua força de trabalho, comandada por uma burguesia que combina o velho coronelismo com a neotecnocracia, é “dominada” por uma boa caixa de som que toque o hit do momento. Contudo, essa indústria cultural será seccionada por classe. Existe a micareta com o trio elétrico, desfrutado por turistas estrangeiros e pela juventude abastada do Sudeste e a “pipoca”, lugar em que milhares de festeiros se espremem e se acotovelam com o intuito de também “curtir” o som e ainda apanham da Polícia e dos seguranças contratados para protegerem a propriedade territorial privada."
Podem ler mais aqui.
Filme escolhido pelo Otacilio Ramos Jr.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Mangue Negro (Mangue Negro) 2008

Certo dia, numa comunidade de pescadores tão pobre como fora do tempo, a natureza resolve mostrar o seu lado macabro. Do manguezal de onde sai o mísero sustento emergem zombies canibais. Ninguém sabe o que causa a “contaminação”. O que interessa é fugir e sobreviver para fugir de novo. A cada mordida, pais, amigos e irmãos transformam-se em criaturas abomináveis. Diante de um horror que não recua nem com a claridade do dia, que não poupa sequer peixes e crustáceos, um sobrevivente relutante e amedrontado descobre-se hábil com o machado e péssimo na hora de se declarar para a morena que faz o seu coração bater.
"As vantagens de se produzir um filme de terror no Brasil são grandes. Mesmo que a história não seja digna, o interesse dos críticos, dos acadêmicos e dos cinéfilos é aguçado por conta da lacuna deste gênero na história do cinema brasileiro. Temos o legado de Zé do Caixão, indiscutivelmente um lutador que hoje é visto como parte integrante do cânone, mas que no passado era tratado com desleixo. Condado Macabro, em 2015, apresentou uma versão bem brasileira do gênero slasher e não decepcionou.
 Mangue Negro, lançado muito antes, em 2008, também “inaugurou” os filmes com a temática “zumbi” por aqui. O resultado não é uma obra-prima, mas é no mínimo curioso. Como dito anteriormente, o fato de não termos este tipo de produção como algo constante torna a obra objeto de curiosidade e culto. Dirigido por Rodrigo Aragão, a produção aborda uma contaminação num mangue no interior do Espírito Santo, um dos estados menos favorecidos como espaço fílmico nos registros da nossa cinematografia. 
A tal contaminação se espalha rapidamente e transforma os pescadores da humilde comunidade em monstros devoradores de carne humana. Apresentado no formato que lembra esquetes, haja vista a sequência de diferentes linhas narrativas que se encontram mais adiante, o foco central do roteiro é o amor do carinhoso Luís (Walderrama dos Santos), dedicado cotidianamente a doce Raquel (Kikka de Oliveira). Ele constantemente tenta se declarar, mas as suas investidas descem por água abaixo, ganhando projeção apenas quando o apocalipse zumbi se instala e assumindo a postura do herói ao estilo Ash, de Evil Dead, Luís precisa tomar o comando da situação e tentar salvar a si e a sua amada."
Texto de Leonardo Campos. Podem ler mais, aqui.
Filme escolhido pelo Sandro Gomes. 

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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Os Diabos (The Devils) 1971

Na cidade francesa de Loudun, em 1604, as freiras num mosteiro começam a agir como se estivessem possuídas por demónios. A intervenção da Inquisição leva a consequências sangrentas. Passado durante o violento regime católico que tomava conta da França no passado século XVII, parte da suposta possessão de uma madre-superiora (Redgrave no papel de Sister Jeanne) cujas fantasias sexuais com o mais proeminente padre da localidade de Loudon (Urbain Grandier, interpretado por um surpreendente Oliver Reed) resulta num dos mais sangrentos episódios daquela época.
Vaga interpretação de um evento histórico infame na França do século XVII baseia-se numa adaptação do livro de Aldous Huxley, "The Devils of Loudun," e numa peça onde John Whiting se baseou no mesmo livro. É Ken Russell na sua melhor excessividade visual, e pior dramaticidade. Esta versão de Russell é diabolicamente engraçada como filme camp, muito valiosa em termos visuais graças aos cenários de Derek Jarman, aqui alguns anos antes de se tornar num realizador de créditos firmados.
O status de gigante esquecido tem perseguido Russell ao longo dos anos. Para cada realizador que ele inspira, para cada filme que presta homenagem aos seus conceitos esotéricos parece ter ficado ainda mais esquecido. Ao longo das décadas de sessenta e setenta a sua reputação de bad boy do cinema britânico era rivalizada apenas pelos grandes filmes que realizava, clássicos pós-modernos como "Women in Love", "The Music Lovers" ou a sua adaptação dos The Who, "Tommy". Hoje é uma influência importante entre muitos, excepto entre os mais eruditos cinéfilos. "The Devils" é considerado uma das suas maiores obras nos tempos correntes, mas difícil de ser visualizado
Filme escolhido pelo Alexandre Mourão.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Godspeed You! Black Emperor (Goddo Supiido Yuu! Burakku Emparaa) 1976

A década de setenta no Japão viu o aparecimento de gangues de motociclistas, que despertaram o interesse dos mídia. O filme segue um membro do gang  "Black Emperors", e a sua interacção com os pais depois de se meter em problemas com a polícia. 
O cinema japonês das décadas 60 e 70 do século passado pode ser caracterizado pela abundância de filmes locais que abordavam a juventude daquela época. Nagisa Oshima, Seijun Suzuki começaram a ver a enorme lacuna que estava a ser criada por uma sociedade japonesa que se estava a modernizar rapidamente. Os mais velhos que tinham passado pelas tragédias e pelas dificuldades do pós-guerra não conseguiam entender a liberdade que mantinham as novas gerações de japoneses. Como a distância era óbvia, era natural que os filhos se separassem dos pais e se juntassem em grupos. "Godspeed You! Black Emperor", de Mitsuo Yanagimachi, era um documentário que seguia um grupo de motociclistas e tentava pintar um quadro claro e real sobre quem era esse grupo de jovens alienados e porquê e como se estavam a revoltar.
O grupo de motociclistas do nosso interesse chama-se Black Emperors, e gostam de passear à volta de Shinjuku com as suas motos barulhentas, carregando armas e procurando brigas com outros gangs, ou até mesmo com a polícia. Yanagimachi mostra um membro a ser aceite no gang, com os restantes membros a apresentarem-se, orgulhosamente declarando que são mendigos, desistentes da escola ou desempregados. Não é uma imagem bonita, jovens japoneses pintando as paredes da cidade com a suástica, provavelmente não sabendo o que o símbolo significa, raspam as sobrancelhas, e incomodam os seus pais com acusações de mau comportamento. 
Legendas em inglês. 
Filme escolhido pelo André Mendes. 

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